Arthur Bispo do Rosário. Manto da Apresentação, s/ data. Tecido, linha, papel e metal. 118,5 x 141,2 cm

Museu Bispo do Rosário: O cuidado como via

Raquel Fernandes

Nestes tempos turbulentos, onde a política e a economia reservaram à cultura um espaço quase que insignificante dentro das prioridades da vida urbana, pensar o papel dos museus e sua relevância para a transformação social tem sido uma questão fundamental para as instituições museais.

O Museu Bispo do Rosário Arte Conemporânea (mBrac) tem como uma de suas vocações a desconstrução do estigma que persiste no imaginário da cidade acerca da Colônia Juliano Moreira e da própria noção de loucura.

Uma breve história


Antiga foto da Colônia Juliano Moreira. Acervo IMAS Juliano Moreira

Criada em 1924, a Colônia de Alienados Homens, como foi inicialmente denominada e idealizada pelo médico progressista Juliano Moreira, que sempre buscou humanizar a forma como eram tratados os doentes mentais, era um projeto bastante avançado e inovador para a época e já apontava para os problemas da vida moderna e a crescente urbanização como fatores desencadeadores de sofrimento psíquico.

Moreira, inspirado pela experiência da aldeia de Geel, na Bélgica 1, propõe um novo modelo em que- os pacientes eram afastados do ambiente adoecedor das cidades e levados para um local com menores exigências, para que lá pudessem exercer atividades simples, do ambiente agrícola – a praxiterapia. Retirados do convívio familiar na maioria das vezes adoecido, passam a contar com um suporte da assistência hetero-familiar. Ela se daria por meio da integração entre os pacientes e os funcionários, que atuariam como família auxiliar em um convívio doméstico entre pessoas normais e sadias.

 

Mas, apesar das boas intenções, podemos observar que esses ideais não se sustentaram e rapidamente a Colônia passa a receber quantidades cada vez maiores de internos. Passa de colônia agrícola para hospital-colônia 2, seguindo o modelo institucional que foi implantado na década de 40, que na prática a transformou em depósito fim de linha para conter loucos e desajustados de toda ordem, aqueles que não se adaptavam às normas de convívio social. Chegou a receber mais de cinco mil pacientes, no auge de sua ocupação, uma verdadeira cidade hospitalar.

Somava-se a esse cenário de isolamento a colônia de leprosos de Curupaiti e o sanatório para tuberculosos em Curicica, reforçando o estigma que envolvia o bairro de Jacarepaguá, Sertão Carioca. Essa ambiência sanitária estava presente no imaginário popular, na forma como era organizada e percebida a cidade, reproduzida em versos no famoso Fox “Neurastênico” de 1954, de autoria de Nazareno de Brito em parceria com Betinho (Alberto Borges de Barros), “preciso me tratar, senão eu vou para Jacarepaguá”.

O medo de ser acometido por algum transtorno mental e ter de acabar atrás dos muros da Colônia era real, e o importante era se manter o mais longe possível dela, já que não havia um questionamento da sociedade sobre os manicômios, apresentados como única alternativa de tratamento. Os próprios médicos e funcionários acreditavam que havia muito pouca coisa a se fazer para esses doentes considerados crônicos, com poucas chances de retornarem à normalidade perdida.

Os questionamentos vão começar a surgir no início dos anos 70, e mais fortemente nos anos 80, já com o declínio da ditadura. Começam com as experiências das comunidades terapêuticas, que através da escuta dos pacientes, buscam humanizar o espaço do asilo, e se radicalizam a partir do final dos anos 80 com o movimento dos trabalhadores de saúde mental que veem como ineficaz a melhoria do manicômio e revindicam a sua superação, estabelecendo o lema: Por uma sociedade sem manicômios 3, avança para a construção de uma política pública – a Reforma Psiquiátrica, que propõe a mudança do paradigma da assistência para serviços territoriais substitutivos ao modelo manicomial. Foi dentro desse contexto de abertura que voltamos no tempo e pensamos na própria trajetória de Arthur Bispo do Rosário.

Arthur Bispo do Rosário: Ressignificando o cotidiano

Negro, nordestino e esquizofrênico, Arthur Bispo do Rosário (Japaratuba, SE, 1909 – Rio de Janeiro, 1989) viveu ao longo de 50 anos, na maior parte do tempo, internado em instituições psiquiátricas. Na Colônia principalmente, constituiu sua obra, que hoje figura como uma das mais importantes produções artísticas do campo das artes visuais brasileiras, reconhecida nacional e internacionalmente.


Arthur Bispo do Rosário. Sem título, 1943. Emulsão de prata sobre vidro, 70 x 70 cm (cada). Fotos: Jean Manzon (Paris, 1915 – São Paulo, 1990). Cortesia Galeria Fass.

Bispo, com sua capacidade de incorporar os diversos objetos do cotidiano, carregados do peso de massificação asilar, através de sua poética, estabeleceu uma subversão da estrutura manicomial. Assim, no desfazer uniformes destinados aos pacientes e tecer o fio para revestir seus objetos e tecer seus estandartes, reconstrói o mundo, com a missão de apresentá-lo no dia do juízo final. Sua produção incessante ressignificando objetos do cotidiano só pôde ser entendida como algo diferente do resíduo da loucura pelo olhar estrangeiro, o olhar do artista. Sua obra até então não possuía visibilidade, era vista por outros códigos, que a colocavam como algo exótico, desprovido de utilidade ou sentido. E foi a partir de novos códigos que sua criação pôde ascender ao estatuto de arte. Quando foi descoberto pelo meio artístico, quase no final de sua vida, o conjunto de obras já estava completo, já se constituía como uma coleção.


Bispo possuía um modo singular de ler o mundo. Como um grande catalogador do universo, tudo era capturado por seu olhar e ressignificado. E o museu, que é responsável pela difusão de sua obra, tem como desafio manter em suas ações essa essência que permeia o trabalho de Bispo: através de sua obra, provocar novas ressignificações, sejam elas referentes à arte, subjetividade, território, religiosidade, questões de gênero, cidadania, enfim, tudo que possa ser abordado a partir do universo de Bispo.


Novas práticas de cuidado


Maria Mattos. A dama e o barco. Performance realizada na ocasião da exposição “Play” com a curadoria de Marta Mestre e Fernanda Pequeno, 2013.

Hoje, apesar de todo o avanço da farmacologia, das novas práticas de assistência que centram suas ações na reinserção social, o medo da loucura ainda está presente. Pacientes ainda são objetificados, transformados em coisas incompreensíveis a serem temidas e rechaçadas. Temos muita dificuldade de nos aproximar dessa experiência, que mesmo com sua lógica incomum, é constituinte da vivência humana.

Através da arte e da cultura, o Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea (mBrac) quer contribuir para a diminuição dos estigmas acerca da loucura. Estar inserido no que fora outrora uma instituição manicomial possibilita que esse contexto seja trabalhado de diferentes maneiras e amplia o campo de atuação do museu e sua relevância.



Willyams Martins. Peles da Colônia Juliano Moreira. Voile e resina aplicada sobre superfície mural, instalações variadas, 2015. Foto: Wilton Montenegro

A partir do trabalho com o acervo de Arthur Bispo do Rosário, a ação do museu passa a ser compreendida como algo que vai além das galerias e engloba não só a apresentação das instalações do passado asilar, mas as novas relações que se estabeleceram no território no âmbito do “cuidar” para assim compor relações entre arte, loucura, saúde.

A aproximação da arte com a saúde mental não é algo novo. Esteve presente nos manicômios desde os meados do século passado, nos ateliês de arte terapia, utilizada para diversos fins. Com o advento da Reforma Psiquiátrica nos anos de 1980, os artistas são convocados a ajudar na transformação do manicômio, na desconstrução da imagem negativa da loucura. Era necessário apontar para o fracasso do asilo como local de recuperação e tratamento e abrir espaços na sociedade para a convivência com a loucura. Assim, as intervenções artísticas e culturais funcionavam como denúncia para os horrores produzidos pelo isolamento e confinamento dos doentes como também auxiliavam no restabelecimento do diálogo entre a cultura e os saberes psis na construção de novas estratégicas terapêuticas.

Hoje, o desafio é pensar o papel do museu nesse território tão particular que o mesmo se situa, de modo a integrar sua vocação cultural e educacional para, articulado com os preceitos da Reforma Psiquiátrica Brasileira, também se constituir como um dispositivo de prática clínica, que não visa necessariamente a remissão de sintomas, mas a promoção de processos de vida e de criação a partir de uma relação entre arte e cuidado.

O museu se propõe a ser esse lugar de encontro, de experimentação, de tensionamento. Ir do acolhimento das diferenças para a produção de novas ressignificações. Nesse sentido, como essa experiência de atuação no território pode produzir práticas que apontem na direção da construção de um “cuidado enquanto método”? E o que seria isso afinal?

Se partirmos da etimologia das palavras, método tem sua origem do termo grego methodos – que se refere a caminho ou via. Já a palavra cuidado procede do latim cogitare, “pensar”, “conceber”, “preparar”, que se decompõe em co+agitare – insistência do agir. Ela também se aproxima com o vocábulo latino “curare”, cujo sentido associa-se a ideia de “tratar de”; “pôr o cuidado em”.
Estaríamos falando então de um modelo de pensamento, de um cuidado que se coloca como via, caminho? Mas de que cuidado estaríamos falando?

Como coloca a pesquisadora Maria Ballarin4, pensar a questão do cuidar e do cuidado em saúde não se dá por uma ideia única de cuidado, mas um conjunto de noções formadas por diferentes perspectivas, entre elas a ético-filosófica, a técnica-instrumental e a política, que ao abordarem o cuidado como uma ação integral, que está na essência da existência humana, compreendem a saúde como direito de ser e não apenas como procedimento técnico.

Mas o que, de fato, define o cuidar no campo da saúde, particularmente no campo da saúde mental? Com o advento da Reforma Psiquiátrica, o modelo de assistência deixou de ter o centro de sua ação localizada nos hospitais, no isolamento asilar, para direcionar suas práticas para atuação no território, buscando uma integração de práticas e saberes que possibilitou a constituição de tecnologias psicossociais interdisciplinares. Essas novas propostas de condução do trabalho clínico problematizam as relações do cuidar, onde se coloca em questão tanto o cuidador quanto o agente a ser cuidado. Poderíamos partir da ontologia de Heidegger para descrever a posição de quem cuida como um cuidado autêntico ou inautêntico, caso assuma uma postura ativa que permita reconhecer o outro na sua liberdade, na sua dignidade e singularidade ou uma postura de cuidado totalizante, no qual, o cuidador faz tudo pelo outro, sem apostar na autonomia possível de quem recebe a ação de cuidado, que o ajude a encontrar o verdadeiro sentido de ser.5

Essa escolha, método, caminho, modo de cuidar é decisivo na medida em que suas implicações podem levar à construção da autonomia do sujeito do cuidado ou à sua tutela.


Eleonora Fabião e colaboradores azul azul azul e azul, 2016
Fotografias da ação. Dimensões variáveis, Assistente: Mariah Valeiras. Colaboradores: André Lepecki, André Telles, Adriana Schneider, Dieymes Pechincha, Dominique Arantes, Elisa Peixoto, Elilson Nascimento, Gabriel Martins, Gunnar Borges, Luar Maria, Lucas Canavarro, Miro Spinelli, Rubia Rodrigues, Thiago Florêncio e Viniciús Arneiro
Fotografia: Jair Denozor

Inserido nesse contexto, o museu tem pensado suas práticas, atuando nos espaços micropolíticos para promover a criação de encontros que possibilitem a troca e o compartilhamento. Assim como a finalidade de estimular, ampliar e solidificar redes socioafetivas e culturais, a relação com o Polo Experimental, centro de convivência, educação e cultural administrado pelo museu, é fundamental. Promovendo encontros entre os usuários da rede de saúde mental e a comunidade, o Polo, sediado na Colônia em um antigo pavilhão remodelado e transformado, abriga as atividades da Escola Livre de Artes (ELA), Casa B – Programa de Residências Artísticas, o projeto de geração de renda Arte, Horta e Cia e o programa de lazer Pedra Branca.

Também o Polo acolhe o coletivo/estúdio Atelier Gaia, um espaço de arte e criação composto atualmente por artistas residentes da Colônia que, outrora, foram internos do antigo sistema manicomial e hoje possuem sua autonomia garantida com o advento da reforma psiquiátrica. É um importante programa para diálogo e produção artística e busca desenvolver uma lógica de funcionamento através da capacitação do fazer artístico visando impulsionar o ingresso de seus artistas no mercado da arte. Como equipamento chave do museu, o Polo permite um intercâmbio entre os projetos e é estratégico para as ações de educação, reinserção social e diálogo com a comunidade e com a classe artística, consolidando-se como fomentador de cultura e facilitador da autonomia e melhoria das condições de seus frequentadores. Assim, programas tais como ELA e as residências artísticas, especialmente ao longo dos últimos cinco anos, tem conseguido abrir canais que possibilitaram a construção de vínculos com os diferentes públicos que compõem nosso território. Através da proposição de espaços de co-criação e colaboração, integrando artistas, estudantes, moradores do território, usuários e trabalhadores dos serviços de saúde mental, novas formas de pertencimento e de estar no mundo puderam ser vivenciadas e compartilhadas. Para ver alguns exemplos da diversidade desta atuação, é possível ver o texto sobre Casa B e os ensaios de 4 artistas residentes (Daniel Murgel, Eleonora Fabião, Fernada Magalhães e Lívia Flores), neste estudo de caso e também parte 2 do vídeo Cuidado como método nesta edição.

O museu, ao optar pela via da autonomia dos sujeitos, espera, através do encontro entre arte e saúde, não recuar diante desses seres enigmáticos, como coloca Dra Nise da Silveira6, que são as pessoas acometidas pela psicose. Avançar na construção de práticas que ampliem o manejo das situações clínicas, no intuito de promover fissuras na ordem social instalada para somar na luta e romper com o estigma que ainda envolve a questão da loucura, e assim caminhar na direção de uma sociedade mais aberta a lidar com as diferenças.

 

Referências adicionais:
ARAÚJO, João Henrique Queiroz de. “Entre Preservar e Reformar: Práticas e Saberes Psis no Museu da Colônia Juliano Moreira.” Dissertação (Mestrado em Psicologia Social) – Instituto de Psicologia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2016.
PERISSÉ, Gabriel. “Palavras e origens: Considerações etimológicas.” Disponível em: http://palavraseorigens.blogspot.com.br/2011/02/quem-cuida-vive-pensando.html

 

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Raquel Fernandes
Diretora do Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea. Possui graduação em cinema pela Universidade Estácio de Sá (2007) e Medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1991). MBA em Gestão de Museus pela Universidade Cândido Mendes (2016) e especialização em Psicanálise, pela Universidade Santa Úrsula (2000).

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1 VENÂNCIO Ana. “A Colônia Juliano Moreira na década de 1940: política assistencial, exclusão e vida social.” Disponível em:
http://www.psicopatologiafundamental.org.br/uploads/files/iii_congresso/mesas_redondas/a_colonia_juliano_moreira_na_decada_de_1940.pdf

2 Idem.

3 TENÓRIO Fernando. “A reforma psiquiátrica brasileira, da década de 1980 aos dias atuais: história e conceitos.” In: História, Ciências, Saúde – Manguinhos (Impresso), vol.9, 2002, 25-59.

4 BALLARIN, Maria Luisa Gazabim Simões. “Os diferentes sentidos do cuidado: considerações sobre a atenção em saúde mental.” O Mundo da Saúde, São Paulo: 2010;34(4):444-450 Disponível em: observasmjc.uff.br/psm/uploads/SntidosdocuidadoemSaudeMental.pdf
[Acesso em 02/02/2018]

5 HEIDEGGER Martin. Ser e Tempo. 5a ed. Petrópolis: Vozes; 1997.

SILVEIRA, Nise. Imagens do Inconsciente, Petrópolis, RJ: Vozes, 2015, 85.