Glossário
Acolher, afeto, bahsese (repertórios de cuidado Tukano), chão, continuidade, contracartografia, co(reo)escuta, corpo transante, cuidado, denúncia, encruzilhadas, entardecer, experimentação, favelofagia, floresta, guardiões de saberes, hendu (“escuta”, em guarani), landguages, maresia, micélio e mistério, paciência, posso ser quem eu sou, radiocoreografia, reparação, reescrita, resistências, respeito, roda, segurança, tecnologias da terra, território, vivência.
Trinta palavras editadas das contribuições e registros das rodas de conversa do lançamento da 7ª edição da Revista Mesa, “Corpo chão coração”, realizadas entre setembro e dezembro de 2025 no PPGCA/UFF; na Casa de Mystérios e Novidades, — sede do coletivo de cortejos e teatro de rua Grande Companhia Brasileira de Mystérios e Novidades; na Casa Resistências, – casa e abrigo LGBT na Maré; no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica e no Tropigalpão. (Ver a programação completa no final do glossário).
Apresentadas em formato de glossário expandido como uma nova contribuição coletiva para a Revista, estas palavras carregam almas, (re) abrem caminhos futuros e nos propõem um ecossistema de vozes, falas, práticas e políticas para uma alternativa global, nos oferecendo potência sensível para viver e atuar neste mundo (im)possível.
Agradecemos imensamente aos autores:
Alice Poppe; Ana Luiza Nobre; Angela Mascelani; Anna Carolina Vicentini Zacharias; Brenda Vitória; Camila Felippe; Carla Santana; Carolina Rodrigues; Caroline Valansi; Cesar Oiticica Filho; Danielle Pena; Dayana Gusmão; Diana Kolker; Eloah Van de Beuque; Erika Tambke; Felipe Eugênio; Iazana Guizzo; Jialu Pombo; João Paulo Lima Barreto; Jorge Menna Barreto; Kimberly Veiga; Lohana Karla; Lucas Van de Beuque; Maria Carolina; Marília Felippe; Sandra Benites; Sara Ramos; Suellen Cloud; Taísa Vitória e Tania Rivera (Ver as biografias no final do glossário).
Gratidão especial a Casa de Mystérios e Novidades e Casa Resistências pela parceira e ainda ao Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, Guerrilha da Paz, Imagens do Povo, Museu Bispo do Rosario e Tropigalpão pelos apoios e colaborações além das iniciativas universitárias: Floresta Cidade FAU/UFRJ, PPGCA e LAARTE da UFF e UC Santa Cruz Office of Research.
Agradecimentos também as organizações e autores, além de outros artistas e instituições, que colaboraram e/ou cederam imagens e outros materias audiovisuais para a 7ª Revista Mesa destacados no Glossário: Ana Luiza Nobre, Ana Julia Souza Teodoro, Carla Guagliardi, Cesar Oiticica Filho, Denilson Baniwa, Erika Tambke, Jorge Menna Barreto e Pedro Leal, Jhony Aguiar, Patricia Ruth, Rian Penha, Suellen Cloud, Taísa Vitória, Museu Bispo do Rosario, Pinacoteca São Paulo, Sertão Negro e em especial Guará do Vale por seus registros fotográficos dos eventos na Casa de Mystérios e Novidades.
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Acolher
Sou Camila Felippe, coordenadora da Casa Resistências. Olhando as fotos¹ [exibição das fotos da comunidade da Casa no dia da roda], é impossível não lembrar como a gente iniciou e como estamos agora. Passamos por muita transformação! Parece que, sei lá, se passaram dez anos! Não só fisicamente, mas eu acho que crescemos enquanto coletiva. Conseguimos ter o nosso espaço [e agora] estamos num momento em que a gente consegue ter um respiro maior e estar mais firmes juntas.
Pensando numa palavra, pra mim é acolher. Eu acho que a casa consegue fazer muito isso. Quem chega aqui realmente se sente muito acolhido. E quando vai embora sempre fala: “Eu quero retornar”. Cumprimos o nosso papel quando essas mulheres conseguem se sentir pertencentes e acolhidas aqui. Jessica [Gogan] falou sobre “acorpar”². A gente, gente mulher, tem muito isso. Conseguimos sempre ter essa união, esse afeto, esse cuidado que nós temos uma com a outra e, eu acho, principalmente mulheres lésbicas, sabemos que sempre somos nós por nós. Estamos no movimento negro, estamos no movimento LGBTQIA+, estamos em todos os movimentos, mas quando é a pauta “L” é sempre só nós por nós. Então eu acho que a gente também é muita força.
Nossa, acho que como estamos aqui na Casa, num pedaço de chão da favela Maré que temos que lembrar que foi mar, que o chão aqui já foi banhado pelas águas da Baía de Guanabara, eu lembro que mulher é isso, essa força da natureza, essa água que carrega a gente, que ao mesmo tempo ela pode ser tranquila, mas, num piscar de olhos, ela vem com a força da correnteza. Então acho que é isso, a Casa é essa força. E eu só tenho a agradecer por vocês terem escolhido a Casa, terem escolhido a gente. Em um momento em que eu acho que a gente nem percebia que precisava. Então, pra mim, a foto mais linda é essa! [apontando para seu retrato]. Eu tô sempre pensando muito com vocês. E eu aprendo todo dia. Claro que ninguém é perfeito, mas eu acho que eu sempre tô nesse lugar de defender e de estar do lado de vocês, porque vocês sempre vão me defender. E estar do meu lado, independentemente do que o outro for falar. Acho isso muito louvável. Então, acho que é só agradecer, aproveitar esse momento, agradecer a todo mundo que compõe a casa. Porque é isso, é momento de admirar também. Acho que a arte, ela traz esse momento reflexivo pra gente poder se olhar, olhar o outro de uma outra forma.
- Camila Felippe
Afeto
Vou falar um pouco sobre esse processo que fomos construindo juntas ao longo de tantos meses. Acho que é isso que faz a beleza desse encontro hoje, de quem acompanhou, de ver esses registros, tanto pelo texto quanto pelas imagens. Quando a Jessica [Gogan] entrou em contato comigo, eu estava na coordenação do Imagens do Povo — programa de fotografia popular na Maré que tem várias ações. Uma delas é a Escola de Fotografia Popular, que a Suellen [Cloud – fotógrafa do ensaio Casa Resistências na 7ª edição da Revista Mesa] também foi aluna e passou a integrar o acervo Imagens do Povo. Então, quando a Jessica entrou em contato, pensamos, obviamente, que seria uma fotógrafa mulher, e a Suellen adorou a ideia e ficou muito feliz com o convite de acompanhar e registrar a vida na Casa Resistências. O valor desses projetos tem muito a ver com essa dedicação aos processos. Não é vir aqui um dia e “meio” fazer o que quer fazer. É uma construção, é um diálogo, é acompanhar mesmo. Ela já conhecia a Casa, ela não chegou de paraquedas, então ela pôde fazer esse diálogo costurando também com a Bia e a Kimberly [Beatriz Virgínia Gomes Belmiro e Kimberly Veiga, colaboradoras da Casa que escrevem o texto para acompanhar o ensaio visual]. Como é que o texto ia tomar forma, como é que vai ser construído de maneira coletiva são coisas muito importantes para essa questão de retorno.
Durante esse processo, trocamos tantas ideias; a possibilidade das fotos poderem ficar na Casa sempre foi algo que nos motivou muito. Eu mesma já não estava mais na coordenação, mas eu segui acompanhando, porque eu acho que é um projeto que a gente se envolveu muito emocionalmente. Estávamos todas querendo ver o que ia acontecer. E a Suellen também ficou feliz com isso. Ela está muito triste de não poder estar aqui hoje, ela obviamente gostaria de estar nesse momento, mas ela está grávida e, nesse momento, o médico recomendou repouso, mas ela está aqui conosco pelas fotos, por essa energia toda.
Passamos por uma seleção das fotos constantemente pensando em questões estéticas, claro, mas também comunitárias. Como é que a gente poderia organizar essas imagens também pela Casa? Gostávamos da ideia, por exemplo, daquela foto que é coletiva, junto com as referências das lideranças. Podemos imaginar que muitas lideranças já estão na foto e que, depois, um dia, podem também ter um dos seus retratos na parede. E acho que essa construção conversa lá entre as paredes. Legal hoje que temos esse mural para todo mundo poder escrever e dizer “qual é o chão que eu piso” [título do texto do ensaio na Revista].
A Casa tem uma história anterior. Maré também. E vem essa parceria Instituto Mesa e Imagens do Povo. Podemos ver aqui hoje muitos frutos de um trabalho de construção da Casa, de muitos anos. E com nossa parceira e esse evento desejamos contribuir e fazer parte desta construção. Então, pensando numa palavra, a palavra que me veio muito prontamente, que eu acho que tem a ver muito com quando falamos do que é a filosofia popular, e do que foi esse processo que a gente desenvolveu ao longo desses meses, foi a palavra afeto. Eu acho que o afeto é o que mobiliza a gente nos temas que nos movem. A fotografia popular, ela está muito preocupada em não fazer uma fotografia ao estilo do fotojornalismo, ela está preocupada com uma foto cúmplice, com uma foto em que as pessoas se sintam representáveis, respeitáveis, quando tem um diálogo. Então, eu acho que isso passa muito pela ideia de afeto. A Casa é um espaço de afeto, de acolhimento, de força, de incentivo, além de, obviamente, muita militância, sem dúvida. Mas a sororidade passa primeiro pelo afeto. A gente poder estar aqui é uma alegria.
- Erika Tambke
Bahsese
(Bahsese: fórmulas “metaquímicas e metafísicas” de cuidado com
a saúde e a cura, e de comunicação cosmopolítica.
Bahsese é traduzido como benzimentos.)
Boa tarde a todos. Primeiro, eu quero agradecer o convite do professor Luiz Guilherme Vergara para eu estar aqui. Há alguns anos, nós estamos juntos no Fórum Povos da Rede Unida: e esse fórum tem como proposta trazer o pensamento e os conhecimentos indígenas para dentro do universo da arte, da saúde e de outras áreas de conhecimento.
Então, no texto que escrevi para a Revista Mesa, abordei a concepção de corpo a partir da perspectiva Yepamahsã (Tukano), povo indígena do Alto Rio Negro. Ao entrar aqui, na Casa de Mystérios, senti algo difícil de explicar: a impressão de estar em um lugar atravessado por muitas histórias. Foi então que me ocorreu um pensamento. E se o nosso corpo pudesse ser compreendido como tudo aquilo que estamos vendo aqui, isto é, como tudo o que constitui esta casa? Como seria?
Para nós, o corpo é um microcosmo, uma síntese de tudo aquilo que vemos e vivemos. Ou seja, ele é constituído fundamentalmente por seis elementos: água, terra, floresta, ar, calor e a condição animal.
A pessoa, enquanto síntese do mundo terrestre, não se encontra separada dele, mas constitui uma extensão viva e indissociável desse mesmo mundo. Da mesma forma, o mundo que habitamos também se projeta em nós, atravessando nossos corpos, pensamentos e modos de existência. Essa relação não é apenas simbólica, mas profundamente material e contínua, marcada por uma interdependência que sustenta a vida.
Assim, toda ação realizada sobre o ambiente — como o desmatamento, a poluição ou qualquer forma de degradação — não permanece externa ou distante, mas retorna inevitavelmente ao próprio corpo humano. Há uma conexão direta, permanente e recíproca, na qual cuidar da terra é, simultaneamente, cuidar de si mesmo.
A partir dessa concepção, estruturamos nosso modo de cuidar da qualidade de vida, compreendida, para nós, como o próprio cuidado com a saúde. Trata-se de um cuidado contínuo e atento. Manter o equilíbrio dos componentes do corpo, mediados pelo bahsese, é nossa prática de proteção e constitui nosso sistema preventivo. Esse processo envolve não apenas o corpo individual, mas também as relações que o atravessam, incluindo o território, os seres visíveis e invisíveis e os ciclos do tempo.
Nesse sentido, as transições das constelações, entendidas como marcadores temporais, desempenham um papel central em nossas práticas. A cada mudança desses ciclos, realizamos a defumação do território, da comunidade e das pessoas, pois compreendemos o tempo como circular. Cada ciclo traz consigo fartura e perigos que precisam ser cuidadosamente manejados.
Por essa razão, o cuidado se torna uma prática constante, sustentada pelo bahsese, que pode ser compreendido como uma tecnologia de equalização do corpo e das relações. Por meio dele, buscamos mitigar riscos, prevenir doenças e restaurar equilíbrios, assegurando a continuidade da vida.
Outro ponto importante é que o corpo é uma potência capaz de se transformar em qualquer coisa. Certa vez, no Centro de Medicina Indígena que coordeno em Manaus, uma artista chegou relatando dores frequentes, especialmente após suas apresentações. Ela pediu que meu pai realizasse um bahsese. Em tom de brincadeira, ele disse que a transformaria em “corpo de macaco”. Afinal, disse, “quem já viu um macaco cair da árvore ou sentir dores?” — e assim fez. Isso é possível porque o corpo é constituído de elementos, e esses são “manipuláveis” pela via de bahsese. Dessa forma, para nós, a qualidade das coisas é fundamental, pois é por meio dela que o corpo é construído.
Outra dimensão importante é o nome da pessoa. Eu costumo dizer: o nome como dimensão metafísica do corpo, da pessoa. Para nós, o nome é aquilo que conecta nosso pertencimento à casa, ao nosso território, ao nosso sistema de parentesco, inserindo a pessoa em uma rede de relações sociais e cosmopolíticas. Do ponto de vista de nossa medicina, por exemplo, as doenças que afetam a cabeça podem surgir a partir da desconexão com essas dimensões, isto é, do território, da casa, da família, da água, da terra e da floresta.
Para nós, a vida é uma arte. A arte de combinar as qualidades das coisas. Trago essa reflexão para dizer que, no campo da ciência, o único modelo de conhecimento que consegue transgredir a rigidez científica é a arte. A linguagem da arte é equivalente à linguagem dos povos indígenas.
Para nós, não nos apoiamos apenas na razão para definir a validade dos conhecimentos. Nossa produção de conhecimento passa também pelo sonho, pela escuta, pela visão, pelo olfato. Todos esses elementos constituem canais que nos permitem compreender e viver o mundo como arte.
A Casa tem uma história anterior. Maré também. E vem essa parceria Instituto Mesa e Imagens do Povo. Podemos ver aqui hoje muitos frutos de um trabalho de construção da Casa, de muitos anos. E com nossa parceira e esse evento desejamos contribuir e fazer parte desta construção. Então, pensando numa palavra, a palavra que me veio muito prontamente, que eu acho que tem a ver muito com quando falamos do que é a filosofia popular, e do que foi esse processo que a gente desenvolveu ao longo desses meses, foi a palavra afeto. Eu acho que o afeto é o que mobiliza a gente nos temas que nos movem. A fotografia popular, ela está muito preocupada em não fazer uma fotografia ao estilo do fotojornalismo, ela está preocupada com uma foto cúmplice, com uma foto em que as pessoas se sintam representáveis, respeitáveis, quando tem um diálogo. Então, eu acho que isso passa muito pela ideia de afeto. A Casa é um espaço de afeto, de acolhimento, de força, de incentivo, além de, obviamente, muita militância, sem dúvida. Mas a sororidade passa primeiro pelo afeto. A gente poder estar aqui é uma alegria.
- João Paulo Lima Barreto (Tukano)

Chão
Abismo, abrigo, ação, acervo, afeto, agente, ágora, aldeia, alicerce, alimento, alvo, ancestralidade, antropogênese, âncora, apoio, apropriação, armazenagem, arquitetura, arquivo, assembleia, assentamento, atenção, aterramento, atividade, axé, alerta, base, bem comum, berço, boca, brincadeira, cabeça, calor, cama, camada, caminhada, caminho, campo, canto, carícia, casa, catalisador, centro, cercamento, céu, ciclo, cidade, coisa, colcha de retalhos, coletivo, compartilhamento, composto, comum, condição, condutor, conflito, confluência, conhecimento, contato, contestação, composto, comunidade, continuidade, consumo, controle, coordenada, corpo, correspondência, cosmos, cota, cota zero, cotidiano, cova, credo, crescimento, cuidado, cultivo, culto, cultura, cura, dança, descarga, descarrego, desfecho, destino, dimensão, dinâmica, direita, disponibilidade, dispositivo, disputa, divindade, documento, dominação, domínio, dor, ecossistema, eixo, elemento, encantamento, encontro, encruzilhada, enigma, enraizamento, enredo, ensino, ente, entidade, entre, entrega, episteme, equilíbrio, escala, esconderijo, espaço, estatuto, estoque, extrato, ethos, expansibilidade, expectativa, experiência, extensão, extração, fé, ferida, festividade, filtro, fim, firmeza, fonte, força, fresta, fronteira, fundamento, fundo, futuro, gaia, gênese, ginga, grandeza, gravidade, guia, habitar, heterogeneidade, história, horizonte, humildade, ideia, identidade, imaginário, impacto, impulso, índice, infância, infraestrutura, iniciação, inspiração, instalação, intimidade, invenção, jogo, lar, lastro, latência, lei, leito, liberdade, limite, linha, linhagem, lugar, luta, mãe, magia, mapa, mar, marca, matéria, matéria-prima, material construtivo, maternidade, matriz, mediação, meio, memória, mercadoria, metabolismo, metamorfose, mina, mitologia, morte, movimento, multidão, multiplicidade, mundo, muro, negociação, nível, mudez, ocupação, organismo, orientação, origem, paisagem, palco, palimpsesto, para-raio, parede, partilha, patrimônio, pavimento, pavimentação, passo, pé, pedogênese, pedosfera, pele, peso, piso, plano, plano de contato, plano de intensidades, plantio, plataforma, platô, plural, pó, poder, poesia, polissemia, política, posse, possibilidade, postura, potência, pouso, prática, prática cotidiana, pré-condição, pré-existência, presente, princípio, produção simbólica, processo, projeção, projeto, propriedade, proteção, provedor, prumo, queda, raso, rastro, rachadura, receptividade, recurso, registro, repositório, repouso, reserva, resiliência, resíduo, resistência, reverência, ressonância, reza, rito, raiz, saber, sabor, sacralidade, sangue, segredo, segurança, sentido, sepultura, cultura, ser vivente, simbiose, símbolo, singeleza, sistema, sobrevivência, sola, solidariedade, solidez, som, substância, substantivo, substrato, sumidouro, superfície, suporte, sujeira, sustento, tábula rasa, tapete, tempo, terra, terreno, território, teto, trabalho, transformação, transmissão, transversalidade, tudo, uso, vai e vem, valor, ventre, vertigem, vestígio, vetor, vibração, vida, vínculo, visão de mundo, zen, zona, zona de tensão.
- Palavras geradas coletivamente no âmbito do ciclo de encontros Sentidos do Chão, organizado por Ana Luiza Nobre e Caio Calafate (2022)³ e trazidas por Ana Luiza Nobre para a roda de conversa “Arte e saúde ao rés do chão”, em 5 de novembro de 2025, através de um registro em áudio da leitura pela artista Carla Guagliardi.
- Acesso ao áudio da leitura da Carla Guagliardi:
Continuidade
Antes de tudo, peço licença para falar sobre o falatório — as enunciações de Stella do Patrocínio. A internação de Stella [no Hospício Pedro II e posterior transferência para a Colônia Juliano Moreira] ocorreu via ação policial, em 1962. Ao relatar a ação policial, ela usa o verbo agarrar, “me agarraram” andando na rua”. Diz que o fizeram como se tivessem o direito de governá-la por ela ser negra, preta e crioula. Assim, intuí que talvez o caminho para entender a sua trajetória tinha que partir daí. Poucas informações existem a respeito dela, resultado dos trinta anos de internação. Tenho levantado dados desde 2016, tais como Stella com 2 “l” escrito a próprio punho e em seu registro de nascimento. Tudo o que levantei já aponta para a necessidade de rever a recepção de Stella, que a maioria soube através do livro de poesia Reino dos bichos e dos animais é o meu nome, organizado por Viviane Mosé e publicado em 2001 pela Azougue editorial. A minha hipótese é que Stella, por dois motivos principais, não foi devidamente ouvida pela instituição que a lançou como poeta. Primeiro, por ela ser um sujeito psiquiatrizado, ter um diagnóstico de esquizofrenia, e segundo — que também motiva o primeiro —, o fato de ela ser uma mulher negra.
Nesse trabalho de tentar restituir a história de Stella, contra os apagamentos produzidos pela instituição manicomial, segui diferentes direções. Num primeiro momento, acompanhei os passos de Mosé, para saber quem ela entrevistou e como ela conseguiu ter acesso aos áudios [gravados por Carla Guagliardi no projeto Oficina de Livre Criação 1986-88] e ao livro datilografado de Mônica Ribeiro — estagiária de psicologia (1989-1990) que, novamente, gravou o falatório em outras fitas (infelizmente perdidas) e o transcreveu parcialmente⁴. Agora, eu estou pensando o falatório como um arquivo de si e um arquivo coletivo também, porque a gente não pode esquecer que Stella afirmava ter 500 milhões e 500 mil anos, a idade das moradoras do Núcleo Teixeira Brandão onde mulheres foram internadas na Colônia.
Realmente, conforme apontaram Natasha [Felix] e Sara [Ramos], existe uma leitura de Brasil que o falatório evidencia e que muita gente ignora. Essa leitura passa pelos hospitais psiquiátricos e por essa perseguição policial. Stella me ajuda a pensar o manicômio como crime de Estado e essa interface entre a polícia e a psiquiatria. Não à toa que, depois da aprovação da Lei Paulo Delgado, em 2001, o índice de encarceramento de mulheres negras no sistema prisional aumentou mais de 400%. Essa não é uma coincidência isolada, [faz parte] de um contexto de perseguição racial e de gênero mais amplo, no Brasil.
O falatório me transformou e ainda me transforma profundamente, e, além de questões político-sociais, também transformou a minha maneira de compreender os estudos literários e as suas teorias críticas. Por exemplo, não se pretende mais possuir poder de verdade sobre Stella, mas, ao contrário, perceber para onde o falatório está nos guiando — quais temas, perspectivas, construções fônicas ele nos apresenta e nos permite refletir.
O poder de enunciação de Stella rompeu o silêncio produzido pelo hospício. Ao estudar o falatório, também me empenho em restituir a sua trajetória de vida, apagada pela instituição. Por isso, eu gostaria que minha palavra escolhida fosse continuidade, porque aprendi com Stella do Patrocínio a importância de elaborar uma memória coletiva e intergeracional. Além do falatório em si, essa ferramenta poderosa de desobediência, também existiram os trabalhos de Carla e Mônica, que fizeram com que a gente pudesse realmente registrar uma fala que sempre esteve ali. Depois, existiram trabalhos como os de Diane Lima e todas nós aqui que estamos tentando pensar sobre esse falatório de uma maneira mais contextualizada nesse sentido político.⁵ Defendo que os áudios e o material transcrito de Mônica, bem como as anotações nos prontuários, quando anotam o que Stella falou, são de extrema relevância. E dessa maneira é possível ler os arquivos psiquiátricos contra eles mesmos. Stella deu essa possibilidade para a gente de entender o falatório não como produto dos hospícios, mas como uma provocação e uma colocação contra os hospícios, em um duplo contra, [já] que ela nega a sua pertença aos hospitais psiquiátricos e condena as ações dos hospitais psiquiátricos também. Se o falatório como arquivo sobrevive a alguns apagamentos causados pela instituição psiquiátrica, e se a teoria literária tem se dedicado a divulgar a produção intelectual e estética de Stella do Patrocínio, penso necessariamente nesse lugar de continuidade, um ato contínuo de memória insistente pela preservação e pela difusão da memória e do legado de Stella.
- Anna Carolina Vicentini Zacharias
Contracartografia
Peço licença também para pisar aqui nesse chão, porque estamos pisando sobre corpos, e não podemos nos esquecer disso. Estamos num território sagrado e não sabemos muito bem o que tem por baixo, mas sabemos que tem muita história. Uma história que precisa ser revirada e escavada.
Sou arquiteta e historiadora. Coordeno, com David Sperling, o projeto Atlas do Chão⁶, um projeto cartográfico, ou melhor, contracartográfico, que busca mapear pontos críticos a partir de leituras desse corpo vivo que é o chão. Através de muitas práticas, metodologias, oficinas e equipes distintas, o que temos feito ao longo dos últimos quatro anos, pelo menos, é construir narrativas e histórias que nos permitem disputar imaginários e narrativas e dar a ver processos complexos de urbanização, territorialização e desterritorialização, cujas marcas no chão são legíveis hoje, mas que atravessam tempos e escalas.
O Atlas do Chão é um dos desdobramentos de uma pesquisa que ganhou um ponto de inflexão na pandemia. Como arquiteta, a relação entre a arquitetura e o chão é mais ou menos óbvia. O chão é o fundamento da arquitetura. E a arquitetura precisa de um chão estável. Mas a pandemia me deixou totalmente sem chão. E essa sensação de abismo foi muito importante para mudar meu eixo e dar uma outra dimensão para o trabalho, baseada na atenção e na observação atenta em relação a esse corpo que nos comuna. É claro que “chão” é uma palavra vira-lata, como diz Donna Haraway. Então, deliberadamente, a escolha recaiu sobre uma palavra não científica, e também polissêmica — que está numa dobra com terra, com território, com solo. E aí, escavando a polissemia dessa palavra, fizemos um ciclo de encontros que coordenei com o arquiteto Caio Calafate, chamado Sentidos do Chão⁷. Isso foi no auge da pandemia, em 2021. Ou seja, estávamos todos no Zoom falando de um corpo que tem materialidade, vida, presença. Ao longo desses encontros, várias pessoas foram convocadas a falar: Denilson Baniwa, Patrícia Ferreira Pará Yxapy, Lígia Nobre, Luiz Rufino e outros. E abrimos um Google Docs para que todos os participantes que estavam no Zoom pudessem escrever livremente palavras que evocassem os sentidos do “chão”. Isso gerou uma lista de 332 palavras⁸ que, ao final do ciclo, vibraram através de um áudio na voz da artista Carla Guagliardi, que é brasileira, mora em Berlim, e acompanhou o ciclo todo.
O que trouxe hoje para compartilhar com vocês é esse áudio, que considero uma espécie de mantra, um áudio infinito, assim como a lista, que também é interminável, porque todos nós podemos pensar e incluir infinitamente outros sentidos. Queria convidar vocês a escutar esse áudio mantendo uma postura ereta, justamente para permitir que nosso corpo faça a relação do chão com o céu, da terra com o céu. Fechar os olhos, firmar os pés no chão e sentir a vibração deste mantra, que vai durar uns seis minutos, no nosso próprio corpo. Respirar junto com esses sentidos. Deixar que eles nos atravessem e respirem conosco.
- Ana Luiza Nobre
Co(reo)escuta
Boa tarde a todes, todas, todos. Quero propor a palavra coreoescuta, que também pode ser grafada com uma de suas sílabas entre parênteses: co(reo)escuta, de modo a termos coreoescuta e co-escuta; ao mesmo tempo. Ela surgiu na conversa que deu origem a nossa contribuição para a Revista Mesa e foi realizada a convite de Guilherme Vergara (UFF/PPGCA), como parte da programação do Congresso Internacional “Múltiplas Vozes em Defesa das Vidas, Saúde Única, Arte Plural e Formação Humana”, organizado pela Saúde Coletiva da UFF. Alice Poppe, Caroline Valansi e eu falamos, nessa ocasião, do projeto Corpo, Gesto e Afeto, que vínhamos realizando com mulheres em privação de liberdade na penitenciária feminina Talavera Bruce, em Bangu. Tato Taborda, artista sonoro, compositor e também professor do Departamento de Arte da UFF, participaria de outra mesa do evento, sobre “audionutrição”, e resolveu juntar-se a nós — o que levou a um momento muito especial de co-estar/co-escuta. Não me lembro exatamente qual de nós propôs a palavra-valise coreoescuta, talvez tenha sido eu mesma, mas sem dúvida levada pela escuta de minhas companheiras e de meu companheiro de mesa.
Com esta palavra, tratamos, em primeiro lugar, de sublinhar a coletividade na arte — na mesma via tomada por Carla Santana quando menciona que as cores em sua pintura se fazem conjuntamente, como “co-cores”. O filósofo francês Georges Bataille, por sua vez, dizia “o que eu penso, não pensei sozinho”. Eu concordo com a ideia de que nunca se está só, no pensamento ou na arte, apesar de certa persistência na figura idealizada do artista, em um forte narcisismo que hoje buscamos desfazer, tanto na arte contemporânea como na vida.
Nosso projeto no Talavera Bruce tinha muito a ver com isso, com uma tentativa de fazer algo na contracorrente da idealização narcísica do artista, que por vezes leva a uma noção um pouco simplória do lugar da arte em situações de vulnerabilidade social. Maria Alice Poppe e eu, como coordenadoras, queríamos que o projeto fosse radicalmente distinto da ideia de que nós estaríamos levando arte para uma população carente, com a pretensão de fomentar alguma transformação numa situação extrema. Queríamos recusar tal eixo de ação paternalista e salvacionista, que tem por base um simples e terrível elitismo. Ao contrário, partimos de uma constatação evidente: o fato de que essas mulheres estavam numa situação de privação de liberdade. Trabalhamos principalmente com as mulheres ditas do “Seguro” — aquelas que estão duplamente privadas de liberdade, pois estão isoladas das demais presas por algum motivo, muitas vezes por terem cometido crimes que as outras consideram inaceitáveis — e com as mulheres grávidas, que também estão em uma situação de prisão dentro da prisão, prisão dentro do próprio corpo, inclusive porque muitas delas descobrem que estão grávidas quando são presas e, portanto, lhes é retirada a possibilidade (ainda que ilegal) de interromper a gravidez.
A ideia de gesto foi o operador central do projeto, que se iniciou com meu convite à Alice Poppe, como uma artista, coreógrafa e bailarina. Decidimos que o trabalho consistiria simplesmente em estarmos ali produzindo e compartilhando gestos. Nosso modus operandi mais frequente foi, de fato, o de repetir gestos. Convidávamos cada uma a propor gestos, para, em seguida, torná-los comuns.
O que sustentava o projeto não era algum saber ou alguma criação da equipe propositora — que também contou com Natasha Pasquini, Beatriz Veneu, Taianne Lobo e Caroline Valansi —, mas sim a mera disponibilidade corporal e afetiva, sem nenhum objetivo concreto. A situação de trabalho era de grande despojamento, tanto em termos da renúncia ao nosso saber ou “talento” quanto em termos concretos, uma vez que não era permitido levarmos conosco nenhum equipamento, nem mesmo celulares. Não se tratava portanto de registrar algo, nem de mostrar algo como produto da proposta. O que aparece como imagem nesta edição da Revista é um vestígio, uma marca que ali se deu, em dado momento, entre nós: um dos bilhetes escrito por uma das mulheres. Ele diz “por mim e por você pega a minha mão e vamos”, descrevendo com eloquência aquilo mesmo de que se tratava, aquilo que estávamos fazendo juntas ali, sem ponto de chegada nem objetivo distinto de nosso próprio co-estar.
Graças a co-estar com Tato Taborda na mesa redonda mencionada, pudemos escutar neste projeto a ideia de coreoescuta, ou seja, do gesto como um lugar de escuta mútua. Não se tratava de alguém estar em um lugar privilegiado em termos hierárquicos, mas de nos escutarmos, simplesmente, de construirmos alguma escuta imaterial com o corpo e os gestos, ampliando a noção habitual de coreografia. O “coreo” aí significa movimento, mas devemos lembrar que “coreo” também tem na sua etimologia “coração”.
Infelizmente, a realização do projeto Corpo, Gesto e Afeto dependia de um apoio muito simplório do CCJF (Centro Cultural da Justiça Federal) que garantia o transporte da equipe. No começo de 2025, a direção do Centro foi assumida por um desembargador que considerava esse tipo de proposta como assistencialista e portanto inadequada para um centro “cultural”. Sua concepção retrógrada e elitista de Cultura levou à interrupção do projeto, infelizmente. Mas nos traz grande alegria que ele de alguma maneira permaneça vivo quando alguém nos ouve falar dele (ou nos lê), reatualizando, aqui, alguma possível coreoescuta pelos rastros e palavras que ali produzimos.
- Tania Rivera
Corpo transante
Estou representando um grupo que realizou um trabalho durante dois anos na penitenciária feminina Talavera Bruce no Rio de Janeiro, intitulado Corpo, Gesto e Afeto9. O objetivo era desenvolver algum tipo de trabalho corporal com as detentas. Trabalhávamos em dois grupos distintos: as grávidas e as do Seguro. As grávidas não formavam um grupo fixo, pois algumas chegavam à penitenciária já grávidas, outras descobriam a gravidez depois do ingresso. Após o parto, eram encaminhadas à maternidade, ou eventualmente conseguiam sair durante o processo. Já as do Seguro, mulheres que cometeram crimes hediondos, ficavam em um espaço protegido dentro da própria cadeia. As grávidas formam um grupo muito desvitalizado, um corpo muito cansado, sobrecarregado. Imagina estar grávida dentro de uma prisão. As do Seguro, por sua vez, não participam da vida social da penitenciária e, por isso, vivem em grande isolamento. Diferentemente das grávidas, esse grupo chegava com muito desejo de participar.
No trabalho, chegávamos sem poder trazer nada: celular, música, objetos. Trabalhamos com o que havia: nossos corpos, memórias, desejos, vozes, com o espaço que era cedido no dia.
Uma das coisas que me chamou muito a atenção, e que também ocorre com frequência em museus, é a postura de mãos para trás. Parece que, em certas instituições, sejam de arte ou de reclusão, o corpo já adota, por conta própria, uma postura de contenção. Temos medo de nos expandir, de criar. Nossa intenção era que, por meio do próprio corpo, pudéssemos ativar algum tipo de memória, algum gesto capaz de evocar algo, tanto para as participantes quanto para nós. Foi um processo muito interessante. A frequência variava muito: em certos momentos, muitas participavam, em outros, poucas. Com o tempo fomos conseguindo ter um grupo mais contínuo.
Durante muito tempo tive a sensação de que o trabalho não avançava, até começarmos a entender que ele se expandia para além de nossa presença. Íamos a cada quinze dias e fomos percebendo, a partir dessa troca, que nas semanas em que não íamos, elas mesmas criavam algum tipo de coreografia, se assim desejassem. Por não terem recursos materiais, elas sempre retornavam ao corpo, ao próprio e ao das que estavam junto. Essa relação também passa pelo espaço: elas contavam quantos passos cabiam na cela, criavam coreografias, traziam gestos que apareciam durante a semana. Começaram a desenvolver um pensamento próprio: diante de algum sentimento perturbador, recorriam a um movimento do corpo como forma de alívio, de respiração.
Foi nesse processo, em diálogo com a prisão, que o conceito de corpo transante, que venho desenvolvendo há anos e que encontrou maior conceitualização durante o mestrado, aparecendo também em minha pesquisa sobre erotismo e os cinemas de rua que se tornaram cinemas pornôs, ganhou nova camada de sentido. Trata-se de pensar o corpo como potência em trânsito: um corpo vivo, desejante e disponível para se deslocar, se arriscar e se transformar no encontro com o outro. O termo é um jogo com a palavra “transar”, mas não apenas no sentido sexual: transar como transitar. Não se trata apenas de sexualidade, mas da vitalidade que atravessa a vida cotidiana e os modos de estar junto, deslocando o prazer da lógica restrita ao sexo e ao consumo, para entendê-lo como presença e força criadora. Nesse sentido, o conceito se tornou também uma forma de pensar como é possível, a partir do próprio corpo, transpor muros, sejam os físicos, gigantescos, ou os simbólicos e invisíveis, que nos fazem recolher as mãos e evitar o compartilhamento. A ideia era criar aquele espaço como um espaço de saúde. Um conta-gotas de saúde, mas ainda assim significativo.
O projeto deixou de acontecer por falta de parcerias, o que nos impediu de manter a regularidade das visitas. Perdemos a constância, e esse tipo de trabalho depende essencialmente dela. É preciso criar vínculo, cultivar o que chamaria de um corpo-confiança. É uma pena. Fiquei muito triste ao perceber que as pequenas gotas realmente fazem diferença. Mesmo que por uma hora, era muito bom que esse corpo transante pudesse emergir na forma de um gesto, de uma dança, de um canto, de memórias. Estávamos ali para estar junto, compondo esse grande corpo que era o projeto.
- Caroline Valansi
Cuidado
Eu sou artista-pesquisador, e a minha trajetória me levou a cruzar essa prática com o ativismo transfeminista LGBT+ e com práticas da saúde, como a psicologia. Mas eu gosto de pensar sobre isso a partir do termo cuidado, do verbo cuidar. É importante localizar que essas reflexões surgem da vivência no contexto dessa sociedade capitalista neoliberal marcada pela colonialidade. Surgem nesse contexto em contraposição a ele. Nesse processo, estou pensando junto com outras pessoas e coletividades que conseguem criar outros modos de vida, tais como: práticas afrodiaspóricas de terreiro; práticas da medicina tradicional chinesa; os ensinamentos do Ailton Krenak; os feminismos de Gloria Anzaldúa, Paul B. Preciado e tantas outras; a clínica de Sofia Favero, Félix Guattari, dentre outros; filosofias como as de Emanuele Coccia e Henri Bergson; e a arte de Castiel Vitorino Brasileiro, Jota Mombaça, Tom Nóbrega, Jonas Van Holanda etc. Enfim, muitas pessoas e conexões que fiz para elaborar as pesquisas que aqui compartilho um resumo.
Por mais que a palavra cuidado tenha diversos usos, alguns que, inclusive, banalizam seu sentido, procuro refletir sobre o cuidado como uma prática de observar atentamente, de ter uma escuta ampliada. Para exercer um cuidado efetivo, entendo ser necessário observar as singularidades de cada criatura, pois não existem fórmulas prontas. O cuidado efetivo é aquele baseado em uma ética vital, direcionada sempre àquilo que é favorável para que a vida persevere na singularidade e na impermanência de cada vivente e de cada momento. A questão da impermanência é importante, porque me parece que esquecemos que a vida é impermanente. No contexto da saúde institucional é comum a noção de que, para a vida perseverar, ela tem que ser alongada ao máximo. Mas o que procuro articular é que a ética do cuidado é aquela que considera que a impermanência é um aspecto essencial da vida. A partir das minhas pesquisas, entendo que o cuidado está diretamente ligado à ação de criar. Criar e cuidar, cuidar e criar, são essenciais para que uma vida seja vivida em sua potência.
Quando fui chamado para colaborar com a Revista, eu imediatamente voltei a imagens que fiz em 2017, com a colaboração de Ju Borzino. São fotografias que registram uma ação que foi propulsora de movimentos que eu fiz em prol do cuidado com a minha vida: a ação de me enterrar10. A partir dessa ação de me enterrar, eu vivi experiências que me levaram a ter uma escuta ampliada e atenta de minhas próprias entranhas, no sentido literal e figurado.
Estar no chão nos conduz às entranhas da Terra e nos leva a observar as próprias entranhas, pois nosso corpo é composto dessas agências que compõem todas as matérias: água, fogo, ar e terra. Considero, então, que essas agências são ancestrais. E os processos de criação e cuidado com a vida precisam estar imbricados e implicados com esses ancestrais.
Quando eu penso em criação, isso não se resume à arte. Quando eu penso em criação, eu penso em criação de si, que eu entendo que é uma coisa muito cara às criaturas que são reiteradamente colocadas em situação de menos-valia social. Então, eu trago um pouco dessa perspectiva de quando habitamos esse lugar de menos-valia social e do quanto o processo de criação de si é importante nesse lugar. Cuidar desses processos de criação de si é produzir saúde. E é abrir espaço para a criação de mundos mais favoráveis para as nossas existências. A arte tem sido uma grande aliada nesse processo. Uma iniciativa que exemplifica isso um pouco é o trabalho da Casa 1, um centro de acolhida e cultural LGBT+ de São Paulo, do qual fiz parte em 2025, que procura articular a clínica com arte e cultura. Eu vejo isso sendo muito potente para a vida das pessoas.
Finalizo deixando uma pergunta: como nos implicamos com a criação e o cuidado no contexto dessa sociedade que tem movimentos tão contrários a isso? Não é uma pergunta com resposta única, mas eu acho que individualmente e coletivamente é uma pergunta que pode ser feita para mobilizar modos de vida mais potentes.
- Jialu Pombo

Denúncia
Meu nome é Carolina Rodrigues. Desde novembro de 2023 estou na curadoria geral do Museu Bispo do Rosario. Eu vou falar do falatório de Stella do Patrocínio a partir de um olhar muito atravessado pela experiência com a equipe de educação que eu tive, em 2022, trabalhando com um podcast que envolvia a fala de crianças do território da Colônia Juliano Moreira, e também do período em que eu trabalhei lá como educadora. Era um período em que estava abrindo a exposição da Stella do Patrocínio, então acompanhei um pouco esse processo11. Também estou atravessada pelas experiências da curadoria do museu com uma nova equipe que já vinha mobilizada por uma discussão sobre como o sistema da arte se apropriou e expropriou da identidade de pessoas como Bispo do Rosario e Stella do Patrocínio. Falar de como estamos construindo — eu acho que continuamos construindo — uma política institucional para esse museu a partir da Stella, é falar sobre uma tentativa de produzir essa denúncia sem reencenar a violência, inclusive para as pessoas que foram vitimadas por essa instituição e que convivem com a gente cotidianamente.
Existem várias dimensões que eu posso dizer que a Stella influencia. A primeira é a prática da escuta como uma política institucional. E aí tem esses projetos de educação que envolvem o podcast, que trazem a fala das pessoas que constroem cotidianamente a história desse lugar para uma esfera pública e uma esfera crítica a partir do posicionamento político da instituição. Também tem a curadoria das exposições, como de “100 anos de Colônia”, onde entendemos que a oralidade seria um caminho importante para que a gente possa contar a história deste lugar sem reencenar a violência através de imagens, através de uma estetização da dor. Na exposição, foram construindo núcleos de sentido a partir da escuta da Stella e também colocando Stella para dialogar com questões que identificamos que eram problemáticas dentro da Colônia Juliano Moreira. Por exemplo, quando Stella fala de violências direcionadas às mulheres, trazemos um núcleo para falar de mulheridade. Então, junto com o áudio da Stella, em que ela fala da questão de gênero, trazemos as palavras de Patrícia Ruth [artista e membro do coletivo Ateliê Gaia] que contam a história dela a partir desse lugar. E Patrícia escolhe trazer suas palavras em formato de bordado.
Então, a Stella se torna uma espécie de guia de visitação nessa exposição, também afirmando a perspectiva a partir da qual queremos contar a história desse lugar e envolver as pessoas que estão lá hoje. E me parece que o próprio circuito da arte, da literatura, não entende a materialidade e a urgência que se coloca ali. Então, eu acho que o nosso caminho vai também para não trazer essa dimensão do objeto, da materialidade, da estetização acima da vida humana.
E aí isso se faz de várias formas. O que o sistema da arte fez com o Bispo, o que fez com a Stella, foi tudo menos fazer jus à dignidade humana desses sujeitos. Então, o museu vai trazer para o cotidiano uma responsabilidade, enquanto remanescente também desse instituto, algo que vai muito além do que se entende como prática artística. Por exemplo, convidar as mulheres do bordado para dentro do espaço expositivo. Geralmente, nas instituições de arte, as galerias ficam assépticas e a educação fica muito na responsabilidade da articulação territorial e em trazer essa comunidade para perto. Acho que nós apontamos para uma responsabilidade integrada.
Também trouxemos recentemente para a prática da curadoria um entendimento de que não dá para expor, por exemplo, objetos de tortura. E aí eu acho que a Stella aponta um caminho para falar disso a partir das pessoas que vivenciaram isso e que têm mais legitimidade e também vão saber como trazer isso para o público, e não nós trazendo esses objetos ou fotografias de pessoas em situação de vulnerabilidade de uma forma acrítica para esses espaços. E, quando se fala da dor, eu acho que é a Stella que tem que falar da dor dela, né? Não é a instituição [que deve] estetizar essa dor, assim. Então, acho que foi muita reflexão. Assim, a palavra que eu vou trazer é denúncia. A denúncia tira a pessoa do lugar de vítima, e a Stella faz muito bem isso. Sai desse lugar de vítima, se torna agente e fala do seu contexto a partir do lugar que ela ocupa.
- Carolina Rodrigues
Encruzilhadas
Uma palavra que poderia falar de nossos processos me veio muito fácil. A palavra que eu acho que é o que nos move é encruzilhadas. São os caminhos que a gente percorre. Então, quando eu penso: “qual é ‘o chão que eu piso’ [título de nosso ensaio na Revista Mesa12]?” — são muitos. Eu sou uma pessoa que eu piso muitos chãos. Estou sempre transitando pela cidade. As encruzilhadas têm muito essa força de guiar pra mim, de guia de caminhos abertos. Eu acho que é isso que eu desejo para a Casa [Resistências]: que continue aí trilhando muitas encruzilhadas!
Quantos encontros fizemos, quantos caminhos se cruzaram até chegarmos a esse dia de hoje. Eu vejo aqui muitos rostos de pessoas diversas que, em algum momento, cruzaram o caminho da Casa. É com muita alegria que, depois de muitos meses de construção, uma construção muito afetuosa, eu penso assim nesse chão, nesse caminho que a gente cruza diariamente na Maré, nas águas, na Baía de Guanabara. Eu venho de São Gonçalo. Venho de São Gonçalo para a Maré, vou para a Zona Oeste e eu estou sempre cruzando, assim, as encruzilhadas sempre me guiando. Eu não tenho medo da estrada, eu vejo a estrada como um guia muito importante. E eu acho que isso também representa muito o que a Casa é — a nossa fé, a ancestralidade que a Casa carrega. Esse quilombo vivo que conseguimos construir aqui com muito custo. Não foi fácil, muitas barreiras aí, muitas batalhas. Não sou de romantizar, dizer que se fosse fácil não teria graça. Eu acho que tudo bem as vezes em que tem barro. Tudo bem. É isso. Saudar a rua, saudar as encruzilhadas, saudar a estrada. E saudar a força que a Casa tem e a força que cada uma de nós temos aqui.
- Kimberly Veiga

Entardecer
Depois de tanta coisa, fiquei pirando aqui do quanto que essa foto é simbólica [se refere às fotos do ensaio visual da Revista Mesa das pessoas da Casa Resistências, e à foto de Camila Felippe especialmente]13. De pensar que conseguimos construir uma parada de respiro nas encruzilhadas do mundo, sabe? Em meio a tantos ataques, a gente conseguiu construir espaços onde uma pode repousar no número da outra. Não é que a gente não se desentenda, nos desentendemos de vez em quando, a chapa esquenta entre nós, mas eu acho que desenvolvemos um lugar onde se desentender é possível e é natural.
Quando eu olho essa foto, imediatamente me vem 2017, quando fundamos a coletiva lá na Nova Holanda, e eram cinco meninas com um sonho: ter um espaço seguro pra falar de lesbianidade na favela. E, cara, era só um isoporzinho que a gente colocava na pracinha, sabe? Nunca pensamos que a gente ia ter um espaço nosso, porque não tinha grana. E, caralho, a gente tem um espaço, tá ligado? E tem um espaço que é de todo mundo. Para mim, isso é muito legal. Foi com muita luta, sabemos os perrengues pra chegar até aqui, e pagamos alguns preços pela nossa liberdade, mas a foto que me pega é aquela lá do entardecer [foto no ensaio do portão/entrada da casa com o banner da Casa Resistências]. Porque, primeiro, a Orixá que sempre me regeu é a Iansã, e a força máxima dela se caracteriza no entardecer. Segundo, porque, pra gente que é cria de favela, temos que recalcular a rota a cada entardecer. A gente nunca [tem], o favelado não tem direito a se programar. Porque não sabemos se vamos acordar e vai ter uma operação policial, que vamos ter que suspender o acolhimento, que vamos ter que suspender o grupo, o date que tinha, o rolêzinho que tinha, sabe? E aí, de repente, estamos numa casa que é nossa. Num país que não tem financiamento para a pauta lésbica de mulheres negras faveladas. Estamos num espaço que é totalmente nosso. Sabe? Erguemos um espaço que é muito mais do que o fruto dos sonhos de cinco meninas em 2017. Porque hoje não é só o espaço da festa, de poder marcar um date com uma menina aqui. É o espaço onde recebemos meninas que veem na casa uma escapatória da morte. E usam a Casa como uma rota de vida. De poder vir pra cá, fazer uma parada na encruzilhada, se recompor, seguir seu caminho, aprender uma profissão. Encruzilhada da vida e voltar ou não, e tudo bem, sabe. Então, eu não consigo uma palavra, mas fico com esse sentimento de um entardecer. A possibilidade de envelhecer, a possibilidade de amadurecer, a possibilidade de se programar, de se organizar, de se aquilombar, de poder se desentender, de poder brigar, de poder se reorganizar aqui dentro. De saber que brigar significa voltar, pedir desculpa, se realinhar, se reorganizar, reajustar a rota e saber que aqui é um espaço onde a mulher favelada vai ter um direito que historicamente é negado à gente, que é o direito de errar.
- Dayana Gusmão
Experimentação
Quando o falatório de Stella do Patrocínio se tornou acessível publicamente pela primeira vez, em 2022,14. a partir das trocas e parcerias que pude ter com Carla Guagliardi — artista que gravou e guardou as conversas como parte da Oficina de Livre Expressão Artística nos anos 80 —, e com Anna Carolina Zacharias e Natasha Felix, num entendimento conjunto naquele contexto de que essa circulação dos áudios era necessária em várias dimensões, aquele foi um momento muito importante para as pesquisadoras e artistas emboladas com o falatório. Parecia que, finalmente, a prática da palavra de Stella podia correr ao encontro daquilo que, pelo menos como escuto, é a vocação do falatório, que é circular, fazer viagem e vadiagem.
Escolho aqui a palavra experimentação. E, para elaborar sobre ela, relembro algumas das menções ao processo de registro do falatório, dentro dele mesmo. Como quando Stella diz que o gravador é “importante”, ou quando diz gostar de gravação. A gente também escuta Carla contextualizar que o que está sendo gravado ali vai ser ouvido por outras pessoas, além dos muros, em um contexto artístico. Ainda em outro momento, Stella pergunta: “Quer dizer que cê vai levar pro estúdio né? (…) E lá vocês todos vão ouvir o que eu falei né?”15. E, em alguns trechos, ouvimos até uma certa expectativa para o próximo encontro, embora também possamos escutar muito bem os seus silêncios, as suas recusas à continuidade da conversação: quando Stella não quer gravar, quando já não tem mais uma voz, isso também é posto. Trago alguns desses exemplos de metalinguagem para conversarmos sobre o que podem significar. Ao mesmo tempo que desvincular a ideia de poesia como gênero literário do falatório seja eticamente e esteticamente importante, porque significa respeitar a forma dessa produção, essa desvinculação não deveria, na minha opinião, arrastar consigo a eliminação ou um tapar de ouvidos para a dimensão estética/performática que Stella formula com a palavra oral.
No campo de estudos da performance — e com isso não estou atribuindo o estatuto de performance ao falatório, mas buscando nas beiradas teóricas que pensam, a partir do corpo e da voz, elementos que nos ajudem a caminhar com o dinamismo dessa forma —, dois elementos muito básicos são necessários para que se comece a falar em performance. Um deles é a mobilização dos nossos sentidos, ou seja, ela exige pelo menos a ideia da presença de um corpo. Quando aqui escutamos a voz de Stella, escutamos uma partícula dessa presença, algo que necessariamente remete a um corpo vivo. E o outro elemento que aqui me interessa é a necessidade de reconhecimento de um espaço de ficção. Um espaço-tempo que precisa ser construído. Podemos chamar de espaço performático, de confecção etc., mas o que importa para que ele exista é que tanto quem protagoniza quanto a recepção saibam estar participando de um encontro performático. E, quando penso nos gestos e palavras de Carla, Nelly Gutmacher, Mônica Ribeiro e todas as envolvidas no registro da voz da Stella, não tenho dúvidas de que elas sabiam estar diante de um trabalho estético muito apurado. E quando penso nas diversas menções de Stella ao gravador ou ao próprio falatório… Tudo isso para mim aponta para um lugar de reconhecimento da parte dela de que ali se firmou um espaço de experimentação estética.16
Isso pode parecer óbvio, mas falo disso porque vejo que muitas vezes a intencionalidade artística ou performática, quando falamos do falatório, ainda é negada. Se antes da liberação dos áudios isso acontecia sobretudo com base na falta de agenciamento por uma suposta loucura, agora vemos também uma perspectiva em que o falatório só pode ser ouvido como documento, como testemunho da barbárie. Quando a gente se torna incapaz de ouvir as significâncias sonoras, que incluem semântica e forma, é sinal de que a repressão sistemática do corpo e da voz realmente debilitou nossa capacidade de reconhecer saberes e aplicações estéticas que não se enquadram em formas consolidadas. E é por isso que gosto muito de frisar esses momentos em que o gravador e o falatório são tematizados, porque apontam para essa ciência de Stella diante da própria prática, de algo que vai perdurar, de que a gravação é uma possibilidade de projetar sua existência para o mais longe possível. Não digo que Stella tivesse uma hipótese pronta na cabeça quando decide fazer seu falatório, mas que sua vadiagem pela língua nos lega algo além do arquivo, algo que tanto escutamos nas experimentações negras: a produção do inagarrável.
- Sara Ramos
Favelofagia
Imaginem que no Complexo de Manguinhos, um dos mais baixos IDHs do Rio de Janeiro, exista um celeiro literário que, desde 2015, já colocou no mundo 20 livros – entre eles romances e peças de teatro –, e que esses lançamentos se pretendem materializadores de uma proposta estética: a favelofagia.17 Imaginem que a Cia das Letras e a Flip, de Paraty, lançaram seus anzóis e varas para pescar dentro desse aquário dos escritores favelofágicos. Pois essa é a história deste verbete. Uma história que envolve a Fiocruz, que trabalha o campo da Promoção da Saúde, e a Literatura, uma história que conecta museu de território com narrativas populares de pura invenção.
O Bando Editorial Favelofágico é um selo editorial que produz ficção a partir de residências literárias. O trabalho da favelofagia está na residência. Bebeu na antropofagia tupinambá, na oswaldiana; mas, como favelofagia, já deglutiu tudo isso e algo mais novo: o olhar arguto da insurgência negra brasileira, apostando, hoje, e muito, no chiste. Nessa residência literária chamamos escritores e escritoras de origem periférica, não necessariamente que ainda morem em favela ou periferia, mas que tenham esse tipo de história. Eles recebem uma bolsa e são acompanhados ao longo desse período, entre seis ou oito meses, por um ou dois editores. Entendemos que produzir ficção exige um processo de investigação que exige tempo. Como você cria condição para que alguém possa ter este tempo? Primeiro, fazendo com que aquilo seja um trabalho que remunere essa pessoa. Segundo, que ela tenha um espaço para poder viver a experiência de investigação sobre temas, sobre forma. O editor dá um pouco conta disso. A troca entre autores também. E terceiro, a rua, a vida. É preciso poluir as ideias preconcebidas na imersão na fauna urbana. E para isso criamos as perambulações cortazianas: dinâmicas com os autores na cidade, em espaços pouco imaginados para a literatura na cidade, de onde eles são impulsionados ao esquisito ou ao acesso ao óbvio de modo estranhamente inédito. Assim, experimentam literatura os nossos autores favelofágicos. Não são só herdeiros que podem fazer romances. Nos organizamos para que o trabalhador comum possa fazê-lo desde que esse trabalhador comum também seja um escritor. A residência literária não é confundível com um curso de escrita. E tampouco a favelofagia carregaria a ideia de pensar quais são os temas típicos para autores que vêm das periferias. Não usamos essa camisa de força. Pode-se trabalhar qualquer tema. Os romances favelofágicos conseguem ter uma materialização, aí sim, na forma, da perspectiva subversiva. Daí nosso uso das ferramentas da comicidade. Nos interessa retratar de maneira meio hipertrofiada a realidade, conseguindo, quem sabe, trazer, na ficção sobre essa mesma realidade, uma outra lógica. Disruptiva, é certo; mas não porque seja panfleto, e sim porque dá o rabo de arraia artístico no leitor. Chã de Dentro, o romance da Dani Ribeiro, que está aqui ao meu lado durante essa fala pública, dá conta dessa ideia do que seja a favelofagia.18 Ela pega um grupo de trabalhadores que atuam num posto, tipo um Graal, esse lugar que é de passagem, e você vai encontrar, nesse lugar, no mapa do boi, no meio desse mapa, toda uma sorte de conexões que a gente vai encontrar encostando o cotovelo em qualquer birosca por aqui, naquele Brasil profundo, esse que não é limpinho e cheiroso como gostariam as elites descendentes de escravocratas, e que é cheirosíssimo — é o Brasil que combinou de não morrer, e que combinou de gozar. A subversão, no livro da Dani, está quando você não consegue mais encontrar a barreira sobre o que é um diálogo muito original ou o que é um diálogo muito surreal. Então, é essa ideia de uma tradução dessa experiência brasileira, mas poderia ser uma experiência também de Marte, da Coreia, da China, não há delimitação e nem controle do imaginário, que adoramos cultivar. O que nos interessa na favelofagia é a disputa da política pública no campo da literatura, agora pela versão do proletariado, da negritude, do queer, do “dentro do chã”. A disputa é socialista e é quilombola. Apontamos, entre histórias comuns e incomuns, o extraordinário do olhar. Um olhar que aponta para a utopia. A favelofagia um dia ajudará a digestão das carnes putrefatas que precisaremos rasgar nos dentes. Adivinhem de quem seriam tais músculos e peles e nervos? Utopia é poder parafrasear o clássico filme nacional, trocando francês por burguês, mantendo a ideia de que carne de pescoço, por incrível que pareça, pode ser predileção.
- Felipe Eugênio

Floresta
Floresta Cidade é o nome do projeto de extensão, pesquisa e ensino da FAU/UFRJ que coordeno, nascido aqui na Companhia de Mystérios e Novidades. Esta é a nossa casa e temos sorte, porque é uma casa encantada, afetiva e de encontros. Uma casa-rede, no sentido da rede indígena e não digital. É uma rede que abraça, balança e faz sonhar.
Na roda de hoje, vivencio mundos que se tramaram organicamente, para além do que programamos. Por exemplo, colaboramos com o Instituto Mesa e com a Casa Resistência, que também já se encontraram sem a nossa mediação. O mesmo aconteceu com Sandra Benites, Fabio Scarano e outros. São redes que balançam e se tocam, ora aqui, ora ali, embalando sonhos coletivos e práticas encantadas que vão muito além dessa roda, data, casa e, mesmo, além do mundo dos humanos.
A palavra que eu trago é floresta, por sugestão do Vergara. Eu não gostaria de falar da etimologia da palavra, mas da experiência de “ser floresta” que vivenciamos através da cooperação. O mais correto seria dizer “ser floresta-cidade”; partimos de um híbrido inevitável para nós citadinos. As ideias de rede que balança, de corpo-bioma e de metamorfose fundamentam essa ideia de ser floresta. Essas perspectivas que apostam nas relações com outros seres, que aprendemos com as artes, a ecologia e nos mundos indígenas e afro-brasileiros, apontam-nos como reparar nosso modo de habitar o planeta e metamorfosear nossos ofícios.
Gostaria de contar uma das histórias da Coroa de Iemanjá. A Coroa é este gazebo de bambu de 9 m² que abriga a mesa de iluminação e som da Companhia e que vocês estão vendo em cima do banheiro. Construímos esta estrutura em colaboração com uma rede que inclui grupos de pesquisa, quilombos, especialistas em bambu e estudantes que colocaram o pé na lama dos mangues da Guanabara e a mão na massa da obra na Casa de Mystérios.
Levamos os bambus para serem tratados nas águas da Baía de Guanabara, junto com o Quilombo do Feital, em Magé. Mais do que técnica, abrimos nossa escuta para uma arquitetura que pudesse ser ela mesma encantada, estabelecendo um diálogo com a Guanabara. Então, nos deixamos embalar pelos cortejos, que são a principal prática da Companhia. Essa prática ancestral de comunicação e encantamento da vida é uma ferramenta de diálogo com outros mundos. Nós, do Floresta, vivenciamos esses rituais mensais há anos, aprendendo a tecer uma cidade através de sua força vital, da sua energia, e não apenas da forma física. Os cortejos constroem cidades, muitas vezes invisíveis, sobre as camadas coloniais tão visíveis da região portuária do Rio. São muitas camadas coloniais, mas também ancestrais indígenas e africanas e de inúmeras outras práticas que fazem frente a elas.
Realizamos um cortejo na Fazenda do Feital para submergir os bambus na Baía por 40 dias. Lembro de rirmos da estranheza de fazer um cortejo “aparentemente” para ninguém — apenas sob o olhar atento das vacas da fazenda. Mas o cortejo era bem endereçado. Ele era uma oferenda para a água, para a memória ancestral, para os encantados do território e para Iemanjá, uma deusa e também uma das pernaltas mais presentes no trabalho de 40 anos da Companhia. A Coroa-edifício era para ela, pois a Casa de Mystérios é dela. Foi assim que o singelo edifício para abrigar uma mesa de iluminação e som tornou-se algo muito maior. Um edifício-oferenda, um motivo para encontrar a Baía, uma colagem de mundos aproximados pelo desejo de reparação da Terra.
A Baía trocou a seiva do bambu por água salgada e fez uma das suas magias. Cupins e brocas buscam a seiva, mas ignoram a água do mar. Obtivemos um tratamento 100% ecológico e estabelecemos uma relação afetiva com a Guanabara. Pedimos licença à água, às montanhas, aos ecossistemas e a reconhecemos como uma força feminina e ancestral. Além de tratar o bambu, a Baía de Guanabara o imantou com sua energia, fazendo sua potência vital penetrar no edifício. Os iorubanos chamam a força vital presente em todas as coisas de axé. Pensar que a Baía de Guanabara participou e imantou o edifício, fazendo esses bambus parte do seu corpo ao compartilhar seu axé, provoca uma metamorfose na maneira recorrente de pensar a arquitetura.
Pensar o espaço, a um só tempo, como corpo-casa-coletivo-cidade-cosmo: talvez possa ser uma colaboração não apenas com humanos, um balançar de redes no próprio modo de “ser cidade”, ou um modo de plantar, florestar a cidade de relações encantadas.
- Iazana Guizzo
Guardiões de saberes
Meu nome é Brenda Vitória. Eu senti algo muito forte quando eu estava entrando na Casa de Mystérios e Novidades e fiquei pensando quais foram as histórias que foram construídas nesse espaço. É a primeira vez que eu conheço aqui. Então peço licença para os que vieram antes e piso nesse chão devagarinho, trazendo o meu ponto de partida que é o conjunto de favelas da Maré, onde cada favela tem sua essência e vivência. Falar sobre favela, para mim, é muito importante, porque as favelas são espaços de potencialidade, de construção de saberes, de cultura e memória. E, por ser um território majoritariamente negro, a todo momento a gente tá sendo violentado de diversas maneiras diferentes. A todo momento estamos mudando nossos códigos e construindo estratégias de sobrevivência. As favelas são um espaço de produção de conhecimento e, dentro dessa perspectiva, esse ano de 2025, junto com a Ana [Luiza Nobre] e uma equipe maravilhosa, criamos um projeto chamado Maré que Cura: cartografia favelada de plantas, saberes e práticas ancestrais no conjunto de favelas da Maré.
A Maré era uma área de manguezal, habitada historicamente por populações indígenas, como os Tupinambás. E tem muita história que não é contada, muita história que foi roubada. Como valorizar e resgatar essa história deste território, suas práticas e saberes? Falamos sobre práticas de cura e eu entendo a cura como algo espiritual, ancestral, que está dentro desses territórios. E, dentro disso, você tem várias práticas de cura. O corpo é uma prática de cura. Como trazer esses saberes populares, saberes ancestrais — também dentro do que se entende sobre saúde —, como trazer o território, um chão à terra, esse contato com a natureza que a gente foi perdendo muito por parte da colonização? Como trazer o que está presente nos territórios de favela, periferia, nos quilombos, nas aldeias para fortalecer a discussão? O projeto, através da cartografia, vem para mapear pessoas que estamos chamando de guardiões de saberes, que fazem o cultivo de plantas para uso medicinal ou espiritual dentro da Maré. Queremos fortalecer e entender onde estão essas pessoas, uma vez que esses saberes são super ricos e potentes. Queremos valorizar essas práticas porque, quando falamos sobre pessoas faveladas, tem uma questão que é a autoestima intelectual; a pessoa pode desenvolver um trabalho incrível, mas ela não tem a dimensão do impacto, da potencialidade daquele trabalho para o território e também para a perspectiva da cidade. Como é que isso se vincula também à cultura? Quando falamos sobre a prática e o cultivo dessas plantas, essa produção é cultural, é passada de geração para geração. Então começamos muito nesse impulso de mapear aos pouquinhos. Conseguimos mapear essas pessoas e fizemos um encontro no dia 4 de outubro de 2025, reunindo todos para entender como é que se dá essa prática dentro do território, como podemos fortalecer isso a partir da nossa atuação e reforçar essa narrativa para que esses saberes entrem na prática do que entendemos como cuidado.
Conseguimos mapear 15 guardiões. Eles se denominam como guardiões, muito entendendo que esse termo “mestre”, para eles, chega como uma coisa acadêmica. E aí tem uma reflexão que eles trouxeram, que a academia vem neste lugar de roubar esses saberes. E aí isso lembra de novo o que Nego Bispo traz, que sabemos as práticas e entramos na academia para aprender o nome de coisas que já sabemos, que já aprendemos no nosso território. Então, eles não querem ser chamados de mestres, são guardiões desses saberes, dessas práticas. Fizemos esse encontro super lindo. E agora estamos na segunda etapa do projeto, que é construir essa cartografia que chamamos uma “cartografia favelada”. A gente vê como uma contranarrativa, onde muitas das vezes o termo “favelado” é usado de forma pejorativa, como se fosse algo ruim ou violento, e viemos para mostrar que não é isso, é uma potencialidade. Esta cartografia favelada nasce desse chão que é a Maré, onde reunimos essas pessoas. E também estamos construindo essa cartilha pensando em como ela pode reforçar essas práticas como questão de saúde pública. E também dentro de uma política pública não somente pensando na Maré, mas também na cidade do Rio de Janeiro. Nossa questão então é como misturar, dentro desse projeto, cultura, ancestralidade, território, chão, potencialidade e saberes diferentes.
- Brenda Vitória
Hendu
Eu vou falar um pouco sobre esse conceito, mas na verdade são três conceitos que se conectam: hendu, tembiapó e teko. Para nós, indígenas, como pessoas que têm outro entendimento como ciência, temos uma interpretação diferente do ocidental no nosso modo de entender o mundo. O teko é um indivíduo e tekoa é o coletivo. O que é teko? Teko é como se fosse um corpo e tekoa vários corpos. O teko é o modo de viver e de estar e enxergar o mundo. Mas isso não é o corpo pronto, está em movimento e podemos ir transformando-o durante a nossa existência. E aí, se precisar, movimentamos, digamos, como se fosse um corpo dançante, que a gente chama de esquiva. A dança de esquiva. Para estar no mundo, coletivamente, é necessário escuta, compreensão do outro, entender o outro. Por isso que nós, indígenas, fazemos muitos encontros como este. Encontro de esquiva e de escuta. Às vezes leva horas, né? Para a gente é uma outra forma política, digamos assim, de resolver a comunidade.
Na nossa língua guarani, não existe gênero. Isso tem a ver com teko, porque o teko se movimenta e vai se fazendo gênero. E o tekoa é este processo em forma coletiva. E aí hendu é você estar atento, nesse cuidado que temos que ter com o outro. A forma de sentir o outro. Porque, no nosso entendimento, um ser, a palavra, a nossa palavra, não é apenas uma palavra — é um conhecimento. Espírito é corpo também. Falando de corpo concreto, corpo é a nossa carne. Chamamos de Mãe Terra, Nhandesy Eté, que é a nossa Mãe verdadeira. Por quê? Porque, para nós, guarani, o mundo está organizado em camadas. Na cosmologia Guarani, falam que existe água grande embaixo e em cima. Em cima, segunda camada, seria a Terra. Mas a Terra não é a Terra como a gente imagina. É um corpo, é um corpo feminino. E a terceira camada, que seria o céu, o ar que a gente respira, que é a divindade dos homens. Mas entendemos que tanto o feminino quanto o masculino e todos esses elementos da natureza é único. Como se estivessem todos juntos.
Temos o corpo masculino e feminino ao mesmo tempo. Porque o nosso respiro, que representa a divindade dos homens, que é o ar, é o nosso respiro, que tem a ver também com o nosso espírito. É uma complexidade, mas eu estou tentando trazer isso.
E aí por isso a ideia de hendu. Hendu quer dizer que a gente sente algo na nossa carne. É diferente eu falar sobre e “escutar”, em português. Escutar como se fosse escutar no meu ouvido, e aí só o meu ouvido que tem função de escutar. Na verdade, não. Para nós, escutar quer dizer hendu. Para nós hendu é completo. A gente sente na nossa carne. Sentir é a mesma coisa que escutar. O sentimento tem a ver também com a questão do escutar. E aí; por isso que é muito importante quando falamos sobre arte e conhecimento e discutimos a possibilidade de nossa sabedoria sem a Terra. Porque ela é parte, ela é o conjunto do todo, mas, muitas das vezes, escuto [pessoas falando sobre] cultura e natureza como se fossem separadas. Mas não. É o nosso próprio corpo. Nós somos a natureza. Nós somos o território. Nós somos o espírito.
Aqui estamos construindo o tekoa, que é o território construído através da escuta, do entendimento, da negociação. A gente vive dessa negociação com o outro. Não são todos iguais. Então, isso requer muita escuta. Mas escuta com sentimento. Não é só escutar com o ouvido. É escutar e você também sentir aquela dor que o outro também às vezes sente. Por isso que nós, indígenas, de modo geral, sempre lutamos pela questão do território. Porque sabemos que é também nosso corpo que está sendo ferido. Principalmente o corpo feminino. Eu defendi recentemente na minha tese de doutorado uma chamada para as mulheres retomarem nosso corpo enquanto mãe. Quando eu falo mãe, não estou falando de mãe que pariu filho. Estou falando enquanto mulher. Que precisamos retomar esses nossos corpos que sempre foram violentados pela questão ocidental e pelo patriarcado. Não estou falando apenas de um corpo humano só. Estou falando como todos. Eu faço essa chamada às mulheres para que todas nós estejamos unidas, de fato, para resistir a essa destruição, a essa violência contra nosso corpo enquanto território, enquanto terra, enquanto mãe.
- Sandra Benites

Landguages (neologismo)
- Conjunto de formas de linguagem que se criam na relação entre território, clima e corpo. Diferentemente da ideia de “língua” como sistema abstrato, landguages designa modos de expressão moldados pelas condições materiais de uma paisagem — sua aridez ou umidade, seus ritmos ecológicos, seus regimes de vento, solo e água.
- No contexto da pesquisa Dehydrated Landguages19 o termo refere-se às linguagens que nascem de territórios em processo de aridificação, como o sertão brasileiro e as paisagens semiáridas da Califórnia. São linguagens marcadas pela economia, pela secura e pela redução formal, nas quais o ambiente influencia diretamente o ritmo, a sintaxe e a imaginação.
- Conceito que propõe pensar linguagem não apenas como produção humana, mas como um campo relacional entre humanos e mais-que-humanos, no qual paisagens, solos, plantas, animais e atmosferas participam da produção de sentido.
- Jogo etimológico entre land (terra) e languages (línguas), sugerindo que cada território fala — e que aprender a escutar essas falas é também uma forma de reidratar nossos modos de perceber o mundo.
- Jorge Menna Barreto
Maresia
Maresia é a nuvem de sal transportada pelo vento das ondas do mar para a costa. Corrói metais. Oxida estruturas no litoral. No patoá da galera, maresia significa preguiiiiiiçaaaaa…
Da fresta abriu-se mundo. O desejo antigo de conhecer os mistérios da Mystérios deu uma sensação conhecida quando adentrei o casarão-oceano. Uma roda, tal qual movimento de marés. Entendi que as pernas de pau são os impulsos pra respirar fora d’água. O cheiro da maresia entrava lá da frente e me encontrava pelos vãos da casa.
Foi ali que tudo se assentou dentro de mim, percebi que era uma espécie de (re)encontro com gente que poderia ser minha-gente de longa data. Quase como um lugar conhecido, imaginado. A casa-corpo, o chão-coração.
De novo o cheiro… Mar é quando o sal tempera as veias. É m(ãe)ar.
Mar possui corpo. Corpo é transe na água. Nas profundezas abissais, quem emite luz própria faz da escuridão casa. No Mar Morto gente não afunda. O mar cura. Eu saro, tu saras. Yeye Omo Eja, Mãe Cujos Filhos São Peixes. A maresia é o perfume sensual das algas, chega em nós onde quer que a gente esteja. Nos invade. A gente deixa.
Mar sempre será um convite. Do mundo abriu-se a festa.
- Danielle Pena

Micélio e mistério
Conseguimos muito potencializar o trabalho, um curta-metragem sobre a Companhia [Companhia de Mystérios e Novidades], através de uma coisa que eu acabei descobrindo quando eu estava fazendo, que depois chamaram no simpósio que teve lá de Museu Metabólico.20 Mas, na real, esse desenho do filme e também a própria produção dele tem a ver até com as colmeias, com todas as coisas coletivas, é um micélio onde várias coisas se cruzam e se potencializam e se desdobram em outras. Aí também [acredito] que não existem coincidências, estamos juntos nesse coletivo, nessa vibração, nessa energia. Então é isso, a palavra para mim é micélio e mistério. É mistério, é a dama do tempo.
- Cesar Oiticica Filho
Paciência
Quando iniciei o mestrado em Artes Visuais, na UFRJ, a minha orientadora foi a Berta Ribeiro. Ela entendia que a arte e a estética entre as comunidades indígenas por ela pesquisadas estavam ligadas inteiramente ao cotidiano, à memória e à vida social. Estudando como se referiam à produção que eles faziam, que nós chamamos de estética, Berta dizia: “não existe palavra para isso. Entre os indígenas, não existe o artista. Mas todos sabem aqueles que se expressam mais claramente, executam melhor um objeto. Não existe, mas todos sabem”.
Na apresentação de seu livro Arte indígena, linguagem visual, de 1989, Berta Ribeiro destaca que o que chamamos de arte impregnaria todas as esferas da vida do indígena brasileiro, refletindo um “desejo de fruição estética e de comunicação de uma linguagem visual”.
Como comentam Lúcia Hussak van Velthem, Bianca Luiza Freire de Castro França e José Ribamar Bessa Freire, no artigo em homenagem ao centenário da autora, “Berta Gleizer Ribeiro e as artes das vidas amazônicas”, publicação online na Biblioteca Digital Curt Nimuendajú, “o que é pontuado é o fato de que a atividade ritual, a partir de seus conteúdos simbólicos e estéticos, conforma e comunica uma identidade pessoal, social e étnica do indivíduo que se expressaria como uma linguagem”.
Então, eu acho isso muito interessante, e, em relação ao dito anteriormente por outros aqui neste debate, vivemos num período complexo e difícil, em que quase tudo tem uma dimensão narcísica, voltada para os interesses individuais. Por outro lado, existe também uma grande disposição para a tessitura de redes, para as atividades colaborativas, para a dimensão coletiva do fazer artístico.
Levando isso em consideração, penso que a minha palavra, para a Revista Mesa e para esse ato, é paciência. Porque tem que ter muita paciência para buscar as pessoas, falar, organizar os projetos. Portanto, destaco a dimensão ativa que também é contemplada pela palavra paciência, que acentua a ideia de resistência ativa.
Também acredito que não existe uma palavra. É tudo soma. Pensando nesse glossário, elas vão dar inspiração, levar a reflexões e, mesmo assim, não será conclusivo, porque nem sempre as palavras existentes dão conta. Mas confiamos que, entre os participantes da comunidade envolvida neste projeto, “todos sabem”. Então eu vou deixar a palavra paciência. E parabéns, porque é incrível, a Revista vai ganhando uma substância a cada nova edição, é uma honra, um orgulho, e tudo isso de saber que vocês, Guilherme e Jessica, estão ali, estão ali nessa luta cotidiana.
- Angela Mascelani

Posso ser quem eu sou
O Guilherme [Vergara] me soprou a minha palavra. Essa palavra-composta, que fala de um momento estelar. Dentro da minha trajetória, tem um momento absolutamente chave, que é um encontro com [a coreógrafa e bailarina] Graciela Figueroa, que é a minha mestra de sempre, para sempre. Eu sou mineira do interior, então isso também fala muito da minha maneira de estar no mundo. E Graciela, através dela, do modo como dança e se move no mundo, eu entendi que eu posso ser quem eu sou. Mesmo que eu tivesse 17 anos e não soubesse exatamente o que isto queria dizer… Muitos anos depois, eu encontrei um cartão que eu tinha escrito para ela [Graciela], e no cartão estava escrito: “posso ser quem eu sou”. Era uma foto do Mick Jagger, a quem associo ainda muitíssimo à Graciela, sua beleza, irreverência, loucura. Eu não tive coragem de enviar pra ela, mas encontrei essa declaração escrita e digo: foi realmente um momento estelar, um momento de abertura, de expansão. E esse encontro também com a Companhia de Mystérios e Novidades, com a Lígia [Veiga — diretora artística da Companhia] e o Grupo Coringa, que Lígia também fazia parte.
O Grupo Coringa foi um grupo de dança criado nos anos 70. Eu os conheci, na verdade, em Minas. Eu fazia dança moderna lá e Graciela [que era líder do grupo] foi montar, dirigir um espetáculo com esse grupo. E ver aquela maneira de trabalhar, de dançar, eu olhei aquilo e falei: “é isso que eu quero fazer!!! É esta dança!”. E vim para o Rio através dessa história. E o Grupo Coringa era absolutamente revolucionário e novo. Cada coisa era um acontecimento, enfim, um grupo de dança inédito. E Lígia fazia parte desse grupo e nos cruzamos nessa época. Depois ela saiu, viajou, e eu segui trabalhando com o Coringa. Alguns anos se passaram e, em um encontro do Rio Aberto21, no México, nos reencontramos. Rio Aberto é uma escola de desenvolvimento humano através do movimento, através do corpo. E eu sinto que é esse corpo, essa escuta que sente, né? Isso ressoa muitíssimo com o trabalho, que é uma ideia de um processo de trabalho através do corpo que eu acho que reaviva isso. Essa escuta integral, essa escuta do corpo, essa escuta sensível, como a gente está falando aqui. E, no reencontro com a Lígia, venho trazendo esse trabalho do Grupo Coringa e Rio Aberto para a Companhia de Mystérios. Então eu entro na Companhia nesse lugar da preparação corporal, da prática do corpo, também para a arte e, mais que tudo, para o coletivo. Porque o Rio Aberto tem essa marca do coletivo, do grupo, da tribo. Esse corpo tribal, esse corpo que pertence, esse corpo que afeta, que é afetado, que vai se formando, através dos encontros, através dos desencontros.
Coincidentemente ou não, voltamos agora com o Rio Aberto, com essa escola do Rio Aberto, num encontro que vai acontecer no Rio de Janeiro no final do mês de outubro de 2025, essa escola que agora está em muitos lugares do mundo, em vários países. Nesse encontro serão oferecidas ao público, gratuitamente, 40 oficinas, que serão ministradas por diferentes instrutores de oito diferentes países. É um momento bem importante de recuperar, de trazer esse trabalho de novo para o Rio, que é um trabalho que já existiu aqui, essa escola que já atuou aqui. Nasceu aqui do encontro do Coringa com a Maria Adela, criadora deste sistema. Eu me afastei depois de 20 anos, o grupo foi se desfazendo. Enfim, cada um foi trabalhando por sua conta, sempre a partir desse trabalho, dessa escola, e agora a gente está reunindo de novo esse grupo e outras pessoas — Laura [Pozzana] que está aqui também, mais recente, dentro do trabalho, uma alegria que você esteja aqui. E estão todos convidados a conhecer, a participar desse encontro e desse novo momento. Eu acho que é um trabalho que conjuga muitíssimo tudo isso que estamos falando, sobre grupalidade, sobre um corpo sensível, sobre um corpo que escuta.
- Marília Felippe
Radiocoreografia
Esse chão, essa Casa da Companhia de Mystérios e Novidades é uma casa em que eu me sinto muito acolhida. Sou parceira da Casa e já tive o prazer de participar de alguns espetáculos da Companhia. Bom, minha contribuição para a Revista partiu de uma roda de conversa promovida na UFF, na qual eu participei com Tania Rivera e Caroline Valansi, sobre nossa experiência dentro do presídio feminino Talavera Bruce. O projeto [Corpo, Gesto e Afeto] está interrompido agora, mas, por um ano e meio, iniciando em 2023, aproximadamente toda semana trabalhamos no presídio com duas celas específicas: [Seguro (mulheres que cometeram crimes hediondos) e mulheres grávidas]. No projeto tínhamos esse desejo de trabalhar junto ao corpo das detentas, de criar algum contato, alguma aproximação com corpos privados de espaço. Queríamos trazer essa possibilidade de pensar o espaço dentro daquele lugar, pensar o corpo, trabalhar a escuta.
Sou bailarina e tenho formação em Balé e Dança Moderna e pela Escola e Faculdade Angel Vianna. Venho trabalhando com dança há 30 anos. Quando conversei com a Tania, eu propus que a gente levasse alguns objetos que fossem dispositivos de sensibilização e de escuta para aqueles corpos. Então, iniciamos esse trabalho, que foi muito bonito, levando bolas de tênis para sensibilizar a pele, acordar a pele daqueles corpos tão sem energia. E fomos descobrindo junto delas alguns outros objetos que poderíamos usar como dispositivos de escuta e sensibilização. Tivemos também nesse projeto a participação de algumas alunas dos cursos de Dança da UFRJ, onde eu sou professora, e do programa de Pós-graduação em Artes da UFF, como a Carol, que trouxe muitos materiais interessantes, como papéis, tecidos. Ficávamos com o desafio de como trazer uma relação de peso, de despertar a pele e as costas, de acionar aqueles corpos no seu sentido mais tridimensional. Então, o nosso texto na Revista está dentro desse contexto, e daí surgiram vários conceitos relacionados à ideia de “coreoescuta”.
Simultaneamente, eu fiz um projeto com uma outra bailarina aqui do Rio de Janeiro, a Laura Samy. Fomos contempladas por um edital da Funarte para desenvolver uma convivência num outro presídio aqui do Rio, que é o Oscar Stevenson. Fizemos uma intervenção artística lá, propondo gravações a fim de desenvolver o que chamamos de radiocoreografia, uma espécie de dispositivo artístico que a dança dispôs em tempos de pandemia para estruturar uma coreografia constituída de voz, som, ruídos e música em forma de dança, sem imagem. Uma dança para ouvir e não para ver. Dentro do presídio não podemos entrar com celular, não podemos entrar com nada, mas conseguimos entrar com um gravador. Os materiais eram todos muito revistados, às vezes deixavam entrar, às vezes não. A entrada no presídio era muito complexa. No Oscar Stevenson conseguimos realizar cinco encontros e fazer gravações dentro do presídio. Eu e a Laura montamos a radiocoreografia Aparte, em parceria com o Rodrigo Maré, que é um parceiro aqui da Casa de Mystérios também, um músico maravilhoso. Ficamos durante cinco semanas indo toda segunda-feira, chegando às nove horas da manhã e saindo às cinco da tarde do presídio, e fomos propondo pensamentos, histórias, movimentos e gravando esses materiais. Depois criamos essa radiocoreografia, que era o modo como a gente trazia essa experiência de estar com elas e também trazer a voz delas nessa outra mecânica relacional.
Diferente do Talavera Bruce, o presídio Oscar Stevenson é muito apertado. A sala onde trabalhamos é do lado de uma das celas (a do Seguro), então a sonoridade era puro ruído: um som constante e muito agressivo. Dentro dessa sonoridade difusa e violenta, inserimos algumas palavras e alguns textos que foram criados junto com elas. Tudo isso está em Aparte. Levamos muitas imagens, mostramos vídeos de algumas coreografias, e propusemos dinâmicas de escrita. Assim, fomos tecendo e criando histórias. Lá dentro, descobrimos uma mulher que tinha uma relação muito forte com a escrita, que escreveu vários livros, então ela liderou alguns textos importantes que utilizamos ao longo da prática de montagem da radiocoreografia. Isso se junta à ideia de “coreoescuta”, proposta pela Tania. É uma abordagem que se relaciona a uma forma de comunicação pela escuta de corpos que a princípio não têm essa abertura de antemão. É preciso um trabalho regular, apesar de muitos altos e baixos, para que a gente possa criar algum acesso a esses corpos privados de espaço e de vida e tocar neles. Achamos que teriam uma resistência muito forte, mas fomos entendendo que elas tinham muito prazer quando tocávamos no corpo delas. Propomos, um dia, andar de olhos fechados segurando a mão uma da outra; uma prática simples, mas que teve grande repercussão no corpo e na presença delas. Então a radiocoreografia seria essa circunscrição de pensar uma coreografia que se dê em termos de um corpo sensível, por uma nova relação com o espaço, entendendo, assim, o espaço privado de espaço como um espaço de criação, uma outra forma de fazer arte, ou de estar ali convivendo artisticamente.
- Alice Poppe
Reparação
“Não sei fazer justiça.”
Stella do Patrocínio
Peço licença à Stella para, através de sua fala, compartilhar um pouco do que nos mobiliza politicamente no Museu Bispo do Rosario. Me chamo Diana Kolker, sou responsável pelo projeto político-pedagógico institucional desde 2017 e foi desse lugar de responsabilidade que fui convocada pelo falatório de Stella do Patrocínio. Sua escuta me lançou questões que impactam diretamente o projeto político que desenvolvemos.
O Museu Bispo do Rosario fica localizado na Colônia Juliano Moreira, no Rio de Janeiro, onde funcionou um dos maiores complexos manicomiais do país e hoje atua o Instituto Municipal de Assistência à Saúde Juliano Moreira (IMAS JM). Não por acaso, o Museu nasceu nos anos de expansão da Luta Antimanicomial e de reabertura política após o período de ditadura — inicialmente com o nome Museu Nise da Silveira e, em 2001, ano da Lei da Reforma Psiquiátrica, passou a se chamar Museu Bispo do Rosario Arte Contemporânea, adotando o nome do autor da principal coleção de seu acervo, produzida entre 1939 e 1989, durante sua internação. O museu é responsável pela guarda da obra de Bispo do Rosario e de outras pessoas que foram institucionalizadas naquele contexto. Stella do Patrocínio foi compulsoriamente internada pelo Estado em 1962, sendo transferida para a Colônia Juliano Moreira em 1966, onde permaneceu até sua morte, em 1991. Naquele contexto foram gravados os áudios que hoje chamamos de falatório, conforme nomeou a própria autora. O museu compreende, desde 2013, que para além da guarda e exibição de seu acervo material, tem uma grande responsabilidade com relação às memórias daquele lugar e com a produção de novas práticas éticas e estéticas no campo da saúde, da arte e da educação.
Abordamos essa memória criticamente, não para enaltecer ou romantizar o passado local, visto que compreendemos o manicômio como uma violência do Estado. Devemos conhecer esse passado para que ele não se repita. A sociedade e o Estado devem reconhecer o mal feito como ação clínico-política de reparação simbólica.
Por muito tempo o museu não teve acesso aos áudios do falatório, e a pesquisa dessa nova geração está sendo muito importante para trazer essa escuta para uma esfera pública e institucional. A partir de sua escuta, nos vimos diante de um conjunto de questões: quais tensionamentos éticos a escuta do falatório de Stella impõe ao museu e ao IMAS Juliano Moreira? Como escutar Stella? O que fazer dessa escuta? Como nos posicionar diante do falatório sem reencenar as violências que Stella denuncia? É possível fazer justiça?
Um ponto de partida fundamental é que a instituição desconfie de si mesma. Essa desconfiança é importante para evitar ou, ao menos, diminuir a repetição de certas violências. Não existe possibilidade de reparação, nem de justiça para Stella. “A dívida é impagável”, como diz Denise Ferreira da Silva. Mas existe, sim, uma responsabilidade — no sentido de sustentar um desejo reparatório. E foi nesse caminho que a gente realizou, ao longo desses anos, uma série de ações: como parte de um movimento que tenta, de algum modo, se aproximar de algo que possa ser chamado de justiça em relação à história de Stella.
Em 2020, Jessica Gogan mobilizou o grupo “Constellação”, uma ação que reuniu as pessoas que estavam envolvidas na oficina de livre criação realizada nos anos 1980, na Colônia Juliano Moreira. Nessa ação, também participaram Anna Carolina Vicentini Zacharias, Tania Rivera, Diane Lima, Jota Mombaça, eu e a antiga diretora do Museu Bispo do Rosario, Raquel Fernandes. Em 2021, realizamos, com a curadora Diane Lima e a filósofa Denise Ferreira da Silva, um grupo de estudos que convocou artistas para uma escuta crítica, uma interlocução e uma reverberação a partir do falatório.
Em 2022, realizamos a exposição “Stella do Patrocínio, mostrar que não estou sozinha, que tem muitas iguais, semelhantes a mim e diferentes”,22 que contou, além do falatório que foi apresentado em seu formato original, sonoro, com o trabalho de artistas que, a partir dessa escuta encarnada no corpo, produziram obras mobilizadas pelo falatório.23 E foi no contexto da exposição que realizamos o evento “Ensaio de escutas”, com Anna Carolina Vicentini Zacharias, Sara Ramos e Natasha Felix24.
Na exposição organizada pela nova equipe curatorial do museu, no marco dos cem anos da Colônia Juliano Moreira, em 2024, o falatório de Stella foi uma das principais referências metodológicas para a elaboração das ações que marcaram o centenário, e muito mais: vem orientando a concepção curatorial, política e pedagógica da instituição.
Também não sabemos fazer justiça, Stella, mas buscamos.
- Diana Kolker

esquecer e assim, percebi, lembrar é um esforço. Lembrar é força ou contraforça? 2025.
Colagem, bordado e acrílica. Foto: Alex Motta / Museu Bispo do Rosario
Reescrita
Eu sou Taísa Vitória, artista e educadora do Museu Bispo do Rosario. Comecei a trabalhar no museu com a exposição de Stella do Patrocínio em 2022.25 O falatório da Stella foi o que me ensinou, que me contou a história de como era aquele lugar, de quem era aquela mulher e de tudo o que ela passou ali, mas principalmente do que ela passou fora, dessa vida antes do manicômio ou fora do manicômio. É uma escuta exaustiva, porque é uma dureza, tem muito sofrimento ali.
E aí saio do museu e retorno em 2024, no momento que já tem essa nova equipe de curadoria que está produzindo a exposição “100 anos da Colônia”, e surge a oportunidade de fazer um trabalho de colagem, que é a linguagem artística com a qual eu trabalho principalmente. Eu tenho um processo de pesquisa que é adentrar o arquivo da instituição e ter contato ali, ler um pouco, captar fichas de observação de mulheres que estiveram internadas: prontuários, receituários, anamnese, um pouco de tudo. Um dos critérios que eu usei para olhar para essas fichas foi o ano de nascimento das mulheres na minha família. Faço isso porque, conhecendo a história da Colônia Juliano Moreira, mas de outros manicômios também, sempre pairou uma sensação de que podia ter sido eu se fosse numa outra época. Eu tinha esse sentimento e quis pensar nesse trabalho a partir desse atravessamento. Nesse processo me deparo com muitas histórias e muitos motivos. E também muitos não motivos, muitas faltas de história e de dados. Enfim, muitas ausências, vazios e lacunas. E aí me chega uma história de uma mulher. Prometi para mim mesma que eu não iria esquecer seu nome. Eu esqueci, mas, enquanto eu estava produzindo esse trabalho, eu ainda me lembrava. Foi uma série de colagens que envolvia escrita. No final chamei a série de Eu não vou te esquecer (2024), por conta desse compromisso. E aí, um ano depois, tem uma nova exposição no museu, “Regresso ao Sertão”26, e eu recebo mais um convite para participar enquanto artista. E aí eu vou nesse acúmulo, eu esqueci aquela mulher, o nome dela, [mas] não a história..
Tem um outro ponto: eu sou educadora. Lido com os mais variados grupos nas exposições. Jovens que muitas vezes não entendem e não querem ler. Lembro de um grupo de crianças que faziam uma atividade de caça-palavras, tendo a sua busca feita dentro da galeria expositiva. Um dos grupos pegou a palavra “Stella do Patrocínio”. Nessa busca, encontraram uma das latas espalhadas na exposição com a reprodução do falatório de Stella e então perguntaram: “Esse é a arte da Stella?”. Tive que me virar nos trinta e falar sobre Stella, mas principalmente pensar o que era a arte de Stella. Porque [geralmente] falamos de linguagens artísticas que são principalmente visuais. Então, o que significa escutar primeiro enquanto arte? Se Stella tem uma arte, a arte dela é o falatório. Então vamos escutar. Mas como acessar isso? Não sei se acessibilizar é a melhor palavra no sentido de que não estava acessível, mas tornar palpável, assim, dar corpo e pensar e brincar com as formas. E aí me lembrei de um projeto que a Sara
[Ramos] faz com lambe-lambe na cidade, pegando frases de Stella e colando em diversos lugares. Então posso ver Stella em vários lugares, em vários formatos. Então, começo a pensar a partir desses formatos como eu posso, enfim, tangibilizar isso.
Enquanto artista, eu acho que tenho essa licença poética de fazer e de experimentar com diferentes formatos. E aí eu pensei num exercício que envolve escrita, que eram cartões-postais muito pequenininhos. E fazia sentido para a proposta trazer as mulheres da minha família, da minha vida. Elas precisavam de mais espaço, espaço físico mesmo, tamanho, precisava aparecer para elas mesmo. E essa série se chama Eu prometi não te esquecer e assim, percebi, lembrar é um esforço. Lembrar é força ou contraforça? (2025). Tal como resgatar aquelas fotos de Stella que a Anna [Carolina Vicentini Zacharias] disponibilizou para a gente, que não são as fotografias do manicômio. Tem a Stella jovem, fora do asilo. Inclui essas imagens no meu trabalho de colagem com vários rostos de mulheres pretas. Vejo minha experiência como situada em um outro momento. Pensar em Stella é a partir também das referências que vocês [Anna, Sara, a política pedagógica do museu] construíram, esse caminho para que eu pudesse chegar até aqui e ter um contato com isso, com Stella, o falatório, mediado por esse espaço, pelo museu, pela mediação, pela tensão. E é isso. Então, minha palavra é reescrita. Reescrita.
- Taísa Vitória
Resistências
A palavra central que acho que representa boa parte da esquerda do país nesse momento e para mulheres e a população de favela é resistências. Assim mesmo no plural. Vou falar da trajetória da Casa Resistências. Tudo começou com um desejo de sonhar, de viver, de amar mulheres, de amar a favela. A coletiva resistência lésbica da Maré carrega no próprio nome a força de uma fissura que abre o chão da Maré, erguido por migrantes, e alcança as águas da Baía da Guanabara. Saudamos a terra com reverência e moldamos as águas no feminino. A força da mulher, da sapatão, das heterossexuais, da amizade entre mulheres no coração da favela — um lampejo de passado e futuro pede passagem. Desde 2017 até os dias atuais, esse é o trajeto da Casa Resistências, erguida na encruzilhada da Vila do Pinheiro, Complexo da Maré, que se contamina com a alegria e liberdade do território favelado. Ergue-se, assim, enquanto grande quilombo. A Casa Resistências é a primeira casa em território favelado voltada ao acolhimento sapatão, sapatrans. São oito anos de luta. São mais de 1.500 mulheres atendidas. Ao mesmo tempo, são oito anos de enfrentamento à necropolítica de Estado e à lesbofobia. Neste tempo, enfrentamos também, ao todo, 218 operações policiais. Perdemos Marielle Franco enquanto uma de nós, mas, ao mesmo tempo, ganhamos sementes que incansavelmente lutam junto conosco pela garantia da vida da mulher sapatão favelada. Neste tempo, recebemos também muitas moções de reconhecimento do nosso trabalho, medalhas importantes que abrilhantaram a luta, mas o mais importante de tudo isso é que ganhamos amigas e amigos no Rio de Janeiro, no Brasil, no mundo afora, EUA, Alemanha, Portugal e por aí vai. Cada elo dessa corrente importa.
O Emicida que me perdoe, mas eu digo com muita alegria que eu não sou a única representante do meu sonho na Terra. Digo com muita alegria a força da encruzilhada para as resistências da favela. Cada pessoa que chega à Casa Resistências ao longo desses oito anos contribuiu com o que tinha de melhor. E a Iazana [Guizzo, arquiteta, professora da UFRJ e coordenadora do projeto de extensão Floresta Cidade], que está aqui, foi responsável pelo projeto da primeira casa. A aluna dela, junto com sua orientação, foi responsável pelo projeto da segunda casa. Quando recebemos você [Jessica] e a Susan [Thomson, artista residente na 7ª edição da Revista], era um dia de alegria máxima para a favela. Era um dia de jogo do Brasil na Copa do Mundo. E eu fico muito feliz que vocês tenham nos conhecido nesse momento, onde a alegria, que é a nossa radicalidade, tenha sido o nosso elo, a nossa força.
O nosso acolhimento já recebeu diretamente à moradia mais de 180 mulheres. Boa parte dessas mulheres não eram do Complexo da Maré. Então, hoje a gente existe como um farol mesmo para um território favelado, e não só o nosso. Isso mostra a força das águas. E essa imbricação para a gente entre água, terra enquanto território e um território corpo é muito importante. Porque o Complexo da Maré foi erguido em 1940 pelas mãos de migrantes do Nordeste que vieram para trabalhar e construíram a Avenida Brasil. Isso para mim é uma simbologia máxima de um Exu. Você vem em retirada de um território e você vem para construir mais encruzilhadas. Os homens iam construir a Avenida Brasil e as mulheres construíam o território. As nossas mulheres aterraram o chão. Depois, no final dos anos 50, 60, veio o processo do vira-laje, que era um processo comunitário de bater laje nas casas de alvenaria que era feito à noite, porque, de manhã, estava todo mundo construindo a rodovia. À noite estava todo mundo em casa e todo mundo ajudava — criança, adulto —, mas tudo organizado pelas mãos das mulheres.
E o Complexo da Maré tem essa energia. Não que os homens não tenham a sua importância, mas a centralidade das lutas é das mulheres. Quando a gente pega enfrentamento à violência de Estado, sobrevivência e todas as resistências, elas vêm pelas mãos das mulheres. E eu fico muito feliz de habitar essa fenda, de poder saudar a Mãe Terra, mas também poder saudar Nanã, saudar Iemanjá, que rege as nossas águas, saudar Oxum. Vou encerrar usando esse espaço [para falar que] nossa defesa radical pela Luta Antimanicomial, que é o nosso marcador, não nos permite terminar sem saudar a Palestina, sem saudar Gaza. Verdade para a Palestina, liberdade para todos os habitantes da Terra. Saudações faveladas.
- Dayana Gusmão
Respeito
Como neném aqui na Casa Resistências, acho que a palavra que me vem é sempre acolhimento, cuidado, mas também respeito. Porque é um lugar que eu me sinto segura. É um lugar sempre muito especial. É sempre muito acolhedor trocar, conversar, dar aula de yoga aqui pra todo mundo. É muito bom. E é muito bom ter os meninos aqui agora, os meninos trans, por incentivo da Day [Gusmão, coordenadora da Casa]. Então, é isso, respeito. Para mim é muito respeito.
- Maria Carolina

Roda
Muitas palavras me vêm à cabeça, mas eu acho que essa imagem da roda, que é uma imagem que dá ponto, um pouco, pra Revista, dos processos sempre terminando numa roda. Acho que isso dá a dimensão desse lugar, de acreditar nesses outros formatos de coletividade. É muito interessante, Carla [Santana, artista com ensaio visual na Revista Mesa], você ter trazido a ideia da coletividade, a ideia de um piseiro, de uma casa de marimbondo, ou seja, todas essas ideias de coletivos, né. E aí eu acho que sobre a nossa vaidade, o nosso Narciso não tá no outro, tá dentro da gente, fortissimamente, e enfim, sempre temos que trabalhar internamente pra gente permitir esse ambiente da coletividade, então acho que, enfim, a roda, roda.
- Lucas Van de Beuque

Segurança
Vejo o mundo aqui em segurança. A palavra de Deus sempre está na minha cabeça. Porque eu acho que é um espaço que eu deixo o sentimento de segurança. Agradecer à Camila [Felippe] que sempre, em todos os momentos, apoiou todas as meninas trans, e a Day [Gusmão], por esse movimento lésbico e abrir para as pessoas trans, porque é bem difícil. Nós somos mulheres, mas ainda existem pessoas que não vão aceitar trans. Eu sei que a Day sofre uma mágoa com isso, por acolher as mulheres trans naquela casa, e não é só eu, também outros meninos, que fizemos parte de vários cursos daqui. Eu também comprei esse espetáculo e hoje eu vou ficar tendo muito aprendizado com esse espetáculo. Eu vou tentar muito isso. E o que eu acho que é seguro é multiplicar o que você está vendo. É multiplicador, é ensinar as pessoas, porque a gente não sabe o que está acontecendo às vezes, e você passa por coisas que às vezes você não sabe como dirigir o jogo. E ter um lugar seguro, eu acho que para a gente, LGBT, é o mais importante. É um lugar que você pode vir, você pode ficar, você pode fazer tudo. Ninguém vai falar nada, todo mundo vai continuar. Para essa louca mesmo, bota ela em casa, por favor. E é isso, entendeu? É isso que a gente quer. Que ela faça a estreia na segurança. As pessoas da favela podem ir e contar com essas casas. E ter uma casa que nos acolha, que a gente venha, estamos acolhidos, e depois a gente volta, e volta, e volta, e sai, e volta, isso é muito importante para nós. Muito obrigada, Day, e a todos os que estão aqui. É esta foto que é a mais bonita [apontando para seu retrato na exposição das fotos na Casa do ensaio visual “Qual é o chão que piso?”].
- Lohana Karla

Tecnologias da terra
Sou a Carla Santana. Eu fui convidada a contribuir com um ensaio visual para a Revista a partir da minha experiência no programa de residência artística no Sertão Negro, iniciativa concebida pelo artista Dalton Paula e pela Ceiça Ferreira. Ele está localizado em Goiânia. Inaugurei esse programa em 2023. Hoje, em 2025, o Sertão Negro já expandiu de muitas maneiras. É uma ideia utópica em termos de pensamento político e artístico, porque, como eu disse no ensaio, eu cheguei lá com uma mentalidade de uma semente e saí com pensamentos do tamanho de um jatobá, pensando a minha produção artística na sua mais variada multidisciplinaridade.
Tinha elegido o elemento terra enquanto protagonista da minha prática e da minha pesquisa e, no Sertão Negro, tive a experiência de visitar o Quilombo Kalunga, que fica em Cavalcante, que é na Chapada dos Veadeiros. E o Dalton me induziu e me deu a segurança de começar o processo de coleta de materiais terrosos. Até então, eu já não trabalhava com pigmentos industrializados, mas ainda não tinha essa prática da coleta. E nessa experiência com o Dalton e com o Ceiça, que foi a pessoa que me conduziu pelo território, começo esse apanhado desses materiais. E, com isso, meu trabalho se expandiu para esse pensamento, não só da matéria, mas também pelo território. Quando eu faço essas coletas, sempre vem uma pessoa, alguém do meu lado que me induz a fazer as coletas: “olha essa cor”, “que bonita”, “pega”. Então tem essa relação, e meus potinhos têm o nome do território, mas também o nome da pessoa que me leva até esse material.
Um elemento que me fascinava era observar a casa dos animais. O que para mim foi o mais chocante [foram] os condomínios de cupinzeiros gigantes. Eu já estava num processo de pesquisa escultórica com a argila, com a cerâmica, e eu ficava pensando na tecnologia dos animais em transformar a natureza, e como essa tecnologia está ligada a uma ideia de subsistência, de como os seres humanos, observando a natureza, esses animais e essa tecnologia, começam a dimensionar e a criar suas próprias tecnologias. Então, eu comecei a fazer essa relação entre os cupinzeiros e as arquiteturas vernaculares. Quando eu fui para a comunidade Kalunga, essa relação era visível, porque todas as casas eram feitas de bambu a pique. Tinham aqueles cupinzeiros gigantes e as casas de bambu. Assim pude ver como transformar os elementos para a nossa subsistência.
Minha pesquisa inicial era de observar essas casas de animais e também perceber o trabalho coletivo, como aquele cupinzeiro, não só o cupinzeiro, mas a casa de abelha, a casa de marimbondo, como eles são corpos coletivos, como todo mundo está ali empenhado para construir a sua morada. E pronto, eu chego lá querendo pesquisar isso e o Dalton começou a me instigar a pensar onde está o pensamento sobre a terra dentro dessa comunidade. Ceiça me ajudou muito nessa reflexão também. Me dei conta que estava na agricultura. As sementes quilombolas são muito importantes para a tradição daquela comunidade. Todos os anos eles replantam sementes de feijão e arroz. Eu vi como a terra para eles está ligada a essa ideia de agricultura, de continuação e perpetuação das sementes e das raízes quilombolas. E isso me levou a olhar para minha família. Meus avós eram agricultores. Então, tem essa dobra também da pesquisa, que é você se abrir para o mundo e para o seu universo interno. E aí, na volta dessa residência, eu vou vasculhar os arquivos e memórias da minha família e crio uma série [de pinturas] chamada Das mãos dos meus avós se plantava tudo que se come (2023). É uma ode a essa memória do povo preto que plantou toda a base alimentar brasileira que a gente consome até hoje. Então, nessa série, eu retrato milho, aipim, banana, que é a base alimentar, e como a população preta é esse motriz de toda essa ancestralidade e dessa base de subsistência. Então, a minha pesquisa foi pensar esse lugar de existência, como que a cultura é essa perpetuação de existência, seja nas casas, seja no alimento. E aí eu inauguro, no meu trabalho, esse processo de coleta e de uma coleção desses pigmentos que eu trago junto comigo pelos lugares que eu vou, e essa observação de natureza, porque, querendo ou não, todo lugar é único e me dá essas cores, essas matérias que são únicas. Então, minha palavra: tecnologias da terra.
- Carla Santana
Território
Agradeço ao Instituto Mesa e à Companhia de Mystérios por me receber aqui e, principalmente, à Casa Resistências pelo trabalho que estamos concluindo e lançando hoje com muito orgulho. Meu nome é Suellen Cloud. Nasci no Complexo da Maré, nas casinhas da Tijolândia. A minha trajetória começou quando eu fui para a rua. Quando eu conheci os movimentos que eu percebi que dava para se unir com outras pessoas através das nossas ideias. Isso aconteceu quando eu perdi um emprego, tive alguns problemas mentais, algumas crises e fui parar na rua, trabalhando como prostituta. Conheci movimentos como Puta Da Vida e comecei à noite a ir para alguns movimentos de cineclubismo. Isso em 2017, que foi aí que eu conheci o Favela Cineclube que atua aqui na Zona Portuária; começou na Providência e hoje a sede é aqui no Morro do Pinto. Foi essa ponte entre esse movimento do Complexo da Maré e Zona Portuária que eu circulei pelo Rio de Janeiro, pelo território do Rio e pelo território da Maré. Comecei a perceber a construção da Maré, essa construção antiga da Maré desse movimento de mulheres. Precisei ir para a rua [para] viver na favela. Dependendo do contexto e da família [em] que você vive, existe ali uma certa prisão porque você tem, às vezes, através da sua criação, um olhar limitado do seu próprio território, sem conseguir enxergar ele na sua verdadeira potencialidade. Foi o que aconteceu comigo e me trouxe novamente para reapresentar o meu território.
Então, acho que a minha palavra central de hoje é território. Como conhecer o meu território, as suas entranhas e a sua construção, foi importante. Mas foi necessário eu estar na rua, ir para os movimentos da rua para que eu pudesse conhecer. A partir disso eu comecei a pensar em partido, em movimento social, em ONG, mas ainda muito perdida sem saber como seria uma ferramenta útil. Foi quando, em 2023, eu fiz a escola de fotografia popular do Imagens do Povo que acontece no Observatório de Favelas. Convido vocês a conhecerem também, porque ali a gente conheceu a teoria do fotógrafo Ripper, que começou a circular pela Maré pelos anos 50 e 60, na construção mesmo, e ele tem fotografias importantes da época de construção da Maré, da Avenida Brasil e da Linha Vermelha. O Ripper, ele começou a trazer esse conceito do “bem-querer” na fotografia, onde o fotógrafo consegue construir sua fotografia através do sentir e ouvir [com as pessoas]. Aí foi esse processo de construir a minha fotografia através de sentir os movimentos, de sentir a luta de cada um de nós, que nos mobilizamos, cada um com as suas pautas. Esse sentir foi muito importante para mim — conhecer antes de clicar, antes de fazer a minha fotografia. Então, foi uma trajetória importante, e o convite para fotografar a Casa Resistências [e sua comunidade LGBT] veio do Imagens do Povo, me encontrando totalmente com minha trajetória na rua. Agora esses últimos meses acompanhei a Casa com mais frequência, mas a gente sempre se encontra na luta e eu sempre estive por ali. Conheci a Casa Resistências quando não havia casa e aí é interessante ouvir a Day trazer os dados, mas eu acho que esses dados estão subnotificados porque a Casa, antes de ser casa, ela já era ela, já tinha esse sentido de casa antes de ter fisicamente. Eu mesma já fui beneficiada, já fui atendida por vários projetos da Casa que trazem exatamente esse movimento de conscientização para nós, principalmente mulheres em contexto de favela. Esse empoderamento também é um movimento. A Casa Resistências sempre esteve ativa nesse movimento do corpo da mulher, do nosso ir, do nosso vir, e eu fiz vários projetos dessa movimentação do corpo. Vendo as imagens vocês vão entender melhor o que eu quis trazer de como é a energia e como se dá esse acolhimento na Casa para além dos números. O acolhimento é olho no olho, o acolhimento é no “vamos juntos”, e por isso que nesse momento foi superimportante.
- Suellen Cloud
Vivência
As fotos e as filmagens [filmes e apresentações da Revista Mesa, mostrados no evento do dia 13 de dezembro de 2025] retratam muito de um cotidiano que é bonito. Eu gostei que dentro do ordinário tem um pouco do extraordinário. Os artistas se colocam em vários lugares de fora, assim, ordinários da realidade. Então, eu achei todo um processo de registrar isso muito interessante. Fiquei pensando um pouco sobre os filmes apresentados sobre a Companhia de Mystérios e Novidades e o artista Zé Bezerra — os cineastas, por terem ido até onde eles efetivamente fazem as obras, conseguiram enxergar um pouco pelos olhos do artista, porque também é um ponto de colocar o olhar do artista dentro do filme, em vez de colocar só pontos de vista. Acabei de sair da escola, então esse pensamento tá um pouco preso na minha cabeça. É muito presente o questionamento de quem está falando, de qual é o lugar que falam. E como eu estou aqui, indo para a faculdade agora, estou pensando nesse lugar. Eu acho muito importante você ver quem está pensando para você definir um pouco do que você vai pensar. Porque também tem a coletividade do pensamento e das obras. As obras são feitas de forma coletiva e as ideias são construídas de forma coletiva. Então, eu acho essa experiência e essa imersão muito interessantes, ver a realidade e vivenciar essa realidade. Então, eu escolhi a palavra vivência para essa roda.
- Eloah Van de Beuque
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Programação
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Autores
Alice Poppe
Artista da dança, investiga o corpo e suas relações poético-políticas com o chão, o peso e a gravidade, em uma perspectiva híbrida entre dança e educação somática, através da Metodologia Angel Vianna. Doutora em Artes Cênicas pela UNIRIO e professora dos cursos de Dança da UFRJ, Alice vem atuando em diversas produções de dança contemporânea no Brasil. Seu último trabalho, Celeste, coreografado por Marcia Milhazes, estreou no Palco Carioca do Dança em Trânsito 2025.
Anna Carolina Vicentini Zacharias
Autora de Stella do Patrocínio, ou o retorno de quem sempre esteve aqui (Rio de Janeiro: Telha, 2024). Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Teoria e Crítica Literária Brasileiras, atuando principalmente nos seguintes temas: luta antimanicomial, arte, curadoria em museus, decolonialidade, monumentos e arquivos. Atualmente, é doutoranda em Teoria e História Literária na Universidade Estadual de Campinas.
Ana Luiza Nobre
Arquiteta, historiadora e professora do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da PUC-Rio. Coautora do Atlas do Chão (atlasdochao.org).
Angela Mascelani
Antropóloga, escritora e diretora de arte. Doutora em Antropologia pelo IFCS/UFRJ (2001). Publicou O Mundo da Arte Popular Brasileira (Ed. Mauad, 2002); Caminhos da Arte Popular: O Vale do Jequitinhonha (Museu Casa do Pontal, 2008), L’art populaire au Brésil et le musée Casa do Pontal (Brésil(s) Sciences Humaines et Sociales, 2021) e outros. Codirigiu os filmes Juazeiro do Norte, Ceará: arte, fé e festa (2014), com Lucas Van de Beuque e Artistas Cazumbas, vencedor do prêmio Pierre Verger, com Lucas Van de Beuque e Moana Van de Beuque (2019). Curadora de diversas exposições de arte popular e diretora e curadora do Museu do Pontal desde 1996. Idealizadora, junto com Lucas Van de Beuque, da nova sede da instituição, inaugurada em 2021.
Brenda Vitória
Favelada, educadora ambiental e pesquisadora. Graduada em Ciências Biológicas com bacharelado em Ecologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pós-graduanda em Planejamento Urbano e Regional pelo IPPUR/UFRJ. Atua em iniciativas ambientais e em organizações da sociedade civil a partir de uma abordagem de raça, gênero e território.
Camila Felippe
Mulher negra, lésbica e moradora da Maré. Graduanda em Odontologia (UERJ) com foco em saúde coletiva e sistema público. Fundadora da LAPERG-UERJ e vice-coordenadora da Casa Resistências.
Carla Santana
O trabalho de Carla Santana atravessa seu próprio corpo também como corpo social, pondo em vista as camadas históricas, materiais e culturais que a constituem. Ao entender a terra em suas diferentes camadas materiais e sensíveis, a artista organiza composições permeadas pelas noções de casa, abrigo e espaço comunal. Entre suas exposições individuais recentes estão: “morada, alimento e autoteoria” (Quadra, São Paulo, 2023) e “Poros e acúmulos” (Carpintaria, Rio de Janeiro, 2022). Dentre as coletivas, destacam-se exposições em instituições como MAC Niterói (2025), Inclusartiz (2024), Auroras (SP 2022) e Tanya Bonakdar (Nova York, 2021). Graduada em Artes pela UFF, adentrou o universo artístico a partir do teatro. É artista multilinguagem e também cofundadora e articuladora do movimento nacional Trovoa.
Carolina Rodrigues
É historiadora da arte (EBA/UFRJ), mestre em Artes Visuais pelo PPGAV/UFRJ e pesquisadora integrante do Núcleo de Antropologia, Patrimônio e Artes/CNPq. Atualmente, é curadora geral do Museu Bispo do Rosario e articula questões relacionadas às fronteiras do sistema da arte, relações étnico-raciais, territorialidade e gênero.
Caroline Valansi
Artista visual que atua entre arte, educação e saúde mental. Mestre em Estudos Contemporâneos das Artes pela UFF, investiga criação e experiências colaborativas, com destaque para o Ateliê Entreaberto. Sua produção aborda corporeidade, desejo e prazer, propondo a arte como ferramenta de transformação sensível. Seus trabalhos integram acervos da Bienal de La Habana, Museu de Arte do Rio, MAM Rio e a Biblioteca do IMS.
Cesar Oiticica Filho
Artista, cineasta e curador, formado em jornalismo, realizou o filme Hélio Oiticica, ganhador do Prêmio Caligari e Fipresci na Berlinale, do Festival do Rio, e FILAF, em Perpignan, França. Curador com Fernando Cocchiarale da exposição Museu é o Mundo (Prêmio ABCA/2010). Curador do Projeto HO [Hélio Oiticica] desde 1997, e diretor artístico do Centro Municipal Hélio Oiticica desde 2021. Criou, com Evandro Salles, a Parada 7 em 2022. Participou da Bienal de Havana (2015) e da Bienal of Moving Image (2014). Publicou livros sobre Hélio Oiticica e Mário Pedrosa. Suas mais recentes exposições são: Espaços Quânticos e Intervenção Quântica (em 2024/2025).
Danielle Pena
Danielle é de Mesquita. Criança de Muriqui, pés no chão entre galinhas e cabritos. É Ekede de um terreiro Jeje Mahi no Vilar dos Teles. Atelierista, escritora, arte educadora. Atualmente é oficineira de artes da ONG Mestres da Obra, além de atuar em projetos de promoção da saúde pela Cooperação Social da Presidência da Fiocruz, e continua desenvolvendo seus projetos pessoais no seu ateliê, onde quer que esteja morando.
Dayana Gusmão
É assistente social, formada pela UFRJ. Especialista em Gênero e Diversidade na educação, pelo NEPP-DH/UFRJ. Tem mestrado e doutorado em Memória Social pela UNIRIO. Fundadora da Coletiva Resistência Lésbica da Maré (2017) e da Casa Resistências (2022).
Diana Kolker
É graduada em História (PUCRS, 2008), especialista em Pedagogia da Arte (UFRGS, 2012) e mestre em Estudos Contemporâneos das Artes (UFF, 2018). Responsável pelo projeto político pedagógico do Museu Bispo do Rosario, desde 2017, onde coordena os programas de educação e o Ateliê Gaia. Atuou em projetos educativos, curadorias, formações de artistas e de educadores em colaboração com diversas instituições do país.
Eloah Van de Beuque
Terminou o ensino médio em 2025 e foi aceita na UFRJ em História da Arte, tendo como hobby o desenho e outras derivadas artes manuais. Participou recentemente de um estágio no bloco Pan-América Transatlântica, ajudando em sua produção. Participou, também, na escola em que se formou, Sá Pereira, das mesas literárias, onde debatia pautas sociais, políticas e estruturais baseadas nos livros lidos.
Erika Tambke
Erika é curadora, pesquisadora, professora e fotógrafa. Doutora pela Escola de Comunicação (UFRJ), e mestre em Cultura Visual (Birkbeck/University of London). Integrou a equipe de coordenação do FotoRio (2020-25) e foi coordenadora geral do Programa Imagens do Povo/Observatório de Favelas entre 2023 e 2025. Participa dos coletivos Favela em Foco e Fotografia Periferia e Memória.
Felipe Eugênio
É editor, historiador e sanitarista. Na Fiocruz, onde atua há 15 anos com pesquisa-ação, busca fortalecer insurgências populares por meio de experimentos literários, tais como a Periferia Brasileira de Letras e residências artísticas, onde desenvolve o conceito de Favelofagia.
Iazana Guizzo
Arquiteta e urbanista. Coordenadora do projeto de extensão, ensino e pesquisa Floresta Cidade da FAU–UFRJ, onde também é professora. É doutora em urbanismo, mestre em psicologia e formada em balé contemporâneo. A regeneração das cidades diante da urgência climática, a participação comunitária, a vida interespecífica e as cosmopercepções afro-ameríndias são temas de seu interesse. Atua no campo da arquitetura, urbanismo e arte e colabora com a Companhia de Mystérios e Novidades desde 2020.
Jialu Pombo
Artista-pesquisador trans e neurodivergente. Mestre em Artes Visuais (UFRJ) e doutor em Psicologia Clínica (PUC/SP). Pesquisa movimento, subjetividade e corpo, relações de processos de criação com práticas de cuidado, experiências sensoriais, criação de linguagens que potencializam as vivências dissidentes, e acessibilidade nas artes. Trabalha com fotografia, colagem, texto, costura e ações. Desde 2010 participa de exposições, residências e ministra oficinas em instituições como Parque Lage, Terra Una e Sesc. Também realiza projetos com organizações ativistas.
João Paulo Lima Barreto (Tukano)
Indígena do povo Yepamahsã (Tukano), nascido na aldeia São Domingos, no município de São Gabriel da Cachoeira (AM). Graduado em Filosofia e Doutor em Antropologia Social pela Universidade Federal do Amazonas. Pesquisador do Núcleo de Estudos da Amazônia Indígena (NEAI). Fundador do Centro de Medicina Indígena Bahserikowi. Coordenador do Fórum Povos da Rede Unida. Professor. Consultor.
Jorge Menna Barreto
Artista. Investiga o site-specificity como uma relação em constante transformação entre arte, ecologia e linguagem. Seu trabalho parte da escuta profunda de materiais, histórias e paisagens, criando colaborações com diferentes saberes e comunidades. Jorge é professor no departamento de Arte da Universidade da Califórnia, em Santa Cruz, onde dá aula no mestrado de Arte Ambiental e Prática Social. É colaborador no programa de pós-graduação em Artes na Uerj. Para mais informações: @jmennabarreto e https://jorggemennabarreto.com/
Kimberly Veiga
Psicóloga sanitarista e psicodramatista. Coordenadora de acolhimento da Casa Resistências e pesquisadora das territorialidades e interseccionalidades. Contato: @kimberlyveiga.psi
Lohana Karla
Mulher, transativista, fundadora do Instituto Trans de Favelas.
Lucas Van de Beuque
Diretor executivo do Museu do Pontal. Idealizador, com Angela Mascelani, da nova sede do Museu do Pontal, inaugurada em 2021. É professor do curso de MBA da Candido Mendes de Gestão de Museus. Fotógrafo, curador e cineasta, tem como tema de pesquisa os artistas e mestres da cultura popular. Codirigiu os filmes Juazeiro do Norte, Ceará: arte, fé e festa (2014), Artistas Cazumbas (2019) e Zé Bezerra, Artista (2024). Participou da curadoria de exposições, como “Festas, Sambas e outros Carnavais” (Sesc Casa Verde, SP, 2023 e CCBA, PA, 2024), que contou com obras de Mestre Vital; “Roxinha uma vida de novela” (Museu do Pontal, 2023); e “José Bezerra e os artistas do vale do Catimbau” (Museu do Pontal, 2024). Assinou as fotografias do livro Caminhos da Arte Popular: o Vale do Jequitinhonha (2009), de Angela Mascelani.
Maria Carolina
Engenheira, lésbica e instrutora de yoga.
Marília Felippe
Artista cênica da dança-teatro, educadora corporal formada em educação física pela UFMG, em Terapia Psicocorporal pela Fundação Rio Aberto – escola de desenvolvimento humano (Ar) e em dança por Graciela Figueroa. Dirigiu durante 12 anos (1988 a 2000) o Coringa Rio Aberto, representante então da Fundação Rio Aberto (“para el dessarollo armonico del hombre” www.rio Aberto.ar). É instrutora docente do mesmo sistema que tem como propósito contribuir para o desenvolvimento humano através de técnicas psicorporais onde o movimento da energia vital é o pilar e ponto de partida para o desenvolvimento do trabalho. Há 25 anos integra a Grande Companhia Brasileira de Mystérios e Novidades, coletivo teatral que se inscreve como Ópera Popular (www.ciademysterios.com) e coordena as atividades da Casa de Mystérios, equipamento cultural localizado na zona portuária do Rio.
Sandra Benites
Diretora de Artes Visuais da FUNARTE (2023). Educadora, pesquisadora e curadora. Descendente do povo Guarani Nhandewa. Mestre em Antropologia Social pelo Museu Nacional (UFRJ) e doutoranda no mesmo programa. Sua pesquisa e atuação vem focando nas particularidades das artes e vidas das comunidades indígenas, apontando para mudanças contracoloniais nas institucionalidades, museus e exposições, com os cuidados e particularidades de diferentes povos, etnias e culturas. Foi curadora da exposição “Dja guata Porã | Rio De Janeiro Indígena”, no Museu de Arte do Rio de Janeiro (MAR, 2017). Compôs a equipe curatorial do Museu das Culturas Indígenas (recém-inaugurado em SP, 2022).
Sara Ramos
É doutoranda no PPGLCC da PUC-RIO, editora, tradutora e poeta tocantinense. Mestra em Literatura Comparada (UNILA) e graduada em Comunicação Social/Produção Editorial (ECO/UFRJ), sua dissertação “Stella do Patrocínio: entre a letra e a negra garganta de carne” foi responsável pela disponibilização e acesso públicos dos áudios que registraram o Falatório de Stella do Patrocínio. Atualmente, vive no Rio de Janeiro.
Suellen Cloud
Fotógrafa popular, cineclubista e produtora cultural focada em periferias. Formada pela Escola de Fotografia Popular do Imagens do Povo, atua no território da Maré como diretora de mídia do Real Maré Futebol Clube e também na Zona Portuária com o projeto Favela Cineclube. Atualmente se dedica à pesquisa fotográfica, tendo como base a Fotografia do Bem Querer, buscando a humanização imagética e conceitual dos territórios favelados e periféricos pelos quais passa. Contato: @suellencloud
Taisa Vitória
É educadora e artista visual multilinguagem, com enfoque em colagens, e pinturas. É mestranda em Sociologia e Antropologia (PPGSA/UFRJ). É licenciada em Ciências Sociais pela UFRJ. Atua como educadora no Museu Bispo do Rosario Participou das exposições Regresso ao Sertão (2025) e 100 Anos da Colônia Juliano Moreira (2024), no Museu Bispo do Rosario, Crônicas Cariocas no Museu de Arte do Rio (2021) e Arte como trabalho (2021).
Tania Rivera
Ensaísta, psicanalista, curadora e professora titular do departamento de arte, além de lecionar na Pós-Graduação em Estudos Contemporâneos das Artes da Universidade Federal Fluminense (UFF). Atua também junto ao Programa de Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Publicações recentes incluem Lugares de delírio: arte e expressão, loucura e política (n-1 edições/SESC, 2023) e Psicanálise antropofágica: Identidade, gênero, arte (Artes&Ecos,2020).
1 Disponíveis em: https://institutomesa.org/revistamesa/edicoes/7/casa-resistencias/.
2 Acuerpar é um conceito cunhado pela ativista feminista guatemalteca Lorena Cabnal.
3 Para saber mais, acesse: https://www.atlasdochao.org/wp-content/uploads/2021/10/sentidos-do-chao_ebook_final.pdf
4 Para escutar os áudios de Stella do Patrocínio, acesse: https://museubispodorosario.com/stella-do-patrocinio-memorias/.
5 Ver: ZACHARIAS, Ana Carolina Vicentini. Stella do Patrocínio ou o retorno de quem sempre esteve aqui. Rio de Janeiro: Telha, 2024. E o diálogo nesta edição da Revista Mesa “Ensaios de escuta: O falatório de Stella do Patrocínio”. Disponível em: https://institutomesa.org/revistamesa/edicoes/7/ensaio-de-escutas-o-falatorio-de-stella-do-patrocinio/.
6 Para saber mais, acesse: https://www.atlasdochao.org/.
7 Saiba mais em: https://www.atlasdochao.org/wp-content/uploads/2021/10/sentidos-do-chao_ebook_final.pdf.
8 Ver palavra Chão deste glossário.
9 Para saber mais sobre o projeto, acesse: https://institutomesa.org/revistamesa/edicoes/7/corpo-gesto-afeto-projeto-com-mulheres-de-talavera-bruce/.
10 Para saber mais sobre a ação, acesse: https://institutomesa.org/revistamesa/edicoes/7/jialu-pombo/.
11 Para acessar os áudios de Stella do Patrocínio: https://museubispodorosario.com/stella-do-patrocinio-memorias/. Para mais informações sobre a exposição: https://museubispodorosario.com/eventos/stella-do-patrocinio/.
12 Ver: https://institutomesa.org/revistamesa/edicoes/7/casa-resistencias/.
13 Ver: https://institutomesa.org/revistamesa/edicoes/7/casa-resistencias/.
14 A dissertação da autora anexou os arquivos de áudio em sua publicação no repositório institucional da UNILA. Ver: RAMOS, Sara Martins. Stella do Patrocínio: entre a letra e a negra garganta de carne. Dissertação (Mestrado). Programa de Pós-Graduação em Literatura Comparada. Universidade Federal de Integração Latino-Americana, Foz do Iguaçu, 2022. Disponível em: https://dspace.unila.edu.br/handle/123456789/6465;jsessionid=7500013A50BF0043E118C067ACA0384E Acesso em: fevereiro de 2026.
15 Os áudios de Stella do Patrocínio também podem ser acessados em: https://museubispodorosario.com/stella-do-patrocinio-memorias/.
16 Ramos observa que ela se baseia em uma ideia de “experimentação” desenvolvida por Paulo Henriques Britto em sua discussão sobre a experimentação estética distinta do cartensianismo científico, onde limitações e regras são encontradas e quebradas mais com base no artista seguindo sua intuição do que qualquer tipo de experimentação racional. BRITTO, Paulo Henriques. O fim de um paradigma. In: PEDROSA, Celia; DIAS, Tania; SÜSSEKIND, Flora (orgs.). Crítica e valor: uma homenagem a Silviano Santiago. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 2014, p 219-229.
17 Saiba mais em: https://favelofagia.com/.
18 Para saber mais, acesse: https://favelofagia.com/obra/cha-de-dentro/.
19 Veja mais em: https://institutomesa.org/revistamesa/edicoes/7/artistas-residentes-jorge-menna-barreto/.
20 O “Museu Metabólico” refere-se frequentemente à plataforma curatorial da pesquisadora Clémentine Deliss, conhecida como Metabolic Museum University, que propõe ressignificar coleções etnográficas/históricas através de “câmaras de debate”. O conceito envolve transformar museus em espaços ativos de “metabolismo” de objetos e conhecimento. No Brasil, o termo também aparece em contextos de arte e ecologia.
21 Saiba mais sobre o Rio Aberto em: https://www.rioabertorio.com.br/.
22 Saiba mais em: https://museubispodorosario.com/eventos/stella-do-patrocinio/.
23 Saiba mais em: https://museubispodorosario.com/stella-do-patrocinio-memorias/.
24 Saiba mais sobre o evento em: https://institutomesa.org/revistamesa/edicoes/7/ensaio-de-escutas-o-falatorio-de-stella-do-patrocinio/.
25 Saiba mais em: https://museubispodorosario.com/eventos/stella-do-patrocinio/.
26 Saiba mais em: https://museubispodorosario.com/eventos/regresso-ao-sertao/.





























