{"id":4606,"date":"2025-09-28T14:41:18","date_gmt":"2025-09-28T17:41:18","guid":{"rendered":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/?post_type=portfolio&#038;p=4606"},"modified":"2025-10-15T12:25:46","modified_gmt":"2025-10-15T15:25:46","slug":"coleta-de-depoimentos","status":"publish","type":"portfolio","link":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/portfolio\/coleta-de-depoimentos\/","title":{"rendered":"Coleta de vozes"},"content":{"rendered":"\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/10\/1_Andando-no-espiral_213701.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6306\" width=\"500\" height=\"491\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/10\/1_Andando-no-espiral_213701.jpg 1000w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/10\/1_Andando-no-espiral_213701-300x295.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/10\/1_Andando-no-espiral_213701-768x754.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><figcaption>Encontro experimental do espiral. Companhia de Myst\u00e9rios e Novidades, 18 de dezembro de 2024. Foto: Jessica Gogan<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<h2>Ser gigante, ser inteira, ser presente: Coleta de vozes da Companhia de Myst\u00e9rios e Novidades<\/h2>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO que representa a Companhia para voc\u00eas? Que palavras v\u00e3o caracterizar as guinadas de ressignifica\u00e7\u00f5es m\u00fatuas?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><em>Sonho, aperfei\u00e7oamento, magia, o outro lado da cortina, em companhia, encanto, ataque\u2026<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Os editores da <em>Revista Mesa<\/em> se juntaram aos diretores, performers e colaboradores da Companhia de Myst\u00e9rios e Novidades em sua sede na Gamboa. Nesses encontros, buscaram palavras\/mem\u00f3rias-chave para caracterizar os m\u00faltiplos sentidos dos cortejos e espet\u00e1culos realizados pela Companhia ao longo dos 43 anos de sua trajet\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>A Companhia de Myst\u00e9rios e Novidades aposta na arte p\u00fablica engajada e na pot\u00eancia da mem\u00f3ria dos saberes ancestrais e tradi\u00e7\u00f5es populares em defesa da regi\u00e3o portu\u00e1ria do Rio de Janeiro, que se encontra amea\u00e7ada por uma crescente gentrifica\u00e7\u00e3o. Sediada nessa regi\u00e3o da cidade, antigo porto do tr\u00e1fico de escravizados, a Companhia desenvolve seus cortejos e performances de rua como forma de ativismo, em di\u00e1logo com as tradi\u00e7\u00f5es populares e o calend\u00e1rio cultural da cidade, reunindo organiza\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias e institui\u00e7\u00f5es culturais, assim como l\u00edderes espirituais de diferentes linhas religiosas, pesquisadores, artistas, educadores e ativistas LGBTQIAP+, antirracistas e ambientalistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Como parte deste estudo de caso, realizamos uma roda de conversa e um encontro experimental, propondo o ativar de narratividades-mem\u00f3rias, caminhando e fabulando no percurso espiralar de uma s\u00e9rie de tri\u00e2ngulos \u00e1ureos desenhados no ch\u00e3o do espa\u00e7o de ensaios da Companhia.&nbsp; O material aqui, baseado em transcri\u00e7\u00f5es destes encontros, \u00e9 revisado e editado em colabora\u00e7\u00e3o com os participantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Conversamos sobre o estado de suspens\u00e3o, n\u00e3o somente dos performers nas pernas de pau \u2014 seres gigantes cantando do alto e incorporando santos ou orix\u00e1s \u2014, mas tamb\u00e9m como acontecimento de rua que suspende o tempo do cotidiano em uma nuvem de (en)canto, dan\u00e7a, teatro, tradi\u00e7\u00e3o e alegria, em suma, em estado coletivo de suspens\u00e3o. O cortejo se transforma em uma presen\u00e7a urbana delirante e \u201cuma revolu\u00e7\u00e3o da sensibilidade\u201d\u00b9 \u00e9 incorporada, como diz o cr\u00edtico M\u00e1rio Pedrosa, abra\u00e7ada tamb\u00e9m pelos espectadores\/andarilhos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 uma possibilidade de respira\u00e7\u00e3o social encantat\u00f3ria. Uma esp\u00e9cie de pulm\u00e3o terap\u00eautico para a cidade. Respirando juntos, realizam-se sonhos diurnos ancestrais.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-video\"><video controls src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/09\/Video-Rafael-Rodriguez_Trajeto-Espiral-triangulos-sublimes_18dez24.mp4\"><\/video><figcaption>Rafael Rodriguez. <em>Trajeto espiral: Tri\u00e2ngulos sublimes<\/em>, 2024. V\u00eddeo realizado no encontro experimental, 18 de dezembro de 2024, Companhia de Myst\u00e9rios e Novidades.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong><em>Mila Costa<\/em><\/strong>\n<br>\nMeu nome \u00e9 Mila Costa e minha palavra para a Companhia \u00e9 <em>sonho<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Cheguei aqui com um sonho de inf\u00e2ncia e vi uma oportunidade muito maior do que a que se passava pela minha cabe\u00e7a. Eu n\u00e3o tinha a menor no\u00e7\u00e3o do que era, de que aqui j\u00e1 estabeleceria a estrutura\u00e7\u00e3o, a concretiza\u00e7\u00e3o do meu sonho.<\/p>\n\n\n\n<p>E foi o primeiro passo que foi dado aqui. E foi um passo gigante, foi um passo nas pernas de pau. E a partir desse caminhar dentro da Companhia, eu fui encontrando outras e outras oportunidades dentro do fazer art\u00edstico, que eram tudo o que eu almejava, o que eu sonhava como uma crian\u00e7a, como uma brincadeira; que era ut\u00f3pico ao ver da maioria das pessoas ao meu redor, mas que eu acreditava com muita verdade, ao mesmo tempo que eu n\u00e3o tinha muita no\u00e7\u00e3o do tamanho que era essa realiza\u00e7\u00e3o. E hoje eu me sinto realizada porque a partir de ter estado aqui, eu fui a outros lugares, mas a Companhia de Myst\u00e9rios continua sendo o meu eixo, \u00e9 sempre para onde eu volto. E n\u00e3o importa os caminhos que eu fa\u00e7a, eu sei que eu posso estar aqui&#8230; posso estar em outros lugares, vivendo a arte, sendo arte, e sendo uma arte gigante sobre pernas de pau, que \u00e9 o que eu mais me apaixonei e amo. Gigante, mas, tamb\u00e9m, um certo paradoxo diante da dimens\u00e3o que a gente toma da perna de pau: estamos enormes, mas a gente tem que tomar cuidado com o micro. E a perna de pau \u00e9 meio que proporciona, tornando a gente proporcional ao que a gente t\u00e1 falando. Porque o que levamos pra rua \u00e9 muito grande.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 o amor da minha vida fazer teatro, fazer teatro de rua e fazer teatro nas pernas de pau.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Carlos Santos<\/em><\/strong>\n<br>\nEu me chamo Carlos Santos e a minha palavra \u00e9 <em>aperfei\u00e7oamento<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando eu entrei na Companhia foi por um convite de uma amiga para aperfei\u00e7oar a arte da perna de pau, algo que seria uma coisa para melhorar aquilo que eu j\u00e1 tinha. E, no decorrer desse tempo, eu n\u00e3o s\u00f3 aperfei\u00e7oei, mas aprendi algo muito maior.<\/p>\n\n\n\n<p>O teatro de rua, lidar com o p\u00fablico, cada personagem que eu fazia, cada espet\u00e1culo que eu fazia, de formas diferentes, eram grandes novidades para mim. Ent\u00e3o, assim, eu aprendi muito mais em acreditar em mim mesmo do que apenas aprender um of\u00edcio, digamos assim&#8230; do que aperfei\u00e7oar um of\u00edcio. Porque eu acreditei em coisas que eu poderia fazer que eu n\u00e3o imaginava. Ent\u00e3o, isso me fez crescer mais. Me fez aprender n\u00e3o s\u00f3 como artista, mas tamb\u00e9m como pessoa. E me fez ser gigante. N\u00e3o s\u00f3 na perna de pau, mas sim no meu ser, no meu eu, no acreditar no meu eu e no ser cada vez mais, entender quem sou eu nesse mundo, quem sou eu nesse lugar. E assim, aqui pra mim \u00e9 uma grande, eu digo que \u00e9 uma grande hist\u00f3ria, \u00e9 uma grande escola pra mim de aprendizado, de coisas que eu sempre falo que eu t\u00f4 sempre na busca do meu eu. E aqui \u00e9 onde eu encontrei um eu mais aperfei\u00e7oado a cada dia e, cada dia mais, eu aprendo um pouquinho. Ent\u00e3o, assim, \u00e9 maravilhoso. E \u00e9 isso.<\/p>\n\n\n\n<p>E que \u00e9 muito engra\u00e7ado, porque observando Mila andando meio hipnotizada na linha do espiral, muito bonito, fico pensando que, hoje em dia, uma das coisas que a pr\u00f3pria Companhia me trouxe \u2014 porque antigamente eu era meio bicho do mato, sabe? \u2014 \u00e9 andar de cabe\u00e7a erguida e ver as coisas acontecendo, vendo, acreditando, como falei, no meu pr\u00f3prio eu, de entender as coisas e encarar de frente. Isso \u00e9, pra mim, uma novidade. Quando come\u00e7amos, a gente come\u00e7a muito andando assim, querendo olhar pro ch\u00e3o pra ver onde a gente pisa. E a\u00ed, com o passar do tempo, a L\u00edgia [Veiga, diretora art\u00edstica] fala muito pra gente isso, a perna \u00e9 a extens\u00e3o da perna de voc\u00eas. \u00c9 s\u00f3 uma extens\u00e3o. E acabamos acostumando, que \u00e0s vezes \u00e9 engra\u00e7ado que assim, digo mais por mim, quando eu t\u00f4 l\u00e1 em cima, eu me sinto uma outra pessoa. Diferente. E a\u00ed, quando eu des\u00e7o, a sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00e3o estranha, porque parece que tudo muda. Parece que eu t\u00f4 em outro lugar, outro ambiente, porque a gente fica t\u00e3o acostumado com aquela vis\u00e3o l\u00e1 de cima. Como trabalhamos em grupos grandes, muitas pernas unidas, eu n\u00e3o tenho a sensa\u00e7\u00e3o de que eu estou numa perna de pau alta, eu tenho a sensa\u00e7\u00e3o de que eu t\u00f4 aqui, antes de voc\u00eas, como se eu estivesse aqui, na mesma altura, no mesmo patamar, sabe? E a\u00ed, quando a gente acha estranho, a gente olha e fala assim: \u201cNossa, vis\u00e3o diferente, parece que a gente t\u00e1 em outro lugar\u201d. \u00c9 uma outra vis\u00e3o, n\u00e9? \u00c9 divertida e a gente v\u00ea que as pessoas que est\u00e3o embaixo olham a gente de uma forma t\u00e3o bacana. A gente transforma as coisas sem mesmo saber que est\u00e1 transformando. E voc\u00ea nunca vai saber, \u00e9 um mist\u00e9rio.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Lelena Anhaia_ Maria Helena Anhaia Mello<\/em><\/strong>\n<br>\nMeu nome \u00e9 Lelena e a palavra pra mim \u00e9 <em>magia<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu fui ver um amigo meu dan\u00e7ar e a\u00ed o espet\u00e1culo chamava <em>Sa\u00fade <\/em>e o outro <em>Miss\u00e3o Imposs\u00edvel<\/em>. E a\u00ed, pra mim, foi essa miss\u00e3o imposs\u00edvel e essa sa\u00fade que me chamaram a aten\u00e7\u00e3o. A miss\u00e3o imposs\u00edvel de ter sa\u00fade no mundo, e de ser feliz, e de viajar, de poder ser sens\u00edvel, de poder acreditar no amor, eu vi tudo isso naquele espet\u00e1culo.<\/p>\n\n\n\n<p>E a\u00ed, depois de quatro anos, eu encontrei a pessoa que fazia esse espet\u00e1culo e vi que ela era um druida. E quis chegar perto desse druida e acabei entrando nessa brincadeira de perna de pau. Adorei, porque eu gostava daquela sensa\u00e7\u00e3o de estar na perna de pau.<\/p>\n\n\n\n<p>E eu gostava de tocar tambor. E a\u00ed tinham duas mulheres negras que tocavam tambor pra caramba, eu aprendi v\u00e1rias batidas, me aproximei dessa linguagem, a\u00ed me aproximei das cordas, me aproximei dos anjos, das nuvens, das pessoas, da maravilha que \u00e9 estar em contato com as pessoas que est\u00e3o na rua, de voc\u00ea ampliar a sua sensibilidade, ir para fora e voltar para dentro. E da\u00ed voc\u00ea vai&#8230; Eu, pelo menos, fui procurando entender o que dentro de mim estava vazio, estava desconectado. Porque quanto mais voc\u00ea expande, mais voc\u00ea percebe a sua desconex\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>E a\u00ed eu fui vivendo v\u00e1rias coisas na minha vida em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00fasica. E a\u00ed trabalho, dan\u00e7a, instrumento, show, palco, essa coisa meio falsa do palco, assim&#8230; toda produzida, toda arrumadinha pra dar certo. E na rua? D\u00e1 certo se voc\u00ea estiver dentro de voc\u00ea. Se n\u00e3o estiver dentro de voc\u00ea, n\u00e3o tem como. Ent\u00e3o, \u00e9 por isso que eu n\u00e3o saio de perto da Companhia, porque aqui eu tenho que ser inteira. E eu tenho que evoluir. N\u00e3o d\u00e1 para parar. Eu n\u00e3o posso parar. Ent\u00e3o, j\u00e1 n\u00e3o ando de perna de pau e j\u00e1 n\u00e3o trabalho com teatro exatamente, mas eu evoluo na Companhia na m\u00fasica, que \u00e9 a minha vida. \u00c9 isso.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui precisa ser inteira. Precisa ser inteira.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Rafael Rodrigues<\/em><\/strong>\n<br>\nRafael Rodrigues, minha palavra \u00e9 <em>marcar<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro espet\u00e1culo da companhia que eu vi foi <em>Ciclopes<\/em>. Eu vi inteirinho. L\u00e1 em Ouro Preto, tinha muito fogo, muito fogo. O pessoal alucinado, assim. E aquilo, na \u00e9poca, me tocou e eu n\u00e3o sabia que tinha me tocado. A ficha caiu agora ali. E eu fiquei refletindo muito sobre o que me prende aqui, o que que me deixa aqui. Tem um pouco a ver com esta coisa da gente pode ser quem a gente \u00e9. Eu n\u00e3o consigo fazer nada sozinho, \u00e9 um problema que eu tenho \u2014 ou poderia ser visto com um problema. Aqui n\u00e3o \u00e9 assim, aqui a gente faz coisa de galera, de muita gente, e isso me comove, isso mexe comigo.<\/p>\n\n\n\n<p>Naquele v\u00eddeo do espet\u00e1culo <em>Belo Amor<\/em>, da Yemanj\u00e1, voc\u00ea v\u00ea que t\u00e1 todo mundo ali naquela mar\u00e9, ali t\u00e1 todo mundo. Voc\u00ea olha pra cara, tanto na perna quanto no ch\u00e3o, t\u00e1 todo mundo assim&#8230; suspens\u00e3o total, n\u00e9? Mar, Yemanj\u00e1\u2026 Voc\u00ea v\u00ea que t\u00e1 todo mundo flutuando ali. Foi emocionante ter feito&#8230; essa \u00faltima agora, foi muito incr\u00edvel, porque parecia que estava todo mundo virado.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu sou uma pessoa que gosta de desenhar, gosta de pintar, gosta de escrever, gosta de dan\u00e7ar, gosta de fazer teatro. E aqui eu consigo brincar um pouco com tudo isso, de ser brincante, de entregar as coisas, de voltar a ser crian\u00e7a. Que eu fico lembrando, quando eu era crian\u00e7a, eu acreditava naquelas coisas e eu lembro quando eu comecei a esquecer que eu brincava, que me vinha assim: \u201cAh, eu t\u00f4 brincando\u201d. E quando eu vim pra c\u00e1 em 2014, eu vi que eu fui encontrando pelos caminhos que a L\u00edgia traz, que a Companhia traz, eu fui encontrando esse jeito de como acreditar, como voltar a acreditar de brincar de ser crian\u00e7a, assim, voltar a acreditar na brincadeira, de embarcar, de acreditar, de fazer. Como \u00e9 que faz? Como \u00e9 que faz acontecer?<\/p>\n\n\n\n<p>E t\u00e1 sendo gostoso at\u00e9 pisar nisso aqui [na linha espiral feita com sal grosso], porque isso aqui me traz a minha inf\u00e2ncia. O sal, o brincar de desenhar no ch\u00e3o. E \u00e9 um pouco o que a gente pode ser aqui, de voltar a ser crian\u00e7a\u2026 se desmarcar tudo pra voltar a marcar, pra ficar marcado assim, n\u00e9? A gente vai marcando, a gente reencontra coisas e tira, coloca, tira e coloca, reencontra e vai marcando, vai deixando aquilo e as coisas que v\u00e3o encontrando na gente.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Mar\u00edlia Felippe<\/em><\/strong>\n<br>\nMeu nome \u00e9 Mar\u00edlia Felippe. E minha\u2026 uma esp\u00e9cie de palavra vai ser <em>medo<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Medo do amor. E&#8230; um pouco&#8230; tonteira. Vertigem. C\u00e9u. Voltas, muitas voltas.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitas voltas, muitas voltas. Muitas, muitas, muitas, muitas voltas.<\/p>\n\n\n\n<p>Muito regado, muito&#8230; lastro\u2026 muitas Marias\u2026 uma sa\u00edda de um ponto para o outro e agora esse outro ponto volta. Parece enigm\u00e1tico, mas nem \u00e9. Ou \u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p>Uma coisa sem tempo. Uma coisa fora do tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma paix\u00e3o. O envolvimento&#8230; Est\u00e1 acelerando muito, muito, muito, muito, muito, muito.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>L\u00edgia Veiga<\/em><\/strong>\n<br>\nMeu nome \u00e9 L\u00edgia Veiga. T\u00f4 entrando e saindo. A palavra&#8230; A palavra \u00e9&#8230; <em>em companhia.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Em companhia. Descobrindo junto, porque essa \u00e9 a grande maravilha. Mist\u00e9rios descobertos a cada momento, juntos, em pleno estado de suspens\u00e3o, lembran\u00e7as no tempo, do corpo s\u00e1bio, encontros que revelem, express\u00e3o, quando o tempo corria&#8230; lembrei meu pai que falava \u201co que existe sempre permanecer\u00e1\u201d. Ele falava do amor que ele sentia com a minha m\u00e3e.<\/p>\n\n\n\n<p>Lembrei do caminho, das viagens, dos encontros, da maravilha que \u00e9 fazer da vida uma obra de arte. Estou em estado de suspens\u00e3o&#8230; \u00e9 assim que eu descobri o que eu tenho que fazer.<\/p>\n\n\n\n<p>Como \u00e9 que eu vou fazer? O que eu preciso fazer? Como \u00e9 que eu vou crescer? Como \u00e9 que eu vou ficar s\u00e1bia? Como \u00e9 que eu vou ficar s\u00e1bia? Comece com o sol, o resto lentamente. Lentamente acontecer\u00e1.&nbsp; \u00c9 uma coisa de estado de suspens\u00e3o. \u00c9 um estado de presen\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Elan Barreto<\/em><\/strong>\n<br>\nMeu nome \u00e9 Elan Barreto e minha palavra \u00e9 <em>pelos de punta.<\/em> \u00c9 uma palavra em espanhol que eu gosto muito. Arrepiado.<\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro contato com a Companhia foi com o espet\u00e1culo <em>Uirapuru<\/em>, no Museu da Rep\u00fablica, em 2015, no Festival Mimo. Me tocou de uma forma muito profunda e fiquei encantado com todo o elenco e m\u00fasicos. E aquilo me despertou e pensei: \u201cVou ter que falar com L\u00edgia no final\u201d. A\u00ed conversamos e ela falou: \u201cFique atento, porque abrimos inscri\u00e7\u00f5es todo o ano\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>E ent\u00e3o, abriu para fazer parte do abre-alas do bloco <em>Escravos da Mau\u00e1<\/em> (1992\u20132020)\u00b2. E a\u00ed verifiquei os dias. Porque minha vida fica dividida, parte na Ilha Grande e parte no Rio. H\u00e1 19 anos leciono em escolas p\u00fablicas dos munic\u00edpios do Rio de Janeiro e Angra dos Reis, na disciplina de ci\u00eancias. Eu fiquei muito feliz que os dias batiam justamente para aqueles que eu podia. Eu falei: \u201cCaramba! Justamente!\u201d. E, no primeiro dia, eu pensei: \u201cSer\u00e1 que vou conseguir?\u201d. Porque eu tinha pouco tempo na perna, apenas dois meses. E aquelas pessoas com muita habilidade e destreza. A\u00ed eu vim para a primeira aula e fiquei encantado com os maravilhosos Sara, Ver\u00f4nica, Dico e demais participantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao final, eu perguntei: \u201cE, a\u00ed, L\u00edgia? Estou apto?\u201d. S\u00f3 tinha dois ou tr\u00eas meses de perna de pau. Tinha aqueles saltos para tr\u00e1s, saltos para frente. Cada aula, cada encontro era uma surpresa muito boa, uma supera\u00e7\u00e3o. E conhecendo tamb\u00e9m aqui o espa\u00e7o. Esse espa\u00e7o encantado. Uma encantaria. Eu fui descobrindo as encantarias e mist\u00e9rios daqui. A\u00ed eu fui ficando, ficando, como colaborador. E estou at\u00e9 hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando eu entrei aqui pela primeira vez fiquei muito emocionado e me impactou muito. Cada detalhe da casa, desta sede maravilhosa, me chamou muita aten\u00e7\u00e3o. Fiquei com os <em>pelos de punta<\/em>, n\u00e9? <em>Pelos de punta<\/em>. \u00c9 uma palavra em espanhol que eu gosto muito. Arrepiado.<\/p>\n\n\n\n<p>Minha primeira apresenta\u00e7\u00e3o foi na <em>Escravos<\/em>. Foi como uma prepara\u00e7\u00e3o. A sa\u00edda do <em>Escravos da Mau\u00e1<\/em> era uma semana antes do Carnaval. Demorava horas pra sair, um sol para cada um. Horas para ensaiar. Era uma rala\u00e7\u00e3o, n\u00e9? Mas a estreia foi linda.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas como L\u00edgia fala: \u201cVoc\u00ea tem que estar presente, montar o seu cavalo\u201d. E esse estado de presen\u00e7a \u00e9 muito importante. A presen\u00e7a naquele momento, quer dizer, em todos os momentos, mas \u201cprincipalmente agora\u201d como cantamos antes de sair nos cortejos e espet\u00e1culos! A representa\u00e7\u00e3o de entidades\/divindades exige um respeito muito grande por parte de quem representa, como tamb\u00e9m do espectador.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/09\/2_Andando-no-espiral_213743.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5020\" width=\"463\" height=\"618\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/09\/2_Andando-no-espiral_213743.jpg 1000w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/09\/2_Andando-no-espiral_213743-225x300.jpg 225w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/09\/2_Andando-no-espiral_213743-768x1024.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 463px) 100vw, 463px\" \/><figcaption>Encontro experimental do espiral. Companhia de Myst\u00e9rios e Novidades, 18 de dezembro de 2024. Foto: Jessica Gogan<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p><strong><em>Yuri Ramundo<\/em><\/strong> <br> Sou Yuri Ramundo. Minha palavra \u00e9 <em>pesquisa.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Eu acho que eu sou o ca\u00e7ula das pernas de pau. O ca\u00e7ula contempor\u00e2neo. Eu cheguei por aqui atrav\u00e9s das oficinas de dan\u00e7a nas alturas. Eu aprendi a aula de perna de pau nos blocos de carnaval. E fiz parte de um n\u00facleo que tinha uma preocupa\u00e7\u00e3o com a perna de pau para que fosse mais do que bonita e chamasse a aten\u00e7\u00e3o, que tivesse alguma coisa conceitual envolvida.<\/p>\n\n\n\n<p>E a\u00ed, de ouvido, eu conheci a Companhia de Myst\u00e9rios. E falei: \u201cVou l\u00e1 conhecer, vou l\u00e1 fazer uma aula, conhecer o espa\u00e7o, conhecer as pessoas\u201d. Estou at\u00e9 agora conhecendo, na verdade. Um grupo veio junto com essa mesma inquieta\u00e7\u00e3o&#8230; de que a perna de pau dos blocos de carnaval fosse algo mais do que um monte de gente que sobe, fica gostosa e tenta abrir espa\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>E a\u00ed a Companhia acabou me encontrando e eu encontrando a Companhia tamb\u00e9m. E a\u00ed aqui tamb\u00e9m foi virando um espa\u00e7o cont\u00ednuo de pesquisa. Eu acho que o meu desejo de permanecer tem a ver um pouco com essa possibilidade de perman\u00eancia. Acho que aqui \u00e9 um trabalho feito em colabora\u00e7\u00e3o. A gente se encontra o ano todo, estamos sempre juntos, nos vemos com frequ\u00eancia. Ent\u00e3o, acho que, para mim, foi talvez um dos poucos espa\u00e7os que eu consegui continuar nas pesquisas. E \u00e9 uma pesquisa que n\u00e3o tem fim. Temos v\u00e1rias apresenta\u00e7\u00f5es e trabalhos, n\u00e3o temos um ponto de chegada, tipo, vamos ensaiar para fazer isso aqui e depois acabou. Ent\u00e3o tem uma semente que \u00e9 sempre plantada e cresce, morre, nasce de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu acho que a primeira vez que eu sa\u00ed em cortejo foi em uma festa junina em <em>Ditirambo de S\u00e3o Jo\u00e3o<\/em>? E acho que a primeira vez que eu contribu\u00ed mesmo, assim, como parte da Companhia, n\u00e3o foi nem na perna, foi no ch\u00e3o. Fui marinheiro l\u00e1 no Jardim Bot\u00e2nico. No Parque Lage. E todos falaram um pouco de encantaria. Eu tenho uma experi\u00eancia muito particular aqui que, talvez h\u00e1 uns dois anos, na festa da Ibejada, eu propus fazer um er\u00ea. Eu queria fazer um er\u00ea. E a\u00ed eu vim com uma perninha de pau de 30 cent\u00edmetros, assim, eu era o mais baixo de todos e eu fiz um er\u00ea, assim. E eu estava realmente ali, eu fui um cavalo, assim. Eu era o pr\u00f3prio er\u00ea, assim.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi muito intensa a experi\u00eancia, eu ca\u00ed, mas n\u00e3o ca\u00ed, assim, eu lembro que eu ficava brincando de pular a cerca da pra\u00e7a com as crian\u00e7as, no ch\u00e3o, assim, e levantava querendo brincar, querendo brincar. E eu cheguei em casa, depois que terminou, eu ardia em febre, tipo 43 graus de febre, ardia em febre, assim, loucamente, uma febre que eu n\u00e3o sei de onde veio. No dia seguinte eu acordei e estava tudo em febre. Recebi mesmo. Foi aqui na pra\u00e7a, numa Ibejada de S\u00e3o Cosme e Dami\u00e3o. S\u00e3o Cosme e Dami\u00e3o, a gente foi na <em>Encantaria de Terra e Mar<\/em> [performance da Companhia].<\/p>\n\n\n\n<p>Tem professores e performers aqui, mas talvez seja interessante notar que fa\u00e7o uma profiss\u00e3o improv\u00e1vel. Eu sou m\u00e9dico anestesista. Eu trabalho no servi\u00e7o p\u00fablico. Ent\u00e3o, para mim, eu acho que aqui foi t\u00e3o importante. Foi quando eu me virei para pesquisar arte. E a\u00ed, concomitantemente com a minha entrada, foi quando eu entrei na Escola de Belas Artes tamb\u00e9m da UFRJ. E a\u00ed fiz figurino l\u00e1 e aqui tamb\u00e9m a gente tem essa import\u00e2ncia grande do figurino. Ent\u00e3o \u00e9 uma fonte inesgot\u00e1vel. Mas ainda trabalho como anestesista!<\/p>\n\n\n\n<p>Para mim a Companhia \u00e9 um realismo m\u00e1gico. \u00c9 uma encantaria mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ana Paula<\/em><\/strong>\n<br>\nMeu nome \u00e9 Ana Paula. Minha palavra-express\u00e3o \u00e9: <em>o outro lado da cortina.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>De forma\u00e7\u00e3o, sou licenciada em dan\u00e7a e psicomotricista. Mas vivo da arte. J\u00e1 tenho 22 anos, vou fazer 23 anos. Passei por algumas companhias e, nessas passagens, tive o prazer de estar em cena com a Companhia de Myst\u00e9rios e Novidades no trabalho <em>Os Prazeres do Heitor<\/em>, que foi uma fus\u00e3o, um salto dos prazeres. E, a partir daquele momento, eu conheci uma companhia com pernas de pau.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda sou pedestre, n\u00e3o tenho coragem de pisar na perna de pau. Tem sido, para mim, uma grande vertente estar na Companhia. At\u00e9 falei aqui, e vai ser uma tecla que vou bater de volta, que \u00e9 essa viv\u00eancia em comum, num grupo&#8230; essa integra\u00e7\u00e3o, a troca. Ent\u00e3o, por isso, a Companhia est\u00e1 me trazendo de volta para um per\u00edodo que eu estive l\u00e1 atr\u00e1s, devido ao tempo trabalhando solo em produ\u00e7\u00e3o e outras coisas, sem essa viv\u00eancia em grupo. Tenho muitas refer\u00eancias \u00e0 Companhia por poucas vezes que tenho tido contato, mas s\u00e3o refer\u00eancias e experi\u00eancias que me fazem acreditar que posso ultrapassar essa cortina.<\/p>\n\n\n\n<p>Todos n\u00f3s temos uma cortina, eu acredito, que \u00e9 o \u201ceu\u201d e a \u201cminha realidade\u201d. O meu eu \u00e9 muito introspectivo, a minha realidade \u00e9 solta. E, por muitas vezes, eu fico quieta, calada, quase n\u00e3o falo. Justamente me resguardando desse outro lado da cortina. E aqui n\u00e3o. A Companhia est\u00e1 me permitindo de novo ultrapassar essa cortina, atrav\u00e9s do corpo, atrav\u00e9s da viv\u00eancia. Ter essa experi\u00eancia, para mim, est\u00e1 sendo muito rico e, acredite, para mim est\u00e1 sendo um prazer vir at\u00e9 aqui, estar nessa viv\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu costumo dizer que o que eu sinto, o que eu penso, o que eu falo, s\u00f3 meu corpo expressa. Porque \u00e9 exatamente isso. Geralmente, eu tenho perspectiva, mas quando eu quero uma comunica\u00e7\u00e3o, quando eu quero alguma coisa, \u00e9 atrav\u00e9s da dan\u00e7a. Atrav\u00e9s da minha dan\u00e7a que veio de outras pessoas, que veio do Rubens Barbot, que veio da Val\u00e9ria Mon\u00e3, que veio um pouco da Mayra Matar, que vieram de outros mestres e que criou sua pr\u00f3pria linguagem. A minha pessoa, embora n\u00e3o seja uma dan\u00e7arina exposta, ela se comunica atrav\u00e9s do movimento, atrav\u00e9s da dan\u00e7a. E eu acho que me comunico muito melhor quando eu dan\u00e7o do que quando eu falo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, ultrapassar essas cortinas \u00e9 muito dif\u00edcil. \u00c9 prazeroso quando voc\u00ea se encontra num lugar onde voc\u00ea pode ultrapassar a cortina. Onde n\u00e3o existe essa cortina. Que \u00e9 o outro lado, n\u00e9? Eu vejo a Companhia como o outro lado da cortina.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Cristina Basilio Thomas (Bolinha)<\/em><\/strong>\n<br>\nSou Cristina, mas todos me chamam Bolinha. Minha palavra \u00e9 <em>inteireza.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A primeira vez que eu vi a Companhia tamb\u00e9m foi no Museu da Rep\u00fablica, num evento do TEAR, homenageando Manoel de Barros.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi uma alegria ver aquilo. Eu escutei o barulho dos tambores tocando e, quando olhei para tr\u00e1s, vi as meninas entrando com aquelas saias gigantes dos brincantes. Parecia que as pessoas vinham flutuando. E, naquele momento, vendo aquelas saias no ar, aqueles tambores, fiquei louca! Era uma alegria s\u00f3, contagiante!<\/p>\n\n\n\n<p>Eu aprendi a andar nas pernas de pau com o Hor\u00e1cio Storani, um palha\u00e7o incr\u00edvel. Depois fiz uma oficina de dan\u00e7as culminantes com Concei\u00e7\u00e3o Carlos e Tain\u00e1 Mecun, e elas trouxeram a gente aqui para participar da <em>Prociss\u00e3o de Todos os Santos<\/em>. Eu s\u00f3 tinha usado a perna em aula, oficina. A primeira vez que eu fui para a rua foi na prociss\u00e3o da Companhia.<\/p>\n\n\n\n<p>Entrar nessa casa foi um impacto. \u00c9 tudo encantaria. O triciclo da L\u00edgia, os estandartes, todas essas coisas, todo mundo se maquiando&#8230; eu nem precisava subir na perna. As pessoas foram muito gentis comigo, sabiam que era minha primeira vez. Recebi ajuda para sair da casa, para chegar na pra\u00e7a. E aquele cortejo! Nossa, que emo\u00e7\u00e3o! Foi um batismo e tanto!&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A\u00ed eu nunca mais sa\u00ed daqui. Todos os dias que venho para c\u00e1 \u00e9 um dia fora do tempo. Fazer as oficinas de dan\u00e7a nas alturas com L\u00edgia e Mar\u00edlia, essas mestras incr\u00edveis, \u00e9 um luxo! Um presente.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui, nesse grupo, nessa rela\u00e7\u00e3o, nessa fam\u00edlia, sinto uma inteireza.&nbsp; \u00c9 muito bom. Parece que todo mundo fala a minha l\u00edngua. E, ao mesmo tempo, n\u00e3o \u00e9 uma coisa est\u00e1tica, porque a gente est\u00e1 sempre em transforma\u00e7\u00e3o, sempre tem um movimento novo, um cheiro novo, um som&#8230; \u00e9 um lugar para ampliar todos os sentidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, \u00e9 onde eu me encontro. \u00c9 demais a experi\u00eancia aqui dentro dessa casa. Se eu n\u00e3o pudesse mais vir aqui, nem sei o que seria de mim [risos].<\/p>\n\n\n\n<p>Tem uma plenitude. \u00c9 incr\u00edvel, voc\u00ea est\u00e1 na perna, mas isso n\u00e3o te separa das pessoas, aproxima&#8230; \u00e9 uma conex\u00e3o imensa com todo mundo que est\u00e1 na rua. \u00c9 um encantamento. \u00c9 po\u00e9tico aquilo. \u00c9 uma encantaria mesmo!<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Iazana Guizzo<\/em><\/strong>\n<br>\nSou Iazana Guizzo. A minha palavra \u00e9 <em>encanto<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu lembro do primeiro dia que eu encontrei a Companhia na Pra\u00e7a Tiradentes e vi uma esp\u00e9cie de Fellini brasileiro na perna de pau e esqueci o que eu fui fazer. Parei. Depois, cosmicamente, fui pegar livros de uma amiga e, de novo, cruzei com a Companhia. Isso na mesma semana. E a\u00ed come\u00e7ou. At\u00e9 eu ver os figurinos dos Orix\u00e1s, de Carlinhos [Carlos Veiga]. Eu n\u00e3o era macumbeira na \u00e9poca. Eu senti que ali tinha um mundo para habitar, um mundo bem naqueles figurinos, como se pudesse nascer uma arquitetura desse encontro. Eu senti isso muito claramente. Essa possibilidade de fazer coisas com a natureza, muito crua, porque tudo \u00e9 natureza. E a\u00ed come\u00e7ou todo esse processo, que tem a ver com esse encanto, com esse trabalho, com o percurso, com o aprendizado, at\u00e9 que eu come\u00e7o a me aproximar mais da Companhia na pandemia, e a\u00ed nasce o Floresta Cidade [projeto de extens\u00e3o, ensino e pesquisa da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ]. Nasce bem nesse ponto aqui, uma guinada. E come\u00e7a uma outra coisa, come\u00e7a a possibilidade de praticar um outro tipo de urbanismo, de perceber a cidade a partir das energias, da composi\u00e7\u00e3o com a floresta. N\u00e3o de uma maneira falada ou formal\u2026 n\u00e3o sei explicar isso. \u00c9 uma coisa diferente do que a universidade e a maior parte dos profissionais praticam, mas presente nas ruas do Rio de Janeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 como se fosse uma outra camada, entrasse uma outra camada na composi\u00e7\u00e3o da cidade. Seria a possibilidade de pensar uma cidade a partir do fazer encantado dela. Que n\u00e3o \u00e9 somente participa\u00e7\u00e3o, juntando as pessoas e conversando sobre quest\u00f5es pr\u00e1ticas, mas \u00e9 todo um modo de vida que vai afirmando uma cidade n\u00e3o ocidental, uma pol\u00edtica e uma po\u00e9tica de habitar um mundo singular. Um mundo de onde voc\u00ea nunca sai o mesmo porque tem metamorfose.<\/p>\n\n\n\n<p>E isso tem a ver com uma luta di\u00e1ria de bater na porta da prefeitura. Que eu aprendo, e que \u00e9 bem dif\u00edcil, \u00e9 um trabalho dif\u00edcil, assim, de manter a coisa em p\u00e9, \u00e9 bem dif\u00edcil. Eu que estou tentando manter uma coisa em p\u00e9, aprendo com esse espa\u00e7o. Muito. E percebo a dificuldade, sabe? \u00c9 muito dif\u00edcil. Conseguir dinheiro no Brasil para praticar o encanto \u00e9 muito dif\u00edcil. Estou aqui nessa dificuldade.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, al\u00e9m disso, tem acontecido uma coisa interessante comigo quando participo dos cortejos. No in\u00edcio eu era meio como p\u00fablico, um tipo de p\u00fablico engra\u00e7adinho. Depois eu achei que passei a ser um personagem floresta, mas percebo hoje que era muito desencarnado, vou chamar assim. Estava ali junto, cantando as m\u00fasicas, mas ainda um tanto fora. E, de repente, esse ano aconteceu uma coisa importante, que foi eu de fato me sentir floresta&#8230; que eu confundo um pouco com as experi\u00eancias do terreiro. \u00c9 como se tivesse um esp\u00edrito de floresta em mim. E a\u00ed eu entendi uma outra coisa, bem rapidamente, que o cortejo, ele vai instaurando uma outra energia na cidade. N\u00e3o que eu n\u00e3o entendesse antes, n\u00e3o que n\u00e3o soubesse disso de alguma maneira, mas vivenciar faz atingir outra compreens\u00e3o. O cortejo, ele de fato disputa a cidade, ele fura o asfalto, ele faz com que a floresta consiga emergir do ch\u00e3o, do passado, do futuro pelos nossos pr\u00f3prios corpos. A floresta fura o asfalto porque n\u00f3s somos terra. Ela fura porque o cortejo atua em diversas dimens\u00f5es temporais; sinto que n\u00e3o sabemos quase nada sobre a pot\u00eancia de agir de um cortejo nesse planeta. Vai muito al\u00e9m do que se pode ver ou da sua dura\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 uma imagem, n\u00e3o \u00e9 uma ideia, n\u00e3o \u00e9 apenas naquele momento. \u00c9 um acontecimento. \u00c9 mais pr\u00f3ximo, talvez, do que a gente fala que \u00e9 um eb\u00f3 no terreiro. Provocar uma energia pr\u00e1tica com alguns poucos elementos, inten\u00e7\u00f5es e pessoas a ponto de mudar o curso das coisas. \u00c9 mesmo. O cortejo atua no invis\u00edvel da mat\u00e9ria para mudar o vis\u00edvel. Um eb\u00f3, uma macumba, uma disputa com o ocidente dentro da metr\u00f3pole complexa.<\/p>\n\n\n\n<p>E isso pode ser um caminho para construir uma casa, um corpo, uma paisagem, uma cidade. Me sinto parte dessa casa de Myst\u00e9rios. Me sinto parte desse mundo. Desse mundo encantado que tamb\u00e9m \u00e9 duro em alguns momentos, n\u00e9? Cultivar uma cidade encantada exige insist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Estou me sentindo energizada por uma for\u00e7a agora. Precisando sustentar para n\u00e3o desabar. Isso me toca profundamente. Habitar \u00e9 uma coisa muito importante pra mim. Estou descobrindo dentro e fora dos cortejos e em companhia uma maneira de habitar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Cesar Oiticica Filho<\/em><\/strong>\n<br>\nSou Cesinha Oiticica e minha primeira palavra \u00e9 <em>ataque<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Ataque.<\/p>\n\n\n\n<p>Cinema, filme, como projeto de fazer um filme de revolu\u00e7\u00e3o. E vi, pela primeira vez, sem saber o que era, na rua. Na rua, as pernas de pau. E a\u00ed, depois, no projeto do filme <em>Ataque<\/em>. Quem me trouxe foi o dramaturgo Francisco Carlos, e a\u00ed foi puro encantamento, porque estava montando um projeto com ele para dar \u00e0 produ\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m uma coisa nova, um jeito de n\u00e3o ser essa coisa engessada do cinema industrial, de fazer uma coisa que fosse pol\u00edtica na pr\u00f3pria produ\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o vem o nome do projeto, que tem tudo a ver, porque estava no roteiro muito com Z\u00e9 Celso, Teatro Oficina, a\u00ed a gente monta o projeto que \u00e9 teatro em movimento.<\/p>\n\n\n\n<p>E a\u00ed, isso aqui na Companhia \u00e9 o teatro em movimento, na rua \u00e9 <em>Delirium Ambulatorium.<\/em> E a\u00ed, o <em>Delirium Ambulatorium<\/em>, ele realmente encontra os m\u00faltiplos sentidos dessas palavras\/conceitos em di\u00e1logo com a obra do H\u00e9lio [Oiticica]. Mais do que a obra, o pensamento de cria\u00e7\u00e3o. Criar enquanto anda, enquanto se relaciona com a cidade. E a\u00ed veio um corte. Pandemia, distopia e morte. Francisco morreu. No meio da pandemia. E a\u00ed esse projeto parou. O teatro, o movimento&#8230; como parou tudo, n\u00e9? Mas a\u00ed com a morte dele, foi muito forte. Muito triste. Sa\u00ed, fui&#8230; enterrar, n\u00e9? Fui enterrado ou n\u00e3o fui enterrado? Queimar e segurar a onda da minha m\u00e3e.<\/p>\n\n\n\n<p>A volta da vida e o reencontro. O reencontro com esse encantamento. E com o centro, com a obra, com a rua. E o encontro com o amor. Encontro com uma nova fase da vida, nasceu um outro projeto da pr\u00f3pria Companhia tamb\u00e9m ser um filme, um novo desenho de produ\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m para esse filme, para esse projeto de revolu\u00e7\u00e3o, mas acho que a revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 o que j\u00e1 acontece aqui. O filme, que \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o, \u00e9 como se fosse tamb\u00e9m uma profecia. A gente conseguiu vencer! Venceu o fascismo, vencemos a pandemia. Em outro momento de alegria, de reconex\u00e3o com a rua, de retomada desse projeto, que ainda n\u00e3o saiu totalmente do papel, mas eu fa\u00e7o filme assim como quem faz mesmo a vida. Filmar v\u00e1rias vezes a mesma coisa. Isso aconteceu na Oficina e acontece aqui. O teatro est\u00e1 cada vez mais perto, at\u00e9 dentro de mim, dentro desse caminho, desse filme.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo se mistura. Ent\u00e3o, acho que o que a gente est\u00e1 fazendo aqui junto, juntando a arte, o ativismo, o urbanismo, a rua, j\u00e1 \u00e9 fazer a revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora. \u00c9 isso. Mas \u00e9 bem dif\u00edcil fazer um filme de revolu\u00e7\u00e3o. \u00c9 dif\u00edcil arrumar um patroc\u00ednio. Ent\u00e3o, o interessante \u00e9 que pega o filme tamb\u00e9m e tem essa ideia de meio impulsionar a realidade. Isso aconteceu algumas vezes no pr\u00f3prio roteiro desse filme. Aconteceu um monte de coisa parecida depois. Fiquei at\u00e9 com medo de escrever depois disso. Quero contratar um roteirista pro resto.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas \u00e9 perceber que \u00e9 no aqui e agora que a gente faz a revolu\u00e7\u00e3o. \u00c9 no fazer que voc\u00ea j\u00e1 t\u00e1 fazendo a revolu\u00e7\u00e3o. N\u00e3o precisa voc\u00ea querer instigar as pessoas a fazerem, mas \u00e9 para voc\u00ea realmente revolucionar desde a produ\u00e7\u00e3o at\u00e9 esses encontros com essas companhias, porque a ideia era, no meio do governo, do desgoverno, n\u00e3o dava para escrever esse filme, arrumar patroc\u00ednio e fazer tudo, ent\u00e3o era meio que driblar a coisa e fazer um projeto de teatro, que era teatro de movimento, que tamb\u00e9m foi meio prof\u00e9tico. E o Francisco sabia muito, porque ele veio de Manaus e tal. Ent\u00e3o entender os processos como processos, que j\u00e1 s\u00e3o revolucion\u00e1rios, eu acho que tamb\u00e9m tem muito a ver com o que acontece aqui.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o tem esses encontros. Eu tenho tentado muito com a cabe\u00e7a refletir sobre essa revolu\u00e7\u00e3o da sensibilidade, que \u00e9 um texto do M\u00e1rio Pedrosa, de 1957. At\u00e9 uma descren\u00e7a nas revolu\u00e7\u00f5es armadas, uma descren\u00e7a c\u00e9tica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o Francesa. Em todas essas revolu\u00e7\u00f5es&#8230; no final, os regimes de poder voltam com toda a for\u00e7a, se estabilizam com toda a for\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Guilherme Vergara<\/em><\/strong>\n<br>\nEnt\u00e3o, meu nome \u00e9 Guilherme e para eu entrar nesse giro espiral eu ofere\u00e7o essa frase que vem da Marilia Felippe, da Companhia de Myst\u00e9rios e Novidades: <em>agora eu posso ser quem eu sou<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Quem eu sou? Sou um caminhante, um caminho que sai da Pra\u00e7a Mau\u00e1 e chega na Pra\u00e7a da Harmonia. Caminhando nesta cidade, entre duas pra\u00e7as, encontro uma nuvem de encantados. Quem s\u00e3o essas pessoas no meio do dia de uma cidade de pedra e ch\u00e3o de asfalto? Essas pessoas flutuantes, quem s\u00e3o? Quem s\u00e3o voc\u00eas? Carregando a bandeira da paz, com suspens\u00f5es, com conchas, cantando, sorrindo, e o resto da cidade com caras duras, perplexas, que se transformam por cont\u00e1gio, passam a acompanhar tamb\u00e9m este cortejo-del\u00edrio po\u00e9tico urbano. Assim, encontrei uma matriz de encantadores urbanos. Agora eu sei. Agora eu sei, agora eu sei que eu n\u00e3o estou sozinho no que eu sou.<br><br>\u00c9 essa revolu\u00e7\u00e3o, a revolu\u00e7\u00e3o da sensibilidade de Pedrosa [como Cesinha enfatizou], esta revolu\u00e7\u00e3o do corpo-ch\u00e3o-cora\u00e7\u00e3o que acredito. E cada vez mais acelerado, porque voc\u00ea est\u00e1 vendo o mundo inteiro criar revolu\u00e7\u00f5es fabulantes. O mundo inteiro est\u00e1 se formando em grupos de resist\u00eancia como esse, formando redes de comunidades para compensar o fracasso de um sistema opressor capitalista de individualidades tristes. A revolu\u00e7\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o e da alegria \u00e9 urgente.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez possamos ver todas as falas-espiralares caminhando, tal como L\u00edgia, como leituras do Or\u00e1culo da vida. Um pr\u00f3logo para esta revolu\u00e7\u00e3o. Porque entrando na espiral andando de costas, Ligia encarnou essa recupera\u00e7\u00e3o de um estado intuitivo de transporte a tempos remotos. \u00c9 como se ela estivesse caminhando pelo fio espiral de sua miss\u00e3o de irradiar essas for\u00e7as, o que hoje em dia todo mundo repete como for\u00e7as ancestrais, for\u00e7as de tempos remotos. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que a bandeira da paz, a bandeira de todos os tempos, foi entregue \u00e0 Companhia, para estar lembrando do futuro n\u00e3o ainda consciente. A performance espiralar da L\u00edgia, andando de costas, resgata tempos remotos encontrando chaves que revelam esses caminhos e destinos imantados de tantas vidas em transforma\u00e7\u00f5es. O que existe como devires sempre permanecer\u00e1. Viagens e encontros tecem as curvas da vida dedicada \u00e0 origem e ao destino da arte. Que chave!<\/p>\n\n\n\n<p><br>De l\u00e1 pra c\u00e1 [andando na espiral], eu descobri o ch\u00e3o. Eu descobri (agora eu sei) que do ch\u00e3o-Terra sobe uma for\u00e7a pro cora\u00e7\u00e3o. E quando a gente caminha e dan\u00e7a, a Terra se junta em giro. Pode-se tentar desobedecer a uma volta aqui ou l\u00e1; mesmo assim, caminhar juntando passos, corpos, ch\u00e3os e cora\u00e7\u00f5es. Circular e dan\u00e7ar andam juntos. Acredito que a revolu\u00e7\u00e3o da sensibilidade \u00e9 inacabada e infinita como uma espiral. Acredito na revolu\u00e7\u00e3o do amor. Acredito na revolu\u00e7\u00e3o de todas as artes. Agora eu sei. Agora eu sei que \u00e9 insepar\u00e1vel: onde h\u00e1 dan\u00e7a, espiritualidade, corpo e cora\u00e7\u00e3o, a espiral infinita da vida est\u00e1 seguindo seu giro c\u00f3smico.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>E quanto mais eu sou, eu encontro \u201cn\u00f3s somos\u201d. Cito Mar\u00edlia: \u201cPosso ser quem eu sou!\u201d. Acrescento que, ao escutar a todos nesta caminhada espiralar, agora para todxs vale:&nbsp; Agora eu sei que posso ser quem eu sou. Agora sabemos. Gratid\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Jessica Gogan<\/em><\/strong>\n<br>\nSou a Jessica Gogan. Minha palavra \u00e9 <em>acorpar<\/em>, ou melhor, <em>acuerpar<\/em>, em espanhol: conceito\/palavra da ativista feminista da Guatemala Lorena Cabnal.<\/p>\n\n\n\n<p>Chegando na pra\u00e7a parece que tem um ensaio teatral: pessoas andando, ensaiando movimentos, tocando as m\u00fasicas, todo mundo esperando alguma coisa acontecer.<\/p>\n\n\n\n<p>T\u00e1 tudo colorido, animado, mas n\u00e3o parece que tem muita gente. Ent\u00e3o voc\u00ea fica pensando: \u201cPoxa, ser\u00e1 que isso vai acontecer? Ser\u00e1 que vai ter gente? Ser\u00e1?\u201d. E, de repente, a magia come\u00e7a com uma concha, som profundo do mar, chamando pessoas, marcando a sa\u00edda, e o pequeno grupo come\u00e7a a espiralar e caminhar. E a\u00ed se inicia uma esp\u00e9cie de energia diferenciada, sens\u00edvel e alegre. E, em menos de 100 metros, aparece, do nada, um monte de gente, como nuvem. Das vinte ou trinta pessoas, agora tem mais de trezentas. Esse \u201cacorpamento\u201d \u00e9 t\u00e3o incr\u00edvel. Esta energia de revolu\u00e7\u00f5es outras, de sensibilidade, de comunidade, de solidariedade, de sonhos e magia. E tem que ter f\u00e9, come\u00e7ar, e as pessoas v\u00e3o chegar.<\/p>\n\n\n\n<p>Gratid\u00e3o poder acompanhar.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"alignnormal\"><div id=\"metaslider-id-5022\" style=\"width: 100%; margin: 0 auto;\" class=\"ml-slider-3-20-3 metaslider metaslider-flex metaslider-5022 ml-slider\">\n    <div id=\"metaslider_container_5022\">\n        <div id=\"metaslider_5022\">\n            <ul aria-live=\"polite\" class=\"slides\">\n                <li style=\"display: block; width: 100%;\" class=\"slide-5028 ms-image\"><img width=\"1000\" height=\"1333\" src=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/09\/Espiral-na-parede-sozinho_190827.jpg\" class=\"slider-5022 slide-5028\" alt=\"\" loading=\"lazy\" rel=\"\" title=\"Espiral na parede sozinho_190827\" style=\"margin: 0 auto; width: 49.726717393634%\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/09\/Espiral-na-parede-sozinho_190827.jpg 1000w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/09\/Espiral-na-parede-sozinho_190827-225x300.jpg 225w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/09\/Espiral-na-parede-sozinho_190827-768x1024.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><div class=\"caption-wrap\"><div class=\"caption\">Espirais na parede, 18 de dezembro de 2024, Companhia de Myst\u00e9rios e Novidades. Fotos: Jessica Gogan<\/div><\/div><\/li>\n                <li style=\"display: none; width: 100%;\" class=\"slide-5027 ms-image\"><img width=\"1000\" height=\"1333\" src=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/09\/Espiral-no-chao-sozinho_191832.jpg\" class=\"slider-5022 slide-5027\" alt=\"\" loading=\"lazy\" rel=\"\" title=\"Espiral no ch\u00e3o sozinho_191832\" style=\"margin: 0 auto; width: 49.726717393634%\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/09\/Espiral-no-chao-sozinho_191832.jpg 1000w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/09\/Espiral-no-chao-sozinho_191832-225x300.jpg 225w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/09\/Espiral-no-chao-sozinho_191832-768x1024.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><div class=\"caption-wrap\"><div class=\"caption\">Espirais no ch\u00e3o, 18 de dezembro de 2024, Companhia de Myst\u00e9rios e Novidades. Fotos: Jessica Gogan<\/div><\/div><\/li>\n            <\/ul>\n        <\/div>\n        \n    <\/div>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong><em>***<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ana Paula Dias<\/em><\/strong>\n<br>\nAtriz, bailarina, produtora teatral e psicomotricista, traz em sua bagagem vasta experi\u00eancia com o corpo e a arte na linguagem de express\u00e3o corporal na dan\u00e7a. Atua como produtora cultural no complexo de Santa Teresa, tamb\u00e9m contribui junto a Companhia dos Prazeres, dirigida por Lucas Weglisnky, com quem atuou em projetos culturais de \u00e2mbito nacional, al\u00e9m de ter integrado as obras dirigidas por Andr\u00e9 Lu\u00eds C\u00e2mara e a Companhia Rubens Barbot de Teatro e Dan\u00e7a, onde atualmente est\u00e1 em processo criativo do espet\u00e1culo solo <em>Al\u00e9m do tempo<\/em>, com suas pr\u00f3prias composi\u00e7\u00f5es coreogr\u00e1ficas, e inspirado na trajet\u00f3ria art\u00edstica de Rubens Barbot.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Carlos Santos<\/em><\/strong>\n<br>\nArtista circense formado pelo projeto Talentos da vez (2007), foi professor no Lumini Espa\u00e7o ART (2010\u20132018) e integrante da Companhia de dan\u00e7a CODA KD (2017\u20132018). Desde 2010, participa dos eventos da Grande Companhia Brasileira de Myst\u00e9rios e Novidades e, desde 2023, \u00e9 oficialmente integrante do elenco.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Cesar Oiticica Filho<\/em><\/strong>\n<br>\nArtista, cineasta e curador, formado em jornalismo, realizou o filme <em>H\u00e9lio Oiticica<\/em>, ganhador do Pr\u00eamio Caligari e Fipresci na Berlinale, do Festival do Rio e FILAF em Perpignan, Fran\u00e7a. Curador com Fernando Cocchiarale da exposi\u00e7\u00e3o <em>Museu \u00e9 o Mundo<\/em> (Pr\u00eamio ABCA\/2010). Curador do Projeto HO [H\u00e9lio Oiticica] desde 1997, e diretor art\u00edstico do Centro Municipal H\u00e9lio Oiticica desde 2021. Criou, com Evandro Salles, a <em>Parada 7<\/em> em 2022. Participou da Bienal de Havana (2015) e da Bienal of Moving Image (2014). Publicou livros sobre H\u00e9lio Oiticica e M\u00e1rio Pedrosa. Suas mais recentes exposi\u00e7\u00f5es s\u00e3o: <em>Espa\u00e7os Qu\u00e2nticos<\/em> e <em>Interven\u00e7\u00e3o Qu\u00e2ntica<\/em> (2024\/2025).<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Cristina Thomas (Bolinha)<\/em><\/strong>\n<br>\nNasceu em 1964 numa fam\u00edlia numerosa e amorosa. Tem seis irm\u00e3s amigas, com as quais cresceu na beira da praia entre brincadeiras, m\u00fasica, poesia e muitas aventuras. M\u00e3e do Pedro, um surfista apaixonado pela natureza, e av\u00f3 de duas meninas incr\u00edveis que adoram ouvir hist\u00f3rias.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 arte-educadora, especialista em literatura infanto-juvenil, contadora de hist\u00f3rias, pernalta, brincante e professora\/mediadora de leitura h\u00e1 40 anos em bibliotecas escolares na cidade de Niter\u00f3i.<\/p>\n\n\n\n<p>Adora nadar no mar, aprender coisas novas, dan\u00e7ar, viajar, estar rodeada de crian\u00e7as (de todas as idades) e ama poesia!<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Iazana Guizzo<\/em><\/strong>\n<br>\nArquiteta e urbanista. Coordenadora do projeto de extens\u00e3o, ensino e pesquisa Floresta Cidade da FAU\u2013UFRJ, onde tamb\u00e9m \u00e9 professora. \u00c9 doutora em urbanismo, mestre em psicologia e formada em bal\u00e9 contempor\u00e2neo. A regenera\u00e7\u00e3o das cidades diante da urg\u00eancia clim\u00e1tica, a participa\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria, a vida interespec\u00edfica e as cosmopercep\u00e7\u00f5es afroamer\u00edndias s\u00e3o temas de seu interesse. Atua no campo da arquitetura, urbanismo e arte e colabora com a Companhia de Myst\u00e9rios e Novidades desde 2020.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Lelena Anhaia_ Maria Helena Anhaia Mello<\/em><\/strong>\n<br>\nMusicista desde 1987, trabalhou com as bandas Luni, Scowa e a M\u00e1fia, com as cantoras Rita Bennedito, Ceumar e Vange Leonel. Faz parte das Orqu\u00eddeas do Brasil de Itamar Assump\u00e7\u00e3o, trabalhando com Anelis Assump\u00e7\u00e3o. Atualmente toca com Macal\u00e9, o grupo Banda Mirim, a Companhia de Myst\u00e9rios e Novidades, o Circo Branco e com a cantora Natascha Falc\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>L\u00edgia Veiga<\/em><\/strong>\n<br>\nAtriz, musicista, dan\u00e7arina, integrou o grupo carioca Coringa Grupo de Dan\u00e7a e atuou no teatro de rua italiano Teatro Pirata, na d\u00e9cada de oitenta. Criadora e diretora da Grande Companhia Brasileira de Myst\u00e9rios e Novidades (1981), desde 2007 sediada na regi\u00e3o portu\u00e1ria do Rio de Janeiro. A Companhia dialoga com o territ\u00f3rio atrav\u00e9s de seus espet\u00e1culos, festivais, oficinas, f\u00f3runs, cortejos e atividades do seu calend\u00e1rio anual. Criou o Projeto Gigantes pela pr\u00f3pria Natureza, orquestra itinerante sobre pernas de pau, constitu\u00eddo por oficinas pr\u00e1ticas e te\u00f3ricas que inaugurou as atividades educativas da Casa de Myst\u00e9rios e da Pra\u00e7a da Harmonia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Mar\u00edlia Felippe<\/em><\/strong> <br> Artista c\u00eanica da dan\u00e7a-teatro, educadora corporal formada em educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica pela UFMG, em terapia psicocorporal pela Funda\u00e7\u00e3o Rio Abierto \u2013 escola de desenvolvimento humano (Ar) e em dan\u00e7a por Graciela Figueroa. Dirigiu durante 12 anos (1988 a 2000) o Coringa Rio Aberto, representante ent\u00e3o da Funda\u00e7\u00e3o Rio Abierto (\u201cpara el desarollo arm\u00f3nico del hombre\u201d www.rio abierto.ar). \u00c9 instrutora docente do mesmo sistema que tem como prop\u00f3sito contribuir para o desenvolvimento humano atrav\u00e9s de t\u00e9cnicas psicocorporais onde o movimento da energia vital \u00e9 o pilar e ponto de partida para o desenvolvimento do trabalho. H\u00e1 25 anos integra a Grande Companhia Brasileira de Myst\u00e9rios e Novidades, coletivo teatral que se inscreve como \u00d3pera Popular (<a href=\"http:\/\/www.ciademysterios.com\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">www.ciademysterios.com<\/a>), e coordena as atividades da Casa de Myst\u00e9rios, equipamento cultural localizado na zona portu\u00e1ria do Rio.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Milla Costa_ Camilla Almeida da Cost<\/em>a<\/strong>\n<br>\nAtriz formada pela Oficina Escola Nossa Senhora do Teatro (2016) e pela UNESA, onde cursou licenciatura em teatro (2018). Atua h\u00e1 17 anos com a Grande Companhia Brasileira de Myst\u00e9rios e Novidades. Como atriz, atuou tamb\u00e9m com a Companhia Atores de Oliveira (2016), a Faz Assim Produ\u00e7\u00f5es (2017) e a Companhia Monkinoa (2021). Foi professora de Teatro na Oficina Escola Nossa Senhora do Teatro (2017\u20132018) e no Instituto Entre o C\u00e9u e a Favela (2022\u20132024).<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Rafael Rodrigues<\/em><\/strong>Arte-educador, ator e brincante na Grande Companhia Brasileira de Myst\u00e9rios e Novidades desde o ano de 2014. Apresenta-se nos cortejos e espet\u00e1culos do calend\u00e1rio cultural da Companhia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Yuri Ramundo<\/em><\/strong>\n<br>\nYuri Ramundo tem 35 anos e \u00e9 artista da cena carioca. Performa junto \u00e0 Companhia Brasileira de Myst\u00e9rios e Novidades h\u00e1 dois anos. Atua tamb\u00e9m como figurinista e diretor de arte com passagens pelo teatro, \u00f3pera e carnaval. Cultiva, ainda, a medicina como ocupa\u00e7\u00e3o paralela.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong><sup>1<\/sup><\/strong> PEDROSA, M\u00e1rio. Arte e revolu\u00e7\u00e3o. <em>Jornal do Brasil<\/em>, Rio de Janeiro, 16 de abril de 1957.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><sup>2<\/sup><\/strong> Para saber mais, acesse: <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.escravosdamaua.com.br\/\" target=\"_blank\">https:\/\/www.escravosdamaua.com.br\/<\/a>. Acesso em: jun. 2025.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ser gigante, ser inteira, ser presente: Coleta de vozes da Companhia de Myst\u00e9rios e Novidades \u201cO que representa a Companhia para voc\u00eas? 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