{"id":5163,"date":"2025-09-30T16:39:40","date_gmt":"2025-09-30T19:39:40","guid":{"rendered":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/?page_id=5163"},"modified":"2025-10-14T17:17:59","modified_gmt":"2025-10-14T20:17:59","slug":"joao-paulo-lima-barreto-tukano","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/joao-paulo-lima-barreto-tukano\/","title":{"rendered":"Jo\u00e3o Paulo Lima Barreto (Tukano)"},"content":{"rendered":"\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/10\/macromicra-fundo-branco.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-5933\" width=\"338\" height=\"486\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/10\/macromicra-fundo-branco.png 696w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/10\/macromicra-fundo-branco-209x300.png 209w\" sizes=\"(max-width: 338px) 100vw, 338px\" \/><figcaption>Aza Cosmosopa. <em>Macr\u00f4mica<\/em>, 2022.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<h2>A concep\u00e7\u00e3o de corpo a partir das pr\u00e1ticas dos especialistas ind\u00edgenas do Alto Rio Negro<\/h2>\n\n\n\n<h4>Jo\u00e3o Paulo Lima Barreto (Tukano)<\/h4>\n\n\n\n<p>A ideia, neste artigo, \u00e9 apresentar as concep\u00e7\u00f5es de corpo a partir das pr\u00e1ticas dos especialistas ind\u00edgenas, tais como meu av\u00f4, mostrando a teia de rela\u00e7\u00f5es que se conecta ao corpo como \u201cfor\u00e7a vital\u201d da pessoa, e trazendo esses conhecimentos em di\u00e1logo com minha trajet\u00f3ria, que vai da comunidade \u00e0 universidade e \u00e0s ci\u00eancias biom\u00e9dicas.<\/p>\n\n\n\n<h3><strong>1. Trajet\u00f3ria: da comunidade \u00e0 universidade&nbsp;<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Aprendi muito na inf\u00e2ncia e na adolesc\u00eancia convivendo com meus av\u00f3s, sobretudo com meu av\u00f4 paterno, Ponciano Barreto, um especialista <em>yai<\/em> (\u201cpaj\u00e9\u201d). O <em>yai<\/em> \u00e9 detentor de <em>Kihti uk\u0169se <\/em>(o conjunto das narrativas m\u00edticas dos Tukano, <em>Yepamahs\u00e3<\/em>); <em>Bahsese <\/em>(repert\u00f3rio de f\u00f3rmulas, palavras e express\u00f5es retiradas dos<em> Kihti uk\u0169se<\/em>)<em>;<\/em><sup> <\/sup>e <em>Bahsamori <\/em>(o conjunto de pr\u00e1ticas sociais associadas aos <em>bahsese <\/em>e \u00e0s festas e cerim\u00f4nias rituais ao longo do ciclo anual).&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Meu av\u00f4 era um famoso mediador cosmopol\u00edtico, cuidador da sa\u00fade das pessoas e formador de novos especialistas na regi\u00e3o do Alto Rio Tiqui\u00e9, um rio afluente do Uaup\u00e9s. Denomino especialistas os <em>yai<\/em>, <em>kumu<\/em> e <em>baya<\/em> (no plural: <em>yaiua<\/em>, <em>kumu\u00e3<\/em> e <em>bayaroa<\/em>), pessoas que passaram pela forma\u00e7\u00e3o, que s\u00e3o detentores de conhecimentos, formadores de novos especialistas e exercem a \u201cprofiss\u00e3o\u201d de cuidado com a sa\u00fade e a cura das pessoas e do coletivo. Al\u00e9m disso, s\u00e3o mediadores cosmopol\u00edticos e operadores de <em>kihti uk\u0169se<\/em>, <em>bahsese <\/em>e <em>bahsamori<\/em> e possuem a mesma base de forma\u00e7\u00e3o, mas cada um tem sua especialidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Na comunidade, nas rodas de conversa, quase sempre o papo girava em torno dos <em>Kihti uk\u0169se<\/em> e dos <em>bahsese<\/em>, assunto de gente adulta, como eles costumavam dizer. Mas n\u00e3o proibiam as mulheres com seus filhos de ficarem sentadas ao seu redor. Para n\u00f3s, crian\u00e7as, era proibido fazer barulho e correr; nossas m\u00e3es exigiam sil\u00eancio e recomendavam ouvir as conversas dos velhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m, durante as conversas, comentavam sobre os perigos das doen\u00e7as, que apareceriam conforme as constela\u00e7\u00f5es estelares; os perigos do tempo de cheia dos rios, do tempo de ver\u00e3o, do tempo de fartura de frutas silvestres e do tempo de fartura de larvas comest\u00edveis, chamadas de <em>nihti\u00e3<\/em>. Ao falar dos perigos tamb\u00e9m se falava de <em>bahsese<\/em>, dos <em>Kihti uk\u0169se<\/em> e sobre os discursos formais das cerim\u00f4nias de <em>poose<\/em> (rituais de oferta e festa), assim como da organiza\u00e7\u00e3o social \u2014 dos grupos de irm\u00e3os maiores e de irm\u00e3os menores. Enfim, aquelas rodas de conversa eram momentos de atualiza\u00e7\u00e3o dos conhecimentos. Para as crian\u00e7as, contavam hist\u00f3rias dos bichos, do <em>boraro<\/em> (curupira), do <em>bisio<\/em>, do <em>saharowat<\/em>i e dos <em>welrimahs\u00e3 <\/em>(human\u00f3ides da floresta). Falava-se tamb\u00e9m dos marcadores do tempo, das constela\u00e7\u00f5es, dos bioindicadores, da divis\u00e3o do tempo de ver\u00e3o e da divis\u00e3o do tempo de inverno.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Por volta dos meus cinco anos de idade, eu passei a conviver mais com meus av\u00f3s paternos. A casa onde mor\u00e1vamos tinha duas divis\u00f3rias: uma parte do aposento da fam\u00edlia e outra que correspondia \u00e0 cozinha, espa\u00e7o que meus av\u00f3s preferiam como seu aposento. Quando passei a morar com eles, antes de eu dormir, minha av\u00f3 sempre me contava historinhas de bichos, como da cutia, do caranguejo, do inambu e dos perigos que apareciam ao longo do tempo. Durante o dia, quando meu av\u00f4 n\u00e3o ia para o ro\u00e7ado colher folhas de <em>patu <\/em>(ipadu), ele saia para pescar e, muitas vezes, me levava junto. No momento da pescaria, a ordem era ficar quieto, sem perguntas, sem fazer barulho, apenas seguir suas ordens. Depois da pescaria, j\u00e1 voltando para casa, durante o percurso at\u00e9 chegar ao porto, meu av\u00f4 contava hist\u00f3rias sobre os lugares, sobre os <em>waimahs\u00e3<\/em> (demiurgos e organizadores do mundo terrestre) que habitavam os lagos, sobre os nomes das corredeiras, sobre os <em>o\u00e3mahr\u00e3<\/em> (sujeitos que constru\u00edram o mundo terrestre) e sobre outros personagens que ajudaram a organizar o mundo, futuro lugar de habita\u00e7\u00e3o dos <em>waimahs\u00e3<\/em> e dos humanos.<\/p>\n\n\n\n<p>Na maioria das vezes em que meu av\u00f4 contava hist\u00f3rias para mim, eram apenas partes introdut\u00f3rias, resumidas e simples para que eu pudesse minimamente entender o sentido daqueles <em>Kihti uk\u0169se<\/em>. Ele tamb\u00e9m falava sobre o significado dos sonhos e do canto dos p\u00e1ssaros e contava hist\u00f3rias sobre os peixes e as transforma\u00e7\u00f5es dos bichos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Meu av\u00f4, por ser um renomado <em>yai<\/em> do Alto Rio Negro, especialmente da regi\u00e3o do Rio Tiqui\u00e9, era bastante requisitado pelos moradores locais para atender os doentes. Exercia seu of\u00edcio com muita dedica\u00e7\u00e3o e zelo. Um dia, falando sobre a sua forma\u00e7\u00e3o, contou o que seu formador lhe dissera no dia de sua conclus\u00e3o. Essa fala do meu av\u00f4 nunca saiu da minha cabe\u00e7a:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Agora tu est\u00e1s formado. As pessoas te procurar\u00e3o<br>durante o dia, ao anoitecer, durante a noite, de<br>madrugada ou pelo amanhecer, durante a chuva ou<br>durante o sol. Te buscar\u00e3o onde voc\u00ea estiver, no ro\u00e7ado<br>ou na pescaria. Atenda-os sem hesita\u00e7\u00e3o, sem<br>resmungar. Nunca diga \u201cn\u00e3o\u201d. Tudo isso tu dever\u00e1s<br>fazer com alegria, com seguran\u00e7a, com entusiasmo,<br>pois tu foste formado para essa miss\u00e3o.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Meu av\u00f4 levava essa recomenda\u00e7\u00e3o a s\u00e9rio, exercia seu of\u00edcio de <em>yai<\/em> com muito respeito e dedica\u00e7\u00e3o, e, acima de tudo, gostava do que fazia. Convivendo com ele, eu pude acompanh\u00e1-lo no exerc\u00edcio do seu of\u00edcio. Muitas vezes, cheguei a viajar com ele, acompanhado da minha av\u00f3.<\/p>\n\n\n\n<p>Muito mais tarde, fui para o semin\u00e1rio Salesiano, onde passei seis anos. Cursei Filosofia Seminar\u00edstica no Instituto Superior de Filosofia, Teologia Pastoral e Ci\u00eancias Humanas (CNBB\/NORTE I) por tr\u00eas anos, passei um ano no noviciado e fiz voto tempor\u00e1rio de castidade, pobreza e obedi\u00eancia. Em 2000, desisti da carreira do sacerd\u00f3cio e voltei a estudar filosofia pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), ao mesmo tempo que fazia o curso de Direito na Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Acabei desistindo desse \u00faltimo para ingressar no curso de Mestrado em Antropologia da UFAM.<\/p>\n\n\n\n<p>O per\u00edodo de idas e vindas entre a Filosofia Seminar\u00edstica e o curso de Filosofia na UFAM foi muito marcado por uma forma\u00e7\u00e3o do pensamento filos\u00f3fico ocidental. As explica\u00e7\u00f5es dos gregos sobre o mundo, sobre os demiurgos (deuses) e sobre a origem das coisas muito coincidiam com a maneira como meu av\u00f4 me explicava o mundo. Quando os professores falavam sobre a cosmologia dos gregos, me remetia diretamente para o universo dos <em>Kihti uk\u0169se<\/em> que eu aprendi com meus av\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitas vezes eu desejava compartilhar meus saberes na sala de aula, as formas de explica\u00e7\u00e3o do mundo e das coisas do ponto de vista dos <em>Yepamahs\u00e3<\/em> (Tukano). Quando me esfor\u00e7ava para contar, os professores logo diziam que isso era mito, que aquele espa\u00e7o (sala de aula) era para aprender filosofia, ou melhor, era espa\u00e7o para filosofar. Isso aconteceu tanto na universidade quanto no semin\u00e1rio onde eu havia estudado antes.<\/p>\n\n\n\n<p>A necessidade desse di\u00e1logo se tornou evidente quando, em 2009, minha sobrinha, com doze anos de idade, sofreu um acidente of\u00eddico, tendo sido picada por uma cobra venenosa nas redondezas da nossa comunidade no rio Tiqui\u00e9. O tratamento gerou conflitos significativos entre os m\u00e9todos de medicina ind\u00edgena de <em>bahsese<\/em> e os moldes da medicina hospitalar que recomendavam amputar seu p\u00e9. Felizmente conseguimos ser escutados e deu certo. Mas o fato ora descrito \u00e9 um exemplo de outros v\u00e1rios casos similares no Brasil. E esse acontecimento nos inspirou a iniciar uma jornada de articula\u00e7\u00f5es para a funda\u00e7\u00e3o do Centro de Medicina Ind\u00edgena <em>Bahserikowi<\/em>, em Manaus, que \u00e9 pioneiro no Brasil. Assim, o \u201cmito de origem\u201d do Centro ocorre em um contexto de nega\u00e7\u00e3o dos conhecimentos e pr\u00e1ticas terap\u00eauticas ind\u00edgenas.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu j\u00e1 estava ciente de que algo deveria ser feito para desconstruir o imagin\u00e1rio criado ao longo de muito tempo sobre a figura do \u201cpaj\u00e9\u201d, bem como as (pr\u00e9)concep\u00e7\u00f5es sobre os conhecimentos ind\u00edgenas, haja vista a hist\u00f3ria do acidente of\u00eddico de minha sobrinha e a luta que travamos para ter o direito de fazer um tratamento em conjunto com a biomedicina. Desde ent\u00e3o busco caminhos para trazer os conhecimentos ind\u00edgenas em di\u00e1logo com a ci\u00eancia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h3><strong>2. A antropologia como est\u00edmulo para \u201cpensar o pensamento ind\u00edgena\u201d<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Dediquei meus estudos acad\u00eamicos, no mestrado e no doutorado, a evidenciar esses conceitos nativos, mais especificamente os conceitos dos <em>yepamahs\u00e3 <\/em>(Tukano). Esse trabalho vem sendo desenvolvido com outros colegas ind\u00edgenas do curso de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Antropologia Social e membros do N\u00facleo de Estudos da Amaz\u00f4nia Ind\u00edgena (NEAI). Assim, meu trabalho n\u00e3o prop\u00f5e um contraponto a nenhum deles, mas busca promover, junto ao que foi produzido, uma maior compreens\u00e3o dos conceitos propriamente nativos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em meu trabalho de mestrado, defini <em>waimahs\u00e3 <\/em>como humanos que habitam os dom\u00ednios ou \u201cambientes\u201d da terra, da floresta, do ar e da \u00e1gua; que possuem capacidade de metamorfose e de camuflagem, assumindo (vestindo a roupa) a forma de animais e de peixes e adquirindo suas caracter\u00edsticas e habilidades f\u00edsicas; como a fonte de conhecimento, aqueles com os quais os especialistas tukano (<em>yai<\/em>, <em>kumu <\/em>e <em>baya<\/em>) devem se comunicar e aprender, acessando com eles seus conhecimentos. <em>Waimahs\u00e3 <\/em>s\u00e3o tamb\u00e9m seres que habitam todos os espa\u00e7os c\u00f3smicos, que s\u00e3o donos dos lugares e respons\u00e1veis pelos animais, pelos vegetais, pelos minerais e pela temperatura do mundo terrestre. Eles [<em>waimahs\u00e3<\/em>] s\u00f3 podem ser vistos por um especialista, isto \u00e9, <em>yai <\/em>ou <em>kumu<\/em>. Esses seres s\u00e3o, por \ufb01m, a pr\u00f3pria extens\u00e3o humana, devendo sua exist\u00eancia e reprodu\u00e7\u00e3o ao fen\u00f4meno do devir, isto \u00e9, \u00e0 continuidade da vida ap\u00f3s a morte, sendo assim a origem e o destino dos humanos, seu in\u00edcio e seu \ufb01m. A categoria de <em>wai-mahs\u00e3<\/em>, assim grafada com h\u00edfen, foi abundante e literalmente traduzida pelos antrop\u00f3logos como \u201cgente-peixe\u201d (uma vez que <em>wai<\/em>: peixe; <em>mahs\u00e3<\/em>: gente), o que levou ao entendimento superficial de que peixe \u00e9 gente para os Tukano. Como discuti em meu trabalho, peixe n\u00e3o possui atributos antropoc\u00eantricos, isto \u00e9, n\u00e3o tem <em>status <\/em>de gente ou de pessoa. Para os Tukano, os peixes nunca tiveram, nem mesmo em sua origem m\u00edtica, condi\u00e7\u00e3o humana. Pelo contr\u00e1rio, sua g\u00eanese est\u00e1 quase sempre relacionada ao que \u00e9 descartado: restos de madeira, objetos e ornamentos abandonados pelos <em>waimahs\u00e3<\/em>, as partes descartadas e podres do corpo humano etc.<\/p>\n\n\n\n<p>O passo seguinte foi meu ingresso no doutorado, em 2016. Meu objetivo foi continuar investigando os conceitos nativos \u00e0 luz da antropologia. Para tanto, quero deixar claro que eu n\u00e3o fiz investimentos em \u201cpesquisas de campo\u201d, no sentido cl\u00e1ssico da antropologia, nem mesmo em incurs\u00f5es \u00e0s comunidades ind\u00edgenas, mas tive a grande oportunidade de encontrar com os especialistas ind\u00edgenas <em>Yepamahs\u00e3<\/em> (Tukano), <em>\u0244mukorimahs\u00e3<\/em> (Dessana) e <em>\u0244t\u00e3pir\u00f5mahs\u00e3<\/em> (Tuyuca), em Manaus, onde moro, sobretudo com aqueles que vieram para prestar seus servi\u00e7os de especialistas (xam\u00e3s) no Centro de Medicina Ind\u00edgena <em>Bahserikowi<\/em>, que idealizei, ajudei a criar e que acompanho desde sua funda\u00e7\u00e3o em 2018. Investi meu tempo em acompanhar as pr\u00e1ticas de <em>bahsese<\/em> dos <em>kumu\u00e3<\/em> no Centro de Medicina Ind\u00edgena <em>Bahserikowi<\/em>. Convivi intensamente com eles e entre eles, participei das rodas de conversa sobre <em>Kihti uk\u0169se<\/em> e <em>bahsese<\/em>, fui int\u00e9rprete do <em>kumu<\/em> na sala de consulta e acompanhei os tratamentos. Dessa maneira, os dados reunidos e as reflex\u00f5es produzidas neste artigo partem do meu aprendizado com os <em>kumu\u00e3<\/em> que atuaram e atuam no <em>Bahserikowi<\/em>, somados aos meus aprendizados durante a minha inf\u00e2ncia, com meus pais e com meus av\u00f3s, e ao longo de minha vida na comunidade em Pari-Cachoeira, no Alto Rio Negro.<\/p>\n\n\n\n<p>Acredito que ficou l\u00e1 na gradua\u00e7\u00e3o o ensaio das minhas crises intelectuais, o desejo de explorar os conhecimentos ind\u00edgenas. Como costumo dizer: pensar o pensamento ind\u00edgena. Mas isso n\u00e3o foi e continua n\u00e3o sendo algo f\u00e1cil. Muita gente pensa que o simples fato de ser ind\u00edgena j\u00e1 nos confere a condi\u00e7\u00e3o de \u201cpensar diferente\u201d, de saber expressar a diferen\u00e7a de mundo das concep\u00e7\u00f5es que temos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 \u201ctradi\u00e7\u00e3o cient\u00edfica ocidental\u201d. No fundo, o que se passa \u00e9 o contr\u00e1rio: quanto mais avan\u00e7amos nas conquistas da ci\u00eancia, mais cient\u00edficos ficamos, mais dist\u00e2ncia tomamos de nossos mundos ind\u00edgenas, de nossas verdades, de concep\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas e pr\u00e1ticas ind\u00edgenas. Isso nos dificulta identificar e elaborar nossos pr\u00f3prios conceitos, ou, com menos ambi\u00e7\u00e3o, nossa singular maneira de ver e pensar o mundo sob \u201cnossas\u201d lentes. Em s\u00edntese, dediquei-me ao exerc\u00edcio de reflexividade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No doutorado, decidi apostar numa investiga\u00e7\u00e3o sobre a concep\u00e7\u00e3o de corpo a partir das pr\u00e1ticas de <em>bahsese <\/em>dos especialistas que atuam no Centro de Medicina Ind\u00edgena <em>Bahserikowi<\/em>. Nesse processo, preferi me desprover de instrumentos de pesquisa, como gravador, m\u00e1quina fotogr\u00e1fica, caderno de campo, question\u00e1rios prontos ou pranchetas; essa foi a op\u00e7\u00e3o que fiz, por concluir que tais instrumentos intimidavam ou causavam timidez \u00e0s pessoas. Tomei essa decis\u00e3o a partir da minha pr\u00f3pria experi\u00eancia. Renunciar esses instrumentos requer boa mem\u00f3ria para guardar as informa\u00e7\u00f5es preciosas e, logo, de modo solit\u00e1rio, transpor as partes filtradas para registros.<\/p>\n\n\n\n<p>Desprovido desses instrumentos, o conv\u00edvio com os <em>kumu\u00e3<\/em> no <em>Bahserikowi <\/em>foi como voltar no tempo em que convivi, na minha inf\u00e2ncia, com meu av\u00f4. Os <em>kumu\u00e3<\/em>, a todo momento, falavam de <em>Kihti uk\u0169se<\/em> e <em>bahsese<\/em>. A partir de suas experi\u00eancias de atendimento no <em>Bahserikowi<\/em>, compartilhavam entre si e com os colaboradores sobre os casos de \u201cdoen\u00e7as\u201d e suas respectivas f\u00f3rmulas de <em>bahsese<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Pela manh\u00e3, ao chegar no Centro de Medicina, os <em>kumu\u00e3<\/em>, tomando seu caf\u00e9, comentavam sobre os casos atendidos no dia anterior. Contavam com muitos detalhes, relacionavam com as afec\u00e7\u00f5es e falavam como articular <em>bahsese<\/em> a partir daquele <em>Kihti uk\u0169se<\/em>. Esses momentos s\u00f3 eram interrompidos com a chegada de pessoas que iam at\u00e9 o Centro para se consultar.&nbsp;Falando em suas l\u00ednguas nativas, contavam hist\u00f3rias sobre os seres que habitam o cosmo, sobre a constru\u00e7\u00e3o<sup><strong>1<\/strong><\/sup> do mundo terrestre, sobre a origem dos humanos ap\u00f3s a constru\u00e7\u00e3o do mundo e as hist\u00f3rias dos seres que ajudaram a organizar o mundo terrestre. O Centro de Medicina respirava <em>bahsese<\/em> e <em>Kihti uk\u0169se<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos dias de chuva, o aprendizado era mais intenso e demorado. Os <em>kumu\u00e3<\/em>, na aus\u00eancia dos pacientes, passavam horas falando dos <em>Kihti uk\u0169se<\/em> e dos <em>bahsese<\/em> para os jovens colaboradores do Centro. Ao ouvi-los, eu come\u00e7ava a me lembrar dos <em>Kihti uk\u0169se<\/em> sobre os quais meus av\u00f3s me contavam antes de eu dormir, deitado \u00e0 beira do fogo, durante a colheita de folhas de <em>patu <\/em>ou durante a pescaria. Lembrava tamb\u00e9m os perigos e cuidados da rela\u00e7\u00e3o com os <em>waimahs\u00e3<\/em>, e de manter a boa comunica\u00e7\u00e3o com eles<em>,<\/em> donos e respons\u00e1veis pelos lugares. Lembrava-me, enfim, do cuidado com o corpo e da import\u00e2ncia das rela\u00e7\u00f5es entre os grupos sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>Ouvi sobre as hist\u00f3rias de origens dos bichos, as transforma\u00e7\u00f5es das pessoas em bichos, entre tantos outros <em>Kihti uk\u0169se<\/em>. Hoje, reconhe\u00e7o o quanto foi fundamental o tempo que convivi com meus av\u00f3s. Ouvir os <em>kumu\u00e3<\/em> contarem os <em>Kihti uk\u0169se<\/em> levou-me a ouvir a pr\u00f3pria voz do meu av\u00f4. Como um livro aberto, as falas dos <em>kumu\u00e3<\/em> me convidavam a percorrer o elo perdido entre mim, ind\u00edgena, e o mundo externo que tive que enfrentar a duras penas para calcar cada passo. As palavras dos <em>kumu\u00e3<\/em> revelavam, aos poucos, um universo particular, vivido ou a viver.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ao comentarem os casos dos pacientes, os <em>kumu\u00e3<\/em> diziam que chegavam muito doentes no <em>Bahserikowi<\/em>, sofrendo de consequ\u00eancias pelo descuido com a prote\u00e7\u00e3o contra ataques de <em>waimahs\u00e3<\/em>, pelo descuido com a alimenta\u00e7\u00e3o, pela falta de prote\u00e7\u00e3o do corpo contra as intemp\u00e9ries nos momentos mais vulner\u00e1veis da vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Os <em>kumu\u00e3<\/em> tinham seu m\u00e9todo e uma l\u00f3gica pr\u00f3pria de contar <em>Kihti uk\u0169se<\/em> e de fazer o <em>bahsese<\/em>, de explicar sobre as paisagens, as qualidades dos bichos, a organiza\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os, dentre tantas outras explica\u00e7\u00f5es sobre as coisas do mundo, sobre os seres, os grupos sociais e as unidades sociais. As conversas com os <em>kumu\u00e3<\/em> eram verdadeiros momentos de aula, de ensinamento de f\u00f3rmulas de <em>bahsese<\/em> sobre v\u00e1rios tipos de afec\u00e7\u00f5es e para a comunica\u00e7\u00e3o com os <em>waimahs\u00e3<\/em>. Al\u00e9m dos momentos p\u00fablicos, houve tamb\u00e9m os momentos mais reservados, sobretudo quando tom\u00e1vamos cerveja juntos. Durante esses momentos, os <em>kumu\u00e3<\/em> contavam-me muitas f\u00f3rmulas de <em>bahsese<\/em>. Mas, um dia, um dos <em>kumu <\/em>me dirigiu palavras desoladoras. Disse que eu era muito ruim para aprender e para memorizar aqueles <em>Kihti uk\u0169se<\/em>, <em>bahsesee bahsamori<\/em>, que minha cabe\u00e7a estava mais voltada para aprender coisas dos \u201cbrancos\u201d. Essa fala veio como um incentivo para que eu conclu\u00edsse meus estudos, e depois voltasse a me dedicar ao aprendizado de <em>bahsese<\/em> com eles. Para isso, primeiro eu teria que passar pela \u201cdescontamina\u00e7\u00e3o\u201d do meu corpo. Segundo eles, meu corpo estaria contaminado pelas coisas dos brancos, tanto biol\u00f3gica quanto mentalmente. O corpo como modo de pensar e ser. Tudo isso, segundo eles, atrapalha meu aprendizado de <em>bahsese<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Os <em>kumu\u00e3<\/em> t\u00eam toda raz\u00e3o. Mas uma coisa eu aprendi: entendi que as f\u00f3rmulas de <em>bahsese <\/em>carregam consigo conceitos propriamente nativos. Foi a partir dessa sacada que comecei a levar a s\u00e9rio o exerc\u00edcio de reflexividade, tomando os <em>Kihti uk\u0169se<\/em> e as f\u00f3rmulas de <em>bahsese <\/em>como mat\u00e9ria-prima de minhas an\u00e1lises antropol\u00f3gicas, ou, talvez, filos\u00f3ficas.<\/p>\n\n\n\n<p>Os <em>bahsese<\/em>, por exemplo, falam de subst\u00e2ncias curativas contidas nos vegetais. Para tanto, os especialistas lan\u00e7am m\u00e3o das taxonomias dos vegetais. Falam tamb\u00e9m das qualidades dos bichos, das qualidades dos fen\u00f4menos naturais e lan\u00e7am m\u00e3o dessas qualidades para abrandar a dor, para proteger o corpo, ou para transform\u00e1-lo. Aprendi que os <em>bahsese<\/em> s\u00e3o f\u00f3rmulas de produ\u00e7\u00e3o de rem\u00e9dios \u201cmetaqu\u00edmicas\u201d e f\u00f3rmulas de produ\u00e7\u00e3o de prote\u00e7\u00e3o \u201cmetaf\u00edsicas\u201d, pois a articula\u00e7\u00e3o de <em>bahsese<\/em> se refere ao poder de evocar as qualidades das coisas, dos animais, dos vegetais, as qualidades dos minerais e de outras coisas que v\u00e3o abrandar a dor, curar a doen\u00e7a, proteger a pessoa ou o coletivo contra as doen\u00e7as e ataques dos seres. \u00c9 uma linguagem de a\u00e7\u00e3o: colocar, potencializar, equalizar, arrancar, matar e transformar os bichos. O <em>Kihti uk\u0169se <\/em>sobre a origem do mundo, o surgimento dos humanos e os conte\u00fados de f\u00f3rmulas de <em>bahsese <\/em>de <em>heripor\u00e3 bahsese<\/em> e <em>ba\u00b4ase bahse ekase<\/em> s\u00e3o as bases da \u201cminha reflexividade\u201d que desenvolvi na minha pesquisa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Como disse, o contato com alguns autores e obras acad\u00eamicas tamb\u00e9m me serviu de motiva\u00e7\u00e3o para o exerc\u00edcio da reflexividade. Bachelard (2008), por exemplo, quando postula que \u201cos poetas e os pintores s\u00e3o fenomen\u00f3logos natos\u201d, me entusiasmou bastante. Assim como os poetas e pintores, percebi que os especialistas ind\u00edgenas s\u00e3o fenomen\u00f3logos natos, est\u00e3o atentos \u00e0s mudan\u00e7as do saber humano e do mundo exterior. Investigam e descrevem os fatos enquanto experi\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>A transmiss\u00e3o da \u201ctrindade\u201d conceitual de <em>Kihti uk\u0169se<\/em>, <em>bahsese<\/em> e <em>bahsamori <\/em>\u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es \u00e9 feita pelos especialistas como numa explos\u00e3o de imagem, n\u00e3o existe passado e futuro, existe o presente. A constru\u00e7\u00e3o de ideias \u00e9 feita de palavras com sentido do tempo presente. Acreditei que perseguir essa linguagem expressa na forma de <em>Kihti uk\u0169se<\/em>, de <em>bahsese <\/em>e de <em>bahsamori<\/em> pelos especialistas seria um caminho poss\u00edvel para \u201crevelar\u201d as teorias propriamente nativas.<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa maneira, escolhi o Centro de Medicina Ind\u00edgena <em>Bahserikowi<\/em> como meu lugar de estudo, como espa\u00e7o de conviv\u00eancia com os interlocutores <em>kumu\u00e3<\/em>, que s\u00e3o detentores de <em>Kihti uk\u0169se<\/em>, <em>bahsese<\/em> e <em>bahsamori<\/em>, para extrair da\u00ed os conceitos propriamente nativos.<strong><em> <\/em><\/strong>Essa posi\u00e7\u00e3o me permitiu mergulhar no universo dos <em>kumu\u00e3<\/em> e das pr\u00e1ticas de <em>bahsese<\/em>, e captar a no\u00e7\u00e3o de corpo para al\u00e9m do texto oral. Um exerc\u00edcio de reflexividade nada f\u00e1cil.<\/p>\n\n\n\n<p>O segundo passo foi traduzir os <em>Kihti uk\u0169se<\/em> e as f\u00f3rmulas de <em>bahsese <\/em>referentes aos assuntos pesquisados para a l\u00edngua portuguesa. Nesse ponto, o desafio maior foi processar as ideias na l\u00f3gica nativa, pensando como um nativo, para, em seguida, traduzir o pensamento e as falas dos <em>kumu\u00e3.<\/em> Dado esse passo, a pr\u00f3xima fase foi a releitura das transcri\u00e7\u00f5es\/tradu\u00e7\u00f5es da minha cabe\u00e7a com a preocupa\u00e7\u00e3o de dar mais coer\u00eancia ao texto sem perder o sentido, isto \u00e9, para um modelo mais did\u00e1tico, racional e coerente com a escrita cient\u00edfico-antropol\u00f3gica.<\/p>\n\n\n\n<p>A constru\u00e7\u00e3o de textos coletivos entre n\u00f3s, estudantes ind\u00edgenas do N\u00facleo de Estudos da Amaz\u00f4nia Ind\u00edgena (NEAI), apresentou-se como um importante instrumento para o aprendizado de constru\u00e7\u00e3o de g\u00eaneros textuais. N\u00e3o h\u00e1 como deixar de citar como exemplo de produ\u00e7\u00e3o coletiva a experi\u00eancia de pesquisa e publica\u00e7\u00e3o da obra <em>Omer\u00f5 <\/em>\u2013 <em>constitui\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o de conhecimentos Yepamahs\u00e3<\/em> (Tukano), publicada em 2018 pelos autores ind\u00edgenas e n\u00e3o ind\u00edgenas do NEAI. A experi\u00eancia serviu para a produ\u00e7\u00e3o de conceitos e de categorias propriamente dos <em>Yepamahs\u00e3<\/em>. O processo baseou-se numa rela\u00e7\u00e3o dial\u00f3gica entre antrop\u00f3logos ind\u00edgenas e n\u00e3o ind\u00edgenas. O resultado demonstrou as seguintes vantagens: qualidade na coleta de dados, debates sobre conceitos e sobre categorias nativas em termos antropol\u00f3gicos, e maior envolvimento de orientadores e orientandos com o processo de fazer pesquisa e com a sistematiza\u00e7\u00e3o qualitativa dos conceitos nativos. A colabora\u00e7\u00e3o m\u00fatua de ideias foi uma das caracter\u00edsticas de complementaridade entre os autores para permitir a compreens\u00e3o e minimizar a dist\u00e2ncia entre o dito dos especialistas ind\u00edgenas e o dito dos antrop\u00f3logos.<\/p>\n\n\n\n<p>A antropologia \u00e9, para mim, agora, uma op\u00e7\u00e3o profissional. Nesse sentido, posso afirmar que eu sou um \u201cnativo antrop\u00f3logo\u201d. Sigo a regra do jogo, que \u00e9 a mesma dos antrop\u00f3logos n\u00e3o ind\u00edgenas para produzir conhecimentos. Entretanto, meu campo de pesquisa n\u00e3o consiste, de fato, num mundo diferente do meu, mas meu of\u00edcio \u00e9 traduzir, nos moldes antropol\u00f3gicos, o conhecimento ind\u00edgena <em>Pamuri-mahs\u00e3<\/em>\u00b2.<\/p>\n\n\n\n<p>Como ind\u00edgena, falante de l\u00edngua tukano, tenho a vantagem de traduzir as ideias nativas em termos mais aproximados para a l\u00edngua portuguesa e para o exerc\u00edcio anal\u00edtico da antropologia. Outra vantagem foi o apoio, o acompanhamento e a orienta\u00e7\u00e3o do meu pai, Ov\u00eddio Barreto, que \u00e9 <em>kumu <\/em>e neto de um renomado <em>yai,<\/em> um especialista que morreu h\u00e1 trinta anos, com quem tive a sorte de aprender as bases do pensamento tukano na minha inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Acredito que muitas atitudes com as quais me deparei durante minha conviv\u00eancia com os <em>kumu\u00e3 <\/em>s\u00e3o exatamente as mesmas encontradas por algu\u00e9m que n\u00e3o fosse ind\u00edgena, entretanto, minha rela\u00e7\u00e3o com os especialistas \u00e9 de algu\u00e9m de \u201ccasa\u201d, que compartilha sua cosmologia e sua ontologia. Esse \u00e9 o ponto fundamental na rela\u00e7\u00e3o entre nativo e nativo antrop\u00f3logo, pois a proximidade, o pertencimento ao grupo estudado, do \u201ccolaborador\u201d, apresenta-se para si como algu\u00e9m de seu cont\u00ednuo. Ou seja, meu pai me contava os <em>Kihti uk\u0169se<\/em>, os <em>bahsese<\/em> e os <em>bahsamori<\/em> na perspectiva de ensinar a seu filho, a mim, o aprendiz e antrop\u00f3logo. Portanto, a rela\u00e7\u00e3o \u00e9 de transmiss\u00e3o de conhecimentos, de ensinar a algu\u00e9m que vai, por sua vez, continuar operando com tais conhecimentos na sua experi\u00eancia cotidiana e repassar \u00e0 gera\u00e7\u00e3o seguinte.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi exatamente nesse tipo de intera\u00e7\u00e3o, sob a condi\u00e7\u00e3o de transmiss\u00e3o, que apareceram as \u201crevela\u00e7\u00f5es\u201d as quais me esforcei em identificar na forma de uma epistemologia, de conceitos ou de um sistema de conhecimento. A postura reflexiva sobre os <em>Kihti uk\u0169se<\/em> e sobre os <em>bahsese<\/em>, partes da trindade conceitual <em>Yepamahs\u00e3<\/em>, foi o caminho que escolhi, acreditando que seria o melhor para colocar em debate os conceitos propriamente \u201cnativos\u201d. Assim, o exerc\u00edcio de reflexividade proposto aqui \u00e9 de pensar a l\u00f3gica <em>yepamahs\u00e3 <\/em>a partir da leitura das pr\u00e1ticas de <em>bahsese<\/em> para a compreens\u00e3o do que \u00e9 o corpo humano, as formas de seus agravos e de seus tratamentos.<\/p>\n\n\n\n<h3><strong>3. A constitui\u00e7\u00e3o do corpo<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>N\u00e3o custa nada lembrar que o estudo do corpo amer\u00edndio n\u00e3o \u00e9 novidade para a hist\u00f3ria da antropologia. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que ele \u00e9 produzido, fabricado e constitu\u00eddo pela sociedade: ele \u00e9 cortado, adornado, nomeado, perfurado, pintado, e torna-se algo que vive, que pulsa, que sente e estabelece rela\u00e7\u00f5es complexas com o mundo, ultrapassando a dimens\u00e3o biol\u00f3gica atrav\u00e9s de sua imaterialidade (Seeger, <em>et al.<\/em>, 1979). Muitos estudos j\u00e1 foram desenvolvidos para entender esse assunto, sobretudo na regi\u00e3o do Alto Rio Negro, mas o tema continua sendo bom para pensar.&nbsp; O acompanhamento cotidiano das pr\u00e1ticas de <em>bahsese<\/em>, a intensa conviv\u00eancia com os <em>kumu\u00e3 <\/em>e a participa\u00e7\u00e3o nas rodas de conversa acabou me fazendo perceber que a pr\u00e1tica de <em>bahsese <\/em>\u00e9 um gesto de interven\u00e7\u00e3o e de cuidado com o corpo, al\u00e9m de tom\u00e1-lo como instrumento de produ\u00e7\u00e3o da vida di\u00e1ria, de refer\u00eancia pelo qual se produzem ideias, valores \u00e9ticos e est\u00e9ticos.<\/p>\n\n\n\n<p>Para al\u00e9m da estrutura vis\u00edvel aos olhos, o conceito de elementos et\u00e9reos ou imateriais que gravitam no corpo \u00e9 important\u00edssimo, pois \u00e9 a base conceitual que possibilita acionar \u201cmetaquimicamente\u201d as qualidades dos elementos pela articula\u00e7\u00e3o de <em>bahsese <\/em>para o cuidado com a sa\u00fade e a cura de doen\u00e7as, e, metafisicamente, as qualidades das coisas e dos seres para a preven\u00e7\u00e3o e prote\u00e7\u00e3o da pessoa. De acordo com os especialistas ind\u00edgenas do Rio Negro, gravitam no corpo o <em>boreyuse kahtiro <\/em>(\u201cluz\/vida\u201d), <em>yuku kahtiro <\/em>(\u201cfloresta\/vida\u201d), <em>dita kahtiro <\/em>(\u201cterra\/vida\u201d), <em>ahko kahtiro <\/em>(\u201c\u00e1gua\/vida\u201d), <em>waikur\u00e3 kahtiro <\/em>(\u201canimais\/vida\u201d), <em>ome kahtiro <\/em>(\u201car\/vida\u201d) e <em>mahs\u00e3 kahtiro <\/em>(\u201chumano\/vida\u201d). Tudo isso, na linguagem especial do <em>Kihti uk\u0169se <\/em>e do <em>bahsese, <\/em>\u00e9 resumido no termo <em>kahtise<\/em>. <em>&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Kahtise: os elementos imateriais constitutivos do corpo<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O termo <em>Kahtise <\/em>pode ter diferentes sentidos, dependendo do contexto em que for evocado e se est\u00e1 ou n\u00e3o acompanhado de complemento. Por exemplo, a express\u00e3o <em>kahtise nik\u00e3 <\/em>\u00e9 usada no sentido de que a carne de ca\u00e7a ou de peixe est\u00e1 crua, n\u00e3o foi cozida ou assada ao ponto de consumo. Outra express\u00e3o \u00e9 <em>kahtise nirowe<\/em>, para dizer que as coisas t\u00eam sua pr\u00f3pria vida, como luz, floresta, terra, \u00e1gua, animal, ar e humano.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma express\u00e3o usada pelos <em>kumu\u00e3 <\/em>quando me falaram sobre os elementos imateriais que constituem o corpo foi <em>manhs\u00e3 kahtise. <\/em>A express\u00e3o era para dizer que as formas de luz, floresta, terra, \u00e1gua, animais e ar eram os elementos constitutivos do corpo humano. O corpo \u00e9 s\u00edntese de todos os elementos, \u00e9 microcosmo e uma pot\u00eancia. <em>Bahsese<\/em> \u00e9 uma das \u201ctecnologias\u201d para ativar a pot\u00eancia do corpo.<\/p>\n\n\n\n<p>Os <em>Kihti uk\u0169se<\/em>, os <em>bahsese <\/em>e os <em>bahsamori <\/em>s\u00e3o tamb\u00e9m chamados de <em>mahs\u00e3 kahtise<\/em>, pois s\u00e3o considerados conhecimentos e pr\u00e1ticas imprescind\u00edveis para a constru\u00e7\u00e3o e o cuidado da pessoa. Os <em>Kihti uk\u0169se<\/em>, os <em>bahsese <\/em>e os <em>bahsamori<\/em>, portanto, s\u00e3o pr\u00e1ticas fundamentais para garantir a exist\u00eancia da pessoa e a qualidade de vida, raz\u00e3o pela qual s\u00e3o denominados de <em>mahs\u00e3 kahtise<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Mari kahtise nirowe<\/em> significa aquilo que \u00e9 parte de n\u00f3s, aquilo que pertence a n\u00f3s, que nos constitui, que \u00e9 indispens\u00e1vel, aquilo que faz parte do nosso corpo.<\/p>\n\n\n\n<p>Todas essas for\u00e7as ou elementos do corpo s\u00e3o chamados de <em>kahtise<\/em>, essenciais para o bom funcionamento e para o equil\u00edbrio da pessoa. Seu desequil\u00edbrio pode gerar dist\u00farbios ou at\u00e9 mesmo levar a pessoa \u00e0 morte. Por essa raz\u00e3o, \u00e9 muito importante o cuidado do corpo para o bem-estar, e seu cuidado \u00e9 feito equalizando os elementos imateriais que o comp\u00f5em. Para preven\u00e7\u00e3o, prote\u00e7\u00e3o, abrandamento das dores e cura \u00e9 feito <em>bahsese <\/em>potencializando os elementos imateriais que constituem o corpo.<\/p>\n\n\n\n<p>Existem sete tipos de <em>kahtise <\/em>que constituem o mundo terrestre \u2014 <em>boreyuse kahtiro<\/em>, <em>yuku kahtiro, dita kahtiro, ahko kahtiro, ome kahtiro, waikur\u00e3 kahtiro <\/em>e<em> mahs\u00e3 kahtiro<\/em>. Esse \u00faltimo refere-se exclusivamente \u00e0 categoria de pessoa. <em>Mahs\u00e3 kahtiro <\/em>\u00e9 uma pot\u00eancia ou \u201csubst\u00e2ncia\u201d que est\u00e1 diretamente relacionada ao nome da pessoa, injetada pelos especialistas, pelo processo de <em>bahsese<\/em> conhecido de <em>heripor\u00e3 bahsese<\/em>, feito logo depois do nascimento da crian\u00e7a. O <em>heripor\u00e3 bahseke wame <\/em>\u00e9 tamb\u00e9m chamado de <em>omer\u00f5<\/em>, uma for\u00e7a do corpo capaz de evocar os elementos protetivos, curativos e as qualidades de outros seres. <em>Omer\u00f5<\/em>, como conceito, designa o poder do pensamento, da intui\u00e7\u00e3o e do prop\u00f3sito do especialista Tukano, a pot\u00eancia que habita e circula em seu corpo, que assim o conecta ao movimento do universo e de seus criadores. Essa pot\u00eancia \u00e9 injetada na crian\u00e7a no ato de sua nomina\u00e7\u00e3o, tornando-a plena de vida e membro da comunidade c\u00f3smica. <em>Omer\u00f5 <\/em>\u00e9 for\u00e7a \u201cque emana da porta da boca do especialista na sua a\u00e7\u00e3o sobre as coisas e sobre o mundo e na sua comunica\u00e7\u00e3o com as pessoas humanas e n\u00e3o humanas\u201d (Barreto, 2018).<\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Boreyuse kahtiro (\u201cluz\/vida\u201d)<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Essa categoria est\u00e1 relacionada ao elemento luz como uma das ess\u00eancias e pot\u00eancias que constitui o corpo. Refere-se tanto aquela oriunda do fogo quanto aquela emitida pelo sol\/lua, pelas estrelas, pelos raios, pelas l\u00e2mpadas, pelas nuvens, ou pelos reflexos. Cada uma dessas fontes de luz produzida tem sua intensidade e sua tonalidade pr\u00f3pria. Dominar a qualidade da luz, suas intensidades e tonalidades, \u00e9 fundamental para os especialistas ind\u00edgenas, pois \u00e9 a partir delas que eles lan\u00e7am m\u00e3o dos <em>bahsese <\/em>para a prote\u00e7\u00e3o do corpo, como, por exemplo, para minimizar o impacto da claridade nos olhos da crian\u00e7a na hora do nascimento.<\/p>\n\n\n\n<p>A luz tem muitas fun\u00e7\u00f5es para os especialistas ind\u00edgenas. Suas qualidades, sejam duras ou suaves, tamb\u00e9m podem ser usadas para articular <em>bahsese <\/em>protetivos para enfrentar os inimigos. Conforme explicou o <em>kumu <\/em>Ov\u00eddio Barreto, para enfrentar um desafeto, umas das provid\u00eancias \u00e9 potencializar o corpo com as qualidades do sol, propagando uma luz intensa sobre a vis\u00e3o do opositor. Assim como uma pessoa n\u00e3o suporta fixar seu olhar ao sol por longo tempo, da mesma forma, quando se faz <em>bahsese <\/em>protetivo invocando a luz solar, o inimigo n\u00e3o ter\u00e1 condi\u00e7\u00f5es de olhar a pessoa protegida, dada sua intensa claridade, podendo ceg\u00e1-la.<\/p>\n\n\n\n<p>Diferente da luz do sol, a luz das estrelas \u00e9 usada para articular <em>bahsese <\/em>sobre o corpo para encantar a pessoa, que se torna bela e admir\u00e1vel. Ainda segundo o <em>kumu <\/em>Ov\u00eddio Barreto, tamb\u00e9m a luz das estrelas tem o poder de encantar as pessoas, de causar admira\u00e7\u00e3o e empatia depois do <em>bahsese <\/em>de sua invoca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A express\u00e3o <em>Boreyuse kahtiro <\/em>tem o sentido de que o calor da luz \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para gerar e para manter a vida. Segundo os especialistas, o corpo \u00e9 regulado pelo calor corp\u00f3reo, sua intensidade determina o bem-estar da pessoa e seu desequil\u00edbrio pode desencadear uma s\u00e9rie de desconfortos como ansiedade, inquieta\u00e7\u00e3o, ins\u00f4nia, falta de concentra\u00e7\u00e3o, falta de racioc\u00ednio e raiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Para os <em>kumu\u00e3<\/em>, um lugar ou espa\u00e7o sem luz e calor \u00e9 sin\u00f4nimo de inexist\u00eancia de vida humana, ainda que possam existir outras formas de vida. <em>Boreyuse kahtiro, <\/em>portanto, \u00e9 uma parte constitutiva do corpo humano, sua aus\u00eancia est\u00e1 ligada \u00e0 morte do corpo. Al\u00e9m disso, a luz \u00e9 perigosa, pode atingir outros corpos positiva ou negativamente, causando doen\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Yuku kahtiro (\u201cfloresta\/vida\u201d)<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Yuku<\/em>,<em> <\/em>traduzido ao p\u00e9 da letra, significa \u201cfloresta\u201d, mas os especialistas usam o termo <em>yuku kahtiro <\/em>(\u201cvegetal\/vida\u201d) para se referir \u00e0 pot\u00eancia \u201cvegetal\u201d que constitui o corpo. Isto \u00e9, ao conjunto de vidas vegetais existentes na floresta, que s\u00e3o, por sua vez, detentoras de qualidades curativas, protetivas, veneno e agencialidades. \u00c9 <em>yuku kahtiro <\/em>no sentido de que as qualidades vegetais s\u00e3o elementos constitutivos do corpo. Assim, o cheiro, o amargor, o travor, a do\u00e7ura, a acidez, a espessura, a textura, a plasticidade, o tamanho e a dureza das plantas e de seus frutos s\u00e3o qualidades que podem ser acionadas e potencializadas \u201cmetaquimicamente\u201d pelos especialistas, no ato do <em>bahsese<\/em>, para prevenir, proteger e curar as doen\u00e7as, como tamb\u00e9m para atacar, provocando desconfortos e doen\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>Dominar as propriedades das plantas e sua \u201ctaxonomia\u201d, que constituem o dom\u00ednio de <em>Yuku kahtiro<\/em>, \u00e9 condi\u00e7\u00e3o <em>sine qua non <\/em>para os especialistas. O corpo, conforme j\u00e1 mencionado, \u00e9 constitu\u00eddo pelas qualidades de <em>yuku kahtiro<\/em>,<em> <\/em>como o cheiro, o amargo, o travoso, o doce e outras caracter\u00edsticas vegetais. Para proteger o corpo das agress\u00f5es diversas, bem como para combat\u00ea-las, s\u00e3o exatamente essas qualidades que s\u00e3o acionadas pelos especialistas na pr\u00e1tica do <em>bahsese<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>A ideia de que o corpo humano \u00e9 constitu\u00eddo de propriedades vegetais n\u00e3o \u00e9 de exclusividade dos <em>Pamurimahs\u00e3<\/em>, ou seja, como eu pude ler na filosofia Jamamadi, por exemplo, segundo Karen Shiratori (2019, p. 178): \u201c&#8230; a condi\u00e7\u00e3o humana adviria das plantas, ou seja, a vegetalidade \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o original comum a humanos, animais e vegetais\u201d. Essa ideia \u00e9 bastante patente na concep\u00e7\u00e3o dos <em>Pamurimahs\u00e3<\/em>, mas a diferen\u00e7a est\u00e1 na concep\u00e7\u00e3o de que a vegetalidade \u00e9 um dos elementos que constituem o corpo e n\u00e3o o \u00fanico elemento constituinte ou de origem do humano. As qualidades vegetais gravitam no corpo e podem ser potencializadas via <em>bahsese<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>A pot\u00eancia da vegetalidade do corpo tamb\u00e9m d\u00e1 origem a outros vegetais. Vejamos dois exemplos, um da origem do vegetal especial para confec\u00e7\u00e3o de instrumentos musicais de <em>miri\u00e3 <\/em>(jurupari), que surgiu do corpo do <em>Bisio<\/em>, e outro da origem de plantas cultiv\u00e1veis do ro\u00e7ado, que surgiu do corpo de <em>Bahsebo o\u00e3ku<\/em>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O <em>Bisio<\/em> era o respons\u00e1vel por formar novos especialistas, por ser um ex\u00edmio conhecedor de <em>bahsamori <\/em>e, portanto, detentor da musicalidade, das dan\u00e7as, das t\u00e9cnicas de acesso aos dom\u00ednios de conhecimento e das regras necess\u00e1rias para se tornar especialista como <em>yai<\/em>, <em>kumu<\/em> e <em>baya<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>A pot\u00eancia das plantas que o <em>yagu <\/em>carregava estava representada pelos <em>bahsa busa <\/em>(adornos de festas e instrumentos musicais) do <em>o\u00e3ku<\/em>, como suas plumagens, seus colares, seu bast\u00e3o de dan\u00e7as, seus adere\u00e7os corporais, suas flautas de osso de on\u00e7a, seu cari\u00e7\u00fa, seu <em>yapuratu<\/em>, seus tambores, entre outros adere\u00e7os importantes para a vida social dos povos ind\u00edgenas do Alto Rio Negro. Dessa maneira, o pr\u00f3prio corpo do <em>Bahsebo o\u00e3ku <\/em>era a origem das plantas.<\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Dita kahtiro (\u201cterra\/vida\u201d)<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Essa \u00e9 outra ess\u00eancia que constitui o corpo como uma pot\u00eancia. Refere-se a todo o conjunto de tipos de solo ou terra: rocha, pedra, barro, areia e argila, em todas as suas cores variantes: preta, vermelha, branca, amarela. O corpo \u00e9 constitu\u00eddo tamb\u00e9m de ess\u00eancia da terra. As qualidades das pedras s\u00e3o acionadas via <em>bahsese <\/em>para a prote\u00e7\u00e3o e resist\u00eancia do corpo. Suas belezas, seu brilho e suas cores s\u00e3o qualidades acionadas para destaque de beleza e encanto. As qualidades de fertilidade da terra s\u00e3o acionadas para fazer a mulher engravidar.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Dita kahtiro <\/em>\u00e9 tamb\u00e9m conhecida como \u201cm\u00e3e terra\u201d, pela sua fertilidade, sua maternidade, sua fecundidade e sua generosidade. Generosa porque gera todos os seres, todas as coisas nascem da terra, ela fornece a nutri\u00e7\u00e3o e a prote\u00e7\u00e3o da vida. Al\u00e9m da generosidade, a terra \u00e9 tida como uma m\u00e3e (<em>dita kahtiro<\/em>) por ser um espa\u00e7o ou lugar de retorno da pessoa como \u201cmat\u00e9ria\u201d ap\u00f3s a morte. A terra \u00e9 a m\u00e3e que recebe e que guarda. De igual modo, o <em>heripor\u00e3 bahseke wame<\/em>, como dimens\u00e3o metaf\u00edsica, tamb\u00e9m volta para a <em>dihta kahtiro <\/em>sob nova condi\u00e7\u00e3o de pessoa ap\u00f3s a morte.<\/p>\n\n\n\n<p>A pessoa como corpo est\u00e1 sujeita ao \u201cdesgaste\u201d e aos ataques, dizem os <em>kumu\u00e3<\/em>. Ao tratarem da morte natural, \u00e9 comum os especialistas do Alto Rio Negro dizerem que o corpo cansou do tempo, que ele deve descansar. No caso de morte precoce, seja de uma crian\u00e7a ou de um jovem, dizem que este mundo n\u00e3o era para essa pessoa viver. Em tukano, dizem: <em>kahtiro pehatirowep\u00e3 kure<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s a morte, o <em>heripor\u00e3 bahseke wame<\/em>, como <em>omer\u00f5 <\/em>e dimens\u00e3o metaf\u00edsica do corpo, volta tamb\u00e9m ao dom\u00ednio da terra, mas vai para a \u201ccasa\u201d, chamada de <em>amowi <\/em>(\u201ccasa serra\u201d), no caso dos <em>Yepamahs\u00e3<\/em>, que fica na regi\u00e3o do m\u00e9dio Rio Tiqui\u00e9, afluente do Alto Rio Negro.<\/p>\n\n\n\n<p>A finitude do corpo biol\u00f3gico \u00e9 compreendida como o retorno ao outro <em>kahtiro<\/em>, onde continuar\u00e1 seu pertencimento em um dos seis principais tipos de <em>kahtise<\/em>, isto \u00e9, <em>nodihta kahtiro<\/em>. \u00c9 chamado de <em>ahpe kahtiri mohko<\/em>, \u201cnovo territ\u00f3rio de vida p\u00f3s-morte\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Christine Hugh-Jones (1979\/88, p. 113-134) mostra que, para os Barasana, os nomes s\u00e3o a \u00fanica subst\u00e2ncia da pessoa que poder\u00e1 assegurar a sua continuidade para al\u00e9m da morte, porque a subst\u00e2ncia da alma se herda no nome, enquanto o corpo f\u00edsico putrifica.<\/p>\n\n\n\n<p>Diferentemente da no\u00e7\u00e3o de putrefa\u00e7\u00e3o, os <em>Yepamahs\u00e3 <\/em>t\u00eam a clara no\u00e7\u00e3o de que o findar do corpo \u00e9 uma passagem para outro tipo de <em>kahtiro<\/em>. A morte, por um lado, encerra o ciclo de vida do corpo e, por outro, aponta para a dire\u00e7\u00e3o de outra dimens\u00e3o, morrer \u00e9 se transformar, \u00e9 n\u00e3o morrer. O corpo volta para <em>dita kahtiro<\/em>. O <em>heripor\u00e3 bahseke wame <\/em>vai para outro <em>bahsakawi, <\/em>do dom\u00ednio dos <em>waimahs\u00e3<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Na pr\u00e1tica cotidiana dos povos do Alto Rio Negro, as qualidades de terra \u2014 preta, amarela, branca e vermelha \u2014 e os bichos com qualidade de cavar a terra s\u00e3o acionados, na articula\u00e7\u00e3o de <em>bahsese<\/em>, para arar e fertilizar a terra do ro\u00e7ado rec\u00e9m-queimado. Feito isso, d\u00e1-se in\u00edcio \u00e0 planta\u00e7\u00e3o de mandioca e de outras plantas cultiv\u00e1veis no terreno preparado.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra importante articula\u00e7\u00e3o de <em>bahsese <\/em>\u00e9 do tipo <em>dita bahsese<\/em>, feita antes da constru\u00e7\u00e3o de nova resid\u00eancia. Essa medida \u00e9 tomada para que em nenhum momento o corpo sinta-se amea\u00e7ado pela terra, mas, sim, que a sinta como parte extensiva de seu corpo. Como resultado da a\u00e7\u00e3o deste <em>bahsese<\/em>, a nova morada passa a ser um espa\u00e7o de aconchego e de sentimento de bem-estar para o grupo familiar.<\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ahko kahtiro (\u201c\u00e1gua\/vida\u201d)<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O elemento \u201c\u00e1gua\/vida\u201d \u00e9 um termo usado para falar da import\u00e2ncia da \u00e1gua que constitui o corpo e sua pot\u00eancia transformacional. A \u00e1gua n\u00e3o \u00e9 concebida somente como recurso natural, mas tamb\u00e9m como componente essencial que constitui o <em>mahs\u00e3 kahtiro<\/em>, <em>yuku kahtiro<\/em>, <em>waikur\u00e3 kahtiro<\/em>, <em>dita kahtiro<\/em>, ou seja, a \u00e1gua como elemento essencial para a exist\u00eancia de todos os demais \u201ctipos de vida\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao fazer <em>bahsese<\/em> de \u00e1gua, o <em>kumu <\/em>evoca as qualidades de todos os tipos de \u00e1gua contidos nos animais, na terra, no ar e nos vegetais.<\/p>\n\n\n\n<p>Os especialistas<em> Pamurimahs\u00e3<\/em> t\u00eam uma no\u00e7\u00e3o refinada sobre os tipos de \u00e1gua: <em>ahko buhtise<\/em> (\u00e1gua branca), <em>ahko so\u00e3se<\/em> (\u00e1gua vermelha), <em>ahko \u00f1ise <\/em>(\u00e1gua preta) e <em>ahko yasase<\/em> (\u00e1gua verde). Ao falar sobre o elemento \u00e1gua no contexto do <em>bahsese<\/em>, o <em>kumu<\/em> Ov\u00eddio Barreto fez o seguinte coment\u00e1rio:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Ap\u00f3s o parto, a m\u00e3e e o beb\u00ea tomam \u00e1gua depois que foi<br>feito o <em>bahsese<\/em>. Assim a crian\u00e7a n\u00e3o sofre de doen\u00e7as<br>causadas pela \u00e1gua, pois, do contr\u00e1rio, quando n\u00e3o faz<br>isso, a crian\u00e7a, ao mamar, acaba contraindo doen\u00e7as da<br>\u00e1gua e, quando faz a necessidade fisiol\u00f3gica, expele massa<br>parecida com baga\u00e7o de caxiri. Assim que funciona. (<em>kumu<\/em><br>Ov\u00eddio Barreto, 2017).<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>O l\u00edquido que constitui o corpo e nele circula \u00e9 chamado de <em>Opek\u00f5<\/em> e <em>kar\u00e3ko kahtise<\/em>, que podem ser entendidos como l\u00edquido importante para a manuten\u00e7\u00e3o do corpo e da vida humana. No contexto da linguagem do <em>bahsese<\/em> e no discurso dos especialistas, esses dois termos est\u00e3o muito presentes. Por exemplo, nos seguintes termos: <em>Opek\u00f5 dihtar\u00e1 <\/em>(Rio de Janeiro), lago de ber\u00e7o de vida humana; <em>Opek\u00f5 dia <\/em>(Rio Negro), rio de navega\u00e7\u00e3o de futuros humanos.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 outros: <em>opek\u00f5 wahatopa<\/em> e <em>kar\u00e3ko wahatopa<\/em> referem-se aos artefatos de uso da pessoa; <em>kar\u00e3ko doto<\/em> e <em>opeko doto<\/em> referem-se \u00e0 capacidade de manuten\u00e7\u00e3o e de gera\u00e7\u00e3o de vida; <em>opeko sopo weta<\/em> e <em>kar\u00e3ko sopo weta<\/em> s\u00e3o termos fundamentais usados para \u201ctransformar os alimentos em fontes nutritivas\u201d; <em>opeko sopo wai<\/em> e <em>kar\u00e3ko sopo wai<\/em>, linguagem de <em>bahsese<\/em> da f\u00f3rmula de <em>wai bahse ekase<\/em>, transformando peixes em fontes nutritivas. Assim, as palavras <em>opek\u00f5<\/em> e <em>kar\u00e3ko<\/em> na linguagem do <em>bahsese<\/em> transformam todas as coisas para o bem-estar, realizam a \u201cproteiniza\u00e7\u00e3o\u201d dos alimentos e a fortifica\u00e7\u00e3o do corpo.<\/p>\n\n\n\n<p>No conjunto de f\u00f3rmulas de <em>Ba\u2019ase bahse ekase<\/em> (limpeza de alimentos), na conclus\u00e3o das f\u00f3rmulas can\u00f4nicas, est\u00e3o as palavras <em>opek\u00f5<\/em> e <em>kar\u00e3ko<\/em> como agentes de transforma\u00e7\u00e3o dos alimentos em subst\u00e2ncias saud\u00e1veis ao corpo, livres de perigos de contamina\u00e7\u00e3o e portadoras de nutri\u00e7\u00e3o e de for\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro ponto importante, segundo os especialistas, \u00e9 que a \u00e1gua \u00e9 um elemento presente em todos os organismos vivos, por essa raz\u00e3o ela tamb\u00e9m \u00e9 chamada de <em>ahko kahtiro<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>A \u00e1gua comp\u00f5e e move o corpo com os outros elementos. O <em>kumu<\/em> Durvalino fala que a maior parte do corpo \u00e9 constitu\u00edda de \u00e1gua, que se dissolve com a morte da pessoa. Assim, a \u00e1gua \u00e9 provedora de vida e protetora das estruturas vitais dos <em>kahtise<\/em> \u2013 <em>yuku kahtiro<\/em>, <em>dita kahtiro<\/em>, <em>ahko kahtiro<\/em>, <em>waiku r\u00e3kahtiro<\/em>, <em>ome kahtiro<\/em>, <em>mahs\u00e3 kahtiro<\/em>. Por esses e outros fatores, ela \u00e9 de extrema import\u00e2ncia para todos os tipos de <em>kahtise<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso de <em>mahs\u00e3 kahtiro<\/em>, segundo os <em>kumu\u00e3<\/em>, a \u00e1gua est\u00e1 presente na forma de suor, de l\u00e1grimas, de urina, de saliva, de l\u00edquido de lubrifica\u00e7\u00e3o dos olhos etc. E tem o papel fundamental na regulagem da temperatura do corpo. Assim, o <em>ahko kahtiro<\/em> \u00e9 um conceito que abrange o universo da \u00e1gua \u2014 a \u00e1gua do corpo, o dom\u00ednio aqu\u00e1tico, a chuva, o sereno \u2014 com todas as suas tonalidades de cor.<\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Waikur\u00e3 kahtiro (\u201canimal\/vida\u201d)<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O sentido de <em>waikur\u00e3 kahtiro <\/em>refere-se ao potencial de qualidade animal que constitui o corpo. Isto \u00e9, todo o conjunto de qualidade de animais e bichos existentes no mundo terrestre, seja os que habitam a terra\/floresta ou aqueles do meio aqu\u00e1tico. Sua taxonomia e suas respectivas qualidades est\u00e3o inscritas na f\u00f3rmula de <em>bahsese <\/em>denominada de <em>waikur\u00e3 bahse ekaro<\/em>, do conjunto maior de <em>Ba\u2019ase bahse ekase<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>O corpo \u00e9 uma pot\u00eancia, pois quando acionadas as qualidades de <em>waikur\u00e3 kahtiro<\/em>,<em> <\/em>fica sob qualifica\u00e7\u00e3o daquele animal ou bicho. Num primeiro plano, <em>waikur\u00e3 kahtiro <\/em>est\u00e1 relacionado aos bichos com qualidades de resist\u00eancia \u00e0s doen\u00e7as e \u00e0queles com qualidades usadas na potencializa\u00e7\u00e3o do corpo.<\/p>\n\n\n\n<p>O conhecimento sobre as caracter\u00edsticas dos bichos \u00e9 muito importante para a potencializac\u00e3o do corpo no ato dos <em>bahsese<\/em>. Durante a execu\u00e7\u00e3o dessa pr\u00e1tica, s\u00e3o evocadas as qualidades dos bichos, tais como sua resist\u00eancia, for\u00e7a, esperteza, cor, porte f\u00edsico, as caracter\u00edsticas de sua pelagem, sua beleza, seus cantos, o alcance de sua vis\u00e3o e sua audi\u00e7\u00e3o etc. Ou seja, todas as qualidades de cada bicho s\u00e3o aproveit\u00e1veis para a potencializac\u00e3o e para a prote\u00e7\u00e3o do corpo humano, acionadas durante o <em>bahsese<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Waikur\u00e3 kahtiro <\/em>refere-se ao comportamento dos animais, em que cada grupo ou esp\u00e9cie possui suas caracter\u00edsticas pr\u00f3prias, seu habitat, sua cor, tamanho, um tipo espec\u00edfico de alimenta\u00e7\u00e3o, entre outros aspectos. Dominar a taxonomia e as caracter\u00edsticas dos animais \u00e9 fundamental para a articula\u00e7\u00e3o de <em>bahsese<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ome kahtiro (\u201car\/vida\u201d)<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Esse elemento corresponde ao ar que respiramos e sua pot\u00eancia que constitui o corpo. O termo inclui todos os tipos de ar, ventos e correntes do dia e da noite, seus tipos e qualidades: ventos fortes e fracos, ar quente e ar frio, vento \u00famido e vento seco. Todos esses tipos tamb\u00e9m comp\u00f5em e circulam pelo corpo humano. Isto \u00e9, o ar na sua ess\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>A categoria <em>ome kahtiro <\/em>\u00e9 acionada pelo especialista por meio de <em>bahsese <\/em>no momento de nascimento da crian\u00e7a, antes do primeiro contato do corpo com o ar atrav\u00e9s da respira\u00e7\u00e3o e com o mundo exterior. O objetivo consiste em acionar a estrutura pulmonar da crian\u00e7a para funcionar a partir da pr\u00f3pria respira\u00e7\u00e3o. Segundo o <em>kumu <\/em>Ov\u00eddio Barreto, o <em>bahsese <\/em>\u00e9 como \u201cligar motor\u201d para a crian\u00e7a come\u00e7ar a respirar por seu pr\u00f3prio esfor\u00e7o. Em palavras especiais, essa respira\u00e7\u00e3o \u00e9 chamada de <em>opek\u00f5 kahtirida <\/em>e <em>kar\u00e3k\u00f5 kahtirida <\/em>da pessoa, que significa respira\u00e7\u00e3o de vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Os especialistas orientam que o contato do corpo com o ar tamb\u00e9m tem seus perigos, sua carga e seu cheiro penetrando no corpo humano podem fazer mal. Por exemplo, uma corrente de ar ou a fuma\u00e7a carregada de cheiro de assado de carne, de peixe ou de fruta, circulando pelo corpo, pode afetar a pessoa, comprometendo sua capacidade de aprendizagem e de memoriza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Os momentos mais arriscados s\u00e3o: os primeiros meses de vida da crian\u00e7a, o per\u00edodo de resguardo do c\u00f4njuge p\u00f3s-parto, o momento de forma\u00e7\u00e3o de especialista, o ciclo da primeira menstrua\u00e7\u00e3o e os momentos ap\u00f3s uso de <em>kahpi <\/em>e ap\u00f3s o uso de instrumentos de <em>miri\u00e3 <\/em>(jurupari) durante as cerim\u00f4nias de <em>poose <\/em>(dabucuri). Nessas ocasi\u00f5es, segundo o <em>kumu <\/em>Manoel Lima, necessariamente a pessoa deve se submeter ao <em>bahsese<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Os seis tipos de <em>kahtise <\/em>tratados at\u00e9 aqui (<em>boreyuse kahtiro<\/em>, <em>yuku kahtiro<\/em>, <em>dita kahtiro, ahko kahtiro<\/em>, <em>waikur\u00e3 kahtiro<\/em>, <em>ome kahtiro<\/em>) s\u00e3o conjuntos de elementos que constituem o mundo terrestre, que podem ser resumidos como corpos que fazem parte do mundo terrestre, estando em movimento e transforma\u00e7\u00e3o sempre, isto \u00e9, num cont\u00ednuo devir. Segundo os <em>kumu\u00e3<\/em>, todos os elementos est\u00e3o presentes no corpo humano. Assim, podemos entender que o <em>todo <\/em>\u00e9 o corpo humano. O corpo, para os <em>yepamahs\u00e3<\/em> \u00e9 uma pot\u00eancia que est\u00e1 em movimento e transforma\u00e7\u00e3o o tempo todo, sobretudo quando \u00e9 acionada sua pot\u00eancia pela articula\u00e7\u00e3o de <em>bahsese<\/em>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O corpo como s\u00edntese e microcosmo \u00e9 extens\u00e3o do mundo terrestre, assim como o mundo terrestre \u00e9 extens\u00e3o do corpo. Dessa maneira, qualquer desequil\u00edbrio provocado pelos humanos (polui\u00e7\u00e3o, devasta\u00e7\u00e3o etc.) provoca diretamente o desequil\u00edbrio dos corpos das pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Mahs\u00e3 kahtiro (\u201chumano\/vida\u201d)<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A no\u00e7\u00e3o de <em>mahs\u00e3 kahtiro, <\/em>isto \u00e9, o nome da pessoa, \u00e9 o que qualifica os corpos como pessoa\/gente\/humano, conforme me contou o <em>kumu dessana <\/em>Durvalino Fernandes:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Todos somos animais, porque o nosso corpo \u00e9 <em>waikur\u00e3<br>kahtiro<\/em>. Mas n\u00f3s somos dotados de <em>heripor\u00e3 bahseke<br>wame<\/em>, diferentemente daqueles que s\u00e3o <em>waikur\u00e3 <\/em><br>(animais). O <em>heripor\u00e3 bahseke wame <\/em>que nos liga com<br>outras coisas que forma nossa for\u00e7a vital. Os brancos n\u00e3o<br>t\u00eam <em>heripor\u00e3 bahseke wame<\/em>, neles precisa ser injetado o<br><em>heripor\u00e3 bahseke wame<\/em> (<em>kumu<\/em> Durvalino, 2019).<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>O marcador de diferen\u00e7a entre os ditos humanos e os animais, do ponto de vista dos <em>kumu\u00e3<\/em>,<em> <\/em>\u00e9 o <em>mahs\u00e3 kahtiro <\/em>injetado pelos especialistas pelo processo de <em>heripor\u00e3 bahsese<\/em>. Humanos s\u00e3o aqueles que possuem o <em>heripor\u00e3 bahseke wame<\/em>, sem o qual o corpo em si \u00e9 <em>waikur\u00e3 kahtiro <\/em>(vida animal).<\/p>\n\n\n\n<p>Ao p\u00e9 da letra, <em>heripor\u00e3 bahsese <\/em>significa: \u201cdar nome \u00e0 crian\u00e7a\u201d, enquanto <em>heripor\u00e3 bahseke wame <\/em>refere-se ao nome recebido pela pessoa. E o termo <em>wame <\/em>refere-se ao nome da pessoa, dado sem processo de <em>heripor\u00e3 bahsese<\/em>, que \u00e9 uma f\u00f3rmula longa e de muito sentido. Os especialistas do Rio Negro dizem que a for\u00e7a e o poder do <em>bahsese <\/em>emana do <em>heripor\u00e3 bahseke wame<\/em>. Isto \u00e9, uma for\u00e7a e um poder de sopro transformador.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, o <em>heripor\u00e3 bahsese <\/em>\u00e9 um processo de inje\u00e7\u00e3o do nome, e <em>heripor\u00e3 bahseke wame <\/em>\u00e9 o nome da pessoa. A inje\u00e7\u00e3o de nome \u00e9 feita pelo processo longo de <em>bahsese<\/em>. Por longas horas em concentra\u00e7\u00e3o, o especialista escolhe o <em>heripor\u00e3 bahseke wame <\/em>mais apropriado para aquela crian\u00e7a, retirando-o da lista de <em>wame <\/em>(nomes) do grupo social ao qual a crian\u00e7a pertence, e atribui-lhe um nome.<\/p>\n\n\n\n<p>Lembro-me bem do dia em que o <em>kumu <\/em>Durvalino Fernandes me disse:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Um corpo sem <em>heripor\u00e3 bahseke wame <\/em>n\u00e3o \u00e9 um<br>corpo completo, pois n\u00e3o carrega consigo a for\u00e7a de<br><em>bahsese<\/em>, de invocar elementos protetivos e<br>subst\u00e2ncias curativas do corpo, n\u00e3o tem poder de<br><em>bahsese<\/em>, n\u00e3o tem liga\u00e7\u00e3o com os <em>o\u00e3mahr\u00e3<\/em>, n\u00e3o tem<br>conex\u00e3o com o territ\u00f3rio, n\u00e3o tem liga\u00e7\u00e3o com o<br>grupo social e n\u00e3o tem liga\u00e7\u00e3o com a cosmologia do<br>grupo social.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Segundo os especialistas, a conex\u00e3o do corpo com todas essas dimens\u00f5es \u00e9 importante porque a jun\u00e7\u00e3o ou conex\u00e3o de tudo isso \u00e9 que forma a <em>for\u00e7a vital <\/em>da pessoa. O equil\u00edbrio da pessoa e do seu grupo \u00e9 entendido a partir da teia de rela\u00e7\u00f5es estabelecidas, seja entre os grupos sociais e os <em>waimahs\u00e3<\/em>, seja entre grupos e pessoas individualmente. Segundo os <em>kumu\u00e3<\/em>, se tudo estiver conectado numa rede de comunica\u00e7\u00e3o e intera\u00e7\u00e3o, o grupo estar\u00e1 em equil\u00edbrio e a pessoa tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">***<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Jo\u00e3o Paulo Lima Barreto <\/em><\/strong>\u00e9 ind\u00edgena do povo <em>Yepamahs\u00e3<\/em> (Tukano), nascido na aldeia S\u00e3o Domingos, no munic\u00edpio de S\u00e3o Gabriel da Cachoeira (AM). Graduado em Filosofia e Doutor em Antropologia Social pela Universidade Federal do Amazonas. Pesquisador do N\u00facleo de Estudos da Amaz\u00f4nia Ind\u00edgena (NEAI). Fundador do Centro de Medicina Ind\u00edgena <em>Bahserikowi<\/em>. Coordenador do F\u00f3rum Povos da Rede Unida. Professor. Consultor.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Refer\u00eancias<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>BACHELARD, Gaston. <em>A po\u00e9tico do espa\u00e7o.<\/em> 2. ed. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2008.<\/p>\n\n\n\n<p>BARRETO, Jo\u00e3o Paulo Lima. <em>Waimahs\u00e3<\/em> \u2014 peixes e humanos. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado em Antropologia Social), Universidade Federal do Amazonas, Manaus, 2013.<\/p>\n\n\n\n<p>BARRETO, Jo\u00e3o Paulo Lima. <em>Bahserikowi<\/em> \u2014 Centro de Medicina Ind\u00edgena da Amaz\u00f4nia: concep\u00e7\u00f5es e pr\u00e1ticas de sa\u00fade ind\u00edgena. <em>Amaz\u00f4nica <\/em>\u2013 Revista de Antropologia, v. 9, n. 2, p. 294-612, 2017.<\/p>\n\n\n\n<p>HUGH-JONES, Christine. <em>From the Milk River: <\/em>spatial and temporal processes in the Northwest Amazonia. Cambridge: Cambridge University Press, 1979\/1988.<\/p>\n\n\n\n<p>SEEGER, Anthony <em>et al<\/em>. A constru\u00e7\u00e3o da pessoa nas sociedades ind\u00edgenas brasileiras. <em>Boletim do Museu Nacional \u2013 Antropologia,<\/em> v. 32, p. 2-19, 1979.<\/p>\n\n\n\n<p>SHARTORI, Karen. O olhar envenenado: a perspectiva das plantas e o xamanismo vegetal jamamadi (m\u00e9dio Purus, AM). <em>Mana<\/em>, v. 25, n. 1, p. 159-188, jan.\/abr. 2019.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><sup><strong>1<\/strong><\/sup> Aqui prop\u00f5e a ideia de <em>constru\u00e7\u00e3o<\/em> do mundo terrestre, como contraponto \u00e0 ideia de cria\u00e7\u00e3o de Deus e da teoria do Big Bang. A explica\u00e7\u00e3o dos <em>Yepamhs\u00e3<\/em> diz que os demiurgos constru\u00edram o mundo terrestre a partir dos elementos em seu poder como o <em>yag\u0289<\/em>, escudo, cip\u00f3, esteiras, colunas de quartzos, tabaco. Cf. Barreto, 2013.<\/p>\n\n\n\n<p><sup><strong>2<\/strong><\/sup> Os principais povos com conhecimentos como <em>Pamuri-mahs\u00e3 <\/em>s\u00e3o: <em>Tukano, Kubeo, Wanana, Tuyuka, Pira-tapuya, Miriti-tapuya, Arapaso, Karapan\u00e3, Bar\u00e1, Siriano, Makuna, Hupda, Yuhupde, Dow, <\/em>entre outros. Existem grupos com conhecimentos como <em>\u0244m\u0289kori-mahs\u00e3<\/em> que s\u00e3o: Dessana, Baniwa, Tariano, entre outros. <em>Pamuri-mahs\u00e3 <\/em>e <em>\u0244m\u0289kori-mahs\u00e3 <\/em>s\u00e3o categorias explicativas de origens dos grupos sociais que povoam o noroeste amaz\u00f4nico.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A concep\u00e7\u00e3o de corpo a partir das pr\u00e1ticas dos especialistas ind\u00edgenas do Alto Rio Negro Jo\u00e3o Paulo Lima Barreto (Tukano) A ideia, neste artigo, \u00e9 apresentar as concep\u00e7\u00f5es de corpo [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/5163"}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5163"}],"version-history":[{"count":30,"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/5163\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6286,"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/5163\/revisions\/6286"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5163"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}