{"id":4403,"date":"2025-09-26T12:06:37","date_gmt":"2025-09-26T15:06:37","guid":{"rendered":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/?page_id=4403"},"modified":"2025-10-15T14:24:39","modified_gmt":"2025-10-15T17:24:39","slug":"tembiapo-arte-e-povos-da-cura","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/tembiapo-arte-e-povos-da-cura\/","title":{"rendered":"Tembiapo: Arte e povos da cura"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"1000\" height=\"667\" src=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/09\/SB_fig1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4427\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/09\/SB_fig1.jpg 1000w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/09\/SB_fig1-300x200.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/09\/SB_fig1-768x512.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><figcaption>Conversa com Sandra Benites, Companhia de Myst\u00e9rios e Novidades, 26 de outubro de 2022. Foto: Vitor Szpiz<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h2><em>Tembiapo<\/em>: Arte e povos da cura<\/h2>\n\n\n\n<h2>Conversa com Sandra Benites<\/h2>\n\n\n\n<h4> Media\u00e7\u00e3o: Luiz Guilherme Vergara<\/h4>\n\n\n\n<p><strong><em>Luiz Guilherme Vergara<\/em><\/strong>: Boa tarde. Bem vindes a todes. Agradecemos imensamente a Companhia de Myst\u00e9rios e Novidades por nos acolher hoje, e a L\u00edgia Veiga pela sua maravilhosa chamada de concha, e, especialmente, a Sandra Benites, por ter, generosamente, aceitado nosso convite para falar hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>Certa vez, em um semin\u00e1rio internacional sobre Transculturalidade no MAC Niter\u00f3i (Museu de Arte Contempor\u00e2nea de Niter\u00f3i), uma das lideran\u00e7as ind\u00edgenas abriu sua fala afirmando que \u201cn\u00f3s, os povos [ind\u00edgenas] pensamos redondo\u201d. Pensar redondo \u00e9 uma imagem que quebra com toda a nossa educa\u00e7\u00e3o de linearidade. Ent\u00e3o eu convido a Sandra Benites para que ela possa se colocar e expressar a sua narrativa pensante, compartilhada, redonda.<\/p>\n\n\n\n<p>Sandra Benites \u00e9 professora de hist\u00f3ria e filosofia do ensino fundamental e m\u00e9dio. Mestre em Antropologia Social pelo Museu Nacional da UFRJ e doutoranda da mesma institui\u00e7\u00e3o. Foi curadora-adjunta do MASP (Museu de Arte de S\u00e3o Paulo). Fez a curadoria da exposi\u00e7\u00e3o \u201cDja Guata Por\u00e3: Rio de Janeiro Ind\u00edgena\u201d, entre 2017 e 2018, no Museu de Arte do Rio (MAR) com Clarissa Diniz, Pablo Lafuente e Jos\u00e9 Ribamar Bessa. E, atualmente, comp\u00f5e a equipe curatorial do Museu das Culturas Ind\u00edgenas em S\u00e3o Paulo. 26 de outubro de 2022, Casa de Myst\u00e9rios e Novidades \u2014 Gamboa, Rio de Janeiro<strong><sup>1<\/sup><\/strong>.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Sandra, na sua pesquisa de mestrado, aponta para o sentido de arte como uma outra linguagem, uma outra l\u00edngua, uma outra <em>poiesis<\/em> que n\u00e3o est\u00e1 estabelecida, n\u00e3o est\u00e1 est\u00e1tica. E tamb\u00e9m aborda as desaven\u00e7as e conflitos entre a tradu\u00e7\u00e3o, a educa\u00e7\u00e3o imposta nas aldeias pela escola formal e a educa\u00e7\u00e3o guarani. Utilizando do conceito de bilinguismo como ferramenta, ela apresenta uma descri\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica atrav\u00e9s das experi\u00eancias vividas das formas com as quais os guaranis <em>Nhandeva<\/em> transmitem conhecimento \u00e0s suas crian\u00e7as e jovens. As hist\u00f3rias <em>Nhandeva<\/em> s\u00e3o a base da forma\u00e7\u00e3o de condutas, cren\u00e7as e personalidades. Destaca-se aqui a forma\u00e7\u00e3o que diferencia as mulheres guaranis dos homens guaranis, com \u00eanfase na hist\u00f3ria de <em>Nhandesy Et\u00e9<\/em>, figura feminina da cosmologia guarani.<\/p>\n\n\n\n<p>Dentro dessa escrita provocante, Sandra j\u00e1 trouxe as quest\u00f5es iniciais de complexidade que dialogam com a disciplina de PPGCA \u201cConchas, Peneiras e Bainhas\u201d, que Jessica Gogan est\u00e1 ministrando com diverses convidades ao longo do semestre. Acredito que estamos na bainha? Aquela costura por dentro. Costurando rela\u00e7\u00f5es de arte, cl\u00ednica e cuidado. Talvez isso fosse desnecess\u00e1rio para os povos ind\u00edgenas, porque a sa\u00fade, a cl\u00ednica, a terapia, a arte, as celebra\u00e7\u00f5es est\u00e3o todas juntas. Mas n\u00f3s somos povos da doen\u00e7a, da separatividade, e o nosso caminho regenerante \u00e9 voltar ao caminho de s\u00edntese, de conectividade. Dentro da proposi\u00e7\u00e3o da aula hoje eu trouxe a seguinte quest\u00e3o: a necessidade de mudan\u00e7as atravessa e denuncia as dicotomias obsoletas dos debates est\u00e9ticos no campo das artes, filosofia e pensamento. Revelando barreiras herdadas do humanismo, reduzindo a um eurocentrismo fragmentado pela cegueira do dualismo humanidade-natureza, marcante tamb\u00e9m do antropoceno. Neste cen\u00e1rio de abrigo e abismo po\u00e9tico do fen\u00f4meno humano, entram em colapso tamb\u00e9m as institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas das artes, educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>O objetivo dessa conversa \u00e9 exatamente realizar um encontro gerador de partilhas, pr\u00e1ticas, saberes e intui\u00e7\u00f5es palp\u00e1veis de futuros, com a trajet\u00f3ria de Sandra Benites como ponte entre artes, no plural, e sua pluralidade de sentidos: como educa\u00e7\u00e3o, pr\u00e1ticas terap\u00eauticas e cl\u00ednicas de sa\u00fade coletiva, que se desdobram em produ\u00e7\u00e3o de conectividade, coletividade e novos agenciamentos de subjetividade, reconfigurando a dimens\u00e3o corpo, cora\u00e7\u00e3o, espiritualidade e institucionalidades em territorializa\u00e7\u00f5es experimentais de futuros ancestrais.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"1000\" height=\"667\" src=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/09\/SB_fig2_Ligia-Concha.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4429\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/09\/SB_fig2_Ligia-Concha.jpg 1000w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/09\/SB_fig2_Ligia-Concha-300x200.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/09\/SB_fig2_Ligia-Concha-768x512.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><figcaption>L\u00edgia Veiga, diretora, Companhia de Myst\u00e9rios e Novidades. Fotografia: Vitor Szpiz<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Essa \u00e9 uma conversa que se desenha ao longo de alguns encontros com a Sandra Benites nos preparativos para a media\u00e7\u00e3o de uma mesa de F\u00f3rum Povos sobre arte, cultura e sa\u00fade, com diversos representantes ind\u00edgenas, realizada no \u00e2mbito do 15\u00ba Congresso Internacional da Rede Unida (2022). A discuss\u00e3o reconheceu o quanto os saberes e pr\u00e1ticas comunit\u00e1rias (dos fazeres, at\u00e9 a produ\u00e7\u00e3o do simb\u00f3lico) apontam fundamentalmente para as mudan\u00e7as urgentes de valores \u2014 fazeres contracoloniais, contracapitalistas \u2014 que regem nossas institui\u00e7\u00f5es, tanto das artes, da educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, quanto das espiritualidades e religi\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesta ocasi\u00e3o, e em nossas conversas, Sandra trouxe algumas palavras\/conceitos em guarani que me parecem chaves para futuros ancestrais das artes e que, imagino, v\u00e3o atravessar nossa discuss\u00e3o agora. Vou come\u00e7ar com <em>tembiapo<\/em> que, inclusive, intitula o encontro de hoje. Eu perguntei se existia uma palavra mais pr\u00f3xima de arte e ela disse: \u201c<em>Tembiapo<\/em>, vem de <em>tembi<\/em>, produ\u00e7\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es, processos de pertencimento. Tamb\u00e9m significa cora\u00e7\u00e3o, est\u00f4mago e sentimento. <em>Apo<\/em> significa o fazer artesanal, com as m\u00e3os&#8230;\u201d. O artista \u00e9 aquele que tem habilidade de fazer cestaria, dan\u00e7ar, esculpir animais de madeira. E nesse fazer-saber que se torna coletivo, identit\u00e1rio de uma comunidade, e a comunidade se reconhece nesses fazeres-saberes. Outra palavra\/conceito\/pr\u00e1tica-chave que Sandra trouxe \u00e9 <em>hendu<\/em>. <em>Hendu <\/em>significa escuta, ouvir com o corpo, tamb\u00e9m no sentido de \u201cpedir permiss\u00e3o com sentimento de ser parte do que escuta\u201d. Olha que beleza: ser parte do que escuta. E ela continua: \u201c[&#8230;] sendo parte do que escuta com o cora\u00e7\u00e3o-corpo\u201d. Este sentido de uma responsabilidade compartilhada tamb\u00e9m vale por tudo: o humano, a natureza, o n\u00e3o humano e que \u201csomos parte do que ca\u00e7amos\u201d, que \u00e9 <em>teko<\/em>, uma outra palavra-chave que Sandra nos oferece para a \u201crela\u00e7\u00e3o corpo-territ\u00f3rio\u201d. Como ela diz, \u201ctoda a nossa exist\u00eancia \u00e9 uma caminhada\u201d&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>E, por \u00faltimo, como parte desta caminhada, ter\u00edamos os desafios de transmuta\u00e7\u00f5es terap\u00eauticas institucionais. Que transmuta\u00e7\u00f5es s\u00e3o necess\u00e1rias e como exatamente essas cosmovis\u00f5es, essas escutas, esses princ\u00edpios \u00e9ticos podem remodelar futuros das artes, ci\u00eancias e espiritualidades? Como as pr\u00e1ticas de artes e ci\u00eancias da cura \u2014 que est\u00e3o totalmente entrela\u00e7adas com o sentido de rezar, banhos, benzimentos, cantos, dan\u00e7as e ervas medicinais \u2014, como elas podem (re)inventar e transformar o museu convencional assim como centros de sa\u00fade comunit\u00e1rios? Passo a esfera da conversa para voc\u00ea. Muito obrigado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Sandra Benites<\/em><\/strong>: Obrigada pelo convite tamb\u00e9m, eu acho que o meu esfor\u00e7o hoje, de estar aqui com voc\u00eas, \u00e9 pensar o futuro. Como enfrentar, durante esses quatro anos, o que a gente enfrentou?<\/p>\n\n\n\n<p>Uma coisa que me marca muito enquanto corpo racializado, enquanto corpo de mulher e enquanto m\u00e3e&#8230; isso me chocou muito mais do que a gente j\u00e1 vinha enfrentando. Eu acho que eu comecei a entender isso h\u00e1 muito tempo, desde que eu comecei a dar aulas, na minha ida para a academia exatamente em busca dessa resposta: como que a gente vai dialogar, ou desconstruir aquilo que n\u00e3o me faz bem enquanto mulher, enquanto mulher ind\u00edgena? Eu dei aulas para as crian\u00e7as guaranis no Esp\u00edrito Santo \u2014 morei l\u00e1 de 2000 at\u00e9 2015 \u2014 e, ent\u00e3o, eu encontrava muita dificuldade de ter a autonomia de ensinar aquilo que \u00e9 importante para n\u00f3s. Porque no nosso costume guarani, por exemplo, as meninas, quando vem a primeira menstrua\u00e7\u00e3o, elas ficam de resguardo, e assim constantemente at\u00e9 a pr\u00f3xima menstrua\u00e7\u00e3o. Existe o resguardo. Porque isso depende muito da nossa sa\u00fade mental, primeiro. Porque, como no nosso corpo, esse fluxo de sangue se movimenta e mexe \u2014 a minha av\u00f3 falava \u2014 do dedo, \u00e0 cabe\u00e7a, at\u00e9 o cabelo. Ent\u00e3o a gente precisa saber lidar com isso, que \u00e9 cuidar do nosso corpo nesse per\u00edodo. E a\u00ed, por isso \u00e9 muito importante a gente se resguardar, porque nesse per\u00edodo voc\u00ea pode falar besteira por estar impaciente e tamb\u00e9m algu\u00e9m pode te aborrecer e isso vai levando, estendendo as coisas para a sua sa\u00fade. Ent\u00e3o, por isso, \u00e9 muito importante essa preserva\u00e7\u00e3o do per\u00edodo menstrual da mulher. Eu lembro que a gente fez curr\u00edculo, a gente fez projeto, tudo que a gente podia fazer, que temos direito de fazer, a gente construiu. Porque na nossa escola ind\u00edgena brasileira existem quatro princ\u00edpios que temos obrigatoriamente que respeitar: a escola tem que ser diferenciada, bil\u00edngue, comunit\u00e1ria e tamb\u00e9m espec\u00edfica. Isso vai depender de cada contexto para cada aldeia, de cada l\u00edngua, de cada comunidade. E, assim, fizemos o nosso projeto pol\u00edtico pedag\u00f3gico, a nossa proposta curricular especificamente para a comunidade guarani que fica no munic\u00edpio de Aracruz.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltando \u00e0 rela\u00e7\u00e3o da menina, a maioria das minhas alunas eram de 10 a 13 anos, idade do in\u00edcio do per\u00edodo menstrual, e estudavam comigo. N\u00f3s e a comunidade conversamos sobre isso. Quando vem a primeira menstrua\u00e7\u00e3o, os pais v\u00eam me comunicar e avisar que elas v\u00e3o ficar em tal per\u00edodo de resguardo. E a\u00ed movimenta toda a fam\u00edlia. \u00c9 um processo de educa\u00e7\u00e3o que eu chamo de educa\u00e7\u00e3o coletiva, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma pessoa. Por exemplo, os meninos nesse per\u00edodo v\u00e3o buscar erva para lavar a cabe\u00e7a e dar rem\u00e9dio para as irm\u00e3s. Da\u00ed, ent\u00e3o, dei \u201cok\u201d e as meninas foram liberadas. Eu lembro que uma vez a secret\u00e1ria, o comando da Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o, veio me dizer que eu tinha que fazer atividade para mandar para as meninas que est\u00e3o de resguardo na casa delas com a fam\u00edlia. Eu tinha que fazer tarefa de casa, ou dever de casa, uma coisa assim&#8230; para mandar para elas todo dia para constar no di\u00e1rio. Isso me deixou muito indignada, porque literalmente \u00e9 dizer que o que a gente ensina em casa, a nossa educa\u00e7\u00e3o guarani, n\u00e3o \u00e9 v\u00e1lida para nada, inclusive para a escola. E a\u00ed eu via a distor\u00e7\u00e3o da coisa. E eu comecei, a partir dessa quest\u00e3o, a ir em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s quest\u00f5es das mulheres, das m\u00e3es, porque nunca \u00e9 separado, nada \u00e9 separado, tudo \u00e9 junto! A quest\u00e3o do costume, da forma, dos nossos valores\u2026 tudo isso vai ser pr\u00f3prio deste processo da caminhada que a gente fala, que chamamos de <em>teko<\/em>. O <em>teko<\/em> \u00e9 nossa rela\u00e7\u00e3o corpo-territ\u00f3rio, \u00e9 como se fosse algo que voc\u00ea toda hora vai manusear. Porque a caminhada, para n\u00f3s, tem s\u00e9rios rituais que a gente tem que praticar durante nosso processo de exist\u00eancia, de existir no mundo, e isso \u00e9 uma complexidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o eu acho que essa educa\u00e7\u00e3o<em> juru\u00e1 <\/em>[como os guaranis denominam o homem branco] que imp\u00f5e e fala para a gente como \u00e9 que a gente tem que se moldar \u00e9 um processo de adoecimento, de fragilidade, de voc\u00ea n\u00e3o entender o que \u00e9 que est\u00e1 acontecendo consigo mesmo. Eu acho que o que acontece principalmente para n\u00f3s brasileiros <em>juru\u00e1<\/em> \u2014 assim chamamos os brasileiros \u2014 somos fronteiras. Tamb\u00e9m falo isso: essa ideia da fronteira&#8230; porque, para n\u00f3s, ind\u00edgenas, n\u00e3o existem fronteiras, \u201cisso aqui \u00e9 Paraguai, isso aqui \u00e9 Brasil\u201d. N\u00e3o existe isso, n\u00e3o existia isso. Para n\u00f3s, a fronteira \u00e9 s\u00f3 um <em>teko<\/em>. O que \u00e9 um <em>teko<\/em>? Um <em>teko<\/em> \u00e9, como eu falei, como se fosse algo que o tempo todo vai ser moldado de acordo com a sua viv\u00eancia, com sua caminhada, com o seu entendimento, e depende tamb\u00e9m do que est\u00e1 em torno.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque, muitas vezes, voc\u00ea tem outra forma de pensar e a escola vem, desde muito tempo, te moldar em determinada forma e, \u00e0s vezes, voc\u00ea n\u00e3o consegue reagir a isso e voc\u00ea tem que se submeter a essa viol\u00eancia que vivemos at\u00e9 hoje. Essa \u00e9 a minha indigna\u00e7\u00e3o que eu sempre trago para observar onde eu caibo e onde eu n\u00e3o consigo caber.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando a gente se coloca: onde voc\u00ea cabe? E por que cabe? Entendemos rapidinho porque \u00e9 que a gente cabe e porque n\u00e3o cabe. Ent\u00e3o eu acho que isso \u00e9 uma coisa muito importante para n\u00f3s, inclusive para o nosso fortalecimento. Porque quando voc\u00ea individualmente n\u00e3o cabe, isso n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 voc\u00ea que n\u00e3o cabe. Coletivamente n\u00e3o cabe!<\/p>\n\n\n\n<p>Mas voltando\u2026 Eu fui para a educa\u00e7\u00e3o, depois eu sa\u00ed e vim para a cidade, para estudar, fazer mestrado. E nessa minha caminhada eu tive oportunidade de conhecer outras pessoas: <em>juru\u00e1s<\/em> e ind\u00edgenas. A gente foi fazendo parcerias, o que compreendi tamb\u00e9m quando participei pela primeira vez como curadora de uma exposi\u00e7\u00e3o. Eu lembro que quando entrei para fazer essa curadoria, recebi v\u00e1rios textos para ler, para entender um pouco sobre o que \u00e9 meu papel de curadora. Eu n\u00e3o li, e falei que n\u00e3o ia ler, porque eu j\u00e1 venho com muitas demandas carregando nas costas, enquanto mulher ind\u00edgena, mulher, e tamb\u00e9m enquanto professora. E eu foquei nisso, porque o que vai me ajudar a entender se eu vou caber aqui, ou n\u00e3o, \u00e9 exatamente isso, esses aparatos todos que eu carrego comigo. Ent\u00e3o eu entrei, e a\u00ed comecei a entender um pouco. E eu acho que a institui\u00e7\u00e3o tem muito ainda, de concreto, que precisa se quebrar! Primeiro que falam que \u00e9 o sistema, mas o sistema s\u00e3o pessoas\u2026 Eu sei que a gente j\u00e1 resistiu, j\u00e1 viveu, j\u00e1 conviveu com isso, ent\u00e3o a gente precisa pensar nas futuras gera\u00e7\u00f5es. Porque, hoje, a gente n\u00e3o vai mais quebrar aquilo que j\u00e1 est\u00e1 a\u00ed, mas \u00e9 importante pensar como \u00e9 que a gente vai movimentar o que est\u00e1 a\u00ed.<\/p>\n\n\n\n<p>E quando a gente \u00e9 fragilizado, voc\u00ea se agarra em qualquer coisa, sabendo que voc\u00ea n\u00e3o cabe l\u00e1, mas voc\u00ea tem que se agarrar naquilo! E, por um lado, isso \u00e9 importante, mas, por outro, voc\u00ea tem que saber sair de novo depois que voc\u00ea entrar. Essa \u00e9 a grande quest\u00e3o. Porque quando eu entrei no mestrado, eu achava que Antropologia era mais pr\u00f3ximo daquilo que eu trazia, mas na verdade \u00e9 distante como se fosse uma coisa l\u00e1 e voc\u00ea aqui. A\u00ed eu me senti perdida. E tive que brigar para algu\u00e9m me escutar. E, \u00e0s vezes, quando voc\u00ea come\u00e7a a ser muito briguenta, nem todo mundo d\u00e1 ouvidos para voc\u00ea. Por isso a gente precisa se agarrar com mais gente! Sozinha eu n\u00e3o vou dar conta disso. E \u00e0s vezes, quando a gente se agarra, a gente divide as dores em v\u00e1rios peda\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<p>Por exemplo, eu vou contar uma hist\u00f3ria. No nosso costume guarani, a anta \u00e9 um animal que tem um esp\u00edrito muito forte. A gente \u00e9 parte dela, porque ela tem hist\u00f3ria! E a\u00ed, quando os homens v\u00e3o ca\u00e7ar a anta, eles trazem pra comunidade dividir a carne. E quanto mais voc\u00ea divide a carne, mais voc\u00ea responsabiliza o outro pela ca\u00e7a. E o peda\u00e7o da carne, da anta, \u00e9 voc\u00ea! Dividir a carne da anta \u00e9 responsabilizar todo mundo pelas quest\u00f5es, pela ca\u00e7a tamb\u00e9m. Como saber ca\u00e7ar? Quando matar \u00e9 para necessidade mesmo, n\u00e3o \u00e9 para outras quest\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o eu tento imaginar isso hoje, quando eu discuto com outras pessoas. Eu sei que muitas pessoas n\u00e3o v\u00e3o entender muito bem o que eu estou falando, mas eu acho que \u00e9 importante levar isso: essa reflex\u00e3o de responsabilidade a partir da escuta e a partir do outro. Porque \u00e9 uma responsabilidade que eu acho que \u00e9 importante a gente pensar. Por exemplo, n\u00e3o lembro em que m\u00eas, eu estava rec\u00e9m-chegada aqui no Rio e fui convidada para falar num semin\u00e1rio na UFF. Eu morava no Est\u00e1cio e vim andando para pegar a barca, para atravessar para a UFF. E a\u00ed, quando eu cheguei no Largo da Carioca, eu vi que n\u00e3o tinha ningu\u00e9m e achei muito estranho isso. Porque todo dia, ali, \u00e9 uma fervura de gente\u2026 achei estranho quando eu cheguei l\u00e1 e tipo n\u00e3o tinha ningu\u00e9m. Assim, meio vazio\u2026 a\u00ed eu olhei de um lado, tinha um bar cheio de pessoas, todas formais, de palet\u00f3, que estavam bebendo cerveja. Fui andando, e comecei a sentir alguma coisa no meu olho\u2026 aquela fuma\u00e7a cinzenta, um barulho l\u00e1 na frente. E, quando eu fui perceber, estava tendo manifesta\u00e7\u00e3o ali na frente da Alerj. De um lado, tinha muita gente bebendo cerveja, que n\u00e3o estava nem a\u00ed\u2026 e, do outro lado, o que me chocou muito: jovens negros e professoras cadeirantes sendo arrastados, bombas, o pessoal no carro de som totalmente massacrados\u2026 Era uma cena de guerra! Eu comecei a chorar, eu cheguei na UFF totalmente triste. Porque \u00e9 isso que eu falo\u2026 quando a gente \u00e9 fragilizado, a gente n\u00e3o consegue enxergar isso\u2026 todo mundo deveria estar ali! Soube depois que a manifesta\u00e7\u00e3o era por causa da melhoria de sal\u00e1rios dos professores, dos muitos professores aposentados que n\u00e3o estavam recebendo mais&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, parece que a responsabilidade da sociedade na qual a gente est\u00e1 parece separada, dividida, todas as coisas divididas! E isso \u00e9 muito ruim, isso \u00e9 uma doen\u00e7a! A gente prepara as crian\u00e7as, desde pequenas, para entender que dividir um pedacinho da carne da anta \u00e9 sagrado, mas voc\u00ea tamb\u00e9m joga a responsabilidade para o outro. E, na \u00e9poca, eu fiquei muito impactada, eu fiquei deprimida total. Porque na comunidade, eu n\u00e3o estou dizendo que a gente n\u00e3o briga, mas, \u00e0s vezes, por causa da falha de um, todo mundo vai na reuni\u00e3o\u2026 A gente participa, todo mundo opina: por que \u00e9 que falhou? Por que \u00e9 que a gente falhou? Se algu\u00e9m falhou, nunca jogamos a falha em cima de um, porque a falha \u00e9 do coletivo. Ent\u00e3o vamos juntos! A gente pode cair e se machucar no meio de um, de outro, mas a gente vai\u2026 E com certeza a gente consegue sem deixar ningu\u00e9m para tr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>O caminho, para a gente, eu acho que para todos n\u00f3s, ind\u00edgenas, \u00e9 uma experimenta\u00e7\u00e3o que voc\u00ea vai testando. Para n\u00f3s guaranis existe caminho que j\u00e1 vem e a gente vem andando, caminhando\u2026 Mas tem um momento que temos que chegar no lugar de encruzilhada, que existe uma escolha, depois de voc\u00ea percorrer v\u00e1rias coisas. N\u00e3o obrigamos ningu\u00e9m a escolher a coisa, mas isso, esse processo experimentativo, de experimentar e saber sentir com o ouvido, a gente fala <em>hendu<\/em>. <em>Hendu<\/em> significa escutar com o ouvido, escutar com o corpo. <em>Hendu<\/em> \u00e9 pr\u00e1tica, \u00e9 vivenciada na maioria das vezes. Ent\u00e3o a gente n\u00e3o fica dizendo, a gente n\u00e3o obriga ningu\u00e9m, principalmente n\u00f3s, guaranis\u2026 mas a gente d\u00e1 uma experimentada e, mesmo que as pessoas escolham um caminho errado, isso coletivamente tamb\u00e9m \u00e9 isolado, o pr\u00f3prio coletivo vai isolar.<\/p>\n\n\n\n<p>Recentemente eu conversei muito com Cacique Babau, Tupinamb\u00e1, que falou de uma viol\u00eancia contra uma mulher na comunidade dele, e a comunidade teve que banir este indiv\u00edduo e tirar ele totalmente de l\u00e1. Para tirar uma pessoa que praticou essa viol\u00eancia, foi preciso todo mundo entrar em consenso, inclusive a fam\u00edlia. E isso n\u00e3o \u00e9 uma tarefa f\u00e1cil. As m\u00e3es choram, ficam tristes, falam que n\u00e3o v\u00e3o ficar bem, n\u00e3o v\u00e3o ficar com sa\u00fade por causa disso. Por isso, a gente d\u00e1 a op\u00e7\u00e3o de experimentar coisas anteriormente.<\/p>\n\n\n\n<p>Na nossa l\u00edngua guarani existe a express\u00e3o <em>kuimba\u2019e ete<\/em> que significa um homem de verdade. <em>Kuimba\u2019e ete<\/em> n\u00e3o est\u00e1 falando pela quest\u00e3o biol\u00f3gica, est\u00e1 falando pelo ser, pela capacidade de demonstrar a sua fun\u00e7\u00e3o enquanto homem. Como, por exemplo, de escutar, saber escutar, ser tolerante, saber cuidar da irm\u00e3, saber a sua pr\u00f3pria postura e a pr\u00f3pria fun\u00e7\u00e3o na comunidade. E em que momento que \u00e9 importante tamb\u00e9m de protagonizar a sua masculinidade. Quando a irm\u00e3 n\u00e3o est\u00e1 bem, ele vai saber buscar o rem\u00e9dio, ele vai saber buscar o rem\u00e9dio certo. Ent\u00e3o isso \u00e9 um processo, todo um processo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, a gente consegue, com toda dificuldade que temos na comunidade, ainda praticar isso. Mas quem impede a gente de praticar isso, em vez de dialogar conosco, \u00e9 a pr\u00f3pria escola. Como fez, como se n\u00e3o fosse conte\u00fado aquilo que \u00e9 importante para n\u00f3s. Isso \u00e9 uma das coisas que eu queria trazer um pouco hoje&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas eu queria muito escutar. Porque eu acho que o di\u00e1logo tamb\u00e9m, ele \u00e9 muito importante de ser escutado, chamo isso de soma. Temos v\u00e1rias pessoas que t\u00eam suas caminhadas diferentes da minha, mas \u00e9 importante que a gente se una pelas coisas, quest\u00f5es comuns. Ent\u00e3o como que n\u00f3s podemos, na pr\u00e1tica, desconstruir aquilo que a gente quer desconstruir?<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"1000\" height=\"667\" src=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/09\/SB_fig3.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4431\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/09\/SB_fig3.jpg 1000w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/09\/SB_fig3-300x200.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/09\/SB_fig3-768x512.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><figcaption>Conversa com Sandra Benites com media\u00e7\u00e3o de Luiz Guilherme Vergara. Fotografia: Vitor Szpiz<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o ao <em>tembiapo<\/em>, como o professor j\u00e1 mencionou, quando eu fui entrar no mundo da arte, da forma do <em>juru\u00e1<\/em>, eu fiquei meio confusa. Eu n\u00e3o queria entender e n\u00e3o queria entrar nesse jogo da forma que \u00e9! \u00c0s vezes, me parece que \u00e9 a pr\u00f3pria romantiza\u00e7\u00e3o: a arte no mundo da arte \u00e9 como se fosse uma coisa muito incr\u00edvel, uma coisa que n\u00e3o tem dor, n\u00e3o tem passo, n\u00e3o tem esfor\u00e7o, n\u00e3o tem depress\u00e3o. Mas para a gente, para n\u00f3s, ind\u00edgenas, \u00e9 para a gente n\u00e3o ter depress\u00e3o que a gente faz isso. Quer dizer, a arte n\u00e3o \u00e9 para deprimir voc\u00ea, \u00e9, ao contr\u00e1rio, \u00e9 para n\u00e3o ter depress\u00e3o! Porque a\u00ed vem o seu desejo, a sua for\u00e7a, a sua resist\u00eancia\u2026 n\u00e3o \u00e9 para deprimir voc\u00ea, \u00e9, ao contr\u00e1rio, para fortalecer voc\u00ea como indiv\u00edduo ou coletivo. E parece que o mundo da arte, os artistas, muitas vezes, est\u00e3o muito deprimidos e muito iludidos tamb\u00e9m. No meu caso, quando eu fui olhar, eu falei \u201co que \u00e9 que eu vou fazer?\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa vis\u00e3o da arte ocidental, que parece que \u00e9 muito maravilhosa, mas quando \u00e9 um corpo de uma mulher, um corpo racializado, voc\u00ea tem que fazer mais esfor\u00e7o ainda. Ou, \u00e0s vezes, voc\u00ea \u00e9 totalmente deprimida, por mais que voc\u00ea fa\u00e7a esfor\u00e7o, voc\u00ea nunca chega naquilo que voc\u00ea gostaria de chegar. Por isso, parto do meu entendimento enquanto guarani e como posso fazer circular as coisas, movimentar, e n\u00e3o ficar parado, como se fosse algo que \u00e9 acabado\u2026 porque quando voc\u00ea busca a perfei\u00e7\u00e3o, voc\u00ea n\u00e3o consegue chegar nesse lugar, e eu n\u00e3o posso adoecer agora, eu n\u00e3o consigo!<\/p>\n\n\n\n<p>A partir da\u00ed, eu comecei a perguntar para os parentes: \u201cO que \u00e9 Arte? O que <em>j<\/em><em>uru\u00e1<\/em> chama de Arte?\u201d. E eles falaram assim: \u201cNo nosso entendimento \u00e9 outra coisa\u2026 seria o <em>tembiapo.<\/em>\u201d <em>Juru\u00e1 <\/em>acha que <em>tembi<\/em> \u00e9 algo que voc\u00ea tem, mas <em>tembi<\/em>, para n\u00f3s, \u00e9 a sua rela\u00e7\u00e3o! A ca\u00e7a tamb\u00e9m \u00e9 <em>tembi<\/em>: aquilo que voc\u00ea busca, mas n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil voc\u00ea buscar a ca\u00e7a, voc\u00ea tem uma responsabilidade sobre sua ca\u00e7a, tem sentimentos sobre sua ca\u00e7a. <em>Tembi<\/em>\u2026 \u00e9 uma quest\u00e3o que movimenta. J\u00e1 <em>apo<\/em>, para n\u00f3s, guaranis, \u00e9 m\u00e3o. E <em>djapo<\/em> \u00e9 como se fosse: a m\u00e3o que est\u00e1 em movimento, \u00e9 fazer coisa com a m\u00e3o. Ent\u00e3o, eu tentei juntar isso para poder traduzir o que eu acho que \u00e9 a Arte; \u00e9 rela\u00e7\u00e3o do seu pr\u00f3prio corpo e as habilidades do indiv\u00edduo, o que voc\u00ea consegue fazer. Por exemplo, eu n\u00e3o sei fazer cestaria, mas tem outras mulheres que sabem fazer. Tem muitos jovens guaranis que sabem fazer bichinho, mas outros n\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Lembro agora do Xadalu Jup\u00e3 Jekup\u00e9 que \u00e9 um artista que se chama mesti\u00e7o, do Rio Grande do Sul. Ele fez uma obra que eu achei muito incr\u00edvel: ele colocou colete \u00e0 prova de balas nas pessoas, nos parentes. Porque no Rio Grande do Sul tinham uns parentes que estavam ocupando um territ\u00f3rio, e a\u00ed os policiais foram tirar eles de l\u00e1 \u00e0 for\u00e7a, com a arma e tudo, e falou que se eles n\u00e3o sa\u00edssem de l\u00e1, eles iam morrer. Xadalu n\u00e3o se movimentou, n\u00e3o se assustou e falou que poderia atirar nele, ali mesmo, na frente de todo mundo: \u201cVoc\u00ea pode matar meu corpo, mas meu esp\u00edrito voc\u00ea nunca vai matar\u201d. A partir disso, ele fez uma obra de figuras com os parentes com colete \u00e0 prova de balas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, a arte em si, no meu entendimento, \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o. O artista \u00e9 o indiv\u00edduo que tem capacidade de manusear coisas, criar coisas. Ent\u00e3o, automaticamente, arte e artista j\u00e1 t\u00eam uma rela\u00e7\u00e3o, um <em>tembiapo<\/em>. Quando voc\u00ea traz uma obra, o objeto que voc\u00ea transforma em arte n\u00e3o pode ficar parado no lugar, tipo, esquecido\u2026 ela tem que ser, o tempo todo, movimentada! Aqueles que produziram e por que produziram. E isso tem que ser para fazer sentido. Se a gente faz uma arte, uma obra, e deixa ela parada, como sempre acontece, os parentes chamam de mem\u00f3ria morta. Eu pensei muito em tentar traduzir o <em>tembiapo<\/em>. Porque existe essa ideia de que traduzir \u00e9 uma trai\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m. Como diz o Eduardo Viveiros de Castro: \u201cVoc\u00ea tem que refletir muito bem a quem trair\u201d. Por isso que eu falo: pra gente pensar sobre o futuro para futuras gera\u00e7\u00f5es, \u00e9 importante que a gente consiga caminhar junto. Caminhar junto n\u00e3o \u00e9 todo mundo pensar igual, mas sim saber as limita\u00e7\u00f5es e cada passo do outro. Saber a sua pr\u00f3pria fronteira. Saber quem \u00e9 quem. Uma outra quest\u00e3o tamb\u00e9m que \u00e9 muito dif\u00edcil para mim \u00e9 a tese que eu estou fazendo. Como \u00e9 que a gente materializa aquilo, n\u00e3o s\u00f3 em forma de texto? A minha av\u00f3 falava que o texto escrito \u00e9 uma mem\u00f3ria morta. Por isso, a gente precisa acrescentar, rechear o tempo todo.<\/p>\n\n\n\n<p>Enfim, eu acho que \u00e9 isso, n\u00e3o sei se algu\u00e9m quer falar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>I\u00ea Carvalho Rizzo<\/em><\/strong>: Uma coisa bem breve. Voc\u00ea falou dos livros, da escrita ser uma mem\u00f3ria morta&#8230; estava numa mesa de bar esses dias depois de uma palestra [na plataforma] Selvagem. Uma pessoa contou que lembrou um ind\u00edgena (n\u00e3o lembro a etnia) falando que eles veem os livros como uma ambi\u00e7\u00e3o de absorver a sabedoria de forma muito r\u00e1pida, uma coisa ansiosa de ter sabedoria, e que eles acreditam que mesmo se voc\u00ea n\u00e3o tivesse acesso \u00e0queles livros, esta sabedoria chegaria at\u00e9 voc\u00ea, que iria chegar de alguma forma, e a palavra \u201cn\u00e3o sei\u201d ou o termo \u201cn\u00e3o entendi\u201d n\u00e3o existia na cultura deles, porque acreditam que a sabedoria sempre iria chegar de alguma forma.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Guilherme<\/em><\/strong>: Interessante que voc\u00ea traz esta rela\u00e7\u00e3o do tempo, esse tempo do aprender \u00e9 um tempo espesso, uma sabedoria outra\u2026<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Sandra<\/em><\/strong>: Sim. Acho que posso falar um pouquinho da minha experi\u00eancia no Museu das Culturas Ind\u00edgenas. Vai fazer dois, tr\u00eas meses que eu estou l\u00e1, morava aqui no Rio, recebi convite e fui&#8230; e estamos come\u00e7ando a trazer algumas atividades&#8230; Uma dessas atividades, n\u00f3s fizemos m\u00eas passado, com a Michele Guarani Kaiow\u00e1, uma jovem cineasta que trouxe o trabalho que ela fez durante a pandemia com mulheres. Essas mulheres est\u00e3o ensinando os filhos a n\u00e3o esquecer das plantas medicinais. No v\u00eddeo falam que essa pandemia \u00e9 a doen\u00e7a do tempo e contam que, se n\u00e3o lutamos pela vida da terra, n\u00e3o vamos existir mais. Porque as plantas s\u00e3o o que nos cura, por isso que os mais jovens precisam pisar no brejo para olhar as plantas. Ent\u00e3o elas come\u00e7aram a levar os filhos para pisar no brejo e mostrar como retirar as plantas. Inclusive, para a quest\u00e3o da menstrua\u00e7\u00e3o, porque existe uma planta que \u00e9 anticoncepcional para a gente, mas n\u00e3o \u00e9 qualquer lugar que existe essa planta, existe no brejo.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, quando a gente pensa nessa ideia do corpo-territ\u00f3rio, o nosso pr\u00f3prio corpo \u00e9 o pr\u00f3prio ch\u00e3o que a gente pisa. E eu falei um pouco sobre isso na minha disserta\u00e7\u00e3o. Porque para n\u00f3s, ind\u00edgenas, principalmente para n\u00f3s, guaranis, as m\u00e3es sempre ensinam as meninas a pisar leve no ch\u00e3o. Quer dizer, a coisa \u00e9 mais sens\u00edvel, e essa sensibilidade eu acho que tamb\u00e9m \u00e9 um choro\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Voltando um pouco \u00e0 mem\u00f3ria, lembro que fiz um trabalho com outras pesquisadoras para o SESC, acho que em 2018, fizemos uma oficina l\u00e1 em Jo\u00e3o Pessoa, sobre a mem\u00f3ria. E um parente falou que, quando n\u00f3s escutamos pessoas mais velhas falando sobre a import\u00e2ncia da pr\u00e1tica de determinado ritual, a gente est\u00e1 acordando a mem\u00f3ria. E quando voc\u00ea acorda a mem\u00f3ria, voc\u00ea come\u00e7a a enxergar o que \u00e9 importante e o que n\u00e3o \u00e9 importante. E, a partir da\u00ed, a gente vai construindo outros caminhos\u2026 <em>Juru\u00e1<\/em> diria entrar em acordo com a sua mem\u00f3ria. Se voc\u00ea n\u00e3o entra em acordo com a sua mem\u00f3ria, voc\u00ea come\u00e7a a ser fr\u00e1gil, voc\u00ea fica deprimido, triste. Ent\u00e3o n\u00f3s fizemos essa oficina, com v\u00e1rios professores e artistas que participaram com a gente, criamos coisas. E, no final, houve muito choro\u2026 muitas pessoas choraram lembrando das coisas tristes. E a maioria se culpou por ter chorado. Eu achei muito estranho isso. Por que como \u00e9 que as pr\u00f3prias institui\u00e7\u00f5es, a universidade, o museu, voc\u00ea enquanto humano reprime os seus sentimentos, como se voc\u00ea n\u00e3o pudesse chorar? Voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 humano? Eu passei muito por isso quando me tornei professora\u2026 Eu n\u00e3o podia mais falar da minha menstrua\u00e7\u00e3o porque eu estou trabalhando como professora. Mas eu n\u00e3o deixei de ser guarani! O sistema te violenta de um jeito para voc\u00ea praticar aquilo que n\u00e3o \u00e9 teu for\u00e7adamente. Ent\u00e3o eu deixei de ser mulher guarani, para obrigatoriamente entrar nesse sistema.<\/p>\n\n\n\n<p>Recentemente, Clarissa Diniz, uma pessoa com quem sempre trabalhei, foi minha parceira, falou pra mim que ela nunca tinha pensado que ela j\u00e1 reprimiu tanto sentimento, como se a gente tivesse que enfrentar de um jeito que voc\u00ea n\u00e3o pode ser sens\u00edvel, n\u00e3o pode chorar. Ent\u00e3o eu acho que isso \u00e9 uma outra viol\u00eancia que \u00e9 contra nossa humanidade mesmo, e n\u00e3o h\u00e1 di\u00e1logo sobre isso. E eu falei para as pessoas na oficina: \u201cN\u00e3o tem problema\u201d. \u00c9 a partir do nosso choro que a gente vai sentir de fato, escutar de fato com o corpo. E parece que foi um al\u00edvio para todo mundo. Eu acho que essa ideia de reprimir sentimentos \u00e9 o sistema que imp\u00f5e. E a\u00ed, muitas vezes, sua sensibilidade se torna f\u00faria. E isso \u00e9 uma outra doen\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o tudo que eu falo, eu trago a partir da minha pr\u00f3pria experi\u00eancia de entendimento. \u00c0s vezes eu falei uma coisa, a\u00ed eu repenso\u2026 Todos n\u00f3s temos direito de rever as falas que foram equivocadas no passado. Isso n\u00e3o tem problema nenhum para a gente. Mas \u00e9 importante ter criatividade de repensar sempre! \u00c9 importante a gente querer voltar para tr\u00e1s e fazer outros caminhos. Outro epis\u00f3dio tamb\u00e9m que eu gostaria de trazer \u00e9 a forma da gente trabalhar o que \u00e9 que \u00e9 organizado, o que n\u00e3o \u00e9 organizado. Isso depende do ponto de vista. Por isso que o <em>teko<\/em> \u00e9 um modo de estar no mundo, de viver, de enxergar as coisas, o modo de sua caminhada\u2026 O <em>teko<\/em> \u00e9 um indiv\u00edduo, mas tamb\u00e9m \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o com o entorno. A viol\u00eancia que uma pessoa viveu n\u00e3o \u00e9 da pessoa, \u00e9 da rela\u00e7\u00e3o com o entorno.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltando \u00e0 essa rela\u00e7\u00e3o na ideia de arte&#8230; no meu entendimento, a arte \u00e9 um saber que cada comunidade, cada povo, cada indiv\u00edduo vai juntando. Porque n\u00f3s somos rela\u00e7\u00f5es e tamb\u00e9m indiv\u00edduos. Mas o indiv\u00edduo n\u00e3o \u00e9 um indiv\u00edduo totalmente sozinho no mundo, existem v\u00e1rias outras rela\u00e7\u00f5es que a gente vai juntando para criarmos e sentirmos menos dor, para a gente fazer a alegria.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, <em>tekoa<\/em> significa onde se produz esta <em>teko<\/em> coletivamente, por isso \u00e9 muito importante a escuta, o di\u00e1logo, se reunir para se escutar, para cada um expressar seu modo de pensar. Tem este inc\u00f4modo de n\u00e3o poder conciliar todos os <em>tekos<\/em>, por isso \u00e9 muito importante a escuta, de modo que a gente vai caminhar junto respeitando as diferen\u00e7as. O bem-estar de todos \u2014 escutar, dialogar, entender \u2014 este <em>teko por\u00e3 r\u00e3 <\/em>\u00e9 o modo de estar bem no futuro.<\/p>\n\n\n\n<p>A comida \u00e9 um exemplo disso: uma das coisas que eu acho muito incr\u00edvel, que nos atravessa enquanto diversidade, \u00e9 a comida. Tem gente que gosta de polenta, eu gosto disso, daquilo, eu gosto de feijoada\u2026 Mas a gente n\u00e3o sabe como \u00e9 que surgiu essa feijoada, de quais m\u00e3os e porque surgiu essa feijoada\u2026 o torresmo, por exemplo, eu adoro e, hoje em dia, como torresmo como se fosse um privil\u00e9gio, mas \u00e0s vezes n\u00e3o foi privil\u00e9gio, algu\u00e9m trouxe isso como uma criatividade.<\/p>\n\n\n\n<p>E isso \u00e9 uma coisa que a gente vai deixando morrer. Na verdade, morrer n\u00e3o morre, mas vai sendo adormecido: a gente n\u00e3o conversa, n\u00e3o dialoga, n\u00e3o admira, n\u00e3o sabe quem criou esse torresmo. Como foi criado isso? E isso \u00e9 uma forma da gente interagir com outro: interagir atrav\u00e9s da arte! Da gente admirar o outro atrav\u00e9s dessa intera\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m de ser admirado. \u00c9 como se fosse uma dan\u00e7a de esquiva mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir da arte, no meu entendimento, voc\u00ea pode atravessar o outro com a sua beleza. E n\u00e3o s\u00f3 beleza, mas tamb\u00e9m com a sua provoca\u00e7\u00e3o. Provoca\u00e7\u00e3o porque n\u00e3o \u00e9 brigando que a gente vai se encontrar. Ent\u00e3o quando tem uma dan\u00e7a, um ritual, \u00e9 muito bonito, mas tamb\u00e9m tem uma quest\u00e3o pol\u00edtica. Uma pol\u00edtica que \u00e9 muito importante a gente entender, porque tem regra ali pra voc\u00ea entrar. N\u00e3o \u00e9 de qualquer maneira que voc\u00ea vai entrar. E a\u00ed voc\u00ea admira!<\/p>\n\n\n\n<p>E eu acho que o <em>hendu<\/em>, no meu entendimento, \u00e9 a pr\u00f3pria arte. A arte que faz a gente ser escutado! As dores tamb\u00e9m. Porque, como eu falei, eu n\u00e3o conhecia ningu\u00e9m l\u00e1 na Alerj, mas vi pessoas levando bombas de spray de pimenta na cara. E isso me afetou muito: eu fiquei pensando nas mulheres, porque para n\u00f3s, guaranis, as mulheres mais velhas, que j\u00e1 trabalharam muito, s\u00e3o muito importantes! Porque elas t\u00eam uma experi\u00eancia de uma mem\u00f3ria viva que pode nos ensinar qual caminho a gente precisa construir. E, na \u00e9poca, eu vi uma senhora sendo arrastada por esses jovens que estavam ali na luta tamb\u00e9m\u2026 Ela estava sendo arrastada para n\u00e3o morrer ali por causa da bomba. E isso \u00e9 de uma repress\u00e3o terr\u00edvel que me afetou muito, independentemente de quem eram essas mulheres, de quem eram esses jovens. Ent\u00e3o a partir da minha sensibilidade, da minha criatividade, eu consegui entender isso. N\u00e3o sei se eu falei algumas coisas de acordo com o que foi perguntado, mas enfim. Algu\u00e9m quer falar?<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Guilherme<\/em><\/strong>: Sandra, est\u00e1 sendo \u00f3timo te ouvir. Vamos continuar caminhando e pensando redondo. Alguma pergunta ou coment\u00e1rio?<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"1000\" height=\"1000\" src=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/09\/SB_fig4.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4433\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/09\/SB_fig4.jpg 1000w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/09\/SB_fig4-300x300.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/09\/SB_fig4-150x150.jpg 150w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/09\/SB_fig4-768x768.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><figcaption>Roda de conversa com Sandra Benites media\u00e7\u00e3o Luiz Guilherme Vergara, Companhia de Myst\u00e9rios e Novidades, 26 de outubro de 2022. Fotografia: Jessica Gogan<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong><em>Noite Luz<\/em><\/strong>: Deixem-me organizar meus pensamentos um pouquinho. Toda esta quest\u00e3o de como arte\u2026 Eu sempre desenhei desde muito crian\u00e7a, e, nesse semestre, eu tive uma realiza\u00e7\u00e3o que a minha fuga, minha procura pela arte \u2014 desenhar, dan\u00e7ar, performar, criar em si \u2014 era uma forma justamente de lidar com depress\u00f5es, com traumas, as coisas que eu reprimia mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o eu consegui ver o quanto a arte me salvou, n\u00e3o completamente porque eu ainda tenho sequelas e transtornos que vieram dos traumas, mas, sem essa arte, sem tratamentos, sem cuidados m\u00e9dicos de psic\u00f3logos, psiquiatras, eu n\u00e3o teria conseguido sobreviver do jeito que consegui. Isso que voc\u00ea est\u00e1 falando t\u00e1 mexendo muito comigo. Porque a arte \u00e9 muito importante e arte pode salvar muito quando a gente n\u00e3o consegue se achar. Quando tive esta realiza\u00e7\u00e3o, parei para rever todos os meus cadernos e revi tudo com outros olhos, onde vi que cada personagem que eu desenhava, cada poema estava questionando quem eu era e o que estava acontecendo. Era eu tentando parar de reprimir tudo que eu sentia a vida inteira.<\/p>\n\n\n\n<p>E eu acho cada vez mais importante que a gente instigue mais a arte, principalmente com as crian\u00e7as, para que elas possam se expressar e procurar ouvir o que elas est\u00e3o sentindo, porque muitas vezes elas n\u00e3o s\u00e3o instigadas a isso. A gente ouve na vida inteira coisas como \u201cengole choro, voc\u00ea est\u00e1 exagerando\u201d, \u201cisso da\u00ed n\u00e3o \u00e9 nada, voc\u00ea est\u00e1 inventando coisas na sua cabe\u00e7a\u201d, e n\u00e3o \u00e9 bem assim. Isso tudo que a senhora est\u00e1 falando \u00e9 extremamente importante.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Thelma Vilas Boas<\/em><\/strong>: Boa tarde, prazer em v\u00ea-la pessoalmente. Essa conversa \u201credonda\u201d me fez lembrar de um <em>adinkra<\/em>, o <em>Sankofa<\/em>, que \u00e9 quando um p\u00e1ssaro olha para o rabo e vira o bico para tr\u00e1s, o que quer dizer que n\u00e3o existe tabu em olhar para tr\u00e1s e recolher aquilo que se perdeu. Ouvir voc\u00ea, o meu esfor\u00e7o de vir aqui hoje para lhe encontrar e ouvir, na roda da vida, tamb\u00e9m \u00e9 na esperan\u00e7a que sua sabedoria nos fa\u00e7a recolher aquilo que se perdeu, e que, sem tabu, sem aquela prepot\u00eancia daquilo que nos constitui enquanto sociedade hegem\u00f4nica n\u00e3o s\u00f3 de Brasil, mas de mundo, buscar o que perdemos. E \u00e9 curioso, porque olhar para tr\u00e1s, ao mesmo tempo, \u00e9 olhar para frente e buscar l\u00e1 atr\u00e1s a \u201ccasa\u201d que a gente perdeu, mas que encontraremos l\u00e1 na frente. E a\u00ed, a conversa fica redonda de novo, porque o tempo \u00e9 circular mesmo, n\u00e9\u2026 ent\u00e3o&#8230; \u00e9 sempre assim&#8230; curioso como a gente fica com vergonha de falar&#8230; Que haja idade para a gente viver caminhos pra percorrer! E, enquanto te ou\u00e7o, a cabe\u00e7a voa ao encontro de significados e significantes para tantas coisas que a gente est\u00e1 tentando encontrar.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas acho muito importante reconhecer a responsabilidade pelo momento que nos encontramos&#8230; ent\u00e3o de novo um rodopio, que nos faz perder para onde olhar&#8230; reconhecer que esta conversa, redonda e em volta, \u00e9 tamb\u00e9m porque a gente perdeu algum fio por a\u00ed.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Z\u00edngara<\/em><\/strong>: Eu acho que \u00e9 muito potente o que est\u00e1 acontecendo aqui, porque \u00e9 t\u00e3o maior, a gente n\u00e3o est\u00e1 falando da arte, \u00e9 t\u00e3o mais profundo. Hoje nossa sociedade precisa se encontrar, um lugar para se reconectar com as coisas que importam&#8230; que t\u00e1, como voc\u00ea falou, na comida, e t\u00e1 nisso que a gente est\u00e1 fazendo, se propor falar e tal. Ent\u00e3o mexe, sabe, porque a gente perdeu mesmo muitas coisas assim, e estou muito emocionada porque eu estou gr\u00e1vida e \u00e9 muito dif\u00edcil, sabe? Falando das coisas que a gente ouve quando crian\u00e7a, acho que temos que lembrar que nossas m\u00e3es e nossos pais est\u00e3o lidando com muitas coisas, muitas demandas mesmo. Quando voc\u00ea est\u00e1 falando de mulher, agora estou neste lugar de ser mulher gestante, s\u00e3o muitas demandas mesmo. S\u00e3o esfor\u00e7os muito grandes, \u00e0s vezes muito mais mentais, que cobram a gente do que de fato a gente est\u00e1 fazendo.<\/p>\n\n\n\n<p>O peso que sinto hoje no corpo de ele trabalhando para criar um ser humano ainda \u00e9 menor&#8230; enquanto minha cabe\u00e7a: \u201ccomo vou ser m\u00e3e?\u201d. E, sinceramente, por mais que amo o cara que vai ser pai, eu sei que ele n\u00e3o est\u00e1 passando por um processo t\u00e3o intenso quanto eu, sabe. E porque como voc\u00ea falou&#8230; que a gente perdeu esse lugar de a m\u00e3e ensinar para o filho homem uma sensibilidade de pisar leve no ch\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Trabalhar uma escuta \u00e9 muito complexo. Muitas coisas s\u00e3o separadas&#8230; como entender que se interconectam? \u00c9 muito trabalhoso. Acho que os lugares assim que podemos fazer o que estamos fazendo \u00e9 maior do que a gente pode conceber. Te escutar hoje, n\u00e3o sei dimensionar a pot\u00eancia, porque \u00e9 realmente muito necess\u00e1rio, \u00e9 o que voc\u00ea falou da gente encontrar um lugar comum tamb\u00e9m pelas dores, sabe? Da coisa maravilhosa que estou vivendo, mas que \u00e9 muito desafiador&#8230; \u00e9 muito doido voc\u00ea acordar um dia e saber que voc\u00ea est\u00e1 gerando um ser humano e todas as outras coisas que a gente tem que gerenciar&#8230; Porque, \u00e9 isso que voc\u00ea falou, a gente materializa o que a gente precisa falar. A minha arte passa a ser sobre tudo, sobre como estou gerenciando uma grana, como pensar nesse filho, como pensar nessa cria\u00e7\u00e3o\u2026 A arte na verdade \u00e9 s\u00f3 o fragmento que esta sociedade encontrou para se conectar com algo que \u00e9 t\u00e3o b\u00e1sico. O que estamos falando aqui \u2014 escuta, troca, ouvir os mais velhos, comida \u2014, tudo isso \u00e9 t\u00e3o b\u00e1sico, mas est\u00e1 t\u00e3o perdido sem fazer esses elos. Para mim hoje \u00e9 um presente\u2026 t\u00e3o b\u00e1sico, mas t\u00e3o complexo, cheio de coisas a se desdobrar. Muito obrigada.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Martha Niklaus<\/em><\/strong>: Super legal voc\u00ea falando isso! Esse desejo de coletividade, de estar junto, de poder participar conjuntamente de um acontecimento seu, como isso \u00e9 acolhedor, como isso traz pertencimento e te fortalece, \u00e9 muito legal. Mas, Sandra, eu queria trazer uma quest\u00e3o que eu fiquei curiosa, porque voc\u00ea est\u00e1 montando um museu, n\u00e3o \u00e9? Voc\u00ea est\u00e1 h\u00e1 dois meses num museu ind\u00edgena em S\u00e3o Paulo, n\u00e3o \u00e9 isso?<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Sandra<\/em><\/strong>: Ent\u00e3o, o Museu de Culturas Ind\u00edgenas \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Governo do Estado de S\u00e3o Paulo gerida pela ACAM Portinari (Associa\u00e7\u00e3o Cultural de Apoio ao Museu Casa de Portinari) em parceria com o Instituto Marac\u00e1, que tem como finalidade a prote\u00e7\u00e3o, difus\u00e3o e valoriza\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio cultural ind\u00edgena, que \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o que foi constru\u00edda pelos pr\u00f3prios ind\u00edgenas de S\u00e3o Paulo. A\u00ed eu fui chamada para fazer parte da curadoria, mas, essa curadoria, ela n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 minha, ela \u00e9 coletiva, e o tempo todo a gente discute, dialoga com os parentes, entre a institui\u00e7\u00e3o, construindo um museu, mas de que n\u00e3o seja museu parado como outros museus.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Martha<\/em><\/strong>: Porque o museu que a gente est\u00e1 acostumado \u00e9 um museu que quer guardar as coisas para aquilo se perpetuar, e se perpetuar em forma de cole\u00e7\u00f5es, objetos que voc\u00ea quer que fiquem guardados. E como \u00e9 que fica para voc\u00ea, para a sua cultura, essa rela\u00e7\u00e3o com a mem\u00f3ria que a gente faz dessa maneira e que eu acredito que voc\u00eas n\u00e3o t\u00eam museu, guarani. Como seria o museu do guarani? Onde \u00e9 que ele se localiza, entendeu? Ent\u00e3o voc\u00ea, hoje, como uma ind\u00edgena dentro de uma estrutura institucional com todas as suas caracter\u00edsticas de museu, de acervo, de cole\u00e7\u00e3o, quando voc\u00ea fala: \u201co objeto ele tem que ficar ativo\u201d, ent\u00e3o como \u00e9 que \u00e9 isso dentro de um acervo, como \u00e9 que voc\u00ea transporta a sua cultura para um espa\u00e7o institucionalizado, sabe? Isso me traz muita curiosidade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Isabela Santilli<\/em><\/strong>: Sandra, que bom te ouvir! Tamb\u00e9m compartilho dessa sensa\u00e7\u00e3o de pot\u00eancia&#8230; E, por vir da \u00e1rea da sa\u00fade e ser formada em psicologia, fico aqui te ouvindo sobre outros caminhos para o cuidado, importantes que eu escute, que n\u00f3s escutemos, para que a gente possa repensar e viver de outros modos os nossos cuidados em sa\u00fade mental. Porque, vindo dessa \u00e1rea de sa\u00fade, sinto muitas aproxima\u00e7\u00f5es com que voc\u00ea trouxe sobre a escola: de como o modo de constru\u00e7\u00e3o da escola ocidental n\u00e3o percebe, n\u00e3o concebe a educa\u00e7\u00e3o que se d\u00e1 na aldeia e o quanto os saberes da psicologia, da sa\u00fade e da medicina, por exemplo, ainda n\u00e3o incorporaram e\/ou negam os modos de produ\u00e7\u00e3o de cuidado ind\u00edgenas que incluam a coletividade, ou o territ\u00f3rio, por exemplo&#8230; Esse pisar leve no ch\u00e3o, o voltar para o brejo para olhar para as plantas, a necessidade de um deslocamento da culpa, os modos de resolu\u00e7\u00e3o de quest\u00f5es em coletivo, a arte como um recurso para n\u00e3o ter depress\u00e3o&#8230; Fui anotando aqui algumas pistas. Ent\u00e3o queria te agradecer porque voc\u00ea trouxe muitos elementos que nos ensinam a pensar outros caminhos de sa\u00fade. Como <em>tembi<\/em>, para podermos nos cuidar e sobreviver a esse mundo que est\u00e1 nos adoecendo de modo distintos o tempo todo. Obrigada.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Anita Sobar<\/em><\/strong>: Como conversa circular, eu achei que seria interessante estar no centro da roda [se posicionando no centro]. Acho que assim a gente vai comungar todas as energias, fazendo esta conjun\u00e7\u00e3o. Primeiramente quero agradecer imensamente a sua fala, ela s\u00f3 refor\u00e7a tamb\u00e9m a maneira que eu penso arte. \u00c9 muito importante hoje em dia, especialmente a gente sabendo da condi\u00e7\u00e3o que estamos vivendo na conjuntura pol\u00edtica de uma forma macro; aqui estamos falando das micropol\u00edticas e a gente n\u00e3o pode deixar de tratar tamb\u00e9m desses afetos que nos movem. E a\u00ed voc\u00ea trouxe muito. Eu tinha feito uma anota\u00e7\u00e3o de um texto recentemente do livro <em>O mundo em mim<\/em>, que \u00e9 o livro do pesquisador ind\u00edgena Jo\u00e3o Lima Barreto, onde ele narra, quando era pequeno: \u201cMeu pai falava sobre a import\u00e2ncia de uma unidade social, assim como eu, dentro da unidade que perten\u00e7o, ou seja, essa unidade social tamb\u00e9m pensar eu dentro dessa unidade em que perten\u00e7o\u201d. E \u00e9 um pouco o que voc\u00ea traz, n\u00e3o s\u00f3 essa teoria, mas com essa pr\u00e1tica que caminha junto, e isso \u00e9 uma coisa que n\u00e3o consegue estar sem a outra. Voc\u00ea falou sobre o sistema que reprime, da gente que vai juntando coisas a partir das rela\u00e7\u00f5es dentro da nossa concha, peneira e bainha dessa disciplina t\u00e3o interessante que eu tenho tido oportunidade de fazer com um grande esfor\u00e7o tamb\u00e9m para sair da depress\u00e3o. A gente tamb\u00e9m tem que assumir esse lugar, porque a arte n\u00e3o \u00e9 sempre vislumbrar coisas maravilhosas, ela \u00e9 tamb\u00e9m processo; um processo que implica em estar conectado, estar em rela\u00e7\u00e3o e se permitir tamb\u00e9m ser atravessado, e este ser atravessado, muitas vezes, n\u00e3o \u00e9 um lugar confort\u00e1vel, precisa assumir os riscos de ser artista, ser artista \u00e9 assumir riscos. \u00c9 tamb\u00e9m pensar nas tramas, essas coletividades do vivido&#8230; pensar nessas tramas, no fabular, no tratar junto, nesse construir para respirar. Ultimamente eu tenho feito uma s\u00e9rie que se chama <em>F\u00f4lego<\/em>, porque est\u00e1 dif\u00edcil respirar.<\/p>\n\n\n\n<p>Li recentemente um artigo que fala de refazer corpos e esculpir afetos, isso tamb\u00e9m trata de estilha\u00e7os. Voc\u00ea falou dos fragmentos, e eu queria tamb\u00e9m, como a minha colega \u2014 qual o seu nome, Zingara? O meu \u00e9 Anita, n\u00e3o sei se eu me apresentei \u2014, queria trazer tamb\u00e9m a maternidade para o centro dessa roda, sabe? Porque voc\u00ea fala da escola, voc\u00ea fala da crian\u00e7a, dessa import\u00e2ncia e de n\u00e3o deixar sucumbir, e a maternidade, muitas vezes n\u00f3s, mulheres, nos colocamos em um lugar muito dif\u00edcil, que al\u00e9m de sermos mulheres somos m\u00e3es. Ent\u00e3o a gente \u00e9 triplamente cobrada e tem que fazer um esfor\u00e7o sempre maior para parecer que est\u00e1 tudo bem, que eu sou um homem dentro dessa sociedade heteronormativa. Mas n\u00e3o \u00e9 verdade, precisamos compartilhar disso e compartilhar \u00e9 compartilhar tamb\u00e9m o amor, precisamos compartilhar o amor entre um e o outro, para que n\u00e3o haja mais portas abertas para o fascismo. \u00c9 isso que eu queria dizer em agradecimento a sua fala.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Sandra<\/em><\/strong>: Eu queria compartilhar com voc\u00eas as falas de voc\u00eas, come\u00e7ando dessa roda assim, que eu acho que a arte exatamente \u00e9 a nossa resist\u00eancia \u00e0 depress\u00e3o. Como falar&#8230; eu tinha reprimido as coisas e eu acho que quando a gente se olha e sente a nossa dor, acabamos sendo criativos. Ent\u00e3o n\u00e3o que a gente n\u00e3o sofra, a gente sofre, ent\u00e3o eu acho que \u00e9 por isso que a gente vai ser muito criativo. Eu vejo muita criatividade existindo, resistindo e, embora tenham outras camadas muito dif\u00edceis, a gente esteja vendo v\u00e1rios pais desempregados, v\u00e1rias pessoas passando dificuldade, muita fome, que entristece, mas precisamos resistir e continuar.<\/p>\n\n\n\n<p>E, voltando um pouco, eu acho que voc\u00ea falou isso que a quest\u00e3o da resist\u00eancia, voc\u00ea falou \u201ceu resisti\u201d, eu acho que esse \u00e9 o caminho, \u00e9 exatamente a arte que traz para a gente este \u201cresistir\u201d, para a gente fortalecer. N\u00e3o que vamos resolver todas as nossas emo\u00e7\u00f5es, mas sim come\u00e7ar a resistir e somar coisa. Ent\u00e3o, acho que eu mesma fa\u00e7o por isso, e essa ideia do que voc\u00ea falou tamb\u00e9m da mem\u00f3ria, da mem\u00f3ria, do olhar para o rabo, para tr\u00e1s, eu lembro que teve um professor patax\u00f3, eu lembro que ele usava essa met\u00e1fora do arco e flecha, dizendo: \u201cQuanto mais para tr\u00e1s a gente puxa, a gente vai mais longe\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o a mem\u00f3ria, acordar a mem\u00f3ria, voc\u00ea voltar a olhar para tr\u00e1s significa isso, \u00e9 para voc\u00ea ir mais longe, porque sen\u00e3o, se voc\u00ea apagar a sua mem\u00f3ria, voc\u00ea n\u00e3o consegue achar qual caminho voc\u00ea vai seguir. Ent\u00e3o, eu acho que a ideia de a gente se submeter \u00e0 coloniza\u00e7\u00e3o, todo esse aparato de impedir, de nos deixar de m\u00e3os atadas, \u00e9 exatamente por isso que a gente chega nesse momento, a gente tem que lutar contra outras pessoas que deveriam estar com a gente. Mas isso \u00e9 um processo mesmo, eu acho que por isso n\u00f3s somos humanos, ent\u00e3o muita gente me perguntou se eu estou com raiva, se eu disser que eu n\u00e3o estou com raiva, eu estou com raiva, mas eu tenho que resistir e criar outros caminhos para n\u00e3o adoecer, porque a raiva pode deixar a gente adoecido.<\/p>\n\n\n\n<p>T\u00eam v\u00e1rias narrativas que s\u00e3o muito interessantes no nosso costume guarani. Por exemplo, quando surgiu o mundo, <em>Nhanderu<\/em>, [nosso ser criador e primeiro pai] nasceu uma mulher, uma m\u00e3e, <em>Nhandesy<\/em>. Depois ela foi devorada pelas on\u00e7as e seus filhos ficaram \u00f3rf\u00e3os, duas crian\u00e7as ficaram \u00f3rf\u00e3s, e a\u00ed, no final da hist\u00f3ria, essas duas crian\u00e7as que ficaram \u00f3rf\u00e3s, na verdade, eles tentaram se vingar do inimigo que devorou a m\u00e3e, mas n\u00e3o conseguiram. Ent\u00e3o, no nosso costume guarani, para a gente devorar nossos inimigos, voc\u00ea tem que saber dan\u00e7ar, se esquivar, sen\u00e3o voc\u00ea n\u00e3o sabe enfrentar mesmo de cara, \u00e9 que voc\u00ea n\u00e3o vai saber o c\u00f3digo. A\u00ed voc\u00ea tem que usar muito isso, que causa dor tamb\u00e9m, conflito. A gente tem que saber segurar nossos conflitos, para ir mais longe e come\u00e7ar a isolar o que precisava banir no nosso meio, como o Cacique Babau falou. A gente tem que se aliar inclusive com os pais do que cometeu delito, para que eles tamb\u00e9m entrassem em consenso para banir de fato aquela pessoa, que \u00e9 uma forma de se resolver. \u00c9 o nosso jeito. \u00c9 f\u00e1cil? N\u00e3o \u00e9. \u00c9 muito doloroso, \u00e9 muito triste, mas a gente abra\u00e7a isso como coletivo e n\u00e3o s\u00f3 como um indiv\u00edduo, a\u00ed causa maior impacto. Ent\u00e3o eu acho que \u00e9 um pouco isso quando a gente fala da mem\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>A\u00ed vem aquela hist\u00f3ria da desorganiza\u00e7\u00e3o de um professor que falou que uma vez ele estava dando aula para a educa\u00e7\u00e3o infantil. Era professor do Rio Grande do Sul. Falou que porque no nosso costume do guarani quando chove a gente deixa as crian\u00e7as brincarem do jeito que elas querem brincar, e por isso a gente tem tamb\u00e9m uma outra escola. O pr\u00e9dio n\u00e3o consegue acolher da forma que a gente \u00e9, nem as crian\u00e7as n\u00e3o conseguem acolher. A\u00ed eles fizeram uma outra casinha do lado para quando chover as crian\u00e7as ficarem ali. E a\u00ed diz que elas come\u00e7aram a brincar, cada uma ficava deitada, uma fazia a outra deitar em cima da mesa, e come\u00e7ou a desenhar. E a\u00ed o professor estava provocando a criatividade das crian\u00e7as, cada uma fazia o que queria&#8230; tem que fazer, n\u00e3o reprimir o sentimento das crian\u00e7as, que isso \u00e9 uma coisa muito triste para a gente. Mas claro que existe um adulto para controlar assim, n\u00e3o se machucar \u2014 n\u00e3o para controlar, controlar \u00e9 feio, para orientar, orientar para n\u00e3o cair. Mas ele estava s\u00f3 olhando as crian\u00e7as, a\u00ed disse que a coordenadora chegou e depois chamou a aten\u00e7\u00e3o dele dizendo que a sala dele estava desorganizada.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu acho que quando a gente seguir, caminhar, come\u00e7ar a caminhar juntos, de forma coletiva, n\u00f3s seremos desorganizados no ponto de vista desse que est\u00e1 nos reprimindo, que deixaram a gente de m\u00e3os atadas, de m\u00e3os amarradas. Ent\u00e3o isso, n\u00e3o do ponto de vista desse ali, a gente ser\u00e1 desorganizado, porque somos diversos, com pensamentos diferentes, trajet\u00f3rias diferentes, cada um tem a sua criatividade, eu sei fazer colagem, mas eu n\u00e3o sei fazer cestinha. Ent\u00e3o essas quest\u00f5es v\u00e3o ser desorganizadas do ponto de vista do que j\u00e1 tem, do que j\u00e1 vem dominando a gente. Eu acho que a quest\u00e3o do acervo, que eu achei muito interessante que v\u00e1 ter acervo no nosso museu que est\u00e1 nascendo. Engra\u00e7ado, falando de nascimento, porque o museu come\u00e7ou a se envolver loucamente para poder nascer, a\u00ed come\u00e7ou, em nove meses pariu o museu. Ent\u00e3o, quer dizer, os parentes come\u00e7aram a parir o museu e agora que a gente est\u00e1 come\u00e7ando a trabalhar isso, e existem v\u00e1rios desencontros, encontros desorganizados e v\u00e1rias outras coisas. Mas a gente vai aprendendo muito com isso. Vai ter acervo, nosso grupo curatorial j\u00e1 est\u00e1 l\u00e1, o quadro das pessoas pesquisadores j\u00e1 est\u00e1 preenchendo, ent\u00e3o est\u00e1 come\u00e7ando a chegar. Uma das coisas que a gente j\u00e1 come\u00e7ou a fazer \u00e9 atividades, porque o Estado obriga, fala assim toda hora \u201cfaz isso, faz aquilo\u201d, porque a gente tem que cumprir essas normas&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>E a\u00ed eu achei interessante que a maioria ind\u00edgena&#8230; primeiro os que est\u00e3o l\u00e1 acompanhando a exposi\u00e7\u00e3o se chamam mestres dos saberes. Eles n\u00e3o s\u00e3o educadores, eles s\u00e3o mestres dos saberes, e eles est\u00e3o l\u00e1 acompanhando a exposi\u00e7\u00e3o e como mediadores educativos. Os mediadores educativos que s\u00e3o mestres dos saberes. E eles v\u00e3o se revezar aos poucos, de seis em seis meses eles v\u00e3o revezar esses mestres. Ent\u00e3o existem jovens, pesquisadores mais velhos, tamb\u00e9m ind\u00edgenas est\u00e3o ali, est\u00e3o se revezando e \u00e9 uma troca. Eu achei muito interessante porque ali parece que est\u00e1 se moldando para que esse espa\u00e7o no museu tenha encontros de parentes com parentes, e parentes com n\u00e3o ind\u00edgenas. Porque esse formato j\u00e1 est\u00e1 come\u00e7ando a acontecer, parente com parente, de que eu estou falando assim, parente que \u00e9 da cidade e da aldeia. Eu achei muito interessante isso que a pr\u00f3pria exposi\u00e7\u00e3o come\u00e7ou assim. O Xadalu \u00e9 artista ind\u00edgena, mas ele se identifica como mesti\u00e7o, ele mesmo fala, ele fala que o DNA dele \u00e9 margin\u00e1rio. Outras pessoas ind\u00edgenas participando neste momento inaugural inclui Denilson Baniwa, que a grande maioria de voc\u00eas conhecem como artista, \u00e9 Baniwa do Rio Negro. Ent\u00e3o j\u00e1 come\u00e7a essa exposi\u00e7\u00e3o mais ou menos assim. E a\u00ed quando vem a programa\u00e7\u00e3o, que o pr\u00f3prio Estado demanda, a gente come\u00e7a a adaptar para trazer pessoas da aldeia prepararem o Dia do Idoso, por exemplo. Eu achei muito interessante que n\u00f3s trouxemos parentes idosos e n\u00e3o idosos, tamb\u00e9m pesquisador que fala sobre a import\u00e2ncia do idoso, a\u00ed eles vieram fazer palestras para pessoas <em>juru\u00e1<\/em> explicar o porqu\u00ea da import\u00e2ncia do idoso, dos pr\u00f3prios parentes. Ent\u00e3o a gente est\u00e1 adaptando, na verdade, no fazer.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Guilherme<\/em><\/strong>: A exposi\u00e7\u00e3o est\u00e1 no site para que as pessoas possam ter acesso?<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Sandra<\/em><\/strong>: Ela est\u00e1 no site do Museu das Culturas Ind\u00edgenas.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"1000\" height=\"667\" src=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/09\/SB_fig5.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4425\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/09\/SB_fig5.jpg 1000w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/09\/SB_fig5-300x200.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/09\/SB_fig5-768x512.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><figcaption>Conversa com Sandra Benites media\u00e7\u00e3o Luiz Guilherme Vergara. Fotografia: Vitor Szpiz<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Esse lugar [o museu] muitos parentes chamam que \u00e9 a casa de reza, como se fosse casa de reza. \u00c9 muito tranquilo voc\u00ea entrar l\u00e1, voc\u00ea pode sentar e tem v\u00e1rios banquinhos de bichinho, que voc\u00ea pode sentar e refletir, \u00e9 muito gostoso ficar l\u00e1. E a\u00ed eles transformaram isso. Em Outubro Rosa, por exemplo, a partir da demanda tamb\u00e9m do pr\u00f3prio Estado, a gente trouxe pessoas que trabalham com sa\u00fade ind\u00edgena, e tamb\u00e9m pessoas que s\u00e3o da aldeia e s\u00e3o mulheres&#8230; mulheres da aldeia, mulheres de parentes tamb\u00e9m, n\u00e3o aldeadas, para discutir qual acesso elas t\u00eam em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o da sa\u00fade. Eu achei muito interessante isso. Em uma exposi\u00e7\u00e3o tem uma equipe de m\u00e9dicos explicando e tamb\u00e9m falando da dificuldade que as mulheres t\u00eam, e a\u00ed assim falam sobre o territ\u00f3rio. E eu achei tudo isso muito interessante, ter esta equipe da sa\u00fade explicando a causa do c\u00e2ncer de mama, por exemplo, ou do \u00fatero, essas coisas&#8230; E a\u00ed eles falaram que fizeram v\u00e1rias pesquisas dizendo que hoje parece que o c\u00e2ncer que afeta mais as mulheres ind\u00edgenas \u00e9 o c\u00e2ncer de \u00fatero e n\u00e3o de mama. Eu achei muito interessante isso porque as mulheres come\u00e7aram a falar, elas falaram sobre como elas se alimentam na cidade, que comida morta que elas est\u00e3o comendo. Elas falaram que tudo \u00e9 comida artificial, quanta comida qu\u00edmica que a gente come. E a\u00ed voltamos \u00e0 import\u00e2ncia de demarcar terras para os ind\u00edgenas, para os quilombolas, para as comunidades tradicionais e v\u00e1rios outros. Eu lembro que um parente veio para falar em uma exposi\u00e7\u00e3o. Ele falou que essas comunidades que vivem e tem rela\u00e7\u00e3o diretamente com a terra servem como escudo de viol\u00eancia para proteger as coisas e o <em>juru\u00e1<\/em>, que mora na cidade, precisa entender que a gente est\u00e1 como um escudo, n\u00e3o s\u00f3 como ind\u00edgena. Enquanto quilombola, enquanto comunidades tradicionais, pescadores, marisqueiras e v\u00e1rios outros, que a gente sempre viveu como escudo. Eu achei bem interessante que ele falasse sobre isso. A gente fica fazendo coisas ali, teve mestre do saber, as mestras guaranis foram l\u00e1 tamb\u00e9m, fizeram reza e levaram isso como fortalecimento e falaram que aquele ali, o museu, foi batizado, ent\u00e3o n\u00e3o fomos n\u00f3s que falamos, falaram assim que tem que ser batizado por n\u00f3s. E a\u00ed eles come\u00e7aram a questionar algumas coisas, inclusive alguns desenhos, a\u00ed eu acho que a escuta \u00e9 muito importante. No pr\u00e9dio do museu tem uma antena enorme no s\u00e9timo andar, e do lado tem uma on\u00e7a e, do outro, ainda n\u00e3o tem desenho. E a\u00ed eles est\u00e3o discutindo o que \u00e9 que a gente vai fazer ali, e a\u00ed eles falaram que \u00e9 coberto de on\u00e7a. Para os guaranis, a on\u00e7a tem um significado muito forte, espiritualidade, e para outros n\u00e3o, mas falaram que a on\u00e7a \u00e9 um protetor muito forte e n\u00e3o \u00e9 em qualquer lugar que tamb\u00e9m a gente coloca a imagem da on\u00e7a. Eu achei bem interessante essa discuss\u00e3o, e vamos discutir sobre isso e, assim, essas coisas v\u00e3o se ampliando e vamos chamar v\u00e1rias pessoas. Mas isso tamb\u00e9m requer um tempo. Por exemplo, a gente come\u00e7ou a trabalhar com a exposi\u00e7\u00e3o do guarani em Jaragu\u00e1 apenas, porque n\u00e3o temos pernas para discutir ainda todas as quest\u00f5es. Mas a ideia \u00e9 sempre ter exposi\u00e7\u00f5es, e que elas v\u00e3o continuar, mas vai ser muito nesta l\u00f3gica da escuta, da soma, de ampliar&#8230; e isso \u00e9 infinito assim, n\u00e3o vai ter defini\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas voltando \u00e0 quest\u00e3o da gravidez, que foi falada pela gestante, e eu estava falando isso quando a gente estava almo\u00e7ando, eu falei que na nossa l\u00edngua n\u00e3o existe equil\u00edbrio, na nossa l\u00edngua existe desequil\u00edbrio. E por que \u00e9 que o desequil\u00edbrio aconteceu? Porque, a partir da gravidez, segundo a nossa narrativa guarani, <em>Nhandesy<\/em> e <em>Nhanderu<\/em> s\u00e3o lugares diferentes: <em>Nhandesy<\/em> \u00e9 o pr\u00f3prio ch\u00e3o, a pr\u00f3pria terra, e <em>Nhanderu<\/em> \u00e9 <em>ywategu\u00e1<\/em> que a gente chama de cima. E quando disse que come\u00e7ou a se encontrar para gestar a m\u00e3e terra, para gestar a terra, diz que a gesta\u00e7\u00e3o come\u00e7ou sem o consentimento da <em>Nhandesy<\/em>, ela foi assim, tipo atrav\u00e9s da sedu\u00e7\u00e3o. Por isso que tudo que \u00e9 para a gente na nossa l\u00edngua, por exemplo, existe o que \u00e9 que \u00e9 <em>wai<\/em>, que \u00e9 excesso. Ent\u00e3o o que \u00e9 excesso? <em>Waip\u00e1 <\/em>tamb\u00e9m \u00e9 bom, mas tamb\u00e9m \u00e9 ruim. A mesma palavra serve para duas coisas, ent\u00e3o isso vai depender do excesso, da pr\u00e1tica do excesso. Segundo as mulheres, isso, as mulheres que contam, os homens contam diferente, por isso que existem vers\u00f5es diferentes, eu falo sobre isso. Ent\u00e3o elas falam que quando <em>Nhanderu <\/em>veio para terra, a <em>Nhandesy<\/em> n\u00e3o sabia que ele n\u00e3o podia ficar na terra e teria que voltar e, quando voltou, depois que a <em>Nhandesy<\/em> engravidou, ele voltou para o <em>amba<\/em> [morada celeste], que \u00e9 o lugar que a gente chama de <em>ywategu\u00e1<\/em>, isso \u00e9 um esp\u00edrito, n\u00e3o \u00e9 um corpo. E n\u00f3s mulheres dizemos que somos corpos, carne, por isso que a terra \u00e9 nosso corpo. E a\u00ed como <em>Nhandesy<\/em> n\u00e3o podia se mover para ir morar com <em>Nhanderu<\/em>, ou nem <em>Nhanderu<\/em> n\u00e3o podia morar aqui, \u00e9 que tiveram esses equ\u00edvocos, houveram esses atritos entre <em>Nhanderu<\/em> e <em>Nhandesy<\/em>. Ent\u00e3o por isso, para n\u00f3s, n\u00e3o existem coisas equilibradas, existe desequil\u00edbrio. Ent\u00e3o, quando a gente vai come\u00e7ar a pensar uma coisa, a gente tem que pensar do desequil\u00edbrio para equilibrar a coisa. Isso \u00e9 um processo, essa \u00e9 uma luta, \u00e9 uma forma, cada um tem que entender, ent\u00e3o, a partir do nosso desequil\u00edbrio que a gente chama de <em>tekoa hasy<\/em>, quer dizer seres imperfeitos. N\u00f3s somos seres imperfeitos. Ent\u00e3o a gente vai construindo coisas, a gente est\u00e1 tentando buscar equilibrar coisas e o mundo, estar em equil\u00edbrio. E parece que no mundo da vis\u00e3o <em>juru\u00e1<\/em> as coisas j\u00e1 est\u00e3o prontas, j\u00e1 est\u00e3o equilibradas, n\u00e3o tem mais nada para discutir, e a\u00ed a gente vai seguir em frente. Eu acho que essas coisas deixam a gente iludida de entender que parece que a gente n\u00e3o tem como, incapacitado de entender n\u00f3s mesmos. Ent\u00e3o toda a inst\u00e2ncia, digamos das institui\u00e7\u00f5es, onde a gente recorre, eu n\u00e3o estou dizendo que \u00e9 tudo ruim, eu estou dizendo que \u00e9 importante para a gente entender tamb\u00e9m. No meu caso, eu gostei de ter estudado no Museu Nacional, de ter feito antropologia, eu gosto e continuo fazendo, s\u00f3 que eu n\u00e3o entro no jogo. Eu sei onde, e qual hora que eu vou entrar e qual hora que vou sair. Acho que \u00e9 totalmente um jogo.<\/p>\n\n\n\n<p>A\u00ed, voltando a esta ideia de desequil\u00edbrio, eu acho que \u00e9 um pouco o que todos voc\u00eas comentaram. Queria citar uma coisa, o caso do meu filho, que entrou na faculdade na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) para estudar engenheira ambiental. Mas, seis meses depois, ele me ligou dizendo que n\u00e3o queria mais estudar, que n\u00e3o estava conseguindo acompanhar os colegas, principalmente nas disciplinas de f\u00edsica e qu\u00edmica. Ele alegou que se ele estudasse em uma escola particular ele poderia acompanhar os outros colegas que estavam l\u00e1. Olha a distor\u00e7\u00e3o da coisa!<\/p>\n\n\n\n<p>Eu falei: \u201cEnt\u00e3o vamos l\u00e1, filho, vamos sentar e conversar\u201d. Expliquei tudinho, porque ele n\u00e3o podia praticar certas coisas que a gente praticava, porque a gente morava no Aracruz, s\u00f3 tinha eucalipto, n\u00e3o tinha mais nada. Ent\u00e3o, como \u00e9 que eu vou continuar dando ensinamento para o meu filho se s\u00f3 tem eucalipto, n\u00e3o tem mais rio, n\u00e3o tem mais p\u00e1ssaro, n\u00e3o tem mais nada. Ent\u00e3o a ideia era s\u00f3 ir na escola todo dia e fazer outras coisas que cabem a mim, e aquilo que n\u00e3o cabe a mim eu n\u00e3o conseguiria fazer. Ent\u00e3o a\u00ed eu expliquei para ele: \u201cOlha filho, \u00e9 o seguinte\u201d, eu falei, \u201cquem n\u00e3o est\u00e1 sabendo te acolher, te receber, \u00e9 a Universidade, coloca isso na tua cabe\u00e7a\u201d. Eu falei: \u201cPrimeiro, f\u00edsica e qu\u00edmica a gente pratica todo dia, o m\u00e9todo de entender, compreender e praticar f\u00edsica e qu\u00edmica a gente vive o todo tempo isso, a gente carrega isso nas costas, s\u00f3 que ningu\u00e9m perguntou se voc\u00ea sabe, como que voc\u00ea entende qu\u00edmica e f\u00edsica no costume <em>juru\u00e1<\/em> na Universidade. Ent\u00e3o isso est\u00e1 equivocado\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A\u00ed eu comecei a explicar para ele isso. O nosso m\u00e9todo de f\u00edsica e qu\u00edmica \u00e9 o que a gente faz o tempo todo de ritual. Quando a gente vai matar uma anta, vai ca\u00e7ar uma anta, a gente faz ritual para pedir ao esp\u00edrito das antas. Para o esp\u00edrito das matas, como \u00e9 que a gente vai entrar para pedir permiss\u00e3o para tirar uma folha? A gente olha qual \u00e9 o lado que a gente vai tirar a casca, e depois, no outro m\u00eas, se a gente precisar de novo, a gente pensa qual casca que a gente vai buscar, onde que a gente vai retirar, em que lua que a gente vai tirar. Tudo isso tem a ver com os nossos saberes e, se n\u00e3o tiver mais mata, n\u00e3o tiver mais rio, n\u00e3o tiver mais brejo, s\u00f3 tem eucalipto, infelizmente, na \u00e9poca que ele estava estudando na escola s\u00f3 tinha isso, eucalipto, l\u00e1 em Aracruz. Ent\u00e3o eu tive que fazer todas as explica\u00e7\u00f5es para ele entender que, para ele se fortalecer de novo, de entender para ele n\u00e3o jogar a culpa nele mesmo, de achar que ele \u00e9 incompetente, de n\u00e3o continuar estudando, ou seja, de n\u00e3o poder continuar estudando.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o eu acho que quando a gente trata do que o <em>juru\u00e1 <\/em>chama de cultura e arte, eu chamaria isso de saberes&#8230; n\u00e3o \u00e9 cultura, \u00e9 um saber, um saber de um povo, ou de grupo, ou de indiv\u00edduo, ent\u00e3o \u00e9 um saber. E por isso que \u00e9 muito importante a gente guardar esse saber em segredo e tamb\u00e9m em que momento a gente vai falar sobre esse nosso saber, inclusive. Nessa universidade a gente precisa falar sobre isso porque n\u00e3o est\u00e1 respeitando e n\u00e3o est\u00e1 sabendo nem da exist\u00eancia do nosso saber. Como \u00e9 que a gente inclui a diversidade nesse lugar que a gente n\u00e3o conhece o outro? Ent\u00e3o eu acho que a partir dessas quest\u00f5es eu come\u00e7o a trazer isso, olhar muito desse saber. Eu n\u00e3o sei se eu chamaria de arte, eu n\u00e3o sei se eu chamaria de cultura, mas eu chamaria mais, pelo menos para mim, assim ficou mais leve, de chamar saberes&#8230; de saber, de conhecimento. Eu n\u00e3o sei como \u00e9 que a gente chamaria, tem outros que n\u00e3o concordam de a gente chamar ci\u00eancia. Na minha l\u00edngua, eu falo isso porque tem outra forma, uma outra l\u00f3gica de falar, que \u00e9 o <em>arandu<\/em> [conhecimento]. Tamb\u00e9m \u00e9 o fazer. \u00c9 um processo, n\u00e3o \u00e9 uma coisa pronta. <em>Arandu <\/em>tamb\u00e9m \u00e9 conquistado, n\u00e3o \u00e9 uma coisa que \u00e9 dada, mas conquistada. Ent\u00e3o, por exemplo, <em>arandu<\/em> \u00e9 quem sabe fazer rituais para ir passar. Quem conhece uma casca que \u00e9 boa para diminuir o fluxo de sangue \u00e9 um <em>arandu<\/em>. \u00c9 uma conquista que tem que buscar. Do mesmo jeito, o <em>tembia<\/em> \u00e9 como se fosse uma ca\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o acho que tem muitas coisas que a gente n\u00e3o discute. N\u00e3o d\u00e1 para trazer, por exemplo, os saberes das parteiras, n\u00e3o d\u00e1 para a gente trazer no museu. E a\u00ed eu fui entender que esses saberes s\u00e3o patrim\u00f4nios que a gente precisa continuar mantendo, esses s\u00e3o patrim\u00f4nios que n\u00e3o cabem no museu, mas \u00e9 importante falarmos sobre eles. Ent\u00e3o n\u00f3s chamamos alguns pesquisadores para falar sobre a import\u00e2ncia da continua\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o eu acho que s\u00e3o esses caminhos que a gente percorre, que s\u00e3o caminhos o tempo todo conflituosos, e dolorosos tamb\u00e9m, e \u00e0s vezes voc\u00ea n\u00e3o cabe em um determinado lugar. Quando voc\u00ea \u00e9 visto como militante por exemplo, quando voc\u00ea \u00e9 militante pela causa muitas das vezes voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 vista nem como artista, mas, \u00e0s vezes, te veem como pessoas problem\u00e1ticas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o eu j\u00e1 passei por isso tamb\u00e9m. E eu acho que para concluir a minha fala, que eu acho que eu gostaria muito de ficar, eu sei que voc\u00eas t\u00eam tempo, precisam ir embora e tal. Mas assim, o que eu queria dizer, que eu acho que de tudo que a gente conversou, todos voc\u00eas precisam carregar um pouquinho de tudo, n\u00e3o s\u00f3 como artista, n\u00e3o s\u00f3 como professora, n\u00e3o s\u00f3 como intelectual, mas sim \u00e9 uma resist\u00eancia. Por exemplo, eu sou guarani, quando eu morava na aldeia, eu tinha uma outra forma de pensar e de ver as coisas, e depois que eu vim para a cidade eu comecei a ampliar o meu jeito de olhar, por conta dessas v\u00e1rias outras experi\u00eancias, e muitas vezes quando eu chego na aldeia tamb\u00e9m eu sou estranhada, n\u00e3o sou mais aquela Sandra. E a\u00ed eu me vejo, eu acho que todos n\u00f3s, a gente vai se vendo nesse lugar, \u00e9 que a gente n\u00e3o tem lugar \u00e0s vezes, a gente est\u00e1 aqui entre coisas, sabe? Parece que s\u00e3o duas paredes, voc\u00ea est\u00e1 desse lado, \u00e0s vezes voc\u00ea est\u00e1 aqui, mas isso eu acho que \u00e9 o nosso processo de caminhada&#8230; porque \u00e0s vezes voc\u00ea n\u00e3o cabe em lugar nenhum, ou \u00e0s vezes voc\u00ea cabe em dois, isso \u00e9 uma tarefa muito dif\u00edcil tamb\u00e9m, \u00e9 conflituoso isso, mas \u00e9 importante a gente saber de fato se abra\u00e7ar. Independentemente da forma, como a gente pode se chamar de \u201cum dos nossos\u201d, a gente chama algu\u00e9m que fica, ou vive da mesma forma, ou que sofre a mesma coisa que a gente passa, \u201cum dos nossos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Por exemplo, o movimento negro \u00e9 um dos nossos. N\u00e3o s\u00e3o parte da fam\u00edlia, mas que eles vivem tamb\u00e9m como um dos nossos, tipo, est\u00e3o na mesma que a gente. Eu estou falando da forma de luta mesmo, da forma de resist\u00eancia, da forma de viol\u00eancia, de ataques que a gente sofre. E eu acho que isso para mim me traz muita for\u00e7a, eu n\u00e3o estou dizendo que tamb\u00e9m eu sou sempre forte. Quando eu sa\u00ed do MASP, porque tive que cancelar uma exposi\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios artistas, isso me deprimiu um pouco, mexeu comigo, eu fiquei de fato abalada. Porque quando a gente pensa no coletivo, voc\u00ea, \u00e0s vezes, fica num lugar muito dif\u00edcil, voc\u00ea tem a sua particularidade que \u00e9 voc\u00ea, sua individualidade e tamb\u00e9m tem outros que est\u00e3o ali que voc\u00ea precisa decidir por eles. Assim, tomei a decis\u00e3o, quando MASP decidiu de n\u00e3o colocar fotografia do MST, eu falei: \u201cCom isso eu n\u00e3o brinco\u201d. Porque o MST \u00e9 um dos nossos tamb\u00e9m, ent\u00e3o eu n\u00e3o podia, por mais que eu soubesse que eu n\u00e3o ia ter dinheiro para pagar aluguel e outras coisas, eu acho que eu tive que tomar essa decis\u00e3o, e isso foi muito duro para mim, foi dif\u00edcil. N\u00e3o por mim, da minha sa\u00edda do MASP, e sim pelos artistas que confiaram na gente, e ainda bem que eles voltaram atr\u00e1s, resolvemos e a exposi\u00e7\u00e3o aconteceu, ficou da forma que a gente queria, mas foi muito estressante, foi uma coisa que teve que mexer com a gente.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o eu acho que ser artista, curadora, professora, militante, intelectual tamb\u00e9m&#8230; nem sempre as coisas s\u00e3o maravilhosas, acho que isso tamb\u00e9m \u00e9 um pouco armadilha, lembrando um pouco do que ocorreu com Jaider [Esbell], por exemplo, isso mexeu muito tamb\u00e9m comigo, porque \u00e9 um artista que eu conhecia. Ele foi muita refer\u00eancia para mim tamb\u00e9m, para o pensamento, de pensar as coisas no mundo da arte&#8230; e eu lembro do que antes dele fazer esta passagem ele me mandou um \u00e1udio e falou que queria conversar comigo humanamente. Isso vai ficar marcado para sempre, ele falando isso.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu acho que nossa humanidade \u00e9 importante. \u00c0s vezes deixamos de acionar a nossa humanidade, aceitar a nossa humanidade, independentemente de quem \u00e9. Eu acho que eu vim aprendendo muito isso, que a minha av\u00f3 falava isso comigo, ela falava: \u201cN\u00e3o espere que ningu\u00e9m te abrace, quer dizer, n\u00e3o espere que o mundo te abrace porque o mundo \u00e9 diverso, voc\u00ea tem que aprender a abra\u00e7ar o mundo\u201d. Ent\u00e3o, quando a gente aprende a abra\u00e7ar o mundo, mesmo com nossos conflitos, a gente consegue caminhar por v\u00e1rios caminhos, fazer voltas, trope\u00e7os e passar em cima de v\u00e1rias outras coisas para voc\u00ea n\u00e3o se machucar. Ent\u00e3o a gente vai levando isso. Eu acho que isso me fez tamb\u00e9m ser uma pessoa que eu sou, que n\u00e3o carrega nenhuma culpa comigo. Eu tenho, \u00e0s vezes eu tenho culpa de algumas outras coisas em rela\u00e7\u00e3o aos meus filhos, essas coisas, mas n\u00e3o \u00e9 uma culpa que a gente n\u00e3o pode carregar que adoece a gente, que n\u00e3o cabe \u00e0 gente discutir. Ent\u00e3o eu acho que n\u00e3o existe culpa, existe equ\u00edvoco, mas isso n\u00e3o \u00e9 sua parte, \u00e9 de v\u00e1rias outras coisas, porque t\u00eam coisas que cabem a voc\u00ea, t\u00eam coisas que, por exemplo, eu queria que meu filho aprendesse&#8230; a praticar ritual, n\u00e3o tinha mais planta, n\u00e3o tinha mais nada, n\u00e3o tinha rio, a gente bebia \u00e1gua da torneira&#8230; ent\u00e3o como \u00e9 que eu vou me culpar por isso? Mas eu posso lutar por elas, posso falar dessas minhas inquieta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o eu acho que \u00e9 isso, pelo menos para mim, eu fico muito feliz de ter conversado com voc\u00eas, e \u00e9 isso, eu trouxe tamb\u00e9m os colares que eu ia expor ali, mas acabei esquecendo. Mas, se voc\u00eas quiserem ver, est\u00e1 comigo, e \u00e9 isso. Muito, muito, obrigada, eu estou muito feliz. \u00c9 muito libertador a gente conversar assim. E vamos continuar fazendo isso com voc\u00eas, sem mim, e comigo, e outras pessoas que podem contribuir. Uma op\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m seria trazer uma pessoa com a habilidade de tocar um som, o qual tem uma hist\u00f3ria, uma ess\u00eancia, um corpo e uma origem. A gente precisa sonhar tamb\u00e9m com isso. E eu lembro que o Instituto Marac\u00e1, que a Cristine Taku\u00e1, da Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo, \u00e9 fundadora e conselheira, e tamb\u00e9m lideran\u00e7a guarani de l\u00e1, eles sonharam muito com o museu. Mas existem diversos museus e tem outros museus que a gente chama de extens\u00e3o do museu, e a\u00ed tem muitos parentes que eles querem falar assim: \u201cA gente quer fazer o nosso museu do nosso jeito\u201d. Eles falaram que eles iam fazer o museu, eles n\u00e3o iam colocar acervo nenhum, mas que isso poderia chamar v\u00e1rias outras, como se fosse uma escola de ensinamento de outras pessoas que n\u00e3o tem conhecimento sobre guarani ou sobre outros povos Kaingangs [grupo linguista de povos ind\u00edgenas].<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m eles falaram que ensinar, na verdade, n\u00e3o \u00e9 jeito de <em>juru\u00e1<\/em> chegar e impor as coisas; ensinar \u00e9 voc\u00ea partilhar as suas dores, os seus cantos, as suas comidas. Ent\u00e3o eu achei bem interessante isso, que \u00e9 uma forma de coletivo, de a gente se abra\u00e7ar. Mas cada um oferece o que tem para o outro. Eu acho que esse \u00e9 o processo de ensinar, \u00e9 se ensinar e ensinar, n\u00e3o \u00e9 uma coisa s\u00f3, mas sim v\u00e1rios movimentos. Ent\u00e3o vamos ver que eles est\u00e3o falando que v\u00e3o fazer museu, eles j\u00e1 est\u00e3o fazendo casa, eles mesmos est\u00e3o construindo, por exemplo, Jaragu\u00e1, j\u00e1 est\u00e1 construindo uma trilha, \u00e9 a forma deles constru\u00edrem museu, eles est\u00e3o construindo trilha, eles est\u00e3o criando abelha sem ferr\u00e3o e v\u00e1rias outras coisas. Ent\u00e3o isso \u00e9 o museu que eles est\u00e3o querendo. \u00c9 isso, muito obrigada.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Jessica<\/em><\/strong>: N\u00f3s agradecemos voc\u00ea, Sandra, muito obrigada pela fala e escuta t\u00e3o instigante e generosa. Tamb\u00e9m agradecemos \u00e0 Companhia de Myst\u00e9rios e Novidades, e todes aqui por terem vindo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Sandra<\/em><\/strong>: Eu queria fazer um convite a voc\u00eas, se um dia me chamarem aqui de novo, para falar sobre o que voc\u00eas est\u00e3o criando.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Guilherme<\/em><\/strong>: Sim, com certeza. Queria ressaltar minha gratid\u00e3o e tamb\u00e9m observar como foi impressionante no conversar redondo, que \u00e9 um conversar espiral, n\u00f3s abordamos a todas as quest\u00f5es que estavam dentro dessa cartografia inicial. Muito obrigada a todes!<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Sandra<\/em><\/strong>: Posso expor ali os colares?<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Guilherme<\/em><\/strong>: Claro!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">***<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Sandra Benites<\/em><\/strong> \u00e9 Diretora de Artes Visuais da FUNARTE (2023). Educadora, pesquisadora e curadora. Descendente do povo Guarani Nhandewa. Mestre em Antropologia Social pelo Museu Nacional (UFRJ) e doutoranda no mesmo programa. Sua pesquisa e atua\u00e7\u00e3o vem focando nas particularidades das artes e vidas das comunidades ind\u00edgenas, apontando para mudan\u00e7as contracoloniais nas institucionalidades, museus e exposi\u00e7\u00f5es, com os cuidados e particularidades de diferentes povos, etnias e culturas. Foi curadora da exposi\u00e7\u00e3o \u201cDja guata Por\u00e3 | Rio De Janeiro Ind\u00edgena\u201d, no Museu de Arte do Rio de Janeiro (MAR, 2017). Comp\u00f4s a equipe curatorial do Museu das Culturas Ind\u00edgenas (rec\u00e9m-inaugurado em SP, 2022).<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Luiz Guilherme Vergara<\/em><\/strong> \u00e9 professor associado do departamento de arte e membro do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Estudos Contempor\u00e2neos das Artes da Universidade Federal Fluminense (UFF). Foi coordenador do curso de gradua\u00e7\u00e3o em artes (2019- 2024) e diretor do Museu de Arte Contempor\u00e2nea (MAC) de Niter\u00f3i entre 2005\u20132008 e 2013\u20132016. Coordena o grupo de pesquisa Ynterfluxos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong><sup>1<\/sup><\/strong> Em 2023, Sandra Benites foi convidada para assumir a dire\u00e7\u00e3o das Artes Visuais da FUNARTE.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tembiapo: Arte e povos da cura Conversa com Sandra Benites Media\u00e7\u00e3o: Luiz Guilherme Vergara Luiz Guilherme Vergara: Boa tarde. Bem vindes a todes. Agradecemos imensamente a Companhia de Myst\u00e9rios e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/4403"}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4403"}],"version-history":[{"count":12,"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/4403\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6326,"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/4403\/revisions\/6326"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4403"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}