{"id":4401,"date":"2025-09-26T12:05:24","date_gmt":"2025-09-26T15:05:24","guid":{"rendered":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/?page_id=4401"},"modified":"2025-10-17T14:13:51","modified_gmt":"2025-10-17T17:13:51","slug":"ensaio-de-escutas-o-falatorio-de-stella-do-patrocinio","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/ensaio-de-escutas-o-falatorio-de-stella-do-patrocinio\/","title":{"rendered":"Ensaio de escutas: O falat\u00f3rio de Stella do Patroc\u00ednio"},"content":{"rendered":"\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/09\/Imagem-capa_20221123_160133.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4413\" width=\"463\" height=\"463\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/09\/Imagem-capa_20221123_160133.jpg 1000w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/09\/Imagem-capa_20221123_160133-300x300.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/09\/Imagem-capa_20221123_160133-150x150.jpg 150w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/09\/Imagem-capa_20221123_160133-768x768.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 463px) 100vw, 463px\" \/><figcaption>Natasha Felix e Sara Ramos, Ensaio de escutas, Museu Bispo do Rosario Arte Contempor\u00e2nea, 23 de novembro de 2022.                       Foto: Jessica Gogan<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<h2>Ensaio de escutas: O <em>falat\u00f3rio<\/em> de Stella do Patroc\u00ednio<\/h2>\n\n\n\n<h4>Anna Carolina Vicentini Zacharias, Natasha Felix e Sara Ramos <br>Media\u00e7\u00e3o: Diana Kolker<\/h4>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group\"><div class=\"wp-block-group__inner-container\">\n<p><strong><em>Diana Kolker<\/em><\/strong>: Boa tarde. Que bom que voc\u00eas est\u00e3o aqui! Esta \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o integrada entre o programa de educa\u00e7\u00e3o e arte do Museu Bispo do Rosario\u00b9 Arte Contempor\u00e2nea (mBrac) e o Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Estudos Contempor\u00e2neos das Artes (PPGCA) da UFF, atrav\u00e9s da disciplina \u201cConchas, peneiras e bainhas: arte, cl\u00ednica e cuidado na contemporaneidade\u201d ministrada pela Jessica Gogan, de quem eu sou muito f\u00e3 \u2014 isso eu n\u00e3o perco a oportunidade de dizer.<\/p>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<p>Cada parceria \u00e9 sempre muito importante e preciosa e nos coloca a pensar as pr\u00e1ticas da institui\u00e7\u00e3o. Nosso encontroEnsaio de escutas<em> \u2014<\/em> que acontece no contexto da exposi\u00e7\u00e3o \u201cStella do Patroc\u00ednio: Me mostrar que n\u00e3o sou sozinha, que tem outras iguais, semelhantes a mim e diferentes\u201d <em>\u2014<\/em> \u00e9 um convite \u00e0 escuta ao <em>falat\u00f3rio<\/em> de Stella do Patroc\u00ednio e \u00e0 conversa a partir das reverbera\u00e7\u00f5es da voz de Stella em nossos corpos.<\/p>\n\n\n\n<p>Nascida no ano de 1941, no Rio de Janeiro, Stella do Patroc\u00ednio caminhava por uma rua no bairro Botafogo quando foi, assim como Arthur Bispo do Rosario, detida pela pol\u00edcia e internada compulsoriamente no Centro Psiqui\u00e1trico Pedro II (CPPII), aos 21 anos. Em 1966, foi transferida para o antigo manic\u00f4mio Col\u00f4nia Juliano Moreira (CJM), onde permaneceu at\u00e9 sua morte, aos 51 anos. O mesmo hosp\u00edcio que Bispo tamb\u00e9m esteve internado e produziu suas obras e onde, depois de seu falecimento, foi inaugurado o Museu Bispo do Rosario\u00b2.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1986, como parte do movimento de humaniza\u00e7\u00e3o das pr\u00e1ticas em contextos psiqui\u00e1tricos, foi realizado na CJM o projeto \u201cOficina de Livre Cria\u00e7\u00e3o Art\u00edstica\u201d, em parceria com a Escola de Artes Visuais do Parque Lage (EAV), idealizado pelas psic\u00f3logas Denise Correa e Marlene S\u00e1 Freire, com a orienta\u00e7\u00e3o da artista Nelly Gutmacher e a participa\u00e7\u00e3o dos artistas \u2014 na \u00e9poca estudantes da EAV \u2014 Carla Guagliardi e M\u00e1rcio Rolo. O projeto promoveu oficinas de arte para internas do extinto N\u00facleo Teixeira Brand\u00e3o (antigo pavilh\u00e3o de mulheres internadas). Foi nesse contexto que Stella do Patroc\u00ednio, Carla Guagliardi e Nelly Gutmacher, a partir de uma sugest\u00e3o de Carla, realizaram as conversas gravadas em fita cassete \u2014 o impactante <em>falat\u00f3rio<\/em>, como Stella denominou. Anos depois, novamente a fala de Stella foi gravada em outras fitas (infelizmente perdidas) e transcrita parcialmente pela M\u00f4nica Ribeiro de Souza, estagi\u00e1ria de psicologia na \u00e9poca. Em 2001, ap\u00f3s seu falecimento, o <em>falat\u00f3rio<\/em> assumiu outra forma, um livro de poesia, com o t\u00edtulo <em>Stella <\/em><em>do Patroc\u00ednio: Reino dos bichos e dos animais \u00e9 o meu nome<\/em>, organizado por Viviane Mos\u00e9. Desde ent\u00e3o, as palavras de Stella do Patroc\u00ednio tornaram-se publicamente conhecidas, inspirando diversas publica\u00e7\u00f5es, produ\u00e7\u00f5es art\u00edsticas e pesquisas acad\u00eamicas.<\/p>\n\n\n\n<p>A presen\u00e7a de Stella em seu <em>falat\u00f3rio<\/em> reinventa a l\u00edngua em seu fluxo. Esses \u00e1udios, reproduzidos na \u00edntegra nesta exposi\u00e7\u00e3o, revelam apenas uma pequena mostra de sua passagem pelo mundo em seu gesto de fazer ecoar sua voz: den\u00fancia frente a uma sociedade normatizadora, patriarcal e racista, que se valeu do modelo m\u00e9dico para excluir e calar as pessoas que, de alguma maneira, se diferenciavam do modelo hegem\u00f4nico.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a curadoria coletiva de Patr\u00edcia Ruth, Rogeria Barbosa, Raquel Fernandes, Ricardo Resende e eu, a mostra coloca em foco a palavra\u2013falada, escrita, desenhada, costurada, bordada, dan\u00e7ada, performada, cantada\u2013mobilizada pela escuta do falat\u00f3rio de Stella do Patroc\u00ednio, num esfor\u00e7o de tensionar as institucionaliza\u00e7\u00f5es e afirmando a relev\u00e2ncia de Stella na produ\u00e7\u00e3o intelectual e art\u00edstica contempor\u00e2nea. Em interlocu\u00e7\u00e3o com o <em>falat\u00f3rio<\/em> de Stella, como parte da exposi\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m apresentamos a produ\u00e7\u00e3o das artistas Annaline Curado, Morena, Natasha Felix, Panmela Castro, Patricia Ruth, Priscila Rezende, Rosana Palazyan, Val Souza, Zahy e, aqui presentes, Natasha Felix, Rog\u00e9ria Barbosa e Vanessa Alves.<\/p>\n\n\n\n<p>Este encontro hoje, que acontece propositalmente no contexto da exposi\u00e7\u00e3o e agora nestas p\u00e1ginas, foi tran\u00e7ado coletivamente com tr\u00eas pessoas que foram afetadas pelo <em>falat\u00f3rio<\/em> de Stella do Patroc\u00ednio e realizam trabalhos de muita relev\u00e2ncia e que apresentarei agora brevemente atrav\u00e9s de suas pr\u00f3prias palavras:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Sara Ramos<\/em> \u00e9 pesquisadora, editora, tradutora e poeta tocantinense. Mestra em Literatura Comparada pela UNILA, tem muito respeito pelas palavras, sejam escritas, faladas ou corporificadas, por isso as persegue. Atualmente vive no Rio de Janeiro e \u00e9 autora da<em> <\/em>plaquete <em>Pequeno manual da f\u00faria <\/em>(2022).<\/p>\n\n\n\n<p><em>Natasha Felix<\/em> \u00e9 poeta e performer. Em suas performances, investiga as interlocu\u00e7\u00f5es entre corpo negro, palavra falada e interse\u00e7\u00f5es com outras linguagens, como a dan\u00e7a, a m\u00fasica e o audiovisual. Participa da exposi\u00e7\u00e3o com um trabalho que foi \u2014 ela vai falar dele melhor do que eu \u2014 feito a partir desse encontro, desse atravessamento e demais pessoas importantes em uma esp\u00e9cie de triangula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Anna Carolina Vicentini Zacharias<\/em> se ocupa com of\u00edcios de artes\u00e3, educadora e pesquisadora de doutorado em Teoria e Hist\u00f3ria Liter\u00e1ria no Instituto de Estudos da Linguagem, na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). \u00c9 mestra pelo mesmo Instituto, autora da disserta\u00e7\u00e3o <em>Stella do Patroc\u00ednio ou retorno de quem sempre esteve aqui <\/em>(2023).<\/p>\n\n\n\n<p>Na parte da manh\u00e3, n\u00f3s conversamos bastante sobre a centralidade da escuta na constru\u00e7\u00e3o dessa exposi\u00e7\u00e3o. Essa exposi\u00e7\u00e3o \u00e9 um convite \u00e0 escuta, em especial ao <em>falat\u00f3rio<\/em> de Stella do Patroc\u00ednio. Tamb\u00e9m na parte da manh\u00e3, Vanessa Alves, artista residente no Museu Bispo do Rosario, falou da proposta que fizemos para seu processo de cria\u00e7\u00e3o para a exposi\u00e7\u00e3o a partir do contato com o <em>falat\u00f3rio<\/em> de Stella do Patroc\u00ednio, que eu quero trazer novamente: n\u00e3o buscar modos de reprodu\u00e7\u00e3o ou tradu\u00e7\u00e3o do <em>falat\u00f3rio<\/em> na constru\u00e7\u00e3o do seu trabalho, mas, atrav\u00e9s dessa rela\u00e7\u00e3o de atravessamento e afeto, buscar o que dessas palavras, o que dessa for\u00e7a, o que dessa pot\u00eancia<em> Stella<\/em> fica no corpo, o que disso ela incorpora. O que ela escuta? E de que maneira essa escuta reverbera no seu trabalho como artista? Ent\u00e3o, o nosso convite a voc\u00eas tamb\u00e9m \u00e9 que fa\u00e7am um exerc\u00edcio de aten\u00e7\u00e3o e escuta, pensando\/sentindo o que do <em>falat\u00f3rio<\/em>, da voz de Stella e das reverbera\u00e7\u00f5es que Anna Carolina, Sara e Natasha v\u00e3o trazer, vibram e ficam encarnadas no corpo. O convite \u00e9 para que cada pessoa possa se perguntar: \u201cDe tudo que foi dito, o que eu escutei? O que ser\u00e1 esse eco na minha cabe\u00e7a?\u201d T\u00e1? Beleza? Ent\u00e3o t\u00e1. Quer complementar alguma coisa?<\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Jessica Gogan<\/strong>:<\/em> S\u00f3 queria trazer uma reflex\u00e3o da pesquisadora afro-americana Saidiya Hartman que fala sobre a import\u00e2ncia de artistas oferecendo modelos para desordenar o arquivo, arrumando e transformando seus materiais para olhar seus documentos de baixo, da perspectiva daqueles no por\u00e3o, contestando os regimes do fato e da verdade. Acho que buscamos hoje, com Sara, Natasha e Anna Carolina, trazer essa desordena\u00e7\u00e3o potente e nos fazer sentir escutas outras. Tamb\u00e9m gostaria de parabenizar Anna Carolina e Sara, pelas suas pesquisas maravilhosas, e Natasha, pela sua performance comovente na abertura da exposi\u00e7\u00e3o. Agrade\u00e7o imensamente a colabora\u00e7\u00e3o de voc\u00eas e \u00e0 turma por estar conosco e tamb\u00e9m fa\u00e7o minhas as palavras de ser f\u00e3 da Diana e do Museu Bispo do Rosario. \u00c9 muito raro ter esse cruzamento, esse emaranhamento po\u00e9tico e cr\u00edtico da arte, educa\u00e7\u00e3o, curadoria, pensando a institui\u00e7\u00e3o de uma nova maneira. Agrade\u00e7o o acolhimento e este tempo precioso de estar junto.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Sara Ramos<\/em><\/strong>: Quero primeiro pedir licen\u00e7a, agradecer pelo convite e por todo trabalho que est\u00e1 sendo feito aqui no museu; estou muito contente de estar aqui hoje. Algo muito bonito sobre o nosso primeiro contato pessoal \u2014 eu, Natasha e Anna Carolina (Carol) \u2014 \u00e9 que nele nos sentamos para escutar Stella. N\u00f3s j\u00e1 troc\u00e1vamos virtualmente, e a primeira vez em que nos vimos foi em fun\u00e7\u00e3o desse movimento de fazer uma escuta atenta e essa transcri\u00e7\u00e3o. O trabalho de Carol foi realmente norteador para nossos encontros, e vai ser ela a iniciar as falas porque sua pesquisa fornece um panorama muito interessante sobre a trajet\u00f3ria da Stella, sobre as lacunas, os arquivos, as media\u00e7\u00f5es institucionais e todo esse contexto como um todo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Natasha Felix<\/em><\/strong>: Boa tarde. Obrigada pela presen\u00e7a. \u00c9 bem importante esse tipo de articula\u00e7\u00e3o. Estou muito feliz de estar aqui. Acho que esse tipo de movimenta\u00e7\u00e3o coletiva \u00e9 de fato o que a gente faz naturalmente quando estamos pensando Stella, nos voltamos para o coletivo quando falamos sobre ela. N\u00f3s duas moramos juntas, Sara e eu, tem esse dado, depois eu conto essa hist\u00f3ria. Carol morou conosco um tempo tamb\u00e9m, ent\u00e3o foi uma coisa muito forte para a gente esse encontro. A escuta de Stella desde o in\u00edcio nos aproximou, ent\u00e3o ter essa rede aqui \u00e9 muito importante para conseguir articular conjuntamente em torno de uma hist\u00f3ria que tentaram apagar. A mem\u00f3ria de Stella em si foi violentada sistematicamente, e uma hist\u00f3ria que foi amalgamada por sucessivos erros, e erros da branquitude no fim das contas, no sistema da branquitude. Ent\u00e3o essa revis\u00e3o \u00e9 cont\u00ednua e \u00e9 sem fim. Toda vez que a gente volta a escutar Stella, se depara com algo diferente. S\u00e3o articula\u00e7\u00f5es que v\u00e3o se envolvendo ali e n\u00e3o param, porque esse arquivo \u00e9 na verdade um arquivo corrompido, ent\u00e3o fizemos um trabalho de hackear essa mem\u00f3ria tamb\u00e9m. Quando a gente tem lacunas, a gente hackeia para encontrar maneiras de falar sobre as fissuras. E a\u00ed a preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 sermos cada vez mais respeitoses com a mem\u00f3ria, principalmente de uma pessoa que n\u00e3o est\u00e1 mais entre n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu lembro a segunda vez que eu vim aqui. Luis [Carlos Marques] estava com a gente, artista do [Ateli\u00ea] Gaia<strong><sup>3<\/sup><\/strong>, e a gente estava falando sobre fazer justi\u00e7a com Stella \u2014 \u201ceu n\u00e3o sei fazer justi\u00e7a\u201d, fala dela retomada na m\u00fasica da Linn da Quebrada que colocamos aqui em looping antes de come\u00e7armos essa fala. A justi\u00e7a foi um dispositivo para termos uma conversa com os artistas do Gaia. E Luis falou: \u201cO grito n\u00e3o acaba\u201d. A\u00ed ele gritou e falou: \u201cEst\u00e1 vendo? N\u00e3o acaba\u201d. Ent\u00e3o tem uma coisa da voz que permanece ali no imagin\u00e1rio, tem uma responsabilidade em torno dessa voz que \u00e9 o corpo \u2014 corpo, voz e vice-versa.<\/p>\n\n\n\n<p>Bom, eu, Sara e Carol vamos alternando e quem se sentir \u00e0 vontade para falar tamb\u00e9m&#8230; acho que tem uma coisa de uma conversa mais livre que a gente vai tocando junto.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Anna Carolina Vicentini<\/em><\/strong>: Boa tarde a todas, todos e todes. Como n\u00e3o pude estar no evento presencial, eu ganhei a oportunidade de editar o documento que registrou essa conversa. Ent\u00e3o eu gostaria de agradecer especialmente \u00e0 Jessica por permitir que, depois daquela ocasi\u00e3o, eu pudesse deixar algumas considera\u00e7\u00f5es a respeito desse tema, ao qual me dedico h\u00e1 cerca de oito anos. Na ocasi\u00e3o presencial, Natasha e Sara, duas mulheres muito queridas, leram o texto que escrevi na <em>Revista Cult<\/em>, em 2020, que chamei de \u201cStella do Patroc\u00ednio, ou o retorno de quem sempre esteve aqui\u201d \u2074 . Gostaria de agradecer por isso, mandar um beijo e saudar a Diana, por se comprometer em mudar os discursos produzidos a respeito de Stella do Patroc\u00ednio e do <em>falat\u00f3rio<\/em>. Tamb\u00e9m saudar Rog\u00e9ria, Lucas e Vanessa, pelas considera\u00e7\u00f5es de escuta.<\/p>\n\n\n\n<p>A licen\u00e7a, Stella, pra dizer a respeito da sua vida, mas pra refletir a nossa historiografia. Desde o in\u00edcio da minha pesquisa at\u00e9 hoje, \u00e9 evidente que houve transforma\u00e7\u00f5es importantes em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 recep\u00e7\u00e3o de Stella do Patroc\u00ednio. Como o texto que escrevi pode ser acessado na internet, gostaria de aproveitar este espa\u00e7o produzindo um outro texto, para que as costuras das conversas continuem alinhadas, mas com uma liberdade um pouco maior&#8230; Ali, naquele texto lido por Sara e Natasha, eu pretendi divulgar os principais resultados da minha pesquisa. Eu tinha um pouco de pressa de publicar alguma divulga\u00e7\u00e3o, porque penso que altera\u00e7\u00f5es graves na edi\u00e7\u00e3o do <em>falat\u00f3rio<\/em> e na biografia de Stella n\u00e3o podiam mais operar entre a gente como se fossem verdadeiras. Ent\u00e3o eu agora vou contar essa hist\u00f3ria j\u00e1 com os levantamentos do trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p>Stella do Patroc\u00ednio nasceu em 9 de janeiro de 1941, no Rio de Janeiro. Ela viveu durante 21 anos em liberdade, e essa parte da vida dela quase n\u00e3o se tem not\u00edcia, a n\u00e3o ser pelas mem\u00f3rias de um de seus sobrinhos, com quem conversei, e que morou com ela por alguns anos. Ele disse que ela vivia agarrada em cadernos, que pretendia conseguir outros empregos e n\u00e3o ficar s\u00f3 nos servi\u00e7os como dom\u00e9stica, como a m\u00e3e dela. Ele me falou que Stella lia e escrevia muito bem, e que essa maneira de elabora\u00e7\u00e3o de fala \u00e9 coisa dela e tamb\u00e9m da m\u00e3e dela, a Zilda Francisca. As duas tinham uma maneira bem parecida de se comunicar.<\/p>\n\n\n\n<p>Stella do Patroc\u00ednio teve alguns irm\u00e3os homens, que morreram cedo, e duas irm\u00e3s mulheres. Essas chegaram \u00e0 vida adulta, se casaram e tiveram filho(s), mas tamb\u00e9m j\u00e1 morreram. Nalguma manh\u00e3, tarde ou noite em Botafogo, quando Stella estava na rua Volunt\u00e1rios da P\u00e1tria, aos 21 anos, ela teve um incidente com a pol\u00edcia que iria mudar o rumo de sua vida pra sempre. Ela n\u00e3o estava sozinha, mas com o Luiz, um amigo. A pol\u00edcia pegou ela num sequestro e mandou ela pra um pronto-socorro, ali mesmo em Botafogo. Era 1962, l\u00e1 pra agosto. Ent\u00e3o levaram ela pra um hosp\u00edcio no Engenho de Dentro que j\u00e1 tinha internado a m\u00e3e dela, com o diagn\u00f3stico de depress\u00e3o. Zilda j\u00e1 tinha perdido tr\u00eas filhos homens. E foi parar no hosp\u00edcio por causa de depress\u00e3o. Stella e suas irm\u00e3s cresceram apartadas da m\u00e3e.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, quando Stella chegou ali, no Engenho, a Zilda j\u00e1 estava na Juliano Moreira, s\u00f3 que Stella tamb\u00e9m foi transferida pra l\u00e1. Em 1966 elas come\u00e7aram a conviver no mesmo N\u00facleo, o Teixeira Brand\u00e3o. Nenhuma das duas tinha nenhuma prerrogativa de alta m\u00e9dica. Nessa \u00e9poca, a Juliano Moreira era destinada pras pessoas que morreriam ali, sem prerrogativa de alta m\u00e9dica, funcionando como um verdadeiro \u201cfim de linha\u201d dos hospitais psiqui\u00e1tricos do Rio de Janeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Nem aviso de morte eles davam pra fam\u00edlia. O sobrinho de Stella disse que ia com a m\u00e3e fazer visitas pra Stella e pra Zilda, mas num dia que eles chegaram l\u00e1 \u2014 e a data aproximada ele n\u00e3o se lembra \u2014 deram a not\u00edcia da morte da Zilda. Ela j\u00e1 tinha sido enterrada e como indigente. S\u00f3 contaram porque algu\u00e9m perguntou.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos anos 1980 \u00e9 que a coisa come\u00e7ou a mudar, e agora queria atentar que t\u00f4 contando sobre a biografia de Stella, mas t\u00f4 contando sobre a historiografia dos hosp\u00edcios no Brasil: como eles funcionavam, como a pol\u00edcia agia pra higienizar as cidades, enfiando as pessoas nos hosp\u00edcios. Eles diziam que precisavam tratar doen\u00e7as, mas na realidade estavam encarcerando mesmo, produzindo doen\u00e7a, retirando a liberdade, impedindo o direito de ir e vir, transformando pessoas em pacientes e tirando delas at\u00e9 o pr\u00f3prio poder de fala. Comumente hosp\u00edcios foram denunciados por maus tratos, tortura com eletrochoque e outros. O diagn\u00f3stico era a senten\u00e7a \u00e0 pris\u00e3o hospitalar e tamb\u00e9m ao sil\u00eancio, porque tudo o que uma pessoa com diagn\u00f3stico dizia era entendido como inverdade, como del\u00edrio, como algo que n\u00e3o poderia ser levado em considera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o a gente j\u00e1 pode perceber que t\u00e1 diante de uma hist\u00f3ria que perpetua viol\u00eancias nesse n\u00facleo familiar. No fim dos anos 1980, a Zilda j\u00e1 tinha morrido, mas Stella ainda estava no hospital psiqui\u00e1trico, tomando eletrochoque, sendo vigiada, tendo que dividir o mesmo espa\u00e7o com um mundar\u00e9u de mulher, porque os quartos eram superlotados, n\u00e3o tinha privacidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela, que antes estudava pra conseguir outros tipos de trabalho, foi pega pela pol\u00edcia, essa mesma institui\u00e7\u00e3o que ainda hoje produz morte e encarceramento. Sobretudo de pessoas negras, como Stella e Zilda. Ent\u00e3o n\u00e3o deu tempo. A pol\u00edcia chegou antes de Stella realizar o que pretendia; o hosp\u00edcio chegou antes, e eles vieram pra deter, controlar, interromper.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso tudo, esses problemas do hosp\u00edcio, come\u00e7aram a ser discutidos nos anos 1980, quando um movimento come\u00e7ou a ganhar \u00eanfase no Brasil. Ele se chamou Luta Antimanicomial. Esse movimento est\u00e1 operante ainda hoje e enfrenta v\u00e1rios desafios, mas agora s\u00e3o outros. Naquele in\u00edcio da consolida\u00e7\u00e3o da Luta Antimanicomial, o intuito era mudar a operacionaliza\u00e7\u00e3o das pr\u00e1ticas e saberes <em>psis<\/em>. Eles come\u00e7aram a reivindicar espa\u00e7os de sa\u00fade para popula\u00e7\u00f5es que precisavam de cuidados m\u00e9dicos no campo da sa\u00fade mental. Os hosp\u00edcios s\u00e3o historicamente um lugar de produ\u00e7\u00e3o de doen\u00e7a e de tortura deliberada. Stella do Patroc\u00ednio falava disso tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o come\u00e7aram a perceber que o eletrochoque, a superlota\u00e7\u00e3o, os castigos, as vig\u00edlias, o aprisionamento em regime fechado, a explora\u00e7\u00e3o de trabalho, muitas vezes tamb\u00e9m graves abusos de autoridade e viol\u00eancias acometidas pelos guardas eram pr\u00e1ticas recorrentes desses lugares. Tem at\u00e9 um trabalho chamado <em>Holocausto Brasileiro<\/em>, que \u00e9 fruto da pesquisa da jornalista Daniela Arbex l\u00e1 em um hosp\u00edcio de Minas Gerais. Aquele hosp\u00edcio foi o respons\u00e1vel por um dos grandes genoc\u00eddios do Brasil. L\u00e1 aconteceram algumas singularidades, mas muito daquele funcionamento desumano \u00e9 regra, n\u00e3o exce\u00e7\u00e3o, nas unidades de asilo. Os hosp\u00edcios s\u00e3o um aparelho de genoc\u00eddio, de memoric\u00eddio, de tortura. \u00c9 bem doloroso ter que dizer esse tipo de coisa, mas esse passado precisa ser contado dando a responsabilidade pra quem de fato a possui.<\/p>\n\n\n\n<p>A\u00ed que no espa\u00e7o da Col\u00f4nia Juliano Moreira n\u00e3o foi diferente. Esse espa\u00e7o herdou n\u00e3o s\u00f3 o terreno, mas muitas das pr\u00e1ticas escravocratas. Digo isso porque, antes de se tornar hosp\u00edcio, o lugar era uma fazenda escravista. Igual o atual Instituto Municipal Nise da Silveira (antigo Hospital Psiqui\u00e1trico Pedro II), ali\u00e1s. Da\u00ed que esses antimanicomiais passaram a querer transformar aqueles ambientes. Eles reivindicavam, entre outras coisas, a humaniza\u00e7\u00e3o das pr\u00e1ticas de assist\u00eancia \u00e0 sa\u00fade. Os maus tratos eram realmente um esc\u00e2ndalo. Saiu mat\u00e9ria sobre a precariedade da Col\u00f4nia Juliano Moreira mais ou menos nessa \u00e9poca, nos anos 1980. Essa reportagem passou no <em>Fant\u00e1stico<\/em> e reverberou bastante, pelo choque dos telespectadores e diversos meios de comunica\u00e7\u00e3o noticiados de que aquilo acontecia no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>E quem era a popula\u00e7\u00e3o majorit\u00e1ria? Pessoas negras, mulheres, pessoas com baixa renda e baixa escolaridade, com pouco ou nenhum v\u00ednculo familiar. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas de que estamos falando de higiene social, racismo, sexismo, guerra de classes e outros problemas mais que constituem a nossa forma\u00e7\u00e3o nacional. Crimes, n\u00e9? S\u00e3o crimes de Estado. Isso precisa ser colocado com nome. Eu n\u00e3o consigo chamar de outro jeito.<\/p>\n\n\n\n<p>Na vida institucional de Stella, a coisa come\u00e7ou a mudar com a chegada de um projeto de humaniza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o asilar, gra\u00e7as a pessoas antimanicomiais que agora trabalhavam na Juliano Moreira. Ent\u00e3o criaram um projeto de arte. Uma das assistentes desse projeto, que se consolidou como um ateli\u00ea livre de produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica, come\u00e7ou a gravar o que Stella do Patroc\u00ednio falava. Essa era Carla Guagliardi, que at\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s guardou o acervo do <em>falat\u00f3rio<\/em> em fitas. Eu me lembro de quando ela passou pra CD, na ocasi\u00e3o em que pedi os arquivos pra ela. O projeto durou pouco, de 1986 a 1988, mas outra pessoa entrou nessa hist\u00f3ria pra gravar o <em>falat\u00f3rio<\/em> tamb\u00e9m, e essa pessoa fez um trabalho muito bonito, porque al\u00e9m de gravar e conversar com Stella, ela tamb\u00e9m levantou dados biogr\u00e1ficos dela, procurou familiares, porque ela queria que Stella recebesse alta. Ela me disse, quando conversamos, que ela queria dar um passado a quem n\u00e3o tinha mais esse passado. Mas ela n\u00e3o conseguiu encontrar ningu\u00e9m na \u00e9poca, entre os anos 1990 e 1991. Eu t\u00f4 falando da M\u00f4nica Ribeiro de Souza, que trabalhava como estagi\u00e1ria em psicologia. A M\u00f4nica foi a primeira funcion\u00e1ria da sa\u00fade a registrar, nos arquivos do hospital, que Stella declamava poesia, retirando a fala dela do lugar do del\u00edrio que n\u00e3o consegue comunicar. Dando uma escuta outra para aquilo que Stella estava comunicando, e muitos funcion\u00e1rios riam dela por isso. M\u00f4nica n\u00e3o dava ouvidos pros risos e deboches, ela estava interessada em realmente conseguir uma alta m\u00e9dica, uma possibilidade de libera\u00e7\u00e3o de Stella daquele lugar onde ela nunca devia ter ido parar. M\u00f4nica chegou a datilografar transcri\u00e7\u00f5es daquelas conversas com Stella, pegou algumas coisas dos \u00e1udios da Carla e fez um livrinho, que entregou como relat\u00f3rio, chamado <em>Versos, reversos, pensamentos e algo mais&#8230; <\/em>Essa tamb\u00e9m foi a primeira vez que o <em>falat\u00f3rio<\/em> foi transcrito e colocado em formato versificado.<\/p>\n\n\n\n<p>Ali tem bastante coisa do <em>falat\u00f3rio<\/em> que n\u00e3o tem nos \u00e1udios da Carla Guagliardi. Outras conversas, outros rumos. As fitas se perderam, ent\u00e3o ficou o registro escrito. Foi s\u00f3 durante os anos 1986 at\u00e9 1991 que os registros do <em>falat\u00f3rio<\/em> foram feitos. Esse \u00e9 o legado intelectual que temos acesso, que Stella do Patroc\u00ednio nos deixou. E tamb\u00e9m um caderno onde escreveu, desenhou flores, contornou as suas m\u00e3os, jogou o jogo da velha.<\/p>\n\n\n\n<p>Postumamente, quase dez anos depois de Stella ter morrido, uma fil\u00f3sofa, Viviane Mos\u00e9, editou e selecionou esse material, tanto de M\u00f4nica quanto de Carla, e produziu um livro que acabou nomeando Stella do Patroc\u00ednio como uma poeta brasileira. <em>Reino dos bichos e dos animais \u00e9 o meu nome<\/em>, publicado em 2001 pela Azougue editorial, apresentou Stella do Patroc\u00ednio fora do contexto hospitalar, no mercado liter\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o jeito que isso aconteceu repetiu bastante as narrativas l\u00e1 do hosp\u00edcio. Por exemplo, uma coisa que sempre me botou uma pulga era: como uma poeta \u00e9 apresentada com uma biografia que s\u00f3 fala de a\u00e7\u00e3o de terceiros e nunca dela mesma? Por que a biografia dela est\u00e1 inteiramente associada \u00e0 interna\u00e7\u00e3o de car\u00e1ter involunt\u00e1rio? Como \u00e9 que as coisas s\u00e3o t\u00e3o dadas de barato que as pr\u00e1ticas do hosp\u00edcio, os motivos de interna\u00e7\u00e3o, o pr\u00f3prio <em>falat\u00f3rio<\/em> n\u00e3o s\u00e3o informa\u00e7\u00f5es consideradas pra que se apresente essa trajet\u00f3ria?<\/p>\n\n\n\n<p>Aos poucos, fui percebendo que Stella est\u00e1 menos atrelada ao hosp\u00edcio do que aqueles que a narram. Isso porque aquele foi um espa\u00e7o sempre negado por ela. Escuta, p\u00f4, ela t\u00e1 falando, \u00e9 disso que se trata. Ent\u00e3o a literatura acabou produzindo, novamente, uma outra. Ent\u00e3o, se o <em>falat\u00f3rio<\/em>, que \u00e9 a voz dela, foi reconhecido sem que tenha sido ouvido de fato, esse reconhecimento \u00e9 parcial.<\/p>\n\n\n\n<p>Nem mesmo o nome dela era escrito corretamente. N\u00e3o s\u00f3 a biografia, mas o pr\u00f3prio nome de Stella foi mutilado. No caderno onde ela fez anota\u00e7\u00f5es e desenhos, ela escreveu o seu nome a pr\u00f3prio punho: Stella do Patroc\u00ednio. Assim, com dois L, n\u00e3o apenas um, como o livro a apresentou. Quer dizer, essa mulher, denominada poeta em 2001, ao mesmo tempo que se tornou vis\u00edvel, foi invisibilizada. Stella \u00e9 poeta e personagem pra essa literatura que a autorizou no mercado liter\u00e1rio. Essas narrativas todas foram constru\u00eddas n\u00e3o s\u00f3 \u00e0 sua revelia, como em nega\u00e7\u00e3o ao que ela dizia.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois que o livro fala que Stella n\u00e3o recebia visitas, o que tamb\u00e9m \u00e9 um erro. Isso produz a ideia de que ela tinha sofrido abandono familiar, o que \u00e9 muito diferente de ter sido capturada pela pol\u00edcia e negligenciada pelo hosp\u00edcio. As hist\u00f3rias n\u00e3o foram devidamente contadas. De novo, queria dizer que Stella mesma conta esse momento em mais de uma ocasi\u00e3o. O motivo de morte dela foi tamb\u00e9m narrado de uma maneira question\u00e1vel. O livro diz que ela se recusou a falar e a comer, entrando em total mutismo, mas na realidade ela sofria as consequ\u00eancias de uma amputa\u00e7\u00e3o, sendo uma pessoa com diabetes que teve complica\u00e7\u00f5es e entrou em estado de torpor antes do coma, que anunciava a sua morte em 20 de outubro de 1992. Stella foi enterrada como indigente, igualzinho aconteceu com a sua m\u00e3e. N\u00e3o existem restos mortais. Elas n\u00e3o tiveram direito a um t\u00famulo nem mesmo a uma gaveta.<\/p>\n\n\n\n<p>Se o <em>falat\u00f3rio<\/em> \u00e9 uma contraofensiva, se \u00e9 a nega\u00e7\u00e3o dos discursos hegem\u00f4nicos produzidos a respeito das institui\u00e7\u00f5es asilares, da pr\u00f3pria Stella do Patroc\u00ednio e de tens\u00f5es raciais, sociais e pol\u00edticas no Brasil, e ele pode ser lido \u00e0 luz de tudo isso, ent\u00e3o faz sentido que a literatura, com sua trajet\u00f3ria t\u00e3o marcada por diversos jogos de poder, o silencie. A literatura operou como outra grande sentenciadora de Stella, que pretendeu dar a palavra final a respeito dela. Que, falando sobre essa trajet\u00f3ria de vida, jogou toda a responsabilidade no colo de Stella do Patroc\u00ednio. Ent\u00e3o, olhar pra tudo isso, colocando os devidos contextos, \u00e9 uma tarefa que n\u00e3o pode ser deixada de escanteio. Essa hist\u00f3ria precisa ser contada direito \u2014 e, se for contada direito, ela vai trazer \u00e0 tona muita merda em rela\u00e7\u00e3o aos poderes de Estado, ao funcionamento dos hospitais psiqui\u00e1tricos, \u00e0 nossa forma\u00e7\u00e3o nacional, entre outros.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o posso deixar de mencionar, pra finalizar, que percebi \u2014 na etapa de compara\u00e7\u00e3o do livro com as fontes originais utilizadas para a sua produ\u00e7\u00e3o \u2014 que, al\u00e9m de inserir palavras, recortar trechos e reordenar senten\u00e7as, entre outros, a equipe de editora\u00e7\u00e3o deixou escapar uma enuncia\u00e7\u00e3o que, na realidade, n\u00e3o \u00e9 de Stella, mas de Ivonete Barbosa, tamb\u00e9m internada no Teixeira Brand\u00e3o durante os anos 1980. Ivonete apareceu em um document\u00e1rio chamado <em>Strultifera Navis<\/em>, dirigido por Clodoaldo Lino.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse poema do livro acabou circulando diversas vezes em pe\u00e7as de teatro, revistas de divulga\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria e trabalhos acad\u00eamicos:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">Nasci louca<br>Meus pais queriam que eu fosse louca<br>Os normais tinham inveja de mim<br>ue era louca.<\/p>\n\n\n\n<p>Aos 15 minutos e 45 segundos, Ivonete aparece no document\u00e1rio, enunciando exatamente as mesmas palavras. Seu discurso \u00e9 mais longo, ele tamb\u00e9m foi cortado, transcrito e versificado para compor <em>Reino<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta descoberta foi bastante importante porque n\u00e3o h\u00e1 nenhum ind\u00edcio de que Stella do Patroc\u00ednio elogie a loucura. Ela jamais se refere ao seu diagn\u00f3stico com o termo \u201cloucura\u201d, mas \u201cdoen\u00e7a mental\u201d. Esse termo que ela escolheu funciona como uma nega\u00e7\u00e3o do seu pertencimento naquele ambiente. Al\u00e9m disso, a inven\u00e7\u00e3o dessa autodenomina\u00e7\u00e3o de Stella como louca acompanha o apagamento da cr\u00edtica racial que Stella tamb\u00e9m faz ao narrar a sua captura.<\/p>\n\n\n\n<p>O <em>falat\u00f3rio<\/em> \u00e9 uma leitura a contrapelo do arquivo, e o livro a lan\u00e7ou cumprindo justamente um novo papel de arquivo, contra Stella, contra as suas narrativas, contra a sua mem\u00f3ria. Ent\u00e3o, estamos falando de uma trajet\u00f3ria em que mem\u00f3ria, esquecimento, visibilidade, invisibilidade, silenciamento, intelectualidade, objetifica\u00e7\u00e3o, reconhecimento, fetiche est\u00e3o operando. Todos os contrastes, nenhuma contradi\u00e7\u00e3o. Eles operam na trajet\u00f3ria de Stella do Patroc\u00ednio a todo momento e se conversam e se encontram.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu lamento profundamente que minha fala precise dizer esse tipo de coisa, como a defesa da necessidade de escuta do <em>falat\u00f3rio<\/em>. Defender o \u00f3bvio \u00e9 uma tarefa que n\u00e3o me agrada, mas que estou disposta a exercer quando for preciso.<\/p>\n\n\n\n<p>Para lembrar Stella, n\u00e3o podemos invent\u00e1-la.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu fico por aqui, que tem muito ch\u00e3o ainda de debate pela frente. Um abra\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Sara<\/em><\/strong>: Seu trabalho, Carol, al\u00e9m de toda a pesquisa documental que traz \u2014 fundamental, sobretudo quando a gente fala dos falsos arquivos e de como eles acabam construindo discursos, narrativas e prolifera\u00e7\u00f5es deliriosas sobre o outro \u2014, evidencia o cerne dos problemas \u00e9ticos dessa constru\u00e7\u00e3o de Stella. Quando enfatizamos o fato desse poema ter sido inclu\u00eddo no livro sem que tenha sido falado por Stella, sem que seja parte alguma do <em>falat\u00f3rio<\/em>, \u00e9 porque isso evidencia, de forma esdr\u00faxula, como a produ\u00e7\u00e3o de <em>commodities<\/em> culturais se sobrep\u00f4s \u00e0 textualidade em si de Stella. Esse foi um dos agenciamentos, feito atrav\u00e9s de viola\u00e7\u00e3o textual, para que essa representa\u00e7\u00e3o se tornasse vend\u00e1vel: um corpo negro louco, que proclama e elogia a pr\u00f3pria loucura.<\/p>\n\n\n\n<p>Stella exibe uma consci\u00eancia racial em suas falas que por muito tempo foi negada. Quando escutamos, percebemos isso muito bem e, da mesma forma, \u00e9 poss\u00edvel notar como todo esse discurso que elege uma voz da loucura n\u00e3o passou de uma constru\u00e7\u00e3o para atender a um agenciamento, fruto desse alinhamento entre a institui\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria e a institui\u00e7\u00e3o manicomial. Fazendo essa escuta atenta e passiva, conseguimos caminhar junto com Stella e n\u00e3o cair em armadilhas de fantasias epist\u00eamicas, equivocadas, e que realmente invisibilizam toda a filosofia, a poesia, a oralitura e os demais saberes que ela traz. O <em>falat\u00f3rio<\/em> tem poesia, tem filosofia, tem cr\u00edtica social, tem muitas facetas. Ele \u00e9 pleno de opacidade, e n\u00e3o pode ser resumido a uma \u00fanica coisa. Algo que precisamos sempre lembrar \u00e9 que esses arquivos que querem instaurar uma hist\u00f3ria \u00fanica a respeito desses corpos devem ser constantemente combatidos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Natasha<\/em><\/strong>: Uma coisa que a gente vive discutindo \u00e9 essa nuance da mudan\u00e7a de estatuto. Do estatuto da loucura, a Stella foi para o estatuto da poeta, mas sem ser desvencilhada da loucura, ent\u00e3o virou a poeta louca. Para ser considerada um objeto de interesse na literatura, \u00e9 importante que ela tenha essa minibio&#8230; todo o contexto de ter sido uma mulher encarcerada, sequestrada. Mas ter esse discurso da loucura atrelada \u00e0 literatura est\u00e1 muito ligado a uma historiografia, uma tradi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria de consumo e de constante busca fetichista e romantizada do que \u00e9 o Louco. E estamos falando de uma pessoa que passou mais de 30 anos da vida condenada ao estatuto da loucura. Sara, voc\u00ea pode falar tamb\u00e9m sobre os \u00e1udios estarem em dom\u00ednio p\u00fablico agora&#8230; E, assim, temos um novo olhar para a hist\u00f3ria da Stella, que n\u00e3o depende do livro, que n\u00e3o \u00e9 fidedigno, n\u00e3o \u00e9 veross\u00edmil aquilo, n\u00e3o \u00e9 compat\u00edvel \u00e0 voz.<\/p>\n\n\n\n<p>O que a Viviane Mos\u00e9 prop\u00f4s \u00e9 uma releitura, \u00e9 uma outra narrativa para o <em>falat\u00f3rio<\/em> da Stella, que n\u00e3o necessariamente corresponde ao que <em>\u00e9 <\/em>o <em>falat\u00f3rio<\/em>. \u00c9 importante dizer que conheci a Stella pelo livro, ent\u00e3o eu conheci pelo erro, como muitas pessoas. \u00c9 o primeiro contato que a gente tem. Essa \u00e9 uma oportunidade de revis\u00e3o cr\u00edtica porque partimos de um material que precisa ser revisitado, precisa ser analisado e precisa ser criticado, justamente porque nos coloca em contato com uma narrativa fragmentada. Tem uma problem\u00e1tica a\u00ed que \u00e9: depender do texto escrito encerra nossa leitura sobre Stella, nos distancia dela, n\u00e3o a escutamos de fato. Eu tive meu primeiro contato com esse livro h\u00e1 seis anos. Agora estou com 26, eu estava com 20 para 21 anos, ent\u00e3o era tudo muito novo. Naquela altura, tive a oportunidade de fazer uma performance no espet\u00e1culo Black Poetry, em S\u00e3o Paulo, com um fragmento do <em>Reino dos bichos e dos animais \u00e9 o meu nome<\/em>. A pessoa que me convidou para o projeto me perguntou: \u201cQue material, que poeta que voc\u00ea tem mais intimidade agora para a gente fazer essa performance teatral?\u201d. A\u00ed eu falei \u201cStella\u201d, porque eu estava lendo muito, estava decorando. Eu gosto de falar desse momento porque \u00e9 uma coisa que eu n\u00e3o repito mais. Junto com a performance, al\u00e9m da minha voz tinha um acompanhamento sonoro. E nesse acompanhamento tinha o uso intencional do <em>reverb<\/em>, que quando eu falava ficava ecoando, o que conotava e rememorava essa ideia do corpo esquizofr\u00eanico. Isso era uma escolha mobilizada pela est\u00e9tica apenas. Aquela escolha era um erro.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora, seis anos depois, principalmente depois de ter tido contato com Carol, depois com Sara, depois com outras pesquisadoras, como Jota Momba\u00e7a, a gente tem outras possibilidades de leitura para isso que n\u00e3o encerram essa chave da literatura com a loucura romantizada, porque aquilo foi sim um movimento de romantiza\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o \u00e9 cuidar para n\u00e3o repetir isso porque a gente est\u00e1 sempre suscet\u00edvel a essa narrativa, ela \u00e9 muito introjetada. Ent\u00e3o esse movimento de ter uma exposi\u00e7\u00e3o que provoca esses outros olhares para esse material, para esse corpo arquivo, \u00e9 importante para conseguir fabular outras rela\u00e7\u00f5es com esse corpo mesmo, mais do que a voz. Enfim, desde esse momento tudo mudou, tem sido um grande processo.<\/p>\n\n\n\n<p>Fiz uma performance mais recente com a Bianca Chioma, poeta de S\u00e3o Paulo, chamada <em>Muito bem patrocinada<\/em>. Essa performance ainda era baseada no texto da Viviane Mos\u00e9, n\u00f3s ainda n\u00e3o t\u00ednhamos acesso aos \u00e1udios. Naquela altura, Carol me chama no Instagram e fala: \u201cOlha, tem um poema do livro que n\u00e3o \u00e9 da Stella. Estou vendo que voc\u00ea est\u00e1 pesquisando a Stella, fazendo performances e estou acompanhando. Acho que a gente precisa conversar\u201d. Quando ela me mandou essa mensagem, pensei: \u201cQuem \u00e9 essa garota? O que \u00e9 isso?\u201d. Falei: \u201cPega o meu WhatsApp agora, vamos conversar\u201d. E a\u00ed ela me mostrou o document\u00e1rio e eu vi 30 mil vezes at\u00e9 entender que realmente era outra voz. \u201cEsse \u00e9 o \u00fanico poema do livro que a Stella reivindica a loucura, ela n\u00e3o faz isso em nenhum outro trecho do <em>falat\u00f3rio<\/em>, dos quatro CDs, isso n\u00e3o acontece\u201d. Eu falei: \u201cCaralho, quem \u00e9 essa mulher?\u201d. E a\u00ed foi isso. E desde ent\u00e3o a gente come\u00e7ou a trocar muito. Na pandemia, ent\u00e3o, a gente passava dias bebendo e conversando. A gente fazia assim, come\u00e7ava \u00e0s oito da noite e terminava \u00e0s seis da manh\u00e3 conversando e tendo toda uma rela\u00e7\u00e3o mais aproximada. Por que eu comecei a falar isso? Por conta da quest\u00e3o em torno da revis\u00e3o cr\u00edtica, porque ela vai se formulando ao longo do tempo. Ent\u00e3o acho que o livro, ao mesmo tempo que ele tem essa materialidade que permitiu que mais pessoas tivessem acesso a essa hist\u00f3ria, limita essa mem\u00f3ria. Agora que temos acesso aos \u00e1udios, sinto que o movimento que a gente tem que fazer \u00e9 se concentrar nisso, nesses \u00e1udios mesmo, porque ali \u00e9 onde Stella se anuncia. Se \u00e9 para entender ela como poeta, como \u00e9 que isso vem a partir da oralidade? Como \u00e9 que isso vem a partir da linguagem que ela formula nesse movimento de <em>oralitura<\/em> mesmo, da Leda Maria Martins, que \u00e9 do recurso da voz, n\u00e3o do papel. Acho que \u00e9 um pouco isso. Acho que d\u00e1 para voc\u00ea, Sara, falar um pouco do dom\u00ednio p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Sara<\/em><\/strong>: Eu tamb\u00e9m comecei errando. Comecei pelo livro, mas acho que a grande maioria tamb\u00e9m. A partir de agora talvez isso mude&#8230; a forma desse primeiro contato com Stella. Mas, de primeira, quando me deparei com aquele livro, eu fiquei me perguntando: \u201cO que \u00e9 isso?\u201d. Me desconcertou, me bagun\u00e7ou e eu n\u00e3o entendia muito bem o porqu\u00ea. Havia uma desconfian\u00e7a ali, mas que estava no registro do que era imposs\u00edvel nomear. Durante o mestrado, iniciei um processo de pesquisa da fortuna cr\u00edtica e, a partir da fortuna cr\u00edtica, que foi feita majoritariamente a partir desse arquivo do livro, eu come\u00e7o a sentir v\u00e1rios inc\u00f4modos. Tem de tudo. H\u00e1 trabalhos muito bons, que v\u00e3o por campos muito diversos&#8230; mas algumas constantes apareciam, como por exemplo essa perspectiva de colocar a textualidade de Stella ou no registro do del\u00edrio e da loucura, ou no registro da cultura m\u00ednima, do resqu\u00edcio do que \u00e9 cultura, daquilo que \u00e9 instintivo, que \u00e9 primitivo, que \u00e9 selvagem&#8230; termos que a tradi\u00e7\u00e3o ocidental branca usa, desde sempre, quando quer descrever os trabalhos afetivos e culturais da popula\u00e7\u00e3o negra.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando finalmente consegui ter acesso a esses \u00e1udios, e tamb\u00e9m atrav\u00e9s do trabalho da Carol, que firmou uma base comparativa interessante para pensar o que havia de diferente entre o livro e os \u00e1udios, pude perceber que esse poema que a gente j\u00e1 tratou aqui \u00e9 um exemplo, mas ele n\u00e3o \u00e9 um exemplo isolado, essa textualidade inteira \u00e9 constru\u00edda com base em corte, em desmembramento, em colagens. Existem outros versos que n\u00e3o est\u00e3o registrados em nenhum outro lugar e que foram acrescentados ali. Todo o trabalho de fortuna cr\u00edtica que surge a partir desse livro, apesar de a gente poder fazer cr\u00edticas individuais a cada texto, todos eles est\u00e3o sendo fundamentados a partir de um falso arquivo. Ent\u00e3o, de certa forma, n\u00e3o d\u00e1 para jogar toda essa problem\u00e1tica em cima dos trabalhos em si, mas em todo o movimento colonial, que \u00e9 o contexto amplo em que eles se inserem. O que a gente pode perceber \u00e9 que todo aparato colonial geralmente tem as mesmas estrat\u00e9gias: a captura, o desmembramento, a viola\u00e7\u00e3o. Isso foi o que aconteceu com o corpo de Stella, que foi apartado da sociabilidade, encarcerado no manic\u00f4mio, violado de diversas formas, e todas essas estrat\u00e9gias aconteceram tamb\u00e9m com a textualidade de Stella, com o <em>falat\u00f3rio<\/em>. Ent\u00e3o, vemos que as mesmas t\u00e1ticas da vida econ\u00f4mica e social colonial, assim como as bases do funcionamento das institui\u00e7\u00f5es, s\u00e3o reproduzidas nas institui\u00e7\u00f5es culturais, na literatura, nos museus e em todos esses espa\u00e7os de cultura. E a\u00ed, trocando muito com Carol, Natasha e Carla tamb\u00e9m, a gente foi compreendendo que de fato era urgente que Stella pudesse devolver, de alguma forma, pela voz dela mesmo, e que esses \u00e1udios estivessem n\u00e3o s\u00f3 em dom\u00ednio p\u00fablico. Se voc\u00ea disponibiliza esses \u00e1udios para um museu, por exemplo, eles est\u00e3o em dom\u00ednio p\u00fablico, mas um pesquisador que queira acessar teria que ir at\u00e9 um espa\u00e7o f\u00edsico, preencher todo um formul\u00e1rio para poder ter acesso. E ent\u00e3o entendemos a import\u00e2ncia do acesso p\u00fablico \u2014 esse foi o motivo da movimenta\u00e7\u00e3o para que esses \u00e1udios fossem disponibilizados junto a um trabalho acad\u00eamico, e, por coincid\u00eancia, acabou sendo o meu, para que estivessem associados a um reposit\u00f3rio <em>online<\/em> e institucional. Atualmente, eles est\u00e3o disponibilizados no reposit\u00f3rio da UNILA, que foi a universidade em que conclu\u00ed o mestrado\u2075.<\/p>\n\n\n\n<p>E, pensando nesse processo todo, a gente tamb\u00e9m decidiu fazer uma transcri\u00e7\u00e3o. E de novo, o foco agora, como a Natasha estava falando, \u00e9 \u00f3bvio que devem ser os \u00e1udios, porque por muito tempo foi o texto escrito e a gente p\u00f4de ver o tanto de problema que isso causou. E a voz \u00e9 um outro registro, existe modula\u00e7\u00e3o, existe timbre, intromiss\u00e3o. N\u00e3o era um espa\u00e7o reservado em que Stella e sua interlocutora estavam falando; elas estavam ali no N\u00facleo Teixeira Brand\u00e3o, dentro da institui\u00e7\u00e3o manicomial que internava mais de seiscentas mulheres. Havia muita coisa acontecendo. Havia toda uma tens\u00e3o envolvida naquela situa\u00e7\u00e3o que s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel de a gente sentir, e sentir minimamente, atrav\u00e9s desse arquivo que \u00e9 o mais pr\u00f3ximo da mem\u00f3ria viva: os \u00e1udios. Ali, ouvimos uma voz que sai de uma garganta, de um corpo. Eu acho que a letra ali, a escrita, j\u00e1 tira um pouco de corpo, j\u00e1 despersonifica um pouco. E a ideia dessa transcri\u00e7\u00e3o era que ela fosse integral, ent\u00e3o a gente buscou manter ao m\u00e1ximo os tra\u00e7os da oralidade, das interrup\u00e7\u00f5es, dos sons externos \u2014 de repente um carro passando, um gato miando, uma m\u00fasica de fundo. Ent\u00e3o, procuramos manter tudo isso, tendo em mente que \u00e9 uma tarefa dif\u00edcil, que \u00e9 uma tarefa cont\u00ednua e que n\u00e3o tem como haver uma transcri\u00e7\u00e3o oficial dos falat\u00f3rios de Stella \u2014 essa \u00e9 uma tarefa imposs\u00edvel. Mas a gente fez isso sobretudo pensando que nem todo mundo escuta, e que nem todo mundo pode ter acesso a bons equipamentos de \u00e1udio. A gente, por exemplo, ficou trocando, uma hora usava uma caixa de som, depois trocava por outra caixa de som, depois por um ou dois fones de ouvido diferentes. Tamb\u00e9m tentamos melhorar a qualidade dos \u00e1udios, diminuir o ru\u00eddo aqui, elevar o volume ali, esse tipo de coisa. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Sua voz \u00e9 sua, \u00e9 sua identidade. Mas a oralidade tem disso: muita coisa que nenhuma de n\u00f3s tr\u00eas havia escutado sozinha, juntas a gente conseguiu escutar, ent\u00e3o por isso que eu acho que esse movimento aqui pode trazer muita coisa interessante para a gente. Eu acho que o convite \u00e9 esse. Ent\u00e3o, se a Natasha quiser acrescentar alguma coisa, eu posso ir procurando os arquivos pra gente escutar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Natasha<\/em><\/strong>: Eu ia falar desse processo que durou uns tr\u00eas dias, que foram os dias em que a gente estava se conhecendo. Era: \u201cOi, boa noite. Senta a\u00ed, bota o fone\u201d. E tiveram trechos que a gente voltava, a gente ficava uns 20 minutos: \u201cN\u00e3o, volta, \u00e9 \u2018se\u2019 ou \u2018e\u2019?\u201d, porque mudava tudo. E na transcri\u00e7\u00e3o foi um trabalho exaustivo de tentar realmente estar o mais pr\u00f3ximo poss\u00edvel do que \u00e9 a voz. Voc\u00ea quer comentar?<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Sara<\/em><\/strong>: N\u00e3o, s\u00f3 falando que teve uma lista tamb\u00e9m de marca\u00e7\u00f5es para tentar sinalizar isso.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Natasha<\/em><\/strong>: \u00c9. A gente fez um mapa, um c\u00f3digozinho, uma esp\u00e9cie de navegador para a pessoa conseguir entender melhor as escolhas gr\u00e1ficas para poder atribuir ritmo, para fazer as marca\u00e7\u00f5es de intromiss\u00e3o. Tem tudo isso e junto com a nota das transcritoras que a gente escreveu. A gente entrou em um processo de fazer essa transcri\u00e7\u00e3o, e dois meses depois a gente estava morando juntas. Foi isso que aconteceu, essa foi a hist\u00f3ria. Sara veio do Tocantins, Carol do interior de S\u00e3o Paulo e eu de Santos. E esse processo foi intensificado. Ent\u00e3o, quando eu recebi o convite para fazer o trabalho aqui para o museu, tinham outras quest\u00f5es no meio disso, inclusive afetivas. Aconteceu que eu fiz uma escolha de me relacionar com uma parte espec\u00edfica do <em>falat\u00f3rio<\/em>, que \u00e9 a parte em que a Stella fala do \u201cmalezinho prazeres\u201d. Ela diz: \u201cEu sou um malezinho prazeres\u201d. Tem uma coisa do malezinho prazeres que \u00e9 um momento em que a Stella se dedica a fabular a pr\u00f3pria hist\u00f3ria de um jeito muito espec\u00edfico e que ela cria essa express\u00e3o. Eu n\u00e3o encontrei nenhum registro do que seria o malezinho prazeres&#8230; topei com a Revolta dos Mal\u00eas, um bloco de carnaval em Salvador chamado Malezinhos e s\u00f3. \u00c9 um momento em que ela est\u00e1 falando: \u201cEu quero fazer uma maldade, eu quero sair daqui\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Sara<\/em><\/strong>: Esse \u00e9 o do malezinho.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Natasha<\/em><\/strong>: Quer colocar? Que a\u00ed eu n\u00e3o explico, a gente escuta.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Falat\u00f3rio<em>:<\/em><\/strong> [Stella com letra em it\u00e1lico \/ interlocutor com letra regular]<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p><em>N\u00e3o quero ir n\u00e3o<\/em>. Eu t\u00f4 com tanta saudade de voc\u00ea, Stella. <em>Hoje \u00e9 quarta-feira<\/em>. Pois \u00e9, \u00e9 o dia que eu venho te ver. <em>Eles n\u00e3o querem deixar mais eu passar pelo port\u00e3o<\/em>. Mas a gente n\u00e3o vai no port\u00e3o n\u00e3o, a gente s\u00f3 vai ali no galp\u00e3o ficar sentadinha ali no galp\u00e3o. <em>Ah n\u00e3o quero ir n\u00e3o<\/em>. C\u00ea t\u00e1 com frio? <em>(N\u00e3o t\u00f4) est\u00e1 fazendo muito frio mas agora o frio j\u00e1 passou<\/em>. Essa noite c\u00ea sentiu frio? <em>Senti<\/em>. N\u00e3o tinha cobertor? <em>Tinha<\/em>. Voc\u00ea hoje t\u00e1 tristinha [parece falar com outra pessoa: n\u00e3o, n\u00e3o mexe, n\u00e3o mexe &lt;t\u00e1 vermelho&gt;]. <em>\u00c9 porque eu n\u00e3o sei o que fazer da minha vida por isso \u00e9 que eu t\u00f4 triste. E fico vendo tudo em cima da minha cabe\u00e7a em cima do meu corpo. Toda hora me procurando me procurando, e eu j\u00e1 carregada de rela\u00e7\u00e3o sexual, j\u00e1 fodida, botando o mundo inteiro pra gozar e sem gozo nenhum.<\/em><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p><strong><em>Natasha<\/em><\/strong>: \u00c9, n\u00e3o \u00e9 essa parte n\u00e3o. A gente separou tr\u00eas \u00e1udios.<\/p>\n\n\n\n<p>CD um, \u00e1udio dois. Mas a gente fez o corte.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Diana<\/em><\/strong>: Que ela fala que quer p\u00f4r a fam\u00edlia de cabe\u00e7a para baixo?<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Natasha<\/em><\/strong>: \u00c9. Ela fala que vai botar a fam\u00edlia de cabe\u00e7a para baixo. Enfim, eu parti desse trecho espec\u00edfico, porque escutar Stella \u00e9 muito dif\u00edcil tamb\u00e9m, exige muito uma disponibilidade para ter uma rela\u00e7\u00e3o com uma fala que \u00e9 de quem foi violentado durante muito tempo, a vida inteira. E isso est\u00e1 impresso na voz, n\u00e3o tem jeito, isso \u00e9 incontorn\u00e1vel. Todos os \u00e1udios t\u00eam essa rela\u00e7\u00e3o que \u00e9 muito dura tamb\u00e9m. Tanto que a primeira vez foi isso, um choque. N\u00e3o foi uma sensa\u00e7\u00e3o de: \u201cNossa, que coisa maravilhosa\u201d. Foi uma ang\u00fastia, porque \u00e9 muito distante ao mesmo tempo, tanto a realidade dali, daquela situa\u00e7\u00e3o espec\u00edfica, quanto temporalmente daquele corpo. Tem umas dist\u00e2ncias ali e umas aproxima\u00e7\u00f5es que v\u00e3o acontecendo por meio da imagina\u00e7\u00e3o. A voz traz isso. E a\u00ed o que aconteceu foi que, em paralelo ao movimento de pensar o trabalho para c\u00e1, eu estava come\u00e7ando a me relacionar com a minha av\u00f3 paterna, que \u00e9 a Antenora Francisca Santos.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu conheci a Antenora em dezembro do ano passado. Tem uma hist\u00f3ria muito complexa familiar para a gente n\u00e3o ter se conhecido antes, mas a gente se conheceu em um sonho na pandemia em que Antenora me ligava, e quando eu atendia a Stella falava comigo. E, desde ent\u00e3o, isso foi um disparador para que eu tomasse um pouco as r\u00e9deas da situa\u00e7\u00e3o e falasse: \u201cN\u00e3o, eu vou atr\u00e1s dessa pessoa, preciso conhecer ela. Ela est\u00e1 aqui em mim de alguma maneira e eu preciso entender o que \u00e9 isso\u201d. Demorou uns meses, pandemia, e em dezembro do ano passado eu fui para Santos e, no Natal, eu fui at\u00e9 a casa dela e a gente come\u00e7ou uma hist\u00f3ria juntas. E a minha av\u00f3, essa mulher preta, sapat\u00e3o, incr\u00edvel, que foi cafetina, que foi cobradora, dona de bar, distribuiu panfleto para a Leci Brand\u00e3o agora h\u00e1 pouco, muitas coisas e muitas facetas, que na real a gente se relacionou de um jeito muito bonito. E a\u00ed quando eu recebi o convite para c\u00e1, eu falei: \u201cPreciso fazer essa triangula\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tem como eu escapar disso. Isso est\u00e1 no meio, n\u00e3o consigo parar de pensar nela\u201d. Ent\u00e3o aqui na exposi\u00e7\u00e3o tem uma fotografia da minha av\u00f3 que tirei em um dos nossos encontros, e a performance que eu fiz no dia da abertura, junto com Saskia e Heleine Fernandes, veio desse lugar do que \u00e9 um malezinho prazeres. Por que a\u00ed, qual foi a triangula\u00e7\u00e3o? A minha av\u00f3 \u00e9 um malezinho prazeres. Ela \u00e9 essa pessoa da inven\u00e7\u00e3o, da criatividade, do desbunde, do deboche. Porque tem um lugar muito espec\u00edfico do malezinho prazeres na minha leitura de quase um deboche em rela\u00e7\u00e3o \u00e0quela viol\u00eancia. \u00c9 uma devolutiva do tipo: \u201cEu vou matar a fam\u00edlia inteira e \u00e9 isso que eu vou fazer, eu vou pular o muro porque eu sou malezinho prazeres, eu fa\u00e7o essas maldades\u201d. Tem isso. Mas n\u00e3o \u00e9 o que ela faz efetivamente, ela est\u00e1 criando aquela situa\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma devolutiva, \u00e9 uma resposta. E eu sinto que minha av\u00f3 era essa pessoa que incorporava isso na experi\u00eancia dela. E a\u00ed em paralelo a isso eu estava lendo <em>Belos Experimentos<\/em>, da Saidiya Hartman, que traz essa narrativa de mulheres negras desde uma perspectiva da fabula\u00e7\u00e3o, da cria\u00e7\u00e3o, da experimentalidade da vida. Eu sinto que a minha av\u00f3 \u00e9 muito experimental, uma vida muito experimental. Na primeira vez que a gente se conheceu, eu falei: \u201cAntenora, tu conhece todo mundo\u201d, porque era o homem do g\u00e1s parando para falar com ela, era a mulher da banquinha de jornal, era n\u00e3o sei quem. A\u00ed ela virou para mim e falou assim: \u201cNatasha, quem n\u00e3o conhece Antenora, n\u00e3o conhece ningu\u00e9m, nem deus\u201d. Eu olhei para aquilo e falei: \u201cQue pessoa \u00e9 essa?\u201d. Era um dos primeiros contatos com ela. Ent\u00e3o isso ficou na minha cabe\u00e7a. Para a exposi\u00e7\u00e3o, fotografia n\u00e3o \u00e9 uma coisa que eu me relaciono, eu sou da poesia mesmo, ent\u00e3o foi um desafio tamb\u00e9m. Acho que teve uma vontade de trazer a imagem dela por causa da gestualidade negra. A gente est\u00e1 vendo a Stella nessa fotografia em situa\u00e7\u00e3o de liberdade, ela est\u00e1 em outro registro, est\u00e1 com um vestido bonito, ela est\u00e1 no meio da rua. \u00c9 outra narrativa que se cria em torno dessa mem\u00f3ria tamb\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a foto dentro do manic\u00f4mio. A\u00ed eu fiz essa pesquisa e, duas semanas antes da exposi\u00e7\u00e3o abrir, minha av\u00f3 faleceu. Ent\u00e3o para mim se tornou mais importante ainda fazer essa performance, fazer esse trabalho do jeito que foi. E eu contei para ela, eu falei desse sonho para ela. E a\u00ed eu dei risada, falando: \u201cIsso aqui \u00e9 besteira\u201d, e ela ficou muito s\u00e9ria, olhando para mim. E uma pessoa do ax\u00e9, toda uma outra rela\u00e7\u00e3o com o mundo tamb\u00e9m. Enfim, ent\u00e3o tem muitas camadas no meio dessa hist\u00f3ria, inclusive afetivas. Por isso um respeito em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 hist\u00f3ria que vai se construindo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Falat\u00f3rio<\/em><\/strong>:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p><em>Se eu pego a fam\u00edlia toda de cabe\u00e7a pra baixo e perna pra cima, botei tudo dentro da lata do lixo e fazer um aborto. Ser\u00e1 que acontece alguma coisa comigo, v\u00e3o me fazer alguma coisa? Se eu pegar durante a noite novamente, a fam\u00edlia toda de cabe\u00e7a para baixo e perna para cima, jogar l\u00e1 de dentro pra fora, l\u00e1 de cima c\u00e1 pra baixo, ser\u00e1 que ainda vai continuar acontecendo alguma coisa comigo?<\/em><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>O que voc\u00ea tem medo de acontecer? <em>Se eu viro um cavalo ou um cachorro.<\/em> N\u00e3o, n\u00e3o vai acontecer isso. Todo mundo tem esses pensamentos. O ser humano tem bons pensamentos e maus pensamentos, isso faz parte da nossa vida. N\u00e3o vai acontecer nada, pode pensar \u00e0 vontade. \u00c9 uma coisa que \u00e9 toda tua e do teu pensamento, ningu\u00e9m pode invadir. \u00c9 o teu arquivo, a tua mem\u00f3ria, a tua fantasia.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p><em>E eu inda penso mais assim, um malezinho. <\/em>Hm. <em>Se eu rasgar aquela pesada no meio de meio a meio, der der der lambada no ch\u00e3o, na parede, jogar fora, no meio do mato, ou do outro lado de l\u00e1 do muro, \u00e9 um malezinho prazeres. <\/em>\u00c9 o que?<em> Um malezinho prazeres. <\/em>Ah, t\u00e1. C\u00ea quer matar a fam\u00edlia, n\u00e9, Stella? <em>Matar a fam\u00edlia toda. Que fa\u00e7a um carro, bote tudo morto e v\u00e1 pra longe.<\/em> E quem \u00e9 essa fam\u00edlia? Teu pai, tua m\u00e3e. <em>N\u00e3o, \u00e9 essa fam\u00edlia que t\u00e1 morando e me perseguindo aqui no Teixeira. <\/em>Ah, t\u00e1. Quem \u00e9 que t\u00e1 te perseguindo? <em>Olha quantos est\u00e3o comigo.<\/em> Ah. <em>T\u00e3o sozinhos, est\u00e3o fingindo que t\u00e3o sozinhos, pra poder t\u00e1 comigo <\/em>Hm<em>.<\/em> C\u00ea n\u00e3o se sente bem aqui? C\u00ea se sente perseguida? <em>Me sinto perseguida porque eu passo muita fome sinto muita sede muito sono muita pregui\u00e7a muito cansa\u00e7o.<\/em> N\u00e3o tem o que fazer, n\u00e9, Stella? <em>N\u00c3O tem, fico na malandragem na vagabundagem como marginal, e como malandra<\/em>. \u00c9, isso \u00e9 que faz mal. <em>Como marginal como malandra, na malandragem, na vagabundagem, na vadiagem como marginal<\/em>. E c\u00ea tinha vontade de fazer o que aqui, se tivesse um tipo de trabalho pra voc\u00ea fazer, o que que o que c\u00ea escolheria? <em>Comer beber e fumar.<\/em> Mas isso n\u00e3o \u00e9 trabalho, isso n\u00e3o \u00e9 produ\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea pra, pra poder. <em>Isso mesmo porque eu APRENDI \u00c0 FOR\u00c7A<\/em> Quem que te ensinou \u00e0 for\u00e7a? <em>Foi o&#8230; o homem que tirou uma foda comigo e teve rela\u00e7\u00e3o sexual comigo, que me mordeu chupou roeu lambeu e deu dentada e s\u00f3 se fosse na boca&#8230; sem que eu menos esperasse.<\/em><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p><strong><em>Sara<\/em><\/strong>: Deu para entender o que \u00e9 o malezinho, n\u00e9? Acho que quando Stella elabora isso do malezinho prazer, me faz lembrar muito de alguns textos do Fanon, de algumas coloca\u00e7\u00f5es do Mbembe. Eu sinto que o que Stella est\u00e1 operando aqui nesse momento, como a Natasha coloca, \u00e9 uma fabula\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 a fabula\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia com quem te oprime, uma viol\u00eancia que pode entrar nesse registro de viol\u00eancia que emancipa. Nada desse discurso de pacifista, de que o amor vai resolver todos os nossos problemas estruturais e sist\u00eamicos, mas de colocar a viol\u00eancia, ainda que seja pela fabula\u00e7\u00e3o, pela arte ou pela poesia, como protagonista de uma trama cujo objetivo \u00e9 escapar de alguma forma, de fugir de alguma forma dessas amarras.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 um mecanismo de autodefesa. O que ela possui nesse momento \u00e9 a voz dela. Existe ali uma rea\u00e7\u00e3o dial\u00f3gica, com uma hierarquia claramente definida \u2014 s\u00e3o as interlocutoras, as estagi\u00e1rias, as artistas, e Stella, uma paciente que n\u00e3o pode sair pelo port\u00e3o, que s\u00f3 pode tentar pular muro e despular muro. Ela \u00e9 a \u00fanica que n\u00e3o pode sair dali, e isso nos coloca diante da desigualdade entre elas. Mas, ao mesmo tempo em que essa hierarquia \u00e9 vis\u00edvel \u2014 olha s\u00f3, estamos t\u00e3o viciadas no registro que privilegia o olhar que estou falando de visibilidade \u2014, a gente escuta que Stella n\u00e3o est\u00e1 em um lugar passivo nesse di\u00e1logo, ela est\u00e1 sempre respondendo dentro daqueles di\u00e1logos da forma dela. Quando ela n\u00e3o quer falar, ela n\u00e3o fala, ela se recusa a falar, ela fala como e quando quer. E se a gente n\u00e3o pode escutar essa voz, acho que a gente tamb\u00e9m se priva de ouvir essas respostas que dadas naqueles momentos s\u00e3o de tens\u00e3o. Tem muito afeto envolvido, certamente. Quando conversamos com a Carla, a gente sabe que essas pessoas constru\u00edram afetos, mas existe uma hierarquia que \u00e9 intranspon\u00edvel e que culmina em uma tens\u00e3o, uma tens\u00e3o que est\u00e1 imprimida nessas vozes.<\/p>\n\n\n\n<p>A Stella foi construindo uma linguagem muito esperta, a meu ver, que \u00e9 justamente para escapar dessas armadilhas que muitas vezes as interlocutoras colocam para ela. Algo interessante que surgiu justamente no processo de pesquisa que est\u00e1vamos fazendo juntas \u00e9 que pudemos notar algumas const\u00e2ncias, algumas repeti\u00e7\u00f5es. N\u00e3o s\u00e3o repeti\u00e7\u00f5es sempre iguais, n\u00e3o s\u00e3o repeti\u00e7\u00f5es de identidade, s\u00e3o repeti\u00e7\u00f5es da diferen\u00e7a. Stella usa muito o verbo \u201cagarrar\u201d, por exemplo, sobretudo para falar de algumas situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia e trauma: para falar de quando pegaram ela na rua, quando agarraram e sequestraram ela; para falar de uma situa\u00e7\u00e3o de abuso sexual dentro da institui\u00e7\u00e3o; e ela usa esse mesmo verbo para falar de quando o m\u00e9dico da institui\u00e7\u00e3o da CJM [Col\u00f4nia Juliana Moreira] arrancou seus dentes. E o trabalho da Carol pontuou muito bem sobre isso: a institui\u00e7\u00e3o n\u00e3o fornecia a condi\u00e7\u00e3o de higiene necess\u00e1ria e, para economizar naquele tratamento, acabavam arrancando os dentes das pacientes. E a gente escutou tamb\u00e9m o mesmo verbo quando ela estava falando da fam\u00edlia para quem ela prestava servi\u00e7os como empregada dom\u00e9stica. Ela fala que foi \u201cagarrada no distrito\u201d, que a mulher falou que ela precisava ser muito domesticada e trabalhar de dom\u00e9stica. Isso foi algo que nenhuma das tr\u00eas havia escutado sozinha, mas juntas percebemos que se trata de um verbo repetido nesses contextos, nessas situa\u00e7\u00f5es semelhantes e diferentes. O que quero dizer \u00e9 que Stella vai criando toda uma linguagem, todo um repert\u00f3rio para falar do que \u00e9 o trauma desse corpo negro. E algo que aparece e salta muito, inclusive nessa parte do malezinho em que ela est\u00e1 falando sobre esse assunto da fam\u00edlia, \u00e9 que sempre que Stella est\u00e1 falando da fam\u00edlia \u2014 e isso \u00e9 a partir da \u201cleitura\u201d que eu tenho feito \u2014, ela n\u00e3o est\u00e1 falando da fam\u00edlia dela, da sanguinidade, dos seus parentes, at\u00e9 porque ela foi privada da maior parte dessas rela\u00e7\u00f5es. Ela sempre joga o tema para a fam\u00edlia ou para as fam\u00edlias que ela trabalhou, e obviamente existe uma rela\u00e7\u00e3o ali muito complicada&#8230; ou para a fam\u00edlia do cientista, que \u00e9 justamente essa institui\u00e7\u00e3o que est\u00e1 sempre na vigil\u00e2ncia e na fiscaliza\u00e7\u00e3o do corpo dela. Eu acho que \u00e9 justamente um movimento de evitar se referir \u00e0 fam\u00edlia dela mesmo, a fim de evitar o lugar de dor. Sabemos que a m\u00e3e dela ficou na Col\u00f4nia tamb\u00e9m, convivendo junto com ela por pelo menos dez anos. E tem um trecho&#8230; voc\u00ea acha que a gente coloca aquele trecho do cativeiro?<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Natasha<\/em><\/strong>: Acho que sim.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Sara<\/em><\/strong>: Acho que pode ser, para a gente ter um pouco mais de escuta e abrir a conversa com voc\u00eas, para vermos o que atravessou a\u00ed. Eu vou procurar aqui.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Natasha<\/em><\/strong>: T\u00e1. Eu acho que inclusive nesse trecho do malezinho, a gente estava escutando ontem, tem essa coisa do \u201c<em>Com o que voc\u00ea trabalharia?<\/em> Comer, beber e fumar\u201d. E a\u00ed \u00e9 a Carla que pergunta. Ela falou assim: \u201cIsso n\u00e3o \u00e9 trabalho\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Sara<\/em><\/strong>: Acho que \u00e9 a Nelly [Gutmacher].<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Natasha<\/em><\/strong>: \u00c9. \u201cIsso n\u00e3o \u00e9 trabalho\u201d; e ela fala: \u201c\u00c9 sim, porque eu fui for\u00e7ada a aprender a comer, beber e fumar\u201d. Ent\u00e3o tem uma coisa da rela\u00e7\u00e3o espec\u00edfica de que o trabalho \u00e9 o trabalho for\u00e7ado. E quando ela fala do tempo do cativeiro isso fica n\u00edtido, que \u00e9 ali a reverbera\u00e7\u00e3o continuada da mem\u00f3ria da escravid\u00e3o. A mem\u00f3ria desse registro da escravid\u00e3o est\u00e1 diretamente associada \u00e0 mem\u00f3ria do trabalho no Brasil. Ent\u00e3o acho que \u00e9 tamb\u00e9m uma chave de leitura para al\u00e9m da Stella e a gente projetando isso para outros campos, de ler o Brasil atrav\u00e9s da Stella. Isso \u00e9 necess\u00e1rio tamb\u00e9m, n\u00e3o \u00e9? E eu acho que \u00e9 a partir dessa fala tamb\u00e9m. O trabalho \u00e9 for\u00e7ado, e est\u00e1 em um lugar muito subjetivo, mas que condensa toda essa narrativa. A\u00ed acho que tamb\u00e9m estendendo n\u00e3o s\u00f3 a leitura do Brasil a partir da Stella, como de outras artistas que foram colocadas nessa situa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m. A gente tem artistas incr\u00edveis de diversas abordagens, diversos mecanismos de cria\u00e7\u00e3o de linguagem, que est\u00e3o ali formulando o mundo e que a gente se aproxima de uma complexidade a partir dessa produ\u00e7\u00e3o. Acho que um jogo dif\u00edcil do que se estabelece nessa cr\u00edtica liter\u00e1ria, principalmente em rela\u00e7\u00e3o a Stella, \u00e9 que \u00e9 uma chave de leitura f\u00e1cil, voc\u00ea falou da loucura, e de que est\u00e1 nesse registro fora da curva, do desvio&#8230; porque voc\u00ea n\u00e3o complexifica no fim das contas o que est\u00e1 sendo falado, voc\u00ea encerra e acabou, est\u00e1 ali. E tem complexidade ali, tem densidade, tem volume naquilo que est\u00e1 sendo falado, tanto que \u00e9 uma voz que reverbera entre vozes e atravessa os tempos. \u00c9 isso. Quer colocar? Vou colocar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Falat\u00f3rio:<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Quem s\u00e3o as pessoas que c\u00ea gosta aqui? Hum? <em>Das crian\u00e7a<\/em>. Aqui tem crian\u00e7a? \u2026 Tem? Aonde? <em>No mundo inteiro<\/em>. Mas aqui tem? <em>Tem, no mundo inteiro<\/em>. Mas eu nunca vi crian\u00e7a aqui. E dos velhos, voc\u00ea n\u00e3o gosta? <em>Gosto de todo mundo. Gosto de tudo que \u00e9 bom. E voc\u00ea \u00e9 direita, honesta e trabalhadeira. \u00c9 limpinha, gosta de limpeza&#8230; e eu n\u00e3o sei quem fez voc\u00ea enxergar cheirar pagar cantar pensar, ter cabelo ter pele ter carne ter ossos, ter altura ter largura, ter o&#8230; o interior ter o exterior ter o lado o outro a frente os fundo em cima embaixo, enxergar, como \u00e9 que voc\u00ea consegue enxergar e ouvir vozes.<\/em> [vozes e sons externos] <em>\u00d4 Nelly, eu j\u00e1 disse que eu sou escrava do tempo do cativeiro. Fui do tempo (da tua) da tua&#8230; bisav\u00f3 da tua v\u00f3 da tua&#8230; m\u00e3e&#8230; agora eu sou do teu tempo.<\/em> Mas todo mundo \u00e9 escravo do tempo, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 voc\u00ea. Todos n\u00f3s, somos. <em>Do tempo do cativeiro?<\/em> Do tempo. Dum tempo qualquer&#8230; que que \u00e9 o tempo? <em>O tempo \u00e9 o g\u00e1s o ar o espa\u00e7o vazio.<\/em> O tempo passa ou a gente que passa? <em>A gente que passa.<\/em><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p><strong><em>Sara<\/em><\/strong>: Acho que voc\u00eas conseguiram flagrar, certo? Essa parte do cativeiro \u00e9 fundamental para a gente pensar como o <em>falat\u00f3rio<\/em> de Stella consegue operar uma cr\u00edtica do tempo, uma cr\u00edtica da mem\u00f3ria, uma linguagem das reverbera\u00e7\u00f5es do trauma atrav\u00e9s das gera\u00e7\u00f5es. Penso que essa evoca\u00e7\u00e3o do cativeiro n\u00e3o traz um tom de resigna\u00e7\u00e3o ou de nostalgia desse espa\u00e7o, mas da consci\u00eancia muito clara de que essas for\u00e7as coloniais ainda operam e que ainda \u00e9 preciso enfrent\u00e1-las, mas a interlocutora dela n\u00e3o entendeu assim. Isso diz muito sobre tudo aquilo que a Grada Kilomba fala sobre as pol\u00edticas da ignor\u00e2ncia, que alguns t\u00eam o direito de n\u00e3o saber e alguns n\u00e3o t\u00eam esse direito, porque vivem o que vivem, porque passam o que passam, e alguns de n\u00f3s simplesmente n\u00e3o t\u00eam esse direito. A gente trouxe mais trechos para ouvir, mas tamb\u00e9m eu acho que pode ser bom a gente abrir, conversar e ver as impress\u00f5es de voc\u00eas tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Natasha<\/em><\/strong>: \u00c9 muita coisa.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Rog\u00e9ria Barbosa<\/em><\/strong>: Eu acho que essa fala tem tudo a ver com o entendimento de voc\u00eas. Eu vou ler o que acabei de escrever, e depois vou ler para voc\u00eas o que aconteceu: \u201cFalam da minha pele (acabei de fazer, t\u00e1, gente?) como carni\u00e7a, fico louca. Jogam a minha escuta na chibata. D\u00f3i minha carne. D\u00f3i aquele ser que, ao me esbarrar, se limpa e cheira, sentindo o meu fedor. Fedor esse que quer encontrar. Tua pele me oprime. Teus cabelos s\u00e3o teus devaneios. Curo minhas cicatrizes na tela, na minha fala ao doutor. Ah, \u00e9 de intoler\u00e2ncia e preconceito que falo. Chega madame, chega senhor, chega madrinha, chega doutor. Enquanto me escutam, minhas l\u00e1grimas t\u00eam dor. Por um momento me silencio e digo, nunca um c\u00e3o preto, nunca o teu servo, nunca minha m\u00e3e ou irm\u00e3 v\u00e3o deixar de trazer as marcas da intoler\u00e2ncia da Minha pele tem alma, minha pele cheira \u00e0 flor, trabalho e amor, pois, repito, respeito minha cor\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Infelizmente n\u00e3o \u00e9 um poema bonito, eu vou dizer por que eu n\u00e3o acho ele bonito na beleza que deveria ser, n\u00e9, os poemas rom\u00e2nticos. \u00c9, eu tava sexta-feira descendo a escada rolante de Bangu, a\u00ed uma branca, desculpe o termo, uma branca encostou em mim, a\u00ed na mesma hora se esquivou, come\u00e7ou a limpar, se limpar, se cheirar. Eu tava atr\u00e1s dela, e eu fiquei assim impactada, fiquei impactada. \u00c9 uma coisa que assim, eu e meu psic\u00f3logo, a gente estava conversando naquele dia na sexta-feira e aconteceu isso, passei a semana todinha p\u00e9ssima por causa disso. Hoje cheguei diante do psic\u00f3logo e n\u00e3o consegui conversar com ele. O que aconteceu? Porque eu tava t\u00e3o arredia, at\u00e9 a situa\u00e7\u00e3o dele&#8230; porque ele \u00e9 negro tamb\u00e9m. Ent\u00e3o a sua fala, a fala da Stella, a primeira vez que a Diana me mostrou as falas de Stella e eu comecei a ler, ouvir&#8230; eu me identifiquei muito com a Stella, sabe? Eu n\u00e3o vou estender, mas \u00e9 isso que a gente passa no dia a dia, aquele ser branco, n\u00e9, vamos dizer, n\u00e3o estou dizendo pela cor branca, mas as pessoas que t\u00eam a pele clara, tocar em voc\u00ea, limpar, limpar, limpar e cheirar, sabe. Aquilo ali ficou, \u00e9 uma coisa que vai ficar marcada, ficou marcada, n\u00e3o tem como apagar. Eu posso imaginar Stella, nessa \u00e9poca dela, essa \u00e9poca, toda essa intoler\u00e2ncia, toda essa negritude, todo esse vexame que \u00e9 o preconceito, que \u00e9 o racismo, ent\u00e3o \u00e9 coisa pra gente ouvir, n\u00e3o no caso de \u201cah, estamos na semana do dia 20 a\u00ed que aconteceu&#8230; est\u00e1 todo mundo ainda a\u00ed respirando\u201d, mas n\u00e3o \u00e9 isso a\u00ed n\u00e3o, gente, e nem \u00e9 inferno astral que vai at\u00e9 novembro. Aconteceu, infelizmente isso \u00e9 real. Sou a Rog\u00e9ria Barbosa, meu livro foi lan\u00e7ado junto com a exposi\u00e7\u00e3o de Stella do Patroc\u00ednio, t\u00e1 ali \u00e0 venda, pra comprar, t\u00e1? E a gente t\u00e1 a\u00ed, tem uns trabalhos meus, tem uns livros, e a gente t\u00e1 a\u00ed. Eu sou Ateli\u00ea Gaia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Diana<\/em><\/strong>: A Rog\u00e9ria Barbosa, artista, escritora, maravilhosa, militante da luta antimanicomial \u00e9 uma das curadoras e inspiradoras dessa exposi\u00e7\u00e3o, e nessa sala aqui ao lado, na galeria, tem um conjunto de obras de Rog\u00e9ria e seu livro tamb\u00e9m que foi lan\u00e7ado junto com a exposi\u00e7\u00e3o que, como ela disse, refor\u00e7o, est\u00e1 \u00e0 venda. Arrasa.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 retomando a proposta, n\u00e3o precisa formular uma pergunta necessariamente, mas se voc\u00eas quiserem trazer dentro daquela proposta que a gente \u200b\u200bfez no in\u00edcio&#8230; o que ficou, o que voc\u00eas escutaram, o que est\u00e1 fazendo eco e lan\u00e7ar. Eu tinha uma quest\u00e3o para voc\u00ea, Sara, que eu acho que voc\u00ea colocou de in\u00fameras formas aqui, mas que no seu trabalho acad\u00eamico voc\u00ea fala de uma narrativa de redoma, \u00e0 prova de som, que tem a ver e se relaciona com a forma como as palavras e o <em>falat\u00f3rio<\/em> da Stella se difundiram a partir de uma media\u00e7\u00e3o institucionalizada \u2014 acho que \u00e9 a express\u00e3o que voc\u00ea usa. Voc\u00ea convida a recolocar o ouvido diante de Stella. E eu acho essa fala, que aparece inclusive no resumo, ela se alinha muito com o que a gente tenta fazer aqui, o que a gente deseja, o que nos mobiliza. \u00c9. Esse convite e esse encontro aqui tamb\u00e9m v\u00e3o nessa dire\u00e7\u00e3o. A gente est\u00e1 em uma institui\u00e7\u00e3o, mas a gente tamb\u00e9m tensiona esses movimentos. Eu fiquei com essa vontade de ouvir mais sobre. Ser\u00e1 que a gente est\u00e1 quebrando a redoma?<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Sara<\/em><\/strong>: Eu lembro que, na minha banca, a professora F\u00e1tima Lima falou assim: \u201cEssa redoma est\u00e1 estilha\u00e7ada atrav\u00e9s dos trabalhos de voc\u00eas que t\u00eam sido feitos agora\u201d. E uma das partes do trabalho foi tentar pesquisar um pouco mais sobre a voz, e o que mais me ajudou n\u00e3o foi a teoria liter\u00e1ria, foram outros recortes, foram outras perspectivas, sobretudo pensando a m\u00fasica, pensando tambor, pensando ritmo. Acho que pensei nessa ideia da redoma porque foi a impress\u00e3o que eu tive diante desse arquivo falseado, esse arquivo que foi constru\u00eddo a partir de um agenciamento muito espec\u00edfico que se quis em torno da trajet\u00f3ria de Stella, e que operou, de uma certa forma, um enclausuramento dessa voz. E quando eu estou falando \u201cvoz\u201d, eu estou falando de voz mesmo. Essa voz ficou inacess\u00edvel e desinteressante por muito tempo, mais tempo do que deveria. E que gera toda a \u201cauratiza\u00e7\u00e3o\u201d do livro, n\u00e3o \u00e9? O livro ficou super \u201cauratizado\u201d, sobretudo porque n\u00e3o se tinha esse arquivo original. O que notei tamb\u00e9m \u00e9 que realmente houve essa constru\u00e7\u00e3o de uma Stella que estava ali em uma redoma, para ser contemplada unicamente pelo olhar e n\u00e3o pelo ouvido. E, ao pensar na voz e pesquisar sobre isso, a gente vai compreendendo que toda uma tradi\u00e7\u00e3o da metaf\u00edsica, toda essa tradi\u00e7\u00e3o ocidental tentou retirar o elemento sonoro e a voz dos regimes de conhecimento. O termo <em>logos<\/em>, um de seus significados era a <em>fala<\/em>, era o <em>contar<\/em>. E, a partir de Arist\u00f3teles, come\u00e7a-se a privilegiar apenas o sentido de liga\u00e7\u00e3o da palavra <em>logos<\/em>. Desde ent\u00e3o, come\u00e7a a se privilegiar sempre o olhar como o sentido para o conhecimento e n\u00e3o o ouvido ou os demais sentidos. E o olhar tem esse lado, o nosso olhar \u00e9 ativo, \u00e9 altivo, a gente pode escolher para onde a gente olha, a gente fecha os olhos, a gente abre quando quer. E o ouvido \u00e9 passivo, a gente est\u00e1 sempre em uma posi\u00e7\u00e3o de passividade com o ouvido. E a autora que mais me ajudou a pensar esses elementos da voz, junto com a filosofia, foi a Adriana Cavarero, que \u00e9 uma italiana. At\u00e9 quando a gente est\u00e1 dormindo, a gente est\u00e1 escutando e \u00e9 atravessado. Ent\u00e3o, pesquisando sobre arquivos que precisamos escutar, temos que abandonar toda aquela postura ativa que a gente geralmente tem. Quando voc\u00ea fala de escuta ativa, na verdade acho que a gente tem que fazer uma escuta passiva. Inclusive, um exerc\u00edcio bom \u00e9 fechar os olhos e focar nesse sentido da escuta, e a gente faz isso, n\u00e9? \u00c0s vezes quando tentamos escutar alguma coisa, fechamos os olhos para escutar melhor, justamente porque se ouve melhor quando retiramos o olhar como sentido \u00fanico. Acho que a ideia da redoma foi um pouco sobre isso, \u00e9 preciso estilha\u00e7\u00e1-la para realmente escutar a voz que dali emana, \u00e9 preciso recolocar mesmo o ouvido. E, assim, a parede constru\u00edda aqui no museu, com todos os autofalantes, me deixaram muito emocionada. E \u00e9 legal porque exige um movimento muito corporal, voc\u00ea realmente precisa ir em dire\u00e7\u00e3o, voc\u00ea precisa colocar seu ouvido l\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Jessica<\/em><\/strong>: Eu estava lendo uma entrevista da Saidiya que fala um pouco desse paradoxo que voc\u00eas tamb\u00e9m trouxeram agora&#8230; e tamb\u00e9m referenciando Carol, quando voc\u00ea fala que Stella sai do manic\u00f4mio para ser capturada pela institui\u00e7\u00e3o da literatura. Vou tentar traduzir: \u201cNo arquivo de escravid\u00e3o, eu encontrei um paradoxo: o reconhecimento da humanidade e status dos escravos como sujeitos ampliava e intensificava a servid\u00e3o e expropria\u00e7\u00e3o, em vez de conferir uma pequena medida de direitos e prote\u00e7\u00e3o\u201d. Como lidar com estes paradoxos? Como pensar em formas de escuta que n\u00e3o sejam uma outra captura?<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Natasha<\/em><\/strong>: Eu estou aqui pensando. Fiquei pensando numa fala da Diane Lima. N\u00e3o sei se todos conhecem Diane Lima, curadora, pensadora. Ela est\u00e1 agora na curadoria da Bienal [de S\u00e3o Paulo]. E ela se debru\u00e7ou tamb\u00e9m sobre o <em>falat\u00f3rio <\/em>da Stella durante um tempo. Diana [Kolker] pode falar melhor como \u00e9 que foi essa rela\u00e7\u00e3o, mas teve uma articula\u00e7\u00e3o com um grupo de pesquisa que eram de artistas e pensadores em torno do <em>falat\u00f3rio<\/em> da Stella, que durou um tempo espec\u00edfico. E a\u00ed Diane Lima faz esse semin\u00e1rio e coloca um paradoxo que a Stella \u00e9 a mulher que vemos, mas n\u00e3o ouvimos, que acho que \u00e9 um pouco do que Sara estava falando agora, da vis\u00e3o estar ali muito marcada pelo arquivo, pelo manuscrito. \u00c9 a plataforma de legitima\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria, a oralidade \u00e9 exclu\u00edda disso. Tem uma imperman\u00eancia \u2014 uma falsa imperman\u00eancia \u2014 na oralidade, porque ela fica. Ela ressoa, que \u00e9 isso do Luis [Ateli\u00ea Gaia], \u201co grito n\u00e3o morre, o grito n\u00e3o acaba\u201d, e que escapa ao lugar do vis\u00edvel e que tamb\u00e9m \u00e9 arquivo, tamb\u00e9m precisa ser visto como arquivo. E ela vai falar disso, dessa necessidade de escutar a Stella, essa pessoa que a gente n\u00e3o escuta mesmo, a gente s\u00f3 assiste. \u00c9 uma coisa tamb\u00e9m de complexificar a quest\u00e3o porque a gente tem poucos registros da Stella de fato, a gente tem poucas fotografias. \u00c9 uma imagem ainda muito fragmentada desse corpo, extremamente fragmentada. A Saidiya traz essa quest\u00e3o de olhar para o arquivo, essa necessidade de hackear esse sistema que atua pelas brechas. Ent\u00e3o a gente tem, principalmente aqui no Brasil, uma falta muito grande em torno da historiografia negra, ind\u00edgena, principalmente, que foi dinamitada ao longo do tempo, ao longo dos s\u00e9culos, e que, para construir essas mem\u00f3rias desse passado e olhar para isso, \u00e9 uma necessidade de cria\u00e7\u00e3o. A gente estava falando disso vindo para c\u00e1, daquele texto da Saidiya, que ela fala justamente isso. Como \u00e9 que era?<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Sara<\/em><\/strong>: Era sobre como a gente pode elaborar ou fabular sobre uma vida respeitando o que n\u00e3o sabemos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Natasha<\/em><\/strong>: Isso. Como a gente pode fabular sobre uma vida respeitando o que a gente n\u00e3o sabe? E essa \u00e9 uma das perguntas que a gente precisa disparar para a hist\u00f3ria da Stella tamb\u00e9m, o que a gente n\u00e3o sabe. Porque \u00e9 muita coisa o que a gente n\u00e3o sabe, a gente parte do n\u00e3o saber. Ent\u00e3o essa coisa dessa constru\u00e7\u00e3o dessa mem\u00f3ria, ela \u00e9 um processo que est\u00e1 sujeito a falhas e depende de uma puls\u00e3o criativa tamb\u00e9m. E eu acho que indo para outro lugar da pergunta tamb\u00e9m, eu sinto que a gente est\u00e1 em um momento muito feliz no sentido de ver cada vez mais pesquisadoras artistas, racializadas, especialmente, corpos dissidentes que s\u00e3o seduzidos pelo <em>falat\u00f3rio<\/em>, s\u00e3o seduzidos a se envolver com aquilo e a investigar criticamente, que \u00e9 o momento de abund\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o a isso \u2014 de efervesc\u00eancia. Acho que tem uma efervesc\u00eancia a\u00ed que est\u00e1 se articulando cada vez mais. Quando eu estou falando isso, eu estou falando do trabalho da Jota [Momba\u00e7a], estou falando do trabalho da Leda [Martins], estou falando do trabalho de Sara&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Sara<\/em><\/strong>: &#8230; da Ariadne.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Natasha<\/em><\/strong>: Ariadne Catarine dos Santos \u00e9 uma pesquisadora de S\u00e3o Paulo, da USP, que fez tamb\u00e9m uma pesquisa e se relacionou principalmente com a cr\u00edtica liter\u00e1ria em torno do livro, ela se debru\u00e7ou em torno do livro. Existe essa tentativa de constru\u00e7\u00e3o de algo que est\u00e1 na brecha.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Sara<\/em><\/strong>: E pensar que existem arquivos, e a\u00ed \u00e9 algo que a Saidiya fala tamb\u00e9m, que s\u00e3o meras senten\u00e7as de morte. E com Stella n\u00e3o foi diferente, e sobretudo quando a gente para pra pensar que Stella foi enterrada como indigente, sendo que, sim, Stella tem parentes vivos e ela tinha parentes vivos no momento de sua morte. Mas a pr\u00f3pria institui\u00e7\u00e3o conseguiu romper tanto esses la\u00e7os familiares, esses la\u00e7os sociais, e apagar a hist\u00f3ria dessas pessoas, que quando se chega ali na d\u00e9cada de 1980 e a reforma psiqui\u00e1trica tenta reverter isso, quase tudo \u00e9 irrecuper\u00e1vel. \u00c9 isso. Todo esse aparato da institui\u00e7\u00e3o e a forma como ela mortifica esses indiv\u00edduos e mortificou os indiv\u00edduos por muito tempo tem a ver tamb\u00e9m com os seus la\u00e7os familiares. Ela tem parentes vivos, eles n\u00e3o deixaram de visitar ela. E a\u00ed quando eu estou falando de arquivo, eu tamb\u00e9m estou falando dos prontu\u00e1rios m\u00e9dicos e do livro, porque o livro tamb\u00e9m ajudou a perpetuar essa ideia de que os parentes de Stella n\u00e3o procuraram por ela, o que \u00e9 um completo equ\u00edvoco. A fam\u00edlia visitava, a fam\u00edlia ia atr\u00e1s dela. Mas em algum momento, a pr\u00f3pria m\u00e3e de Stella morre dentro da institui\u00e7\u00e3o e a fam\u00edlia n\u00e3o \u00e9 comunicada, s\u00f3 descobrem em dia de visita \u2014 isso \u00e9 fruto tamb\u00e9m da pesquisa da Carol. Ent\u00e3o, \u00e9 preciso pensar em como que a gente lida com a morte dos nossos e como a gente tenta operar uma narrativa que seja honrosa com essa morte tamb\u00e9m, e que promova um lugar de descanso de certa forma. Quando paro para pensar no contexto da morte de Stella, \u00e9 muito duro, porque a gente se depara com uma hist\u00f3ria que \u00e9 atravessada por uma s\u00e9rie de viol\u00eancias, e inclusive nesse momento da morte, que deveria significar um momento de luto em comunidade. A isso a fam\u00edlia dela n\u00e3o teve direito. E esses arquivos contribuem para isso tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Lucas Alberto:<\/em><\/strong> Eu quero falar uma coisa, mas n\u00e3o \u00e9 bem uma pergunta.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Sara<\/em><\/strong>: Boa tarde.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Lucas<\/em><\/strong>: Obrigado. Acho que foi uma possibilidade muito incr\u00edvel eu ter contato com a pesquisa assim. A primeira vez que eu escutei a Stella foi por \u00e1udio numa aula que eu acho que a Jessica estava ministrando, e acho que o que sempre ficou para mim foi essa pergunta que ela fazia para essa esp\u00e9cie de entrevistadora que eu n\u00e3o sei quem era, Nelly ou a Carla. N\u00e3o sei de qual \u00e1udio faz parte, mas era algo como: \u201cTenho que contar minha vida toda para voc\u00ea. Voc\u00ea est\u00e1 interessada em saber da minha vida, mas nem eu mesmo sei da minha vida\u201d. Isso ficou como uma quest\u00e3o muito grande para mim. E depois ela fala: \u201cPorque eu n\u00e3o sei como se forma boca com dentes, ouvido ouvindo vozes, cabe\u00e7a pra pensar\u201d. Essa hora que ela pergunta era interessante porque ela sa\u00eda desse lugar de quem vai sofrer essa esp\u00e9cie de anamnese, porque em v\u00e1rios momentos me incomodava esse \u00e1udio da pergunta, de uma esp\u00e9cie de resposta um pouco retaliativa: \u201cN\u00e3o, voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 assim, n\u00e3o \u00e9 bem assim, as coisas n\u00e3o s\u00e3o assim\u201d, uma tentativa de apaziguar. E a\u00ed eu fiquei pensando em que medida isso tamb\u00e9m \u00e9 uma quest\u00e3o na hora de transcrever ou na hora de pensar o que a Stella fala, se \u00e9 sempre uma resposta e uma d\u00favida que algu\u00e9m tenta ir l\u00e1 e perguntar para ela. Fico pensando no que voc\u00eas falaram, uma entrevista. Eu nunca tinha pensado nisso, se essa dimens\u00e3o da entrevista faz efeito, \u00e9 uma quest\u00e3o para pesquisa. E em que medida essa entrevista se afasta ou se aproxima de uma no\u00e7\u00e3o de anamnese psiqui\u00e1trica. A entrevista \u00e9 tamb\u00e9m um operador dentro do campo da sa\u00fade mental. Eu n\u00e3o sei nem se tem uma forma de se elaborar sobre isso, mas essa entrevista surge como uma quest\u00e3o problem\u00e1tica para pensar essa po\u00e9tica que est\u00e1 sendo falada.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Natasha<\/em><\/strong>:&nbsp; O que Sara falou tamb\u00e9m, a Stella usa estrat\u00e9gias discursivas ali que ela fala quando ela quer. Quando tentam for\u00e7ar a barra, ela n\u00e3o cede, ela vai falando e ela entrega o que ela acha que tem que entregar. \u00c9 uma coisa que \u00e9 intuitiva, no sentido de que ela faz com muita naturalidade, voc\u00ea n\u00e3o sente ela bambeando, ela j\u00e1 dispara. E eu acho que s\u00e3o estrat\u00e9gias que ela se vale para escapar disso. \u00c9 uma armadilha que \u00e9 colocada ali e ela joga de volta. E eu tenho essa sensa\u00e7\u00e3o de que, em v\u00e1rios momentos, a pessoa que est\u00e1 entrevistando ocupa uma posi\u00e7\u00e3o simplista, falando qualquer coisa, e a voz da Stella cresce, ela toma corpo. Mas \u00e9 uma coisa para sinalizar. A gente tendo acesso agora mais f\u00e1cil ao <em>falat\u00f3rio<\/em>, v\u00e3o vir pesquisas em torno disso, dessas interrup\u00e7\u00f5es. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a voz dela isolada em uma caixa. Agora a gente tem acesso a outras movimenta\u00e7\u00f5es do espa\u00e7o, do tempo espec\u00edfico, o que era aquele ru\u00eddo, quem estava gritando ali, em que momento, como \u00e9 que ela est\u00e1. Tem um \u00e1udio espec\u00edfico que d\u00e1 para sentir que a Stella estava muito agitada, ela estava incomodada, d\u00e1 uma ang\u00fastia muito maior. Acho que \u00e9 o quarto \u00e1udio, \u00e9 o do malezinho. Ela fala meio energ\u00e9tica no sentido que me deixou um pouco confusa em rela\u00e7\u00e3o a como \u00e9 que estava sendo conduzido aquilo na presencialidade. Mas agora a gente tem um outro tipo de rela\u00e7\u00e3o sendo constru\u00edda por esse material, que pelo livro a gente n\u00e3o conseguia ter acesso a isso. A coisa da entrevistadora, da interlocutora, era abra\u00e7ada, ela sa\u00eda de cena.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Sara<\/em><\/strong>: \u00c9 um <em>falat\u00f3rio<\/em> que \u00e9 no m\u00ednimo coautoral, tem sempre mais de uma pessoa envolvida. E eu fico lembrando de um trecho que \u00e9 muito marcante, em que Stella fala do invis\u00edvel, do pol\u00edcia secreta, o sem cor. S\u00f3 a partir desse trecho d\u00e1 para a gente pensar em diversas coisas. Penso, por exemplo, em como que o nosso jornalismo, a nossa comunica\u00e7\u00e3o, fala das mortes de corpos negros por policiais. A gente sempre v\u00ea o rosto de quem est\u00e1 morrendo, a gente nunca v\u00ea o rosto de quem mata. Mas, se retirarmos a interlocu\u00e7\u00e3o desse trecho, por exemplo, retiramos a possibilidade de que possamos ver todas as nuances desses di\u00e1logos. Uma coisa que acontece muito e que a gente reparou e tentou colocar nessa transcri\u00e7\u00e3o s\u00e3o os momentos de risadas. Algumas risadas s\u00e3o claramente do lugar da condescend\u00eancia, de um deboche em rela\u00e7\u00e3o ao que Stella est\u00e1 falando. E um desses momentos \u00e9 quando ela est\u00e1 falando: \u201cEu estou colocando o mundo inteiro para dentro\u201d. Nesse momento, a interlocutora direta, que eu acho que nesse momento \u00e9 a Nelly, d\u00e1 uma risada, e a Stella logo em seguida responde: \u201cEstou botando VOC\u00ca para dentro tamb\u00e9m\u201d. Ela j\u00e1 tem essas estrat\u00e9gias, ela est\u00e1 nessa devolutiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Lembrando dos processos de transcri\u00e7\u00e3o, \u00e9 muito dif\u00edcil quando se tem mais de uma voz e quando se tem mais de duas vozes, porque em alguns momentos elas s\u00e3o interrompidas por terceiros, outras pessoas, e a gente n\u00e3o sabe quem s\u00e3o. E a gente pergunta para M\u00e1rcio Rolo, para Denise Correa e ningu\u00e9m sabe dizer exatamente quem \u00e9. E como \u00e9 que a gente d\u00e1 um nome para essas pessoas? A gente coloca um n\u00famero? Se fazemos isso, coisificamos elas novamente. Ent\u00e3o, teve essa dificuldade, e \u00e9 uma dificuldade que tem a ver com toda essa constru\u00e7\u00e3o do arquivo. A Natasha estava falando sobre como h\u00e1 novos trabalhos surgindo. \u00c9 exatamente o que o Nego Bispo fala, que \u00e9 sempre in\u00edcio, meio e in\u00edcio; come\u00e7o, meio e come\u00e7o. Eu acho que agora a gente est\u00e1 podendo cada vez mais chegar a novos come\u00e7os e ir para outros lugares. Eu sempre comento com as colegas que eu gostaria de ter feito um trabalho mais de constru\u00e7\u00e3o sobre o <em>falat\u00f3rio<\/em>, de ficar fabulando mesmo e ficar entrando em mil divaga\u00e7\u00f5es, mas eu acabei fazendo um trabalho mais de&#8230; e acho que a Carol tamb\u00e9m, de revis\u00e3o de arquivo. A gente fala muito menos sobre a Stella do Patroc\u00ednio com dois L e muito mais sobre a \u201cStela\u201d com um L, constru\u00edda pelo agenciamento da loucura. Sinto que agora a gente pode estar falando com um pouco mais de liberdade, um pouco mais de fidedignidade por causa do acesso p\u00fablico, dessa voz que est\u00e1 circulando agora. E acho que v\u00e3o surgir muitas coisas boas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Vanessa Alves<\/em><\/strong>: Tem uma parte que ela fala: \u201cMas eu j\u00e1 te dei tudo\u201d; a\u00ed a interlocutora faz mais uma pergunta, e ela diz: \u201cE n\u00e3o tenho nada para te dar\u201d. Ent\u00e3o, assim, como eu falei de manh\u00e3, eu n\u00e3o li a Stella antes, eu escutei tudo primeiro. E eu fui costurando palavras muito espec\u00edficas. Aqui me refiro que foi constru\u00eddo um texto para a performance com as falas da Stella sem mudar as falas dela. Mas, ao mesmo tempo, depois que eu li, eu falei: \u201cGente, estou perdida, porque n\u00e3o sei se ela estava ouvindo o que eu estava ouvindo\u201d. Me refiro \u00e0s interlocutoras que faziam as perguntas a Stella. Isso fica muito dentro de mim. Ela fala: \u201cEu j\u00e1 te dei tudo\u201d. Aqui eu, Vanessa, penso que ela queria dizer: \u201cTem mais alguma coisa? Estou te devendo mais alguma coisa?\u201d. Ent\u00e3o a gente questiona muito sobre o sentimento daqueles momentos espec\u00edficos de cada \u00e1udio, e tamb\u00e9m vou lendo sobre o <em>falat\u00f3rio<\/em> e tentando entender. Ser\u00e1 que a gente entendeu quem ela foi? \u00c9 nesse ponto. Eu tenho obriga\u00e7\u00e3o de falar de teoria, mas eu tenho obriga\u00e7\u00e3o de falar do irm\u00e3o, das pessoas negras e mulheres que, como Stella, uma negra que foi invisibilizada. O que me parece muitas vezes dentro das conversas \u00e9 a Stella: \u201cOi, eu sou viva, eu existo, eu n\u00e3o gosto de ficar aqui. Me fa\u00e7a outra pergunta. Conversa comigo de outra forma\u201d. Eu fiquei com vontade de ter outra conversa, essa \u00e9 a sensa\u00e7\u00e3o que eu tinha dela. E, assim, n\u00e3o sei se eu entendi errado, mas acho que a Stella tinha no\u00e7\u00e3o que aquilo que ela estava fazendo ali se constituiria depois em outros desdobramentos e que aquela artista que estava ali \u00e9 que teria\u2026 \u00e9 que o aplauso \u00e9 para mim, mas eu estou tentando dizer que o mundo foi errado, fez um erro. Nossa coloniza\u00e7\u00e3o, falta de respeito. O que a Rog\u00e9ria acabou de falar aqui, \u00e9 uma dor que s\u00f3 quem tem sabe o que \u00e9. E a Stella ficava dizendo o tempo inteiro: \u201cMe escute, me veja\u201d. Ser invis\u00edvel n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. E a\u00ed eu fico pensando: como \u00e9 que a gente constr\u00f3i novas narrativas e novas teorias para conseguir que isso seja vis\u00edvel? Porque para eu escutar, eu realmente preciso ouvir, parar para pensar. A gente est\u00e1 aqui debru\u00e7ado sobre a vida de uma pessoa. Humanizar um universo ca\u00f3tico&#8230; \u00e9 ca\u00f3tica a constru\u00e7\u00e3o do sistema. A gente teve uma aula com a Sandra Benites. Ela diz: \u201cO sistema s\u00e3o pessoas e essas pessoas n\u00e3o est\u00e3o sendo humanas\u201d. A minha sensa\u00e7\u00e3o da fala da Stella \u00e9 essa, falta de humanidade mesmo. Muito obrigada pelo espa\u00e7o de fala.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Diana<\/em><\/strong>: Posso pegar uma carona? Porque da\u00ed eu vou falar um neg\u00f3cio que parte tamb\u00e9m de uma fala tua, Natasha, que ficou reverberando. Voc\u00ea fala sobre ler o Brasil a partir de Stella. E eu fiquei com vontade de falar agora junto dessa fala de Vanessa Alves. Ano passado lan\u00e7amos o programa <em>Stella do Patroc\u00ednio: A hist\u00f3ria que fala<\/em>, com a curadoria de Diane Lima, que contou com um grupo de escutas e estudos conduzido por Denise Ferreira da Silva, Diane Lima e dez artistas pensadores. O programa foi mobilizado por um sentido de responsabilidade do museu com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 mem\u00f3ria de Stella do Patroc\u00ednio. Mas como \u00e9 que essa institui\u00e7\u00e3o se reposiciona diante de Stella e do que foi feito com ela? \u00c9 poss\u00edvel alguma repara\u00e7\u00e3o? Qual \u00e9 a responsabilidade do museu e das pessoas que atuam aqui? Qual \u00e9 a responsabilidade das pessoas que est\u00e3o na academia pesquisando o <em>falat\u00f3rio<\/em> de Stella e sua vida, dos artistas que est\u00e3o produzindo, de alguma maneira impactados pelo que Stella falou, enunciou, produziu, evocou. E tamb\u00e9m aqui com as quest\u00f5es que o Lucas trouxe, eu fico pensando que chega de ficar tentando tirar de Stella mais e mais. Eu acho que a gente precisa fazer essa escuta passiva que Sara coloca e prestar aten\u00e7\u00e3o nas perguntas que Stella est\u00e1 lan\u00e7ando para a gente. Como que a gente se reposiciona a partir disso? Eu estou trazendo um pouco do que voc\u00eas ecoaram em mim e devolvendo&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Natasha<\/em><\/strong>: Mas eu fiquei pensando&#8230; a Denise Ferreira fala isso, a repara\u00e7\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel&#8230; a d\u00edvida, impag\u00e1vel. Fico pensando nesse lugar da cria\u00e7\u00e3o e da compreens\u00e3o de que o tempo na verdade s\u00e3o os tempos que est\u00e3o se cruzando, n\u00e3o tem um comprometimento com a linearidade que \u00e9 para onde a gente \u00e9 jogado. Eu acho que tem um zig-zag, tem uma capoeira poss\u00edvel no tempo que permite com que a gente, a partir dessa rela\u00e7\u00e3o com uma voz que ecoa em outros espa\u00e7os simultaneamente&#8230; essa ideia de simult\u00e2neo tem me pegado muito, de n\u00e3o estar isolado, de que tem coisas acontecendo ao mesmo tempo&#8230; e isso que a Stella fala, tempo da sua av\u00f3, da bisav\u00f3, mas agora eu estou no teu tempo. Isso \u00e9 muito fundamental. Ela est\u00e1 falando da origem da vida, e ao mesmo tempo ela fala que come\u00e7ou a existir quando o cara colocou ela no ch\u00e3o e a estuprou. Ent\u00e3o tem v\u00e1rias nuances ali para essa rela\u00e7\u00e3o com a origem e com a vida, com essa puls\u00e3o de vida e morte que est\u00e3o ali atreladas, mas que \u00e9 muito forte isso de que a gente est\u00e1 convivendo com outras temporalidades simultaneamente. Eu n\u00e3o acho tamb\u00e9m que \u00e9 uma solu\u00e7\u00e3o simples, sen\u00e3o a gente fica em uma emula\u00e7\u00e3o ali que \u00e9 dif\u00edcil voc\u00ea criar materialidade a partir disso. Mas fico pensando muito nesse comprometimento, ainda por uma materialidade ser uma coisa um pouco mais pr\u00f3xima da institui\u00e7\u00e3o, o comprometimento continuado com essa revis\u00e3o hist\u00f3rica, com essa atualiza\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria, com essa busca em preencher lacunas em coletivo, porque \u00e9 isso que a gente est\u00e1 vendo tamb\u00e9m. Inclusive, entendendo que a gente tem essa tend\u00eancia a eleger uma pessoa, \u00e9 a Stella e \u00e9 o Bispo do Rosario, que s\u00e3o dois grandes nomes, duas grandes figuras na hist\u00f3ria do pa\u00eds, mas que em paralelo a eles tem outras pessoas em produ\u00e7\u00e3o, em vida, contempor\u00e2neas&#8230; a Rog\u00e9ria, Patr\u00edcia, tem uma galera. E isso falando especificamente da institui\u00e7\u00e3o Museu Bispo do Rosario. Mas tamb\u00e9m tem um resqu\u00edcio de uma narrativa heroica que a gente n\u00e3o consegue se desvencilhar, da grande figura que n\u00e3o \u00e9 para deslegitimar ou diminuir o que \u00e9 a import\u00e2ncia do Bispo e o que \u00e9 a import\u00e2ncia da Stella, mas quem s\u00e3o as outras pessoas que est\u00e3o aqui agora produzindo e fazendo. Isso \u00e9 uma coisa que a Concei\u00e7\u00e3o Evaristo fala muito: \u201cEu estou com 70 anos, comecei a ser conhecida com 70 anos. Olha essa galera produzindo aqui agora\u201d. E a\u00ed a gente sai do campo, da chave da viol\u00eancia, e quando a gente fala da ra\u00e7a a gente fala de viol\u00eancia, quando a gente fala de Brasil a gente fala de ra\u00e7a e de viol\u00eancia, e coloca no espectro da pot\u00eancia, da experimentalidade dessas vidas que tem uma energia criativa ali que est\u00e1 operando e que est\u00e3o produzindo saber, produzindo conhecimento. O que a Stella fez? Produziu conhecimento. O que o Bispo fez? Produziu conhecimento. Materializou conhecimento, deu plasticidade para aquilo. A Stella deu plasticidade para essa fala. A voz \u00e9 material, n\u00e3o \u00e9 uma coisa que fica ali pairando, tem peso, \u00e9 o g\u00e1s, tem uma dimens\u00e3o daquilo. Ent\u00e3o \u00e9 entender que essas hist\u00f3rias n\u00e3o est\u00e3o competindo com outras, mas est\u00e3o convergindo com outras hist\u00f3rias e com outras narrativas que est\u00e3o aqui no agora. Ent\u00e3o acho que \u00e9 fazer exerc\u00edcio de olhar tamb\u00e9m de corpo todo para quem est\u00e1 fazendo agora, papel inclusive das institui\u00e7\u00f5es. \u00c9 nosso papel enquanto indiv\u00edduo tamb\u00e9m, mas das institui\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m de estarem com esse olhar mais atento e tentar acabar com essa narrativa do her\u00f3i. Narrativa do her\u00f3i tamb\u00e9m pode. Acho que \u00e9 isso, s\u00e3o muitas figuras que est\u00e3o ali com diferentes linguagens, diferentes propostas, diferentes est\u00e9ticas, conceitua\u00e7\u00f5es, tem\u00e1ticas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Sara<\/strong><strong><em>:<\/em><\/strong> S\u00f3 para complementar um pouco, eu acho que as coisas que a Stella elabora se conectam com o que a Vanessa estava falando. Ela lan\u00e7a perguntas e muitas vezes est\u00e1 falando mais sobre n\u00f3s, sobres as institui\u00e7\u00f5es, do que sobre ela mesma. Ela lan\u00e7a para a gente tamb\u00e9m essa perspectiva de um tempo espiralar, um ciclo de situa\u00e7\u00f5es e de viol\u00eancias que se repetem, mas a resist\u00eancia tamb\u00e9m se repete, as estrat\u00e9gias de fuga tamb\u00e9m se repetem. Eu acho que, quando a gente escuta Stella, a gente consegue aprender sobre estrat\u00e9gias de fuga, dessa \u201cfugitividade\u201d, ela \u00e9 uma grande mestra dessa escapat\u00f3ria. E eu fico pensando nessa ideia de \u201cfugitividade\u201d mesmo. N\u00e3o \u00e9 em lugar de desist\u00eancia, mas de escapar da pr\u00f3pria l\u00f3gica entre senhores e escravizados, ent\u00e3o ela est\u00e1 sempre conseguindo escapar e fugir disso, e eu acho que n\u00f3s, pessoas racializadas, conseguimos aprender muito se a escutarmos, e as institui\u00e7\u00f5es conseguem aprender muito se a escutarem. Vamos escutar, vamos continuar escutando. Come\u00e7o, meio e come\u00e7o. Acho que Stella \u00e9 isso.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Carol:<\/strong> Depois das quest\u00f5es levantadas a respeito de como receber o <em>falat\u00f3rio<\/em> de Stella, eu tamb\u00e9m gostaria de citar Diane Lima no evento <em>online<\/em> \u201cStella do Patroc\u00ednio, a hist\u00f3ria que fala\u201d, organizado pelo Museu Bispo do Rosario, pois ela disse que a literatura atentou contra a \u00fanica arma que Stella teve durante essas d\u00e9cadas todas de interna\u00e7\u00e3o. Essa arma contra a qual a literatura se voltou foi justamente o <em>falat\u00f3rio<\/em>. A literatura agiu exatamente como o hosp\u00edcio agiu contra todos os sujeitos que conseguiu aprisionar em um diagn\u00f3stico.<\/p>\n\n\n\n<p>A maneira como Stella foi majoritariamente nomeada e narrada diz muito pouco sobre ela, mas diz muito sobre a institui\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, sua historiografia, seus s\u00edmbolos de representa\u00e7\u00e3o, suas metodologias de an\u00e1lise. Sara mencionou que meu trabalho se voltou a perceber os falsos arquivos, e \u00e9 verdade. Esta foi uma longa etapa de pesquisa. Conclu\u00ed, na ocasi\u00e3o, que esses falsos arquivos n\u00e3o contam a vida de Stella, mas as elabora\u00e7\u00f5es, fun\u00e7\u00f5es e l\u00f3gicas do hosp\u00edcio. Neles, \u00e9 poss\u00edvel perceber de que maneira a vig\u00edlia e a tentativa de domestica\u00e7\u00e3o, controle, normaliza\u00e7\u00e3o operacionalizavam. As perguntas elaboradas para serem aplicadas aos pacientes como um meio de an\u00e1lise diagn\u00f3stica giravam em torno de no\u00e7\u00f5es deturpadas de higiene \u2014 visto que o hosp\u00edcio sequer oferecia essas condi\u00e7\u00f5es \u2014, bom comportamento, dociliza\u00e7\u00e3o, produtividade e outros. Por isso eu fui atr\u00e1s do levantamento biogr\u00e1fico dela e reuni tudo o que pude do <em>falat\u00f3rio<\/em>. Eu quis que a narrativa de Stella se sobrepusesse \u00e0quela do hosp\u00edcio, eu gostaria de entender, com Stella, o que foi aquela institui\u00e7\u00e3o e o que mais ela apontava. Muita coisa apareceu a partir da\u00ed.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi assim que eu percebi que, por n\u00e3o realizar um exerc\u00edcio de escuta e nem mesmo de leitura de Stella, durante alguns anos a literatura repetiu os arquivos do hospital para apresent\u00e1-la, reproduzindo aquele diagn\u00f3stico dado pelo hosp\u00edcio e novamente silenciando o fato de que ela afirmou que foi for\u00e7ada a ser doente mental depois de sua captura pela pol\u00edcia, na rua Volunt\u00e1rios da P\u00e1tria, quando ela pretendia pegar u\u200b\u200bm \u00f4nibus e n\u00e3o conseguiu embarcar. Tudo isso por ser uma mulher negra. Ent\u00e3o a literatura recontou a hist\u00f3ria n\u00e3o dela, mas da produ\u00e7\u00e3o realizada pelo manic\u00f4mio, ao mesmo tempo em que fortaleceu as narrativas hospitalares. Ao tornar Stella do Patroc\u00ednio um objeto de estudo e entender o <em>falat\u00f3rio<\/em> como uma confirma\u00e7\u00e3o de uma loucura \u2014 que aqui chamamos higiene social, racismo, colonialismo e outros \u2014, o que fizemos, at\u00e9 agora, foi criar uma personagem com quem Stella do Patroc\u00ednio pouco se parece. Datas de nascimento e morte s\u00e3o as mesmas, bem como a passagem por uma institui\u00e7\u00e3o extremamente nociva, violenta e que se ampara em t\u00e9cnicas e saberes de apagamento, silenciamento e subalterniza\u00e7\u00e3o em massa de sujeitos que tiveram nome, hist\u00f3rias, intelectualidades, vida social, la\u00e7os familiares e complexidades as quais jamais conseguir\u00edamos capturar.<\/p>\n\n\n\n<p>Falo tudo isso do lugar de minha pesquisa.&nbsp; Os hosp\u00edcios s\u00e3o um crime de Estado \u2014 crime este que nem sequer entrou em vias de repara\u00e7\u00e3o. N\u00e3o sabemos dimensionar, at\u00e9 hoje, a quantidade exorbitante de sujeitos aprisionados nesses lugares, mas sabemos que a primeira medida de controle, neles, \u00e9 a afirma\u00e7\u00e3o de que aqueles que possuem diagn\u00f3stico cl\u00ednico est\u00e3o inaptos a falar. A m\u00e1scara, de Grada Kilomba, tem, nesse sentido, uma contemporaneidade assustadora.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta foi a principal arma de Stella, o <em>falat\u00f3rio<\/em> \u00e9 o seu mecanismo de fuga. Mas nem sempre Stella conseguiu escapar, mesmo sendo fugitiva e encontrando essas rotas de escape. Como a fuga e a captura est\u00e3o operando nessas institui\u00e7\u00f5es que reivindicam Stella e a chamam? Como o <em>falat\u00f3rio<\/em> se insere nesses t\u00e3o complexos contextos?<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o h\u00e1 repara\u00e7\u00e3o poss\u00edvel, mas h\u00e1 o compromisso de n\u00e3o perpetuarmos aquelas narrativas e compreens\u00f5es que j\u00e1 percebemos serem infundadas, e aqui gostaria de real\u00e7ar a ideia do erro de pesquisa, do erro de pensamento, da desvirtua\u00e7\u00e3o, da viola\u00e7\u00e3o de \u00e9ticas de pesquisa e de v\u00edcios de interpreta\u00e7\u00e3o. Hoje n\u00f3s sabemos algumas das tentativas de reencena\u00e7\u00f5es de captura de Stella do Patroc\u00ednio, e acredito que estamos em um momento de, como ela fez, procurar rotas alternativas. Essa fuga, penso que pode ser encontrada nas nossas elabora\u00e7\u00f5es a respeito do <em>falat\u00f3rio<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Os \u00e1udios, que s\u00e3o uma parte do registro do <em>falat\u00f3rio<\/em>, n\u00e3o d\u00e3o conta de representar o todo que foi registrado do <em>falat\u00f3rio<\/em>. Os contr\u00e1rios, os opostos, as lacunas est\u00e3o comunicando. N\u00e3o h\u00e1 integralidade. Ent\u00e3o, o que se faz desse passado que n\u00e3o deu a ela um futuro? Como esse passado pode ser contado um pouco mais honesto? O que ele nos tem a dizer? Stella tinha quinhentos milh\u00f5es e quinhentos mil anos, a idade dos moradores do n\u00facleo Teixeira Brand\u00e3o, Jacarepagu\u00e1. Salve Stella, e dai licen\u00e7a pra gente aprender com o <em>falat\u00f3rio<\/em>, e assumir compromissos que n\u00e3o mais tentem retirar a dignidade de Stella, dos moradores do Teixeira Brand\u00e3o, das milhares de pessoas que passaram por esses lugares criminosos de tortura.<\/p>\n\n\n\n<p>Aim\u00e9 C\u00e9saire deu a letra todinha: \u201cAqueles que afirmam que, no outro, h\u00e1 escassez de humanidade, esses sim s\u00e3o pouco humanos\u201d. Que as chaves virem, de uma vez por todas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Diana<\/em><\/strong>: Que as chaves virem! Manic\u00f4mio nunca mais!<\/p>\n\n\n\n<p>Infelizmente teremos que pausar nossa conversa por aqui, mas com as palavras que ouvimos reverberando no corpo, convido voc\u00eas para esticar um pouquinho mais e bater um papo solto no Bistr\u00f4 do Bispo. O pessoal da oficina de m\u00fasica do Polo Experimental, que \u00e9 o nosso centro de conviv\u00eancia, vai se apresentar l\u00e1. Mais uma vez agrade\u00e7o \u00e0s nossas convidadas, a todo mundo que veio aqui, e convido a voltar outras vezes. Estamos sempre de bra\u00e7os livres e abertos para receber. Obrigada, gente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">***<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Anna Carolina Vicentini Zacharias<\/em><\/strong> se ocupa com of\u00edcios de artes\u00e3, \u00e9 educadora e pesquisadora de doutorado em Teoria e Hist\u00f3ria Liter\u00e1ria no Instituto de Estudos da Linguagem na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Hoje, desenvolve pesquisa analisando a recep\u00e7\u00e3o de artistas psiquiatrizados no mercado de arte brasileira, sobretudo identificando os apagamentos de mem\u00f3ria aos quais eles foram submetidos. \u00c9 mestra pelo mesmo Instituto, autora da disserta\u00e7\u00e3o \u201cStella do Patroc\u00ednio: da interna\u00e7\u00e3o involunt\u00e1ria \u00e0 poesia brasileira\u201d (2020). Possui interesse nas seguintes \u00e1reas: literatura brasileira, curadoria em museus, arte e sa\u00fade mental, luta antimanicomial, decolonialidade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Diana Kolker Carneiro da Cunha <\/em><\/strong>(Rio de Janeiro, 1983) \u00e9 educadora de museu e curadora. Graduada em Hist\u00f3ria (PUCRS), especialista em Pedagogia da Arte (UFRGS) e mestra em Estudos Contempor\u00e2neos das Artes (UFF). Desde 2017, coordena o projeto pedag\u00f3gico e art\u00edstico do Museu Bispo do Rosario Arte Contempor\u00e2nea, onde tamb\u00e9m integra a curadoria das exposi\u00e7\u00f5es<strong><em>.<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Natasha Felix<\/em><\/strong> (Santos, 1996) \u00e9 poeta e performer. Dentre as publica\u00e7\u00f5es, destaca-se o seu livro de estreia <em>Use o alicate agora<\/em> (Edi\u00e7\u00f5es Macondo, 2018), e a participa\u00e7\u00e3o em antologias como <em>Os nossos poemas conjuram e gritam<\/em>, pela Quel\u00f4nio (2019) e <em>As 29 poetas hoje<\/em>, Companhia das Letras (2021). Em suas performances, investiga as interlocu\u00e7\u00f5es entre corpo negro, palavra falada e interse\u00e7\u00f5es com outras linguagens, como a dan\u00e7a, a m\u00fasica e o audiovisual. Atualmente, \u00e9 editora art\u00edstica no Museu do Amanh\u00e3. Foi assistente de curadoria do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. <strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Sara Ramos<\/em><\/strong> \u00e9 pesquisadora, editora, tradutora e poeta tocantinense. Mestra em literatura comparada pela UNILA, tem muito respeito pelas palavras, sejam escritas, faladas ou corporificadas, por isso as persegue. Atualmente vive no Rio de Janeiro e \u00e9 autora daplaquete <em>Pequeno manual da f\u00faria <\/em>(2022).<br><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\" \/>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>\u00b9 Apesar da escrita comum de \u201cRos\u00e1rio\u201d com acento, o museu adotou \u201cRosario\u201d sem acento, de acordo com o certificado de nascimento do artista. Ao longo deste di\u00e1logo n\u00f3s tamb\u00e9m adotamos esta grafia.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00b2 Com a morte de Arthur Bispo do Rosario em 1989, a Col\u00f4nia Juliano Moreira se v\u00ea diante do desafio de decidir o destino das obras produzidas por ele durante os 49 anos em que esteve internado intermitentemente. O conjunto da sua cria\u00e7\u00e3o foi abrigado pelo ent\u00e3o Museu Nise da Silveira, localizado na sede da Col\u00f4nia Juliano Moreira. Diante da nova miss\u00e3o, em 2000, 11 anos ap\u00f3s o falecimento de Bispo, a institui\u00e7\u00e3o altera o seu nome para Museu Bispo do Rosario, homenageando o principal artista de seu acervo. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/museubispodorosario.com\/museu\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/museubispodorosario.com\/museu\/<\/a>. Acesso em: ago. 2023.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00b3 Ateli\u00ea Gaia \u00e9 um coletivo de artistas usu\u00e1rios de sa\u00fade mental e ex-internos do antigo Col\u00f4nia Juliano Moreira vinculado ao mBrac. Para mais informa\u00e7\u00f5es: <a href=\"https:\/\/museubispodorosario.com\/atelier-gaia-2\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/museubispodorosario.com\/atelier-gaia-2\/<\/a>. Acesso em: ago. 2023.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2074 Zacharias, Anna Carolina Vicentini. Stella Patroc\u00ednio, ou o retorno de quem sempre esteve aqui. <em>Revista Cult<\/em>, 22 de setembro 2020. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/stella-do-patrocinio-retorno-sempre-esteve-aqui\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/stella-do-patrocinio-retorno-sempre-esteve-aqui\/<\/a> Acesso em: ago. 2023.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2075 Ramos, Sara Martins. Stella do Patroc\u00ednio: entre a letra e a negra garganta de carne.&nbsp; Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado). Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Literatura Comparada. Universidade Federal de Integra\u00e7\u00e3o Latino-Americana, Foz do Igua\u00e7u, 2022. Dispon\u00edvel em: <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/dspace.unila.edu.br\/handle\/123456789\/6465;jsessionid=7500013A50BF0043E118C067ACA0384E\" target=\"_blank\">https:\/\/dspace.unila.edu.br\/handle\/123456789\/6465;jsessionid=7500013A50BF0043E118C067ACA0384E<\/a> Acesso em: ago. 2023.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ensaio de escutas: O falat\u00f3rio de Stella do Patroc\u00ednio Anna Carolina Vicentini Zacharias, Natasha Felix e Sara Ramos Media\u00e7\u00e3o: Diana Kolker Cada parceria \u00e9 sempre muito importante e preciosa e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/4401"}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4401"}],"version-history":[{"count":24,"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/4401\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6381,"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/4401\/revisions\/6381"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4401"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}