{"id":4399,"date":"2025-09-26T12:04:17","date_gmt":"2025-09-26T15:04:17","guid":{"rendered":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/?page_id=4399"},"modified":"2025-10-15T15:34:38","modified_gmt":"2025-10-15T18:34:38","slug":"corpo-gesto-afeto-projeto-com-mulheres-de-talavera-bruce","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/corpo-gesto-afeto-projeto-com-mulheres-de-talavera-bruce\/","title":{"rendered":"Corpo, gesto, afeto: Projeto com mulheres de Talavera Bruce"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"1000\" height=\"667\" src=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/09\/Por-mim_imagem-mais-horizontal.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-4410\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/09\/Por-mim_imagem-mais-horizontal.png 1000w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/09\/Por-mim_imagem-mais-horizontal-300x200.png 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/09\/Por-mim_imagem-mais-horizontal-768x512.png 768w\" sizes=\"(max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><figcaption>Escrito realizado por participante do projeto <em>Corpo, Gesto e Afeto<\/em> na penitenci\u00e1ria Talavera Bruce.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h2>Corpo, gesto, afeto: Projeto com mulheres de Talavera Bruce<\/h2>\n\n\n\n<h4>Alice Poppe, Caroline Valansi, Tania Rivera e Tato Taborda<\/h4>\n\n\n\n<p>Registro do di\u00e1logo ocorrido no dia 29 de agosto de 2024, que juntou artistas e pesquisadores das rodas de conversas \u201cGesto de compartilhamento: uma experi\u00eancia corporal com mulheres privadas de liberdade\u201d, na penitenci\u00e1ria feminina Talavera Bruce, e \u201c\u00c1udionutri\u00e7\u00e3o: objetos sonoros, alteridades e a partilha de escuta\u201d. Ambas foram propostas como parte de um ciclo de rodas coordenado pelo professor Luiz Guilherme Vergara (UFF\/PPGCA) para a 6\u00aa Reuni\u00e3o Internacional da RACS \u201cM\u00faltiplas Vozes em Defesa das Vidas, Sa\u00fade \u00danica, Arte Plural e Forma\u00e7\u00e3o Humana\u201d<br><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania Rivera<\/em><\/strong>: \u00c9 uma alegria fazer parte desta mesa, cujos participantes s\u00e3o importantes e queridos parceiros: Alice e Caroline, que comp\u00f5em a equipe do projeto <em>Corpo, Gesto e Afeto<\/em>,projeto com mulheres do Talavera Bruce, e Tato Taborda, querido colega que adoro escutar sempre. Gostaria de propor que Tato falasse sobre o que ele chama \u00e1udionutri\u00e7\u00e3o, ap\u00f3s a apresenta\u00e7\u00e3o da Maria Alice Poppe e Caroline Valansi, para que possamos em seguida relacion\u00e1-la \u00e0 nossa experi\u00eancia no pres\u00eddio. \u00c9 engra\u00e7ado como as coisas realmente v\u00e3o por resson\u00e2ncias, que \u00e9 uma palavra importante pro Tato tamb\u00e9m. Inclusive, o t\u00edtulo de seu livro \u2014 muito lindo, que recomendo \u2014 \u00e9 <em>Resson\u00e2ncias: vibra\u00e7\u00f5es por simpatia e frequ\u00eancias de insurg\u00eancia<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Por uma dessas curiosas resson\u00e2ncias, Alice e eu justamente pensamos em trazer aqui algo que tem a ver com escuta, para come\u00e7armos a discuss\u00e3o sobre nosso projeto que, em 2023, contou tamb\u00e9m com a participa\u00e7\u00e3o de Natasha Pasquini e Beatriz Veneu e, em 2024, come\u00e7ou a ter tamb\u00e9m a Taianne de Oliveira como integrante. Nossa proposta \u00e9 fortemente experimental e n\u00e3o encontra apoio numa teoria e nem mesmo em uma pr\u00e1tica j\u00e1 constitu\u00edda. Dessa forma, o projeto est\u00e1 sendo, para n\u00f3s, mais uma pr\u00e1tica instituinte do que j\u00e1 institu\u00edda. \u00c9 algo que come\u00e7amos, Alice e eu, sem termos uma teoria que nos embasasse ou um programa j\u00e1 estabelecido em termos pr\u00e1ticos e po\u00e9ticos. E talvez isso seja, justamente, o \u00e2mago da proposta, como uma atitude ou uma postura cl\u00ednico-pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>E o momento de escuta m\u00faltipla e compartilhada com o p\u00fablico que esta mesa-redonda nos oferece \u00e9 muito importante para n\u00f3s, para tentarmos agora compreender, de maneira plural, o que estamos fazendo. Eu dizia que o projeto teria a ver com escuta porque, em uma conversa com a Alice sobre outro projeto encaminhado por ela a partir do nosso, me veio a ideia de falar em uma coreoescuta das propostas corporais, na qual movimentos e gestos seriam compreendidos na chave da escuta. Tal proposta talvez possa ser articulada \u00e0 no\u00e7\u00e3o de \u00e1udionutri\u00e7\u00e3o que Tato Taborda nos apresentar\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Alice Poppe<\/em><\/strong>: Bom dia, gente! Obrigada pela presen\u00e7a de voc\u00eas aqui. \u00c9 muito bom estar junto de Tania e Caroline, parceiras de luta e afeto no projeto que desenvolvemos na penitenci\u00e1ria feminina Talavera Bruce, e do Tato, com quem venho trabalhando em diferentes parcerias de cunho art\u00edstico nos \u00faltimos anos. Eu sou artista da dan\u00e7a e professora dos cursos de dan\u00e7a da UFRJ e sou tamb\u00e9m pesquisadora-colaboradora no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Estudos Contempor\u00e2neos das Artes.<\/p>\n\n\n\n<p>Importante dizer que esse projeto do qual estamos tratando hoje se inicia pelo afeto. Eu e a Tania come\u00e7amos a conversa sobre esse projeto numa conversa numa mesa de bar com o Evandro Salles, que, na \u00e9poca, estava como curador do Centro Cultural da Justi\u00e7a Federal (CCJF)&#8230; E foi a convite do CCJF que implementamos o projeto e, com muito vigor, criamos uma circunst\u00e2ncia para poder desenvolv\u00ea-lo. O processo de implanta\u00e7\u00e3o do projeto junto \u00e0 Secretaria de Estado de Administra\u00e7\u00e3o Penitenci\u00e1ria (SEAP) e o CCJF foi longo, atravessamos muitas burocracias&#8230; a Carol est\u00e1 desde o come\u00e7o nessa travessia. Desde quando de fato iniciamos, percebemos o quanto foi muito transformador em nossas vidas.<\/p>\n\n\n\n<p>O nome do projeto <em>Corpo, Gesto e Afeto<\/em> mostra como o afeto \u00e9 uma dimens\u00e3o importante nessa constru\u00e7\u00e3o. Eu tenho pensado que, apesar de termos escrito e formalizado um desenho do projeto para ingressarmos nessa empreitada, vimos que ele \u00e9 constru\u00eddo a cada dia que acontece no ch\u00e3o do pres\u00eddio. H\u00e1, sobretudo, uma escuta daquele territ\u00f3rio novo para n\u00f3s, o Talavera Bruce, esse pres\u00eddio feminino em Bangu que estamos frequentando \u00e0s segundas-feiras. A nossa prepara\u00e7\u00e3o \u00e9 realmente estarmos disponibilizados, em estado de escuta, para o que vamos propor ali. Acho que esse \u00e9 o nosso prop\u00f3sito.<\/p>\n\n\n\n<p>Inicialmente tentamos programar um pouco mais como seriam as pr\u00e1ticas dia a dia com as detentas, mas, ao longo do processo, entendemos que as pr\u00e1ticas eram criadas junto com elas l\u00e1 naquele espa\u00e7o, naquele ch\u00e3o. Ent\u00e3o, percebemos uma escuta afinada ao territ\u00f3rio. Eu, por acaso, estou no meio de um curso na UFRJ que venho ministrando junto com a Adriana Pavlova sobre a obra da core\u00f3grafa Lia Rodrigues. Nesse curso passeamos pelas obras e tamb\u00e9m por entrevistas com a core\u00f3grafa. Em uma das entrevistas, Lia menciona uma coisa interessante acerca do trabalho que ela vem desenvolvendo h\u00e1 alguns anos na Favela da Mar\u00e9. A entrevistadora lhe pergunta: \u201cQual foi o seu projeto de ingresso l\u00e1 no Centro de Artes da Mar\u00e9 e como voc\u00ea o elaborou?\u201d. Ela respondeu: \u201cEu n\u00e3o tinha nenhum projeto formatado inicialmente, eu cheguei l\u00e1 para escutar aquele territ\u00f3rio e entender o que naquele territ\u00f3rio eu podia fazer\u201d. Eu percebi que esse modo com que a Lia Rodrigues junto a sua companhia de dan\u00e7a se aproximou da Favela da Mar\u00e9 tem afinidade com o modo como estamos nos aproximando do Talavera Bruce e do ambiente de um pres\u00eddio com todas as suas caracter\u00edsticas muito particulares.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 uma escuta do espa\u00e7o desde o princ\u00edpio. A come\u00e7ar pela pr\u00f3pria entrada no pres\u00eddio, que n\u00e3o \u00e9 uma coisa t\u00e3o simples assim. Em geral, levamos muito tempo na entrada. A cada vez que chegamos tem guardas diferentes que fazem perguntas d\u00edspares sobre o que se trata o projeto <em>Corpo, Gesto e Afeto<\/em>. S\u00e3o experi\u00eancias muito loucas que vivemos at\u00e9 que de fato ingressamos no espa\u00e7o onde encontramos as detentas. \u00c9 um percurso longo, s\u00e3o muitas coisas que acontecem. Ent\u00e3o, sempre estamos muito atentas a isso \u2014 como entrar, como se portar, o que dizer e o que n\u00e3o dizer, como se comunicar com aquelas pessoas. \u00c9 um desafio di\u00e1rio, toda vez \u00e9 diferente, at\u00e9 porque as pessoas tamb\u00e9m s\u00e3o diferentes, estados emocionais diferentes e n\u00f3s vamos construindo essa passagem de forma muito afetuosa, sobretudo entre n\u00f3s. Isso de alguma maneira resume o jeito que abordamos esse trabalho inicialmente.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Caroline Valansi<\/em><\/strong>: Quero agradecer por estar aqui hoje a todas as pessoas envolvidas no projeto. Sou artista e estou finalizando meu mestrado em Artes na UFF, sob orienta\u00e7\u00e3o da Tania, a quem tamb\u00e9m quero agradecer, pois fui eu quem me convidei para esse projeto.<\/p>\n\n\n\n<p>As pris\u00f5es ocupam um lugar no imagin\u00e1rio social frequentemente representadas de forma estereotipada atrav\u00e9s da cultura midi\u00e1tica, do senso comum e de discursos que pouco refletem a complexidade da vida em seu interior. Estar dentro de uma penitenci\u00e1ria produz uma experi\u00eancia pr\u00f3pria sobre o que acontece ali. Desde minha primeira visita, percebi que seria uma experi\u00eancia bem diferente das que j\u00e1 tinha vivido ou proposto.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, este momento \u00e9 especial porque \u00e9 a primeira vez que estamos falando juntas sobre o trabalho. Como n\u00e3o fotografamos, n\u00e3o fazemos registros e n\u00e3o podemos entrar com celulares ou c\u00e2meras, a oralidade se torna nossa principal ferramenta para transmitir essas experi\u00eancias \u2014 o que nos desafia a narrar sem recorrer \u00e0s imagens, t\u00e3o presentes em nossa pr\u00e1tica cotidiana. Esse projeto tamb\u00e9m se conecta profundamente com o que venho desenvolvendo h\u00e1 anos. Embora minha trajet\u00f3ria seja na arte, eu trabalho em constante di\u00e1logo com profissionais da sa\u00fade. Nesse cruzamento, encontro novas formas de escuta e cria\u00e7\u00e3o, onde o corpo, o gesto e o afeto se tornam mat\u00e9ria viva de experimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tato Taborda<\/em><\/strong>: \u00c9 tudo sobre escuta.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: Tudo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tato<\/em><\/strong>: O termo \u00e1udionutri\u00e7\u00e3o tem a ver um pouco com esse campo expandido da escuta que inclui, mas tamb\u00e9m transcende, o fisiol\u00f3gico. O termo refere-se a um deslocamento cognitivo da vis\u00e3o como canal primordial para a audi\u00e7\u00e3o, considerando os atributos da escuta como receptividade, vulnerabilidade, disponibilidade, em defesa ao que est\u00e1 no mundo. Na medida em que o ouvido n\u00e3o possui p\u00e1lpebras, n\u00e3o podemos selecionar por\u00e7\u00f5es do que nos cerca, fechar os olhos, virar a cabe\u00e7a ou mesmo enterrar no ch\u00e3o como fazem os avestruzes, pois, ainda assim, escutar\u00edamos. Ouvindo os relatos de voc\u00eas, e a gente vai ouvir muito mais, eu lan\u00e7o aqui a reflex\u00e3o de como o som das coisas, o som do mundo expresso traduz, d\u00e1 not\u00edcias sobre o que efetivamente est\u00e1 acontecendo no mundo, mais do que aquilo que se d\u00e1 a perceber na superf\u00edcie do vis\u00edvel. Trago essa reflex\u00e3o para que a gente, a partir dessa autoconsulta, comece a investigar o quanto o som das coisas expressa o que efetivamente est\u00e1 acontecendo com uma profundidade e complexidade inacess\u00edveis \u00e0 vis\u00e3o. Ent\u00e3o, a ideia de uma cogni\u00e7\u00e3o que tenha a escuta como eixo vai, necessariamente, constituir subjetividades de uma forma diferente daquela que se d\u00e1 com a vis\u00e3o como canal cognitivo primordial condutor. O vetor da vis\u00e3o \u00e9 direcional e o ato de olhar \u00e9 t\u00e3o arbitr\u00e1rio na perspectiva de quem olha quanto limitado pelas superf\u00edcies que se interp\u00f5em entre o sujeito que olha e o objeto olhado. Eu n\u00e3o vejo o que est\u00e1 atr\u00e1s dessa parede, mas eu posso escutar o que acontece do outro lado. Queria ent\u00e3o trazer essa primeira reflex\u00e3o de o quanto o som expressa, denuncia, informa, de uma forma especial, sobre a natureza do que acontece e, em alguns casos, talvez de forma mais detalhada e profunda. Quando a Tania trouxe a ideia da\u2026<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: &#8230; coreoescuta.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tato<\/em><\/strong>: Que \u00e9 um termo fascinante e se conecta com o que, em algum momento, a Alice tinha mencionado como\u2026<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Alice<\/em><\/strong>: &#8230; uma r\u00e1dio-coreografia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tato<\/em><\/strong>: Isso, uma r\u00e1dio-coreografia. Ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 permitido entrar com c\u00e2mera no pres\u00eddio mas pode-se gravar?<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Alice<\/em><\/strong>: A princ\u00edpio podia, mas agora estamos tendo v\u00e1rios problemas com isso tamb\u00e9m no outro pres\u00eddio, no outro projeto que estou envolvida.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tato<\/em><\/strong>: Talvez essa seja uma constru\u00e7\u00e3o que possa se fazer, imagino que no primeiro momento deve haver uma restri\u00e7\u00e3o total mas, acredito, h\u00e1 um caminho a\u00ed para explorar\u2026<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: No Talavera Bruce n\u00e3o podemos entrar com nada, mas \u00e9 interessante voc\u00ea nos incitar a pensar se realmente nada \u00e9 negoci\u00e1vel. Alice come\u00e7ou a contar sobre a burocracia da vigil\u00e2ncia e do encerramento, que n\u00e3o deixa de ser violenta, ainda que n\u00e3o tenhamos passado por situa\u00e7\u00f5es concretas de agress\u00e3o. A pr\u00f3pria gest\u00e3o burocr\u00e1tica carrega uma viol\u00eancia que tende a nos engessar, por isso \u00e9 valiosa sua incita\u00e7\u00e3o a que busquemos um espa\u00e7o de negocia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tato<\/em><\/strong>: Acho que isso vai vir com a intimidade, com a continuidade, na medida em que voc\u00ea conseguir de alguma maneira se conectar com os indiv\u00edduos que est\u00e3o ali, al\u00e9m das pessoas jur\u00eddicas e das fun\u00e7\u00f5es \u2014 de inspetoras, diretoras ou guardas \u2014, acreditando que existem cordinhas no encordoamento interior dos indiv\u00edduos que podem ser postas em vibra\u00e7\u00e3o a partir da confian\u00e7a que voc\u00eas v\u00e3o conquistando.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Alice<\/em><\/strong>: Mas \u00e9 um paradoxo, porque aparentemente eles querem o trabalho, e eles estimulam que a gente esteja ali e parecem gostar que a gente esteja ali, e ao mesmo tempo parecem n\u00e3o querer o trabalho. Tem alguma coisa que ocorre na institui\u00e7\u00e3o relativa \u00e0s guardas e a todo o sistema prisional que, de algum modo, querem impedir a efetiva\u00e7\u00e3o do trabalho. Talvez por perceberem a a\u00e7\u00e3o sens\u00edvel que ele pode vir a provocar naqueles corpos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tato<\/em><\/strong>: Porque \u00e9 uma subvers\u00e3o, voc\u00ea subverter uma ordem que at\u00e9 ent\u00e3o \u00e9 muito clara. Imagino que essas din\u00e2micas naquele espa\u00e7o gerem um grau de imprevisibilidade enorme, n\u00e3o a ponto de provocar uma fuga em massa, mas, de modo mais sutil, mas n\u00e3o menos poderoso, de modificar as rela\u00e7\u00f5es na micropol\u00edtica daquela comunidade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: Isso, inclusive, se apresenta no pres\u00eddio de modo n\u00edtido, \u00e9 o que mostra a viol\u00eancia do punitivismo estruturante da institui\u00e7\u00e3o. A pris\u00e3o \u00e9 um aparato de puni\u00e7\u00e3o. Ainda que ela responda a uma demanda oriunda da justi\u00e7a federal para humaniza\u00e7\u00e3o dos pres\u00eddios \u2014 e \u00e9 curioso que se fale em humaniza\u00e7\u00e3o porque isso indica claramente o qu\u00e3o desumanizados j\u00e1 se considera que eles est\u00e3o \u2014 e isso se traduza no interesse por projetos como o nosso, na pr\u00e1tica h\u00e1 uma resist\u00eancia, que por vezes se explicita na fala de uma guarda sobre as detentas \u201cn\u00e3o merecerem nada&#8221;, por exemplo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Alice<\/em><\/strong>: Eu j\u00e1 ouvi de uma guarda no pres\u00eddio: \u201cO que voc\u00ea est\u00e1 fazendo aqui? Essas mulheres s\u00e3o muito violentas, elas n\u00e3o merecem nada!\u201d. Com isso elas querem mostrar que n\u00e3o faz sentido estarmos ali fazendo um trabalho que elas n\u00e3o merecem. Tem a ver com essa l\u00f3gica punitivista que \u00e9 imposta ali e mais forte que elas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tato<\/em><\/strong>: Esses sensores ou n\u00e3o existem ou est\u00e3o obstru\u00eddos, mas, talvez, quem sabe em algum momento possam se pensar em alguma din\u00e2mica a ser proposta para as guardas\u2026<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Alice<\/em><\/strong>: A gente j\u00e1 pensou sobre isso. Acho que seria um \u00f3timo passo!<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tato<\/em><\/strong>: O desafio dessas din\u00e2micas \u00e9 de propor caminhos para desfazer esses bloqueios, esses dispositivos abafadores de vibratilidade que existem naqueles corpos por quest\u00e3o de sobreviv\u00eancia. \u00c9 totalmente compreens\u00edvel supor que quem habita esse ambiente feche esses receptores para sobreviver psicologicamente porque \u00e9 tudo muito duro. Ao final do turno, a pessoa volta para casa, tem filho pequeno, fam\u00edlia, pets, planta para regar&#8230; imagina s\u00f3 esse deslocar? Talvez, para acessar mais um pouquinho esses indiv\u00edduos que cuidam de implementar o encarceramento, n\u00e3o sei em que medida, e eu sei que isso \u00e9 dif\u00edcil, pois vai haver resist\u00eancia, mas \u00e9 um modo de talvez fazer uma atua\u00e7\u00e3o mais delicada e aprofundada nas crostas defensivas postas pelas fun\u00e7\u00f5es e, quem sabe, come\u00e7ar a dissolver essas barreiras de autodefesa, esses dispositivos abafadores. N\u00e3o sei, \u00e9 um desafio imenso e imagino que voc\u00eas j\u00e1 devem ter pensado nisso em algum momento.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: Precisamos de ajuda para pensar, justamente.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>P\u00fablico<\/em><\/strong>: E qual \u00e9 a recep\u00e7\u00e3o das detentas com esse projeto? Como elas recebem isso?<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Alice<\/em><\/strong>: N\u00f3s trabalhamos com duas celas: uma cela que \u00e9 do \u201cSeguro\u201d, cujas mulheres s\u00e3o rejeitadas dentro do pr\u00f3prio pres\u00eddio e n\u00e3o podem se misturar com as outras de outras celas porque cometeram crimes hediondos, ent\u00e3o elas s\u00e3o apartadas; e uma outra cela com mulheres gr\u00e1vidas, onde h\u00e1 uma grande circula\u00e7\u00e3o. As gr\u00e1vidas muitas vezes ainda n\u00e3o foram sentenciadas, outras v\u00e3o ter seus beb\u00eas e mudam de complexo. As do \u201cSeguro\u201d s\u00e3o afetuosas, recebem a gente com muito carinho, abra\u00e7am, agradecem toda vez, muitas vezes. H\u00e1 uma boa recep\u00e7\u00e3o e um desejo de desenvolver algo, mas tamb\u00e9m muitos conflitos internos. Apesar de o \u201cSeguro\u201d ser um grupo que est\u00e1 a mais tempo no pres\u00eddio e ter mais regularidade, eventualmente vem uma ou outra diferente e percebemos logo quando h\u00e1 uma rejei\u00e7\u00e3o e da\u00ed alguns conflitos surgem, ou situa\u00e7\u00f5es delicadas de recolhimento. No geral, a recep\u00e7\u00e3o \u00e9 muito afetuosa, elas mergulham nas propostas e s\u00e3o bem dispon\u00edveis (e divertidas). No caso das gr\u00e1vidas \u00e9 um pouco mais dif\u00edcil porque \u00e9 esse grupo com muita circula\u00e7\u00e3o que, como eu disse, algumas saem para ter os beb\u00eas, outras s\u00e3o soltas. \u00c9 uma circula\u00e7\u00e3o enorme. \u00c0s vezes trabalhamos com duas ou tr\u00eas, e na segunda passada, por exemplo, tinham quinze gr\u00e1vidas. Em geral, as gr\u00e1vidas s\u00e3o mais desenergizadas pela condi\u00e7\u00e3o da gravidez e tudo o que isso implica: dor de cabe\u00e7a, cansa\u00e7o, press\u00e3o baixa e tal. E uma coisa que a gente nem precisa entrar em tantos detalhes como \u00e9 estar gr\u00e1vida num lugar confinado, que n\u00e3o bate sol e ficam deitadas praticamente o dia inteiro. Muito dif\u00edcil! N\u00f3s tamb\u00e9m ficamos desenergizadas e mais cansadas no trabalho com elas, precisamos injetar mais energia do que no \u201cSeguro\u201d. Sempre fazemos essa compara\u00e7\u00e3o, \u00e9 inevit\u00e1vel. No \u201cSeguro\u201d parece que realmente elas s\u00e3o muito criativas, mais ativas, e as gr\u00e1vidas menos, por tudo que j\u00e1 disse, e com isso fazemos um trabalho mais ralentado. \u00c9 quase como uma busca por um corpo que est\u00e1 despeda\u00e7ado.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Caroline<\/em><\/strong>: Acho que tamb\u00e9m podemos dizer que as do \u201cSeguro\u201d nunca saem. Elas ficam \u00e0 margem da din\u00e2mica do pres\u00eddio, como no Dia das M\u00e3es, por exemplo, quando n\u00e3o participam das comemora\u00e7\u00f5es. Permanecem sempre apartadas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: Apartadas tamb\u00e9m de atividades que as demais presas podem frequentar e que geram redu\u00e7\u00e3o da pena. Existe uma escola e uma esp\u00e9cie de clube de leitura, por exemplo, assim como atividades religiosas, cultos. Mas \u00e0s detentas do \u201cSeguro\u201d s\u00e3o oferecidas poucas atividades, e esse foi o principal fator para escolhermos trabalhar com elas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Alice<\/em><\/strong>: Elas s\u00e3o a \u00fanica cela do pres\u00eddio que n\u00e3o frequenta a escola. Isso diz muita coisa.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: Elas est\u00e3o presas dentro da pris\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tato<\/em><\/strong>: N\u00e3o frequentam a escola?<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Caroline<\/em><\/strong>: Algumas sim. A diretora da pris\u00e3o nos contou um relato pessoal sobre sua pr\u00f3pria experi\u00eancia e como deseja mudar certos padr\u00f5es. Ela nos disse que j\u00e1 havia sido guarda e, naquela \u00e9poca, acreditava que as presas deveriam permanecer encarceradas, que a puni\u00e7\u00e3o era a \u00fanica op\u00e7\u00e3o. Com o tempo, sua perspectiva mudou. Estudou Direito, tornou-se professora e voltou para trabalhar no Talavera. Agora, como diretora, entende a import\u00e2ncia de oferecer algo que as ajude a sair da cadeia de uma maneira diferente \u2014 estudando \u00e9 uma delas, tendo outras oportunidades. Ela fala do pr\u00f3prio processo de transforma\u00e7\u00e3o, de como viveu o modelo repressivo, mas, ao longo do tempo, foi descobrindo outras possibilidades. Dentro das limita\u00e7\u00f5es desse sistema, busca maneiras de proporcionar algo diferente para essas mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Alice<\/em><\/strong>: E as pr\u00f3prias detentas falam bem da atua\u00e7\u00e3o dela.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Caroline<\/em><\/strong>: Isso.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Alice<\/em><\/strong>: Isso j\u00e1 \u00e9 um ponto positivo, como se ela quisesse de fato construir alguma coisa.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Caroline<\/em><\/strong>: No in\u00edcio do projeto, elas chegavam at\u00e9 a gente mais pela vontade de sair da cela do que, de fato, para se movimentar. Testamos diferentes abordagens para engaj\u00e1-las, at\u00e9 que, aos poucos, foram compreendendo o prop\u00f3sito dos encontros. Algumas est\u00e3o conosco desde o in\u00edcio, e a diferen\u00e7a \u00e9 vis\u00edvel: hoje, elas mesmas fazem sugest\u00f5es e incentivam outras a participar. Tamb\u00e9m \u00e9 interessante observar essa trajet\u00f3ria de envolvimento. Trabalhamos muito com a desconstru\u00e7\u00e3o da palavra, criando passos espontaneamente e montando coreografias improvisadas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: Improvisa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Caroline<\/em><\/strong>: No in\u00edcio, as detentas chegavam aos encontros com dificuldade de improvisa\u00e7\u00e3o, presas dentro dos limites da pr\u00f3pria criatividade. Muitas precisavam observar e copiar os gestos das outras para, aos poucos, libertar seus pr\u00f3prios movimentos. Com o tempo, quem j\u00e1 est\u00e1 h\u00e1 mais tempo no grupo desenvolve um repert\u00f3rio, faz sugest\u00f5es e se move com mais liberdade. J\u00e1 as rec\u00e9m-chegadas, muitas vezes, se sentem constrangidas. Trabalhamos bastante com essa quest\u00e3o do constrangimento. Elas hesitam, mas, aos poucos, se entregam: \u201cVou fazer, vou gritar, vou mexer o corpo&#8230;\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: Os c\u00f3digos de conduta s\u00e3o muito restritos tanto sobre o que se fala quanto aos gestos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Alice<\/em><\/strong>: Elas t\u00eam um modo de se locomover pelo pres\u00eddio, elas abaixam a cabe\u00e7a e fecham as m\u00e3os para tr\u00e1s. O corpo delas \u00e9 coreografado numa perspectiva muito violenta que \u00e9 do gesto de restri\u00e7\u00e3o e enclausuramento da express\u00e3o. \u00c9 como se elas n\u00e3o fossem permitidas de abrir o bra\u00e7o, de olhar para cima, de respirar, de poder falar: \u201cAh, isso \u00e9 terr\u00edvel!\u201d. Sentimos isso na \u00faltima vez que propusemos um exerc\u00edcio de emiss\u00e3o das vogais com a expans\u00e3o da respira\u00e7\u00e3o para estimular a cria\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os internos no corpo, e vimos uma das mulheres\u2026a Michelle, nossa! Vimos ela percebendo a cria\u00e7\u00e3o destes espa\u00e7os e a surpresa de escutar a pr\u00f3pria voz! Ela \u00e9 uma detenta muito propositiva, desde o come\u00e7o notamos o movimento dela de puxar as outras, que lindo!&nbsp; E elas v\u00e3o se sentindo autorizadas a estarem experimentando alguma coisa ali, expressando a voz, o corpo&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>P\u00fablico<\/em><\/strong>: Fico muito curiosa em saber como \u00e9 o espa\u00e7o l\u00e1 e o que voc\u00eas fazem nesse espa\u00e7o?<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Alice<\/em><\/strong>: Trabalhamos normalmente num espa\u00e7o chamado \u201cReconstruindo a liberdade\u201d. \u00c9 uma sala fechada, n\u00e3o muito grande. Eventualmente, trabalhamos num sal\u00e3o de visitas, uma varanda semiaberta que \u00e9 muito dispersa por ter contato com o espa\u00e7o de circula\u00e7\u00e3o de todas as detentas do pres\u00eddio.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: Uma vez, trabalhamos no gramado sob o c\u00e9u.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Alice<\/em><\/strong>: Esse dia no gramado foi muito especial.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: Foi muito especial mesmo. Naquele dia n\u00e3o havia espa\u00e7o dispon\u00edvel pra n\u00f3s, ent\u00e3o indicamos que poderia ser em qualquer lugar, e acabamos trabalhando no gramado, sob o c\u00e9u. Acredito que da pr\u00f3xima vez dever\u00edamos propor ficar no gramado, porque elas j\u00e1 ficam extremamente presas. As mulheres ficaram absolutamente encantadas por estarem ali, mesmo sendo parte da pris\u00e3o. Est\u00e1vamos no espa\u00e7o exatamente cont\u00edguo ao pavilh\u00e3o delas, mas h\u00e1 um muro que n\u00e3o as deixa ver esse espa\u00e7o. A descoberta do lugar onde elas est\u00e3o confinadas, grande parte delas h\u00e1 anos, se deu nessa ocasi\u00e3o, no \u00e2mbito do projeto. Foi muito bonito ver elas olhando esse canto, olhando o c\u00e9u e querendo estar ali, comentando: \u201cOlha aquele gato\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Alice<\/em><\/strong>: Tem muitos bichos, inclusive na \u00faltima vez tinha um gamb\u00e1. Na hora pensei que era um rato, foi um susto!<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tato<\/em><\/strong>: Tem aquele rab\u00e3o de rato\u2026<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Alice<\/em><\/strong>: \u2026 vimos de frente, n\u00e3o deu pra ver o rabo\u2026<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tato<\/em><\/strong>: \u2026 tem uma carinha muito simp\u00e1tica!<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Alice<\/em><\/strong>: Desde o come\u00e7o, eu e Tania pensamos na ideia de poder trabalhar uma ressignifica\u00e7\u00e3o daquele espa\u00e7o, de pensar formas de ocupar o espa\u00e7o para al\u00e9m do confinamento, entendendo o que poderia ser a transcend\u00eancia de um espa\u00e7o confinado. Nesse dia, a c\u00e9u aberto, debaixo de uma \u00e1rvore, de alguma maneira tivemos um retorno sobre essa ressignifica\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o, por elas poderem olhar o espa\u00e7o de outra maneira e, assim, criar algum gosto de pisar naquele ch\u00e3o e olhar aquele espa\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: E isso quer dizer que o que a gente prop\u00f5e, o que a gente leva \u00e9, na verdade, secund\u00e1rio&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Alice<\/em><\/strong>: Exato.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: Porque diante da experi\u00eancia de uma mulher que diz \u201colha, ali tem uma cabine&#8221;, e voc\u00ea sabe que aquilo est\u00e1 a tr\u00eas metros da cela onde ela vive cotidianamente, ou de uma mulher que v\u00ea o c\u00e9u de repente \u2014 porque, como j\u00e1 dissemos, quando elas andam por ali t\u00eam que olhar para baixo&#8230; diante disso fica patente a import\u00e2ncia dos gestos em nossa proposta.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Alice<\/em><\/strong>: Sim. Isso \u00e9 s\u00f3 um pretexto.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: N\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o seja importante o que trazemos exatamente como proposta, mas o que acontece vai muito al\u00e9m disso e \u00e0s vezes atinge outra escala. Por exemplo, acontece de as gr\u00e1vidas, ao chegarem na sala \u201cReconstruindo a liberdade\u201d, onde est\u00e1 montada a estrutura b\u00e1sica de um sal\u00e3o de beleza, irem direto se olhar nos espelhos, e dizerem, surpresas: \u201cOlha como cresceu a barriga!\u201d.&nbsp; Ent\u00e3o, nos damos conta de que elas n\u00e3o t\u00eam acesso ao espelho na vida cotidiana no pres\u00eddio. E que o fato de o projeto propiciar o encontro com o espelho, especialmente para mulheres gr\u00e1vidas, talvez seja mais importante do que qualquer outra coisa que fazemos ali.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o talvez se trate para n\u00f3s n\u00e3o apenas de uma escuta dessas mulheres, mas das demandas que ali se apresentam sem nem mesmo serem enunciadas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Alice<\/em><\/strong>: O nome do projeto diz ao que veio <em>Corpo, Gesto e Afeto<\/em>: pessoas que possam ser afetuosas com elas, que se permitam olhar para elas e estar atentas a elas. No geral, elas n\u00e3o s\u00e3o olhadas, tampouco cuidadas e, por isso, tamb\u00e9m, criamos uma conex\u00e3o com elas de modo que elas v\u00e3o se sentindo importantes. Alguma delas j\u00e1 falou uma vez: \u201cNossa, eu at\u00e9 esqueci que estava no pres\u00eddio!\u201d. De alguma maneira, criamos circunst\u00e2ncias para que elas acessem o imagin\u00e1rio e at\u00e9 o corpo delas mesmo, de uma forma que elas podem realmente se deslocar daquele lugar e do modo como elas geralmente s\u00e3o vistas. Ent\u00e3o, acho que olhamos elas de uma maneira diferente e nos preocupamos com elas. Levamos alguns objetos, como bolas, tecidos, el\u00e1sticos, sacos, para sensibiliz\u00e1-las. \u00c9 algo que experimentamos. Brincamos com essa ideia de um objeto como dispositivo que auxilia no acesso ao corpo delas, de forma criativa.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>P\u00fablico<\/em><\/strong>: Seria legal se tivesse sempre gramado.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Alice<\/em><\/strong>: Seria \u00f3timo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: Apesar de fazer muito calor, habitualmente \u2014 o pres\u00eddio fica em Bangu, um dos bairros mais quentes da cidade \u2014, o que impede estarmos diretamente sob o sol.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>P\u00fablico<\/em><\/strong>: Eu achei esse projeto muito interessante de verdade, muito bonito&#8230; porque realmente humaniza as pessoas privadas de liberdade, que a gente acaba desumanizando, esquecendo que por tr\u00e1s existe um ser humano.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: Qual \u00e9 o seu nome?<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tato<\/em><\/strong>: Julia Tavares, \u00e9 caloura da turma de 2024.1.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: Sim, Julia, voc\u00ea tem raz\u00e3o, \u00e9 isso mesmo. Desde o in\u00edcio, em 2023, o projeto me fez pensar sobre isso, mas naquele primeiro momento eu estava fora do Rio, fazendo um P\u00f3s-Doutorado, e acompanhava a equipe por reuni\u00f5es <em>online<\/em> que se davam ap\u00f3s as idas ao pres\u00eddio. Desde que comecei a participar efetivamente, se imp\u00f4s a mim a pergunta: o que o projeto realiza? Ele \u201c(re)humanizaria\u201d uma situa\u00e7\u00e3o de segrega\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia desumanizante? Estamos levando algo espec\u00edfico, ou ser\u00e1 que oferecemos simplesmente nossa disponibilidade? Somos agentes disso, sim, agenciamos nossa disponibilidade \u2014 uma das poucas coisas de que a gente realmente se assenhora na vida \u00e9 se dispor a ir para um lugar, estar ali com pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o acho que a gente leve algo especial a elas, e talvez o projeto nos obrigue a pensar isso, um discurso diferente de \u201cnossa, que legal, a arte est\u00e1 levando alguma coisa para essas pessoas\u201d. Somos levadas a pensar de uma maneira mais sist\u00eamica, situando tamb\u00e9m como parte do projeto a lida com o todo: o dispositivo do pres\u00eddio, a burocracia do sistema prisional e do Centro Cultural da Justi\u00e7a Federal (CCJF), a burocracia da justi\u00e7a, enfim, e inclusive a lida com essa abstra\u00e7\u00e3o que se concretiza em institui\u00e7\u00f5es como essa, ou com a aberra\u00e7\u00e3o que \u00e9 a \u201cjusti\u00e7a\u201d, especialmente em um pa\u00eds injusto como o nosso. Estamos nos prestando a isso e, no fim, talvez elas fa\u00e7am mais por n\u00f3s, de alguma maneira, do que n\u00f3s por elas. Isso n\u00e3o quer dizer que o projeto n\u00e3o tenha valor e n\u00e3o fa\u00e7a diferen\u00e7a, mas se trata de uma quest\u00e3o \u00e9tica: a recusa em se colocar na posi\u00e7\u00e3o de um projeto que leva algo para pessoas necessitadas, quebrando a l\u00f3gica de que temos algo que elas n\u00e3o t\u00eam e podemos lhes oferecer.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tato<\/em><\/strong>: Legal, Tania. Ouvindo voc\u00ea falar eu fico pensando como \u00e9 assim que eu me sinto como professor. Com voc\u00ea tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa? No sentido de que, no fundo, mais do que levar algo, o que fazemos \u00e9 criar ambientes que favore\u00e7am conex\u00f5es e tr\u00e2nsitos de percep\u00e7\u00f5es e saberes, em m\u00faltiplas vias e dire\u00e7\u00f5es. Todas as vias t\u00eam chaves. Voc\u00ea leva algumas, que abrem portinhas que est\u00e3o fechadas, mas voc\u00ea recebe outras que tamb\u00e9m abrem espa\u00e7os inacess\u00edveis de outra maneira porque partem de subjetividades diferentes da sua. Acho que o que voc\u00eas fazem no pres\u00eddio n\u00e3o \u00e9 muito diferente da disponibilidade de estar em determinado espa\u00e7o como docente. Voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 apenas levando algo, voc\u00ea est\u00e1 apontando o dedo em v\u00e1rias dire\u00e7\u00f5es para o que te move e, claro, nem todo mundo vai olhar para o que voc\u00ea aponta, mas para o seu dedo. Mas, ao mesmo tempo, pensando o espa\u00e7o da sala de aula como dispositivo multidirecional, quem interage com voc\u00ea normalmente aponta para o que est\u00e1 fora do seu plano.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: Te ouvindo me veio a ideia de que, al\u00e9m de pensar disponibilidade como o que se d\u00e1, tamb\u00e9m se deva pensar disponibilidade ancorada em certo despojamento. N\u00e3o \u00e9 que a gente tenha algo que vamos levar para elas. \u00c0s vezes me incomoda o fato de sermos as tr\u00eas mulheres brancas e de classe m\u00e9dia supostamente levando algo \u00e0quelas mulheres, que, em sua maioria, s\u00e3o mulheres negras em situa\u00e7\u00f5es de extrema precariedade sociocultural e econ\u00f4mica. Esta ideia me incomoda bastante.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Alice<\/em><\/strong>: Me incomoda tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: O que estamos tentando fazer, de uma maneira mais ou menos intuitiva, \u00e9 criar um espa\u00e7o de despojamento nosso, nesse improviso, entendendo que se trata do despojamento de uma posi\u00e7\u00e3o de poder, na proposta de estar ali levando algo \u2014 a arte, o gesto, o afeto, a nossa presen\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Alice<\/em><\/strong>: \u00c9 a cria\u00e7\u00e3o de uma circunst\u00e2ncia para aquele espa\u00e7o. No princ\u00edpio ficamos um pouco na d\u00favida at\u00e9 de falar de onde somos, o que a gente faz. Falamos muito pouco, porque entendemos que isso poderia criar um certo distanciamento hier\u00e1rquico, o que poderia inibi-las de alguma maneira, como se estiv\u00e9ssemos no posto de passar um conhecimento, tendo em vista que esse \u00e9 um projeto da universidade. Talvez tenhamos falado uma vez isso para elas quando perguntaram. Isso tem a ver com o que a Tania falou. E eu fiquei pensando que cada vez mais as nossas estrat\u00e9gias criativas s\u00e3o uma forma de cria\u00e7\u00e3o junto delas. Buscamos mais o que elas podem trazer em termos de gestos do que levarmos gestos prontos. Por exemplo, desde o come\u00e7o repetimos um exerc\u00edcio gestual a partir do nome delas, isso \u00e9 muito divertido. Elas trazem gestos muito interessantes at\u00e9 quando se inibem de fazer o gesto, o que gera uma atitude corporal interessante, e elas percebem quando apontamos que a inibi\u00e7\u00e3o j\u00e1 \u00e9 o pr\u00f3prio gesto. Na semana passada fizemos uma coreografia a partir de gestos, organizamos filas para elas brincarem com o gesto de uma com a outra\u2026<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: Uma fazendo o gesto e as outras imitando.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Alice<\/em><\/strong>: A coreografia foi criada por elas e ficou muito legal. Elas se divertiram tanto, elas riram por se surpreenderem que elas podem criar um movimento ou at\u00e9 uma coreografia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tato<\/em><\/strong>: Lembra aquela cena final do filme do Wim Wenders sobre a Pina Bausch, da fila\u2026<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Alice<\/em><\/strong>: Da fila, quase isso&#8230; s\u00e3o corpos t\u00e3o diferentes.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: Eu gostei da palavra circunst\u00e2ncia que voc\u00ea usou para falar da situa\u00e7\u00e3o, porque implica movimento, como na palavra \u201ccircundar\u201d. Estar em circunst\u00e2ncia seria p\u00f4r-se em movimento circular, seria circular com e entre as pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tato<\/em><\/strong>: Tem um entorno, um c\u00edrculo em volta, e eu acho interessante que voc\u00eas n\u00e3o falam muito de voc\u00eas, do que s\u00e3o voc\u00eas l\u00e1 fora. Talvez n\u00e3o falar sobre isso ajuda a imantar, a fermentar a constitui\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o de liberdade, que se desconecta do antes na rela\u00e7\u00e3o com os outros, um n\u00e3o lugar, um espa\u00e7o interno.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Alice<\/em><\/strong>: \u00c9 bem isso mesmo. E isso nos aproxima delas ao mesmo tempo em que elas se aproximam delas mesmas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tato<\/em><\/strong>: \u00c9 uma c\u00e1psula, e a\u00ed essa c\u00e1psula pode se expandir muito, pode se expandir muito na medida da intimidade, da confian\u00e7a, do aprendizado com as experi\u00eancias. \u00c9 um universo que cresce dentro daquele espa\u00e7o restrito, paredes com metros quadrados, mas \u00e9 um espa\u00e7o de uma outra natureza.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: E a \u00e1udionutri\u00e7\u00e3o, como entraria ali?<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tato<\/em><\/strong>: Pois \u00e9, eu fico imaginando o quanto elas sabem do que acontece atrav\u00e9s das paredes, o quanto elas se informam do que acontece pela escuta.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Alice<\/em><\/strong>: Ent\u00e3o voc\u00ea tem que ir l\u00e1 com a gente um dia porque a sonoridade l\u00e1 \u00e9 surreal. \u00c9 um espa\u00e7o sujeito a muita dispers\u00e3o sonora, tem muito ru\u00eddo. No entanto, elas t\u00eam uma boa rela\u00e7\u00e3o de escuta com as nossas indica\u00e7\u00f5es e proposi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tato<\/em><\/strong>: Muita coisa acontecendo\u2026<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Alice<\/em><\/strong>: Tudo vazado.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: Tem os c\u00e2nticos do templo evang\u00e9lico&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>P\u00fablico<\/em><\/strong>: Eu n\u00e3o sei o que \u00e9 a \u00e1udionutri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tato<\/em><\/strong>: \u00c9 aquela proposta muito simples que eu lancei no come\u00e7o, o quanto a gente pode se alimentar pelo que a gente escuta, ou seja, entender o que acontece \u00e0 nossa volta mais pela escuta do que pela vis\u00e3o. De alguma maneira fazer do que soa fonte de informa\u00e7\u00e3o&#8230; A gente faz isso normalmente, mas \u00e9 diferente quando se faz de modo mais atento. Essa \u00e9 a ideia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>P\u00fablico<\/em><\/strong>: Como foi para voc\u00eas chegarem l\u00e1 e ter essa realidade? Que provavelmente voc\u00eas nunca conheciam? E para quebrar esse medo dessas pessoas? A gente sempre tem esse medo. Como foi para voc\u00eas quebrar todos esses t\u00edtulos para conseguirem fazer um trabalho?<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Caroline<\/em><\/strong>: Eu cheguei l\u00e1 carregando todo esse imagin\u00e1rio sobre o que \u00e9 o pres\u00eddio, numa mistura de receio e curiosidade, mas com um grande interesse em conhecer esse contexto de perto. Entrar no pres\u00eddio j\u00e1 \u00e9 um ritual: seguimos os protocolos de seguran\u00e7a, passamos pela revista e falamos com as guardas. Mas, no projeto, lidamos com mulheres e com o que elas trazem. N\u00e3o ficamos presas ao que elas fizeram no passado; estamos interessadas no que pode surgir l\u00e1, no presente.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma vez, bem no come\u00e7o, nos colocaram na igreja, logo ap\u00f3s um culto. Fizemos um exerc\u00edcio convidando todas a fechar os olhos e, em duplas, uma ser guiada pela outra. Isso foi bem no come\u00e7o. Agora, imagine fechar os olhos em um lugar onde a desconfian\u00e7a \u00e9 constante. \u00c9 um ato desafiador at\u00e9 para n\u00f3s, que est\u00e1vamos chegando, sem v\u00ednculo algum, e, de repente, precis\u00e1vamos nos permitir ser guiadas por algu\u00e9m. Mas esse momento tamb\u00e9m nos mostrou algo importante: os processos que propomos n\u00e3o s\u00e3o apenas sobre movimento, mas sobre criar la\u00e7os. O v\u00ednculo no trabalho, a confian\u00e7a, \u00e9 essencial. Assim, fomos estabelecendo uma rela\u00e7\u00e3o que vai al\u00e9m da atividade em si. Para essas mulheres, acostumadas a um ambiente de vigil\u00e2ncia e restri\u00e7\u00e3o, o projeto se torna um espa\u00e7o onde a presen\u00e7a do outro deixa de ser uma amea\u00e7a e se transforma em algo positivo. Aos poucos, elas come\u00e7aram a chegar mais dispostas, mais abertas a compartilhar suas experi\u00eancias conosco. O trabalho foi ganhando corpo, tanto para n\u00f3s como para elas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Alice<\/em><\/strong>: Isso que Carol falou, esse exerc\u00edcio que a gente fez na igreja, foi uma experi\u00eancia muito forte! Lembro que eu propus isso e, quando estava de olhos fechados sendo levada por uma presa, eu pensei: \u201cCaramba, que loucura! N\u00f3s quatro de olhos fechados com as detentas nos guiando por um espa\u00e7o amplo e aberto\u201d. Eu n\u00e3o tinha me dado conta do estado de vulnerabilidade que ficamos, mas foi \u00f3timo. O que foi impressionante \u00e9 que nos sentimos \u00e0 vontade com elas. \u00c0s vezes, elas demoram para ficar \u00e0 vontade conosco, porque elas t\u00eam medo tamb\u00e9m, n\u00e3o sabem o que vamos fazer, principalmente as que est\u00e3o entrando pela primeira vez. Nesse dia percebemos a tor\u00e7\u00e3o desse lugar de propositores e praticantes.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Caroline<\/em><\/strong>: Uma coisa que sempre me perguntam e comentam comigo \u00e9 sobre a energia do pres\u00eddio ser pesada. De fato, n\u00e3o \u00e9 um lugar alto astral, mas a energia l\u00e1 \u00e9 din\u00e2mica \u2014 muda a cada dia, dependendo do que acontece. Pode ser leve ou densa, tudo influencia. Nesse processo, especialmente no in\u00edcio, as supervis\u00f5es com a Tania foram essenciais para nos ajudar a entender nossas emo\u00e7\u00f5es e lidar com essas varia\u00e7\u00f5es de energia, tanto das presas como as nossas pr\u00f3prias.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Alice<\/em><\/strong>: Porque sa\u00edmos mexidas, cansadas&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Caroline<\/em><\/strong>: Envolvidas com quem aparecia. Mas entendemos a import\u00e2ncia do distanciamento para que o trabalho aconte\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: Eu nunca me senti em perigo, at\u00e9 porque j\u00e1 trabalhei em hospitais psiqui\u00e1tricos e, em compara\u00e7\u00e3o com estes, o Talavera Bruce \u00e9 muito tranquilo. Claro que algumas mulheres ali est\u00e3o deprimidas, principalmente as gr\u00e1vidas. E isso n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa, porque as mulheres detentas no Brasil n\u00e3o costumam ter direito \u00e0 visita \u00edntima, diferente dos homens, nos pres\u00eddios masculinos. Portanto, elas n\u00e3o ficaram gr\u00e1vidas na pris\u00e3o; trata-se de mulheres que, diferente do resto da popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria do Talavera Bruce, n\u00e3o est\u00e3o sentenciadas, est\u00e3o esperando um alvar\u00e1, e muitas podem ser soltas a qualquer momento, o que faz com que este grupo seja bastante vari\u00e1vel, como j\u00e1 mencionou Alice. S\u00f3 percebi h\u00e1 pouco tempo que muitas mulheres se descobrem gr\u00e1vidas no momento em que s\u00e3o presas e t\u00eam que fazer os exames de praxe. Me pus a imaginar ent\u00e3o a dupla pris\u00e3o de uma mulher quando se descobre gr\u00e1vida e, por estar presa, sem nenhuma chance de eventualmente fazer um aborto.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>P\u00fablico<\/em><\/strong>: O que acontece com a crian\u00e7a depois?<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: No final da gravidez elas v\u00e3o para outro lugar, que \u00e9 uma unidade materno-infantil, a\u00ed ficam seis meses com a crian\u00e7a depois que nasceu.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Alice<\/em><\/strong>: Depois elas ficam com a fam\u00edlia, se tiver, ou s\u00e3o guiadas para ado\u00e7\u00e3o. Os beb\u00eas n\u00e3o ficam com a m\u00e3e.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: \u00c9 muito dif\u00edcil. \u00c9 muito duro.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Alice<\/em><\/strong>: Nunca fomos na unidade materno-infantil, o Evandro [Salles \u2014 diretor do CCJF] foi e comentou conosco.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Caroline<\/em><\/strong>: O tema da maternidade \u00e9 um tema que aparece com as mulheres no \u201cSeguro\u201d, que t\u00eam as penas muito longas e t\u00eam essa saudade dos filhos, das fam\u00edlias.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Alice<\/em><\/strong>: Elas falam dos filhos, muitas t\u00eam tatuagem com o nome deles no corpo. H\u00e1 mesmo essa rela\u00e7\u00e3o de mem\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: Tem. Mas agora me dei conta ouvindo voc\u00eas que pra mim \u00e9 tranquilo, imagina, comparando com o hospital psiqui\u00e1trico&#8230; super tranquilo, mas porque \u00e9 um pres\u00eddio feminino. N\u00e3o sei se me sentiria assim num pres\u00eddio masculino&#8230; eu acho que n\u00e3o, eu acho que num pres\u00eddio masculino me sentiria em perigo, acho que se trata de uma quest\u00e3o de g\u00eanero.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>P\u00fablico<\/em><\/strong>: Houve uma escolha de voc\u00eas de trabalhar com este pres\u00eddio?<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Alice<\/em><\/strong>: Ent\u00e3o, o CCJF j\u00e1 tinha uma parceria com o Talavera Bruce e com o Oscar Stevenson, que \u00e9 o pres\u00eddio semiaberto em Benfica.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: Soubemos pelo curador Evandro Salles que o Centro Cultural estava iniciando uma parceria com esse pres\u00eddio e que haveria a possibilidade de receberem projetos. Convidei ent\u00e3o para elaborarmos um projeto, e o CCJF o acolheu com entusiasmo, ficando respons\u00e1vel apenas pelo transporte da equipe. Mas nada nos parece f\u00e1cil neste projeto. N\u00e3o que seja dif\u00edcil estar l\u00e1 com as mulheres, pelo contr\u00e1rio. O dif\u00edcil \u00e9 tudo que envolve esse trabalho institucionalmente. A viol\u00eancia do sistema prisional \u00e9 t\u00e3o institucionalizada que tudo parece concorrer para que o trabalho n\u00e3o aconte\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, seria muito importante se a gente tivesse pelo menos bolsas, um pagamento m\u00ednimo para as pessoas da equipe, especialmente alunes de gradua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Alice<\/em><\/strong>: \u00c9 bem cansativo pela rela\u00e7\u00e3o demasiadamente burocr\u00e1tica. \u00c0s vezes estamos impedidas de fazer coisas que gostar\u00edamos de fazer porque a burocracia impede mesmo. Ent\u00e3o, isso que a Tania disse sobre n\u00e3o termos nenhum suporte, dificulta. Logo no in\u00edcio tentamos fazer pedidos, como por exemplo alguns materiais para as pr\u00e1ticas. Nossa, uma burocracia sem fim para conseguir pap\u00e9is grandes, at\u00e9 o ponto em que falamos: \u201cN\u00e3o vamos pedir mais nada\u201d. Trazemos alguns materiais de nossas casas. A Carol tem materiais maravilhosos, pap\u00e9is diversos, tecidos grandes e el\u00e1sticos. Eu levo bolas. Dessa forma vamos nos autogerindo nesse processo. De qualquer forma, ter o carro do CCJF \u00e9 fundamental.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: Acho que desde o come\u00e7o entendemos tamb\u00e9m que n\u00e3o se trata de dificuldade com pessoas exatamente, mas de uma estrutura, a da justi\u00e7a, especialmente a da l\u00f3gica prisional, que \u00e9 violenta por excel\u00eancia. Isso se apresenta em pequenas coisas, n\u00e3o s\u00f3 a dificuldade burocr\u00e1tica, mas tamb\u00e9m o fato de que cada vez que chegamos parece que os funcion\u00e1rios n\u00e3o est\u00e3o a par do projeto&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Alice<\/em><\/strong>: Parece que \u00e9 a primeira vez: \u201cVoc\u00eas s\u00e3o de qual projeto?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Caroline<\/em><\/strong>: \u201cVoc\u00eas s\u00e3o as religiosas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tato<\/em><\/strong>: \u201cPastoras\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Todos<\/em><\/strong>: [risos]<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: Parece que nada se pode instituir e que n\u00e3o existe uma rotina das detentas. N\u00e3o se pode estabelecer algo. A institui\u00e7\u00e3o justamente est\u00e1 ali para suspender a vida e, portanto, o tempo, a passagem do tempo. Uma das piores viol\u00eancias talvez seja a de impedir que as detentas tenham uma rotina. Voc\u00ea imagina o que \u00e9 estar cumprindo uma pena estabelecida em dias ou meses e voc\u00ea n\u00e3o poder organizar o seu dia a dia de maneira a ter o tempo passando? O pres\u00eddio \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o na qual parece que o tempo n\u00e3o passa. Tudo ali est\u00e1 meio cristalizado. Agora me veio \u00e0 cabe\u00e7a aquela imagem clich\u00ea do preso contando os dias na parede&#8230; talvez isso seja mesmo necess\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>P\u00fablico<\/em><\/strong>: \u00c9 uma viol\u00eancia psicol\u00f3gica. Eu me lembrei de um filme que eu assisti que tinha uma cena em que um dos personagens era preso porque ele cometia algum crime grave, e colocaram ele numa solit\u00e1ria. Tudo escuro, um lugar pequenininho, coisa horr\u00edvel mesmo e, para ele n\u00e3o surtar, para ele n\u00e3o enlouquecer, ele ficava pegando uma moeda e tacando pra cima, pegando no ch\u00e3o, pegando no ch\u00e3o toda hora.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: \u00c9 uma maneira bonita de fazer o tempo passar, fazendo som.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Alice<\/em><\/strong>: A viol\u00eancia psicol\u00f3gica \u00e9 posta em vigor naquele ambiente&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>P\u00fablico<\/em><\/strong>: Foi Milton Gon\u00e7alves, no filme <em>Carandiru<\/em>,que era uma pris\u00e3o em S\u00e3o Paulo.O ator interpreta Chico, um personagem dentro do pres\u00eddio que era para receber uma visita da filha, e a\u00ed ela n\u00e3o foi e fizeram uma piada com a filha dele, a\u00ed ele agrediu o cara na hora e o colocaram numa solit\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>P\u00fablico<\/em><\/strong>: Eu queria fazer uma pergunta. N\u00e3o tem rela\u00e7\u00e3o com este assunto, mas uma pergunta em geral: por que o corpo no trabalho de voc\u00eas? Me aparenta ser muito mais a quest\u00e3o da movimenta\u00e7\u00e3o do corpo do que necessariamente uma coisa&#8230; uma produ\u00e7\u00e3o gr\u00e1fica. Claro que essas coisas est\u00e3o intimamente ligadas, n\u00e3o tem como separar, mas por que o corpo? Por que a movimenta\u00e7\u00e3o do corpo especificamente nesse projeto?<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: Muito boa. Qual \u00e9 seu nome?<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>P\u00fablico<\/em><\/strong>: Luana.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: Luana, eu posso dizer o que me fez convidar Alice e depois ler pra voc\u00eas o trechinho do projeto em que a gente explicita isso, mas queria sugerir que depois o Tato falasse sobre o barulho da moeda batendo no teto e no ch\u00e3o. Acho interessante pensar o lugar do som marcando e, portanto, permitindo a passagem do tempo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tato<\/em><\/strong>: Sim, \u00e9 o tic-tac. Ele criou um m\u00f3dulo de tempo. Na inexist\u00eancia de qualquer refer\u00eancia, ele criou um p\u00eandulo, um rel\u00f3gio, um tic-tac, algo que materializa a passagem do tempo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Alice<\/em><\/strong>: Total, seria um vazio do tempo\u2026<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tato<\/em><\/strong>: \u2026 uma eternidade, ele criou um\u2026<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Alice<\/em><\/strong>: \u2026 um pulso.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: Pulso.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Alice<\/em><\/strong>: Muito bom. Porque o pulso \u00e9 apaziguador.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tato<\/em><\/strong>: Sim! O pulso \u00e9 apaziguador, porque a regularidade \u00e9 apaziguadora.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: Gente, que bonito isso. Pulso.&nbsp; Agora a gente vai chamar o projeto de <em>Pulso<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Alice<\/em><\/strong>: Dan\u00e7ar sem m\u00fasica pode ser muito desconfortante, ent\u00e3o o pulso pode ajudar muito. Muito legal isso.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tato<\/em><\/strong>: Trazer isso para pensar que, na priva\u00e7\u00e3o de ci\u00eancia da passagem do tempo, o instinto \u00e9 de criar algum m\u00f3dulo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: Que bonito isso. Talvez este seja uma esp\u00e9cie de ponto zero da m\u00fasica.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tato<\/em><\/strong>: No princ\u00edpio era o pulso.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>P\u00fablico<\/em><\/strong>: A m\u00fasica tem o bpm.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tato<\/em><\/strong>: Sim, tudo \u00e0 nossa volta, vis\u00edvel ou invis\u00edvel, tem bpm tamb\u00e9m, da menor unidade microf\u00edsica \u00e0 maior unidade do cosmos, tudo tem um bpm, uma velocidade de vibra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>P\u00fablico<\/em><\/strong>: Tudo tem sequ\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tato<\/em><\/strong>: O que muda \u00e9 a velocidade, a frequ\u00eancia da vibra\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea chama de som quando vibra a uma certa velocidade. Em outras velocidades, voc\u00ea chama de luz, r\u00e1dio, micro-ondas ou \u00f3rbitas de planetas, mas \u00e9 tudo vibra\u00e7\u00e3o em diferentes frequ\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: E a gente. E pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tato<\/em><\/strong>: Um monte de pulsos ao mesmo tempo. A gente \u00e9 uma multiplicidade de pulsos, mas fomos poupados de ouvir esses pulsos todos. A gente ia pirar ouvindo a quantidade de pulsos que acontecem o tempo inteiro dentro da gente. A respira\u00e7\u00e3o, a circula\u00e7\u00e3o, o sistema digestivo, as gl\u00e2ndulas secretando, o cabelo crescendo\u2026<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: Ent\u00e3o, tem psicanalistas que trabalham sobre a m\u00fasica, como Jean-Michel Viv\u00e8s, e prop\u00f5em a ideia de uma esp\u00e9cie de \u201crecalcamento\u201d sonoro, que marcaria a diferencia\u00e7\u00e3o b\u00e1sica entre ru\u00eddo e voz, necess\u00e1ria para que algu\u00e9m aceda \u00e0 linguagem.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tato<\/em><\/strong>: Qual o sentido do termo recalcamento?<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: O recalcamento origin\u00e1rio ou prim\u00e1rio marca o processo de advento do sujeito, de surgimento do sujeito. Fala-se em recalcamento prim\u00e1rio como algo importante para que a pessoa entre na linguagem, situe-se como ser falante entre seres falantes. Alguns psicanalistas indicam uma dimens\u00e3o sonora disso na diferencia\u00e7\u00e3o primeira entre ru\u00eddo e voz, porque, seguindo isso que voc\u00ea est\u00e1 dizendo, a gente est\u00e1 envolto em uma massa sonora que tem que ser trabalhada, modulada. A palavra \u00e9 modulada em termos de um privil\u00e9gio dado pela percep\u00e7\u00e3o a algumas unidades, consideradas significativas, em detrimento de outras, que n\u00e3o seriam portadoras de sentido.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Alice<\/em><\/strong>: A ponto de n\u00f3s, por exemplo, podermos ignorar o que est\u00e1 fora, e o pulso tem a ver com essa possibilidade de a gente se organizar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tato<\/em><\/strong>: Isso faz a gente pensar que temos embutida essa capacidade de delimitar unidades, de n\u00e3o perceber tudo a nossa volta como um borrado de \u00e1tomos. J\u00e1 quando voc\u00ea faz um sonograma, que \u00e9 uma fotografia digital de um som gravado, a imagem te entrega as frequ\u00eancias, dura\u00e7\u00f5es e intensidades, mas n\u00e3o discrimina com clareza as unidades do que foi gravado. Interessante pensar que, se a vis\u00e3o segrega, a escuta n\u00e3o discrimina\u2026<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: N\u00e3o \u00e9 que se eliminem totalmente esses outros sons, esses outros registros sonoros que s\u00e3o nesta opera\u00e7\u00e3o delimitados. Como indica a palavra recalcamento, eles permanecem abafados, mas n\u00e3o deixam de pulsar \u2014 para usar o termo que surgiu nesta conversa. O recalcado n\u00e3o \u00e9 eliminado, mas permanece encriptado, retido, sem poder se apresentar plenamente como tal. Talvez se possa pensar a arte como o que, \u00e0s vezes, de modo provis\u00f3rio ou parcial, abre o caminho para o que estava retido se apresentar como tal. Voc\u00ea acha que isso faz sentido no dom\u00ednio sonoro, Tato?<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tato<\/em><\/strong>: Faz total sentido em todos os dom\u00ednios. Pelo relato de voc\u00eas, primeiro vejo quanto de coragem pessoal voc\u00eas t\u00eam no engajamento sem mapas nessa jornada. Para mim, isso tem muito a ver com o salto do carrapato descrito por [Jacob Von] Uexk\u00fcll, de abra\u00e7ar a incerteza num salto no vazio.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: \u00d3tima palavra, o salto. Pulso e salto, at\u00e9 agora\u2026<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Alice<\/strong><br>Muito bom.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tato<\/em><\/strong>: Essa experi\u00eancia daria um belo projeto de extens\u00e3o, j\u00e1 que voc\u00eas s\u00e3o professoras universit\u00e1rias. Partindo dessa rela\u00e7\u00e3o com outra institui\u00e7\u00e3o, o CCJF, voc\u00eas podem criar na UFF ou UFRJ um projeto de extens\u00e3o, engajar estudantes, solicitar bolsas, engajar estagi\u00e1rios e por a\u00ed vai.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: Muito bom que o [Tato como] coordenador [do curso de Artes da UFF] se lembre disso! N\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o tenhamos pensado em faz\u00ea-lo, apesar de, confesso, eu ter muita dificuldade hoje em dia com a burocracia universit\u00e1ria, mas porque tamb\u00e9m n\u00e3o sab\u00edamos se o projeto poderia continuar contando com o apoio do CCJF, por uma eventual mudan\u00e7a na dire\u00e7\u00e3o do Centro. Tudo nesse projeto \u00e9 muito prec\u00e1rio e \u00e9 gra\u00e7as a esse conv\u00eanio entre o CCJF e o pres\u00eddio que o projeto acontece, pois seria imposs\u00edvel arcarmos com o transporte. Tamb\u00e9m do ponto de vista administrativo \u00e9 importante que o projeto seja parte de um conv\u00eanio do CCJF, sem d\u00favida.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Alice<\/em><\/strong>: Porque n\u00e3o \u00e9 o pres\u00eddio. A SEAP cuida de todo o complexo de pres\u00eddios do Rio de Janeiro e do Estado do Rio de Janeiro. Ent\u00e3o SEAP tamb\u00e9m \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o com todas as burocracias pr\u00f3prias de uma institui\u00e7\u00e3o com esse grau de complexidade, por isso demoramos oito meses para come\u00e7ar&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: Mas eu acho que \u00e9 muito importante transformar em extens\u00e3o, tanto na UFRJ quanto no curso de Artes da UFF, com certeza.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tato<\/em><\/strong>: At\u00e9 porque o mais dif\u00edcil voc\u00eas j\u00e1 fizeram, esse espa\u00e7o j\u00e1 foi criado.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: Eu gostaria muito que a gente tivesse alunes do curso de Artes conosco nesse projeto, \u00e9 \u00f3bvio, e espero conseguir um dia tornar isso poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>Gostaria de voltar \u00e0 pergunta da Luana sobre o motivo de estarmos pensando em termos de corpo. De minha parte, j\u00e1 havia um desejo forte de trabalhar com a Alice. Sempre diz\u00edamos \u201cvamos fazer alguma coisa juntas\u201d, e acho que vi na oportunidade de apresentar um projeto para o CCJF o salto, para usar o termo que o Tato trouxe agora h\u00e1 pouco. O que me viria naturalmente seria eu fazer um trabalho de fala, pois tenho forma\u00e7\u00e3o e pr\u00e1tica cl\u00ednica em psican\u00e1lise, al\u00e9m de trabalhar com arte. Mas nos \u00faltimos anos tenho buscado o salto em outro lugar, e ter Alice ao meu lado me trouxe a parceria necess\u00e1ria para essa experimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de sempre ter tido em minha vida uma presen\u00e7a do movimento e da explora\u00e7\u00e3o de possibilidades corporais, nunca havia me proposto realmente a fazer algo num campo expandido da dan\u00e7a, vamos dizer assim. Gosto de poder experimentar outros caminhos. Tato, como coordenador do curso de Artes, me convidou inclusive para dar uma disciplina de corpo no pr\u00f3ximo semestre e eu estou muito animada.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tato<\/em><\/strong>: Vai ser maravilhoso para os calouros de 2024.2.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: Para mim se trata de um desafio importante. Vou tentar inventar um corpo para come\u00e7ar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tato<\/em><\/strong>: Como diz o [fil\u00f3sofo] Claudio Ulpiano, existe o pensamento, o resto \u00e9 tudo corpo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Alice<\/em><\/strong>: Para Ulpiano, o corpo \u00e9 o impensado.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: Eu tamb\u00e9m poderia responder, ainda sobre a raz\u00e3o de propor um trabalho corporal, que nos pres\u00eddios j\u00e1 existe atendimento psicol\u00f3gico, \u00e9 claro. Mas a verdade \u00e9 que eu n\u00e3o teria desejo de trabalhar no Talavera Bruce com um projeto de psican\u00e1lise no sentido estrito. Acho que a quest\u00e3o do espa\u00e7o se imp\u00f5e numa pris\u00e3o de uma maneira que convoca o meu corpo, um corpo feminino, ou seja, de algu\u00e9m que se define, se identifica com o significante \u201cmulher\u201d. A ideia de um corpo encerrado, e de como um trabalho ali tem que se dar no espa\u00e7o, nos levou, com Alice, a pensar uma atividade com gesto, afeto e espa\u00e7o, em uma esp\u00e9cie de campo expandido da dan\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Em nossa primeira visita, quando fomos com a equipe do CCJF conhecer o pres\u00eddio, percebemos, diante da cela do \u201cSeguro\u201d, quando as detentas vieram conversar conosco atrav\u00e9s das grades, percebemos que elas pareciam estar muito bem organizadas como microssociedade. Imagina o que \u00e9 passar anos num mesmo espa\u00e7o, em um s\u00f3 c\u00f4modo, com muitas outras mulheres, em uma \u00e1rea ex\u00edgua e sem nenhum espa\u00e7o de privacidade. Percebemos que j\u00e1 havia todo um regime de representa\u00e7\u00e3o entre elas, que algumas falavam em nome de todas. Uma coisa muito bonita em termos de constru\u00e7\u00e3o social, que nos fez pensar o projeto como algo que viria simplesmente tentar trazer refor\u00e7os para essa constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Tenho um desejo muito grande de refletir sobre os modos de cria\u00e7\u00e3o de um comum feito especialmente por mulheres e numa situa\u00e7\u00e3o extrema como a de encarceramento, de priva\u00e7\u00e3o de liberdade. Ent\u00e3o pensamos o projeto n\u00e3o para trazer algo que elas n\u00e3o teriam, mas tentando trazer alguma contribui\u00e7\u00e3o para um processo que elas mesmas j\u00e1 est\u00e3o realizando, apostando nessas constru\u00e7\u00f5es afetivas de la\u00e7os sociais que, sem d\u00favida, podem transformar substancialmente a viv\u00eancia de cada detenta.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>P\u00fablico<\/em><\/strong>: Queria fazer uma pergunta. Fiquei pensando muito como voc\u00eas passam por v\u00e1rios portais at\u00e9 chegarem l\u00e1 e, dentro desse trabalho, voc\u00eas criam um portal para essas mulheres, de um outro universo, mas voc\u00eas atravessam v\u00e1rios at\u00e9 chegarem l\u00e1. Queria que voc\u00eas falassem um pouco sobre isso.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: Qual \u00e9 seu nome?<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>P\u00fablico<\/em><\/strong>: S\u00e9rgio.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: S\u00e9rgio, obrigada pela pergunta. Eu queria s\u00f3 te pedir licen\u00e7a para pedir pra Alice e pra Carol falarem sobre a quest\u00e3o do corpo, antes de pensar especificamente nesses atravessamentos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Alice<\/em><\/strong>: Primeiro queria dizer que o convite da Tania foi muito transformador. Estar com ela e a Carol nesse lugar, e as estudantes que foram sendo agregadas no projeto, tudo isso tem sido uma experi\u00eancia e tanto. Somente junto da Tania para me sentir encorajada de estar nesse lugar. Tamb\u00e9m, como a Tania disse, no primeiro ano ela n\u00e3o estava presente, mas ela deu um suporte, ela deu um corpo para enfrentarmos esses outros corpos, foi fundamental. N\u00f3s t\u00ednhamos reuni\u00f5es semanais com ela, pois necessitamos de uma organiza\u00e7\u00e3o do nosso pr\u00f3prio corpo para estar no pres\u00eddio. Precisamos de um suporte.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 um outro projeto que o CCJF tamb\u00e9m implementou que \u00e9 o de cinema. Em algum momento a pessoa que coordena o projeto do cinema entrou em contato comigo perguntando se a gente n\u00e3o poderia dar um suporte emocional para elas. Enfim, s\u00f3 pra dizer que o suporte da Tania trouxe o corpo de escuta necess\u00e1rio para o projeto de uma maneira geral. As minhas ferramentas como bailarina n\u00e3o seriam suficientes para estar naquele lugar.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, num primeiro momento, pensamos: \u201cCom que corpo chegamos ali?\u201d. Tem uma quest\u00e3o que eu penso acerca do corpo marginalizado e o confronto com aqueles corpos literalmente marginalizados. O que resta daquelas mulheres? Elas s\u00f3 t\u00eam o corpo mesmo ali, elas n\u00e3o t\u00eam nenhum bem material, nada. A roupa delas \u00e9 igual, elas usam uma blusa branca igual. Elas n\u00e3o t\u00eam objetos, elas n\u00e3o t\u00eam rela\u00e7\u00e3o com o espa\u00e7o de uma casa, por exemplo. Tudo o que elas t\u00eam \u00e9 o corpo. Ent\u00e3o, o projeto tem o sentido de potencializar aquele corpo. O que podemos junto com elas e o que elas podem entender junto de n\u00f3s \u2014 \u00e9 um vai e vem, levamos algo para que aquele corpo seja potencializado e, em contrapartida, o nosso corpo tamb\u00e9m \u00e9 potencializado. Passamos por altos e baixos, tamb\u00e9m ficamos nos perguntando muitas coisas que tem a ver com a nossa vida e com a forma como constru\u00edmos mesmo a nossa vida. O que ocorre \u00e9 que sa\u00edmos com um corpo diferente dessa experi\u00eancia e tem esse sentido comum de criarmos junto com elas modos de como podemos potencializar um corpo, independente de ser uma dan\u00e7a X, Y ou Z, mas \u00e9 como podemos descobrir a potencializa\u00e7\u00e3o do nosso corpo diante de um ambiente impeditivo por natureza.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: Muito importante podermos te ouvir sobre isso, Alice, voc\u00ea que tem uma longa trajet\u00f3ria de trabalho art\u00edstico que j\u00e1 se dava fundamentalmente com o corpo, \u00e9 claro, mas de outra maneira.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Caroline<\/em><\/strong>: Ouvindo voc\u00eas falarem, percebo como o corpo me aproxima delas. Foi nesse processo que firmei o conceito de \u201ccorpo transante\u201d, um corpo em fluxo, que atravessa barreiras e rompe com as limita\u00e7\u00f5es impostas. Na pris\u00e3o, onde tudo \u00e9 rigidamente controlado, permitir que o corpo se expresse livremente \u00e9 um ato poderoso. Diferente de outras atividades, o movimento n\u00e3o exige palavras ou justificativas, ele simplesmente acontece, conectando cada uma consigo mesma e com as outras.<\/p>\n\n\n\n<p>Este conceito se manifesta nessa experi\u00eancia coletiva, onde, atrav\u00e9s da dan\u00e7a e do gesto, as mulheres transitam entre o espa\u00e7o f\u00edsico da pris\u00e3o e o espa\u00e7o imaginado da liberdade. Ali, dentro das grades, conseguimos criar brechas para outro modo de estar, ainda que por um instante. O corpo que dan\u00e7a n\u00e3o se submete totalmente ao c\u00e1rcere, ele encontra fissuras por onde escapa, resiste e se transforma.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>P\u00fablico<\/em><\/strong>: As mulheres t\u00eam medo de simplesmente fazer isso [levantando os bra\u00e7os], porque tem que ficar andando com o bra\u00e7o para tr\u00e1s. A pris\u00e3o \u00e9 f\u00edsica, mas ela tamb\u00e9m acaba sendo mental.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>P\u00fablico<\/em><\/strong>: Tem essa pris\u00e3o dos gestos, faz muito sentido realmente o trabalho desse corpo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tato<\/em><\/strong>: Acho que essa \u00e9 a grande subvers\u00e3o que um trabalho como esse pode fazer, porque eles prendem os corpos, os corpos est\u00e3o presos&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>P\u00fablico<\/em><\/strong>: Presos numa coreografia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tato<\/em><\/strong>: Est\u00e3o presos numa coreografia, e a\u00ed enquanto esse espa\u00e7o interno puder ser expandido com o trabalho de voc\u00eas, os corpos est\u00e3o presos, mas o ser est\u00e1 livre.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: O espa\u00e7o se constr\u00f3i, \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o corporal tamb\u00e9m\u2026<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tato<\/em><\/strong>: Sim, tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: Acreditamos que ativar as rela\u00e7\u00f5es e transformar as rela\u00e7\u00f5es com o espa\u00e7o e com os demais corpos tamb\u00e9m pode ser libert\u00e1rio nesse contexto.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para voltar ao que o S\u00e9rgio perguntou, queria dizer que nunca tinha pensado a entrada como uma passagem por muitos portais. Achei interessante a ideia e quase ouvi os portais fechando, plaf-plaf.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tato<\/em><\/strong>: Uma imagem muito cinematogr\u00e1fica\u2026<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: H\u00e1 ali v\u00e1rias portas gradeadas, de fato.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tato<\/em><\/strong>: Como \u00e9 que voc\u00eas internamente v\u00e3o se sentindo a cada \u201cpassagem de portal\u201d?<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: Eu n\u00e3o me sinto passando em nenhum portal. Engra\u00e7ado&#8230; sinto que estou ali e poderia estar em qualquer lugar com aquelas mulheres, sabe? Mas ao mesmo tempo isso \u00e9 uma abstra\u00e7\u00e3o que n\u00e3o se sustenta, porque a institui\u00e7\u00e3o est\u00e1 ali, inexor\u00e1vel, e ela tem efeito nos nossos corpos tamb\u00e9m, podendo at\u00e9 impedir que pensemos, que tenhamos ag\u00eancia sobre o trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p>Alice j\u00e1 mencionou que lidamos com grande varia\u00e7\u00e3o do grupo, especialmente o das gr\u00e1vidas. N\u00e3o temos nem mesmo a possibilidade de definir quantas pessoas estar\u00e3o conosco, nem os meios para garantir que continuem vindo as mulheres que querem participar e j\u00e1 participaram antes. Desconfiamos que o nosso trabalho possa ser usado como objeto em um esquema de recompensa e puni\u00e7\u00e3o, e que eventualmente aconte\u00e7a de algu\u00e9m interessado em participar n\u00e3o ter permiss\u00e3o para tal.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 aconteceu de uma guarda definir, por conta pr\u00f3pria, que todas as mulheres daquela cela tinham que ir para a atividade, por exemplo. Tivemos um grupo enorme neste dia, mas nem todas estavam a fim de estar ali. Percebemos que elas tinham sido obrigadas. No final foi \u00f3timo, trabalhamos com isso, cada vez estamos submetidos a uma arbitrariedade que est\u00e1 no \u00e2mago do que consideramos \u201ca justi\u00e7a\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste sentido, a pris\u00e3o est\u00e1 na ponta extrema de um cont\u00ednuo que define nossa sociedade em geral&#8230; ou seria uma esp\u00e9cie de miniatura da sociedade, na qual se explicitaria a dimens\u00e3o da arbitrariedade implicada em toda inst\u00e2ncia de poder.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Alice<\/em><\/strong>: \u00c9 muito aleat\u00f3rio, somos chamadas l\u00e1 dentro como as mulheres do\u2026 \u201cAh, voc\u00eas s\u00e3o do projeto Corpo e Alma?\u201d [risos]<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: Chamam nosso projeto de \u201cCorpo e Alma\u201d. \u00c9 <em>Corpo, Gesto e Afeto<\/em>, mas parece ser dif\u00edcil a aceita\u00e7\u00e3o de um corpo sem alma. [risos]<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Alice<\/em><\/strong>: Ningu\u00e9m sabe quem a gente \u00e9, mesmo falando sempre que somos do projeto <em>Corpo, Gesto e Afeto<\/em>. Um dia uma falou: \u201cAh, voc\u00eas s\u00e3o do Corpo e Alma?\u201d. Respondemos: \u201cIsso!\u201d. Ficamos t\u00e3o felizes que a pessoa pelo menos lembrou uma parte do t\u00edtulo do nosso projeto e, desde ent\u00e3o, brincamos, \u201cn\u00f3s somos do Corpo e Alma agora\u201d. [risos]<br><br>Eu fico pensando que, quando chegamos no espa\u00e7o para trabalhar com elas, nos sentimos num lugar muito protegido, como se fosse uma camada muito dura que vamos passando. Quando come\u00e7amos a falar hoje, eu fiquei pensando em uma imagem de uma pedra dura que vamos entrando e quando chegamos parece que fica um espa\u00e7o mais livre. Incr\u00edvel isso. Porque \u00e9 uma guarda que n\u00e3o nos conhece e que n\u00e3o quer que o trabalho seja feito e chama a outra que vai pegar a outra e a outra que pode pegar a chave e a lista que tem que pegar&#8230; parece uma saga infinita. Meia hora s\u00f3 para essa travessia. Ent\u00e3o, realmente, acaba sendo um portal mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p>Parece que \u00e9 tudo muito organizado porque \u00e9 dif\u00edcil entrar l\u00e1. Antes de entrar eles investigam o seu nome, depois vem uma autoriza\u00e7\u00e3o, e a partir disso que come\u00e7a o trabalho. Ent\u00e3o parece que eles querem mostrar que h\u00e1 uma organiza\u00e7\u00e3o. No primeiro dia pensamos no material para levar. Chegamos l\u00e1 e a guarda disse: \u201cAh, quem s\u00e3o voc\u00eas?\u201d. Ent\u00e3o, ela nunca achava o tal papel que dizia o material que \u00edamos levar e percebemos que esses pedidos, imagino de menor import\u00e2ncia [para eles, acabaram sendo] aleat\u00f3rios [risos]. Quando entendemos isso, foi libertador, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tato<\/em><\/strong>: Um al\u00edvio\u2026<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Alice<\/em><\/strong>: Levamos el\u00e1stico, tecido, bola, cartas, milh\u00f5es de coisas e no papel s\u00f3 estava&#8230; Sei l\u00e1 o que tinha naquele papel que ele nunca achou. Ent\u00e3o \u00e9 uma organiza\u00e7\u00e3o totalmente desorganizada e, nesse sentido, nos aproveitamos disso para poder criar nosso espa\u00e7o de liberdade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>P\u00fablico<\/em><\/strong>: As portas como se fossem um serm\u00e3o de preces.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: Exato, exatamente.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Caroline<\/em><\/strong>: Al\u00e9m dessa burocracia, nenhuma das guardas permanece conosco, o que tamb\u00e9m demonstra uma confian\u00e7a em nosso trabalho&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Alice<\/em><\/strong>: Gostamos que seja assim, porque quando elas est\u00e3o perto da guarda, elas s\u00e3o muito diferentes. \u00c9 o olho de fora endurecido que as endurece.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: Olho para as mulheres do \u201cSeguro\u201d e sei que muitas delas cometeram crimes hediondos, mas n\u00e3o as vejo como diferentes de mim, de jeito nenhum. Creio que algo ali se d\u00e1 entre mulheres, simplesmente. Voc\u00eas n\u00e3o acham? Constru\u00edmos um clima l\u00fadico que nos aproxima, ainda que n\u00e3o deixem de existir as diferen\u00e7as de situa\u00e7\u00e3o socioecon\u00f4mica e de ra\u00e7a, \u00e9 \u00f3bvio.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Alice<\/em><\/strong>: Total. Ficam nesse outro lugar ou n\u00e3o lugar, n\u00e3o \u00e9? Assim, ficamos no que parece uma rela\u00e7\u00e3o mais horizontalizada.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Caroline<\/em><\/strong>: Com as gr\u00e1vidas, a rela\u00e7\u00e3o \u00e9 diferente, pois o grupo est\u00e1 sempre mudando. A cada novo ciclo precisamos construir um novo v\u00ednculo, o que nos faz retornar constantemente a uma fase inicial de aproxima\u00e7\u00e3o e confian\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel estabelecer uma continuidade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Caroline<\/em><\/strong>: Fica nesse lugar de desconhecimento sobre o que fazemos ali. De n\u00e3o entender nosso trabalho. J\u00e1 as mulheres do \u201cSeguro\u201d, por outro lado, j\u00e1 sabem, j\u00e1 ouviram falar e\/ou comentaram entre si na cela.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: Exatamente, inclusive por vezes aparecem elementos que foram trabalhados meses antes. \u00c9 o caso dos gestos de festa junina que pedimos certa vez que elas trouxessem no encontro seguinte. Algumas vezes tivemos not\u00edcias de que o trabalho reverbera e se faz presente no dia a dia. Talvez hoje j\u00e1 esteja estabelecido este pulso, mas isso levou tempo. \u00c9 um pulso que talvez seja o que faz a diferen\u00e7a ali, em um tipo de institui\u00e7\u00e3o que, por defini\u00e7\u00e3o, visaria impedir o pulso, manter uma linha cont\u00ednua.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tato<\/em><\/strong>: Igual quando morre\u2026<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: Isso.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Alice<\/em><\/strong>: Mas muitas t\u00eam uma boa comunica\u00e7\u00e3o entre elas. Engra\u00e7ado que eu fui trabalhar com uma outra bailarina, a Laura Samy, em fun\u00e7\u00e3o de um outro projeto no Oscar Stevenson e, quando cheguei l\u00e1, elas j\u00e1 sabiam do nosso projeto porque algumas j\u00e1 tinham falado para as do outro pres\u00eddio! Olha que loucura? Chegamos l\u00e1 j\u00e1 com o respaldo de que o trabalho era bom.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>P\u00fablico<\/em><\/strong>: Eu fiquei pensando na coisa de registro. Eu acho que seria interessante interagir sempre fotografando, mas sei que n\u00e3o pode, mas talvez a ideia de gravar o \u00e1udio seria &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;interessante?<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Alice<\/em><\/strong>: No come\u00e7o a gente at\u00e9 tinha uma preocupa\u00e7\u00e3o de querer usar o papel para escrever e tal, mas acho que usamos muito mais o registro do que fica e da troca entre n\u00f3s de forma mais oralizada mesmo. O fato de n\u00e3o ter celular acaba nos ajudando muito porque talvez n\u00e3o ter\u00edamos tanta aten\u00e7\u00e3o para guardar essa mem\u00f3ria mesmo no corpo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Caroline<\/em><\/strong>: Acredito que, de alguma forma, j\u00e1 fazemos esse registro. Quando escrevo sobre isso no mestrado, por exemplo, essas impress\u00f5es acabam se transformando em texto, e agora, ao discutirmos aqui, tamb\u00e9m estamos documentando. Concordo que a aus\u00eancia do celular nos mant\u00e9m mais presentes, mas me pergunto: como podemos expandir esse projeto para al\u00e9m do que j\u00e1 fazemos? Mas eu tamb\u00e9m acho isso maravilhoso. Percebo que fico muito mais atenta ali \u2014 aos nomes de cada uma, ao que foi dito, ao que aconteceu \u2014 porque, no final, o que permanece \u00e9 aquilo que capto diretamente da experi\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>P\u00fablico<\/em><\/strong>: Eu acho que \u00e9 legal, normalmente a gente registra tantas coisas que acabamos n\u00e3o registrando.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Caroline<\/em><\/strong>: Acho que estamos meio desmemoriados, acostumados a registrar tudo o tempo todo, sem depender tanto da nossa pr\u00f3pria lembran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: Talvez possamos tentar inventar um modo de inscrever as experi\u00eancias, de alguma maneira. O que Tato dizia me fez pensar que realmente temos que trabalhar mais a dimens\u00e3o sonora que est\u00e1 presente, quem sabe at\u00e9 fazendo composi\u00e7\u00f5es sonoras que, se n\u00e3o pudermos registrar, poderemos cantar \u2014 e dan\u00e7ar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Alice<\/em><\/strong>: Pode.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: Dan\u00e7ar pode ser uma forma de registrar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tato<\/em><\/strong>: Linguagem, linguagem que transp\u00f5e paredes\u2026<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Alice<\/em><\/strong>: Linguagem.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tato<\/em><\/strong>: Movimento.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: Eu gosto dessa ideia de que o que os corpos l\u00e1 presentes fizeram poderia ser repetido por n\u00f3s, ou por outras pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tato<\/em><\/strong>: Isso \u00e9 muito especial.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>P\u00fablico<\/em><\/strong>: Elas s\u00f3 t\u00eam um corpo, n\u00e3o t\u00eam roupas, n\u00e3o t\u00eam nada ali que seja delas?<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: N\u00e3o t\u00eam espelho.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>P\u00fablico<\/em><\/strong>: Isso ficou gravado na minha mente, eu estou at\u00e9 agora pensando nisso e eu acho muito interessante a gente ter essa oportunidade de ter essa vis\u00e3o sobre as pessoas. A sociedade precisa saber\u2026<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: Podemos pensar um trabalho, com a participa\u00e7\u00e3o de Alice Poppe, Carol Valansi e Tato Taborda, que tenha como t\u00edtulo: <em>Elas S\u00f3 T\u00eam o Corpo<\/em>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tato<\/em><\/strong>: Que tal <em>S\u00f3 T\u00eam o Corpo<\/em>?<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: <em>S\u00f3 T\u00eam o Corpo<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tato<\/em><\/strong>: \u00c9 t\u00e3o forte isso.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Alice<\/em><\/strong>: Em geral, nos dispersamos muito do nosso corpo, porque temos muitas coisas materiais no nosso entorno\u2026<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tato<\/em><\/strong>: O que Tania falou da pe\u00e7a evoca textos maravilhosos que foram escritos no c\u00e1rcere, mem\u00f3rias do c\u00e1rcere. Talvez, de alguma maneira, como cartas escritas na pris\u00e3o, isso possa vazar, n\u00e3o \u00e9? Porque n\u00e3o tem parede que segure o pensamento delas \u2014 expresso nos movimentos que elas fizeram e feito linguagem \u2014 de que seja solto no mundo. \u00c9 fruto daqueles corpos, do quanto eles se engajaram, do quanto eles produziram. Tem algo muito significativo mesmo nessa ideia desse corpo-pensamento vazar para fora daqueles limites f\u00edsicos, como linguagem, como linguagem coreogr\u00e1fica, linguagem sonora\u2026<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: O que vaza da pris\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tato<\/em><\/strong>: O que vaza da pris\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Alice<\/em><\/strong>: \u2026 pelas brechas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: Vamos fazer!<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tato<\/em><\/strong>: Acho que hoje j\u00e1 est\u00e1 de bom tamanho, se n\u00e3o tiver alguma pergunta.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania<\/em><\/strong>: Foi muito bom. Esta conversa reafirma que apenas contando com a escuta de outras pessoas a gente pode escutar a n\u00f3s mesmas. Acho que posso falar em nome tamb\u00e9m de Alice e Caroline para dizer obrigada ao Tato por ter se unido a n\u00f3s. E tamb\u00e9m para agradecer ao Guilherme Vergara pelo convite para fazermos esta conversa, assim como \u00e0 Jessica Gogan, pela incita\u00e7\u00e3o \u00e0 transcri\u00e7\u00e3o e edi\u00e7\u00e3o do registro desta mesa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">***<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Caroline Valansi<\/em><\/strong> \u00e9 artista visual que atua entre arte, educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade mental. Mestre em Estudos Contempor\u00e2neos das Artes pela UFF, investiga cria\u00e7\u00e3o e experi\u00eancias colaborativas, com destaque para o Ateli\u00ea Entreaberto. Sua produ\u00e7\u00e3o aborda corporeidade, desejo e prazer, propondo a arte como ferramenta de transforma\u00e7\u00e3o sens\u00edvel. Seus trabalhos integram acervos da Bienal de La Habana, Museu de Arte do Rio, MAM Rio e a Biblioteca do IMS.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Maria Alice Poppe<\/em><\/strong> \u00e9 artista da dan\u00e7a e investiga o corpo e suas rela\u00e7\u00f5es po\u00e9tico-pol\u00edticas com o ch\u00e3o, o peso e a gravidade, em uma perspectiva h\u00edbrida de dan\u00e7a e educa\u00e7\u00e3o som\u00e1tica, atrav\u00e9s da Metodologia Angel Vianna. Doutora em Artes C\u00eanicas pela UNIRIO e professora dos cursos de Dan\u00e7a da UFRJ, Alice vem atuando em diversas produ\u00e7\u00f5es de dan\u00e7a&nbsp;contempor\u00e2nea no Brasil. Seu \u00faltimo trabalho, <em>Celeste<\/em>, coreografado por Marcia Milhazes, estreou no Palco Carioca do Dan\u00e7a&nbsp;em Tr\u00e2nsito 2025.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania Rivera<\/em><\/strong>&nbsp;\u00e9 ensa\u00edsta, psicanalista, curadora e professora titular do departamento de arte, al\u00e9m de lecionar na P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Estudos Contempor\u00e2neos das Artes da Universidade Federal Fluminense (UFF). Atua tamb\u00e9m junto ao Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Teoria Psicanal\u00edtica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).&nbsp;Publica\u00e7\u00f5es recentes incluem&nbsp;<em>Lugares de del\u00edrio: arte e express\u00e3o, loucura e pol\u00edtica&nbsp;<\/em>(n-1 edi\u00e7\u00f5es\/SESC, 2023) e&nbsp;<em>Psican\u00e1lise antropof\u00e1gica: Identidade, g\u00eanero, arte&nbsp;<\/em>(Artes &amp; Ecos, 2020).<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tato Taborda<\/em><\/strong>,\u00a0m\u00fasico e compositor experimental, professor do departamento de arte da UFF, e atualmente coordenador do curso de gradua\u00e7\u00e3o em Artes. Autor de textos e composi\u00e7\u00f5es multim\u00eddia, como a \u00f3pera\u00a0<em>A Queda do C\u00e9u<\/em>,\u00a0realizada em di\u00e1logo com Davi Kopenawa. Tamb\u00e9m tem experi\u00eancias numerosas de colabora\u00e7\u00e3o com performances teatrais e de dan\u00e7a e, recentemente, lan\u00e7ou o livro\u00a0<em>Resson\u00e2ncias:\u00a0 vibra\u00e7\u00f5es por simpatia e frequ\u00eancias de insurg\u00eancia<\/em>\u00a0(UFRJ, 2021).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Corpo, gesto, afeto: Projeto com mulheres de Talavera Bruce Alice Poppe, Caroline Valansi, Tania Rivera e Tato Taborda Registro do di\u00e1logo ocorrido no dia 29 de agosto de 2024, que [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/4399"}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4399"}],"version-history":[{"count":14,"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/4399\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6355,"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/4399\/revisions\/6355"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4399"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}