{"id":3838,"date":"2025-09-17T16:16:07","date_gmt":"2025-09-17T19:16:07","guid":{"rendered":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/?page_id=3838"},"modified":"2025-10-14T16:58:37","modified_gmt":"2025-10-14T19:58:37","slug":"juan-lopez-intzin","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/juan-lopez-intzin\/","title":{"rendered":"Juan L\u00f3pez Intz\u00edn"},"content":{"rendered":"\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/09\/Zapatista-Coracao_foto-Diana-Taylor-Juan-Lopez-e1759597430744.jpg\" alt=\"O atributo alt desta imagem est\u00e1 vazio. O nome do arquivo \u00e9 Zapatista-Coracao_foto-Diana-Taylor-Juan-Lopez-e1759597430744.jpg\" width=\"372\" height=\"480\"\/><figcaption>Cora\u00e7\u00e3o Zapatista. Foto: Diana Taylor. Cortesia Diana Taylor.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<h2><em>Sp&#8217;ijilal O&#8217;tan<\/em>: Conhecimento ou epistemologias do cora\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<h4>Juan L\u00f3pez Intz\u00edn<\/h4>\n\n\n\n<h3>Contexto breve<\/h3>\n\n\n\n<p>Quero come\u00e7ar contextualizando a \u201cin-surg\u00eancia\u201d\u00b9 do <em>sp&#8217;ijilal O&#8217;tan<\/em>, um termo maia tseltal cuja maior aproxima\u00e7\u00e3o com a l\u00edngua portuguesa seria \u201cconhecimento ou epistemologias do cora\u00e7\u00e3o\u201d. Para mim, \u00e9 de suma import\u00e2ncia situar o surgimento e a insurg\u00eancia do termo em um contexto complexo de luta sociocultural, pol\u00edtica e epist\u00eamica em nosso presente. A cultura e a l\u00edngua maia tseltal est\u00e3o concentradas no sul do M\u00e9xico, nas terras altas e na selva de Chiapas. Eu venho dessa civiliza\u00e7\u00e3o maia tseltal que teve suas conquistas e cuja l\u00edngua \u2014 parte da fam\u00edlia lingu\u00edstica maia \u2014 \u00e9 atualmente o ve\u00edculo de comunica\u00e7\u00e3o di\u00e1rio de mais de quatrocentas mil pessoas na regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h3>A insurg\u00eancia do <em>sp&#8217;ijilal O&#8217;tan<\/em><\/h3>\n\n\n\n<p>A reflex\u00e3o e a \u201cin-surg\u00eancia\u201d do <em>sp&#8217;ijilal O&#8217;tan <\/em>\u2014 conhecimento ou epistemologias do cora\u00e7\u00e3o \u2014 e sua apresenta\u00e7\u00e3o no cen\u00e1rio acad\u00eamico ocorreram quando come\u00e7amos a pensar e repensar nosso lugar no cosmos. Nesse processo, percebemos que hav\u00edamos esquecido um cosmos e que nosso cora\u00e7\u00e3o estava deslocado, fora do lugar, por isso precis\u00e1vamos \u201ctrazer de volta nosso cora\u00e7\u00e3o\u201d a esse cosmos esquecido.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira etapa do \u201ctrazer de volta o cora\u00e7\u00e3o\u201d come\u00e7ou no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1990, quando decidi abandonar o caminho que me levava ao que eu chamava de \u201ccoloniza\u00e7\u00e3o espiritual\u201d. Naquela mesma d\u00e9cada, especificamente em 1994, o movimento zapatista irrompeu na pol\u00edtica mexicana com o lema \u201cNunca Mais um M\u00e9xico Sem N\u00f3s\u201d e o compromisso pol\u00edtico-epist\u00eamico de construir \u201cum mundo onde caibam muitos mundos&#8230; onde caibam todos os povos e suas l\u00ednguas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses eventos hist\u00f3ricos permearam meu ser, me levando a \u201cin-pensar\u201do mundo da vida maia tseltal e a reconhecer os padr\u00f5es de nossos pensamentos. Ao come\u00e7ar a me envolver nesse tipo de reflex\u00e3o, descobri algo maior, algo que n\u00f3s, como povos, internalizamos ao longo de v\u00e1rios s\u00e9culos. Refiro-me \u00e0 nossa condi\u00e7\u00e3o de sujeitos e povos colonizados desde a Conquista; nosso conhecimento \u00e9 negado e, ao mesmo tempo, instrumentalizado. Chamei essa condi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica imposta de \u201cprocesso de domestica\u00e7\u00e3o\u201d; assim, a \u201cdesdomestica\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 a antinomia permanente entre os povos.<\/p>\n\n\n\n<p>Pensar e repensar nosso lugar no mundo e no cosmos desde a d\u00e9cada de 1990 nos levou a situar nossos cora\u00e7\u00f5es. Come\u00e7amos a \u201cin-pensar\u201d<em>, <\/em>isto \u00e9, a pensar e refletir de dentro, usando nossos pr\u00f3prios termos na l\u00edngua maia tseltal. Naturalmente, a \u201cin-surg\u00eancia\u201ddos termos tseltal para reflex\u00e3o n\u00e3o foi t\u00e3o f\u00e1cil. A raz\u00e3o foi, e continua sendo, o processo hist\u00f3rico e epistemol\u00f3gico de coloniza\u00e7\u00e3o que sofremos como povos.<\/p>\n\n\n\n<h3>Sobre os mecanismos de esquecimento e deslocamento do cora\u00e7\u00e3o<\/h3>\n\n\n\n<p><em>Do esquecimento aos atos de trazer de volta o cora\u00e7\u00e3o<\/em>.Percebi que t\u00ednhamos esquecido o cosmos em 1992, depois que algu\u00e9m abalou meu ser e minha consci\u00eancia com uma frase: <em>pinche indio<\/em> (em portugu\u00eas, \u201cmaldito \u00edndio\u201d). \u00c0quela altura, eu j\u00e1 sabia que o termo \u201c\u00edndio\u201d tinha uma conota\u00e7\u00e3o negativa e depreciativa. Como se sabe, a palavra \u201c\u00edndio\u201d, desde a conquista e o colonialismo, tornou-se uma categoria pol\u00edtica para desqualificar e exterminar o \u201coutro\u201d. O \u201coutro\u201d era, e \u00e9, os povos que j\u00e1 existiam antes do per\u00edodo colonial. Muitos dos povos do passado s\u00e3o os povos de hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 12 de outubro de 1992 \u2014 ao mesmo tempo que um mesti\u00e7o me chamava de <em>malidito indio<\/em> \u2014 centenas de camponeses e camponesas maias marchavam na cidade de San Crist\u00f3bal de Las Casas, protestando contra o 500\u00ba anivers\u00e1rio da invas\u00e3o espanhola de nossas terras ancestrais\u00b2. Enquanto os manifestantes passavam por um local onde se erguia uma est\u00e1tua do capit\u00e3o espanhol Diego de Mazariegos, conquistador e fundador de San Crist\u00f3bal de Las Casas, um grupo derrubou a est\u00e1tua do colonizador. A est\u00e1tua ficava em frente \u00e0 monumental Igreja de Santo Domingo, uma igreja cat\u00f3lica administrada desde o per\u00edodo colonial por frades dominicanos. Tanto a est\u00e1tua de Diego de Mazariegos quanto a igreja cat\u00f3lica representam uma afronta \u00e0 nossa hist\u00f3ria como povos. O que exatamente estava acontecendo nas profundezas de seus cora\u00e7\u00f5es? Algo emergia tanto no cora\u00e7\u00e3o pessoal quanto no coletivo.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Nossa condi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica imposta<\/em>.Desde a conquista dessas terras, o modo de vida de nossos povos foi dividido, criando uma fenda religiosa, pol\u00edtica, jur\u00eddica, econ\u00f4mica, lingu\u00edstica e epist\u00eamica em nossa vis\u00e3o de mundo. Por meio de <em>encomiendas<\/em>, um tipo de escravid\u00e3o que explorava a m\u00e3o de obra ind\u00edgena, os colonizadores evangelizaram e transmitiram costumes e pr\u00e1ticas europeias.<\/p>\n\n\n\n<p>Na esfera religiosa, imp\u00f4s-se a religi\u00e3o judaico-crist\u00e3 trazida da Europa. As pr\u00e1ticas espirituais dos povos conquistados foram proibidas, embora v\u00e1rios elementos tenham sobrevivido clandestinamente. Nas esferas pol\u00edtica e jur\u00eddica, um novo sistema de governo e uma nova ordem social foram estabelecidos com a imposi\u00e7\u00e3o do direito imperial. Na esfera econ\u00f4mica, os sistemas de troca foram transformados. Na esfera lingu\u00edstica, o espanhol foi estabelecido como l\u00edngua oficial. Somente em 2003 as l\u00ednguas nativas do M\u00e9xico, aquelas que sobreviveram ao longo processo de \u201clinguic\u00eddio\u201d, adquiriram \u201cstatus constitucional\u201d, mas apenas com validade local e regional\u00b3. Na esfera epist\u00eamica, escritos sobre a hist\u00f3ria de nossos povos e conhecimentos sistematizados foram queimados. Os c\u00f3dices que conhecemos hoje sobreviveram apenas porque foram roubados pelos colonizadores, que caracterizaram nossos conhecimentos como supersti\u00e7\u00f5es. Os colonizadores chegaram a questionar se os nativos eram dotados de raz\u00e3o e alma. Em todas as Am\u00e9ricas, os povos ind\u00edgenas sofreram o mesmo destino, provavelmente com exce\u00e7\u00e3o daqueles que eram aliados dos invasores.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao destruir e subjugar, os colonizadores estabeleceram a supremacia sobre e entre os povos pr\u00e9-hisp\u00e2nicos. Frei Bartolom\u00e9 de Las Casas relata essa destrui\u00e7\u00e3o em sua obra <em>Breve Relato da Destrui\u00e7\u00e3o das \u00cdndias<\/em>. Essa obra emblem\u00e1tica retrata o exterm\u00ednio sistem\u00e1tico realizado pelos colonizadores.<\/p>\n\n\n\n<p>O contexto s\u00f3cio-hist\u00f3rico acima mencionado, bem como nossas experi\u00eancias pessoais e coletivas, foram nossos pontos de partida. Eles nos levaram aos avatares do escrut\u00ednio do nosso ser coletivo. Foi devastador perceber que o esp\u00edrito ind\u00edgena foi \u201cdobrado e subjugado\u201d unicamente pelo poder das armas dos colonizadores, j\u00e1 que o \u201cencontro dos dois mundos\u201d (como nos ensinaram no sistema educacional mexicano e comemorado em 12 de outubro, <em>Dia de la Raza <\/em>[agora <em>D\u00eda de la Naci\u00f3n Pluricultural<\/em>]) foi um choque brutal entre dois ou muitos mundos com imagin\u00e1rios e conhecimentos completamente distintos, em uma assimetria total entre civiliza\u00e7\u00f5es. Entendemos que muito do que somos hoje como sujeitos coletivos foi uma imposi\u00e7\u00e3o s\u00f3cio-hist\u00f3rica do poder hegem\u00f4nico colonial. Os governantes e seus soldados domesticaram nossos corpos e esp\u00edritos com a for\u00e7a do chicote e na ponta da espada, enquanto os l\u00edderes religiosos usaram a persuas\u00e3o para colonizar \u201cpacificamente\u201d nossos cora\u00e7\u00f5es e mentes. Se somos um povo domesticado, a \u201cdesdomestica\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 poss\u00edvel? Como seria e com o qu\u00ea? Era hora de mergulhar no \u201cM\u00e9xico profundo\u201d \u2014 como Guillermo Bonfil Batalla chamou o M\u00e9xico de <em>nosotros<\/em>, nosso, dos povos ind\u00edgenas \u2014 com nossa pr\u00f3pria civiliza\u00e7\u00e3o, nossos pr\u00f3prios \u201coutros\u201d imagin\u00e1rios e nossos pr\u00f3prios sistemas de pensamento. Esses sempre estiveram \u2014 n\u00f3s sempre estivemos \u2014 l\u00e1, embora o \u201coutro\u201d, nesse caso, o Estado mexicano, nos tenha considerado um problema a ser enfrentado em todas as frentes: cultural, lingu\u00edstica, pol\u00edtica, econ\u00f4mica, jur\u00eddica e epist\u00eamico-educacional.<\/p>\n\n\n\n<h3>Do des\u00e2nimo \u00e0 insurg\u00eancia do <em>ch&#8217;ulel<\/em><\/h3>\n\n\n\n<p><em>Pinche indio<\/em> (\u201cmaldito \u00edndio\u201d) abalou meu ser. Foi um abuso verbal que despertou ou mexeu com minha consci\u00eancia. Essa express\u00e3o faz parte da g\u00edria lingu\u00edstica dos falantes de espanhol nas Am\u00e9ricas, ent\u00e3o posso afirmar que os povos ind\u00edgenas em geral foram rotulados de <em>pinche indios<\/em>. Embora o abuso e o desprezo esmaguem o esp\u00edrito, essas situa\u00e7\u00f5es muitas vezes despertam nossa consci\u00eancia e \u201ctrazem nossos cora\u00e7\u00f5es de volta\u201d ao cosmos esquecido. Chamamos esse retorno em maia tseltal de <em>xjul xch&#8217;ulel<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>A invas\u00e3o colonial estabeleceu uma nova realidade e novos imagin\u00e1rios entre os povos ind\u00edgenas do M\u00e9xico \u2014 bem como entre os demais povos pr\u00e9-hisp\u00e2nicos das Am\u00e9ricas \u2014 e seus mundos sofreram uma ruptura em seu cotidiano e em seu ser. Ao acompanhar diferentes comunidades maias em Chiapas em diversos rituais, reafirmei uma li\u00e7\u00e3o aprendida com meus av\u00f3s, e hoje posso afirmar que os povos mapuche, aymaras e ind\u00edgenas do Hemisf\u00e9rio Norte compartilham uma vis\u00e3o comum. Refiro-me \u00e0 exist\u00eancia de <em>ch&#8217;ulel <\/em>em cada ser existente. Portanto, devemos conceder-lhes <em>ich&#8217;el ta muk&#8217; <\/em>(reconhecimento e respeito pela grandeza e dignidade de uma vasta exist\u00eancia) por um <em>lekil kuxlejal <\/em>(uma vida de plenitude, dignidade e justi\u00e7a). A seguir, explico alguns significados de <em>ch&#8217;ulel<\/em> para melhor compreend\u00ea-lo.<\/p>\n\n\n\n<h3><em>Ch&#8217;ulel<\/em> e seus significados<\/h3>\n\n\n\n<p>O <em>primeiro significado:<\/em><em>Ch&#8217;ulel<\/em> tem a ver com a ess\u00eancia prim\u00e1ria da exist\u00eancia; poder\u00edamos cham\u00e1-la de poder vital ou energia. Tanto humanosquanto n\u00e3o humanos participam do <em>ch&#8217;ulel<\/em>; isto \u00e9, todos os seres existentes t\u00eam <em>ch&#8217;ulel<\/em>. Essa no\u00e7\u00e3o de vida vai al\u00e9m da classifica\u00e7\u00e3o ocidental ou cient\u00edfica baseada na exist\u00eancia de seres animados e inanimados. Na no\u00e7\u00e3o maia tseltal de vida, humanos, plantas, animais, minerais, \u00e1gua, oxig\u00eanio e outros elementos existentes t\u00eam <em>ch&#8217;ulel<\/em>. Por meio <em>do ch&#8217;ulel<\/em>, todos n\u00f3s interagimos no grande campo da natureza ou vasta exist\u00eancia. Do micro ao macro, interagimos e afetamos uns aos outros. <em>Ch&#8217;ulel <\/em>\u00e9 o que nos faz existir no cosmos, junto a outros seres.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Segundo significado:<\/em> Tamb\u00e9m chamamos o processo de aquisi\u00e7\u00e3o da linguagem em beb\u00eas, quando eles come\u00e7am a nomear o ambiente ao seu redor, de <em>Xjul Xch&#8217;ulel<\/em>. Se observarmos, h\u00e1 uma ligeira varia\u00e7\u00e3o em <em>ch&#8217;ulel <\/em>neste significado. O \u201cX\u201d antes de <em>ch&#8217;ulel <\/em>indica que se trata de uma terceira pessoa. Mesmo em pessoas que n\u00e3o adquirem ou desenvolvem a linguagem falada, <em>ch&#8217;ulel <\/em>\u00e9 reconhecido.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Terceiro significado:<\/em> Refere-se a um tipo de consci\u00eancia ou no\u00e7\u00e3o de realidade. Quando uma pessoa est\u00e1 em um estado alterado de consci\u00eancia devido \u00e0 influ\u00eancia de uma subst\u00e2ncia, dizemos <em>ch&#8217;ayem xch&#8217;ulel<\/em>, significando que \u201cseu <em>ch&#8217;ulel <\/em>foi perdido\u201d, ele n\u00e3o est\u00e1 mais de posse dos cinco sentidos tradicionalmente conhecidos. Tamb\u00e9m pode ser dito <em>ch&#8217;ayem yo&#8217;tan<\/em>, significando que seu cora\u00e7\u00e3o est\u00e1 perdido. Mas pode ser apenas uma distra\u00e7\u00e3o indicando que uma pessoa n\u00e3o est\u00e1 em seu perfeito ju\u00edzo. Quando a pessoa retorna ao normal, dizemos <em>Julix Xch&#8217;ulel <\/em>ou <em>kuxix Yo&#8217;tan,<\/em> significando<em> \u201c<\/em>seu<em> ch&#8217;ulel <\/em>retornou a ele\u201d ou \u201cseu cora\u00e7\u00e3o reviveu\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Quarto significado: <\/em>Nesse sentido, <em>ch&#8217;ulel <\/em>\u00e9 entendido como tendo um car\u00e1ter social ou coletivo, ou seja, um <em>ch&#8217;ulel <\/em>sociocomunit\u00e1rio. Diz respeito a \u00e1reas como fam\u00edlia, comunidade e outros espa\u00e7os de intera\u00e7\u00e3o social. Certas pr\u00e1ticas de vida existem em espa\u00e7os familiares e comunit\u00e1rios. Portanto, esse tipo de <em>ch&#8217;ulel <\/em>\u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica; faz parte de nossa mem\u00f3ria coletiva; \u00e9 o conjunto de conhecimentos e sabedorias transmitidos e recriados de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o. Sendo mem\u00f3ria hist\u00f3rica, tamb\u00e9m representa a dor resultante das injusti\u00e7as do passado e do presente. Quando sujeitos coletivos querem transformar as condi\u00e7\u00f5es s\u00f3cio-hist\u00f3ricas que os colocaram nessa condi\u00e7\u00e3o, surge um <em>ch&#8217;ulel <\/em>insurgente, como visto em 1994 durante o levante zapatista. Todas essas experi\u00eancias s\u00e3o depositadas e cultivadas no <em>O&#8217;tan <\/em>(cora\u00e7\u00e3o), que se torna <em>sp&#8217;ijilal O&#8217;tan<\/em>. Elas se tornam modos de pensar, agir e existir no mundo. \u00c0s vezes s\u00e3o pr\u00f3prias, outras vezes s\u00e3o adotadas e impostas, mas todas s\u00e3o modific\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<h3><em>Spijilal O&#8217;tan<\/em>: Conhecimento ou epistemologias do cora\u00e7\u00e3o<\/h3>\n\n\n\n<p>Um dos ensinamentos comunit\u00e1rios dos anci\u00e3os maias de tseltal \u00e9 que tudo o que existe deve receber <em>ich&#8217;el ta muk&#8217;, <\/em>pois tudo tem <em>ch&#8217;ulel \u2014 <\/em>como mencionamos no primeiro significado de <em>ch&#8217;ulel<\/em>. Se n\u00e3o forem tratados com <em>ich&#8217;el ta muk&#8217;<\/em>, <em>\u201cya x-ok&#8217; yo&#8217;tan sok ya x-ok&#8217; xch&#8217;ulel\u201d<\/em>, como dizemos em tseltal. Ou seja, seu cora\u00e7\u00e3o e seu <em>ch&#8217;ulel <\/em>choram.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Ch&#8217;ulel <\/em>n\u00e3o \u00e9 mais o \u00fanico elemento aludido; outro elemento foi incorporado: o <em>o&#8217;tan. <\/em>Isso aparece quando se diz que tudo o que existe deve ser dado <em>ich&#8217;el ta muk&#8217;, <\/em>como explicado no terceiro significado de <em>ch&#8217;ulel<\/em>. Como j\u00e1 mencionado, a tradu\u00e7\u00e3o literal de <em>o&#8217;tan <\/em>\u00e9 cora\u00e7\u00e3o<em>. <\/em>A princ\u00edpio, poder\u00edamos pensar que quando o<em> o&#8217;tan <\/em>(cora\u00e7\u00e3o)\u00e9 mencionado, estamos falando de um \u00f3rg\u00e3o, a parte f\u00edsica e material do corpo, e que o <em>ch&#8217;ulel <\/em>\u00e9 um esp\u00edrito, uma entidade metaf\u00edsica, imaterial. Por\u00e9m quando falamos do <em>o&#8217;tan <\/em>(cora\u00e7\u00e3o)<em>, <\/em>n\u00e3o estamos nos referindo ao \u00f3rg\u00e3o. \u00c9 uma met\u00e1fora, uma imagem ou um espa\u00e7o, um ser ou uma entidade que sente e pensa. Pode ser o pr\u00f3prio sujeito, como pode ser visto neste di\u00e1logo cotidiano entre o povo tseltal que citei em um ensaio de 2011:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p><em>Bixi aw <strong>o&#8217;tan<\/strong><\/em> \u2013 O que seu cora\u00e7\u00e3o diz? \u2013 <em>Lekbal ay aw <strong>o&#8217;tan<\/strong><\/em> \u2013 Seu cora\u00e7\u00e3o est\u00e1 bem? \u2013 <em>Mame xa mel aw <strong>o&#8217;tan<\/strong><\/em> \u2013 N\u00e3o deixe seu cora\u00e7\u00e3o ficar triste \u2013 <em>Ma xch&#8217;ayat ta k <strong>o&#8217;tan<\/strong> <\/em>\u2013 N\u00e3o te perco em meu cora\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o te esque\u00e7o \u2013 <em>Kuxix k <strong>o&#8217;tan<\/strong><\/em> \u2013 Meu cora\u00e7\u00e3o descansou ou ressuscitou \u2013 <em>Tse&#8217;el k <strong>o&#8217;tan<\/strong> yu&#8217;un ya kilbet asit <\/em>\u2013 Meu cora\u00e7\u00e3o ri porque vejo seus olhos \u2013 <em>K&#8217;uxat ta k <strong>o&#8217;tan<\/strong><\/em> \u2013 Voc\u00ea machuca meu cora\u00e7\u00e3o ou eu te amo \u2013 <em>Yutsil k <strong>o&#8217;tan<\/strong> tik<\/em> \u2013 A bondade do nosso cora\u00e7\u00e3o \u2013 <em>Ya jnop ta k <strong>o&#8217;tan<\/strong> tik<\/em> \u2013 N\u00f3s pensamos ou meditamos com e no cora\u00e7\u00e3o \u2013 <em>A&#8217;yantaya ta aw <strong>o&#8217;tan<\/strong><\/em> \u2013 Converse sobre isso em seu cora\u00e7\u00e3o \u2013 <em>Nopa sok ajol aw <strong>o&#8217;tan<\/strong><\/em> \u2013 Pense sobre isso com sua cabe\u00e7a e cora\u00e7\u00e3o (L\u00f3pez Intz\u00edn, 2011).<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Da cita\u00e7\u00e3o anterior, gostaria de enfatizar que <em>o&#8217;tan <\/em>aparece em diferentes marcas de possess\u00e3o: <em>awo&#8217;tan <\/em>(seu cora\u00e7\u00e3o), <em>ko&#8217;tan <\/em>(meu cora\u00e7\u00e3o) e <em>ko&#8217;tantik <\/em>(nosso cora\u00e7\u00e3o). Da mesma forma, podemos encontrar outras express\u00f5es com marcas de possess\u00e3o para a terceira pessoa, singular e plural. O elemento <em>o&#8217;tan <\/em>n\u00e3o varia. Do ponto de vista lingu\u00edstico, <em>o&#8217;tan <\/em>aparece como um substantivo. Esse nem sempre \u00e9 o caso em certas express\u00f5es que implicam ou indicam a\u00e7\u00e3o (fazer algo), como: <em>ya ko&#8217;tanin snopel jun, te antse ya yo&#8217;tantay sna yawil, <\/em>ou <em>ya yo&#8217;tanin slumalik te jme&#8217;tik jtatike<\/em>. Essas express\u00f5es idiom\u00e1ticas tseltal aludem ao fato de que se deve fazer as coisas com o cora\u00e7\u00e3o e se entregar de cora\u00e7\u00e3o; em outras palavras, \u00e9 preciso se dedicar, se concentrar e se entregar completamente ao realizar um ato ou a\u00e7\u00e3o no tempo e no espa\u00e7o. Devemos praticar o ato de <em>yo&#8217;taninel spasel-smeltsanel <\/em>(\u201ccora\u00e7onizar\u201d [em espanhol, <em>corazonar<\/em>] ao processo de fazer-construir), como cito na mesma obra de 2011:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u2026Tudo se <em>corazona<\/em>. Os atos de pensar \u2013 <em>yo&#8217;taninel snopel<\/em> \u2013 e fazer s\u00e3o corazonados \u2013 <em>yo&#8217;taninel spasel-smeltsanel<\/em>. Assim como se <em>corazona<\/em> o pensar e o saber, tamb\u00e9m se diz que o saber e o conhecer s\u00e3o sentidos pelo que se pensa-sente ou sente-pensa com o cora\u00e7\u00e3o\u2026 Se <em>corazonar<\/em> o sentir-pensar e sentir-saber, isso nos torna culturalmente \u201cdiferentes\u201d dos \u201cOutros\u201d, pertencemos a outra <em>ts&#8217;umbalil<\/em> [cultura], e talvez muito diferentes na constru\u00e7\u00e3o, nomea\u00e7\u00e3o e relacionamento com o mundo-cosmos\u2026 que empregamos tanto o cora\u00e7\u00e3o quanto a mente, amor e raz\u00e3o que nos levam \u00e0 sabedoria-<em>p&#8217;ijilal<\/em>\u2026 Assim, a conjuga\u00e7\u00e3o de cora\u00e7\u00e3o e mente \u2014 amor, paix\u00e3o e raz\u00e3o \u2014, mais do que uma dicotomia disputada, \u00e9 uma complementaridade que molda a racionalidade maia tseltal: sentimos para pensar e pensamos para sentir. Assim, qualquer ato criativo passa pela raz\u00e3o e qualquer racionalidade passa pelo cora\u00e7\u00e3o e pelos sentimentos (L\u00f3pez Intz\u00edn, 2011)<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, o <em>o&#8217;tan <\/em>torna-se um espa\u00e7o e centro para a incorpora\u00e7\u00e3o das experi\u00eancias cotidianas das pessoas. Ao mesmo tempo, torna-se fonte e matriz de conhecimento e compreens\u00e3o culturalmente situados.<\/p>\n\n\n\n<h3>Os campos do conhecimento e do conhecimento cultural<\/h3>\n\n\n\n<p><em>Spijilal O&#8217;tan <\/em>n\u00e3o \u00e9 apenas uma forma de nomear o que \u00e9 conhecido e compreendido atrav\u00e9s da experi\u00eancia acumulada ao longo da hist\u00f3ria. S\u00e3o modos espec\u00edficos de vida comunit\u00e1ria, modos de estar com o cosmos. Implica relacionalidade a partir do <em>ich&#8217;el ta muk&#8217;, <\/em>reconhecendo a grandeza e a dignidade de tudo o que existe. \u00c9 a arte de conhecer e reconhecer a si mesmo dentro da alteridade e a arte da sobreviv\u00eancia, criando diferentes sistemas ou campos para o cuidado da vida. Abaixo, listamos os sistemas que consideramos inclu\u00eddos em <em>sp&#8217;ijilal o&#8217;tan<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<ol type=\"1\" class=\"has-text-color\" style=\"color:#4c4c4f\"><li>Sistemas de cuidado e cura que incluem: obstetr\u00edcia, fitoterapia, cura por ora\u00e7\u00f5es, c\u00e2nticos rituais, can\u00e7\u00f5es de cura, a cria\u00e7\u00e3o de diversos instrumentos sonoros e seu uso para diversos fins. Diagn\u00f3sticos de diversas doen\u00e7as e seu tratamento;<\/li><li>Sonhos;<\/li><li>O cuidado e a preserva\u00e7\u00e3o de sementes e diferentes culturas para alimenta\u00e7\u00e3o;<\/li><li>Ciclos rituais para o cuidado da \u00e1gua, do plantio, da floresta etc;<\/li><li>Sistemas de numera\u00e7\u00e3o e contagem de tempo;<\/li><li>Produ\u00e7\u00e3o de tecidos e cer\u00e2micas com designs pr\u00e9-hisp\u00e2nicos e contempor\u00e2neos representando o cosmos;<\/li><li>Reconhecimento dos ciclos lunares para realizar diferentes atividades como plantar e derrubar \u00e1rvores;<\/li><li>A arte da resist\u00eancia e da \u201crebeli\u00e3o alegre\u201d.<\/li><\/ol>\n\n\n\n<p>Estes s\u00e3o alguns dos campos ou sistemas abrangidos pelo <em>sp&#8217;ijilal o&#8217;tan<\/em>. No entanto, existem mais, e um deles \u2014 o \u201cBem-Estar\u201d \u2014 \u00e9 de natureza \u00e9tica, relacionando-se ao comportamento e \u00e0 boa conduta diante de circunst\u00e2ncias externas. Referimo-nos a <em>ich&#8217;el ta muk&#8217; <\/em>(reconhecimento e respeito pela grandeza e dignidade da vasta exist\u00eancia) e <em>lekil kuxlejal <\/em>(uma vida de plenitude, dignidade e justi\u00e7a).<\/p>\n\n\n\n<p>Abaixo, descrevo a arte da resist\u00eancia e da \u201crebeli\u00e3o alegre\u201d, ou o que chamei de \u201cEpistemologia Pol\u00edtica do Cora\u00e7\u00e3o e dos Carac\u00f3is Zapatistas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Como sabemos, em 1994, os povos maias, unidos no movimento ind\u00edgena conhecido como Ex\u00e9rcito Zapatista de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional (EZLN), romperam o v\u00e9u de esquecimento, injusti\u00e7a, nega\u00e7\u00e3o e desprezo que prevalecia por mais de cinco s\u00e9culos. Os zapatistas estabeleceram centros de opera\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que chamaram de <em>Aguascalientes<\/em>. Em agosto de 2003, ap\u00f3s um per\u00edodo de reflex\u00e3o, decidiram mudar seu nome e os chamaram de <em>Caracoles Zapatistas<\/em>. Ao anunciar a transforma\u00e7\u00e3o de <em>Aguascalientes<\/em> em <em>Caracoles<\/em>, o EZLN anunciou o seguinte:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>[\u2026] Dizem que costumavam dizer que o caracol representava a entrada no cora\u00e7\u00e3o, era isso que os primeiros povos chamavam de conhecimento. E dizem que costumavam dizer que o caracol tamb\u00e9m representava a sa\u00edda do cora\u00e7\u00e3o para explorar o mundo, era isso que os primeiros povos chamavam de vida. E n\u00e3o s\u00f3 isso, dizem que diziam que o caracol servia para chamar o coletivo, para que as palavras pudessem ser passadas de uns para os outros e o acordo pudesse nascer. E tamb\u00e9m dizem que diziam que o caracol servia para ajudar o ouvido a ouvir at\u00e9 a palavra mais distante. \u00c9 isso que eles dizem que disseram&#8230; (Subcomandante Marcos 2003, p. 2).<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Como se pode observar na cita\u00e7\u00e3o, a mudan\u00e7a de nome dos centros pol\u00edticos resgata um legado, voltando o olhar coletivo para o que \u00e9 verdadeiramente ind\u00edgena e maia, com a figura e o s\u00edmbolo do caracol e a rela\u00e7\u00e3o entre ele, a hist\u00f3ria, o cora\u00e7\u00e3o e o conhecimento. Portanto, os <em>Caracoles<\/em> representam uma mudan\u00e7a pol\u00edtico-epist\u00eamica no mundo; agora s\u00e3o lares ou espa\u00e7os de encontro e di\u00e1logo, pontes que conectam mundos para observar e dialogar com base no reconhecimento e no respeito.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>[\u2026] Assim, os <em>Caracoles<\/em> ser\u00e3o como portas para entrar nas comunidades e para as comunidades sa\u00edrem; como janelas para nos vermos dentro e para nos vermos fora; como trombetas para levarmos as nossas palavras para longe e para ouvirmos os que est\u00e3o longe. Mas, acima de tudo, eles nos lembrar\u00e3o que devemos estar vigilantes e atentos \u00e0 integridade dos mundos que povoam o mundo (<em>Ibid.<\/em>, p. 12).<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Com esse an\u00fancio, eles nos contam sobre as fun\u00e7\u00f5es dos <em>Caracoles Zapatistas<\/em>, suas origens e seu modo de vida zapatista: rebeldes, desobedientes e que:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>[\u2026] Quando se espera que falem, permanecem em sil\u00eancio. Quando se espera que fiquem em sil\u00eancio, eles falam. Quando se espera que liderem, ficam em segundo plano. Quando se espera que sigam atr\u00e1s, eles se afastam. Quando se espera que falem apenas sobre si mesmos, come\u00e7am a falar sobre outras coisas. Quando se espera que se adaptem \u00e0 sua geografia, eles caminham pelo mundo e suas lutas (<em>Ibid<\/em>., p. 1).<\/p><p>Ent\u00e3o, eles n\u00e3o mant\u00eam ningu\u00e9m feliz. E n\u00e3o parecem se importar muito. O que eles realmente se importam \u00e9 em manter seus pr\u00f3prios cora\u00e7\u00f5es felizes, ent\u00e3o seguem os caminhos que eles lhes mostram&#8230; (<em>Ibid.<\/em>, p. 2).<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Os caminhos que os zapatistas <em>O&#8217;tan <\/em>trilharam foram muito \u201coutros\u201d. S\u00e3o novos saberes ou epistemologias do cora\u00e7\u00e3o com um <em>ch&#8217;ulel <\/em>insurgente. Assim, podemos reconhecer como, nos \u00faltimos tempos, dialogaram e \u201cepistemologizaram\u201d com aqueles que praticam as ci\u00eancias exatas, convocando-os e lan\u00e7ando um desafio: a celebra\u00e7\u00e3o das duas consci\u00eancias. As comunidades zapatistas fizeram muito; desde o seu surgimento, convocaram diferentes grupos e setores, tanto na sociedade mexicana quanto em outras partes do mundo, para construir outros paradigmas contra o que chamaram de \u201chidra capitalista\u201d. \u00c0s vezes, s\u00e3o professores, mas, outras vezes, s\u00e3o alunos obedecendo ao que seu <em>o&#8217;tan <\/em>lhes diz. A partir da obedi\u00eancia a <em>o&#8217;tan <\/em>como matriz e fonte do conhecimento, constru\u00edram outros horizontes de vida, de luta pol\u00edtica, por meio da rebeli\u00e3o alegre e da arte da resist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<h3>Para concluir<\/h3>\n\n\n\n<p>Para compreender a presen\u00e7a e o significado de <em>o&#8217;tan <\/em>em nosso pensamento e vis\u00e3o de mundo, \u00e9 necess\u00e1rio mergulhar profundamente na hist\u00f3ria e compreender nossas origens como povos maias. \u00c9 por isso que, atualmente, a reflex\u00e3o sobre o <em>sp&#8217;ijilal o&#8217;tan <\/em>nos levou ao ato de \u201cvoltar nossos cora\u00e7\u00f5es\u201d para o nosso passado distante, para o nosso cosmos esquecido, a fim de compreender um pouco do nosso pensamento. Como \u00e9 que, conhecendo bem e acumulando experi\u00eancias de vidas passadas e presentes, chegamos a cham\u00e1-lo de <em>sp&#8217;ijilal o&#8217;tan<\/em>? Al\u00e9m de prestar aten\u00e7\u00e3o \u00e0 fala cotidiana e \u00e0s pr\u00e1ticas de vida espec\u00edficas, foi necess\u00e1rio ler e reler o livro do <em>Popol Wuj <\/em>em suas diferentes vers\u00f5es. Embora o texto capture apenas a vis\u00e3o de mundo, o pensamento, a filosofia, os mitos e as hist\u00f3rias do povo K&#8217;iche&#8217; da Guatemala, posso afirmar que a cultura maia \u00e9 uma tela onde podemos encontrar fragmentos das hist\u00f3rias encontradas no <em>Popol Wuj<\/em>. Esse livro, sem d\u00favida, captura o pensamento fundador de toda uma civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Aparentemente, o que estava l\u00e1 desde o in\u00edcio era o <em>o&#8217;tan <\/em>\u2014 cora\u00e7\u00e3o. Podemos ver isso no primeiro cap\u00edtulo, depois que Gukumats se surpreende com a cria\u00e7\u00e3o e agradece, dizendo: \u201cBoa foi a tua vinda, Cora\u00e7\u00e3o do C\u00e9u; tu, Furac\u00e3o, e tu, Chipi-Caculh\u00e1, Rax\u00e1-Caculh\u00e1!\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o o texto continua:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Assim foi criada a Terra, quando foi formada pelo Cora\u00e7\u00e3o do C\u00e9u, o Cora\u00e7\u00e3o da Terra, que \u00e9 como s\u00e3o chamados aqueles que primeiro a fecundaram, quando o c\u00e9u estava suspenso e a Terra submersa na \u00e1gua. (<em>Popol Wuj<\/em>,&nbsp;2011, p. 60-61)<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Se levarmos em conta o livro do <em>Popol Wuj <\/em>como texto fundador do nosso pensamento como civiliza\u00e7\u00e3o maia, percebemos que desde o princ\u00edpio o <em>o&#8217;tan <\/em>\u2014energia que cria e procria em \u201ccomun-unidade\u201d entre c\u00e9u e terra, dialogando e \u201ccora\u00e7onando\u201d \u2014 est\u00e1 presente.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Sp&#8217;ijilal O&#8217;tan<\/em>, conhecimento ou epistemologias do cora\u00e7\u00e3o, nos convida a reconhecer e respeitar a vasta exist\u00eancia que est\u00e1 cada vez mais amea\u00e7ada por uma racionalidade arrogante e indolente. O que une e identifica todos n\u00f3s que fazemos parte dessa vasta exist\u00eancia \u00e9 o <em>ch&#8217;ulel<\/em>, o <em>o&#8217;tan<\/em>, e a troca m\u00fatua <em>de ich&#8217;el ta muk&#8217;<\/em>. Dito assim, \u00e9 uma forma de estruturar e organizar o mundo. \u00c9 uma forma de conhecer e compreender o cosmos. Provavelmente uma forma de objetivar a vida subjetiva desde os tempos primordiais, quando o Cora\u00e7\u00e3o da Terra e o Cora\u00e7\u00e3o do C\u00e9u come\u00e7aram a dan\u00e7ar para procriar sujeitos com alegre rebeli\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Ser\u00e1 que a humanidade, o mundo, todos os seres existentes e vivos podem continuar a viver sob a epistemologia hegem\u00f4nica instrumentalizada ou em sintonia com o capitalismo predat\u00f3rio \u2014 o que os zapatistas chamam de \u201ca hidra capitalista\u201d \u2014 que nos subjuga? Evidentemente n\u00e3o. Reconhecer e valorizar outros paradigmas de estar no mundo \u00e9 urgente.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos princ\u00edpios que sustentam <em>o sp&#8217;ijilal o&#8217;tan, <\/em>o conhecimento ou epistemologias do cora\u00e7\u00e3o, baseia-se na apreens\u00e3o do mundo e na compreens\u00e3o do cosmos. Em outras palavras, trata-se de uma apreens\u00e3o e compreens\u00e3o da vida como um todo, o que \u00e9 chamado de <em>sna&#8217;el k&#8217;inal <\/em>em tseltal maia&nbsp;<em>(ya sna&#8217; k&#8217;inal, ma sna&#8217; k&#8217;inal). <\/em>N\u00e3o pretendo afirmar que tal compreens\u00e3o seja mais ampla do que outras, ou que seja igual \u00e0 do mundo ocidental; \u00e9 simplesmente diferente. Sempre esteve l\u00e1, mas negada e explorada pelo conhecimento ocidental hegem\u00f4nico. Assim, o que apresentei aqui \u00e9 um tipo de a\u00e7\u00e3o arqueol\u00f3gica: descobrir o que sempre esteve l\u00e1. Basta se deixar surpreender e reencantar o que o conhecimento hegem\u00f4nico e a hidra capitalista desencantaram, transformando a vasta exist\u00eancia em coisa e mercadoria.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Este ensaio foi originalmente publicado em espanhol com vers\u00e3o em ingl\u00eas em \u201c<\/em>Resistant Strategies<em>\u201d, organizado por Diana Taylor e Marcos Steuernagel pelo Hemispheres Institute. Dispon\u00edvel em:<\/em> <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/resistantstrategies.hemi.press\/spijilal-otan-knowledge-or-epistemologies-of-the-heart-es\/?lang=es\" target=\"_blank\"><em>https:\/\/resistantstrategies.hemi.press\/spijilal-otan-knowledge-or-epistemologies-of-the-heart-es\/?lang=es<\/em><\/a>. <em>Acesso em: ago. 2025.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Agradecemos a Juan L\u00f3pez Intz\u00edn, Hemispheres Institute e Diana Taylor pela permiss\u00e3o de republic\u00e1-lo na edi\u00e7\u00e3o \u201cCorpo ch\u00e3o cora\u00e7\u00e3o\u201d da <\/em>Revista Mesa<em>.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">***<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Juan L\u00f3pez Intz\u00edn<\/em><\/strong> \u00e9 de origem maia de Tseltal, nascido em Tenejapa, Chiapas, M\u00e9xico. Mestre em Antropologia Social pela Universidade Iberoamericana na Cidade do M\u00e9xico e professor convidado da Universidade Camponesa Ind\u00edgena. Suas pesquisas e projetos tem como foco os conceitos \u00e9ticos e filos\u00f3ficos maias tseltal. As publica\u00e7\u00f5es e document\u00e1rios incluem: <em>sentipensar el g\u00eanero desde los pueblos originarios<\/em>: <em>Ch\u2019ulel pluriverso <\/em>(UNAM, 2015) e <em>j-Amtel<\/em> (exibido no Primeiro Festival Internacional de Cinema de San Crist\u00f3bal, 2015). Atualmente \u00e9 membro do Centro de Direitos Humanos Fray Bartolom\u00e9 de las Casas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Refer\u00eancias:<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>L\u00d3PEZ INTZ\u00cdN, Juan. 2011. <em>Ich&#8217;el ta muk&#8217;: A Trama na Constru\u00e7\u00e3o de Lekil Kuxlejal. Em Dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Visibilidade de Outros Saberes a Partir da Matriz do Pensar-Sentir-Saber Tseltal. <\/em>Mimeo, 2011.<\/p>\n\n\n\n<p>SUBCOMANDANTE Marcos. <em>Chiapas: A D\u00e9cima Terceira Estela. Comunicados sobre a morte dos &#8220;Aguascalientes&#8221; e o nascimento dos &#8220;Caracoles&#8221; zapatistas<\/em>, <em>EZLN<\/em>. M\u00e9xico, 2003.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Popol Wuj.<\/em> Tradu\u00e7\u00e3o e notas para o espanhol de Sam Colop. Guatemala: FyG Editores\/Biblioteca Guatemala, 2011.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>\u00b9 Com este termo, refiro-me ao processo de reflex\u00e3o que emergiu dentro de um campo sociocultural e lingu\u00edstico. Esses termos surgem como resultado de uma reflex\u00e3o interna, ou da minha pr\u00f3pria perspectiva, da minha pr\u00f3pria l\u00edngua maia tseltal. N\u00e3o t\u00eam nada a ver com aspectos pol\u00edticos ou militares.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00b2 A marcha tamb\u00e9m aconteceu em outras partes do M\u00e9xico e em v\u00e1rios pa\u00edses das Am\u00e9ricas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00b3 Veja a \u201cLei Geral dos Direitos Lingu\u00edsticos dos Povos Ind\u00edgenas\u201d. <em>Di\u00e1rio Oficial da Federa\u00e7\u00e3o Mexicana. <\/em>13 de mar\u00e7o de 2003.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sp&#8217;ijilal O&#8217;tan: Conhecimento ou epistemologias do cora\u00e7\u00e3o Juan L\u00f3pez Intz\u00edn Contexto breve Quero come\u00e7ar contextualizando a \u201cin-surg\u00eancia\u201d\u00b9 do sp&#8217;ijilal O&#8217;tan, um termo maia tseltal cuja maior aproxima\u00e7\u00e3o com a l\u00edngua [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/3838"}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3838"}],"version-history":[{"count":25,"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/3838\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6270,"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/3838\/revisions\/6270"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3838"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}