{"id":2835,"date":"2021-03-25T18:30:55","date_gmt":"2021-03-25T21:30:55","guid":{"rendered":"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/?page_id=2835"},"modified":"2025-10-14T16:09:15","modified_gmt":"2025-10-14T19:09:15","slug":"editorial","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/editorial\/","title":{"rendered":"Editorial"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"1000\" height=\"881\" src=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/10\/Imagem-capa-editorial_Jialu-Pombo_terra-9.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-5625\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/10\/Imagem-capa-editorial_Jialu-Pombo_terra-9.png 1000w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/10\/Imagem-capa-editorial_Jialu-Pombo_terra-9-300x264.png 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/7\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/10\/Imagem-capa-editorial_Jialu-Pombo_terra-9-768x677.png 768w\" sizes=\"(max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><figcaption>Jialu Pombo. <em>Uma criatura sem nome corporificando a experi\u00eancia encara a terra<\/em>. Colagem, 2025.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h2>Editorial: Corpo ch\u00e3o cora\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<h4>Jessica Gogan e Luiz Guilherme Vergara<\/h4>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote has-text-align-center\"><p><em>Anjo de guarda, doce companhia, nos proteja de manh\u00e3, de tarde e de noite,<br>mas principalmente agora!<\/em><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">Eb\u00f3,<br>Ritual cantado pela Companhia de Myst\u00e9rios e Novidades<br>antes de sair nos cortejos<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto escrevemos este editorial, ressoam as vozes dos performers da Grande Companhia Brasileira de Myst\u00e9rios e Novidades invocando uma prote\u00e7\u00e3o antes de sair em seus maravilhosos cortejos na rua. Talvez pud\u00e9ssemos imaginar esta edi\u00e7\u00e3o da <em>Revista Mesa<\/em> como oferenda, uma uni\u00e3o de m\u00faltiplos corpos e cora\u00e7\u00f5es em um s\u00f3 ch\u00e3o, se mobilizando, gritando e cantando algo que possa nos dar prote\u00e7\u00e3o e for\u00e7a para viver neste mundo (im)poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo dos \u00faltimos dez anos, a <em>Revista Mesa<\/em> vem se estruturando como plataforma h\u00edbrida, online e presencial, de publica\u00e7\u00f5es e a\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, conectando arte e sociedade a partir de uma din\u00e2mica de pesquisa, experimenta\u00e7\u00e3o, colabora\u00e7\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o. Com uma circula\u00e7\u00e3o nacional e internacional, a revista&nbsp;busca dar visibilidade e densidade cr\u00edtica \u00e0s m\u00faltiplas interfaces da produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica em contextos socioambientais contempor\u00e2neos, em seus distintos formatos e situa\u00e7\u00f5es, investigando as mudan\u00e7as \u00e9ticas e est\u00e9ticas que atravessam os campos da arte, curadoria e educa\u00e7\u00e3o. Como plataforma viva de documenta\u00e7\u00e3o, colabora\u00e7\u00e3o e reflex\u00e3o, <em>Mesa<\/em> mobiliza seu devir revista-mesa ao atuar como \u201cmesa\u201d e escultura social entre artistas, pesquisadores, institui\u00e7\u00f5es, universidades, comunidades e campos de diversas \u00e1reas dentro e fora do Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Na s\u00e9tima edi\u00e7\u00e3o, \u201cCorpo ch\u00e3o cora\u00e7\u00e3o\u201d (2025), a revista, como pensamento-forma e fio de cuidado e justi\u00e7a social, entrela\u00e7a e expande os temas corpo-ch\u00e3o-cora\u00e7\u00e3o como corpo-mundo\/mundo-corpo, enfatizando a pot\u00eancia da arte como dispositivo de interseccionalidade, conectividade e ativismo \u2014 em prol da igualdade de g\u00eanero, do antirracismo e do meio ambiente \u2014, em um mundo marcado pela fragmenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma nova proposta editorial convidou tr\u00eas artistas residentes\/coeditores, no intuito de desenvolver contribui\u00e7\u00f5es de forma org\u00e2nica, po\u00e9tica e singular. Ancorada nas pr\u00e1ticas e pesquisas dos artistas, a revista tornou-se residente em seus projetos, dialogando e se reinventando a partir de seus processos criativos.<\/p>\n\n\n\n<p>Susan Thomson, cineasta escocesa LGBTQIAPN+, trabalha na fronteira entre artes visuais, cinema e literatura. Em 2022, realizou uma resid\u00eancia no Instituto Mesa, com o apoio do Programa Plural do British Council, e nela desenvolveu o curta-metragem <em>Tybyra e o Arlequim<\/em>. A docufic\u00e7\u00e3o, que entrela\u00e7a os temas de direitos da natureza, g\u00eanero, ra\u00e7a e colonialismo, \u00e9 baseada em duas hist\u00f3rias contadas por meio da dan\u00e7a, da poesia e do document\u00e1rio, com a participa\u00e7\u00e3o da artista perform\u00e1tica Omb\u00e1 Y\u00ee\u00e0r\u00e1 e cinematografia de Guar\u00e1 do Vale e Isabella Moriconi (na \u00e9poca alunes da UFF de Artes e Cinema, respectivamente). A primeira hist\u00f3ria \u00e9 de Tybyra, uma pessoa ind\u00edgena de g\u00eanero n\u00e3o bin\u00e1rio, que, em 1613, foi julgada e condenada pelos colonizadores franceses no Brasil, e, posteriormente, atirada de um canh\u00e3o ao mar. A segunda, de arlequim, o sapo-arlequim no Vale Intag no Equador, considerado extinto, mas redescoberto em 2016, trinta anos depois, que, com seu status especial de prote\u00e7\u00e3o ecossist\u00eamica, impediu que um projeto de mina de cobre fosse adiante. A fabula\u00e7\u00e3o e o real se convergem apontando para a insurg\u00eancia de novos caminhos de ativismos interseccionais. A revista inclui um ensaio po\u00e9tico e visual do filme por Susan e a edi\u00e7\u00e3o de duas videoentrevistas realizadas como parte da pesquisa-processo. Uma delas \u00e9 com Diosmar Filho, ge\u00f3grafo e cineasta afro-brasileiro, que discute o racismo ambiental e os projetos de pesquisa \u201cAmaz\u00f4nia Legal Urbana: An\u00e1lises socioespaciais de Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas\u201d e \u201cDesigualdades e Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas\u201d. A outra \u00e9 com Mika Peck, ecologista brit\u00e2nico, que aborda diferentes temas de sua pesquisa e ativismo socioambiental, entre os quais destaca a&nbsp; paraecologia \u2014 movimento para envolver comunidades na prote\u00e7\u00e3o do meio ambiente.<\/p>\n\n\n\n<p>Jorge Menna Barreto, artista e educador brasileiro que atualmente \u00e9 professor no Departamento de Arte e no programa de mestrado <em>Environmental Art and Social Practice<\/em> da Universidade da Calif\u00f3rnia, em Santa Cruz, nos Estados Unidos, contribui com a s\u00e9rie de podcast <em>Olho Seco<\/em>, desenvolvida no \u00e2mbito de sua pesquisa <em>Dehydrated Landguages <\/em>(Paisagens Desidratadas). Essa investiga\u00e7\u00e3o, fruto de sua pr\u00e1tica e pesquisa dos \u00faltimos vinte anos \u2014 voltada a projetos <em>site-specific<\/em> e \u00e0 agroecologia \u2014, explora as rela\u00e7\u00f5es entre arte, literatura e crise ambiental. Atravessando ci\u00eancia, poesia e artes visuais, <em>Olho Seco<\/em> investiga como a experi\u00eancia da secura se manifesta no corpo e nos ecossistemas. Entrecruzando contribui\u00e7\u00f5es de cientistas, escritores, artistas e curadores, como Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto e Antonio Dias, emerge uma reflex\u00e3o sens\u00edvel sobre como o \u201cseco\u201d pode ser linguagem, m\u00e9todo e resposta ao colapso socioambiental. Os \u00e1udios dos podcasts e roteiros podem ser acessados aqui junto \u00e0 contextualiza\u00e7\u00e3o do projeto de pesquisa \u201cDehydrated Landguages\u201d, e seu texto de ecofic\u00e7\u00e3o \u201cUma boca a menos\u201d, um ensaio que aponta para dire\u00e7\u00f5es futuras de sua pesquisa.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, o coletivo de arte p\u00fablica Grande Companhia Brasileira de Myst\u00e9rios e Novidades, que atua na regi\u00e3o portu\u00e1ria do Rio de Janeiro, reconhecida como o maior porto receptor de africanos escravizados. A Companhia desenvolve seus cortejos como esculturas sociais de arte p\u00fablica. Cada cortejo \u00e9 concebido em di\u00e1logo com as tradi\u00e7\u00f5es populares, festejos religiosos, cantos e pontos dos sincretismos afro-brasileiros que ativam os atravessamentos hist\u00f3ricos e pol\u00edticos contempor\u00e2neos, devolvendo formas de reencantamento ao territ\u00f3rio amea\u00e7ado por uma crescente gentrifica\u00e7\u00e3o. A revista ressalta sua pr\u00e1tica de cortejo e pot\u00eancia de reunir organiza\u00e7\u00f5es, l\u00edderes espirituais, pesquisadores, artistas e educadores por meio de uma entrevista com a diretora art\u00edstica L\u00edgia Veiga e a coordenadora Mar\u00edlia Felipe, e da coleta de depoimentos de performers e colaboradores da Companhia. Al\u00e9m disso, traz, na \u00edntegra, a roda de conversa sobre as artes, ci\u00eancias e espiritualidades, que reuniu, junto \u00e0 diretora da Companhia e editores da <em>Revista Mesa<\/em>, Anna Dantes, Fabio Scarano, M\u00e3e Sara, Marcia Brand\u00e3o e Iazana Guizzo, arquiteta e coordenadora do projeto de extens\u00e3o Floresta Cidade (UFRJ), que tamb\u00e9m contribuiu com o ensaio \u201cDespertar a Guanabara\u201d, com fotografia de C\u00e9sar Oiticica Filho, cineasta e diretor art\u00edstico do Centro Municipal de Arte H\u00e9lio Oiticica e do Projeto H\u00e9lio Oiticica. A beleza da Companhia e sua pr\u00e1tica de cortejo destaca-se pelas grandes entidades incorporadas pelos atores na perna de pau, gigantes suspensos entregues \u00e0 total presen\u00e7a, tanto com aten\u00e7\u00e3o aguda quanto com uma po\u00e9tica fabulante, ativando outros estados de ser.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m dessas ricas contribui\u00e7\u00f5es, a edi\u00e7\u00e3o traz artigos, di\u00e1logos e ensaios visuais, abordagens ecossist\u00eamicas e potentes do corpo-ch\u00e3o-cora\u00e7\u00e3o em suas dimens\u00f5es situadas de resist\u00eancia e cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h3><strong>Artigos<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Conex\u00f5es improv\u00e1veis abrem linhas de insurg\u00eancias eco-\u00e9tica-est\u00e9ticas transculturais, apontando para os sentidos de conflu\u00eancias regenerantes de v\u00ednculos partidos, enterrados, entre corpo-ch\u00e3o-cora\u00e7\u00e3o. Os artigos de Ana Luiza Nobre, \u201cProjetar agachado\u201d, de Jo\u00e3o Paulo Lima Barreto (Tukano), \u201cA concep\u00e7\u00e3o de corpo a partir das pr\u00e1ticas dos especialistas ind\u00edgenas do Alto Rio Negro\u201d e de Juan L\u00f3pez Intz\u00edn, \u201cSp&#8217;ijilal O&#8217;tan: Conhecimento ou epistemologias do cora\u00e7\u00e3o\u201d, apresentam, com diferentes vozes, um chamado para outras ontoepistemologias\/cosmologias<strong>.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O pesquisador de origem maia, Juan L\u00f3pez Intz\u00edn, tem como foco os conceitos \u00e9ticos e filos\u00f3ficos maias tseltal, formadores das epistemologias do cora\u00e7\u00e3o.Seu texto, na forma de quase manifesto, indaga se somos um povo domesticado e se a \u201cdesdomestica\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 poss\u00edvel. O que vale para a insurg\u00eancia do <em>ch&#8217;ulel<\/em>, a ess\u00eancia prim\u00e1ria da exist\u00eancia \u2014 poder vital ou energia \u2014, retomada e abra\u00e7ada pelo movimento zapatista nos anos 90 no M\u00e9xico, desperta nossa consci\u00eancia para trazer \u201cnossos cora\u00e7\u00f5es de volta\u201d ao cosmos esquecido, o retorno em maia tseltal de <em>lekil kuxlejal <\/em>(uma vida de plenitude, dignidade e justi\u00e7a).<\/p>\n\n\n\n<p>Assim tamb\u00e9m Jo\u00e3o Paulo, em um artigo recorte de seu livro <em>O Mundo em mim: uma teoria ind\u00edgena e os cuidados sobre o corpo no Alto Rio Negro<\/em> (2022), ressalta uma epistemologia das ci\u00eancias ind\u00edgenas pela reconex\u00e3o do corpo com o ch\u00e3o-mundo-cosmos com uma visada fenomenol\u00f3gica de uma medicina ind\u00edgena a partir dos mediadores cosmopol\u00edticos e operadores de <em>Kihti uk\u0169se<\/em>: o conjunto das narrativas m\u00edticas dos Tukanos <em>(<\/em><em>Yepamahs\u00e3<\/em>); o repert\u00f3rio de f\u00f3rmulas, palavras e express\u00f5es retiradas dos<em> Kihti uk\u0169se<\/em> (<em>Bahsese<\/em>);eo conjunto de pr\u00e1ticas sociais associadas aos <em>bahsese <\/em>e \u00e0s festas e cerim\u00f4nias rituais ao longo do ciclo anual (<em>Bahsamori<\/em>). Tudo isso\u00e9 resumido no termo <em>kahtise<\/em>: os elementos imateriais constitutivos do corpo.<\/p>\n\n\n\n<p>A arquiteta Ana Luiza Nobre, inspirada pela provoca\u00e7\u00e3o de Georges Didi-Huberman de \u201cpensar debru\u00e7ado\u201d, explora as possibilidades de uma arquitetura outra, mais vinculada ao ch\u00e3o, \u201cagachada\u201d nas suas sensibilidades e proje\u00e7\u00f5es. Isto \u00e9, como movimento que se configura em contraponto aos processos de moderniza\u00e7\u00e3o\/globaliza\u00e7\u00e3o estabelecidos em oposi\u00e7\u00e3o a tudo que \u00e9 local, enraizado, vinculado a um ch\u00e3o\/solo, abra\u00e7ando, como os povos ind\u00edgenas ensinam, um \u201cpisar leve\u201d no ch\u00e3o. \u201cAterrar-se,\u201d Ana Luiza aponta, \u201c\u00e9 cultivar uma pol\u00edtica do Terrestre\u201d, na qual o dobrar-se sobre si mesmo faria, citando Didi-Huberman, \u201co que est\u00e1 embaixo subir at\u00e9 n\u00f3s\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h3><strong>Di\u00e1logos<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Talvez o ato que mais pulsa, conecta e respira corpo-ch\u00e3o-cora\u00e7\u00e3o nesta edi\u00e7\u00e3o seja o de escuta \u2014 uma escuta atenta, sens\u00edvel e \u00e9tica, ancorada em <em>response-ability<\/em>, como diz Donna Haraway<strong><sup>1<\/sup><\/strong> , e permiss\u00e3o, uma permiss\u00e3o para ouvir e ser parte do que estamos escutando, como aponta a palavra-conceito em guarani <em>hendu<\/em>,oferecida por Sandra Benites em seu di\u00e1logo \u201c<em>Tembiapo<\/em>: Arte e povos de cura\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas escutas atentas, sens\u00edveis e \u00e9ticas n\u00e3o nos salvar\u00e3o de nossas crises ou reparar\u00e3o a d\u00edvida impag\u00e1vel<strong><sup>2<\/sup><\/strong>, mas, como a fil\u00f3sofa Isabelle Stengers aponta, s\u00e3o fundamentais para \u201cuma ecologia de pr\u00e1ticas\u201d e \u201ca cria\u00e7\u00e3o das respostas das quais depende a possibilidade de um futuro que n\u00e3o seja b\u00e1rbaro\u201d<sup><strong>3<\/strong><\/sup>. \u201cEu n\u00e3o sei fazer justi\u00e7a\u201d, ressoa a voz de Stella do Patroc\u00ednio no di\u00e1logo \u201cEnsaio de escutas\u201d, no antigo asilo Col\u00f4nia Juliano Moreira, agora Museu Bispo do Rosario, sobre seu potente <em>falat\u00f3rio<\/em> com Anna Carolina Vicentini Zacharias, Natasha Felix, Sara Ramos e a media\u00e7\u00e3o de Diana Kolker. Um desamparo palp\u00e1vel e uma provoca\u00e7\u00e3o: temos de escutar e coletivamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma oralitura, como diria Leda Martins<strong><sup>4<\/sup><\/strong>, desprende-se dessa escuta responsiva e coletiva. \u201cArte como concha: apenas escuta\u201d, ofereceu o artista e psiquiatra Lula Wanderley<sup><strong>5<\/strong><\/sup>, descrevendo a pr\u00e1tica de Lygia Clark. Essas sensibilidades e pot\u00eancias permeiam o Projeto Corpo, Gesto, Afeto com as mulheres da penitenci\u00e1ria feminina Talavera Bruce. No di\u00e1logo sobre o projeto, as coordenadoras Tania Rivera e Alice Poppe se juntaram \u00e0 colaboradora artista Caroline Valansi e ao compositor, int\u00e9rprete e professor de arte Tato Taborda.&nbsp; Conceitos\/palavras\/pr\u00e1ticas como coreoescuta (Rivera), radiocoreografia (Poppe), corpo transante (Valansi) e audionutri\u00e7\u00e3o (Taborda) emergem dessa escuta pulsante dos corpos, ch\u00e3os, cora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>O di\u00e1logo \u201cN\u00f3s somos daquela Terra: Di\u00e1logos cruzados entre arte e territ\u00f3rio\u201d re\u00fane a educadora\/curadora M\u00e9lanie Mozzer e o artista S\u00e1vio Ribeiro para discutir as vitalidades e lutas da cena art\u00edstica no contexto perif\u00e9rico de S\u00e3o Gon\u00e7alo (RJ), a partir da primeira confer\u00eancia que eles realizaram sobre arte contempor\u00e2nea na regi\u00e3o (2024). O territ\u00f3rio de S\u00e3o Gon\u00e7alo \u00e9 caro para a <em>Revista Mesa<\/em>, na 6\u00aa edi\u00e7\u00e3o realizamos um estudo de caso com artistas, educadores e ativistas da regi\u00e3o. Retornando com for\u00e7a nesse di\u00e1logo, M\u00e9lanie e S\u00e1vio n\u00e3o somente enfatizam como fundamental a escuta do territ\u00f3rio e das vozes, mas apontam como necess\u00e1rio o contramovimento: \u201cnarrar nossas pr\u00f3prias revolu\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Em tempos de urg\u00eancia, precisamos de escutas outras entre n\u00f3s, a terra, a natureza e o n\u00e3o humano. Isso n\u00e3o \u00e9 nenhum tipo de fantasia de retorno \u00e0 natureza. Nem \u00e9 cura. Mas, sim, um meio de nos sensibilizar ao que Susan Buck-Morss sugere como \u201cfarejar o perigo\u201d<strong><sup>6<\/sup><\/strong>. Ou, como dizem os ind\u00edgenas, quando voc\u00ea v\u00ea a on\u00e7a, j\u00e1 \u00e9 tarde demais<sup><strong>7<\/strong><\/sup>.<\/p>\n\n\n\n<h3><strong>Ensaios visuais<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Quatro ensaios visuais abrem janelas multissensoriais para diferentes mundos contempor\u00e2neos. Interessa-nos prospectar resson\u00e2ncias, conex\u00f5es improv\u00e1veis, elos de interdepend\u00eancias eco-\u00e9tica-est\u00e9ticas e conflu\u00eancias entre corpo-ch\u00e3o-cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, viajamos pelas ra\u00edzes vitais das manifesta\u00e7\u00f5es populares da arte brasileira captadas pelas lentes do olhar encarnado, corpo-ch\u00e3o-cora\u00e7\u00e3o, do artista e cineasta viajante Lucas Van de Beuque. Em seu ensaio \u201cOutras po\u00e9ticas: mergulhos num Brasil de arte\u201d reencontram-se os imagin\u00e1rios vivos das origens do fen\u00f4meno art\u00edstico-humano pela festa, casa e natureza, livres dos dogmas eruditos e vibrando corpo-ch\u00e3o-cora\u00e7\u00e3o e uma beleza encantat\u00f3ria de outra margem da produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica contempor\u00e2nea.<\/p>\n\n\n\n<p>Apresentamos tamb\u00e9m a parceria entre a Casa Resist\u00eancias \u2014 espa\u00e7o na Mar\u00e9 que oferece acolhimento residencial para mulheres (cis e trans) l\u00e9sbicas e bissexuais \u2014 e Imagens do Povo \u2014 organiza\u00e7\u00e3o e escola de fotografia popular na Mar\u00e9 que promove registros cr\u00edticos e respeitosos aos direitos humanos e \u00e0 cultura local. O ensaio \u201cQual \u00e9 o ch\u00e3o que piso? Trabalho, cuidado e sobreviv\u00eancias na Casa Resist\u00eancias de acolhimento para mulheres LBT do Complexo de Favelas da Mar\u00e9\u201d \u00e9 de autoria das colaboradoras da Casa, Beatriz Virg\u00ednia Gomes Belmiro e Kimberly Veiga, junto \u00e0 fot\u00f3grafa Suellen Cloud. A casa como resid\u00eancia se torna resist\u00eancia, envolvendo for\u00e7as vitais regenerantes e \u00e9ticas de cuidado com os afetos pela vida, pela solidariedade, criatividade e comunalidade, que s\u00e3o os constructos psicossociais da cura pelo pertencimento m\u00fatuo.<\/p>\n\n\n\n<p>O ensaio de Carla Santana, \u201cTerra enquanto mem\u00f3ria, moradia e nutri\u00e7\u00e3o: O Sert\u00e3o Negro\u201d,tamb\u00e9m abre janelas ao r\u00e9s do ch\u00e3o, para se debru\u00e7ar no que pode flexionar a temporalidade de sua produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica pelas suas inquieta\u00e7\u00f5es e admira\u00e7\u00f5es por outros modos de exist\u00eancia \u2014 modelos de futuros para pr\u00e1ticas de comunh\u00e3o e preserva\u00e7\u00e3o de uma alian\u00e7a com a natureza. Como tal, \u201cconjuga\u201d a resid\u00eancia no Sert\u00e3o Negro com viv\u00eancias transformadoras cosmopol\u00edticas junto \u00e0 Comunidade Quilombola Kalunga do Engenho II e as conex\u00f5es improv\u00e1veis entre o fen\u00f4meno humano e a natureza, as comunidades das casas-coletivas dos cupinzeiros, colmeias microc\u00f3smicas das abelhas, casas de marimbondos, utopias sociais dos formigueiros e buracos de tatu.<\/p>\n\n\n\n<p>Por sinergia com os impulsos de futuros ancestrais, artista-pesquisador trans e neurodivergente Jialu Pombo tamb\u00e9m cava o ch\u00e3o e devolve seu corpo \u00e0 terra. Em seu ensaio \u201cUma criatura sem nome corporificando a experi\u00eancia encara a terra\u201d, recorte de sua tese de doutorado (2023), Jialu registra \u201coprel\u00fadio de um longo processo de aterramento, que tamb\u00e9m poderia ser chamado de enraizamento\u201d. Jialu nos convida a encarar o ch\u00e3o-corpo, provocando \u201coutras miradas\u201d e conectando rela\u00e7\u00f5es \u201cque sempre estiveram presentes, mas que por vezes escapam do saber de si e do mundo: o corpo \u00e9 \u00e1gua, fogo, ar e terra\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h3><strong><em>Think Piece<\/em><\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Iniciamos essa tessitura corpo-ch\u00e3o-cora\u00e7\u00e3o em trocas e conversas com M\u00f4nica Hoff, em 2022, pelas quais estamos extremamente gratos. Desde ent\u00e3o, nesses vai e vem da vida, das inspira\u00e7\u00f5es, das quest\u00f5es, dos desejos e desafios, seu <em>Think Piece<\/em> \u00e9 um texto levante po\u00e9tico, vibrante e sentiente, que nasce dos fragmentos \u201ccorpo ch\u00e3o cora\u00e7\u00e3o \u2013 tr\u00eas substantivos, cinco ou mais mem\u00f3rias, um poema, ou um peda\u00e7o de terra para ro\u00e7ar\u201d, sendo, assim, uma fus\u00e3o, \u201cuma episteme\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">***<\/p>\n\n\n\n<p>Entrela\u00e7ando essas m\u00faltiplas vozes e pr\u00e1ticas de resist\u00eancia e cria\u00e7\u00e3o, corpo-ch\u00e3o-cora\u00e7\u00e3o investe, como sugere Lorena Cabnal ao falar do ativismo feminista comunit\u00e1rio-territorial na Guatemala, em <em>acuerpamiento<strong><sup>8<\/sup><\/strong>.<\/em> Isto \u00e9, em buscar o comum que atravessa as lutas, <em>acorpando-as<\/em> solidariamente. Convidamos os corpos e cora\u00e7\u00f5es para abra\u00e7arem seus ch\u00e3os como horizontes palp\u00e1veis na busca por outros modos e pr\u00e1ticas coletivas de viver, criar e resistir, nos quais a arte possa atuar como agente ecossist\u00eamico de conectividades restaurativas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Agradecemos do fundo de nossos cora\u00e7\u00f5es a todes es colaboradores. Que esta edi\u00e7\u00e3o possa ressoar no corpo-ch\u00e3o-cora\u00e7\u00e3o de voc\u00eas e de outres.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">***<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Jessica Gogan<\/em><\/strong> \u00e9 diretora do Instituto Mesa e editora geral da <em>Revista Mesa<\/em>. Doutora em Hist\u00f3ria da Arte (2016) e pesquisadora colaboradora no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Estudos Contempor\u00e2neos das Artes da Universidade Federal Fluminense (UFF), onde tamb\u00e9m realizou p\u00f3s-doutorado (2018\u20132023). Pesquisa e atua nas intersec\u00e7\u00f5es das pr\u00e1ticas art\u00edsticas, cl\u00ednicas e pedag\u00f3gicas. Entre outros, organizou os livros: <em>Domingos da Cria\u00e7\u00e3o: Uma cole\u00e7\u00e3o po\u00e9tica do experimental na arte e educa\u00e7\u00e3o <\/em>(2017) em colabora\u00e7\u00e3o com Frederico Morais e <em>Eu n\u00e3o sei o que dizer mas desejo profundamente que voc\u00ea me escute<\/em> (2024).<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Luiz Guilherme Vergara<\/em><\/strong> \u00e9 professor associado do departamento de Arte e membro do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Estudos Contempor\u00e2neos das Artes da Universidade Federal Fluminense e cofundador do Instituto Mesa. Foi coordenador do curso de gradua\u00e7\u00e3o em Artes (2019\u20132024) e diretor do Museu de Arte Contempor\u00e2nea (MAC) de Niter\u00f3i entre 2005\u20132008 e 2013\u20132016. Coordena o grupo de pesquisa (CNPq) ynterfluxes contempor\u00e2neos: Arte Comunidade e Natureza.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong><sup>1<\/sup><\/strong> HARAWAY, Donna. <em>Staying with the Trouble: <\/em>Making Kin in the Chthulucene. &nbsp;Durham\/London: Duke University Press, 2016.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><sup>2<\/sup><\/strong> FERREIRA, Denise da Silva. <em>A d\u00edvida impag\u00e1vel<\/em>. Oficina de Imagina\u00e7\u00e3o Pol\u00edtica com o apoio da Casa do Povo, 2019. Dispon\u00edvel em: <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/casadopovo.org.br\/divida-impagavel\/\" target=\"_blank\">https:\/\/casadopovo.org.br\/divida-impagavel\/<\/a> Acesso em: ago. 2025.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><sup>3<\/sup><\/strong> STENGERS, Isabelle. Introductory Notes on an Ecology of Practices. <em>Cultural Studies Review<\/em>, 2005, v. 11, n. 1, p. 183\u2013196; STENGER, Isabelle. <em>Catastrophic Times: <\/em>Resisting the Coming Barbarism<em>. <\/em>Tradu\u00e7\u00e3o Andrew Goffey. Open Humanities Press\/Meson Press: 2015, p. 73.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><sup>4<\/sup><\/strong> MARTINS, Leda Maria. <em>Performances do tempo espiralar: <\/em>Po\u00e9tica do corpo-tela. S\u00e3o Paulo: Cobog\u00f3, 2021.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><sup>5<\/sup><\/strong> WANDERLEY, Lula. <em>Na sil\u00eancia que as palavras guardam: O sofrimento ps\u00edquico, o Objeto Relacional de Lygia Clark e as paix\u00f5es do corpo<\/em>. S\u00e3o Paulo: N-1 edi\u00e7\u00f5es, 2021, p. 36<\/p>\n\n\n\n<p><strong><sup>6<\/sup><\/strong> KESTER, Grant. Aesthetics after the End of Art: An Interview with Susan Buck-Morss. <em>Art Journal<\/em>, v. 56, n. 1, Aesthetics and the Body Politic (Spring, 1997), p. 38-45.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><sup>7<\/sup><\/strong> SANTOS, Laymert Garcia dos. <em>Amaz\u00f4nia transcultural:<\/em> xamanismo e tecnoci\u00eancia na \u00f3pera. S\u00e3o Paulo: N-1, 2013. <em>In<\/em>: TABORDA, Tato. <em>Resson\u00e2ncias: <\/em>vibra\u00e7\u00f5es por simpatia e frequ\u00eancias de insurg\u00eancia. Rio de Janeiro: UFRJ, 2021, p. 25.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><sup>8<\/sup><\/strong> Ver: PATI\u00d1O NI\u00d1O, Diana Milena. A philosophical conversation with Lorena Cabnal from Guatemala. <em>Revista Estudos Feministas<\/em>, Florian\u00f3polis, v. 31, n. 3, 2023. Dispon\u00edvel em:<br><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.scielo.br\/j\/ref\/a\/4DfwsdcBSVTqdbfTGG9rMTb\/\" target=\"_blank\">https:\/\/www.scielo.br\/j\/ref\/a\/4DfwsdcBSVTqdbfTGG9rMTb\/<\/a>. Acesso em: ago. 2025.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Editorial: Corpo ch\u00e3o cora\u00e7\u00e3o Jessica Gogan e Luiz Guilherme Vergara Anjo de guarda, doce companhia, nos proteja de manh\u00e3, de tarde e de noite,mas principalmente agora! 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