Sobre Dehydrated Landguages
Jorge Menna Barreto
Dehydrated Landguages (Paisagens desidratadas) é um projeto artístico e de pesquisa de Jorge Menna Barreto que se desdobra entre Brasil e Califórnia, tomando a aridez como ponto de partida para pensar a crise climática e suas reverberações nas artes, na literatura e na vida cotidiana. Sua primeira etapa, o podcast Olho Seco, nos convida a escutar de olhos fechados e a repensar nosso olhar em tempos de emergência socioambiental.
Em três episódios, Olho Seco atravessa ciência, poesia e artes visuais para investigar como a experiência da secura se manifesta no corpo e nos ecossistemas. Da síndrome do olho seco às paisagens áridas do sertão e da Califórnia — conectadas por teleconexões oceânicas que atravessam o Pacífico —, o projeto aproxima lágrimas e chuvas, córneas e caatinga, versos minerais e imagens não-retinianas. Entre cientistas, escritores, artistas e curadores, como João Cabral de Melo Neto e Antonio Dias, emerge uma reflexão sensível sobre como o “seco” pode ser linguagem, método e resposta ao colapso ambiental.
A segunda etapa de Dehydrated Landguages, prevista para 2026 na Califórnia, tem como prenúncio o ensaio “Uma boca a menos”, aqui publicado em primeira mão. Nessa ficção especulativa, não há promessa de reidratação, mas a denúncia de um colapso já em curso: corpos que nascem com bocas hídricas — dedicadas exclusivamente a beber água — as veem apodrecer em meio à escassez decretada como “estado de sede”. O personagem, incapaz de beber, transforma-se num vampiro hídrico, alguém que escreve enquanto os outros agonizam. A escrita não surge aqui como salvação, mas como sintoma de uma falta radical: páginas que bebem tinta enquanto corpos sucumbem à secura.
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Uma boca a menos
Por Jorge Menna Barreto
Tinha dois braços, duas pernas, dois olhos, dois ouvidos e duas bocas. A boca superior ele usava pra falar, cantar e dar aula. A inferior, pra comer o que a terra de si dava. Sempre se perguntara sobre o fato de ter apenas duas bocas numa sociedade em que o normal é ter três.
A terceira boca é usada para tomar água. Situada na altura do quadril, essa boca não tem dentes. Seus lábios geralmente carnudos encaixam-se perfeitamente nas bicas públicas, onde as pessoas saciam sua sede. Ele não. Enquanto as pessoas bebem, ele escreve.
Nascera no deserto das brasas chamado Brasil no dia 25 de agosto de 1984, às 14h55, no município de Mossoró, Rio Grande do Norte. Essas foram as informações que usou para marcar uma consulta com a astróloga. Ela morava numa zona limítrofe entre os domínios da terra e os domínios da sede. Uma construção em ruínas, feita de painéis solares e espelhos gastos. A porta de entrada era um filtro de barro quebrado.
— Você nasceu com o Sol em Virgem, isso você já sabe — disse ela, sem olhar para ele, os olhos fixos na tela embaçada de um aparelho de leitura astral. — Mas o que nos interessa não é o Sol, que lhe é prejudicial. Evite-o sempre. O que nos interessa é o seu Netuno, grudado na casa seis. Isso aqui… isso não é comum. Ele rege o seu ascendente em Peixes.
Ela falava baixo, como quem conversa com as paredes.
— Netuno também é o regente das perdas. Da sede que não se resolve no corpo. A falta que produz não é um substantivo estático. Ela é mais como o vácuo, que opera pela sucção do que está no entorno.
Ele não respondeu. A boca de cima se fechou. A de baixo mastigava, devagar, um caroço de alguma coisa que ele achara no caminho.
— Seu Netuno na casa seis está sendo ativado por um trânsito de Saturno por Touro. Anomalia funcional. A estrutura se dissolve. Nada se fixa. Nem forma, nem função. Isso pode afetar glândulas salivares, ciclos digestivos, percepção de sede, que se encontra deslocada.
Antes de se despedir, ela disse mais uma coisa em voz baixa, quase para si:
— Mercúrio está na casa oito, conjunto com Plutão. Mercúrio é o tradutor, o escritor. Plutão, o astro sombrio, rege os minérios e os mistérios. Quem tem esse aspecto… espreme o mundo para que ele caiba na página. Tome cuidado quando o Sol estiver em Touro no mês que vem, pois fará uma conjunção perigosa com o Saturno em Touro. Saturno rege os dentes, e Touro, o pescoço.
Na hora, ele não entendeu, mas continuou escrevendo.
No dia 18 de maio de 2025, as bicas começaram a falhar. Gotejavam. Os tanques públicos secaram. Os hidrantes foram selados. O governo decretou “estado de sede”.
As bocas hídricas se tornaram peso morto. Algumas inflamaram. Outras necrosaram por dentro. As pessoas começaram a arrancá-las com as próprias mãos.
Marcel assistia. Não suava. E continuava escrevendo.
Na semana seguinte, começaram os surtos. Corpos esturricados nas praças. Crianças que tentavam beber areia. Adultos em delírio cavando buracos na calçada, farejando poças secas.
Ele andava pelas ruas como um ponto cego. Quase não era notado. Não era abordado. Parecia fora do problema — ou parte dele.
Alguns diziam que ele carregava a água por dentro, escondida. Outros, que ele era o próprio portador da sede. Um agente da secura.
No dia 12 de junho de 2025, acordou com barulhos na porta. Marteladas. Gritos de um grupo de pessoas carregando cruz e crucifixo.
— É ele. Ele tem a falta. Ele guarda a sede.
— Abre! A tua água é a nossa!
Trancou a porta. Encostou o corpo contra ela. Não sentia medo. Sabia o que precisava fazer.
O caderno estava sobre a mesa. Abriu. Passou os dedos pelas páginas em branco e acariciou aquela textura seca que tanto amava. Pegou a caneta tinteiro. Começou a escrever.
Descreveu as bicas falhando. As bocas hídricas que ainda restavam apodrecendo. O medo viscoso da última gota. Os surtos. Os corpos. As vozes.
O papel bebia a tinta com avidez. Em poucos segundos, estava encharcado de letras. Sorvia tudo sem pausa, se embriagando daqueles goles de realidade. Uma sede sem fundo. Um delírio de absorção.
Do lado de fora, os gritos desidrataram. Pela janela, viu que a rua estava vazia. As casas também. A cidade parecia um esboço. Um traço raso no chão de areia.
Tudo o que restava era ele e aquilo que escrevia.
O papel era a sua terceira boca.
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A prática de Jorge Menna Barreto investiga o site-specificity como uma relação em constante transformação entre arte, ecologia e linguagem. Seu trabalho parte da escuta profunda de materiais, histórias e paisagens, criando colaborações com diferentes saberes e comunidades. Jorge é professor no departamento de Arte da Universidade da Califórnia, em Santa Cruz, onde dá aula no mestrado de Arte Ambiental e Prática Social. É colaborador no programa de pós-graduação em Artes na Uerj. Para mais informações: @jmennabarreto e https://jorggemennabarreto.com/







