O Filme Tybyra e o Arlequim
Susan Thomson
Escrito e dirigido pela artista Susan Thomson, o curta-metragem Tybyra e o Arlequim (2022, 34 min) estreou na Cinemateca do MAM, no Rio de Janeiro, em dezembro de 2022. O filme, desenvolvido como parte de uma residência artística promovida pelo Instituto Mesa ao longo de 2022, com apoio do Programa Plural do British Council, conta com a participação do performer Ombá Yîàrá, com a fotografia de dois estudantes de arte e cinema da Universidade Federal Fluminense (Niterói, Brasil), respectivamente, Rai do Vale e Isabella Moriconi, e com a música de Billy Kenrick. O texto a seguir combina trechos dos monólogos do filme e uma reflexão sobre a pesquisa e o processo de execução.
Dando um testemunho rítmico escondido, indetectável, vivendo incomunicável,
Ganhamos o caso
De uma caixa de vidro
Prontos para produzir um herdeiro
Ganhamos o caso
No tribunal, falei em rachaduras e ritmos, em rajadas curtas
Do fundo da minha garganta
Falei do passado primitivo distante
De milhões de anos
E para chegar a este
Agora
Espécies caindo por minhas mãos
Espécies caindo por minhas mãos
arlequim meus grandes olhos castanhos e um casaco de bobo da corte, as manchas amarelas por todo o meu corpo, meus olhos bulbosos, aqui estou eu, como um conto de fadas clássico, transformado
O Arlequim no tribunal
Traje de diamante colorido
Um mapa do mundo nas minhas costas
Trapaceiro que desapareceu
E retornou
Como um mito cristão de ressurreição
Cruzado com um conto de fadas
Meus quatro dedos e braço curto estendem-se para você
Pegue sua mão
Pergunta se este é realmente o caminho
Minha perna enrolada
Dobrada sobre si mesma
Pronto para pular para longe
Para a segurança
Eu não confio em sua proteção
Um tom de Verde nos meus olhos castanhos, a pelagem de um leopardo molhado.
A mina de cobre que teria me destruído parou.
Eles invadem, invadem.
Se uma árvore cai na floresta
E não há ninguém lá para testemunhar
Ela realmente cai?
Um sapo não pode mudar suas manchas,
Mas pode cair através de suas mãos,
Para o esquecimento.
Monólogo do sapo-arlequim, de Susan Thomson, de Tybyra e o Arlequim,
traduzido para o português e dublado por Ombá Yîàrá.
Segundo a lenda, o santo italiano Dom Bosco teve um sonho em 1883 no qual descreveu uma cidade futurista que se encaixava aproximadamente na localização de Brasília. Seria a cidade de Kafka, como Bruno Zevi diz? O Ministério das Relações Exteriores flutua acima da água, enquanto o Ministério da Justiça paira acima do chão. Darwin, escrevendo em A Viagem do Beagle, carregando uma corrente de medições cronométricas ao redor do mundo, viaja. Sua sensação de prazer na floresta tropical brasileira, os sons altos dos insetos e, em seguida, o silêncio. Insetos luminosos, vida após a morte. Os anéis, em um caso, retêm suas propriedades luminosas quase 24 horas após a morte do inseto. A memória é como a gravidade. Você perde a memória, você perde a sua existência.
Monólogo, por Susan Thomson, de Tybyra e o Arlequim
Tybyra e o Arlequim (2022, 34 min) é uma docuficção de dança que escrevi e dirigi durante a residência artística do Programa Plural do British Council com o Instituto Mesa. O filme é baseado em duas histórias contadas em conjunto por meio da dança, da poesia e do documentário, com a participação do artista performático Ombá Yîàrá. Há a história de Tybyra, uma pessoa indígena de gênero não binário, que, em 1613, foi julgada e condenada pelos colonizadores franceses no Brasil e, posteriormente, atirada de um canhão ao mar. E a história do Arlequim, baseada em um processo judicial no Vale Intag, no Equador, envolvendo um sapo-arlequim-de-nariz-longo, considerado extinto e redescoberto trinta anos depois, em 2016. Seu status especial de proteção, como resultado da suposta extinção, levou-o a vencer uma etapa de um processo judicial em andamento, impedindo que um projeto de mina de cobre fosse adiante, embora o caso ainda não tenha sido encerrado¹.
O filme se baseia nos Direitos da Natureza e na lei do ecocídio, bem como aborda questões de racismo e colonialismo e seus efeitos sobre os povos indígenas e o meio ambiente. Além disso, trata da diáspora afro-brasileira e do controle histórico dos corpos em termos de trabalho, raça, gênero e sexualidade. Como parte da residência, pesquisei as soluções jurídicas, agora extensas e crescentes, para a crise climática, que buscarão criminalizar empresas, indivíduos e governos que poluem ou destroem o meio ambiente e a vida das pessoas. Essas soluções representam o inverso da situação atual, em que os ativistas climáticos são presos ou ameaçados, não apenas no Reino Unido e no Brasil, mas em todo o mundo.
Em 2022, na época da residência, uma decisão do Tribunal de Apelações de Londres permitiu que uma ação coletiva fosse movida no Reino Unido contra a gigante da mineração BHP, por mais de 200 mil indivíduos vítimas do desastre da barragem de Mariana, no Brasil, em 2015. Esse é um exemplo da lei sendo usada com eficácia. As soluções jurídicas estão crescendo exponencialmente, como é o caso, de particular interesse para mim, da tentativa de incluir o “ecocídio” como crime internacional no Estatuto de Roma, juntamente com o genocídio. Nesse contexto, foi elaborada uma definição de “ecocídio” para enquadrar atos ilegais ou arbitrários perpetrados com o conhecimento de que há uma probabilidade substancial de esses atos ocasionarem danos graves, extensos ou de longo prazo ao meio ambiente.
No filme, converso com a ativista de longa data do Greenpeace e chefe das Américas do Stop Ecocide, Maite Mompó, que se mostra esperançosa de que o crime de ecocídio seja levado a julgamento internacional. Maite acredita que governos e empresas já estão começando a se preparar para isso, como se pode ver no movimento de alguns países de adotar essas questões em suas constituições. Em 2008, o Equador foi um dos primeiros países a incluir os Direitos da Natureza em sua constituição, com base nas ideias indígenas da Pachamama (ou Mãe Terra) e da proteção da natureza. O caso judicial do sapo-arlequim-de-nariz-longo testa esses direitos. Mika Peck, professor da Universidade de Sussex e fundador do Ecoforensic CIC (com base em um modelo paraecologista de pesquisa), esteve envolvido no caso como amicus curiae, dando provas ao tribunal sobre a biodiversidade única e extensa que seria potencialmente destruída pela mina de cobre em andamento: no total, 59 espécies criticamente ameaçadas ou em perigo de extinção, que incluem pumas, macacos-aranha-de-cabeça-marrom, macacos-prego, tatus e orquídeas. No momento da redação deste texto, ainda estamos aguardando o veredicto (ver nota de rodapé 1).
O sapo-arlequim, com sua propensão a se esconder para sobreviver, parecia um personagem potencialmente estranho para mim. Além de fazer referência ao anfíbio, a palavra “Arlequim”, presente no título do filme, também se refere aos arlequins, bufões e desajustados de Picasso, bem como às pessoas LGBTQ+ e ao personagem marinheiro Arlequim, em O Coração das Trevas, de Joseph Conrad, cujas roupas de retalhos parecem evocar o mapa colonial da África. Aqui, é Diosmar Filho, outro entrevistado no filme, cartógrafo e geógrafo, que desconstrói as implicações coloniais da cartografia, utilizando a tecnologia contemporânea do Google Earth para isso. Diosmar usa mapas para descrever o impacto desproporcional do colonialismo e do racismo sobre os povos indígenas e afro-brasileiros, especialmente sobre as mulheres negras e seu acesso limitado, em muitos casos, até mesmo à água potável e ao saneamento.
A história de Tybyra, que conheci no livro Índios Gays no Brasil: Histórias Não Contadas da Colonização das Sexualidades Indígenas, de Estevão Rafael Fernandes e Barbara M. Arisi (também uma das minhas entrevistadas durante a residência), desenvolve ainda mais essa narrativa sobre o colonialismo, incluindo a exploração e o controle da sexualidade. Os ecos contemporâneos da história de Tybyra parecem especialmente ressonantes, dada a violência direcionada a pessoas trans e não binárias. Também se destacam o artista Ombá Yîàrá, que se move coreograficamente no filme, retratando a história de Tybyra; o sapo-arlequim; a Justiça com os olhos vendados; uma árvore derrubada e um beija-flor que pode potencialmente salvar o dia.
Reconectando-se com a natureza/consigo mesmo
Uma viagem espiritual
Pensando neste encontro com a natureza como um sonho
Caminhe ao longo da linha de um galho
Dance com agressividade
Agite
Vá para a periferia
Vá para o centro
Encontre algumas árvores interessantes
E alguns troncos interessantes, árvores mortas
Pise nos galhos e ouça-os
Sinta o cheiro da fumaça de uma fogueira, as diferentes madeiras queimando
Imagine que você está presenciando situações da sua vida que exigem resolução, imagine personagens importantes da sua vida aparecendo
Pensando sobre raízes
As raízes de uma árvore viva, as raízes arrancadas de uma árvore derrubada
(Ideias para a Dança, Susan Thomson, trecho de minhas notas aos diretores de fotografia
durante a criação de Tybyra e o Arlequim)
Awards/Prêmios
Official Selection New Filmmakers, New York, 2023
Impact DOCS Awards 2025
https://impactdocsawards.com/awards-of-recognition-august-2025/
– Award of Recognition: Documentary Short
– Award of Recognition: Liberation/Social Justice/Protest
Best Shorts 2025
https://bestshorts.net/award-of-recognition-september-2025/
• Award of Recognition: Experimental
• Award of Recognition: Creativity / Originality
• Award of Recognition: Nature / Environment / Wildlife
Links
IMDB
https://www.imdb.com/title/tt38119996/?ref_=nm_knf_t_3
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Susan Thomson é escritora, artista visual e cineasta, trabalhando além das fronteiras formais das artes visuais, do cinema e da literatura. Susan dirigiu recentemente The Swimming Diaries (2024), financiado pelo prêmio Reel Art Film do Arts Council of Ireland. Trata-se de um longa-metragem experimental de docuficção baseado em seu livro de memórias/artista, que foi exibido anteriormente na X Initiative, em Nova York, e na Tate Modern, em Londres, e foi exibido e vendido por muitos anos no Artbook@PS1 MoMA, em Nova York. O filme The Swimming Diaries teve sua estreia mundial no Festival Internacional de Cinema de Dublin em fevereiro de 2024. Ganhou diversos prêmios e foi destaque na série de exibições ao ar livre Living Canvas, do Museu Irlandês de Arte Moderna (IMMA). Susan criou o filme para o show de Derek Jarman Modern Nature; The Prospect Cottage Diaries, no Barbican Centre, Londres, em abril de 2025, dirigido por James Dacre, com a participação de Tilda Swinton, Jessie Buckley, Donna McKevitt, Simon Fischer Turner, Nils Wanderer, Ollie Alexander e Will Young.
Ela também continua dirigindo uma série de filmes premiados sobre questões LGBTQ+ pós-coloniais britânicas, como a série Ghost Empire, financiada pelo Arts Council of Ireland Visual Arts Project Award. Um novo filme da série, Ghost Empire § Maurice-Chagos (2025), foi lançado no Leeds Queer Film Festival em março de 2025. Os filmes Ghost Empire são representados pela agente de vendas Utopia Films e estão disponíveis na plataforma educacional líder ProQuest. Em 2022, Susan participou como artista da residência do Programa Plural do British Council com o Instituto Mesa, escrevendo e dirigindo o filme Tybyra e o Arlequim, que estreou na Cinemateca do Museu de Arte Moderna (MAM), no Rio de Janeiro, em dezembro de 2022. O filme foi selecionado para o festival de cinema experimental New Filmmakers New York, em 2023. Para mais informações, acesse: https://www.susanthomson.co.uk/p/about.html
¹ Em 2023, um Tribunal Constitucional Especializado decidiu pela violação dos Direitos da Natureza, revogando a licença ambiental e efetivamente paralisando o projeto de megamineração. No entanto, relatos sugerem que o governo equatoriano pode conceder licenças a outras empresas, aumentando as preocupações. Uma questão crítica permanece: o Estado precisa impor uma proibição total da mineração na área. Para mais informações, consulte Carlos Andres Gallegos- Riofrío et al. Sapos, coalizões e mineração: insights transformadores para a saúde planetária e o direito do sistema terrestre a partir da luta do Equador para impor os direitos da Natureza, Earth System Governance, v. 24, abril de 2025. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2589811625000199. Acesso em: jul. 2025.












