{"id":820,"date":"2021-03-30T10:26:22","date_gmt":"2021-03-30T13:26:22","guid":{"rendered":"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/?post_type=portfolio&#038;p=820"},"modified":"2021-04-12T13:52:55","modified_gmt":"2021-04-12T16:52:55","slug":"madalena-vaz-pinto","status":"publish","type":"portfolio","link":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/portfolio\/madalena-vaz-pinto\/","title":{"rendered":"Um texto, tr\u00eas tempos"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image alignnone size-full\"><a href=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Capa_Mada.jpg\"><img loading=\"lazy\" width=\"1200\" height=\"750\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Capa_Mada.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-821\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Capa_Mada.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Capa_Mada-300x188.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Capa_Mada-1024x640.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Capa_Mada-768x480.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><\/a><figcaption>Cintya Ferreira, Gabriel Vieira e Mariana de Lima (montagem) com Dudu, Gaby, Isadora, Karina, Kaylane, Kaylanne Rodrigues, Larissa, Maria Clara Carrielo, Maria Clara (Zameii), Renata Targino, Raquel Danielli Mota e Thais. <em>um breve invent\u00e1rio de pequenos deslizes<\/em>, 2020. Frame.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h2>Um texto, tr\u00eas tempos<\/h2>\n\n\n\n<h4>Madalena Vaz Pinto<\/h4>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>penso que o que o professor transmite, ent\u00e3o, <em>n\u00e3o \u00e9 um saber<\/em>, mas um<em> aprender<\/em>, um <em>criar<\/em>. \u00c9 como aprendiz, isto \u00e9, como criador (e n\u00e3o como s\u00e1bio ou mestre), que o professor transmite enquanto pensador.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">Suely Rolnik<sup>1<\/sup><\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>enquanto experi\u00eancia, que nada tem de pessoal, nem de impessoal, a literatura ignora os limites estritos da unicidade do sujeito e d\u00e1 \u00e0 experi\u00eancia a natureza de uma multiplicidade incontorn\u00e1vel, em devir.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">Silvina Rodrigues Lopes<sup>2<\/sup><\/p>\n\n\n\n<h3>Cena (im) prov\u00e1vel 1<\/h3>\n\n\n\n<p>sentada, muito circunspecta, olhando o mapa das dificuldades. os dados, os \u00edndices, as estat\u00edsticas, as previs\u00f5es. analisar, perscrutar, comparar, para ent\u00e3o concluir pelo d\u00e9ficit: n\u00e3o d\u00e1, n\u00e3o tem a menor possibilidade, n\u00e3o tem como. e vai para casa. e repete muitas vezes esse caminho. analisar, perscrutar, comparar: n\u00e3o d\u00e1, n\u00e3o tem a menor possibilidade, n\u00e3o tem como. e uma moinha interna, uma inquietude, um desassossego. porque tem vida l\u00e1 fora. isso n\u00e3o d\u00e1 para negar. tem vida naqueles seres que habitam a sala, que falam com voc\u00ea, inquirem voc\u00ea com o olhar. ent\u00e3o? o que vamos fazer? \u00e9 muito complicado. tem os m\u00e9todos, as normas, o passo-a-passo do que deve ser feito, os resultados. mas n\u00e3o funciona. n\u00e3o resulta. eles n\u00e3o gostam, n\u00e3o querem, n\u00e3o se sentem afetados. o mesmo trajeto v\u00e1rias vezes. e uma moinha, uma inquietude, um desassossego. e se? porque tem vida l\u00e1 fora. isso n\u00e3o d\u00e1 para negar. como um come\u00e7o, uma luz, um ar que passa pela fresta. e se e se? carente de dire\u00e7\u00e3o, de pares, onde ir? onde buscar a inspira\u00e7\u00e3o, a fala que apoia. \u00e9. uma mudan\u00e7a tem de haver. uma mudan\u00e7a de qu\u00ea? mas como? n\u00e3o sou eu que digo, s\u00e3o os n\u00fameros. s\u00e3o as estat\u00edsticas, n\u00e3o sou eu. n\u00e3o sou eu, isto que fique bem claro,&nbsp; e olha o mapa, e v\u00ea os gr\u00e1ficos, tudo parado, nada mexe. e l\u00ea as not\u00edcias. ensino p\u00fablico no Brasil, trag\u00e9dia anunciada e repetida. e come\u00e7a a moinha, o desassossego. e se? hoje vou fazer diferente. como assim? deixa de ser doida, destemperada. vou. hoje vou fazer, hoje vou inventar, vou come\u00e7ar pelo meio mesmo.<\/p>\n\n\n\n<h3>Marca ativa <\/h3>\n\n\n\n<p>no que pode fazer sentido evocar uma mem\u00f3ria pessoal, trago como marca no corpo e no pensamento a lembran\u00e7a de uma sensa\u00e7\u00e3o de impedimento, um longo e forte n\u00e3o. nasci em Lisboa e vivi at\u00e9 aos 14 anos durante a ditadura derrubada em abril de 1974. no caso da minha fam\u00edlia, dos meus amigos e conhecidos, a ditadura n\u00e3o se manifestou por meio de repress\u00f5es pol\u00edticas e confinamentos, mas por um sil\u00eancio fundo e insidioso que se manifestava na sensa\u00e7\u00e3o de impossibilidade e aus\u00eancia de horizonte. os destinos estavam desde cedo marcados, n\u00e3o havia o direito de escolher, de mudar, de querer. \u00e9 viva a lembran\u00e7a de um di\u00e1logo repetidamente escutado quando \u00e9ramos crian\u00e7as: eu quero! tu queres? mas tu n\u00e3o tens querer! al\u00e9m das fam\u00edlias, a igreja e a escola eram os outros pilares essenciais na manuten\u00e7\u00e3o do controle e na propaga\u00e7\u00e3o de uma mentalidade fechada e culpabilizadora. a escola religiosa, ent\u00e3o, nem se fala. quem ousasse ser diferente pagava um pre\u00e7o alto em culpa e solid\u00e3o. esse estado de coisas matou, adoeceu e deprimiu pessoas pr\u00f3ximas de maneira irrevog\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<h3>Leituras, reverbera\u00e7\u00f5es<\/h3>\n\n\n\n<p>ser professora \u00e9 indissoci\u00e1vel dessa mem\u00f3ria. sei como a sala de aula pode ser um espa\u00e7o fechado e repressor. e sei tamb\u00e9m como pode ser o oposto disso, um espa\u00e7o de escuta e abertura que pode gerar confian\u00e7a e mudar vidas. desde as primeiras aulas na universidade como professora de gradua\u00e7\u00e3o, at\u00e9 ao momento em que passei a ser professora do mestrado, persigo, em minha pr\u00e1tica, essa possibilidade. o mestrado profissional em letras tem uma caracter\u00edstica importante a destacar: os alunos e alunas j\u00e1 s\u00e3o professores.as. professores.as da escola p\u00fablica. isso significa que trazem consigo a experi\u00eancia viva de uma realidade a ser reconhecida e acionada durante o curso. a pr\u00f3pria configura\u00e7\u00e3o da disserta\u00e7\u00e3o mostra isso: simultaneamente pesquisa em torno de um problema identificado pelo.a professor.a, e interven\u00e7\u00e3o via um conjunto de atividades na tentativa de transform\u00e1-lo. na disciplina \u201cleituras do texto liter\u00e1rio\u201d, que leciono, os primeiros encontros come\u00e7am pelo confronto com a instabilidade que o pr\u00f3prio termo \u2018literatura\u2019 instaura. come\u00e7am por lidar com a pergunta \u201co que \u00e9 literatura?\u201d, sem pretens\u00f5es de respond\u00ea-la conceitualmente, mas fazendo dela uma pr\u00e1tica de leitura de textos que mostram, em sua pot\u00eancia criativa, a desimport\u00e2ncia de definir a \u2018natureza\u2019 do liter\u00e1rio. ensinar literatura, ou melhor, praticar a leitura liter\u00e1ria, para ficar numa express\u00e3o menos eloquente e mais adequada, n\u00e3o \u00e9 aplicar normas e regras sobre um texto, nem determinar as maneiras como deve ser lido. \u00e9 antes assegurar protocolos de leitura, defender modos de ler que, n\u00e3o sendo da ordem do pragm\u00e1tico e do referencial, reverberam no real pelo conjunto de afetos que produzem, ao desautomatizar percep\u00e7\u00f5es e abrir para a possibilidade de outras formas de vida. a observa\u00e7\u00e3o recorrente trazida pelos.as professores.as de que os.as alunos.as n\u00e3o gostam de ler, vai-se modificando \u00e0 medida em que se percebe que os.as alunos.as n\u00e3o gostam porque os.as alunos.as n\u00e3o leem. aos poucos, essa percep\u00e7\u00e3o vai sendo modificada e transformada a partir de um trabalho de escuta e leitura de textos. isto n\u00e3o \u00e9 algo que se possa ensinar, tem de ser vivido como experi\u00eancia, experi\u00eancia essa que muitos.as professores.as n\u00e3o viveram. para a grande maioria deles.as, o ensino de literatura foi pretexto para aprender a biografia dos.das autores.as, decorar caracter\u00edsticas, datas e per\u00edodos liter\u00e1rios. os.as alunos.as n\u00e3o tinham voz, n\u00e3o lhes era permitido falar, expor ideias e perplexidades, afetos.&nbsp; o que tinham gostado ou n\u00e3o e porqu\u00ea. por isso, \u00e9 sempre preciso come\u00e7ar por a\u00ed. construir \u201ccenas de leitura\u201d, escutar seus efeitos e reverbera\u00e7\u00f5es. se abrir para a escuta dos.as alunos.as, n\u00e3o temer o&nbsp; potencial de dissenso que a leitura liter\u00e1ria pode gerar e muitas vezes gera. perceber a\u00ed a abertura para o respeito \u00e0 diferen\u00e7a. porque ler pode come\u00e7ar por ser um ato solit\u00e1rio, mas s\u00f3 faz sentido se compartilhado<strong>. <\/strong><\/p>\n\n\n\n<h3>Cena (im)prov\u00e1vel 2 <\/h3>\n\n\n\n<p>ei, garotas, garotos, tudo sentado em roda. em roda professora? (eu sabia que n\u00e3o ia dar certo. para de ser doida.) sim, em roda. olho no olho. aqui. senta. vamos ler um texto. ai, professora, n\u00e3o tem coisa melhor? odeio ler. ler para qu\u00ea? hoje vamos ler um texto. eu leio, voc\u00eas leem. n\u00f3s vamos conversar sobre ele. conversar, professora? ou responder a perguntas? conversar. desconforto, quase sil\u00eancio. (para de ser doida, n\u00e3o vem com essa de mudar, mudar o qu\u00ea? olha esse caos.) e come\u00e7ou. o texto lido. em seguida relido por todos. agora quero saber o que voc\u00eas acharam. o que voc\u00eas sentiram. sil\u00eancio. pode falar professora? pode falar. estou dizendo. e come\u00e7ou. fala aqui, curta, curtinha. resposta ali, e outra adiante, e mais. e falas diferentes. que n\u00e3o combinam. n\u00e3o concordam. n\u00e3o v\u00e3o pelo mesmo caminho. e vozes, e gritos, e risos, mas sentados na roda, ningu\u00e9m levantou. n\u00e3o precisou proibir nada. aula diferente. nem organizou, nem seguiu as regras. manter a ordem, organizar, preparar. primeiro, isso, depois isto aqui. lembra como era? tudo calado. mas triste. ningu\u00e9m falava. ningu\u00e9m conversava sobre o texto. n\u00e3o queriam saber o que voc\u00ea pensava. as mem\u00f3rias de como foi com voc\u00ea. as marcas. o que fazer com elas?&nbsp; ent\u00e3o? e se? porque tem vida l\u00e1 fora. isso n\u00e3o d\u00e1 para negar. risos, correrias, olhares expectantes. eu estou aqui. n\u00f3s estamos aqui. e se?&nbsp; h\u00e1 vida l\u00e1 fora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">***<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Madalena Vaz Pinto<\/em><\/strong> <br>\u00c9 portuguesa e mora no Brasil. Estudou Letras na PUC-Rio onde se doutorou com uma tese sobre os modernismos portugu\u00eas e brasileiro. \u00c9 professora adjunta da Uerj na FFP-Faculdade de Forma\u00e7\u00e3o de Professores de S. Gon\u00e7alo e dos Mestrados Acad\u00eamico e Profissional em Letras da mesma faculdade. Sua pesquisa concentra-se na literatura moderna e contempor\u00e2nea e na forma\u00e7\u00e3o de professores-leitores a partir de um trabalho conjunto de constru\u00e7\u00e3o de cenas de leitura e inven\u00e7\u00e3o de outros modos de ler. \u00c9 autora de textos publicados em livros revistas da \u00e1rea. Organizou o livro <em>Gon\u00e7alo M. Tavares: ensaios, aproxima\u00e7\u00f5es, entrevista<\/em> publicado pela editora Oficina Raquel.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\" \/>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><sup>1<\/sup> Suely Rolnik. Pensamento, corpo e devir. Uma perspectiva \u00e9tico\/est\u00e9tico\/pol\u00edtica no trabalho acad\u00eamico. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.pucsp.br\/nucleodesubjetividade\/Textos\/SUELY\/pensamentocorpodevir.pdf\">https:\/\/www.pucsp.br\/nucleodesubjetividade\/Textos\/SUELY\/pensamentocorpodevir.pdf<\/a> [Acesso 19.10.2015]<\/p>\n\n\n\n<p><sup>2<\/sup> Silvina Rodrigues Lopes. A literatura como experi\u00eancia. In: <em>Literatura, defesa do atrito<\/em>. Lisboa: Edi\u00e7\u00f5es Vendaval, 2003, p. 31.<a name=\"_edn1\" href=\"#_ednref1\"><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um texto, tr\u00eas tempos Madalena Vaz Pinto penso que o que o professor transmite, ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 um saber, mas um aprender, um criar. \u00c9 como aprendiz, isto \u00e9, como [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","meta":[],"portfolio-tags":[],"portfolio-category":[28],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio\/820"}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-json\/wp\/v2\/types\/portfolio"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=820"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=820"}],"wp:term":[{"taxonomy":"portfolio-tags","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio-tags?post=820"},{"taxonomy":"portfolio-category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio-category?post=820"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}