{"id":757,"date":"2021-03-30T10:37:45","date_gmt":"2021-03-30T13:37:45","guid":{"rendered":"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/?post_type=portfolio&#038;p=757"},"modified":"2021-05-16T23:33:33","modified_gmt":"2021-05-17T02:33:33","slug":"jeff-medeiros","status":"publish","type":"portfolio","link":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/portfolio\/jeff-medeiros\/","title":{"rendered":"Lugar de pot\u00eancia de vida: Quem nos desvelar\u00e1, se n\u00e3o n\u00f3s?"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image alignnone size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"1200\" height=\"795\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/04\/jeff-2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3382\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/04\/jeff-2.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/04\/jeff-2-300x199.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/04\/jeff-2-1024x678.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/04\/jeff-2-768x509.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><figcaption>Jeff Medeiros.<em> Sustento<\/em>, 2020. Colher de pedreiro.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h2>Lugar de pot\u00eancia de vida: Quem nos desvelar\u00e1, se n\u00e3o n\u00f3s?<\/h2>\n\n\n\n<h4>Jefferson Medeiros<\/h4>\n\n\n\n<p>\u201cEu sou de S\u00e3o Gon\u00e7alo\u201d: essa \u00e9 a nota de abertura do meu Instagram, plataforma virtual que uso como galeria expositiva de trabalhos de arte. Em algum momento senti necessidade de fazer esse destaque sobre mim. Meu pai sempre se incomodou muito com pessoas que escondiam ser de S\u00e3o Gon\u00e7alo, esbravejava frequentemente na frente da televis\u00e3o quando artista X ou Y negava o nosso lugar. Na inf\u00e2ncia, para mim era imposs\u00edvel compreender o motivo para algu\u00e9m fazer isso. Ora, aqui eu passava os dias brincando: andando de bicicleta; trepado nas \u00e1rvores comendo manga; brincando de pirata, saltando pelos aluvi\u00f5es formados ap\u00f3s a chuva no val\u00e3o ao lado da minha casa; fazendo cafifa, fazendo bal\u00e3o; puxando folha de cana, amarrada com nylon pelo meio da rua assustando passantes como se fosse cobra&#8230; Enfim, aqui eu vivia, aqui eu amava, imposs\u00edvel n\u00e3o gostar desse lugar, ent\u00e3o, eu cresci amando minha cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00faltimo censo, feito em 2010, revelou que S\u00e3o Gon\u00e7alo possui aproximadamente 1.085.000 pessoas, ent\u00e3o, mesmo sem poder citar todos os nomes, gosto de dizer que S\u00e3o Gon\u00e7alo possui uma m\u00e9dia de 1.085.000 aspectos positivos. \u00c9 a partir desse lugar geogr\u00e1fico e social perif\u00e9rico que passo a enxergar a vida. Foi absorvendo os signos daqui que aprendi a ler o mundo e entender a vida como o manual da vida. Aprendi a extrair a teoria da pr\u00e1tica cotidiana de exist\u00eancia. Teoria essa que constitui algo como uma episteme de um devir gon\u00e7alense. \u00c9 um devir perif\u00e9rico com especificidades daqui.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignnone size-large\"><a href=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Figura-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" width=\"679\" height=\"1024\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Figura-2-679x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-760\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Figura-2-679x1024.jpg 679w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Figura-2-199x300.jpg 199w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Figura-2-768x1159.jpg 768w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Figura-2-1018x1536.jpg 1018w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Figura-2.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 679px) 100vw, 679px\" \/><\/a><figcaption>Jeff Medeiros. <em>Muro, 2020<\/em>. Concreto, vidro e metal.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignnone size-full\"><a href=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Figura-3.jpg\"><img loading=\"lazy\" width=\"1200\" height=\"795\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Figura-3.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-762\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Figura-3.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Figura-3-300x199.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Figura-3-1024x678.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Figura-3-768x509.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><\/a><figcaption>Jeff Medeiros. <em>S\u00e9rie Cortes<\/em>, 2020. Fotografia, muro da casa da minha v\u00f3 onde mora minha m\u00e3e.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Com tantos habitantes, S\u00e3o Gon\u00e7alo carece profundamente de pol\u00edticas p\u00fablicas eficientes que viabilizem o m\u00ednimo bem estar \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. De fato, compreendo que n\u00e3o h\u00e1 que se orgulhar da prec\u00e1ria infraestrutura gon\u00e7alense, seja de transporte, saneamento b\u00e1sico, seguran\u00e7a ou educa\u00e7\u00e3o. Apesar do alto \u00edndice demogr\u00e1fico, n\u00e3o \u00e9 uma cidade industrializada, n\u00e3o conta com estaleiros e portos funcionando em plena atividade, mesmo sendo \u00e0s margens da Ba\u00eda de Guanabara. Assim, aqui oferecemos muita m\u00e3o de obra para outros lugares. S\u00e3o mulheres e homens, resistentes como um muro, que levantam cedo diariamente para acordar e construir o mundo nas cidades vizinhas.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-vimeo wp-block-embed-vimeo wp-embed-aspect-4-3 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"V&amp;iacute;deo 1\" src=\"https:\/\/player.vimeo.com\/video\/524050069?dnt=1&amp;app_id=122963\" width=\"500\" height=\"375\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; fullscreen; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><figcaption>Jeff Medeiros, <em>Escombros<\/em>, 2020.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Tenho erguido o mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Me confundo com trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p>Pelo sustento,<\/p>\n\n\n\n<p>Fui condenado a ser ferramenta.<\/p>\n\n\n\n<p>Sou meu p\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu sou a constru\u00e7\u00e3o,<\/p>\n\n\n\n<p>Mas recebo escombros em data marcada.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 disso que me alimento,<\/p>\n\n\n\n<p>Do meu corpo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m me d\u00e1 nada.<\/p>\n\n\n\n<p>No texto \u201cAiesthesis Decolonial\u201d, Walter Mignolo fala sobre uma est\u00e9tica decolonial na Europa do Leste.<sup>1<\/sup> Para tanto, apresenta o trabalho de uma artista chamada Tanja Ostoj\u0107 &nbsp;nascida em Belgrado, ex-Iugosl\u00e1via. Imagino que pode parecer muito estranho inserir uma artista dos Balc\u00e3s aqui nesse contexto. Bom, o trabalho de Ostoj\u0107 como feminista, s\u00e9rvia, denuncia que as mulheres da Europa de servi\u00e7o (os pa\u00edses ex-comunistas) s\u00e3o recebidas pela Uni\u00e3o Europeia como mulheres de servi\u00e7o. N\u00e3o vou explorar a est\u00e9tica visual do trabalho da artista, tampouco o recorte de g\u00eanero. \u00c9 especificamente o conceito \u201clugares de servicio\u201d<sup>2<\/sup> que me interessa aqui.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignnone size-large\"><a href=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Figura-4.jpg\"><img loading=\"lazy\" width=\"567\" height=\"1024\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Figura-4-567x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-764\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Figura-4-567x1024.jpg 567w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Figura-4-166x300.jpg 166w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Figura-4-768x1388.jpg 768w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Figura-4-850x1536.jpg 850w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Figura-4-1133x2048.jpg 1133w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Figura-4.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 567px) 100vw, 567px\" \/><\/a><figcaption>Jeff Medeiros. <em>Ferramenta<\/em>, 2020. Metal, maneira e concreto.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Se as pessoas s\u00e3o vistas como pessoas de servi\u00e7o, seus corpos s\u00e3o como ferramentas a serem utilizadas para o trabalho. A perspectiva que proponho \u00e9 pensar a estrutura desse lugar social perif\u00e9rico do qual me enuncio. N\u00e3o h\u00e1 qualquer inten\u00e7\u00e3o em pensar o trabalho como algo negativo, pelo contr\u00e1rio, o trabalho \u00e9 um ato de amor e o amor n\u00e3o \u00e9 senten\u00e7a, nem fardo que se carrega por nascer aqui, mas \u00e9 p\u00e3o que se divide por quantas bocas tiverem fome. O que condeno \u00e9 a explora\u00e7\u00e3o e o entendimento de que determinados lugares s\u00f3 possuem for\u00e7a de trabalho a ser subjugada, tendo suas epistemologias e suas produ\u00e7\u00f5es de vida negadas e suas produ\u00e7\u00f5es de vida negadas, o que colabora, no fundo, com um imagin\u00e1rio equivocado de certa in\u00e9rcia intelectual da periferia. No entanto, essa nega\u00e7\u00e3o n\u00e3o consegue impedir a produ\u00e7\u00e3o de vida em S\u00e3o Gon\u00e7alo; ainda que a n\u00e9voa de apagamento insista em nos esconder, nosso canto \u00e9 o sopro que dispersa a cortina de fuma\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Chamo de canto os mais variados meios que as pessoas usam para proferir seus discursos de exist\u00eancia. Falo principalmente sobre os meios que s\u00e3o arte e educa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o por entender essas formas de discurso como melhores que outras, mas por estar empiricamente inserido nesse universo. Sou professor de Hist\u00f3ria (leciono para todas as turmas de n\u00edvel fundamental e m\u00e9dio), sou m\u00fasico (adoro poder dizer que toco forr\u00f3 na noite gon\u00e7alense com meu trio chamado Seu Ivo), tamb\u00e9m sou artista visual e apresento uma parte da minha produ\u00e7\u00e3o aqui, neste artigo. Logo, me sinto muito mais seguro em explorar esse lugar.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignnone size-full\"><a href=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Figura-5.jpg\"><img loading=\"lazy\" width=\"1200\" height=\"795\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Figura-5.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-766\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Figura-5.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Figura-5-300x199.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Figura-5-1024x678.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Figura-5-768x509.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><\/a><figcaption>Trio de Forr\u00f3 Seu Ivo na Praia das Pedrinhas em S\u00e3o Gon\u00e7alo \u2013 2019. Da esquerda para direita \u2013 Romeu Silva, Ivo Mendon\u00e7a e Jefferson Medeiros.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignnone size-full\"><a href=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Figura-6.jpg\"><img loading=\"lazy\" width=\"990\" height=\"720\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Figura-6.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-768\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Figura-6.jpg 990w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Figura-6-300x218.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Figura-6-768x559.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 990px) 100vw, 990px\" \/><\/a><figcaption>Trio de Forr\u00f3 Seu Ivo no evento Ocupa Sound em S\u00e3o Gon\u00e7alo.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Certa vez estava acampando em Lumiar-RJ, no Camping do Arthur. Eu estava com meu pandeiro, o que despertou a aten\u00e7\u00e3o de Arthur Trindade Gonzaga Filho, o \u201cSeu Arthur\u201d. Ele me perguntou de onde eu era, quando falei, ele disse conhecer bem S\u00e3o Gon\u00e7alo, disse ter andado tudo isso aqui a cavalo. Para completar, falou algo que jamais esqueci: ele disse que S\u00e3o Gon\u00e7alo era o munic\u00edpio com mais m\u00fasicos por metro quadrado do Brasil. Isso foi t\u00e3o satisfat\u00f3rio para mim, que de imediato guardei como verdade. Talvez nem seja uma verdade estatisticamente comprovada e com reconhecimento cient\u00edfico, mas eu sei bem como essa refer\u00eancia positiva me fez bem, moral e psicologicamente. Seu Arthur criava cabras em seu s\u00edtio, produzia queijo caprino e, ao menos at\u00e9 2014, possu\u00eda o recorde de barba brasileiro, com 93cm. Ora, um rosto que carrega as marcas do tempo, um olhar gentil e longas barbas brancas merece ser ouvido com respeito.<\/p>\n\n\n\n<p>O fato \u00e9 que outros entendimentos generalizantes sobre S\u00e3o Gon\u00e7alo, principalmente ressaltando aspectos de viol\u00eancia, s\u00e3o reiteradamente reproduzidos como verdade. De fato, sofremos com a viol\u00eancia urbana produzida pela desigualdade social que assola as periferias do mundo. Ent\u00e3o, quando ouvi essa afirmativa sobre meu lugar, me envaideci. Pensei: n\u00f3s, cantadoras e cantadores, batucadoras e batucadores, tocadoras e tocadores estamos sendo vistos. Apesar de uma receita irris\u00f3ria para a cultura, impossibilitando investimento consistente na \u00e1rea, aqui se produz com garra, coragem e de forma independente diversos eventos culturais. Tais como Ocupasound e Efeito Colateral, que s\u00e3o eventos organizados por pessoas movidas pela esperan\u00e7a e que promovem debates pol\u00edticos e manifesta\u00e7\u00e3o art\u00edstica de diversos segmentos. Al\u00e9m das diversas Rodas Culturais em toda cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Conhe\u00e7o tantas e tantos artistas espetaculares daqui, que n\u00e3o conseguiria enumerar sem cometer injusti\u00e7as de n\u00e3o citar algu\u00e9m. Dividimos nosso fazer art\u00edstico com outras modalidades de trabalho, poeta pedreiro, artista pl\u00e1stico inspetor escolar, cantora vendedora, violonista t\u00e9cnico de eletr\u00f4nica, enfim, um lugar de vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, falo dos que tamb\u00e9m sou, dos escondidos que se fazem vistos, n\u00e3o por sa\u00edrem na luz, mas por serem essencialmente a luz, por serem o sol de sua pr\u00f3pria exist\u00eancia e da exist\u00eancia de seus pares.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando digo que falo dos que tamb\u00e9m sou, \u00e9 por fazer parte desse lugar social que se enuncia autonomamente, negando interpreta\u00e7\u00f5es exteriores a n\u00f3s sobre nosso lugar. Esse processo de produzir um discurso aut\u00f4nomo sobre si \u00e9 o que compreendo como uma emancipa\u00e7\u00e3o ontol\u00f3gica e epist\u00eamica, que caminha na dire\u00e7\u00e3o da decoloniza\u00e7\u00e3o do ser. Compreendendo a colonialidade como a estrutura de poder que permanece mesmo ap\u00f3s coloniza\u00e7\u00e3o. A decolonialidade, por sua vez, seria o esfor\u00e7o de superar essa ordem de dom\u00ednio remanescente do per\u00edodo colonial. Todavia, n\u00e3o se trata de uma teoria, \u00e9 antes uma esfor\u00e7o constante de n\u00e3o se deixar levar pela ret\u00f3rica da estrutura de dom\u00ednio.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignnone size-full\"><a href=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Figura-7.jpg\"><img loading=\"lazy\" width=\"1200\" height=\"819\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Figura-7.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-770\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Figura-7.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Figura-7-300x205.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Figura-7-1024x699.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Figura-7-768x524.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><\/a><figcaption>Jeff Medeiros. <em>Sapata<\/em>, 2020. Concreto, metal e bota.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-vimeo wp-block-embed-vimeo wp-embed-aspect-4-3 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"v&amp;iacute;deo 2\" src=\"https:\/\/player.vimeo.com\/video\/524050116?dnt=1&amp;app_id=122963\" width=\"500\" height=\"375\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; fullscreen; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><figcaption>Jeff Medeiros. <em>Eh, Pai<\/em>&#8230; 2020.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Pois aqui estou, produzindo com arte uma enuncia\u00e7\u00e3o desse meu lugar, negando o v\u00e9u que teima em querer encobrir a vida do lado de c\u00e1. Pois quem nos desvelar\u00e1, se n\u00e3o n\u00f3s? Assim, n\u00e3o me interessa nesse caso ser visto isoladamente, me interessa ser visto como parte fruto de um lugar social que deve ser visto, me interessa que o meu discurso seja o entrela\u00e7amento das experi\u00eancias coletivas.<\/p>\n\n\n\n<p>Reitero de que n\u00e3o h\u00e1 nada de errado com o trabalho, reitero, me sinto orgulhoso em saber que as pessoas daqui erguem casas e pavimentam ruas, que s\u00e3o as veias da cidade, sinto orgulho de que nos sustentamos apesar dos pesares. Mas anuncio que ter orgulho em trabalhar n\u00e3o \u00e9 se resignar perante a explora\u00e7\u00e3o, ou aceitar que nosso lugar seja submetido \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de quartinho, onde as ferramentas s\u00e3o depositadas ap\u00f3s as obras.<\/p>\n\n\n\n<p>Atravessar t\u00e9cnicas e instrumentos da constru\u00e7\u00e3o civil com a arte, e a arte pela constru\u00e7\u00e3o civil, \u00e9 como utilizar de um argumento para enunciar duas formas distintas de fazer a manuten\u00e7\u00e3o da vida, a arte e a constru\u00e7\u00e3o. Se, por um lado, trata-se de an\u00fancio da exist\u00eancia, por outro, \u00e9 reiterada den\u00fancia das condi\u00e7\u00f5es de vida experimentadas. Sei que sou movido pela utopia, \u00e9 esse o combust\u00edvel que quero compartilhar. Criar esse entrela\u00e7amento entre as artes e os of\u00edcios \u00e9 como dizer: ei, eu te vejo e sinto a sua exist\u00eancia como minha. Assim, sendo o discurso de alegria ou dor, ser\u00e1 coletivo.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignnone size-full\"><a href=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Figura-8.jpg\"><img loading=\"lazy\" width=\"1200\" height=\"839\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Figura-8.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-772\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Figura-8.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Figura-8-300x210.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Figura-8-1024x716.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Figura-8-768x537.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><\/a><figcaption>Jeff Medeiros. <em>Obra Embargada<\/em>, 2020. Tijolo.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>S\u00e3o Gon\u00e7alo n\u00e3o \u00e9 igual a nenhum lugar do mundo, mas sei que tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 diferente de outras regi\u00f5es perif\u00e9ricas ricas de vitalidade. \u00c9 essa realidade que aproxima socialmente os que est\u00e3o geograficamente distantes, que constitui o lugar social. Desses lugares, inevitavelmente, experimentamos a vida de maneira distinta. Daqui enxergamos com mais nitidez as falhas que v\u00e3o dos alicerces ao telhado dessa enorme constru\u00e7\u00e3o que \u00e9 o Brasil. Sentimos os transtornos de viver em c\u00f4modos constru\u00eddos clandestinamente em uma obra embargada. As mazelas sociais, as feridas da colonialidade, que, embora nunca tenham sido ocultadas, desvelam suas infec\u00e7\u00f5es jamais tratadas cotidianamente. \u00c9 poss\u00edvel perceber que as caracter\u00edsticas de S\u00e3o Gon\u00e7alo n\u00e3o s\u00e3o uma especificidade somente daqui, mas uma heran\u00e7a colonial universal que rejeitamos diariamente, produzindo vida, mesmo espreitados pela morte. No livro <em>Arquivo Pandemia<\/em> escrevi que:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p><em>Obra Embargada<\/em> (2020), \u00e9 uma an\u00e1lise do que foi constru\u00eddo de forma abrupta, sem consentimento, atrav\u00e9s do genoc\u00eddio, do estupro, da escravid\u00e3o, da tortura. Ainda assim, essa constru\u00e7\u00e3o seguiu e segue negando a repara\u00e7\u00e3o ao terreno. Portanto, essa meia-\u00e1gua segue inacabada, exposta ao tempo. Se tornando cada vez mais vis\u00edvel a fragilidade dessas paredes sem embolso, esfarelando a cada chuva, que s\u00e3o na verdade l\u00e1grimas da mem\u00f3ria de um passado em aberto.<sup>3<\/sup><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignnone size-large\"><a href=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Figura-9.jpg\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"906\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Figura-9-1024x906.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-776\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Figura-9-1024x906.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Figura-9-300x266.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Figura-9-768x680.jpg 768w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Figura-9.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><figcaption>Jeff Medeiros,<em> Reforma<\/em>, 2020. Balde e concreto.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignnone size-large\"><a href=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Figura-10.jpg\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"1024\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Figura-10-1024x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-774\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Figura-10-1024x1024.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Figura-10-300x300.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Figura-10-150x150.jpg 150w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Figura-10-768x768.jpg 768w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Figura-10.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><figcaption>Jeff Medeiros, <em>Manh\u00e3es<\/em>, 2020.&nbsp; Gesso, argamassa, vidro e caf\u00e9.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Aqui n\u00f3s seguimos, \u00e9 sempre um caf\u00e9, uma prece e segue caminho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">***<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Jeff Medeiros<\/em><\/strong> <br>Mestre em Estudos Contempor\u00e2neos da Arte pela UFF, graduado em Hist\u00f3ria pela UERJ-FFP, especializado em Ensino de Hist\u00f3rias e Culturas Africanas e Afro-brasileiras pelo IFRJ, artista visual, m\u00fasico percussionista e professor de Hist\u00f3ria, Sociologia e Filosofia.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\" \/>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><sup>1<\/sup> MIGNOLO, Walter. Aiesthesis Decolonial, Art\u00edculo de Reflexi\u00f3n, <em>Calle14<\/em>, Revista de inverstigaci\u00f3n en el campo del arte&nbsp; volumen 4, numero 4, janeiro &nbsp;\u2013 junho, 2010, p 10-25<\/p>\n\n\n\n<p><sup>2<\/sup> Ibid. p. 23<\/p>\n\n\n\n<p><sup>3<\/sup> Medeiros, Jefferson, \u201cObra Embargada\u201d in <em>Arquivo Pandemia<\/em> vol 2, org. Casa Nova Maia, Andr\u00e9ia e Casa Nova, Vera. Belo Horizonte, Editora UFMG, 2020, p,156<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lugar de pot\u00eancia de vida: Quem nos desvelar\u00e1, se n\u00e3o n\u00f3s? 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