{"id":2443,"date":"2021-03-18T17:25:02","date_gmt":"2021-03-18T20:25:02","guid":{"rendered":"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/?post_type=portfolio&#038;p=2443"},"modified":"2021-04-22T16:42:13","modified_gmt":"2021-04-22T19:42:13","slug":"sandrine-teixido","status":"publish","type":"portfolio","link":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/portfolio\/sandrine-teixido\/","title":{"rendered":"Navegando uma paisagem assombrada: Um conto como ferramenta no Morro do Bumba"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"1109\" height=\"785\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/sandrine.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2950\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/sandrine.jpg 1109w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/sandrine-300x212.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/sandrine-1024x725.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/sandrine-768x544.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1109px) 100vw, 1109px\" \/><figcaption>Sandrine Teixido e Aurelien Gamboni. <em>A resposta emocional do pescador no turbilh\u00e3o<\/em>, 2012. Cole\u00e7\u00e3o do Fundo de Arte Contempor\u00e2nea da Cidade de Genebra (FMAC).<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h2>Navegando uma paisagem assombrada: Um conto como ferramenta no Morro do Bumba<\/h2>\n\n\n\n<h4>Sandrine Teixido<\/h4>\n\n\n\n<p>Em 2010, enquanto estava a arquivar os artigos sobre a &#8220;trag\u00e9dia do Bumba&#8221; \u2013 o desastroso deslizamento de lixo e lama que matou mais de 250 pessoas e deixou muitas mais desabrigadas no Morro do Bumba Niter\u00f3i, nos arredores do Rio de Janeiro \u2013 nunca imaginei qu\u00e3o central este evento se tornaria no meu futuro art\u00edstico. O &#8220;Bumba&#8221; assina o meu compromisso com o projeto <em>A tale as a tool<\/em>, que estou a desenvolver desde 2011 com o artista su\u00ed\u00e7o Aur\u00e9lien Gamboni. A refer\u00eancia ao Bumba, desde o in\u00edcio do projeto at\u00e9 colabora\u00e7\u00f5es mais avan\u00e7adas, como na exposi\u00e7\u00e3o coletiva <em>Ba\u00eda de Guanabara:<\/em> <em>\u00c1guas e vidas escondidas<\/em> no MAC de Niter\u00f3i, em 2016, apresentou-se como o terreno f\u00e9rtil de uma arte que combina pesquisas e pr\u00e1ticas partilhadas numa \u00e9poca em que o \u201cantropoceno\u201d nos obriga a aprender a viver, nas palavras da antrop\u00f3loga americana Anna Tsing,<sup>1<\/sup> sobre as &#8220;ru\u00ednas do capitalismo&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p><em>A tale as a tool<\/em> [Um conto como ferramenta] prop\u00f5e, de tr\u00eas maneiras diferentes, a utiliza\u00e7\u00e3o do conto \u201cUma descida no <em>maelstr\u00f6m<\/em>\u201d, de Edgar Allan Poe<sup>2<\/sup>, como ferramenta. Por um lado, a estrutura narrativa nos permite estabelecer um certo tipo de investiga\u00e7\u00e3o que enfatiza a aten\u00e7\u00e3o ao ambiente. Por outro lado, o modelo proposto pelo conto abre a possibilidade de explorar o potencial &#8220;ecopsicol\u00f3gico&#8221; da figura do redemoinho como uma viagem emocional em tempos de crise ecol\u00f3gica. Finalmente, a maneira como escolhemos ativar esses diferentes potenciais gera formas de arte que exploram e questionam as possibilidades de uma &#8220;arte em comum&#8221;.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h3>Do Bumba ao <em>maelstr\u00f6m<\/em> e do <em>maelstr\u00f6m<\/em> ao Bumba&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>No 7 de abril de 2010, o Bumba foi o epicentro de uma trag\u00e9dia que matou pelo menos 46 pessoas com mais 150 desaparecidos, presumivelmente mortos, e in\u00fameros outros desabrigados.<sup>3<\/sup> \u00c0quela altura eu visitava o Rio de Janeiro e a trag\u00e9dia pareceu-me ser um acontecimento t\u00e3o significativo e complexo que eu decidir criar um arquivo dos artigos da imprensa local e nacional sobre o assunto. Um ano depois, comecei a trabalhar com Aur\u00e9lien Gamboni num projeto chamado <em>Into the Maelstr\u00f6m<\/em>, baseado no conto, <em>A Descent into the Maelstr\u00f6m<\/em> (1841). Nos encontramos durante um curso de forma\u00e7\u00e3o, iniciado pelo fil\u00f3sofo e antrop\u00f3logo franc\u00eas Bruno Latour, que reuniu pesquisadores e artistas. Colaboramos mais efetivamente numa reconstitui\u00e7\u00e3o das negocia\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas de 2009 em Copenhaga, que tinham resultado em um n\u00e3o-acordo entre as partes envolvidas. No Outono de 2011, fomos convidados a imaginar uma instala\u00e7\u00e3o para o festival <em>Les Urbaines<\/em> em Lausanne. Para esta instala\u00e7\u00e3o, Aur\u00e9lien tinha constru\u00eddo uma escultura que representava o turbilh\u00e3o na forma de um hemiciclo. Isso nos permitiu refletir sobre o lugar das diferentes na\u00e7\u00f5es nas negocia\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, imaginando que os mais vulner\u00e1veis estavam mais pr\u00f3ximos do fundo do turbilh\u00e3o enquanto os mais favorecidos estavam na sua borda.<\/p>\n\n\n\n<p>Para melhor compreender o que est\u00e1 em jogo aqui \u00e9 preciso voltar ao enredo da hist\u00f3ria de Poe. Ao largo da costa do arquip\u00e9lago de Lofoten, na Noruega, tr\u00eas marinheiros (que s\u00e3o tamb\u00e9m tr\u00eas irm\u00e3os) est\u00e3o habituados a pescar nas proximidades do redemoinho, porque as correntes a\u00ed existentes s\u00e3o a garantia de uma boa pesca. Com o seu conhecimento dos hor\u00e1rios das mar\u00e9s, as viagens decorrem sem problemas, at\u00e9 o dia em que se encontram presos no redemoinho. Muito rapidamente, o mais novo dos irm\u00e3os vai at\u00e9 a borda, enquanto o mais velho se afunda gradualmente na loucura. O segundo irm\u00e3o \u2013 que \u00e9 tamb\u00e9m o sobrevivente e aquele que conta a hist\u00f3ria ao narrador \u2013 passar\u00e1 por diferentes fases emocionais (terror, admira\u00e7\u00e3o, amargura, curiosidade, etc.) antes de chegar a uma s\u00e9rie de observa\u00e7\u00f5es que lhe permitir\u00e3o salvar a si pr\u00f3prio. A observa\u00e7\u00e3o do seu ambiente torna-o consciente de que os objetos cil\u00edndricos v\u00e3o para o fundo menos rapidamente do que outros. Assim, decide prender-se a um barril e, quando a \u00e1gua se fecha, ele anda \u00e0 deriva, sendo pescado depois por colegas a quem conta o seu infort\u00fanio, no qual acham dif\u00edcil de acreditar.<\/p>\n\n\n\n<p>In\u00fameras &#8220;atualiza\u00e7\u00f5es&#8221; foram extra\u00eddas dessa hist\u00f3ria, destacando a diversidade de formas de apreender as problem\u00e1ticas que o conto de Poe apresenta. O te\u00f3rico canadense Marshall McLuhan<sup>4<\/sup> v\u00ea o redemoinho como uma imagem do &#8220;turbilh\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o eletr\u00f4nica&#8221; que se deve aprender a navegar. O soci\u00f3logo alem\u00e3o Norbert Elias<sup>5<\/sup> usa o conto para analisar a din\u00e2mica de um poss\u00edvel risco de guerra at\u00f4mica durante a Guerra Fria. Bruno Latour<sup>6<\/sup> interroga as quest\u00f5es de percep\u00e7\u00e3o e adapta\u00e7\u00e3o ligadas ao &#8220;novo regime clim\u00e1tico&#8221;, enquanto o professor de literatura Yves Citton<sup>7 <\/sup>aborda os desafios de \u201caten\u00e7\u00e3o\u201d levantados pelo colapso dos \u201cvivos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Como parte do festival Les Urbaines, em 2011, instalamos uma tela que projetava um script dentro da escultura de montagem clim\u00e1tica. O script consistia numa montagem de excertos das fontes utilizadas por Poe, mas tamb\u00e9m de eventos que ressoavam com o conto. Entre eles, a trag\u00e9dia de 2010 figurou de forma proeminente em minha mem\u00f3ria. Excertos de coment\u00e1rios feitos por residentes do Bumba em redes sociais constitu\u00edram um coro baseado na can\u00e7\u00e3o \u201cConstru\u00e7\u00e3o\u201d (1971) de Chico Buarque. A can\u00e7\u00e3o descreve o \u00faltimo dia de um oper\u00e1rio de constru\u00e7\u00e3o cuja queda para a morte \u00e9 tratada, em meio a uma sociedade capitalista tecnocr\u00e1tica de ordem e progresso, como meramente \u201catrapalhando o tr\u00e2nsito \/ p\u00fablico \/ s\u00e1bado\u201d. As palavras t\u00eam a peculiaridade, na letra, de mudar a cada refr\u00e3o do refr\u00e3o \u2013 o oper\u00e1rio primeiramente atrapalha o tr\u00e2nsito, depois o p\u00fablico e depois o s\u00e1bado, por exemplo, resultando num significado totalmente diferente e permitindo ao seu autor denunciar de forma rotunda a ditadura militar da \u00e9poca. O g\u00eanio de Chico Buarque \u00e9 ter imaginado essas modifica\u00e7\u00f5es a partir das mesmas palavras, jogando com o seu rearranjo progressivo. Apliquei o mesmo processo ao script, introduzindo a trag\u00e9dia do Bumba sob a forma de um refr\u00e3o cujas palavras mudaram gradualmente para mostrar que n\u00e3o era f\u00e1cil caracterizar aquele acontecimento: mudan\u00e7a clim\u00e1tica, neglig\u00eancia municipal, incerteza jur\u00eddica, etc.<\/p>\n\n\n\n<p>O Bumba est\u00e1 ligado ao nascimento do projeto <em>A tale as a tool<\/em>, uma vez que representa o &#8220;primeiro&#8221; campo de investiga\u00e7\u00e3o da nossa colabora\u00e7\u00e3o. Infelizmente e apesar da nossa vontade de desenvolver uma investiga\u00e7\u00e3o espec\u00edfica no Morro do Bumba, o interesse pelo projeto levou-nos para longe de Niter\u00f3i, desde que fomos convidados pela primeira vez para a bienal do Mercosul em Porto Alegre. Depois fomos \u00e0 Noruega, ao arquip\u00e9lago de Lofoten, e ao \u00c1rtico, investiga\u00e7\u00f5es que deram origem a duas confer\u00eancias performadas no Th\u00e9\u00e2tre de l&#8217;Usine em Genebra (2014 e 2015). S\u00f3 em 2015, quando me mudei para o Rio de Janeiro, \u00e9 que pude retomar uma verdadeira investiga\u00e7\u00e3o sobre a trag\u00e9dia do Bumba.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"1200\" height=\"882\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Sandrine_figura2_maelstrom_agency-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2446\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Sandrine_figura2_maelstrom_agency-1.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Sandrine_figura2_maelstrom_agency-1-300x221.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Sandrine_figura2_maelstrom_agency-1-1024x753.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Sandrine_figura2_maelstrom_agency-1-768x564.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><figcaption>Sandrine Teixido e Aurelien Gamboni. <em>Um conjunto de seres e objetos apanhados no mesmo sistema din\u00e2mico<\/em>, 2012. Cole\u00e7\u00e3o do Fundo de Arte Contempor\u00e2nea da Cidade de Genebra (FMAC).<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"1200\" height=\"1087\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Sandrine_figura3_Mcluhan_31x35.6.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2448\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Sandrine_figura3_Mcluhan_31x35.6.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Sandrine_figura3_Mcluhan_31x35.6-300x272.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Sandrine_figura3_Mcluhan_31x35.6-1024x928.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Sandrine_figura3_Mcluhan_31x35.6-768x696.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><figcaption>Fotomontagem de Quentin Fiore e Marshall McLuhan publicada em Medium is the message, Penguin Books, 1967.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"1200\" height=\"802\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Sandrine_figura4_Intothemaelstrom_Lausanne-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2450\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Sandrine_figura4_Intothemaelstrom_Lausanne-1.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Sandrine_figura4_Intothemaelstrom_Lausanne-1-300x201.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Sandrine_figura4_Intothemaelstrom_Lausanne-1-1024x684.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Sandrine_figura4_Intothemaelstrom_Lausanne-1-768x513.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><figcaption><em>Into the maelstr\u00f6m<\/em>. Instala\u00e7\u00e3o com escultura e ecr\u00e3. Festival Les Urbaines, 2011. Lausanne.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Eu estava timidamente sentada numa cadeira no escrit\u00f3rio do diretor do Museu de Arte Contempor\u00e2nea de Niter\u00f3i, Luiz Guilherme Vergara, que parecia estar a arrancar o cabelo para resolver os muitos problemas que enfrentava com a exposi\u00e7\u00e3o <em>Ba\u00eda de Guanabara: \u00c1guas e vidas escondidas<\/em>, planejada para 2016, da qual \u00edamos participar.<sup>8<\/sup> Ao meu lado estavam In\u00eas de Albuquerque e Priscila Grimberg, que, a fim de enganar a espera, iniciaram uma conversa. Fiquei surpresa quando percebi que tinham iniciado toda uma rede de colabora\u00e7\u00e3o afetiva e um museu ao ar livre (<em>Rancho Verde<\/em>, ver contribui\u00e7\u00e3o abaixo) no Morro do Bumba. Vi nessa reuni\u00e3o uma coincid\u00eancia e um sinal de que tinha chegado o momento de retomar os fios de uma investiga\u00e7\u00e3o que tinha estado na base do projeto, um projeto que passou a chamar-se <em>A tale as a tool<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p><em>A tale as a tool<\/em> destaca a capacidade do conto de fornecer uma s\u00e9rie de ferramentas para a apreens\u00e3o de eventos em que os aspectos clim\u00e1ticos, pol\u00edticos, sociais e simb\u00f3licos se entrela\u00e7am. A investiga\u00e7\u00e3o modelada na hist\u00f3ria do marinheiro e sobrevivente do conto de Edgar Allan Poe pode nos ajudar a encontrar o nosso caminho numa situa\u00e7\u00e3o de risco ambiental, pol\u00edtico ou social na medida em que essas situa\u00e7\u00f5es \u2013 caracter\u00edsticas da nova condi\u00e7\u00e3o geol\u00f3gica do antropoceno \u2013 se distinguem pelo entrela\u00e7amento de elementos pol\u00edticos, sociais ou ambientais, mas tamb\u00e9m geol\u00f3gicos ou hist\u00f3ricos. A trag\u00e9dia de Bumba \u00e9 um bom exemplo de um acontecimento em que v\u00e1rias escalas, entidades e par\u00e2metros \u2013 pertencentes a regimes diferenciados, caracterizados pela incerteza ou equ\u00edvoco \u2013 se entrela\u00e7am. A recolha de informa\u00e7\u00f5es e testemunhos sobre a trag\u00e9dia tende a aprofundar a incerteza quanto \u00e0s suas causas, mas tamb\u00e9m a apontar a invisibilidade n\u00e3o somente s\u00f3cio-pol\u00edtica, mas tamb\u00e9m geol\u00f3gica, e a dificuldade em caracterizar os elementos envolvidos no evento.<\/p>\n\n\n\n<p>Para transformar um conto numa &#8220;ferramenta&#8221; para uma investiga\u00e7\u00e3o, exploramos os seus diferentes significados poss\u00edveis, bem como as atualiza\u00e7\u00f5es mais recentes propostas pelos pesquisadores. Procuramos ent\u00e3o outros usos poss\u00edveis da narrativa, principalmente atrav\u00e9s da intera\u00e7\u00e3o com informadores numa situa\u00e7\u00e3o de inqu\u00e9rito. Antes de entrarmos em campo, escolhemos uma tradu\u00e7\u00e3o apropriada da obra. Numa situa\u00e7\u00e3o de entrevista, organizamos um pequeno ritual, que consiste em colocar sobre a mesa um mapa das nossas pesquisas e resumir o conto. O objetivo dessas diferentes opera\u00e7\u00f5es era encorajar os nossos interlocutores a prestarem particular aten\u00e7\u00e3o \u00e0s quest\u00f5es em jogo no conto. Essa abordagem, realizada com e a partir de uma narrativa fict\u00edcia, permitiu experimentar em contextos muito diferentes (Brasil, Noruega, Estados Unidos) as possibilidades que os atores envolvidos t\u00eam de compreender as quest\u00f5es que o conto de Poe apresenta em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua pr\u00f3pria situa\u00e7\u00e3o, aos seus conhecimentos e \u00e0s suas pr\u00e1ticas. No caso do Bumba, a transposi\u00e7\u00e3o da aten\u00e7\u00e3o que o marinheiro presta ao seu ambiente permite-nos questionar a forma como os habitantes conseguiram ou n\u00e3o encontrar o seu caminho at\u00e9 no meio da trag\u00e9dia e, subsequentemente, avaliar as diferentes an\u00e1lises que foram capazes de explicar o evento.<\/p>\n\n\n\n<h3>Da incerteza aos fantasmas: o Bumba, uma paisagem mal-assombrada.<\/h3>\n\n\n\n<p>H\u00e1 muito a dizer sobre a trag\u00e9dia do Bumba, mas gostaria de mostrar aqui como os protagonistas mostram uma certa aten\u00e7\u00e3o ao ambiente. Antes e durante o evento, os habitantes eram confrontados com alertas sonoros, visuais ou olfativos que lhes permitiam navegar (ou n\u00e3o) no caos em que estavam imersos. Posteriormente, diferentes &#8220;olhares&#8221; fizeram sobressair a natureza &#8220;entrela\u00e7ada&#8221; das diferentes causas e tornaram vis\u00edvel uma s\u00e9rie de entidades que tiveram um papel no desencadeamento do evento: crit\u00e9rios geol\u00f3gicos e clim\u00e1ticos, res\u00edduos, hist\u00f3ria do bairro. Esses elementos, como fantasmas, t\u00eam assombrado e continuam a assombrar o Morro do Bumba. Tomo emprestada a no\u00e7\u00e3o de &#8220;paisagem mal-assombrada&#8221; (<em>haunted landscape<\/em>) do trabalho de Anna Tsing e Nils Bubandt. O seu trabalho coletivo concentra-se nos &#8220;fantasmas e monstros do antropoceno&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>The contributions to Arts of Living on a Damaged Planet demonstrate \u2014 we must share space with the ghostly contours of a stone, the radioactivity of a fingerprint, the eggs of a horseshoe crab, a wild bat pollinator, an absent wildflower in a meadow, a lichen on a tombstone, a tomato growing in an abandoned car tire. It is these shared spaces, or what we call haunted landscapes, that relentlessly trouble the narratives of Progres, and urge us to radically imagine worlds that are possible because they are already here.<sup>9<\/sup><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>O Morro do Bumba pode ser entendido como uma paisagem mal-assombrada por um passado e entidades mais ou menos vis\u00edveis que a trag\u00e9dia ajudar\u00e1 a revelar. Segundo o antrop\u00f3logo Jo\u00e3o Francisco Loguercio<sup>10<\/sup>, a hist\u00f3ria do Morro do Bumba est\u00e1 ausente como tal dos documentos oficiais. \u00c9 atrav\u00e9s do cruzamento de informa\u00e7\u00f5es geol\u00f3gicas, clim\u00e1ticas, f\u00edsicas e hist\u00f3ricas sobre espa\u00e7os que atravessam o Morro do Bumba num dado momento, que podemos ter uma ideia das singularidades do lugar. O Morro do Bumba n\u00e3o \u00e9, portanto, uma paisagem que existe passivamente, mas o resultado de uma constru\u00e7\u00e3o entre &#8220;olhares&#8221; expertas e end\u00f3genas.<sup>11<\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>A dificuldade em demonstrar a vulnerabilidade do local teve um impacto significativo na pol\u00edtica urbana aplicada a essa regi\u00e3o. Localizado no distrito de Vi\u00e7oso Jardim em Niter\u00f3i, o local onde a comunidade do Morro do Bumba foi constru\u00edda durante muito tempo foi um espa\u00e7o desvalorizado por estar situado na bifurca\u00e7\u00e3o para a entrada na comunidade de alto risco social. A localiza\u00e7\u00e3o perif\u00e9rica desse distrito e a sua falta de valoriza\u00e7\u00e3o levou \u00e0 sua invisibilidade para os servi\u00e7os t\u00e9cnicos (geol\u00f3gicos, topogr\u00e1ficos, clim\u00e1ticos). De acordo com Loguercio, as informa\u00e7\u00f5es geol\u00f3gicas fornecida pela Prefeitura Municipal de Niter\u00f3i diferem dos levantamentos do Servi\u00e7o Geol\u00f3gico do Brasil.<sup>12<\/sup> As caracter\u00edsticas da regi\u00e3o em termos de eros\u00e3o, movimentos de massa, capacidade de carga, apropria\u00e7\u00e3o e uso do solo, s\u00f3 aparecem depois de uma verifica\u00e7\u00e3o cruzada de informa\u00e7\u00f5es de diferentes estudos que revelam a fragilidade ou vulnerabilidade a que est\u00e1 exposto o bairro.<\/p>\n\n\n\n<p>De um ponto de vista pol\u00edtico, a emerg\u00eancia do Morro do Bumba faz-se sentir intermitentemente, seguindo o ritmo dos prazos eleitorais e das necessidades urbanas e administrativas. A partir dos anos 1970, a cidade de Niter\u00f3i se viu diante da necessidade de encontrar uma \u00e1rea extensa onde pudesse alojar sobras de entulhos e lixo produzido pela popula\u00e7\u00e3o e essa escolha recaiu sobre a pequena bifurca\u00e7\u00e3o que virou deposito de lixo at\u00e9 1986. Tal como resumido por Vilma Pereira<sup>13<\/sup>, esses foram:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Dezesseis anos de lixos compactados neste local ainda com pouqu\u00edssimas casas. No entanto a comunidade do entorno reagiu, e em consequ\u00eancia Niter\u00f3i teve que levar o seu lixo para o aterro sanit\u00e1rio de Gramacho em Duque de Caxias. Com a desativa\u00e7\u00e3o do aterro ficou uma \u00e1rea abandonada, coberta por vegeta\u00e7\u00e3o e diante da necessidade de moradia por aqueles que precisam trabalhar e morar; foram surgindo as primeiras ocupa\u00e7\u00f5es que denominou-se Comunidade do Morro do Bumba. Ao tomar conhecimento a Prefeitura, proibiu a ocupa\u00e7\u00e3o do local pelo governo municipal na \u00e9poca, Waldenir de Bragan\u00e7a. Mas aos poucos na aus\u00eancia de fiscaliza\u00e7\u00e3o e Pol\u00edticas P\u00fablicas de habita\u00e7\u00e3o, foram surgindo as primeiras ocupa\u00e7\u00f5es clandestinas, por meio de pequenas casas de alvenaria. Sem reprimir a ocupa\u00e7\u00e3o irregular no antigo lix\u00e3o, o poder p\u00fablico local acabou por incentivar a invas\u00e3o.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>A Prefeitura de Niter\u00f3i, que encomendou uma an\u00e1lise no ano de 2004 \u00e0 equipe de ge\u00f3logos da Universidade Federal Fluminense (UFF), cujo relat\u00f3rio \u00e9 coordenado pelo ge\u00f3logo Adalberto da Silva, chamava a aten\u00e7\u00e3o para o Morro do Bumba, mas as autoridades n\u00e3o parecem ter tido isto em conta. Liguercio mostra como o estabelecimento do vazadouro de lixo no Morro do Bumba deriva de uma vis\u00e3o estereotipada da periferia, que contribui para a \u201cfaveliza\u00e7\u00e3o\u201d de um local para o qual os habitantes t\u00eam uma mem\u00f3ria muito mais contrastada. A valoriza\u00e7\u00e3o positiva do Morro do Bumba atrav\u00e9s de uma mem\u00f3ria oral que enfatiza o aspecto rural da regi\u00e3o parece ter sido descartada pelo olhar perito dos urbanistas e respons\u00e1veis municipais, e depois pelos medias. Perguntamo-nos: por que essa \u00e1rea foi escolhida para abrigar um vazadouro de \u201clix\u00e3o\u201d&nbsp;em 1971? Para o Liguercio, os olhares &#8220;informados&#8221; dos formuladores de pol\u00edticas p\u00fablicas est\u00e3o sustentados por ideologias como a expressa pelo \u201cmito da marginalidade\u201d que tende a tornar o passado rural, ainda muito presente na mem\u00f3ria oral dos habitantes, invis\u00edvel. Com a instala\u00e7\u00e3o do lix\u00e3o inicia-se um processo de migra\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o, tanto interna, dos moradores que ali residiam, quanto externa, de pessoas atra\u00eddas ao local, principalmente para o uso do mesmo (ferro velho, catadores etc.). Inicia-se, assim, a \u201cfaveliza\u00e7\u00e3o\u201d da \u00e1rea. Com esses poucos elementos, podemos ver como uma regi\u00e3o rural e perif\u00e9rica est\u00e1 gradualmente se tornando o local ideal para a instala\u00e7\u00e3o de um aterro sanit\u00e1rio. Esta transforma\u00e7\u00e3o s\u00f3 pode se dar atrav\u00e9s da invisibiliza\u00e7\u00e3o de uma hist\u00f3ria do bairro que, no entanto, continua a assombrar a mem\u00f3ria emocional dos habitantes atrav\u00e9s da tradi\u00e7\u00e3o oral.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Se olharmos especificamente para a trag\u00e9dia de Bumba, ela faz-se sentir em sinais fugazes. Como nos explica Roberta<sup>14<\/sup> \u2013 funcion\u00e1ria p\u00fablica da escola Sebastiana Gon\u00e7alves Pinho, adjacente \u00e0 encosta do Bumba \u2013 o g\u00e1s metano dos res\u00edduos escapa da mamona (r\u00edcino) em um belo gotejar de fumo. Os problemas de pele e de sa\u00fade em geral, que afetaram a popula\u00e7\u00e3o durante a atividade do aterro e continuam a afligir os habitantes ap\u00f3s o seu encerramento, atuam como sinais despercebidos da presen\u00e7a perene de res\u00edduos t\u00f3xicos que vazaram sob as casas. Durante os primeiros deslizamentos de terra, as casas desmoronadas nas dunas j\u00e1 n\u00e3o permitem a evacua\u00e7\u00e3o de gases, aumentando a probabilidade de novas explos\u00f5es. Durante a noite de 7 de abril, reinava a maior confus\u00e3o e os sinais eram dif\u00edceis de interpretar. A escurid\u00e3o total e o fumo tornaram imposs\u00edvel para os habitantes encontrar o seu caminho. Os sons eram enganadores, tais como o &#8220;psssh&#8221; ouvido por Joanir Felipe<sup>15<\/sup>, que perdeu a sua esposa e a sua m\u00e3e:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>A minha mulher acompanhou-me com uma lanterna e eu subi para o terra\u00e7o da minha casa. Fiquei \u00e0 porta a falar com dois vizinhos enquanto o tipo estava a cuidar do fio el\u00e9trico. \u00c9 uma hist\u00f3ria de alguns segundos, ouvi um barulho, como um tubo a explodir, psssh\u2026&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Como Roberta assinala, durante a noite os sons ser\u00e3o cruciais para a sobreviv\u00eancia dos habitantes: &#8220;era tudo preto, tudo escuro, voc\u00ea n\u00e3o enxergava nada, cheiro muito ruim, n\u00e3o conseguia ver direito as coisas e as pessoas gritando, voc\u00ea ouvia gritos.&#8221; Era imposs\u00edvel saber exatamente o que estava a acontecer e, portanto, orientar-se corretamente. Muitos dos habitantes foram apanhados por um mal-entendido que esbate a sua orienta\u00e7\u00e3o sobre o morro, como nos diz Roberta: &#8220;Quando houve a primeira explos\u00e3o, quem por um equ\u00edvoco subiu se salvou, quem desceu morreu porque houve a outra explos\u00e3o e a\u00ed pegou quem estava em baixo.&#8221; Muito depois da trag\u00e9dia, os odores de g\u00e1s metano penetraram toda a vizinhan\u00e7a, acompanhando continuamente a busca e o reconhecimento dos corpos. As casas foram rapidamente engolidas ou cobertas com lama, n\u00e3o restou nada, nem paredes nem mobili\u00e1rio. Por vezes \u00e9 muito dif\u00edcil realizar o reconhecimento quando todos os bens materiais de alguns dos habitantes desapareceram completamente. Al\u00e9m disso, muitas das casas n\u00e3o estavam oficialmente registradas.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"1200\" height=\"800\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Sandrine_fig5_JoanirFelipe.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2452\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Sandrine_fig5_JoanirFelipe.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Sandrine_fig5_JoanirFelipe-300x200.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Sandrine_fig5_JoanirFelipe-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Sandrine_fig5_JoanirFelipe-768x512.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><figcaption>30 de junho de 2017, Rancho Verde. Joanir Felipe comenta uma foto do deslizamento do Morro do Bumba tirada pelo fot\u00f3grafo Dimitrius Borja.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h3>O Modelo <em>Maelstr\u00f6m<\/em> e a Ecopsicologia<\/h3>\n\n\n\n<p>Estes v\u00e1rios exemplos mostram como as situa\u00e7\u00f5es de chuvas fortes e deslizamentos de terras, que ocorrem cada vez mais frequentemente, trazem em jogo quest\u00f5es de orienta\u00e7\u00e3o, tanto dentro do caos vivido pelos habitantes durante o drama, como para aqueles que tentam observar o evento e aprender com ele. A aventura do marinheiro no turbilh\u00e3o, como relatado por Poe, deu origem a um modelo que se concentrou num problema particular: o da representa\u00e7\u00e3o mental, do pescador, do seu ambiente numa situa\u00e7\u00e3o de risco. Enquanto o barco segue uma trajet\u00f3ria inteiramente ditada pela din\u00e2mica das correntes conc\u00eantricas e n\u00e3o pode ser desviado do seu curso, o pescador confinado nesse abismo em movimento n\u00e3o tem, a priori, outra op\u00e7\u00e3o que n\u00e3o seja observar a cena. O desafio \u00e9 o de discernir elementos salientes dentro do espet\u00e1culo a priori ca\u00f3tico destes in\u00fameros peda\u00e7os de destro\u00e7os que o rodeiam, reconhecer os elementos cada vez que passam \u00e0 sua frente, e assim poder come\u00e7ar a estudar a sua trajet\u00f3ria. Como um investigador, ele observa e compara, tenta antecipar estas trajet\u00f3rias e deduz delas um modelo l\u00f3gico. Percebe ent\u00e3o que os objetos se aproximam do centro do v\u00f3rtice mais ou menos rapidamente dependendo do seu tamanho, massa e forma, o que lhe permitir\u00e1 finalmente deduzir que um objeto pequeno e cil\u00edndrico \u2013 como um barril \u2013 \u00e9 o que desce menos rapidamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Em <em>Involvement and Detachment<\/em>, Norbert Elias recorre ao conto de Edgar Allan Poe para construir uma teoria sociol\u00f3gica de processos n\u00e3o planejados. Elias prop\u00f5e analisar as rela\u00e7\u00f5es entre na\u00e7\u00f5es durante a Guerra Fria, e a poss\u00edvel deriva para a guerra at\u00f4mica, n\u00e3o como a\u00e7\u00f5es intencionais de uma ou outra das na\u00e7\u00f5es hegem\u00f4nicas (Estados Unidos e URSS), mas como a din\u00e2mica de processos n\u00e3o planeados dos quais \u00e9 imposs\u00edvel escapar sem recorrer ao distanciamento. Para o soci\u00f3logo, a &#8220;par\u00e1bola dos pescadores&#8221; sublinha a interdepend\u00eancia entre o perigo e a rea\u00e7\u00e3o emocional. \u00c9 distanciando-se tanto do na\u00e7\u00e3o como do soci\u00f3logo que se pode compreender a configura\u00e7\u00e3o do duplo constrangimento em que os atores s\u00e3o apanhados.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa descoberta ecoa o trabalho da ecopsic\u00f3loga Joanna Macy. Para Macy, o desespero do marinheiro \u00e9 caracter\u00edstico da nossa condi\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>No one is exempt from that pain, any more than one could exist alone and self-existent in empty space. It is inseparable from the currents of matter, energy, and information that flow through us and sustain us as interconnected open systems\u201d.<sup>16<\/sup><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Tal como Elias, Macy acredita que somos prisioneiros de preconceitos cognitivos, tanto mais que n\u00e3o podemos acreditar no que nos est\u00e1 a acontecer, uma vez que os desastres ambientais s\u00e3o frequentemente invis\u00edveis, inaud\u00edveis para a maioria de n\u00f3s. Os psic\u00f3logos s\u00e3o prisioneiros de um preconceito freudiano e individualista, em que os medos ambientais s\u00e3o interpretados como neuroses individuais. Mas, ao contr\u00e1rio do soci\u00f3logo alem\u00e3o, para Macy, \u00e9 atrav\u00e9s da aceita\u00e7\u00e3o dos nossos receios face aos riscos ambientais, e da articula\u00e7\u00e3o entre emo\u00e7\u00f5es e raz\u00e3o \u2013 e n\u00e3o atrav\u00e9s do distanciamento das emo\u00e7\u00f5es da raz\u00e3o \u2013 que podemos esperar encontrar uma sa\u00edda coletiva. \u00c9 caminhando com esta dor, atrav\u00e9s deste sofrimento, que podemos passar de um poder sobre a &#8220;natureza&#8221; (<em>power over<\/em>) para um poder com ela (<em>power with<\/em>).<sup>17<\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>Outra psic\u00f3loga ambiental americana, Carolyn Baker, concentra-se em ajudar as pessoas a prepararem-se emocionalmente para o pr\u00f3ximo &#8220;colapso&#8221;. O deslizamento de terras no Morro do Bumba \u2013 literalmente o desabamento de casas umas sobre as outras \u2013 \u00e9 um sinal do &#8220;colapso&#8221; gradual que est\u00e1 a varrer as nossas sociedades a n\u00edvel pol\u00edtico, social e ecol\u00f3gico. Tanto em <em>Navigating the Coming Chaos<\/em><sup>18<\/sup> como em <em>Colapsing Consciously<\/em>, Baker tenta identificar diferentes formas de prepara\u00e7\u00e3o e adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s situa\u00e7\u00f5es de crise cada vez mais frequentes. Para Baker, &#8220;se o colapso significa alguma coisa, \u00e9 uma imers\u00e3o planet\u00e1ria num turbilh\u00e3o de paradoxo&#8221;.<sup>19 <\/sup>Para esse fim, argumenta, \u00e9 preciso familiarizar-se com as pr\u00f3prias emo\u00e7\u00f5es e recursos interiores. \u00c9 mesmo \u00e0 pr\u00f3pria morte que se deve habituar-se, deixando-se ir para o abismo sem fundo representado pela queda da civiliza\u00e7\u00e3o industrial:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>A queda da civiliza\u00e7\u00e3o industrial est\u00e1 a puxar tudo para baixo, e eu pergunto-me o que aconteceria se, em vez de resistir, nos rend\u00eassemos a este movimento descendente. Estou a sugerir que o colapso \u00e9 um po\u00e7o sem fundo de dissolu\u00e7\u00e3o? Absolutamente n\u00e3o. Mas antes de olharmos para o movimento ascendente, devemos primeiro ver como atravessar o colapso&#8230;o caminho para a sa\u00edda \u00e9 atrav\u00e9s, n\u00e3o por cima ou \u00e0 volta, mas atrav\u00e9s. \u00c9 crucial, contudo, lembrar, depois de termos descido e recome\u00e7ado, que uma outra descida ser\u00e1 inevit\u00e1vel um dia.<sup>20<\/sup><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Por um lado, para Carolyn Baker n\u00e3o h\u00e1 outro futuro sen\u00e3o o colapso das nossas civiliza\u00e7\u00f5es termo-industriais, as consequ\u00eancias podem revelar-se fatais e \u00e9 urgente preparar-se para isso; por outro lado, h\u00e1 para a psic\u00f3loga uma alegria que nos invade quando deixamos cair os peda\u00e7os do nosso ego e abra\u00e7amos este novo caminho. Longe do \u201cpensamento positivo\u201d que atormenta as nossas sociedades, a alegria aceita a nossa parte necess\u00e1ria de escurid\u00e3o. \u00c9 dif\u00edcil ver qualquer alegria na trag\u00e9dia de Bumba. Mas h\u00e1 uma personagem que tem uma rela\u00e7\u00e3o especial com o Morro do Bumba, com o lixo e com o bairro: Seu Hernandez. \u00c9 ap\u00f3s um primeiro &#8220;colapso&#8221;, este pessoal \u2013 a perda da sua amada esposa \u2013, que esse homem desenvolve essa rela\u00e7\u00e3o. Especial porque ela est\u00e1 cheia de alegria, uma emo\u00e7\u00e3o sutil que, para Baker, s\u00f3 pode surgir ap\u00f3s atravessar o turbilh\u00e3o, seja pessoal ou ambiental. A alegria \u00e9 acompanhada de gratid\u00e3o pelo que se tem e pelo que se tem passado. Cria de uma forma singular a rela\u00e7\u00e3o com as coisas e os seres dando acesso a uma certa intui\u00e7\u00e3o, mesmo uma premoni\u00e7\u00e3o, como \u00e9 o caso de Seu Hernandez e a sua vis\u00e3o da trag\u00e9dia num sonho premonit\u00f3rio:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u00c9 todo um sonho sobre o lixo que decidi escrever: eu estava l\u00e1, na lixeira, e o lixo pediu-me:\u00a0<\/p><p>&#8211; Quem est\u00e1 aqui?\u00a0<\/p><p>&#8211; Sou eu, sou eu.<\/p><p>&#8211; E o que \u00e9 que est\u00e1 aqui a fazer?\u00a0<\/p><p>E ent\u00e3o eu disse:<\/p><p>-Vim para obter experi\u00eancia, sabedoria para mim, para ver se consigo salvar a ecologia porque precisamos de salvar a ecologia de alguma forma, precisamos de ganhar porque esta luta pertence a todos n\u00f3s.<\/p><p>Vi dentro da minha cabe\u00e7a o Bumba a explodir, vi todo o lixo a descer, a invadir as casas, mas ser\u00e1 que foi apenas imagina\u00e7\u00e3o? Dei outra vista de olhos, mas nada. Depois tudo aconteceu realmente, se eu tivesse contado, algu\u00e9m me teria chamado louco, mas oito dias depois, por volta das 20:40 p.m., durante cerca de 20 minutos, penso que tudo explodiu, tudo desabou, o lixo, todas as casas. Disseram que morreram 32 pessoas, mas havia muito mais pessoas no meio do lixo, que n\u00e3o tivemos tempo de remover porque os cami\u00f5es estavam com pressa de remover os detritos, mas, mesmo assim, podia-se ver no meio do lixo as pernas de uma pessoa que tinha sido atirada para o caminh\u00e3o, estavam realmente com pressa&#8230; Por que tanta pressa, quando tudo j\u00e1 tinha acontecido<sup>21<\/sup>.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Desde ent\u00e3o, Seu Hernandez tem vindo a reciclar os res\u00edduos que recolhe perto do Bumba em objetos \u00fateis, m\u00f3biles e obras de arte. Todos os objetos reciclados s\u00e3o pintados de verde seguindo um sonho em que &#8220;o sistema&#8221;, uma entidade espiritual que o guia na vida, lhe ordenou que o fizesse.<sup>22<\/sup><\/p>\n\n\n\n<h3>Da ferramenta \u00e0 forma&nbsp;<\/h3>\n\n\n\n<p>Se, como profetiza Carolyn Baker, &#8220;o colapso vai impor limites sem precedentes \u00e0 esp\u00e9cie humana e for\u00e7ar uma descida ao submundo da inicia\u00e7\u00e3o emocional e espiritual&#8221;<sup>23<\/sup>, como pode a artista contempor\u00e2nea intervir, se n\u00e3o observando os tesouros de resili\u00eancia desenvolvidos pelas popula\u00e7\u00f5es sob o impacto de eventos ambientais extremos? O modelo proposto pelo conto de Poe, atrav\u00e9s da viagem emocional que prop\u00f5e, bem como atrav\u00e9s da aten\u00e7\u00e3o ao seu ambiente que imp\u00f5e, apresenta-se como um poss\u00edvel modelo dos preparativos emocionais que teremos de passar a fim de nos prepararmos para o caos que est\u00e1 por vir. A capacidade de ouvir os sinais de aviso antes da cat\u00e1strofe, bem como no cora\u00e7\u00e3o do turbilh\u00e3o, s\u00e3o compet\u00eancias necess\u00e1rias para serem partilhadas coletivamente. Nesta perspectiva, desenvolvemos, com o projeto <em>A tale as a tool<\/em>, ativa\u00e7\u00f5es das nossas investiga\u00e7\u00f5es que envolvem o coletivo e mais particularmente as pessoas e testemunhas encontradas durante as nossas investiga\u00e7\u00f5es. A cria\u00e7\u00e3o de um baralho de cartas contendo os nossos arquivos de investiga\u00e7\u00e3o e a leitura destas cartas e do conto de Poe em grupos de discuss\u00e3o permite-nos partilhar os nossos pensamentos e experi\u00eancias no que diz respeito a trag\u00e9dias tanto pessoais como ambientais, para as quais cada um de n\u00f3s foi capaz de desenvolver as nossas pr\u00f3prias capacidades e habilidades, ou mesmo de fazer o nosso pr\u00f3prio &#8220;barril&#8221;, \u00e0 maneira do marinheiro na obra de Poe.<\/p>\n\n\n\n<p>Conseguimos experimentar v\u00e1rias formas poss\u00edveis de ativa\u00e7\u00e3o durante as v\u00e1rias ocorr\u00eancias do projeto: grupos falantes, rodas de leitura, assembleias flutuantes, gabinetes de investiga\u00e7\u00e3o. Mas poder\u00edamos imaginar outros como um itiner\u00e1rio, um ritual, um exerc\u00edcio de vis\u00e3o, uma medita\u00e7\u00e3o coletiva, uma refei\u00e7\u00e3o. Que valor devemos dar a essas formas? Para a historiadora de arte francesa Estelle Zhong, a artista que produz aquilo a que escolheu chamar de &#8220;projeto de arte em comum&#8221; \u2013 ou seja, projetos que envolvem a participa\u00e7\u00e3o de indiv\u00edduos de diversas origens \u2013 &#8220;escolhe a conversa de materiais, reconstru\u00e7\u00e3o, [refei\u00e7\u00f5es] devido \u00e0s suas formas impl\u00edcitas que est\u00e3o latentes e t\u00eam consequ\u00eancias formais decisivas: esta seria a sua pr\u00f3pria compet\u00eancia art\u00edstica&#8221;<sup>24<\/sup>. Neste quadro anal\u00edtico, as descri\u00e7\u00f5es etnogr\u00e1ficas e os dados recolhidos durante a pesquisa, mas tamb\u00e9m as entrevistas, conversas e leituras em suas dimens\u00f5es e pr\u00e1ticas variadas, d\u00e3o origem a certas formas impl\u00edcitas que s\u00e3o adequadas para artista identificar. Aqui nestas formas e formatos n\u00e3o s\u00e3o apenas t\u00e9cnicas de investiga\u00e7\u00e3o mas tamb\u00e9m uma pr\u00e1tica art\u00edstica em si. Estes s\u00e3o materiais que, na sua maioria, a priori, n\u00e3o se destinam a tomar forma. A produ\u00e7\u00e3o de um certo n\u00famero de montagens, de marchas coletivas, permite produzir formas que geram apoios diversificados, para interpreta\u00e7\u00f5es em movimento. Durante essas assembleias, atrav\u00e9s de um protocolo muitas vezes bastante simples, sugerimos que os participantes retomassem os testemunhos e arquivos recolhidos a fim de os reunir e utiliz\u00e1-los como base para a sensibiliza\u00e7\u00e3o e &#8220;prepara\u00e7\u00e3o espiritual para o colapso da civiliza\u00e7\u00e3o que conhecemos abrindo-nos todos os dias aos &#8216;pequenos colapsos&#8217; da civiliza\u00e7\u00e3o j\u00e1 vis\u00edveis \u00e0 nossa volta&#8221;<sup>25<\/sup>.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu propus a utiliza\u00e7\u00e3o do conto de Edgar Allan Poe como uma ferramenta para navegar no cora\u00e7\u00e3o desse &#8220;pequeno colapso&#8221; representado pelo deslizamento de terras do Morro do Bumba. A trag\u00e9dia ocorrida em abril de 2010 destacou o car\u00e1ter &#8220;mal-assombrado&#8221; do Morro do Bumba, que requer o desenvolvimento de compet\u00eancias emocionais espec\u00edficas para se adaptar a ele: \u00e9 aceitando mergulhar no cora\u00e7\u00e3o das emo\u00e7\u00f5es negativas, que o nosso futuro ambiental provoca, que seremos capazes de criar a resili\u00eancia para nos ajudar a ultrapass\u00e1-lo. Aqueles que j\u00e1 experimentaram estas &#8220;pequenas&#8221; mortes, sejam elas psicol\u00f3gicas ou ecol\u00f3gicas, estar\u00e3o bem mais equipados para lidar com o &#8220;caos que est\u00e1 porvir&#8221;. O conto confrontado com o caso espec\u00edfico de Bumba tamb\u00e9m nos permitiu apontar capacidades de orienta\u00e7\u00e3o e previs\u00e3o que n\u00e3o se limitam aos conhecimentos cient\u00edficos e t\u00e9cnicos, mas incluem um certo conhecimento pr\u00e1tico do terreno da vida, uma mem\u00f3ria afetiva dos lugares e a capacidade de aceitar o que os sonhos t\u00eam para nos ensinar.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"1200\" height=\"839\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Sandrine_fig6_Baralho-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2454\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Sandrine_fig6_Baralho-1.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Sandrine_fig6_Baralho-1-300x210.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Sandrine_fig6_Baralho-1-1024x716.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Sandrine_fig6_Baralho-1-768x537.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><figcaption>Baralho de cartas reunindo os arquivos do projeto. www.ataleasatool.com<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"1200\" height=\"900\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Sandrine_fig7_Rodamoinholeituras-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2456\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Sandrine_fig7_Rodamoinholeituras-1.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Sandrine_fig7_Rodamoinholeituras-1-300x225.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Sandrine_fig7_Rodamoinholeituras-1-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Sandrine_fig7_Rodamoinholeituras-1-768x576.jpg 768w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Sandrine_fig7_Rodamoinholeituras-1-200x150.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><figcaption>Rodamoinho de leituras. 08. 10. 2016. Ativa\u00e7\u00e3o no MAC Niter\u00f3i. Exposi\u00e7\u00e3o coletiva <em>Ba\u00eda de Guanabara: \u00c1guas e vidas escondidas<\/em>. Foto: Sandrine Teixido e Aur\u00e9lien Gamboni.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"1200\" height=\"800\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Sandrine_fig8_Confabulacao.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2458\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Sandrine_fig8_Confabulacao.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Sandrine_fig8_Confabulacao-300x200.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Sandrine_fig8_Confabulacao-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Sandrine_fig8_Confabulacao-768x512.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><figcaption>Confabula\u00e7\u00e3o. Leituras ao Rancho Verde \u2013 Viso\u00e7o Jardim \u2013 Niter\u00f3i, 24.10.2016. Foto: Sandrine Teixido e Aur\u00e9lien Gamboni.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"1200\" height=\"800\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Sandrine_fig9_Umafabulacomoferramenta.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2460\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Sandrine_fig9_Umafabulacomoferramenta.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Sandrine_fig9_Umafabulacomoferramenta-300x200.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Sandrine_fig9_Umafabulacomoferramenta-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Sandrine_fig9_Umafabulacomoferramenta-768x512.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><figcaption><em>Uma fabula como ferramenta<\/em>. 06.08 \u2013 30.10 2016. Instala\u00e7\u00e3o e ativa\u00e7\u00f5es no MAC Niter\u00f3i. Foto: Denise Adams.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Para mais informa\u00e7\u00e3o:&nbsp; <a href=\"http:\/\/www.ataleasatool.com\">www.ataleasatool.com<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">***<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Sandrine Teixido<\/em><\/strong> <br>Autora, artista e antrop\u00f3loga. Leciona antropologia na Universidade Jean Jaur\u00e8s de Toulouse (Fran\u00e7a). Criou o projeto \u201cUm conto como ferramenta\u201d com a artista su\u00ed\u00e7a Aur\u00e9lien Gamboni em 2011. Publicou uma reescrita ecofeminista do conto de Edgar Allan Poe com Cambourakis Editions (publica\u00e7\u00e3o de fevereiro de 2011).<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\" \/>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><sup>1<\/sup> TSING L. Anna. <em>The Mushroom at The End of The World. On The Possibility of Life in Capitalist Ruins. <\/em>Princeton: Princeton University, 2017.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>2 <\/sup>POE Edgar A. [1841]. <em>The Fall of The House of Usher and Other Writings<\/em>. London, Penguin classics, 2003.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>3<\/sup> Nas reportagens sobre a trag\u00e9dia tem uma grande varia\u00e7\u00e3o nos n\u00fameros registrados de mortes, pessoas desaparecidas e outros desabrigados. O fato de n\u00e3o ter n\u00fameros confirmados continua ressoando os impactos emocionais e sociais da trag\u00e9dia e sublinha a aus\u00eancia de responsabilidade do estado. Para este ensaio utilizamos o seguinte fonte: &#8220;Morro do Bumba: triste s\u00edmbolo do problema do lixo&#8221; Revista em discuss\u00e3o, 2010, dispon\u00edvel em:\u00a0<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.senado.gov.br\/noticias\/Jornal\/emdiscussao\/revista-em-discussao-edicao-junho-2010\/noticias\/morro-do-bumba-triste-simbolo-do-problema-do-lixo.aspx\" target=\"_blank\">https:\/\/www.senado.gov.br\/noticias\/Jornal\/emdiscussao\/revista-em-discussao-edicao-junho-2010\/noticias\/morro-do-bumba-triste-simbolo-do-problema-do-lixo.aspx<\/a>\u00a0(acessado em mar\u00e7o de 2021). Outra fonte de pesquisa: LOGUERCIO, Jo\u00e3o Francisco Canto. &#8220;Morro do Bumba, Ethnografando\u00a0a transforma\u00e7\u00e3o de uma paisagem sob m\u00faltiplos olhares&#8221;, Mestrado, UFF, 2013,\u00a0p. 4<\/p>\n\n\n\n<p><sup>4<\/sup> MACLUHAN, Marshal e FIORE, Quentin. <em>The Medium is the massage<\/em>. New-York: Bantam Books, 1967.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>5<\/sup> ELIAS, Norbetl <em>Involvement and Detachment<\/em>. Hokoben:Blackwell Publishers, 1987.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>6<\/sup> LATOUR, Bruno. <em>Down to Earth. Politics in New Climatic Regime. <\/em>Cambridge: Polity Press, 2018.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>7<\/sup> CITTON, Y., e RASMI J. 2020 <em>G\u00e9n\u00e9rations collapsonautes. Perspectives d\u2019effondrements<\/em>. Paris: \u00c9ditions du Seuil, 2020.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>8 <\/sup>Gostaria de aproveitar esta oportunidade para agradecer a Michelle Sommer, cujos conhecimentos e conselhos esclarecidos me permitiram conhecer Luiz Guilherme Vergara e Jessica Gogan, e apoiar todo o processo criativo.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>9<\/sup> Tsing, Anna et al orgs., <em>Arts of living on a damaged planet. Ghosts and Monsters of the anthropoc\u00e8ne. <\/em>Minneapolis:University of Minnesota Press, 2017.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>10<\/sup> LOGUERCIO, Jo\u00e3o Francisco. <em>Morro do Bumba, Etnografando a transforma\u00e7\u00e3o de uma paisagem sob m\u00faltiplos olhares<\/em>, Mestrado, UFF, 2013.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>11 <\/sup>LARR\u00c8RE, Catherine e LARR\u00c8RE, Rapha\u00ebl. <em>Do bom uso da natureza. Para uma filosofia do meio ambiente.<\/em> Instituto Piaget: Lisboa, 1997 e 2000.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>12 <\/sup>Loguercio, 2013, <em>op. cit.<\/em>, \u00a0p.30<\/p>\n\n\n\n<p><sup>13 <\/sup>PEREIRA Vilma. <em>Desastre Ambiental: Comunidade Morro do Bumba-Niter\u00f3i, RJ. <\/em>Auto-edi\u00e7\u00e3o, Amazon, 2018.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>14 <\/sup>Entrevista realizada em novembro de 2019 na Escola Sebastiana Gon\u00e7alves Pinho, Niter\u00f3i.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>15 <\/sup>Entrevista com Joanir Felipe em 30 de junho de 2017 em Rancho Verde, Niter\u00f3i.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>16<\/sup> MACY, Joanna. \u201cWorking through environmental despair\u201d, in <em>Ecosychology<\/em>, Roszak, Gomes, &amp; Kanner, eds. Washington: Sierra Club 1995, p.2.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>17 <\/sup>Ibid<\/p>\n\n\n\n<p><sup>18 <\/sup>BAKER, Carolyn. <em>Navigating the Coming Chaos. A handbook for inner transition<\/em>. New York Bloomington, iUNiverse Inc., 2011.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>19 <\/sup>BAKER, Carolyn. <em>Collapsing Consciously. Transformative Truths for Turbulent Times<\/em>. Berkeley, North Atlantic Books, 2013. p. 28.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>20<\/sup> Ibid p. 62-66.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>21 <\/sup>Entrevista com Seu Hernandez, outobro 2016, em Rancho Verde, Niter\u00f3i.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>22<\/sup> Para mais detalhes, ver as contribui\u00e7\u00f5es de Ign\u00eas Albuquerque, Priscilla Grimberg e Leandro Almeida nesta mesma edi\u00e7\u00e3o da revista: <a href=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/do-in-eco-sistemico-de-rancho-verde-bumba-niteroi\/\">http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/do-in-eco-sistemico-de-rancho-verde-bumba-niteroi\/<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><sup>23<\/sup> BAKER, 2013, <em>op. cit.<\/em>, p. 141.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>24 <\/sup>ZHONG MEGUAL, Estelle. <em>L\u2019art en commun-R\u00e9inventer les formes du collectif en contexte d\u00e9mocratique. <\/em>Dijon, Les Presses du R\u00e9el, 2019. p. 67.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>25<\/sup> BAKER, 2013, <em>op. cit.<\/em>, p. 48.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Navegando uma paisagem assombrada: Um conto como ferramenta no Morro do Bumba Sandrine Teixido Em 2010, enquanto estava a arquivar os artigos sobre a &#8220;trag\u00e9dia do Bumba&#8221; \u2013 o desastroso [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":[],"portfolio-tags":[],"portfolio-category":[51],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio\/2443"}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-json\/wp\/v2\/types\/portfolio"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2443"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2443"}],"wp:term":[{"taxonomy":"portfolio-tags","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio-tags?post=2443"},{"taxonomy":"portfolio-category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio-category?post=2443"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}