{"id":1291,"date":"2021-03-16T11:03:31","date_gmt":"2021-03-16T14:03:31","guid":{"rendered":"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/?post_type=portfolio&#038;p=1291"},"modified":"2021-05-25T14:45:50","modified_gmt":"2021-05-25T17:45:50","slug":"jessica-barbosa-pedro-sa-moraes-diana-kolker","status":"publish","type":"portfolio","link":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/portfolio\/jessica-barbosa-pedro-sa-moraes-diana-kolker\/","title":{"rendered":"Em busca de Judith: Um di\u00e1logo entre J\u00e9ssica Barbosa, Pedro S\u00e1 Moraes e Diana Kolker"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image alignnone size-full\"><a href=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Capa_Judite_FIG-1-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" width=\"1200\" height=\"978\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Capa_Judite_FIG-1-2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1296\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Capa_Judite_FIG-1-2.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Capa_Judite_FIG-1-2-300x245.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Capa_Judite_FIG-1-2-1024x835.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Capa_Judite_FIG-1-2-768x626.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><\/a><figcaption>J\u00e9ssica Barbosa em ensaio para <em>Em Busca de Judith<\/em>. Foto: Pedro S\u00e1 Moraes.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h2>Em busca de Judith: Um di\u00e1logo entre J\u00e9ssica Barbosa, Pedro S\u00e1 Moraes e Diana Kolker <\/h2>\n\n\n\n<h3>1. Quem \u00e9 Judith?<\/h3>\n\n\n\n<p><strong><em>J\u00e9ssica Barbosa <\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Santa Teresa, Rio de Janeiro, Dezembro de 2017<\/p>\n\n\n\n<p>Pai,<\/p>\n\n\n\n<p>Como voc\u00ea est\u00e1? Como est\u00e3o todos a\u00ed? Por aqui estamos bem. C\u00edcero completou dois meses de vida. Tem sido muito bonito acompanhar o desenvolvimento t\u00e3o r\u00e1pido de um beb\u00ea. Estou completamente dedicada \u00e0 maternidade. O apoio do Pedro tem sido fundamental. Ele descobre a paternidade dele vivendo, mas mesmo ainda aprendendo n\u00e3o deixa de assumir a responsabilidade e doa\u00e7\u00e3o que um pai tamb\u00e9m dedica.<\/p>\n\n\n\n<p>Minha m\u00e3e tem sido muito companheira tamb\u00e9m. Chegou na semana que C\u00edcero nasceu. Cuidou das parteiras fazendo comida a madrugada inteira, lavou toda a roupa de cama suja de sangue depois do parto, vestiu o neto pela primeira vez, numa roupa e touca feitas por ela. Na hora do parto eu vi minha irm\u00e3 Geane parindo, eu vi minha av\u00f3 Ideuza, muitas das minhas amigas se fizeram presentes ali comigo. E foi nesse momento que ganhei for\u00e7a e o C\u00edcero nasceu.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois minha m\u00e3e voltou aqui para passar o natal com a gente. N\u00e3o poderia ser diferente. Ela trouxe com ela um livro: <em>Offere\u00e7o meu original como lembran\u00e7a<\/em> de Valter de Oliveira, marido de Nubia, minha prima, filha de Tio Antonio. Eu n\u00e3o conhe\u00e7o eles ainda, mas achei o nome do livro t\u00e3o bonito&#8230; Nesse livro eu vi pela primeira vez a foto de sua m\u00e3e, Judith. Voc\u00ea j\u00e1 viu essa foto? De certa forma me achei parecida com ela, vi que C\u00edcero tem uns tra\u00e7os dela tamb\u00e9m. Mas achei o olhar dela um pouco triste.<\/p>\n\n\n\n<p>Fiquei curiosa de saber sobre ela. Acho que as mulheres da nossa fam\u00edlia revelam um tanto sobre quem a gente \u00e9&#8230;e \u00e0s vezes parece que a vida \u00e9 uma busca da gente pela gente mesmo, por algo que revele, que d\u00ea conta, que traduza.<\/p>\n\n\n\n<p>De onde Judith veio? Quais os nomes de meus bisav\u00f3s? Lembro de voc\u00ea contar quando eu era crian\u00e7a que ela tinha morrido num acidente de autom\u00f3vel quando voc\u00ea ainda era beb\u00ea. Lembro de voc\u00ea falando tamb\u00e9m que n\u00e3o havia sido amamentado e que uma madrasta, Tia Elenita, segunda esposa de seu pai, tinha criado voc\u00ea e os outros quatro filhos dela com meu av\u00f4.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu decidi ir em busca de Judith. Sei principalmente que buscar por Judith, nesse tempo presente em que ela n\u00e3o existe mais, \u00e9 principalmente buscar a mim mesma!<\/p>\n\n\n\n<p>Te amo, J\u00e9ssica<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignnone size-full\"><a href=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-Fig-2-credito_-acervo-de-Nubia-Barbosa.jpg\"><img loading=\"lazy\" width=\"1280\" height=\"720\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-Fig-2-credito_-acervo-de-Nubia-Barbosa.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1298\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-Fig-2-credito_-acervo-de-Nubia-Barbosa.jpg 1280w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-Fig-2-credito_-acervo-de-Nubia-Barbosa-300x169.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-Fig-2-credito_-acervo-de-Nubia-Barbosa-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-Fig-2-credito_-acervo-de-Nubia-Barbosa-768x432.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1280px) 100vw, 1280px\" \/><\/a><figcaption>Foto de Judith Alves Macedo, autor desconhecido, do arquivo de N\u00fabia Barbosa, prima de J\u00e9ssica. Foi utilizada como ilustra\u00e7\u00e3o no livro <em>Offere\u00e7o meu original como lembran\u00e7a<\/em><sup>1<\/sup> de Valter de Oliveira, uma pesquisa historiogr\u00e1fica sobre a fun\u00e7\u00e3o social da fotografia no sert\u00e3o baiano.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><em><strong>Pedro S\u00e1 Moraes Carvalho<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Pouco tempo depois do nascimento de nosso filho, J\u00e9ssica soube pela primeira vez da hist\u00f3ria verdadeira de sua av\u00f3 paterna, Judith. Revelada nesse contexto, em que a vida lateja em sua beleza e fragilidade, e nossa pr\u00f3pria sanidade esbarra em seus limites, a hist\u00f3ria dessa m\u00e3e, a m\u00e3e do pai de J\u00e9ssica, afastada do filho pela institui\u00e7\u00e3o manicomial, se tornou para n\u00f3s incontorn\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Quantas Judiths h\u00e1 pelo mundo, encerradas em nome da sa\u00fade ou da lei, com metades arrancadas de si? N\u00f3s, um casal com apoio incondicional da fam\u00edlia para celebrar cada minuto da inf\u00e2ncia de nosso filho, sentimos a cicatriz dessa m\u00e3e, t\u00e3o pr\u00f3xima e t\u00e3o distante, e percebemos a miss\u00e3o de falar, atrav\u00e9s dela, de tantas m\u00e3es feridas. Dar voz ao \u00edmpeto humano mais fundamental, o amor materno, interditado pelo mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Judith nasceu em Rui Barbosa, cidadezinha do sert\u00e3o baiano. Diz-se que foi abandonada pela m\u00e3e, e casou-se ainda jovem com Ant\u00f4nio Barbosa, fiscal da prefeitura de Jacobina. Teve quatro filhos, ent\u00e3o uma gravidez de g\u00eameos que n\u00e3o vingaram, e depois mais um, o pai de J\u00e9ssica, quando ent\u00e3o foi levada para o hosp\u00edcio onde permaneceu at\u00e9 a morte.<\/p>\n\n\n\n<p>A imagem de Judith me faz pensar em minha av\u00f3 materna, Dona Zez\u00e9, que tamb\u00e9m casou-se muito jovem. Dizem que seu marido se encantou com ela, debru\u00e7ada na sacada da casa de sua m\u00e3e Balbina, costureira da elite soteropolitana, filha ileg\u00edtima de senhor de engenho e escrava-concubina. Mulheres jovens de fam\u00edlia pobre ou remediada n\u00e3o tinham escolha. Se a sorte lhes apresentava o interesse de um homem em situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica est\u00e1vel, deviam erguer as m\u00e3os e oferecer-lhes seu corpo e seu futuro.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dia, um bilhete premiado na loteria fez de minha av\u00f3 propriet\u00e1ria. Hoje h\u00e1 em Ipia\u00fa, na regi\u00e3o cacaueira da Bahia, uma escola municipal com seu nome.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez apenas a loteria permita, entre tantas Judiths, que algumas se tornem Maria Jos\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Diana Kolker Carneiro da Cunha<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Julia Moura Rolim. Seu nome chegou atrav\u00e9s de meu pai, carregado de perguntas, sil\u00eancios e faltas. Julia era sua av\u00f3 materna. Foi internada em um manic\u00f4mio em Recife, quando minha av\u00f3 era ainda crian\u00e7a. Logo depois, meu bisav\u00f4 Manoel fez um novo casamento com a filha do homem que o&nbsp; ajudou a se estabelecer no Brasil. Nascido em Portugal, meu bisav\u00f4 veio para o Brasil fugindo de seu pr\u00f3prio pai, um homem muito violento, um patriarca. Manoel nutria muita gratid\u00e3o por essa fam\u00edlia que o ajudou. Foi este mesmo senhor que acolheu meu pai no Rio de Janeiro, quando ele se transferiu de Recife para c\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Na \u00e9poca lembrei de uma conversa com a amiga Laura Gallo, nos corredores da faculdade de hist\u00f3ria, sobre a interna\u00e7\u00e3o de mulheres em institui\u00e7\u00f5es asilares, motivadas por quest\u00f5es de ordens morais e disciplinares. Este dispositivo tamb\u00e9m foi \u00fatil para viabilizar interdi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, anula\u00e7\u00f5es de casamentos, redistribui\u00e7\u00f5es de heran\u00e7as. Era uma forma de tirar de cena, apagar, as mulheres que obstaculizavam qualquer interesse.<\/p>\n\n\n\n<p>Um tempo depois, meu pai enviou uma foto digitalizada. Era ela. Dona Julia. Trajava vestido branco e v\u00e9u. A vestimenta deixava a mostra apenas suas m\u00e3os, seus pulsos e seu rosto emoldurado pela negra e lisa franja, rente \u00e0 sobrancelha. Observo a foto e seus olhos n\u00e3o encontram os meus. Em suas m\u00e3os, uma b\u00edblia aberta e um ter\u00e7o enrolado, que pendia. Seria o dia de seu casamento? Ela n\u00e3o aparentava mais que 16 anos. Suas fei\u00e7\u00f5es n\u00e3o lembram os tra\u00e7os de minha fam\u00edlia paterna, de ascend\u00eancia portuguesa. O que justificou a interna\u00e7\u00e3o? O que motivou? Onde estava sua fam\u00edlia? Quem eram? Como foi sua vida? Quando morreu?<\/p>\n\n\n\n<p>Soube que seu prontu\u00e1rio se perdeu num inc\u00eandio que atingiu o arquivo da institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde 2017, coordeno o projeto pedag\u00f3gico do Museu Bispo do Rosario Arte Contempor\u00e2nea (mBrac), situado na antiga Col\u00f4nia Juliano Moreira Rio de Janerio, que foi um dos maiores manic\u00f4mios do pa\u00eds. Imersa naquele territ\u00f3rio, conheci muitas mulheres e homens que viveram o horror manicomial. Uma das principais responsabilidades do museu, al\u00e9m da preserva\u00e7\u00e3o, pesquisa e exposi\u00e7\u00e3o de seu acervo, que tem como principal cole\u00e7\u00e3o a obra de Arthur Bispo do Rosario, \u00e9 a atua\u00e7\u00e3o no territ\u00f3rio junto aos usu\u00e1rios dos servi\u00e7os de sa\u00fade e a comunidade local, rompendo com a l\u00f3gica manicomial, atrav\u00e9s de programas que convergem arte, educa\u00e7\u00e3o e cuidado em sa\u00fade mental.<\/p>\n\n\n\n<p>Numa tarde de 2018, J\u00e9ssica Barbosa foi ao Museu colaborar na realiza\u00e7\u00e3o de um curta metragem. Conversamos sobre os projetos realizados, em especial o programa de resid\u00eancia art\u00edstica Casa B. Pouco depois, J\u00e9ssica retomou contato apresentando um projeto de resid\u00eancia para cria\u00e7\u00e3o de uma pe\u00e7a teatral, motivada pela recente descoberta de que sua av\u00f3, Judith, fora internada na Col\u00f4nia Juliano Moreira de Salvador quando seu pai tinha apenas dois meses. A descoberta chegou atrav\u00e9s de um livro, onde aparecia a foto de Judith. Assim, nos lan\u00e7amos <em>Em busca de Judith.<\/em><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignnone size-full\"><a href=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-FIG-4-credito-Jessica-Barbosa.jpg\"><img loading=\"lazy\" width=\"1200\" height=\"900\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-FIG-4-credito-Jessica-Barbosa.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1302\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-FIG-4-credito-Jessica-Barbosa.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-FIG-4-credito-Jessica-Barbosa-300x225.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-FIG-4-credito-Jessica-Barbosa-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-FIG-4-credito-Jessica-Barbosa-768x576.jpg 768w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-FIG-4-credito-Jessica-Barbosa-200x150.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><\/a><figcaption>Fotos de J\u00e9ssica Barbosa, tiradas no dia de sua primeira visita. Acima, o portal que marca a antiga entrada para a Col\u00f4nia Juliano Moreira, hoje bairro Col\u00f4nia. Abaixo, o coreto no centro da ampla \u00e1rea gramada onde situam-se v\u00e1rios dos antigos blocos de interna\u00e7\u00e3o (hoje desativados) e as ru\u00ednas da senzala do velho engenho que existia ali antes da constru\u00e7\u00e3o do Hospital, no in\u00edcio do S\u00e9culo XX.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignnone size-full\"><a href=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-FIG-3-credito-Jessica-Barbosa.jpg\"><img loading=\"lazy\" width=\"1200\" height=\"900\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-FIG-3-credito-Jessica-Barbosa.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1300\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-FIG-3-credito-Jessica-Barbosa.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-FIG-3-credito-Jessica-Barbosa-300x225.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-FIG-3-credito-Jessica-Barbosa-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-FIG-3-credito-Jessica-Barbosa-768x576.jpg 768w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-FIG-3-credito-Jessica-Barbosa-200x150.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><\/a><figcaption>Fotos de J\u00e9ssica Barbosa, tiradas no dia de sua primeira visita. Acima, o portal que marca a antiga entrada para a Col\u00f4nia Juliano Moreira, hoje bairro Col\u00f4nia. Abaixo, o coreto no centro da ampla \u00e1rea gramada onde situam-se v\u00e1rios dos antigos blocos de interna\u00e7\u00e3o (hoje desativados) e as ru\u00ednas da senzala do velho engenho que existia ali antes da constru\u00e7\u00e3o do Hospital, no in\u00edcio do S\u00e9culo XX.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h3>2. Por qu\u00ea buscar Judith?<strong><em> <\/em><\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p><strong><em>J\u00e9ssica Barbosa<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>(um telefonema, de Salvador, no in\u00edcio de 2019)<\/p>\n\n\n\n<p>Oi Diana, tudo bem? Eu estou um pouco angustiada. A gente tentou ligar pra Col\u00f4nia Juliano Moreira de Salvador para ter informa\u00e7\u00f5es sobre o que de fato minha av\u00f3 teve. Foi um dia inteiro de liga\u00e7\u00f5es, esperas, not\u00edcias de que os arquivos foram queimados durante um inc\u00eandio da unidade, de que pela data de falecimento dela os arquivos foram apagados. A\u00ed come\u00e7aram a vir tamb\u00e9m novas vers\u00f5es sobre a hist\u00f3ria dela. E parece que \u00e9 um grande quebra-cabe\u00e7as que n\u00e3o vai dar pra montar. Que realmente apagaram essa hist\u00f3ria de uma forma que vai ser imposs\u00edvel reconstituir. Mas eu fico aqui amamentando meu filho, sabe? Imaginando se, quando minha av\u00f3 foi internada, tinha leite ainda nos seus seios. E como deve ter sido duro pra ela, pra meu pai, mesmo que ainda t\u00e3o beb\u00ea, para os outros mais velhos, terem sofrido esse afastamento. A\u00ed vejo uma gera\u00e7\u00e3o inteira que adoeceu, a gera\u00e7\u00e3o dos irm\u00e3os de meu pai. Depois da minha av\u00f3, dois filhos dela tamb\u00e9m adoeceram. Muitos atribuem \u00e0 gen\u00e9tica dela, outros ao fato de que a minha bisav\u00f3 era m\u00e3e de santo. Que eles enlouqueceram porque a av\u00f3 era louca e macumbeira. Entende? Eu j\u00e1 n\u00e3o sei mais os caminhos dessa busca. Mas vejo a hist\u00f3ria de minha av\u00f3 em tantas outras mulheres, em muitas mulheres que passaram por Barbacena, em mulheres que passaram pela Col\u00f4nia do Rio, em uma prima minha que quase viveu essa mesma hist\u00f3ria da minha av\u00f3, na tua bisav\u00f3 J\u00falia&#8230; E a\u00ed, por mais que eu tenha a sensa\u00e7\u00e3o de que essa pe\u00e7a pare\u00e7a que nunca vai sair, por falta de grana, por falta de ter quem fique com nosso filho pra ensaiarmos, porque um produtor me disse que essa hist\u00f3ria de falar da av\u00f3 louca n\u00e3o vai interessar aos teatros e centros culturais\u2026.por mais que isso tudo pare\u00e7a verdade eu fico me perguntando. POR QUE PROCURAR JUDITH? E a\u00ed me dou conta de que Judith sou eu, \u00e9 voc\u00ea, \u00e9 sua bisa Julia, \u00e9 M\u00e3e Celina de Xang\u00f4, \u00e9 Leide Bonfim e suas ancestrais. A minha busca n\u00e3o \u00e9 por minha av\u00f3, mas por esse feminino que foi encarcerado como bicho, desse poder de bruxa que foi silenciado. Na verdade Diana, eu acho que n\u00f3s, diante dessa nossa for\u00e7a criadora, estamos muito perto de Deus, ou melhor n\u00f3s somos Deus, melhor ainda, somos Deusa. E, na verdade, a procura por Judith \u00e9 a procura por esse feminino. Tenho certeza de que quem enlouqueceu foram os homens, sempre t\u00e3o cheios de raz\u00e3o, t\u00e3o destitu\u00eddos de intui\u00e7\u00e3o e delicadeza. Sem medir for\u00e7as com eles, isso n\u00e3o me interessa. Acho que procurar Judith \u00e9 a minha pr\u00f3pria garantia de sa\u00fade, \u00e9 findar com certos ciclos, \u00e9 ter coragem!<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Pedro S\u00e1 Moraes<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>Rio de Janeiro, 4 de Mar\u00e7o de 1979<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Depois de alguns anos de afastamento por dolorosos mal-entendidos, meu nascimento trouxe para o Rio de Janeiro, em reconcilia\u00e7\u00e3o, uma irm\u00e3 mais velha de minha m\u00e3e, que fora em sua inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia sua presen\u00e7a materna mais forte. \u00c2ngela, voc\u00ea tem barriga limpa, teria dito ao ver o menino branquinho no ber\u00e7\u00e1rio do hospital, voc\u00ea tem barriga limpa, eu escutava a hist\u00f3ria na minha inf\u00e2ncia como se fosse uma piada engra\u00e7ad\u00edssima, olha que retr\u00f3grados meus parentes, voc\u00ea tem barriga limpa, barriga limpa!<\/p>\n\n\n\n<p>Aquilo que se repete, aquilo do qual escapamos e para o qual retornamos, \u00e9 o territ\u00f3rio.&nbsp; J\u00e9ssica vem da Bahia, territ\u00f3rio de onde tamb\u00e9m vem a fam\u00edlia de minha m\u00e3e \u2014 fam\u00edlia de pele escura, mas social e economicamente embranquecida.<\/p>\n\n\n\n<p>No \u00fanico retrato de Judith a que tivemos acesso, o tom de sua pele foi pintado at\u00e9 que se apagasse qualquer tra\u00e7o da mulher preta, filha de m\u00e3e de santo, que ela foi. No retrato, seus olhos est\u00e3o distantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu sou um homem branco. Cresci ouvindo e amando o samba que meus pais tocavam e cantavam em casa e no samba vivi minha forma\u00e7\u00e3o de m\u00fasico, convivi com os bambas, aprendi sobre a vida. Mas foi apenas atrav\u00e9s da viv\u00eancia de J\u00e9ssica, da dor e do poder de sua ancestralidade, da corda retesada entre o futuro de nosso filho e o passado de sua av\u00f3, que me dei conta do tamanho da luta que atravessa gera\u00e7\u00f5es, e de minha responsabilidade como aliado. Por isso busco Judith.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Diana Kolker <\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Voc\u00ea est\u00e1 louca. Que mulher nunca ouviu essa frase? Atualmente existe um termo em ingl\u00eas para essa pr\u00e1tica: <em>gaslighting<\/em>. E \u00e9 reconhecida como um abuso psicol\u00f3gico, dirigido \u00e0s mulheres, com o fim de manipular, controlar, enlouquecer. No Brasil, at\u00e9 meados do s\u00e9culo passado, antes da Reforma Psiqui\u00e1trica, muitas mulheres foram encerradas em hosp\u00edcios at\u00e9 o fim de suas vidas. Os asilos, que antes ficavam a cargo de ordens religiosas, passaram a ser institui\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas e orientadas pela ci\u00eancia. O manic\u00f4mio \u00e9 parte fundamental do projeto higienista e eugenista que orientou as reformas urbanas e o ideal de Brasil moderno do in\u00edcio do s\u00e9culo XX.&nbsp; Esses dispositivos se orientavam para a disciplina da popula\u00e7\u00e3o, com o fim de produzir subjetividades \u00fateis ao modelo de sociedade que se buscava construir. As ideias de que existiria um papel natural da mulher \u2013 a condi\u00e7\u00e3o de esposa e m\u00e3e \u2013 e uma condi\u00e7\u00e3o fisiol\u00f3gica de fragilidade moral, que demandaria maior controle de suas paix\u00f5es e emo\u00e7\u00f5es, produziram um l\u00e9xico m\u00e9dico que patologizou aquelas que escaparam a tais modelos.<\/p>\n\n\n\n<p>A historiadora Maria Clementina da Cunha,<sup>2<\/sup> analisando casos de mulheres que foram internadas no in\u00edcio do s\u00e9culo XX aponta que, com frequ\u00eancia, alguns dos sintomas apresentados como indicadores de loucura coincidiam: independ\u00eancia, \u201chiperexcita\u00e7\u00e3o intelectual\u201d, dedica\u00e7\u00e3o extrema \u00e0s suas profiss\u00f5es em detrimento das \u201cinclina\u00e7\u00f5es naturais\u201d. Todavia, a autora sublinha ainda as diferen\u00e7as desses dispositivos de controle em rela\u00e7\u00e3o a marcadores como ra\u00e7a, classe social e sexualidade. As mulheres negras foram as mais afetadas em termos quantitativos pela institui\u00e7\u00e3o asilar e tamb\u00e9m em termos de \u201ctratamentos\u201d a elas destinados. Situa\u00e7\u00e3o que era fundamentada nas teorias da degener\u00eancia, muito em voga no pa\u00eds, estando as mulheres negras triplamente vulnerabilizadas pela condi\u00e7\u00e3o de g\u00eanero, ra\u00e7a e classe.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, procurando Judith buscamos essas mulheres que tiveram suas vidas roubadas em nome de um projeto de na\u00e7\u00e3o. Procurando Judith, buscamos que esse passado n\u00e3o se prolongue no presente nem se repita no futuro. Procurando Judith, cuidamos dessas feridas abertas, dessas dores, dessas perdas.<\/p>\n\n\n\n<h3>3. Onde buscar Judith?<\/h3>\n\n\n\n<p><strong><em>J\u00e9ssica Barbosa<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"Making of de Em busca de Judith\" width=\"500\" height=\"281\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Ifao-knwK1k?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><figcaption>J\u00e9ssica Barbosa e Pedro S\u00e1 Moraes. Making of <em>Em busca de Judith<\/em> (8 minutos), 2021.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong><em>Pedro S\u00e1 Moraes<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>Col\u00f4nia Juliano Moreira, 23 de Julho de 2019<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Como parte de nossa resid\u00eancia art\u00edstica junto ao Museu Bispo do Rosario, organizamos uma pequena s\u00e9rie de encontros para artistas, usu\u00e1rios e moradores das vizinhan\u00e7as do museu, sobre o tema da cria\u00e7\u00e3o e narra\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias. A ideia era jogar com a fronteira entre o relato pessoal, a inven\u00e7\u00e3o, o cotidiano e o teatro, a voz e o corpo.<\/p>\n\n\n\n<p>Um grupo deliciosamente heterog\u00eaneo, com alguns j\u00e1 amigos como Arlindo de Oliveira e Ivanildo Sales, misturando-se a profissionais de sa\u00fade, colaboradores, usu\u00e1rios\u2026 Como contar uma hist\u00f3ria usando movimentos do corpo? Como repetir a hist\u00f3ria f\u00edsica que outra pessoa contou? Como continuar uma hist\u00f3ria que o parceiro iniciou? Como concatenar um passeio imagin\u00e1rio a um her\u00f3ico final de campeonato?<\/p>\n\n\n<div id=\"metaslider-id-1304\" style=\"width: 100%; margin: 0 auto;\" class=\"ml-slider-3-20-3 metaslider metaslider-flex metaslider-1304 ml-slider\">\n    <div id=\"metaslider_container_1304\">\n        <div id=\"metaslider_1304\">\n            <ul aria-live=\"polite\" class=\"slides\">\n                <li style=\"display: block; width: 100%;\" class=\"slide-1341 ms-image\"><img width=\"1200\" height=\"761\" src=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-slideshow-1_-credito-Karoline-Ruthes-1.jpg\" class=\"slider-1304 slide-1341\" alt=\"\" loading=\"lazy\" rel=\"\" title=\"Judite-slideshow-1_-cr\u00e9dito-Karoline-Ruthes\" style=\"margin-top: 1.4345238095238%\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-slideshow-1_-credito-Karoline-Ruthes-1.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-slideshow-1_-credito-Karoline-Ruthes-1-300x190.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-slideshow-1_-credito-Karoline-Ruthes-1-1024x649.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-slideshow-1_-credito-Karoline-Ruthes-1-768x487.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><div class=\"caption-wrap\"><div class=\"caption\">Fotografias tiradas em Julho de 2019, durante uma das sess\u00f5es dos \"Encontros Fabulantes\", na sala de dan\u00e7a do Polo Experimental, Museu Bispo do Ros\u00e1rio, Col\u00f4nia Juliano Moreira, Rio de Janeiro. Fotos: Karoline Ruthes.<\/div><\/div><\/li>\n                <li style=\"display: none; width: 100%;\" class=\"slide-1342 ms-image\"><img width=\"1200\" height=\"941\" src=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-slideshow-2-credito-Karoline-Ruthes-1.jpg\" class=\"slider-1304 slide-1342\" alt=\"\" loading=\"lazy\" rel=\"\" title=\"Judite-slideshow-2--cr\u00e9dito-Karoline-Ruthes\" style=\"margin: 0 auto; width: 84.53013511462%\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-slideshow-2-credito-Karoline-Ruthes-1.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-slideshow-2-credito-Karoline-Ruthes-1-300x235.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-slideshow-2-credito-Karoline-Ruthes-1-1024x803.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-slideshow-2-credito-Karoline-Ruthes-1-768x602.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><div class=\"caption-wrap\"><div class=\"caption\">Fotografias tiradas em Julho de 2019, durante uma das sess\u00f5es dos \"Encontros Fabulantes\", na sala de dan\u00e7a do Polo Experimental, Museu Bispo do Ros\u00e1rio, Col\u00f4nia Juliano Moreira, Rio de Janeiro. Fotos: Karoline Ruthes.<\/div><\/div><\/li>\n                <li style=\"display: none; width: 100%;\" class=\"slide-1343 ms-image\"><img width=\"1200\" height=\"701\" src=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-slideshow-5-credito-Karoline-Ruthes-1.jpg\" class=\"slider-1304 slide-1343\" alt=\"\" loading=\"lazy\" rel=\"\" title=\"Judite-slideshow-5,--cr\u00e9dito-Karoline-Ruthes\" style=\"margin-top: 3.9345238095238%\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-slideshow-5-credito-Karoline-Ruthes-1.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-slideshow-5-credito-Karoline-Ruthes-1-300x175.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-slideshow-5-credito-Karoline-Ruthes-1-1024x598.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-slideshow-5-credito-Karoline-Ruthes-1-768x449.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><div class=\"caption-wrap\"><div class=\"caption\">Fotografias tiradas em Julho de 2019, durante uma das sess\u00f5es dos \"Encontros Fabulantes\", na sala de dan\u00e7a do Polo Experimental, Museu Bispo do Ros\u00e1rio, Col\u00f4nia Juliano Moreira, Rio de Janeiro. Fotos: Karoline Ruthes.<\/div><\/div><\/li>\n                <li style=\"display: none; width: 100%;\" class=\"slide-1344 ms-image\"><img width=\"1200\" height=\"800\" src=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-slideshow-6-credito-Karoline-Ruthes-1.jpg\" class=\"slider-1304 slide-1344\" alt=\"\" loading=\"lazy\" rel=\"\" title=\"Judite-slideshow-6,-cr\u00e9dito-Karoline-Ruthes\" style=\"margin: 0 auto; width: 99.428571428571%\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-slideshow-6-credito-Karoline-Ruthes-1.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-slideshow-6-credito-Karoline-Ruthes-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-slideshow-6-credito-Karoline-Ruthes-1-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-slideshow-6-credito-Karoline-Ruthes-1-768x512.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><div class=\"caption-wrap\"><div class=\"caption\">Fotografias tiradas em Julho de 2019, durante uma das sess\u00f5es dos \"Encontros Fabulantes\", na sala de dan\u00e7a do Polo Experimental, Museu Bispo do Ros\u00e1rio, Col\u00f4nia Juliano Moreira, Rio de Janeiro. Fotos: Karoline Ruthes.<\/div><\/div><\/li>\n                <li style=\"display: none; width: 100%;\" class=\"slide-1345 ms-image\"><img width=\"1200\" height=\"800\" src=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-slideshow-8-credito-Karoline-Ruthes-1.jpg\" class=\"slider-1304 slide-1345\" alt=\"\" loading=\"lazy\" rel=\"\" title=\"Judite-slideshow-8,-cr\u00e9dito-Karoline-Ruthes\" style=\"margin: 0 auto; width: 99.428571428571%\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-slideshow-8-credito-Karoline-Ruthes-1.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-slideshow-8-credito-Karoline-Ruthes-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-slideshow-8-credito-Karoline-Ruthes-1-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-slideshow-8-credito-Karoline-Ruthes-1-768x512.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><div class=\"caption-wrap\"><div class=\"caption\">Fotografias tiradas em Julho de 2019, durante uma das sess\u00f5es dos \"Encontros Fabulantes\", na sala de dan\u00e7a do Polo Experimental, Museu Bispo do Ros\u00e1rio, Col\u00f4nia Juliano Moreira, Rio de Janeiro. Fotos: Karoline Ruthes.<\/div><\/div><\/li>\n                <li style=\"display: none; width: 100%;\" class=\"slide-1346 ms-image\"><img width=\"1200\" height=\"739\" src=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-slideshow-9-credito-Karoline-Ruthes-1.jpg\" class=\"slider-1304 slide-1346\" alt=\"\" loading=\"lazy\" rel=\"\" title=\"Judite-slideshow-9,-cr\u00e9dito-Karoline-Ruthes\" style=\"margin-top: 2.3511904761905%\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-slideshow-9-credito-Karoline-Ruthes-1.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-slideshow-9-credito-Karoline-Ruthes-1-300x185.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-slideshow-9-credito-Karoline-Ruthes-1-1024x631.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-slideshow-9-credito-Karoline-Ruthes-1-768x473.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><div class=\"caption-wrap\"><div class=\"caption\">Fotografias tiradas em Julho de 2019, durante uma das sess\u00f5es dos \"Encontros Fabulantes\", na sala de dan\u00e7a do Polo Experimental, Museu Bispo do Ros\u00e1rio, Col\u00f4nia Juliano Moreira, Rio de Janeiro. Fotos: Karoline Ruthes.<\/div><\/div><\/li>\n                <li style=\"display: none; width: 100%;\" class=\"slide-1347 ms-image\"><img width=\"1200\" height=\"859\" src=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-slideshow-11-credito-Karoline-Ruthes-1.jpg\" class=\"slider-1304 slide-1347\" alt=\"\" loading=\"lazy\" rel=\"\" title=\"Judite-slideshow-11,-cr\u00e9dito-Karoline-Ruthes\" style=\"margin: 0 auto; width: 92.599368035922%\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-slideshow-11-credito-Karoline-Ruthes-1.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-slideshow-11-credito-Karoline-Ruthes-1-300x215.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-slideshow-11-credito-Karoline-Ruthes-1-1024x733.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-slideshow-11-credito-Karoline-Ruthes-1-768x550.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><div class=\"caption-wrap\"><div class=\"caption\">Fotografias tiradas em Julho de 2019, durante uma das sess\u00f5es dos \"Encontros Fabulantes\", na sala de dan\u00e7a do Polo Experimental, Museu Bispo do Ros\u00e1rio, Col\u00f4nia Juliano Moreira, Rio de Janeiro. Fotos: Karoline Ruthes.<\/div><\/div><\/li>\n                <li style=\"display: none; width: 100%;\" class=\"slide-1348 ms-image\"><img width=\"1200\" height=\"800\" src=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-slideshow-10-credito-Karoline-Ruthes-1.jpg\" class=\"slider-1304 slide-1348\" alt=\"\" loading=\"lazy\" rel=\"\" title=\"Judite-slideshow-10,-cr\u00e9dito-Karoline-Ruthes-(1)\" style=\"margin: 0 auto; width: 99.428571428571%\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-slideshow-10-credito-Karoline-Ruthes-1.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-slideshow-10-credito-Karoline-Ruthes-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-slideshow-10-credito-Karoline-Ruthes-1-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-slideshow-10-credito-Karoline-Ruthes-1-768x512.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><div class=\"caption-wrap\"><div class=\"caption\">Fotografias tiradas em Julho de 2019, durante uma das sess\u00f5es dos \"Encontros Fabulantes\", na sala de dan\u00e7a do Polo Experimental, Museu Bispo do Ros\u00e1rio, Col\u00f4nia Juliano Moreira, Rio de Janeiro. Fotos: Karoline Ruthes.<\/div><\/div><\/li>\n                <li style=\"display: none; width: 100%;\" class=\"slide-1349 ms-image\"><img width=\"1200\" height=\"800\" src=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-slideshow-7-credito-Karoline-Ruthes.jpg\" class=\"slider-1304 slide-1349\" alt=\"\" loading=\"lazy\" rel=\"\" title=\"Judite-slideshow-7,-cr\u00e9dito-Karoline-Ruthes\" style=\"margin: 0 auto; width: 99.428571428571%\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-slideshow-7-credito-Karoline-Ruthes.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-slideshow-7-credito-Karoline-Ruthes-300x200.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-slideshow-7-credito-Karoline-Ruthes-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-slideshow-7-credito-Karoline-Ruthes-768x512.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><div class=\"caption-wrap\"><div class=\"caption\">Fotografias tiradas em Julho de 2019, durante uma das sess\u00f5es dos \"Encontros Fabulantes\", na sala de dan\u00e7a do Polo Experimental, Museu Bispo do Ros\u00e1rio, Col\u00f4nia Juliano Moreira, Rio de Janeiro. Fotos: Karoline Ruthes.<\/div><\/div><\/li>\n                <li style=\"display: none; width: 100%;\" class=\"slide-1350 ms-image\"><img width=\"1200\" height=\"800\" src=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-slideshow-4-credite-Karoline-Ruthes.jpg\" class=\"slider-1304 slide-1350\" alt=\"\" loading=\"lazy\" rel=\"\" title=\"Judite-slideshow-4,-cr\u00e9dite-Karoline-Ruthes\" style=\"margin: 0 auto; width: 99.428571428571%\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-slideshow-4-credite-Karoline-Ruthes.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-slideshow-4-credite-Karoline-Ruthes-300x200.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-slideshow-4-credite-Karoline-Ruthes-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-slideshow-4-credite-Karoline-Ruthes-768x512.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><div class=\"caption-wrap\"><div class=\"caption\">Fotografias tiradas em Julho de 2019, durante uma das sess\u00f5es dos \"Encontros Fabulantes\", na sala de dan\u00e7a do Polo Experimental, Museu Bispo do Ros\u00e1rio, Col\u00f4nia Juliano Moreira, Rio de Janeiro. Fotos: Karoline Ruthes.<\/div><\/div><\/li>\n                <li style=\"display: none; width: 100%;\" class=\"slide-1351 ms-image\"><img width=\"1200\" height=\"800\" src=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-slideshow-3-credito_-Karoline-Ruthes.jpg\" class=\"slider-1304 slide-1351\" alt=\"\" loading=\"lazy\" rel=\"\" title=\"Judite-slideshow-3,-cr\u00e9dito_-Karoline-Ruthes\" style=\"margin: 0 auto; width: 99.428571428571%\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-slideshow-3-credito_-Karoline-Ruthes.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-slideshow-3-credito_-Karoline-Ruthes-300x200.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-slideshow-3-credito_-Karoline-Ruthes-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-slideshow-3-credito_-Karoline-Ruthes-768x512.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><div class=\"caption-wrap\"><div class=\"caption\">Fotografias tiradas em Julho de 2019, durante uma das sess\u00f5es dos \"Encontros Fabulantes\", na sala de dan\u00e7a do Polo Experimental, Museu Bispo do Ros\u00e1rio, Col\u00f4nia Juliano Moreira, Rio de Janeiro. Fotos: Karoline Ruthes.<\/div><\/div><\/li>\n            <\/ul>\n        <\/div>\n        \n    <\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<p>Frequent\u00e1vamos a Col\u00f4nia para ensaiar, conversar com Diana e os amigos que fizemos no Polo Experimental \u2013 centro de conviv\u00eancia para os usu\u00e1rios da sa\u00fade mental da Col\u00f4nia, incluindo o Atelier Gaia, um es\u00fadio\/coletivo tamb\u00e9m para os usu\u00e1rios que abrange toda as a\u00e7\u00f5es de arte, educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade administrado pelo mBrac.<sup>3<\/sup> Ali come\u00e7amos indagar as cria\u00e7\u00f5es do Atelier Gaia, entender com o corpo aquele espa\u00e7o imantado, aquele ar parado da Zona Oeste, as rachaduras nas paredes, o coreto com seu seguran\u00e7a sonolento e a igreja quase sempre fechada.<\/p>\n\n\n\n<p>No gramado largo diante do Polo, quando n\u00e3o tinha futebol, cavalos pastavam sem pressa. Sub\u00farbio do Rio de Janeiro, antes hosp\u00edcio, antes engenho, antes territ\u00f3rio Tupinamb\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>O rio que passou em Jacobina, arrastando Judith para um manic\u00f4mio em Salvador, tamb\u00e9m passou e ainda passa, agora subterr\u00e2neo, sob o bairro da Col\u00f4nia. Na vizinhan\u00e7a, sal\u00f5es de cabeleireiro, um ou outro restaurante servindo prato feito, blocos do Minha Casa, Minha Vida, igrejas evang\u00e9licas, mil\u00edcia. Ao longe, o outro costado do Maci\u00e7o da Pedra Branca.<\/p>\n\n\n\n<p>Rio profundo.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Sussex, 28 de Mar\u00e7o de 1941<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAmado, tenho certeza de que estou enlouquecendo de novo. Sinto que n\u00e3o podemos atravessar outro daqueles per\u00edodos terr\u00edveis. Come\u00e7o a ouvir vozes, e n\u00e3o consigo me concentrar. Ent\u00e3o fa\u00e7o o que parece ser o melhor a ser feito\u201d.<sup>4<\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>Como Of\u00e9lia, arqu\u00e9tipo da mulher cuja alma encantadora \u00e9 despeda\u00e7ada pelo impacto contra o rochedo de um mundo masculino, Virginia Woolf enche os bolsos de pedras e mergulha no Rio Ouse.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 nos registros m\u00e9dicos, nos prontu\u00e1rios, nos velhos hospitais, que encontraremos Judith. Nunca saberemos de fato o que a levou ao hosp\u00edcio, o que ela viveu em sua interna\u00e7\u00e3o, o que as crian\u00e7as viveram na aus\u00eancia da m\u00e3e.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isto, buscamos Judith no rio profundo, onde mergulharam Virg\u00ednia e Of\u00e9lia, por onde navegou a Nau dos Insensatos, e, por mais que, como diz Her\u00e1clito, n\u00e3o se molhe duas vezes o p\u00e9 no mesmo rio, vidas n\u00e3o s\u00e3o \u00e1tomos, mas inst\u00e2ncias recorrentes de um fluir entre margens seculares, rumo a um oceano futuro.<\/p>\n\n\n\n<p>Judith n\u00e3o foi, ela est\u00e1. A\u00ed devemos busc\u00e1-la.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Diana Kolker<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e9ssica busca Judith em seu pr\u00f3prio corpo, em seus gestos, em sua voz, em sua imagem. J\u00e9ssica busca Judith em sua rela\u00e7\u00e3o com o filho. J\u00e9ssica busca Judith em seus documentos, seus vest\u00edgios, seus lugares, seus deslocamentos. J\u00e9ssica busca Judith em suas pesquisas e outras\/mesmas hist\u00f3rias. J\u00e9ssica busca Judith na Col\u00f4nia Juliano Moreira.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu busco Julia em Judith. Eu me busco tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<h3>4. Como buscar Judith?<\/h3>\n\n\n\n<p><strong><em>Pedro S\u00e1 Moraes<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Uma vez que o tema era necessidade art\u00edstica e pessoal para n\u00f3s dois, a pr\u00f3xima e mais delicada quest\u00e3o seria que m\u00e9todo e forma dar a esta busca. Pouco tempo depois do in\u00edcio da investiga\u00e7\u00e3o, J\u00e9ssica me convidou para ser o dramaturgo e diretor do trabalho. Testemunha permanente, em picos e vales, de sua trajet\u00f3ria e reflex\u00f5es e afetos, eu era a \u00fanica pessoa pr\u00f3xima o bastante e implicada o bastante para traduzir essa busca em propostas de palavra e som e cena. Pr\u00f3xima o bastante para que os atravessamentos tamb\u00e9m fossem meus, o desconforto, a urg\u00eancia, tamb\u00e9m fossem minhas. E tamb\u00e9m para que J\u00e9ssica, a todo momento, pudesse manter a m\u00e3o no leme, e dizer sim, n\u00e3o, para c\u00e1, para l\u00e1&#8230; \u00c9 isto!<\/p>\n\n\n\n<p>Meses depois do in\u00edcio do processo estivemos na Bahia, e algumas conversas com parentes revelaram um emaranhado de narrativas que, se ajudaram a dar vida e cor a um quadro at\u00e9 ent\u00e3o di\u00e1fano, tamb\u00e9m nos mostraram que a verdade \u201ctal-como-ela-se-deu\u201d estava irremediavelmente perdida. Dos documentos, restou uma foto e uma carta enviada pela assistente social do hosp\u00edcio \u00e0 tia mais velha de J\u00e9ssica, revelando a morte de sua m\u00e3e. Para al\u00e9m disso, vers\u00f5es, hist\u00f3rias, relatos de segunda ou terceira m\u00e3o, crivados de interpreta\u00e7\u00e3o ou preconceitos, tornados em verdade pela repeti\u00e7\u00e3o ou pela necessidade de sentido. Uma frase conhecida de Walter Benjamin (que acabou entrando na abertura do segundo ato) tornou-se uma esp\u00e9cie de norte: \u201cArticular historicamente o passado n\u00e3o significa conhec\u00ea-lo como ele de fato foi. Significa se apropriar de uma reminisc\u00eancia, tal como ela relampeja no momento de um perigo\u201d.<sup>5<\/sup> O sentido, portanto, n\u00f3s precisar\u00edamos fund\u00e1-lo, n\u00e3o no que foi, mas no que \u00e9, no presente de J\u00e9ssica e de Pedro e do pa\u00eds \u00e0 nossa volta em perigo de tornar-se novamente um campo de interna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cUma crian\u00e7a no escuro, tomada de medo, tranquiliza-se cantarolando\u201d<sup>6<\/sup> dizem Deleuze e Guattari. O mergulho nos fragmentos de relatos, na arbitrariedade e sofrimento que marcam a vida de Judith \u00e9 uma aproxima\u00e7\u00e3o perigosa, \u00e0s vezes terr\u00edvel, do caos. Ao mesmo tempo, n\u00e3o seria justo, \u00fatil, ou respeitoso lidar com essa exist\u00eancia de forma leviana ou abstrata. Buscar Judith significa estar dispostos \u00e0 viol\u00eancia do real, como clama Artaud, colocar a crueldade da vida em cena, \u201cesta espe\u0301cie de picada concreta que comporta toda sensac\u0327a\u0303o verdadeira\u201d.<sup>7<\/sup> O princ\u00edpio que encontramos para sustentar essa empreitada, frequentemente uma caminhada \u00e0s cegas, sem b\u00fassola, sob a n\u00e9voa espessa, foi a can\u00e7\u00e3o. A can\u00e7\u00e3o, mesmo estranha, \u00e9 uma esp\u00e9cie de centro est\u00e1vel no meio do caos. Atrav\u00e9s do princ\u00edpio musical do ritmo, da ciclicidade, instaura-se um territ\u00f3rio, que tamb\u00e9m \u00e9 o lugar de onde se pode sair, perder-se, arriscar-se pelo territ\u00f3rio da diferen\u00e7a. Quando se abre uma fresta no c\u00edrculo, ou quando sa\u00edmos em improviso, lan\u00e7amo-nos de encontro ao mundo, de encontro \u00e0s for\u00e7as do futuro, &nbsp;\u201csa\u00edmos de casa no fio de uma can\u00e7\u00e3ozinha\u201d.<sup>8<\/sup> J\u00e9ssica solicitou, e continua solicitando, que ao relato, o fio ininterrupto de sangue que escorre desta hist\u00f3ria que foi e que \u00e9, eu responda com versos e notas e ritmos, que s\u00e3o ao mesmo tempo o lugar da reflex\u00e3o e o lugar da tomada de f\u00f4lego para seguir adiante.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi como compositor que constru\u00ed boa parte de minha carreira art\u00edstica. O exerc\u00edcio da can\u00e7\u00e3o, a busca, dentro da ciclicidade dos ritmos e notas e versos da can\u00e7\u00e3o, pelos escapes e surpresas e rupturas, seja por um encadeamento harm\u00f4nico inusual, pela rima menos \u00f3bvia, pela nota dissonante, foram por d\u00e9cadas o cerne de minha identidade art\u00edstica, meu centro em meio ao caos do mundo. At\u00e9 que, por volta de 2016, percebi que o leito de minha vontade de cria\u00e7\u00e3o era mais fundo e largo do que aquilo que cabia no espa\u00e7o art\u00edstico reservado \u00e0s can\u00e7\u00f5es \u2013 qual seja o dos fonogramas, dos shows, dos videoclipes etc&#8230; Foi em 2016 que J\u00e9ssica e eu passamos alguns meses em resid\u00eancia art\u00edstica nos Estados Unidos, sob orienta\u00e7\u00e3o de Marina Gregory, explorando as \u201ca\u00e7\u00f5es f\u00edsicas\u201d, segundo o conceito elaborado por Jerzy Grotowski. Durante esta viv\u00eancia, pratic\u00e1vamos diariamente cantos de tradi\u00e7\u00f5es afro-caribenhas, em que o mestre polon\u00eas havia encontrado um potencial \u00fanico de integra\u00e7\u00e3o global dos movimentos do corpo com uma esp\u00e9cie de ascese laica \u2013 um sentido que nomeava \u201cverticalidade\u201d.<sup>9 <\/sup>Cant\u00e1vamos e cant\u00e1vamos e o corpo se movia, cada vez mais livre, movido a impulsos org\u00e2nicos muito sutis.<\/p>\n\n\n\n<p>Regressando ao Brasil, sabia que os pr\u00f3ximos passos n\u00e3o poderiam se afastar da m\u00fasica, mas tampouco sairiam do campo expandido do teatro. Entre 2017 e 2018, com dire\u00e7\u00e3o do mestre argentino do teatro Norberto Presta, coloquei em cena um solo baseado numa adapta\u00e7\u00e3o, entre a can\u00e7\u00e3o e a voz falada, para o <em>J<\/em><em>\u00fa<\/em><em>lio Cesar<\/em> de Shakespeare. Refletindo sobre o processo criativo da montagem, Norberto e eu decidimos basear o que faz\u00edamos de Teatro-can\u00e7\u00e3o. Uma forma de trabalho c\u00eanico em que todas as a\u00e7\u00f5es, personagens, di\u00e1logos, s\u00e3o movidos por um sentido musical, e toda a can\u00e7\u00e3o \u00e9 imbu\u00edda de intencionalidades e estabelece rela\u00e7\u00f5es. O espet\u00e1culo circulou por muitas cidades brasileiras, frequentemente acompanhado por oficinas, em que eu (ora junto a Norberto, mais frequentemente s\u00f3) conduzia artistas pelo trabalho f\u00edsico-vocal que \u00e9 hoje a coluna vertebral de minha pr\u00e1tica art\u00edstica pessoal.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando J\u00e9ssica me convidou para dividir com ela a cria\u00e7\u00e3o de <em>Em Busca de Judith<\/em>, como dramaturgo e diretor, foi por interesse nessa linguagem e nessa forma de trabalhar \u2013 entre a voz cantada e a voz falada, entre o coloquial e o verso, com um sentido musical transformando toda fala em canto, todo canto em a\u00e7\u00e3o, todo movimento em dan\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Do ponto de vista da composi\u00e7\u00e3o dramat\u00fargica, o que viemos experimentando \u00e9 uma circularidade entre tr\u00eas elementos: um ponto origin\u00e1rio, que s\u00e3o as reflex\u00f5es, experi\u00eancias e impress\u00f5es de J\u00e9ssica na busca pela hist\u00f3ria de sua av\u00f3; as can\u00e7\u00f5es, cujas sementes frequentemente eclodem de modo inesperado e introduzem um campo de reflex\u00e3o e atravessamentos que s\u00e3o onde eu mais me coloco, como artista, como pai, como cidad\u00e3o; e uma terceira opera\u00e7\u00e3o que agrega e organiza estes elementos com outras falas e ecos e mitos e atos buscando criar um arco de sentido, que seja aberto mas presente.<\/p>\n\n\n\n<p>O resultado \u00e9 for\u00e7osamente fragment\u00e1rio. E achamos bom que seja assim. O te\u00f3rico franc\u00eas Jean-Pierre Sarrazac<sup>10<\/sup> prop\u00f5e para descrever o teatro contempor\u00e2neo o conceito de raps\u00f3dia. Segundo a etimologia da palavra, <em>rhaptein<\/em>, o rapsodo \u00e9 aquele que costura, que ajusta c\u00e2nticos, trechos, elementos d\u00edspares e heterog\u00eaneos. A raps\u00f3dia se contrap\u00f5e ao conceito Aristot\u00e9lico do bom drama como um \u201cbelo animal\u201d,<sup>11 <\/sup>nem grande nem pequeno demais, em que todas as partes se ajustam entre si de modo l\u00f3gico e necess\u00e1rio, sem que a perspectiva do autor transpare\u00e7a como tal. Na raps\u00f3dia, as costuras s\u00e3o vis\u00edveis, e o olhar, as escolhas, a \u00e9tica, a reflex\u00e3o do artista tamb\u00e9m o s\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 ilus\u00e3o de imparcialidade ou transpar\u00eancia, n\u00e3o se busca a absor\u00e7\u00e3o ou o encantamento absoluto, mas a reflex\u00e3o, o questionamento, a a\u00e7\u00e3o compartilhada. Como num ritual, n\u00e3o h\u00e1 plateia, todos s\u00e3o participantes.<\/p>\n\n\n\n<p>O ritual \u00e9 uma das principais chaves de leitura para a experi\u00eancia c\u00eanica contempor\u00e2nea. Pesquisadores como Eugenio Barba<sup>12<\/sup>, Richard Schechner<sup>13<\/sup> e Jerzy Grotowski descrevem as similitudes entre as artes da cena contempor\u00e2neas e viv\u00eancias rituais de uma infinidade de culturas diferentes. Mais do que simplesmente relatar paralelos, alguns destes mestres preconizam uma rela\u00e7\u00e3o de emula\u00e7\u00e3o ou aprendizado direto com as formas c\u00eanicas rituais de culturas ancestrais como forma de levar o performer a um estado de presen\u00e7a amplificado, fortalecido, capaz de atravessar a obscuridade assustadora e a luz ofuscante sem perder o passo.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 uns meses, J\u00e9ssica, depois de repetidos enfrentamentos, durante os ensaios, com o aspecto assustador e desestabilizante da presen\u00e7a de Judith e de tantas Judiths de ontem e hoje, chegou \u00e0 conclus\u00e3o de que a \u00fanica forma vi\u00e1vel de empreender a travessia seria viv\u00ea-la como ritual. Prestar, de forma alerta e disciplinada, os respeitos devidos aos esp\u00edritos que nos atravessam e s\u00e3o a consist\u00eancia pr\u00f3pria de nossa realidade social e individual, em seus planos subconscientes. \u201c\u00c9 um Eb\u00f3\u201d, disse J\u00e9ssica. O que estamos fazendo \u00e9 uma oferenda para minha av\u00f3, para minha bisav\u00f3 Francisca, para todas as Judiths, \u00e9 um Eb\u00f3.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, descobrimos que <em>Em Busca de Judith<\/em> \u00e9 um Eb\u00f3. Um Eb\u00f3-Raps\u00f3dia.<\/p>\n\n\n\n<p>Dentro do campo das religi\u00f5es de matriz africana, a can\u00e7\u00e3o e o corpo se movem de acordo com um elemento fundamental, que instaura o estado de comunica\u00e7\u00e3o transcendente \u2013 e este elemento s\u00e3o os tambores, \u00e9 o ritmo.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m no teatro Ocidental do s\u00e9culo XX \u2013 o que corrobora com os paralelos feitos no campo da antropologia teatral \u2013 o ritmo \u00e9 um elemento crucial para a composi\u00e7\u00e3o e o trabalho de ator. Stanislavski, j\u00e1 no in\u00edcio do s\u00e9culo, chamava de tempo-ritmo<sup>14<\/sup> uma esp\u00e9cie de pulsa\u00e7\u00e3o que subjaz \u00e0s emo\u00e7\u00f5es internas e a\u00e7\u00f5es externas de cada cena. Cada personagem, fala, di\u00e1logo, \u00e9 caracterizado por um tempo-ritmo que se revela tanto na distribui\u00e7\u00e3o ao longo do tempo das s\u00edlabas e pausas, como na rela\u00e7\u00e3o destas com os movimentos f\u00edsicos, a respira\u00e7\u00e3o, o outro\u2026 O tempo-ritmo, para o mestre russo, \u00e9 parte fundamental do que confere vida, consist\u00eancia emocional org\u00e2nica, tridimensional, a um acontecimento c\u00eanico.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir deste conceito de tempo-ritmo, buscando trabalhar com J\u00e9ssica a rela\u00e7\u00e3o da m\u00fasica (aud\u00edvel ou inaud\u00edvel) com as falas, os movimentos, as inten\u00e7\u00f5es do espet\u00e1culo, elaborei um roteiro de composi\u00e7\u00e3o, que estamos experimentando em ensaios ao longo das \u00faltimas semanas. Esta ainda n\u00e3o \u00e9 uma metodologia definida, mas uma busca de, a partir da rela\u00e7\u00e3o, em idas e voltas, entre a m\u00fasica e a dimens\u00e3o oral-corp\u00f3rea, descobrirmos camadas mais profundas do sentido do espet\u00e1culo \u2013 nos aproximar\u00edamos de Judith. Eis os passos deste m\u00e9todo.<\/p>\n\n\n\n<p>1 \u2013 Durante muitos ensaios, J\u00e9ssica e eu (\u00e0s vezes acompanhado de viol\u00e3o) fomos descobrindo os contrastes, os \u201cclimas\u201d, os tempo-ritmos de cada uma das palavras e frases e trechos das primeiras cenas.<\/p>\n\n\n\n<p>2 \u2013 A partir de grava\u00e7\u00f5es e da minha mem\u00f3ria, gravei uma base musical e uma voz guia, para que J\u00e9ssica pudesse estudar o texto em rela\u00e7\u00e3o precisa com os movimentos da m\u00fasica.<\/p>\n\n\n\n<p>3 \u2013 J\u00e9ssica estudou e praticou o ritmo do texto, descobrindo as sutilezas da rela\u00e7\u00e3o entre este ritmo e os movimentos de seu corpo.<\/p>\n\n\n\n<p>4 \u2013 Ent\u00e3o eu trouxe para o ensaio uma nova grava\u00e7\u00e3o em \u00e1udio, com todos os eventos musicais, mas sem a minha voz guia, e J\u00e9ssica trabalhou sobre esta faixa, desenvolvendo a narrativa corpo-voz sobre uma pulsa\u00e7\u00e3o (ou v\u00e1rias pulsa\u00e7\u00f5es) musical j\u00e1 estabelecida e internalizada.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"Em Busca de Judith (ensaios) - Explora\u00e7\u00f5es em Teatro-Can\u00e7\u00e3o\" width=\"500\" height=\"281\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/kqmRkSUN0yo?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><figcaption>Trechos de ensaios para <em>Em Busca de Judith<\/em>, realizados em Agosto de 2020, dedicados \u00e0 explora\u00e7\u00e3o do uso de elementos musicais para composi\u00e7\u00e3o c\u00eanica. Grava\u00e7\u00e3o de Pedro S\u00e1 Moraes.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><em>Em Busca de Judith<\/em> \u00e9 o primeiro espet\u00e1culo que assino como diretor, e reconhe\u00e7o com imenso afeto a confian\u00e7a que J\u00e9ssica deposita em meus olhos e palavras. Ou\u00e7o constantemente seus questionamentos, inquieta\u00e7\u00f5es e descobertas. Busco, a cada can\u00e7\u00e3o, a cada cena, ser menos um autor e mais uma antena, um organizador de afetos. Mas sei que, \u00e0 medida que o processo avan\u00e7a, Judith \u00e9 uma busca cada vez mais minha.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Diana Kolker<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Eu possu\u00eda apenas um relato de meu pai, uma imagem e a lembran\u00e7a de um documento manuscrito que perdi nos arquivos digitais. Busquei a imagem de Julia e a enviei para familiares com a pergunta: voc\u00ea sabe quem \u00e9? A maioria n\u00e3o fazia ideia. Aos poucos que a reconheceram pedi que enviassem qualquer pista, documento, informa\u00e7\u00e3o, relato, lembran\u00e7a. Sinto-me costurando informa\u00e7\u00f5es dispersas, suposi\u00e7\u00f5es, fragmentos. O esfor\u00e7o de apagamento dessa mulher, que nos possibilitou a vida, deixou um buraco. Esse buraco \u00e9 uma ferida aberta que n\u00e3o sabemos onde est\u00e1, mas inflama.<\/p>\n\n\n\n<p>Vov\u00f3 confiou ao meu pai seus desabafos de tristeza e perda. Papai guardou essa aus\u00eancia e a entregou a mim. \u201cO que vais fazer com isso?\u201d &#8211;&nbsp; ele perguntou.&nbsp; Buscar Julia &#8211; respondi. Cuidar dela.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Em Busca de Judith<\/em>, busco Judith, busco Julia, busco J\u00e9ssica, busco Mariinha, me busco.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignnone size-full\"><a href=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-Fig-7-autorretrato-Jessica-Barbosa-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" width=\"1200\" height=\"554\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-Fig-7-autorretrato-Jessica-Barbosa-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1355\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-Fig-7-autorretrato-Jessica-Barbosa-1.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-Fig-7-autorretrato-Jessica-Barbosa-1-300x139.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-Fig-7-autorretrato-Jessica-Barbosa-1-1024x473.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Judite-Fig-7-autorretrato-Jessica-Barbosa-1-768x355.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><\/a><figcaption>Autorretrato de J\u00e9ssica Barbosa, inspirado na fotografia de Judith.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">***<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Diana Kolker Carneiro da Cunha<\/em><\/strong> <br>Curadora pedag\u00f3gica no Museu Bispo do Ros\u00e1rio Arte Contempor\u00e2nea, onde coordena o projeto art\u00edstico-pedag\u00f3gico da institui\u00e7\u00e3o,&nbsp;que inclui programas como a Casa B e o Atelier Gaia, al\u00e9m de compor a curadoria e a media\u00e7\u00e3o dos programas expositivos. Mestra em Estudos Contempor\u00e2neos das Artes (UFF), especialista em Pedagogia da Arte (UFRGS), bacharela&nbsp;e licenciada em Hist\u00f3ria (PUCRS).<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>J\u00e9ssica\u00a0Barbosa<\/em><\/strong><br>Atriz baiana, \u00e9 formada em teatro pela Escola Martins Penna e em dan\u00e7a pela Faculdade Angel Vianna. Estreou profissionalmente com o filme<em> Besouro<\/em> (2009), ganhando o pr\u00eamio de atriz revela\u00e7\u00e3o no Festival de Cinema Negro de S\u00e3o Paulo. Tamb\u00e9m no cinema, participou de longas como <em>Na Quebrada<\/em>, <em>Morma\u00e7o<\/em> e <em>O Pai da Rita<\/em>. No teatro, trabalhou com grandes diretores como Aderbal Freire Filho e Marco Andr\u00e9 Nunes. Dirigiu ou co-dirigiu os curtas <em>Cicatriz<\/em> (2017), <em>A Namoradeira<\/em> (2019) e <em>(re)trato<\/em> (2020). Artista residente no Museu Bispo do Rosario desde 2018, prepara o solo <em>Em Busca de Judith<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Pedro S\u00e1 Moraes Carvalho<\/em><\/strong> <br>Vencedor do Pr\u00eamio Profissionais da M\u00fasica de 2016 na categoria Melhor Cantor Nacional, o ator e m\u00fasico tem quatro CDs lan\u00e7ados e dezenas de turn\u00eas internacionais no curr\u00edculo. Desde 2005, transita entre a m\u00fasica e as artes c\u00eanicas. Dirigido por Norberto Presta, estreou em 2018 o solo <em>A Paix\u00e3o de Brutus<\/em>, uma adapta\u00e7\u00e3o original do <em>Julius Caesar<\/em> de Shakespeare para a linguagem do teatro-can\u00e7\u00e3o. A pesquisa sobre esta linguagem segue se desdobrando atrav\u00e9s do espet\u00e1culo <em>Em Busca de Judith<\/em>, em que atua como dramaturgo e diretor, e numa pesquisa de doutorado em Artes da Cena na UNICAMP.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\" \/>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><sup>1<\/sup> OLIVEIRA, Valter. <em>Offere\u00e7o meu original como lembran\u00e7a <\/em>(Salvador: EDUNEB, 2017)<\/p>\n\n\n\n<p><sup>2<\/sup> PEREIRA CUNHA, Maria Clementina. \u201cLoucura, g\u00eanero feminino: As mulheres do Juquery na S\u00e3o Paulo do in\u00edcio do s\u00e9culo XX\u201d <em>Revista Brasileira de Hist\u00f3ria<\/em> (S\u00e3o Paulo, v.9, n\u00ba18, ago.\/set., 1989) 121 \u00e0 144.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>3<\/sup> Nota editora: Administrado pelo Museu Bispo do Ros\u00e1rio Arte Contempor\u00e2nea, o Polo Experimental de Conviv\u00eancia, Educa\u00e7\u00e3o e Cultura integra arte, educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade no desenvolvimento de seus programas. Suas atividades s\u00e3o realizadas no Centro de Conviv\u00eancia, na sede do mBrac, no territ\u00f3rio onde o museu se localiza e nas redes sociais vinculadas ao Museu. Dentre seus programas est\u00e3o inclu\u00eddos: a Casa B (Resid\u00eancia art\u00edstica); Atelier Gaia; o projeto de gera\u00e7\u00e3o da renda arte, horta e CIA;&nbsp; o programa de integra\u00e7\u00e3o psicossocial e visitas mediadas \u00e0s exposi\u00e7\u00f5es. Para mais informa\u00e7\u00e3o: http:\/\/museubispodorosario.com\/polo-exp\/o-polo-experimental<\/p>\n\n\n\n<p><sup>4<\/sup> WOOLF, Virginia. <em>In: Cartas extraordin\u00e1rias<\/em>, Shaun Usher organiza\u00e7\u00e3o e tradu\u00e7\u00e3o de Hildegard Feist (S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2014) p. 49.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>5<\/sup> BENJAMIN, Walter. \u201cSobre o conceito de hist\u00f3ria\u201d in<em> Obras escolhidas. Vol. 1. Magia e t\u00e9cnica, arte e pol\u00edtica<\/em> (S\u00e3o Paulo, Brasiliense, 1987), p. 224.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>6<\/sup> DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Felix.<em> Mil Plat\u00f4s \u2013 capitalismo e esquizofrenia, v.4<\/em> (S\u00e3o Paulo, ed. 34, 1997), p.100.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>7<\/sup> ARTAUD, Antonin. <em>O teatro e seu duplo <\/em>(S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2006) p.90.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>8<\/sup> <em>Mil plat\u00f4s <\/em>op.cit., p. 102.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>9<\/sup> GROTOWSKI Jerzy. <em>O teatro laborat\u00f3rio de Jerzy Grotowski &#8211; 1959-1969 <\/em>(S\u00e3o Paulo: Perspectiva, 2001) p. 232-237.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>10<\/sup> SARRAZAC, Jean-Pierre et al., org. <em>L\u00e9xico do drama moderno e contempor\u00e2neo<\/em> (S\u00e3o Paulo: Cosac Naify, 2012) p. 126-130.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>11<\/sup> ARIST\u00d3TELES. <em>Po\u00e9tica <\/em>(Lisboa: Imprensa Nacional\/Casa da Moeda, 2010) pp. 113-114.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>12<\/sup> BARBA, Eugenio.&nbsp; <em>A Arte Secreta do Ator<\/em> (S\u00e3o Paulo: \u00c9 Realiza\u00e7\u00f5es, 2012).<\/p>\n\n\n\n<p><sup>13<\/sup> SCHECHNER, Richard. <em>Between Theater and Anthropology <\/em>(Philadelphia, University of Pensilvania Press, 1985).<\/p>\n\n\n\n<p><sup>14<\/sup> STANISLAVSKI, Konstantin, <em>An Actor Prepares <\/em>(Reddich: Read Books, 2015) p.279.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\" \/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\"><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em busca de Judith: Um di\u00e1logo entre J\u00e9ssica Barbosa, Pedro S\u00e1 Moraes e Diana Kolker 1. 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