{"id":1270,"date":"2021-03-28T10:53:58","date_gmt":"2021-03-28T13:53:58","guid":{"rendered":"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/?post_type=portfolio&#038;p=1270"},"modified":"2021-05-28T15:55:00","modified_gmt":"2021-05-28T18:55:00","slug":"tania-kolker","status":"publish","type":"portfolio","link":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/portfolio\/tania-kolker\/","title":{"rendered":"Agenciamentos \u00e9tico-est\u00e9tico-pol\u00edticos na repara\u00e7\u00e3o dos danos causados pela viol\u00eancia de Estado"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image alignnone size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"816\" height=\"584\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/tania.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2955\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/tania.jpg 816w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/tania-300x215.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/tania-768x550.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 816px) 100vw, 816px\" \/><figcaption>Ata gr\u00e1fica de Luis Zorraquino durante audi\u00eancia p\u00fablica da Comiss\u00e3o Estadual da Verdade.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h2>Agenciamentos \u00e9tico-est\u00e9tico-pol\u00edticos na repara\u00e7\u00e3o dos danos causados pela viol\u00eancia de Estado<\/h2>\n\n\n\n<h4>Tania Kolker<\/h4>\n\n\n\n<p>\u00c0 Estrella Bohadana, que, destro\u00e7ada pela tortura, reinventou a vida no encontro com a dan\u00e7a e a filosofia.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao Paulinho Fontelles Filho, que, nascido no c\u00e1rcere, talhou-se em luta e poesia.<\/p>\n\n\n\n<h3>1\u00ba tempo \u2013 o Projeto Cl\u00ednicas do Testemunho e os avan\u00e7os e retrocessos na pol\u00edtica reparat\u00f3ria brasileira<\/h3>\n\n\n\n<p>O que dizer de um acontecimento, em que a possibilidade de dar sentido a experi\u00eancias h\u00e1 tanto tempo silenciadas refizeram os la\u00e7os entre as palavras e o mundo e restitu\u00edram a capacidade de fundar novos mundos? Como iluminar esse instante onde passado e futuro se tocaram, inaugurando outro campo de poss\u00edveis? Como dar l\u00edngua ao que deu in\u00edcio \u00e0 outra temporalidade, ainda por vir? Estas foram perguntas que se colocaram durante minha escrita sobre a mostra \u201cDestempos: Testemunho como pr\u00e1tica po\u00e9tica\u201d. Realizar um encontro entre arte, cl\u00ednica e pol\u00edtica era uma proposta h\u00e1 muito desejada por todos que passaram pelo Projeto Cl\u00ednicas do Testemunho. Mas, quando come\u00e7ou a ganhar corpo, o Projeto j\u00e1 estava finalizando, sem perspectiva de renova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde 2013, o Estado Brasileiro iniciara um projeto piloto para a repara\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica dos afetados pela ditadura civil-militar. Desenvolvido pela Comiss\u00e3o de Anistia \u2013 \u00f3rg\u00e3o vinculado ao Minist\u00e9rio de Justi\u00e7a \u2013, o objetivo do Projeto Cl\u00ednicas do Testemunho era garantir o atendimento psicol\u00f3gico e produzir subs\u00eddios para a constru\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica p\u00fablica voltada para a aten\u00e7\u00e3o aos afetados pela viol\u00eancia do Estado. At\u00e9 ent\u00e3o, embora o Estado Brasileiro j\u00e1 tivesse reconhecido a pr\u00e1tica de viola\u00e7\u00f5es e arcado com algumas repara\u00e7\u00f5es, o pr\u00f3prio modelo reparat\u00f3rio contribu\u00edra para gerar silenciamento e ressentimento. Como as repara\u00e7\u00f5es se deram por via administrativa e s\u00f3 foram reconhecidas as viola\u00e7\u00f5es que atingiram os anistiados por causas pol\u00edticas, foi adotada uma perspectiva excludente, que invisibilizou a a\u00e7\u00e3o do aparelho repressivo contra os setores mais pauperizados da popula\u00e7\u00e3o e impediu que a sociedade como um todo se percebesse como afetada, aprofundando o isolamento dos ex-perseguidos pol\u00edticos. Esse modelo s\u00f3 come\u00e7ou a mudar em 2007, quando a Comiss\u00e3o de Anistia, sob a Presid\u00eancia de Paulo Abr\u00e3o, ampliou o escopo da repara\u00e7\u00e3o, implantando o Projeto Cl\u00ednicas do Testemunho, criando Centros de Estudos em Repara\u00e7\u00e3o Ps\u00edquica (CERPs) para a futura extens\u00e3o deste direito aos demais afetados<sup>1<\/sup> e instituindo algumas medidas simb\u00f3licas voltadas para o restante da sociedade. A partir de ent\u00e3o e at\u00e9 a nova interrup\u00e7\u00e3o do Estado Democr\u00e1tico de Direito, al\u00e9m das medidas supracitadas, esse \u00f3rg\u00e3o passou a examinar os pedidos de anistia em sess\u00f5es p\u00fablicas (muitas vezes nos pr\u00f3prios locais onde as viola\u00e7\u00f5es ocorreram), a incluir o testemunho dos perseguidos pol\u00edticos e o pedido de desculpas do Estado nos ritos reparat\u00f3rios e a apoiar projetos de mem\u00f3ria em parceria com a sociedade civil e universidades.<\/p>\n\n\n\n<p>Naquele momento, \u00e0s v\u00e9speras dos 50 anos do golpe civil-militar, vivia-se uma intensifica\u00e7\u00e3o da disputa pelo sentido dos acontecimentos do per\u00edodo. Por um lado, o Supremo Tribunal Federal mantivera a extens\u00e3o da anistia aos torturadores e, por outro, a Corte Interamericana condenara o Estado Brasileiro pelas mortes e desaparecimentos no Araguaia, obrigando-o a rever a Lei de Anistia e a garantir aten\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica aos familiares. Na mesma \u00e9poca, a Presidenta Dilma instituiu a Comiss\u00e3o Nacional da Verdade, que, apesar de ter recebido severas cr\u00edticas, tanto dos afetados pela repress\u00e3o como dos interessados em neg\u00e1-la, sua simples exist\u00eancia contribuiu para a cria\u00e7\u00e3o de centenas de Comiss\u00f5es Estaduais, Municipais e Setoriais, e disparou a realiza\u00e7\u00e3o de in\u00fameras atividades pol\u00edticas, acad\u00eamicas, art\u00edsticas e psicanal\u00edticas que possibilitaram a aproxima\u00e7\u00e3o de ex-perseguidos pol\u00edticos e familiares que nunca haviam falado sobre as torturas sofridas. O fato de esses relatos estarem em todos os lugares e de, finalmente, haver um reconhecimento p\u00fablico das viola\u00e7\u00f5es, come\u00e7ava a garantir condi\u00e7\u00f5es para uma nova rela\u00e7\u00e3o com o passado.<\/p>\n\n\n\n<p>Tendo em vista este cen\u00e1rio, iniciamos as atividades do Projeto Cl\u00ednicas do Testemunho, com a oferta de dispositivos cl\u00ednicos para a realiza\u00e7\u00e3o de testemunhos p\u00fablicos. Sair do silenciamento e ajudar outros a sa\u00edrem, encontrar modos de narrar o que se passou, contribuir para o esclarecimento dos casos e devolver a hist\u00f3ria \u00e0 sua dimens\u00e3o coletiva, se apresentava como um imperativo \u00e9tico a alcan\u00e7ar, mas apontava para dificuldades a enfrentar. Afinal, como lembrar aquilo que, para seguir vivendo, foi necess\u00e1rio esquecer? Como colocar em palavras o que justamente testemunhava o poder de fazer calar? Segundo vasta literatura, \u00e9 imposs\u00edvel narrar o trauma. Ao mesmo tempo, denunciar a tortura \u00e9 um passo fundamental na luta por justi\u00e7a e no processo reparat\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Se para os afetados diretos era dif\u00edcil narrar as viola\u00e7\u00f5es sofridas em carne pr\u00f3pria, para os que viveram o terror na inf\u00e2ncia, ou herdaram as dolorosas marcas de seus antepassados, as dificuldades pareciam ainda mais intranspon\u00edveis, restando apenas marcas afetivas n\u00e3o somente indiz\u00edveis, como impens\u00e1veis. Como, ent\u00e3o, dar linguagem a essas experi\u00eancias se estamos falando de algo que n\u00e3o podia ser esquecido, mas tamb\u00e9m n\u00e3o podia ser lembrado?<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse momento, o que estava em jogo era a possibilidade de \u201cdevir testemunha\u201d<sup>2<\/sup> e n\u00e3o o de apresentar um relato factual sobre a tortura. Considerando a dimens\u00e3o produtiva da linguagem e entendendo o testemunho como um ato performativo que tanto ilumina o que se passou como dispara novos processos de subjetiva\u00e7\u00e3o, o que se buscava era a oportunidade de acessar aquilo que ficara suspenso no tempo e sem lugar na hist\u00f3ria. Esses momentos, verdadeiramente autopoi\u00e9ticos, em que os testemunhos impactam tanto o que \u00e9 poss\u00edvel ver e dizer como a pr\u00f3pria pot\u00eancia de produ\u00e7\u00e3o de si, s\u00e3o momentos em que a vida pode bifurcar-se e deixar para tr\u00e1s modalidades subjetivas aprisionadas ao passado, ensaiando novos modos de experimentar a vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante cerca de quatro anos, o Cl\u00ednicas do Testemunho contribuiu com a repara\u00e7\u00e3o dos sofrimentos ps\u00edquicos causados pela tortura, bem como com a irradia\u00e7\u00e3o desses efeitos \u00e0 sociedade, apoiando a escuta dos testemunhos e oferecendo recursos terap\u00eauticos para a elabora\u00e7\u00e3o coletiva do terror.<sup>3<\/sup> Contudo, 53 anos ap\u00f3s o golpe de 1964, cujas viola\u00e7\u00f5es haviam sido documentadas por mais de uma centena de Comiss\u00f5es da Verdade, o Brasil voltava a sofrer nova interrup\u00e7\u00e3o do ciclo democr\u00e1tico. Nesse novo cen\u00e1rio, em que come\u00e7avam a serem suspensos os recursos para os programas de direitos humanos e se tornavam frequentes declara\u00e7\u00f5es p\u00fablicas a favor da tortura e de torturadores, o Projeto que deveria ter sido transformado em pol\u00edtica p\u00fablica ia ser finalizado. Encerrar, portanto, o ano de 2017, percebendo a disposi\u00e7\u00e3o de luta dos seus participantes, nos convocava a prosseguir. Discutia-se nos espa\u00e7os terap\u00eauticos o retrocesso nas pol\u00edticas reparat\u00f3rias; defendia-se a posi\u00e7\u00e3o de que estas alcan\u00e7assem a todos os afetados pela viol\u00eancia do Estado, do passado e do presente; intensificava-se a parceria com os demais coletivos em luta por Mem\u00f3ria, Verdade e Justi\u00e7a e surgiam propostas de debates e de atividades cl\u00ednico-pol\u00edtico-po\u00e9ticas.<\/p>\n\n\n\n<h3>2\u00ba tempo: buscando intercessores para dar linguagem a um acontecimento&#8230;&nbsp;<strong>&nbsp;<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>O que iremos narrar reabriu gavetas interditadas \u00e0 mem\u00f3ria, possibilitando a comunica\u00e7\u00e3o entre mundos h\u00e1 muito apartados, reatando la\u00e7os de confian\u00e7a e disparando novos poss\u00edveis. Diz-se, dos traumas causados por torturas perpetradas por Estados ditatoriais, que, por falta de reconhecimento social, eles ficariam retornando, como alma penada, sem liga\u00e7\u00f5es com o presente, sem poder tornar-se passado, nem servir de experi\u00eancia para a\u00e7\u00f5es futuras. Arrastados ao longo da vida como um corpo estranho, por um lado, permaneceriam dissociados e imunes \u00e0 passagem do tempo e, por outro, se insinuariam por todas as brechas, sendo causa de repeti\u00e7\u00f5es incessantes. Por sua vez, for\u00e7adas ao silenciamento e tendo que se enfrentar solitariamente com essas marcas, as pessoas atingidas por tais viola\u00e7\u00f5es recorreriam ao mecanismo de repeti\u00e7\u00e3o como forma de domin\u00e1-las. Como se para sair da posi\u00e7\u00e3o passiva, s\u00f3 lhes restasse reproduzir indefinidamente o choque, que, desta forma, seria normalizado e perderia a intensidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, o que poderia ser apreendido apenas em seu car\u00e1ter negativo de aprisionamento ao passado, tamb\u00e9m pode ser interpretado como tentativa de recupera\u00e7\u00e3o da capacidade de agir que a tortura pretendia liquidar. Como o objetivo de tais viola\u00e7\u00f5es \u00e9 destruir todas as formas de resist\u00eancia ao poder e ocultar os rastros e provas desta destrui\u00e7\u00e3o, a obstina\u00e7\u00e3o inconsciente na repeti\u00e7\u00e3o n\u00e3o deixaria de ter um qu\u00ea de luta contra o esquecimento for\u00e7ado. Como nos diz Francisco Ortega, em sua qualidade de acontecimento negado pela realidade e de mem\u00f3ria p\u00fablica ainda por realizar, o que n\u00e3o pode ser recordado, mas tamb\u00e9m n\u00e3o pode ser esquecido, estaria sempre a participar, mesmo sem saber, da luta envolvendo \u201csentidos por esclarecer, mem\u00f3rias por defender ou impugnar, legados que operam de maneira silenciosa\u201d.<sup>4<\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>Embora os estudos sobre o traum\u00e1tico costumem dar destaque para a dimens\u00e3o individual das compuls\u00f5es \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o, vale lembrar que esse mecanismo, mesmo aparentemente cerrado sobre si, precisa da participa\u00e7\u00e3o do meio para se realizar. Ainda que ele fixe os sujeitos em modos reativos, tornando-os transmissores de um legado de horror, tamb\u00e9m os fazem repetir apostas que, a qualquer momento, podem levar a caminhos in\u00e9ditos. Tendo em vista a dimens\u00e3o processual das subjetividades e o car\u00e1ter aberto dos acontecimentos, \u00e9 no presente e nos agenciamentos com o mundo que o traum\u00e1tico se decide e os elementos recha\u00e7ados do passado podem ganhar novos sentidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, se para as concep\u00e7\u00f5es representacionistas da linguagem \u00e9 imposs\u00edvel narrar o trauma, com a vertente pragm\u00e1tica s\u00e3o abertas outras perspectivas para esta tramita\u00e7\u00e3o ps\u00edquica. Contudo, para aqueles que passaram por situa\u00e7\u00f5es-limite e tiveram sua exist\u00eancia dividida entre um antes e um depois, n\u00e3o basta produzir sentido para tais acontecimentos. J\u00e1 que o que aconteceu rompeu com a continuidade da exist\u00eancia e da vis\u00e3o de si e dos outros, \u00e9 preciso poder reinventar a liga\u00e7\u00e3o com o mundo. E para que a linguagem possa dar conta da atividade de cria\u00e7\u00e3o de novos sentidos, h\u00e1 que considerar os componentes extralingu\u00edsticos e n\u00e3o lingu\u00edsticos do acontecimento.<sup>5<\/sup> O contr\u00e1rio \u00e9 a condena\u00e7\u00e3o \u00e0 incomunicabilidade e \u00e0 eterna presentifica\u00e7\u00e3o do traum\u00e1tico.<\/p>\n\n\n\n<p>Como, de forma solit\u00e1ria, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel produzir mudan\u00e7as subjetivas, faz toda diferen\u00e7a se isso se d\u00e1 com pessoas isoladas ou organizadas em coletivos. Nesse \u00faltimo caso, a participa\u00e7\u00e3o em lutas por justi\u00e7a e repara\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de sustentar a liga\u00e7\u00e3o com o mundo, \u00e9 sempre uma oportunidade para a vida continuar se inventando. Como disse Cec\u00edlia Coimbra, \u00e0 \u00e9poca Presidenta do Grupo Tortura Nunca Mais\/RJ:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>A den\u00fancia, o tornar p\u00fablico, retiram-nos do territ\u00f3rio do segredo, da clandestinidade, do privado. Com isso, sa\u00edmos do lugar de v\u00edtima fragilizada, despotencializada e ocupamos o da resist\u00eancia, da luta, daquele que passa a perceber que seu caso n\u00e3o \u00e9 um acontecimento isolado; ele se contextualiza, faz parte de outros e sua den\u00fancia, esclarecimento e puni\u00e7\u00e3o dos respons\u00e1veis abre caminho e fortalece novas den\u00fancias, novas investiga\u00e7\u00f5es. A dimens\u00e3o coletiva desse caminho se afirma e, com isso, temos a possibilidade de come\u00e7ar a tocar na impunidade; de mostrar que tal quadro \u2013 onde as puni\u00e7\u00f5es nunca acontecem \u2013 pode ser mudado, pode ser revertido. (&#8230;) Publicizar, retirar do espa\u00e7o privado, coletivizar e politizar a luta para que os danos sofridos sejam reparados tem sido, portanto, um importante caminho para os atingidos direta e indiretamente pela viol\u00eancia do Estado.<sup>6<\/sup><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Pelo contr\u00e1rio, quanto mais se nega o ocorrido, maior sua capacidade de aprisionar o presente. \u00c9 quando o mecanismo de clivagem, ao inv\u00e9s de proteger, pode levar a funcionamentos mort\u00edferos. Como bolhas de tempo, ele \u00e9 capaz de estourar a qualquer momento e reativar o terror, ou permanecer enquistado e se transmitir \u00e0s gera\u00e7\u00f5es seguintes. Utilizado como meio de blindagem afetiva, esse mecanismo tamb\u00e9m pode produzir um tipo de subjetividade voltada a evitar que algo aconte\u00e7a<em>,<\/em> comprometendo as possibilidades de recria\u00e7\u00e3o da vida. Como se, diante do temor de voltar a sofrer, a pr\u00f3pria vida em seu devir se tornasse amea\u00e7adora. N\u00e3o suportando ser atravessada por for\u00e7as que n\u00e3o controla, os encontros e sua pot\u00eancia de produzir <em>outramentos<\/em><sup>7<\/sup> seriam evitados. J\u00e1 n\u00e3o havendo necessidade de grades e carcereiros o c\u00edrculo se fecharia.<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, al\u00e9m da pura repeti\u00e7\u00e3o e da luta pol\u00edtica, h\u00e1 outros jeitos de trazer \u00e0 cena o que n\u00e3o p\u00f4de ser integrado \u00e0 experi\u00eancia individual ou coletiva, seja com o apoio de dispositivos cl\u00ednicos, seja por meios testemunhais, ou pela via da arte. De qualquer maneira, como o verdadeiro alvo do terror \u00e9 a pot\u00eancia de luta,<sup>8<\/sup> o destino do trauma depender\u00e1 da forma com que o Estado e a sociedade respondam ao acontecido. Ser tratado como algo sem valor por agentes do Estado pode ser aniquilador, mas n\u00e3o ter for\u00e7a suficiente para consolidar a destrui\u00e7\u00e3o. Se a essa a\u00e7\u00e3o se segue uma resposta do Estado e da sociedade, negando legitimidade \u00e0 tortura, o sentimento de pertencimento do atingido n\u00e3o \u00e9 afetado e a luta preserva seu sentido. Mas, quando o Estado e a sociedade agem como se nada tivesse acontecido, os v\u00ednculos que o ligam aos demais s\u00e3o profundamente abalados. Segundo o&nbsp; psicanalista Erik Erikson, \u201cO eu continua existindo, ainda que tenha sofrido dano e mesmo mudan\u00e7as permanentes; o tu continua existindo, ainda que distante, e pode ser dif\u00edcil se relacionar com ele; mas o n\u00f3s deixa de existir\u201d.<sup>9<\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>Pelo mesmo motivo, os destinos do trauma refletem a maneira com que os dispositivos <em>psi<\/em> lidam com ele. Nesse caso, abordagens cl\u00ednicas a servi\u00e7o da produ\u00e7\u00e3o de subjetividades interiorizadas e voltadas para a hist\u00f3ria infantil, em detrimento da realidade externa, tendem a intensificar a cis\u00e3o entre o individual e o coletivo e a refor\u00e7ar as dificuldades de agir sobre o presente.<sup>10<\/sup> J\u00e1 interven\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas que consideram a indissociabilidade entre cl\u00ednica e pol\u00edtica e entre mem\u00f3ria individual e coletiva contribuem para a repara\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica do dano e ajudam a produzir bifurca\u00e7\u00f5es nos modos de vida dominados por repeti\u00e7\u00f5es mort\u00edferas. Alinhada com essa \u00faltima perspectiva, mas apoiada em Nietzsche para escapar do que ele chama de doen\u00e7a hist\u00f3rica, a psic\u00f3loga Cristina Rauter nos lembra que h\u00e1 que acertar as contas com o passado, mas sem descuidar do que pode potencializar a abertura ao novo. Buscando intercessores na arte e na filosofia e concluindo que n\u00e3o h\u00e1 como apagar as marcas do tempo, mas, sim, produzir novos sentidos para o acontecimento, Rauter nos instiga a buscar outros modos de acessar as marcas traum\u00e1ticas. Como ela nos aponta, com a linguagem \u00e9 poss\u00edvel descolar do vivido imediato. Contudo, como entre o vivido e o representado sempre existir\u00e1 um fosso intranspon\u00edvel, para acessar o plano intensivo da experi\u00eancia, podem ser necess\u00e1rias outras estrat\u00e9gias cl\u00ednicas.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, quando iniciamos o Cl\u00ednicas do Testemunho, decidimos experimentar novos dispositivos cl\u00ednico-pol\u00edticos, considerando essa <em>inven\u00e7\u00e3o <\/em>como parte indissoci\u00e1vel do processo terap\u00eautico. Igualmente, quando se colocou a oportunidade de conjugar ato cl\u00ednico e ato pol\u00edtico de repara\u00e7\u00e3o, logo ficou clara a import\u00e2ncia dos testemunhos, j\u00e1 anunciada no nome do Projeto. Como ouvimos de v\u00e1rios participantes, a possibilidade de testemunhar na Comiss\u00e3o de Anistia e nas Comiss\u00f5es da Verdade, colocando-se como agente na constru\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria, denunciando as viola\u00e7\u00f5es, identificando nomes de torturadores e locais de tortura e recebendo o pedido de desculpas do Estado, teve um importante papel nos processos terap\u00eauticos.<\/p>\n\n\n\n<p>Mergulhados nesta experi\u00eancia coletiva, passamos a entender os testemunhos como uma figura de transmiss\u00e3o, que, al\u00e9m de trazer \u00e0 luz acontecimentos negados, era um chamado \u00e0 responsabilidade do Estado e um convite a novos testemunhos.<sup>11<\/sup> Contrapondo-se aos efeitos da tortura que visam \u00e0 irradia\u00e7\u00e3o do terror e \u00e0 ruptura do tecido social, essas narrativas n\u00e3o valem apenas pelo que dizem. Valem, tamb\u00e9m, pelas aus\u00eancias presentes que evocam, pelos retalhos de mem\u00f3rias que devolvem \u00e0 constru\u00e7\u00e3o coletiva e pelos processos, simultaneamente p\u00fablicos e privados, pol\u00edticos e subjetivos, que disparam, enla\u00e7ando a todos \u00e0 sua parte da responsabilidade pela constru\u00e7\u00e3o dessa hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignnone size-full\"><a href=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig.2.jpg\"><img loading=\"lazy\" width=\"960\" height=\"640\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig.2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1273\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig.2.jpg 960w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig.2-300x200.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig.2-768x512.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 960px) 100vw, 960px\" \/><\/a><figcaption>Instala\u00e7\u00e3o de Mariana Lydia Bertoche, artista pl\u00e1stica, que lan\u00e7ou o livreto Rota Transbordada na mostra \u201cDestempos\u201d, em homenagem ao av\u00f4 Mury Jorge Lydia, ex-preso pol\u00edtico, a quem n\u00e3o conheceu.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Se nos dois primeiros anos foram frequentes as oportunidades de testemunhos, com o fim dos trabalhos das Comiss\u00f5es da Verdade, nos concentramos na constru\u00e7\u00e3o de dispositivos cl\u00ednicos para a elabora\u00e7\u00e3o das mem\u00f3rias traum\u00e1ticas.<sup>12<\/sup> Considerando sua capacidade de fixa\u00e7\u00e3o e a import\u00e2ncia da quebra do silenciamento para a desprivatiza\u00e7\u00e3o dos danos, oferecemos diferentes tipos de dispositivos grupais como estrat\u00e9gia de interven\u00e7\u00e3o na experi\u00eancia privada da viol\u00eancia, e utilizamos a metodologia cartogr\u00e1fica para avaliar coletivamente os processos.<sup>13<\/sup> Al\u00e9m disso, para dar passagem aos componentes intensivos do vivido, conclu\u00edmos que era preciso oferecer outras formas de express\u00e3o. Embora j\u00e1 utiliz\u00e1ssemos o trabalho corporal tamb\u00e9m percebemos a necessidade de recursos est\u00e9ticos. Nesse sentido, realizar a mostra \u201cDestempos: Testemunho como pr\u00e1tica po\u00e9tica\u201d foi fundamental para reafirmar nossa perspectiva \u00e9tico-est\u00e9tica-pol\u00edtica, sobretudo nesse momento de desconstru\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas reparat\u00f3rias. Como, de acordo com Jorge Bond\u00eda, \u201ca experi\u00eancia \u00e9 o que nos passa, o que nos acontece e n\u00e3o o que se passa e o que acontece\u201d<sup>14<\/sup>, valer-se de diferentes linguagens e do agenciamento de componentes heterog\u00eaneos de enuncia\u00e7\u00e3o, n\u00e3o para representar o horror, mas para ativar a capacidade de afetar e ser afetado e integrar os componentes intensivos do vivido, contribuiu com a subjetiva\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia e a cria\u00e7\u00e3o de um outro destino para essas marcas.<\/p>\n\n\n\n<p>Que esta atividade tenha sido acolhida pela Companhia Brasileira de Mysterios e Novidades, situada no Bairro da Sa\u00fade, onde pol\u00edticas de silenciamento foram sistematicamente usadas para encobrir as viola\u00e7\u00f5es do per\u00edodo p\u00f3s-abolicion\u00e1rio, n\u00e3o nos deixou esquecer o papel das interven\u00e7\u00f5es estatais nas disputas de sentido da mem\u00f3ria. Al\u00e9m disso, que tal mostra \u2013 n\u00e3o casualmente nomeada de \u201cDestempos\u201d \u2013 tenha ocorrido entre a finaliza\u00e7\u00e3o do Cl\u00ednicas do Testemunho e o in\u00edcio de uma nova etapa da luta, ainda por inventar, nos possibilitou viver a experi\u00eancia habitados pela pergunta: que mem\u00f3ria desse novo tempo h\u00e1 de advir da\u00ed?<\/p>\n\n\n\n<p>Para narrar esse acontecimento e lidar com sua dimens\u00e3o de inacabamento buscamos recursos em Amery, Artaud, Benjamin, Deleuze, Derrida, Ferenczi, James e Nietzsche, atravessados pelas potentes leituras de Lapoujade, Lissovsky, Gagnebin, Gondar e Rauter. David Lapoujade, citando James, diz que a tarefa da filosofia \u201cn\u00e3o \u00e9 procurar o verdadeiro ou o racional, e sim, nos dar raz\u00f5es para acreditar nesse mundo\u201d.<sup>16<\/sup> Como quem perde a confian\u00e7a no mundo j\u00e1 n\u00e3o pode agir, James prop\u00f5e uma filosofia que torne nossa a\u00e7\u00e3o novamente poss\u00edvel. N\u00e3o uma filosofia na qual possamos acreditar, mas uma filosofia que nos fa\u00e7a acreditar.<sup>16<\/sup> Essa, pois, parece ter sido a maior voca\u00e7\u00e3o do Cl\u00ednicas do Testemunho. Apesar do seu curto tempo de dura\u00e7\u00e3o, tornou poss\u00edvel voltar a confiar no mundo e recuperar o melhor de nossas utopias.<\/p>\n\n\n\n<h3>3\u00ba tempo: abrindo novas paisagens &#8211; a constru\u00e7\u00e3o da mostra Destempo<\/h3>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignnone size-full\"><a href=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig.3.jpg\"><img loading=\"lazy\" width=\"960\" height=\"540\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig.3.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1275\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig.3.jpg 960w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig.3-300x169.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig.3-768x432.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 960px) 100vw, 960px\" \/><\/a><figcaption>\u201cDestempos\u201d. Foto de instala\u00e7\u00e3o na entrada da mostra.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>O mundo \u00e9 <em>b\u00e3o<\/em>, Sebasti\u00e3o!<br>Amanh\u00e3 h\u00e1 de raiar um novo dia! <br>Amanh\u00e3!<br>Ser\u00e1 um lindo dia<br>Da mais louca alegria<br>Que se possa imaginar<br>Amanh\u00e3!<br>Redobrada a for\u00e7a<br>Pr\u00e1 cima que n\u00e3o cessa<br>H\u00e1 de vingar<br>Amanh\u00e3!<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">Nando Reis<\/p>\n\n\n\n<p>Em certo momento come\u00e7ou a ser discutida a ideia da mostra e Anita Sobar, jovem artista pl\u00e1stica, integrante do grupo de Filhos e Netos por Mem\u00f3ria, Verdade e Justi\u00e7a, lan\u00e7ou uma convoca\u00e7\u00e3o. Propondo a realiza\u00e7\u00e3o de uma mostra de arte-testemunho e oferecendo-se como curadora, sua ideia era possibilitar o testemunho de afetados pela viol\u00eancia do Estado, valendo-se da enuncia\u00e7\u00e3o criadora. Convidando \u00e0 experimenta\u00e7\u00e3o de outras linguagens, n\u00e3o para \u201ca ilustra\u00e7\u00e3o ou representa\u00e7\u00e3o do horror\u201d, mas para \u201ca ativa\u00e7\u00e3o do legado dessa for\u00e7a de (re) existir\u201d, sua proposta era valer-se \u201cda arte como possibilidade de converter a viol\u00eancia e o trauma em pot\u00eancia de agir, pensar e criar\u201d.&nbsp;Para tanto, sugeria \u201ctornar p\u00fablicos os arquivos privados para uma verdadeira reinven\u00e7\u00e3o da escrita\/costura entre o p\u00fablico e o privado, quebrando barreiras de sil\u00eancio e potencializando a luta por verdade, mem\u00f3ria e justi\u00e7a\u201d.<sup>17<\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>A aprova\u00e7\u00e3o foi un\u00e2nime. Ademais, o fato de estarmos t\u00e3o pr\u00f3ximos \u00e0 favela da Provid\u00eancia \u2013 erguida em 1897 por ex-escravos e ex-combatentes da Revolta de Canudos, no territ\u00f3rio onde ocorrera um dos maiores levantes populares da cidade \u2013, logo fez nascer a ideia de terminarmos as apresenta\u00e7\u00f5es com um cortejo pelas imedia\u00e7\u00f5es. A evidenciar os estratagemas da mem\u00f3ria oficial, o mercado onde houve o motim j\u00e1 n\u00e3o existia. No lugar fora constru\u00eddo um quartel da Pol\u00edcia Militar e uma pra\u00e7a, que ganhara o nome extra-oficial de Pra\u00e7a da Harmonia. A inten\u00e7\u00e3o era dedicar a primeira parte da mostra aos testemunhos das pessoas atendidas no Projeto, finalizando com uma performance p\u00fablica e o relato da hist\u00f3ria do territ\u00f3rio, conduzidos por Felipe Lott, sobrinho de um ex-preso pol\u00edtico barbaramente torturado e neto de uma ex-deputada assassinada durante a ditadura. Isso possibilitaria atravessarmos dois momentos do passado, o mais recente, dentro da casa e o mais remoto, aberto \u00e0 participa\u00e7\u00e3o dos moradores locais.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o poder\u00edamos imaginar a pot\u00eancia do que viria. Enquanto alguns escreviam uma carta-manifesto reivindicando a continua\u00e7\u00e3o do Cl\u00ednicas do Testemunho, outros concebiam suas propostas de apresenta\u00e7\u00e3o, com ou sem a presen\u00e7a dos terapeutas, mas com a delicada e po\u00e9tica escuta de Anita, que em parceria com Dario Gularte (cineasta e curador que ficou respons\u00e1vel pela filmagem do evento) visitou arquivos e guardados pessoais, recuperando diversos objetos e fragmentos de hist\u00f3rias at\u00e9 ent\u00e3o invis\u00edveis ou silenciadas. Por outro lado, sendo eles tamb\u00e9m filhos de perseguidos pol\u00edticos, sua pr\u00f3pria participa\u00e7\u00e3o no Cl\u00ednicas do Testemunho e na mostra \u201cDestempos\u201d era uma importante oportunidade de ressignifica\u00e7\u00e3o de fatos dolorosos de sua hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse ponto, vale destacar um momento de bifurca\u00e7\u00e3o experimentado no processo. Estamos nos referindo ao instante em que, em meio aos guardados de um dos grupos, ao ouvir o tilintar de gelos em um copo de u\u00edsque, Anita penetrou numa atmosfera que lhe lembrou seu pai. Acessando um universo incompreens\u00edvel para a crian\u00e7a assustada que um dia ela fora e dividida entre a responsabilidade assumida junto ao coletivo e a imagem atormentada do pai, Anita chegou a viver momentos de paralisa\u00e7\u00e3o. Poderia seguir escutando aquilo que ele silenciara por tanto tempo? Agora, como parte de um coletivo, n\u00e3o precisava ficar sozinha com esta decis\u00e3o. Na medida em que a vontade de construir mem\u00f3ria e lutar por repara\u00e7\u00e3o era afirmada por todos, uma nova escolha \u00e9tica podia ser feita. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Textos escritos no calor das lutas e fugas foram compartilhados; poesias, desenhos e cartas da pris\u00e3o foram desengavetados; interdi\u00e7\u00f5es e silenciamentos incorporados <em>\u00e0 normalidade<\/em> puderam ser abandonados e a \u201cvis\u00e3o\u201d de um novo tempo come\u00e7ou a despontar. Concordando com Walter Benjamin, que a mem\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 um dep\u00f3sito de coisas encerradas, nem uma rua de m\u00e3o \u00fanica<sup>18<\/sup>, e que \u00e9 no agora que o passado e o futuro se tocam e se transfiguram, a proposta da mostra, al\u00e9m de buscar as marcas e restos congelados<sup>19<\/sup>, era reabrir a vida e as narrativas para novas conex\u00f5es. Nesse caso, a oferta de outras linguagens para a constru\u00e7\u00e3o dos testemunhos poderia ajudar a acessar mem\u00f3rias corporais e afetivas mais rec\u00f4nditas. Como, de acordo com Deleuze, \u201co que a hist\u00f3ria capta dos acontecimentos \u00e9 a sua efetua\u00e7\u00e3o em estados de coisa, mas o acontecimento em seu devir, escapa \u00e0 hist\u00f3ria\u201d<sup>20<\/sup>, o importante agora, mais do que refazer os la\u00e7os entre palavras e acontecimentos, era a oferta de linguagens que escapassem das limita\u00e7\u00f5es do plano das formas e das representa\u00e7\u00f5es e nos conectasse ao plano das for\u00e7as, mais aberto ao devir e \u00e0 dimens\u00e3o ainda irrealizada do presente.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignnone size-full\"><a href=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig.4.jpg\"><img loading=\"lazy\" width=\"960\" height=\"540\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig.4.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1277\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig.4.jpg 960w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig.4-300x169.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig.4-768x432.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 960px) 100vw, 960px\" \/><\/a><figcaption>Cantinho de guardados de Beatriz Vieira, com cart\u00f5es e cartas de seu pai.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Se os testemunhos que, at\u00e9 ent\u00e3o, escut\u00e1ramos s\u00f3 davam conta do que podia ser narrado, agora tamb\u00e9m pod\u00edamos contar com o suporte de mem\u00f3ria de diversos objetos do passado e a figura\u00e7\u00e3o por meio de imagens. Segundo J\u00f4 Gondar, como acontece nos sonhos traum\u00e1ticos, a possibilidade de se expressar por meio de imagens j\u00e1 implica algum trabalho ps\u00edquico, uma vez que cria algo onde s\u00f3 existiam impress\u00f5es sem forma. Diferindo, portanto, da representa\u00e7\u00e3o, a figura\u00e7\u00e3o \u00e9 uma presentifica\u00e7\u00e3o. Por meio dela a viv\u00eancia traum\u00e1tica pode ser captada e fazer algum tipo de enlace para a intensidade que, at\u00e9 ent\u00e3o, s\u00f3 existia em estado bruto.<sup>21<\/sup> Foi o que pudemos perceber com os desenhos de Pedro Brezensky Villela. Filho do ex-preso pol\u00edtico Carlos Gomes Vilela Filho, Pedro, um dia, trouxe-nos sua pasta com desenhos antigos, apenas com o objetivo de ilustrar sua dificuldade de finalizar aquilo que come\u00e7ava, e sem atentar para a for\u00e7a de seus tra\u00e7os, ou perceber o quanto eles gritavam (ou choravam). Nesse dia, apesar dos meus coment\u00e1rios sobre a ang\u00fastia que eles expressavam, era vis\u00edvel que ele n\u00e3o se dera conta de como havia conseguido torn\u00e1-la comunic\u00e1vel. Foi preciso esperar o dia da mostra para, enfim, atravessar o fosso que se erguera entre ele e ele mesmo, entre ele e o mundo. At\u00e9 ent\u00e3o, era como se seu grito n\u00e3o tivesse sido ouvido por ningu\u00e9m, nem por ele pr\u00f3prio. Mais do que isso, ele nem percebera o que o seu desenho expressava. Eram apenas desenhos.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignnone size-full\"><a href=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig.5.jpg\"><img loading=\"lazy\" width=\"960\" height=\"720\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig.5.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1279\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig.5.jpg 960w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig.5-300x225.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig.5-768x576.jpg 768w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig.5-200x150.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 960px) 100vw, 960px\" \/><\/a><figcaption>Alguns desenhos de Pedro Brezensky Villela.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h3>4\u00ba tempo \u2013 viajando juntos<\/h3>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Aqui h\u00e1 tempos atingi aquele ponto central de onde descobri a verdade: que minha vida \u00e9 irremediavelmente pobre. N\u00e3o que me falte alguma coisa. Vou a concertos e exposi\u00e7\u00f5es, leio muitos livros e revistas, tenho uma discoteca e biblioteca razo\u00e1veis, tenho amigos e rela\u00e7\u00f5es, em suma nada me falta para ter uma bela vida. Mas criou-se uma esp\u00e9cie de fosso a minha volta. \u00c9 invis\u00edvel, mas est\u00e1 l\u00e1, e faz-se sentir mesmo no meio do concerto mais empolgante [&#8230;]. H\u00e1 um grande buraco no meio das pessoas que lhes abafa a fala e absorve as vozes que v\u00eam dos outros. Foi este buraco que descobri em mim e que n\u00e3o mais deixei de ver.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">Jos\u00e9 Gil<sup>22<\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>A solid\u00e3o daquele que n\u00e3o pode confiar em si, ou no mundo, \u00e9 um sentimento familiar \u00e0s pessoas afetadas pela viol\u00eancia de Estado. Diferentemente do ex\u00edlio for\u00e7ado em terras estrangeiras, que carrega a permanente expectativa da volta, do ins\u00edlio na pr\u00f3pria p\u00e1tria n\u00e3o h\u00e1 como, nem para onde voltar, at\u00e9 porque, geralmente, n\u00e3o h\u00e1 sequer a percep\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o se est\u00e1 mais l\u00e1. Segundo Jean Am\u00e9ry, um escritor austr\u00edaco que sobreviveu \u00e0 passagem por alguns campos de concentra\u00e7\u00e3o, mas acabou suicidando-se alguns anos depois, aquele que foi submetido \u00e0 tortura \u00e9 incapaz de voltar a se sentir em casa.<sup>23<\/sup> Essa declara\u00e7\u00e3o nos d\u00e1 a medida do dano sofrido por ele, j\u00e1 que n\u00e3o est\u00e1 falando da perda da confian\u00e7a em algu\u00e9m ou em uma institui\u00e7\u00e3o e sim da perda da capacidade de confiar e da experi\u00eancia de n\u00e3o se sentir seguro nem no pr\u00f3prio corpo. No limite, o mundo perde toda significa\u00e7\u00e3o, nada mais parece importar, toda a\u00e7\u00e3o se mostra in\u00f3cua, ou pelo contr\u00e1rio, tudo o que pode alterar o equil\u00edbrio duramente alcan\u00e7ado pode ser visto como uma invas\u00e3o indesej\u00e1vel.<sup>24<\/sup> A consequ\u00eancia disto, nos casos mais graves, pode ser um funcionamento ps\u00edquico voltado para a tentativa de neutraliza\u00e7\u00e3o de qualquer possibilidade de afeta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Se a experimenta\u00e7\u00e3o \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o e para a realiza\u00e7\u00e3o de nossa mostra era preciso confiar, como entregar-se \u00e0quela experi\u00eancia coletiva, se j\u00e1 n\u00e3o se podia contar com a disposi\u00e7\u00e3o do Estado em reparar o dano, nem dispor de tempo para a continuidade do processo? Se essas duas condi\u00e7\u00f5es haviam deixado de existir, ainda era poss\u00edvel contar com a cria\u00e7\u00e3o de um plano de experi\u00eancia comum, em que todos se lan\u00e7assem juntos na mesma aventura. Foi nesse momento que iniciamos a prepara\u00e7\u00e3o da mostra e, totalmente fora de nossas zonas de conforto (inclusive os terapeutas), precisamos, literalmente, confiar uns nos outros (e fiar com).<\/p>\n\n\n\n<h3>Testemunhos<\/h3>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignnone size-full\"><a href=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig.6.jpg\"><img loading=\"lazy\" width=\"960\" height=\"640\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig.6.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1281\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig.6.jpg 960w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig.6-300x200.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig.6-768x512.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 960px) 100vw, 960px\" \/><\/a><figcaption>Sebasti\u00e3o (Paulo C\u00e9sar de Castro) e Mariana (A\u00edda Bezerra) durante o testemunho na mostra Destempos.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Ao ouvirmos Sebasti\u00e3o ser chamado por Mariana, em um dos momentos iniciais da mostra, fomos transportados para aquele lugar <em>a destempo<\/em>, onde ele p\u00f4de narrar, pela primeira vez, sua hist\u00f3ria. Fomos, ent\u00e3o, apresentados \u00e0quele rapaz de 23 anos que estudava psicologia, fazia teatro, escrevia poesias e militava no movimento estudantil. O combinado era que, para ajud\u00e1-lo a trazer a situa\u00e7\u00e3o \u00e0 cena, Mariana chamaria o seu nome, tal qual fizera o agente da repress\u00e3o, no momento de sua pris\u00e3o. Sem deter-se no relato de seu sequestro e tortura e mostrando a \u00fanica p\u00e1gina que restou do manuscrito do livro de poesias que acabara de escrever quando ocorreu sua deten\u00e7\u00e3o, Sebasti\u00e3o pretendia falar sobre o dia em que a recuperou, tr\u00eas meses depois. Como ela lhe foi devolvida com as anota\u00e7\u00f5es de um agente da repress\u00e3o, com cr\u00edticas \u00e0 sua ideologia, mas elogios ao seu estilo, Sebasti\u00e3o nunca mais quis abrir-se \u00e0 cria\u00e7\u00e3o. Faz\u00ea-lo seria, de alguma forma, agradar ao torturador, coisa totalmente intoler\u00e1vel. Entretanto, como Mariana n\u00e3o conseguiu (ou n\u00e3o quis) reproduzir o tom amea\u00e7ador do sequestrador de Sebasti\u00e3o e, pelo contr\u00e1rio, chamou-o como o teria chamado se aquele encontro, nos idos de 1972, tivesse sido com ela, algo se bifurcou, desviando o rumo do seu relato e trazendo de volta, n\u00e3o o Sebasti\u00e3o do momento posterior \u00e0 pris\u00e3o e tortura, mas aquele que escrevia poesias e amava o teatro. Tal qual o tilintar do gelo no copo de u\u00edsque, que por um momento conectara Anita com o sofrimento do pai, para logo remet\u00ea-la \u00e0 pot\u00eancia de seu atual coletivo, o contato com o chamado de Mariana deslocou-o do lugar que permanecera desde ent\u00e3o, possibilitando que ele terminasse seu testemunho com uma posi\u00e7\u00e3o subjetiva diferente da que iniciou. J\u00e1 que resistir ao torturador lhe exigira n\u00e3o mais expressar-se publicamente de forma criativa, agora a motiva\u00e7\u00e3o para silenciar perdera o sentido.<\/p>\n\n\n\n<p>Se me refiro ao relato de Sebasti\u00e3o como um testemunho, \u00e9 por entend\u00ea-lo como um ato performativo, necessariamente relacional, que al\u00e9m de comunicar o que se passou, dispara novos processos de subjetiva\u00e7\u00e3o, tanto em quem p\u00f4de falar, como em quem p\u00f4de ouvir. Isso significa que o papel dos testemunhos n\u00e3o \u00e9 produzir provas objetivas para uma investiga\u00e7\u00e3o, embora suas informa\u00e7\u00f5es sejam fundamentais para trazer \u00e0 luz o que permanecia ocultado. Como apontam Alexei Indursky e Karine Szuchman, psicanalistas que atuaram no N\u00facleo do Rio Grande do Sul do Cl\u00ednicas do Testemunho, a exig\u00eancia de \u201cdizer a verdade, nada mais do que a verdade\u201d aprisiona a testemunha ao tempo passado e ao medo da contradi\u00e7\u00e3o, impedindo-a de atualizar o efeito do acontecimento traum\u00e1tico em sua vida.<sup>25 <\/sup>Pelo contr\u00e1rio, enquanto o paradigma jur\u00eddico exige que a testemunha relate <em>ipsis litteris<\/em> como se deram os fatos, o processo de devir testemunha \u2013 al\u00e9m de p\u00f4r fim ao mandato de silenciamento e tornar diz\u00edvel a experi\u00eancia-limite que unia torturado e torturador \u2013 \u00e9 capaz de reabrir as vers\u00f5es estanques da hist\u00f3ria e ativar a capacidade de cria\u00e7\u00e3o de novos sentidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Se \u201cnada do que um dia aconteceu pode ser considerado perdido para a hist\u00f3ria\u201d e \u201ccada acontecimento abriga uma semente de eternidade que \u00e9 como uma \u2018reserva de porvir\u201d, [&#8230;] se \u201co acontecimento ficou pra tr\u00e1s, mas o que dele resta em mim, no presente, n\u00e3o \u00e9 o seu passado consumado (seu \u2018passado perfeito\u2019), mas aquilo que do passado se desprende e salta em dire\u00e7\u00e3o do futuro (o \u2018futuro do pret\u00e9rito\u2019)\u201d<sup>26<\/sup>, \u00e9 na mem\u00f3ria e numa nova liga\u00e7\u00e3o entre passado e futuro que se pode reencontrar o escritor que Sebasti\u00e3o teria sido. E \u00e9 nesse instante que o acontecimento pode ser reconhecido e encontrar sua pot\u00eancia de transfigura\u00e7\u00e3o. Para Benjamin, essa seria a tarefa do historiador-catador, capaz de identificar no passado os germes de uma outra hist\u00f3ria e farejar aquilo que, no cont\u00ednuo aparente do tempo, teria pot\u00eancia de se desprender e reencantar os acontecimentos.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-medium\"><img loading=\"lazy\" width=\"200\" height=\"300\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/82305843009214955669-200x300.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2824\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/82305843009214955669-200x300.jpg 200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/82305843009214955669.jpg 640w\" sizes=\"(max-width: 200px) 100vw, 200px\" \/><figcaption>A\u00edda e a leitura de suas poesias escritas na pris\u00e3o.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><a name=\"_edn1\" href=\"#_ednref1\"><\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Por sua vez, Mariana, que come\u00e7ara a desenhar e a escrever poesias durante sua pris\u00e3o, p\u00f4de l\u00ea-las pela primeira vez em p\u00fablico e compartilhar suas tristes, mas belas imagens po\u00e9ticas. Tratadas, at\u00e9 ent\u00e3o, como \u201ccrises hist\u00e9ricas\u201d, sem qualquer valor hist\u00f3rico ou est\u00e9tico e trancadas a sete chaves ap\u00f3s sua liberta\u00e7\u00e3o, estas imagens precisaram ser atravessadas pelo (re)encontro com Sebasti\u00e3o e a escuta sens\u00edvel dos demais participantes da mostra, para serem reconhecidas como a estrat\u00e9gia que a manteve viva e em estado de cria\u00e7\u00e3o, naquele lugar especializado em quebrar dignidades e obter informa\u00e7\u00f5es. Naquele momento, de grande solid\u00e3o, valeu-lhe tamb\u00e9m o acesso a um rico imagin\u00e1rio, recheado de hist\u00f3rias populares, que lhe permitiram sentir-se em companhia de seu amado povo e inventar, tal qual Sherazade, uma s\u00e9rie de enredos e escapar dos estratagemas usados pelo torturador para mant\u00ea-la sob seu jugo e poder. Para ela, t\u00e3o familiarizada com a arte de narrar, a vida p\u00f4de seguir seu fluxo, embora, devido \u00e0s fugas e ex\u00edlios for\u00e7ados e a morte de tantos companheiros, nunca mais tivesse podido recuperar sua comunidade de origem. Nesse sentido, sua experi\u00eancia no Cl\u00ednicas do Testemunho e sua possibilidade de voltar a compartilhar suas hist\u00f3rias funcionaram como se ela estivesse de volta a sua terra.&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse ponto vale retornar ao di\u00e1logo com Benjamin, que entre 1933 e 1936 escreveu seus artigos sobre o fim da experi\u00eancia e sua possibilidade de transmiss\u00e3o. Nesses textos, Benjamin reflete sobre a incapacidade narrativa dos soldados que voltaram do <em>front<\/em> e sobre o estado de choque vivido por uma gera\u00e7\u00e3o \u201cque ainda fora \u00e0 escola num bonde puxado por cavalos\u201d<sup>27<\/sup>&nbsp;e agora passava, n\u00e3o apenas por uma sangrenta guerra, mas tamb\u00e9m por radicais transforma\u00e7\u00f5es subjetivas desencadeadas pelo desenvolvimento do capitalismo e pela desagrega\u00e7\u00e3o das formas comunit\u00e1rias de vida. Segundo a fil\u00f3sofa Jeanne Marie Gagnebin, uma das condi\u00e7\u00f5es para a preserva\u00e7\u00e3o da arte de contar \u00e9 que a experi\u00eancia transmitida pelo relato seja comum ao narrador e ao ouvinte e que ambos se insiram em um fluxo narrativo comum, aberto ao fazer juntos.<sup>28<\/sup> Quando mem\u00f3ria e tradi\u00e7\u00e3o comuns j\u00e1 n\u00e3o existem e quando cessam as possibilidades de experi\u00eancia coletiva, n\u00e3o se pode contar com a for\u00e7a salvadora da mem\u00f3ria. Resta o indiv\u00edduo isolado diante do choque e da aus\u00eancia de sentido.<\/p>\n\n\n\n<p>O contr\u00e1rio, contudo, tamb\u00e9m pode ocorrer, quando se d\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es para uma experi\u00eancia coletiva. Foi o que aconteceu quando ouvimos a leitura dramatizada que Henrique Lott fez do relato de seu tio Noilton<sup>29<\/sup> sobre a experi\u00eancia vivida na tortura. Acompanh\u00e1-lo at\u00e9 o fim foi tremendamente angustiante, mas viver aquela experi\u00eancia quase que sensorial, de t\u00e3o literal, foi fundamental para produzirmos uma mem\u00f3ria coletiva. Como mencionamos acima, costuma-se dizer que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel narrar a tortura. Ou os que admitem essa possibilidade dizem que isso s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel mediante uma descri\u00e7\u00e3o literal, atendo-se ao \u201cosso das coisas\u201d. Para Gondar, \u00e9 o que se pode ver na poesia de Paul Celan, ou no teatro de Antonin Artaud. Segundo ela, Artaud entendia que \u201cpara se chegar ao osso \u00e9 preciso se arriscar a perder a carne. A literalidade seria justamente essa linguagem sem carne, uma linguagem dissecada que tende em linha reta, sem nenhuma sinuosidade ou mascaramento, ao osso duro do real\u201d.<sup>30<\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>Essa experi\u00eancia igualmente nos revelou que, para lidarmos com o relato de situa\u00e7\u00f5es vividas na tortura, \u00e9 preciso dispor-se a <em>sentir com e n\u00e3o<\/em> <em>falar sobre<\/em>. Como a tortura desgoverna a mente e o corpo, entregando suas fun\u00e7\u00f5es \u00e0s rea\u00e7\u00f5es mais desconhecidas e descontroladas, as pessoas torturadas costumam apelar para dissocia\u00e7\u00f5es, como forma de manter essas mem\u00f3rias \u00e0 dist\u00e2ncia e tornar poss\u00edvel o seguimento da vida. Ao ouvirmos o relato do tio de Henrique \u2013 a que ora parecia colocar-se na perspectiva dos torturadores (como que para tentar entender a mec\u00e2nica da tortura e perceber o que queriam produzir nele), ora parecia referir-se ao seu funcionamento mental, como ao de um outro (como se a descri\u00e7\u00e3o de sua desconstru\u00e7\u00e3o fosse uma forma de reapropria\u00e7\u00e3o de si) \u2013, fomos nos constituindo num corpo coletivo, trans-tornado pelo que escut\u00e1vamos, como \u00fanica forma de atravessarmos aquele testemunho dilacerante sem sairmos dilacerados.<\/p>\n\n\n\n<p>Em dado momento, contudo, Ana levantou-se e ia deixando o recinto. Ao chegarmos perto para acolh\u00ea-la, soubemos que, durante uma sess\u00e3o de tortura, ela tinha sido acareada com o tio de Henrique. Quando perguntamos como ela se sentia, sua primeira resposta foi uma hesita\u00e7\u00e3o, uma pausa para a auto-observa\u00e7\u00e3o. Em seguida, se dando conta, pela primeira vez, de que estava podendo ouvir tal relato, sem precisar fugir de si, acabou retornando para junto dos demais. Isso ajudou-nos a entender que os que n\u00e3o podem escutar as pessoas torturadas, deixando-as sozinhas com a viv\u00eancia do horror, podem ser os mesmos que passaram por situa\u00e7\u00e3o semelhante. Assim, aquilo que poderia parecer um descaso, ou uma indiferen\u00e7a, seria justamente um dos efeitos da tortura, tendo como objetivo isolar, apartar, cortar as liga\u00e7\u00f5es do torturado com os seus pr\u00f3prios afetos e com os dos demais. Para ela que tamb\u00e9m fora barbaramente torturada, escutar aquele relato e pensar sobre as estrat\u00e9gias dos torturadores, ganhando alguma exterioridade em rela\u00e7\u00e3o a elas e construindo um sentido coletivo para a experi\u00eancia, foi um acontecimento fundamental, que s\u00f3 se tornou poss\u00edvel quase 50 anos depois.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse instante, a ang\u00fastia ambiente e o pr\u00f3prio local onde est\u00e1vamos, me remeteram ao teatro, como um experimento intensivo, proposto por Artaud. Rompendo com o modelo representacional e baseando-se na experi\u00eancia corp\u00f3rea dos atores e do p\u00fablico, Artaud implodia com a ideia de espet\u00e1culo e propunha um tipo de encena\u00e7\u00e3o em que o cen\u00e1rio e a pr\u00f3pria linguagem utilizados tinham que ser inventados <em>pari passu<\/em> \u00e0 experi\u00eancia. Referindo-se ao teatro ocidental como aquele em que o autor-criador, \u201causente e distante, armado de um texto, vigia, re\u00fane e comanda o tempo ou o sentido da representa\u00e7\u00e3o\u201d e em que o p\u00fablico nada mais \u00e9 do que \u201cum p\u00fablico passivo, sentado, um p\u00fablico de espectadores, de consumidores\u201d, Artaud propunha acabar com a tirania do texto e de sua linguagem representacional, restituindo \u00e0 encena\u00e7\u00e3o sua liberdade instauradora, utilizando espa\u00e7os n\u00e3o convencionais e investindo da fun\u00e7\u00e3o criadora a todos os participantes, inclusive \u00e0queles tradicionalmente vistos como o p\u00fablico.<sup>31<\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>Embora a maioria de n\u00f3s tivesse ficado grudado \u00e0s velhas cadeiras de teatro usadas para compor o ambiente, naquele momento era como se todos f\u00f4ssemos Noilton e pud\u00e9ssemos contar com um corpo coletivo para lidar com aquela viv\u00eancia de demoli\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, o fato desse relato estar sendo lido por seu sobrinho de vinte poucos anos n\u00e3o era um detalhe menor. Desconhecendo, at\u00e9 ent\u00e3o, o vivido por seu tio, o jovem ator podia agora transmitir essa experi\u00eancia n\u00e3o mais pela via do sintoma, mas pela arte.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Instala\u00e7\u00f5es, cartas da pris\u00e3o, fotos, pinturas, desenhos e performance:<\/em><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignnone size-medium\"><a href=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig.8.jpg\"><img loading=\"lazy\" width=\"225\" height=\"300\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig.8-225x300.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1283\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig.8-225x300.jpg 225w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig.8.jpg 720w\" sizes=\"(max-width: 225px) 100vw, 225px\" \/><\/a><figcaption>Instala\u00e7\u00e3o feita por Fiora com o casaco e a mala que usava no dia em que chegou ao Brasil, fugido da repress\u00e3o argentina.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Com Benjamin encontramos recursos para escapar da l\u00f3gica da representa\u00e7\u00e3o e descobrir a for\u00e7a da est\u00e9tica fragment\u00e1ria, imprescind\u00edvel nos atividades testemunhais sobre a tortura. Nesse sentido, para suportar a ang\u00fastia que tomou o ambiente, foi importante contar com as falas inaugurais de Anita e Dario, os desenhos de Pedro, as pinturas de Tossiro Komoda<sup>32<\/sup> e as instala\u00e7\u00f5es de Mariana Lydia e Fiora. Figurar os afetos por meio de imagens, tanto quanto ligar texto e afeto, produziu um novo corpo capaz de dar conta daquelas intensidades. Nesse caso, pudemos nos emocionar com as tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es da fam\u00edlia Campos, fazendo arte onde havia tanta dor<sup>33<\/sup>; pudemos chorar com a poesia de Maria Le\u00e3o ao seu av\u00f4 Rubin Aquino, j\u00e1 falecido; pudemos rir e cantar com a poesia de Luciana Saldanha<sup>34<\/sup>; bem como pudemos fazer uma viagem ao passado com o varal de poesias de Beatriz Vieira, a reprodu\u00e7\u00e3o do seu cantinho de guardados e a leitura da carta de seu pai, o ex-preso pol\u00edtico Lizt Vieira, j\u00e1 rasgada pelo tempo. Como nos sugeriu Dario na abertura da mostra, nossa proposta era \u201cExperimentar. Explorar as camadas cont\u00ednuas e descont\u00ednuas do tempo, das lembran\u00e7as; a densidade da mem\u00f3ria, dos objetos, da exist\u00eancia\u201d e \u201co nosso desafio era (se) compor, (se) produzir e (se) mostrar\u201c.<sup>35<\/sup><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignnone size-full\"><a href=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig.9.jpg\"><img loading=\"lazy\" width=\"960\" height=\"678\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig.9.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1285\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig.9.jpg 960w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig.9-300x212.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig.9-768x542.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 960px) 100vw, 960px\" \/><\/a><figcaption>Cartas da pris\u00e3o de S\u00e9rgio Campos.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Da mesma forma, a apresenta\u00e7\u00e3o de trechos do filme <em>Soldados do Araguaia<\/em><sup>36<\/sup>, seguida de um testemunho de um ex-militar que sofrera torturas por n\u00e3o colaborar com o regime<sup>37<\/sup>, e a exibi\u00e7\u00e3o da v\u00eddeo-performance de Leo Alves Vieira, contribu\u00edram para oferecer-nos um suporte est\u00e9tico para aqueles afetos soltos circundantes. Neto do desaparecido pol\u00edtico M\u00e1rio Alves e um dos fundadores do coletivo Filhos e Netos por MVJ, o m\u00fasico e compositor Leo apresentou sua obra <em>Trabalhadores<\/em>, que, \u00e0 semelhan\u00e7a de suas outras composi\u00e7\u00f5es, se caracteriza por uma est\u00e9tica fragment\u00e1ria. Em uma delas, denominada <em>Tortura Nunca Mais<\/em>, Leo se vale, inclusive, dos repulsivos restos sonoros da voz de um dos torturadores de seu av\u00f4, por ocasi\u00e3o de seu depoimento em audi\u00eancia da Comiss\u00e3o Estadual da Verdade.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><a class=\"\" href=\"https:\/\/musicainsolita.bandcamp.com\/track\/data\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" width=\"352\" height=\"352\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Design-sem-nome-1.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-3730\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Design-sem-nome-1.png 352w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Design-sem-nome-1-300x300.png 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Design-sem-nome-1-150x150.png 150w\" sizes=\"(max-width: 352px) 100vw, 352px\" \/><\/a><figcaption> Leo Alves e Juan Antonio Nieto, <em>Data<\/em>, 2021 \u00e9 uma nova composi\u00e7\u00e3o a partir de <em>Tortura Nunca Mais<\/em>, 2014, as duas derivam de um evento s\u00f3, uma audi\u00eancia p\u00fablica do caso M\u00e1rio Alves, o av\u00f4 de Leo que \u00e9 desaparecido desde 1970 na ditadura civil-militar, ambas com os testemunhos de ex-presos pol\u00edticos e do seu algoz, o ex-major do ex\u00e9rcito Valter da Costa Jacarand\u00e1, que os torturou.<sup>38<\/sup> <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Igual for\u00e7a integradora p\u00f4de ser experimentada com a dan\u00e7a curativa de Ana Bursztyn-Miranda<strong> <\/strong>e Mar\u00edlia Felippe, bem como com a pintura de F\u00e1bio Campos e as atas gr\u00e1ficas de Luis Zorraquino.<sup>39<\/sup> As \u00faltimas, feitas <em>pari passu<\/em> \u00e0s apresenta\u00e7\u00f5es, testemunhavam o movimento de produ\u00e7\u00e3o de arte e recria\u00e7\u00e3o da vida em tempo real. No caso de Ana, que inicia sua apresenta\u00e7\u00e3o dentro de um c\u00edrculo de giz, pudemos acompanh\u00e1-la no movimento de sa\u00edda da pris\u00e3o subjetiva, seus primeiros passos tateantes, sua dan\u00e7a com Mar\u00edlia e a finaliza\u00e7\u00e3o da performance, com a leitura de seu <em>alvar\u00e1 de soltura: <\/em>uma adapta\u00e7\u00e3o da poesia \u201cM\u00e3os Dadas\u201d, de Drummond de Andrade.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>N\u00e3o serei uma poeta de um mundo caduco,<\/p><p>Nem cantarei o mundo futuro.<\/p><p>Estou presa \u00e0 vida e olho meus companheiros e companheiras<\/p><p>Entre eles existe uma enorme realidade<\/p><p>O presente \u00e9 t\u00e3o grande, n\u00e3o nos afastemos muito<\/p><p>N\u00e3o nos afastemos, vamos de m\u00e3os dadas.<\/p><p>O tempo \u00e9 a minha mat\u00e9ria, do tempo presente,<\/p><p>os homens e as mulheres presentes, a vida presente<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignnone size-full\"><a href=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig.10.jpg\"><img loading=\"lazy\" width=\"530\" height=\"589\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig.10.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1287\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig.10.jpg 530w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig.10-270x300.jpg 270w\" sizes=\"(max-width: 530px) 100vw, 530px\" \/><\/a><figcaption>Performance da ex-presa pol\u00edtica Ana e da terapeuta corporal do Cl\u00ednicas do Testemunho, Marilia Felippe.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignnone size-full\"><a href=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig.11.jpg\"><img loading=\"lazy\" width=\"960\" height=\"540\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig.11.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1289\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig.11.jpg 960w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig.11-300x169.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig.11-768x432.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 960px) 100vw, 960px\" \/><\/a><figcaption>Performance da ex-presa pol\u00edtica Ana e da terapeuta corporal do Cl\u00ednicas do Testemunho, Marilia Felippe.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\"><\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Assistir sua sa\u00edda da pris\u00e3o, mas tamb\u00e9m sua abertura, n\u00e3o apenas \u00e0 dan\u00e7a, mas ao dan\u00e7ar (no infinitivo) como possibilidade criadora, enterneceu a todos que participaram da mostra, dando o contorno que necessit\u00e1vamos, ap\u00f3s o compartilhamento de experi\u00eancias t\u00e3o dolorosas. Nesse universo aberto a novas conex\u00f5es era poss\u00edvel, enfim, descolar-se do passado vivido e arriscar a experimenta\u00e7\u00e3o de novos passos.&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A noite avan\u00e7ava e passara muito da hora do encerramento da atividade, inviabilizando a realiza\u00e7\u00e3o do cortejo. O que iria ficar de fora do evento, tampouco chegara a entrar na agenda das pol\u00edticas reparat\u00f3rias e dera apenas seus primeiros passos, com a cria\u00e7\u00e3o dos CERPs. Se as experi\u00eancias compartilhadas nos ajudaram a sair da pris\u00e3o de giz e a sermos todos Sebasti\u00e3o, Mariana, Noilton e Ana, desde o in\u00edcio desse Projeto j\u00e1 v\u00ednhamos fazendo um outro exerc\u00edcio de mem\u00f3ria, que n\u00e3o o literal. Segundo o historiador Tzetvan Todorov, h\u00e1 dois usos poss\u00edveis da mem\u00f3ria: o literal, que implica um culto personalista ao passado e em que a mem\u00f3ria converte-se em um fim em si mesmo, e o exemplar, que, ao fazer um uso ativo da mem\u00f3ria, se vale do passado com o objetivo de lutar contra a continua\u00e7\u00e3o das injusti\u00e7as.<sup>40<\/sup> Assim, se o uso que fazemos da mem\u00f3ria \u00e9 o que pode torna-la uma pr\u00e1tica pol\u00edtica de resist\u00eancia, sua pot\u00eancia est\u00e1 na maneira com que nos articulamos \u00e0s lutas do presente e contribu\u00edmos para um futuro diferente. Se algumas mem\u00f3rias encontram mais espa\u00e7os de escuta e determinadas vidas podem contar com mais prote\u00e7\u00e3o do que outras, \u00e9 preciso contrapor-se a tal iniquidade. Nesse sentido, s\u00f3 faz sentido prosseguirmos na luta pela retomada\/amplia\u00e7\u00e3o da agenda reparat\u00f3ria, se nos somarmos aos movimentos pelo fim do genoc\u00eddio do povo negro e se construirmos estrat\u00e9gias para a articula\u00e7\u00e3o e transversaliza\u00e7\u00e3o de nossas pautas comuns.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">***<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tania Kolker<\/em><\/strong><br>Psicanalista, com gradua\u00e7\u00e3o em Medicina pela UFRJ e especializa\u00e7\u00e3o em psican\u00e1lise e an\u00e1lise institucional pelo Instituto Brasileiro de Psican\u00e1lise, Grupos e Institui\u00e7\u00f5es; mestranda do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Psicologia da Universidade Federal Fluminense; coordenadora do N\u00facleo de Aten\u00e7\u00e3o Psicossocial a Afetados pela Viol\u00eancia de Estado \u2013 NAPAVE; pesquisadora do Observat\u00f3rio Nacional de Sa\u00fade Mental, Justi\u00e7a e Direitos Humanos; coordenadora e terapeuta do Projeto Cl\u00ednicas do Testemunho (2016- 2017); supervisora do Centro de Estudos em Repara\u00e7\u00e3o Ps\u00edquica ISER-RJ; terapeuta do projeto cl\u00ednico do Grupo Tortura Nunca Mais\/RJ (at\u00e9 2010); consultora da Association for the Prevention of Torture no Brasil (2007-2013).<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\" \/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\"><\/a><\/p>\n\n\n\n<p><sup>1<\/sup> Os CERPs chegaram a ser implantados no RJ, SP, SC e RS, entre 2015 e 2017, mas a experi\u00eancia foi interrompida pelo governo Temer.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>2<\/sup> LOSICER, Eduardo. Pot\u00eancia do testemunho: Reflex\u00f5es cl\u00ednico-pol\u00edticas. In CARDOSO, C., FELIPPE, M., VITAL BRASIL, V. Uma perspectiva cl\u00ednico-pol\u00edtica na repara\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica: Cl\u00ednica do Testemunho do Rio de Janeiro. Bras\u00edlia: Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a, Comiss\u00e3o de Anistia; Rio de Janeiro: Instituto Projetos Terap\u00eauticos, 2015. P.31 link para acesso https:\/\/www.justica.gov.br\/central-de-conteudo_legado1\/anistia\/anexos\/clinica-do-testemunho-rj-on-line.pdf<\/p>\n\n\n\n<p><sup>3<\/sup> Foram criados N\u00facleos do Projeto Cl\u00ednicas do Testemunho em quatro estados brasileiros.&nbsp; No Rio de Janeiro, a equipe contou com a participa\u00e7\u00e3o dos seguintes terapeutas: Cristiane Cardoso, Eduardo Losicer, Gabriela Serfaty, Janne Calhau Mour\u00e3o, Mar\u00edlia Felippe, Ol\u00edvia Fran\u00e7ozo, Tania Kolker e Vera Vital Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>4<\/sup> ORTEGA, Francisco A. Rehabitar la cotidianidad. In DAS, Veena: sujetos del dolor, agentes de dignidad. Ed. Francisco A. Ortega. \u2013 Bogot\u00e1: Universidad Nacional de Colombia. Facultad de Ciencias Humanas: Pontificia Universidad Javeriana. Instituto Pensar, 2008.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>5<\/sup> TEDESCO, Silvia Helena. Linguagem: representa\u00e7\u00e3o ou cria\u00e7\u00e3o? In KASTRUP, TEDESCO e PASSOS. (orgs). <em>Pol\u00edticas da Cogni\u00e7\u00e3o<\/em>. Porto Alegra: Editora Sulina, 2008.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>6<\/sup> COIMBRA, Cec\u00edlia Maria Bou\u00e7as. Repara\u00e7\u00e3o do crime de tortura. Trabalho apresentado no lan\u00e7amento do \u201cGuia para la denuncia de torturas\u201d, na cidade do M\u00e9xico, em mar\u00e7o de 2001.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>7<\/sup> O verbo outrar \u00e9 um neologismo de Fernando Pessoa.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>8<\/sup> Como nos diz Rauter, ainda que a viol\u00eancia seja individualizada, \u201co verdadeiro alvo da tortura \u00e9 a grupalidade como experi\u00eancia intoler\u00e1vel ao poder. Nada \u00e9 t\u00e3o insuport\u00e1vel ao estado capitalista quanto os grupos, as coletividades que contra ele podem ser organizar\u201d. Assim, mesmo quando a viola\u00e7\u00e3o n\u00e3o parece ter objetivos pol\u00edticos \u00e9 ao coletivo que ela visa. A pr\u00f3pria distin\u00e7\u00e3o entre vidas que devem ser protegidas pelo Estado e vidas que devem ser consideradas uma amea\u00e7a \u00e9 um modo de dividir para dominar. Ver em Rauter, Cristina, A tortura como ataque \u00e0 dimens\u00e3o do coletivo. In: LIMA, Elizabeth Ara\u00fajo; ARAGON, Luis Eduardo; FERREIRA NETO, Jo\u00e3o Leite. (Org.) <em>Subjetividade Contempor\u00e2nea: Desafios Te\u00f3ricos e Metodol\u00f3gicos<\/em>. 1ed. Curitiba: CRV, 2010, v. 1, p.75-88.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>9<\/sup> Apud GONDAR, J.O. Ferenczi como pensador pol\u00edtico. In REIS, Eliana Schueler e GONDAR, Jo. <em>Com Ferenczi: Cl\u00ednica, subjetiva\u00e7\u00e3o e pol\u00edtica.<\/em> Rio de Janeiro: 7 Letras, 2017, p. 212.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>10<\/sup> A este respeito, ver RAUTER, Cristina. <em>Cl\u00ednica do Esquecimento<\/em>. Niter\u00f3i: Editora da UFF, 2012.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>11<\/sup> PIERRON, Jean Philippe. <em>Transmiss\u00e3o \u2013 uma filosofia do testemunho<\/em>. S\u00e3o Paulo: Loyola, 2010.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>12<\/sup> CARDOSO, Cristiane; FELIPPE, Marilia; VITAL BRASIL, Vera (orgs.). <em>Uma perspectiva cl\u00ednico-pol\u00edtica na repara\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica: Cl\u00ednica do Testemunho do Rio de Janeiro.<\/em> Bras\u00edlia: Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a, Comiss\u00e3o de Anistia; Rio de Janeiro: Instituto Projetos Terap\u00eauticos, 2015.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>13 <\/sup>&nbsp;O objetivo da metodologia cartogr\u00e1fica \u00e9 acompanhar e potencializar processos, identificando pontos de enrijecimento e potenciais aberturas a mudan\u00e7as. Ver em PASSOS, E.; KASTRUP, V.; ESC\u00d3SSIA, L. da (Org.). Pistas do m\u00e9todo da cartografia: pesquisa-interven\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o de subjetividade. Porto Alegre: Sulina, 2009.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>14<\/sup> BOND\u00cdA, Jorge Larrosa. Notas sobre a experi\u00eancia e o saber da experi\u00eancia. Revista Brasileira de Educa\u00e7\u00e3o n\u00ba19, 2002.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>15<\/sup> LAPOUJADE, David. <em>William James, a constru\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia<\/em>. S\u00e3o Paulo: n-1 edi\u00e7\u00f5es. 2017, p. 16.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>16<\/sup> Idem.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>17 <\/sup>Trecho extra\u00eddo do convite feito por Anita Sobar para a mostra.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>18<\/sup> Rua de m\u00e3o \u00fanica \u00e9 o nome de um texto de Walter Benjamin.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>19<\/sup> Divergindo das vis\u00f5es tradicionais da hist\u00f3ria que a apresentam como uma narrativa linear ou dial\u00e9tica, Benjamin prop\u00f5e uma hist\u00f3ria a contrapelo, indissoci\u00e1vel da mem\u00f3ria fragment\u00e1ria dos oprimidos, que convoca muito mais a figura do catador dos rastros e restos silenciados do que a do historiador debru\u00e7ado em arquivos.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>20 <\/sup>DELEUZE, Gilles.&nbsp;<em>Conversa\u00e7\u00f5es.<\/em> Rio de Janeiro: Editora 34, 1992, ps. 210-211.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><sup>21<\/sup> REIS, Eliana Schueler e GONDAR, Jo. <em>Com Ferenczi: Cl\u00ednica, subjetiva\u00e7\u00e3o e pol\u00edtica.<\/em> Rio de Janeiro: 7 Letras, 2017, p. 74.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><sup>22<\/sup> Gil, Jos\u00e9. \u201cQuase feliz\u201d in&nbsp;<em>elipse, gazeta improv\u00e1vel<\/em>, n\u00ba 01, primavera 98, pg. 6.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>23 <\/sup>AM\u00c9RY, Jean. <em>Al\u00e9m do crime e castigo: tentativas de supera\u00e7\u00e3o.<\/em> Rio de Janeiro, Contraponto, 2013.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>24<\/sup> Idem, LAPOUJADE, 2017.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>25<\/sup> INDURSKY, Alexei Conte; SZUCHMAN, Karine. \u201cGrupos do Testemunho: fun\u00e7\u00e3o e \u00e9tica do processo testemunhal\u201d in <em>Cl\u00ednicas do Testemunho \u2013 repara\u00e7\u00e3o ps\u00edquica e constru\u00e7\u00e3o de mem\u00f3rias.<\/em> Porto Alegre: Cria\u00e7\u00e3o Humana, 2011.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>26<\/sup> LISSOVSKY, Maur\u00edcio. A mem\u00f3ria e as condi\u00e7\u00f5es po\u00e9ticas do acontecimento. In GONDAR, J. e DOBEDEI, Vera. (orgs.) <em>O que \u00e9 mem\u00f3ria social<\/em>. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria\/ Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Mem\u00f3ria Social da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, 2005. p. 137.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>27<\/sup> BENJAMIN, Walter. <em>Magia e t\u00e9cnica: ensaios sobre literatura e hist\u00f3ria da cultura<\/em>. S\u00e3o Paulo: Brasiliense, 1994, 7\u00aa edi\u00e7\u00e3o, p. 198.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>28<\/sup> GAGNEBIN, Jeanne Marie. <em>Lembrar escrever esquecer<\/em>. S\u00e3o Paulo: editora 34, 2009.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>29 <\/sup>Utilizamos um nome fict\u00edcio para nos referir ao tio de Henrique, j\u00e1 que ele n\u00e3o participou do Projeto Cl\u00ednicas do Testemunho.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><sup>30<\/sup> REIS, Eliana Schueler e GONDAR, Jo. <em>Com Ferenczi: Cl\u00ednica, subjetiva\u00e7\u00e3o e pol\u00edtica.<\/em> Rio de Janeiro: 7 Letras, 2017, p. 46.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><sup>31<\/sup> DERRIDA, Jacques. <em>A escritura e a diferen\u00e7a<\/em>. S\u00e3o Paulo: Perspectiva, 2011.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>32<\/sup> Tossiro, estudante universit\u00e1rio preso aos 23 anos, n\u00e3o se recuperou jamais da tortura, vindo a adoecer psiquicamente e s\u00f3 encontrando na pintura um lenitivo para suas dores.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>33<\/sup> S\u00e9rgio Campos, ex-preso pol\u00edtico, seus filhos F\u00e1bio e Vin\u00edcius e seus netos Pilar e Jo\u00e3o apresentaram uma obra coletiva, composta de foto, desenho e poesias. Tamb\u00e9m foram expostas algumas cartas de S\u00e9rgio, escritas na pris\u00e3o para seus filhos e F\u00e1bio tocou algumas de suas m\u00fasicas e pintou um quadro durante o evento.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>34 <\/sup>Luciana, neta de Aristides Saldanha, vereador constituinte do PCB em 46 e sobrinha-neta do jornalista do PCB Jo\u00e3o Saldanha, leu sua poesia Menina Vermelha.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>35<\/sup> Trecho do texto lido por Dario Gularte na abertura da mostra.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>36<\/sup> O filme Soldados do Araguaia, de Belis\u00e1rio Franca e Ismael Machado, conta a hist\u00f3ria de soldados de baixa patente que participaram da repress\u00e3o \u00e0 Guerrilha do Araguaia, formada por integrantes do Partido Comunista do Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>37 <\/sup>N\u00e3o citamos seu nome e de outros participantes da mostra, a quem n\u00e3o conseguimos pedir autoriza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\"><sup>38<\/sup> Para mais informa\u00e7\u00f5es Leo Alves e Juan Antonio Nieto, <em>Data<\/em>, 2021 https:\/\/musicainsolita.bandcamp.com\/album\/data<\/p>\n\n\n\n<p><sup>39 <\/sup>Luis Zorraquino, arquiteto e desenhista, al\u00e9m das v\u00e1rias atas gr\u00e1ficas feitas ao longo do evento, tamb\u00e9m exp\u00f4s o quadro que fez em homenagem \u00e0 sua falecida companheira, a ex-presa pol\u00edtica Estrella Bohadana.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>40 <\/sup>TODOROV, Tzvetan<strong><em>. <\/em><\/strong><em>Los usos y abusos de la memoria<\/em>. Barcelona: Paid\u00f3s, 2000.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\"><\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\"><\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\"><\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\"><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Agenciamentos \u00e9tico-est\u00e9tico-pol\u00edticos na repara\u00e7\u00e3o dos danos causados pela viol\u00eancia de Estado Tania Kolker \u00c0 Estrella Bohadana, que, destro\u00e7ada pela tortura, reinventou a vida no encontro com a dan\u00e7a e a [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","meta":[],"portfolio-tags":[],"portfolio-category":[45],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio\/1270"}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-json\/wp\/v2\/types\/portfolio"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1270"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1270"}],"wp:term":[{"taxonomy":"portfolio-tags","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio-tags?post=1270"},{"taxonomy":"portfolio-category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio-category?post=1270"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}