{"id":98,"date":"2021-03-09T14:43:29","date_gmt":"2021-03-09T17:43:29","guid":{"rendered":"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/?page_id=98"},"modified":"2021-04-28T13:57:27","modified_gmt":"2021-04-28T16:57:27","slug":"esconderijos-e-janelas-olhares-perifericos-entrevista-com-mauricio-dias-amp-walter-riedweg","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/esconderijos-e-janelas-olhares-perifericos-entrevista-com-mauricio-dias-amp-walter-riedweg\/","title":{"rendered":"Esconderijos e janelas &#8211; Olhares perif\u00e9ricos: Entrevista com Maur\u00edcio Dias e Walter Riedweg"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"1920\" height=\"1080\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Capa_Corpo-Santo_8-Dias-Riedweg.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-425\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Capa_Corpo-Santo_8-Dias-Riedweg.jpg 1920w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Capa_Corpo-Santo_8-Dias-Riedweg-300x169.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Capa_Corpo-Santo_8-Dias-Riedweg-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Capa_Corpo-Santo_8-Dias-Riedweg-768x432.jpg 768w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Capa_Corpo-Santo_8-Dias-Riedweg-1536x864.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><figcaption>Dias e Riedweg, <em>Corpo Santo<\/em>, 2012. Frame.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h2>Esconderijos e janelas &#8211; Olhares perif\u00e9ricos: Entrevista com Maur\u00edcio Dias e Walter Riedweg<\/h2>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Guilherme Vergara<\/em><\/strong> \u2013 Voc\u00eas desenvolveram ao longo de mais de 20 anos um amplo e rico corpo de pr\u00e1ticas art\u00edsticas e interlocu\u00e7\u00f5es sociais incluindo grupos marginalizados \u2013 jovens de rua, prisioneiros e usu\u00e1rios de sa\u00fade mental, entre outros \u2013 certamente, uma cartografia contempor\u00e2nea dos v\u00e1rios mundos escondidos ou invis\u00edveis. No entanto ao em vez de somente focarmos nesta trajet\u00f3ria passada, pensamos que uma proposta instigante para esta entrevista poderia ser gerar um recorte ou acompanhamento do seu trabalho mais atual, ainda em processo, que explora quest\u00f5es religiosas e de fen\u00f4menos de perda do controle, mem\u00f3ria e identidade, que voc\u00eas chamam de \u201ccatedrais de nossas mentes\u201d. Estes pontos iniciais j\u00e1 apontam para resson\u00e2ncias e amplitude do que a gente quer provocar com o tema &#8220;Vidas Escondidas&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Mauricio Dias<\/em><\/strong> \u2013 Primeiro vamos falar de esconderijo. Como a gente pode associar esse trabalho, que, na verdade, n\u00e3o est\u00e1 escondido, mas \u00e9 um embri\u00e3o, ainda n\u00e3o aconteceu. Eu acho que a ideia de falar de um trabalho que ainda n\u00e3o tem forma, ou que ainda nem tem um foco muito preciso, \u00e9 sempre um perigo e talvez seja um lugar para um esconderijo. Tem uma diferen\u00e7a que eu acho primordial entre situa\u00e7\u00f5es ou pessoas escondidas, e esconderijos propriamente ditos. No nosso trabalho a gente lida com bastante gente que est\u00e1 em uma situa\u00e7\u00e3o marginal \u00e0 raz\u00e3o, e \u00e9 tratada como tal. Como, por exemplo, pacientes psiqui\u00e1tricos, que t\u00eam que tomar um monte de rem\u00e9dios, muitas vezes choques, muitas vezes tratados em isolamento. Essas pessoas n\u00e3o s\u00e3o um esconderijo. O hosp\u00edcio \u00e9 um esconderijo. A pr\u00f3pria psiquiatria, o conceito da psiquiatria, talvez seja um esconderijo, porque \u00e9 um lugar de separa\u00e7\u00e3o. Ela separa um certo grupo, ou certas quest\u00f5es do corpo social. No nosso trabalho, temos v\u00e1rias obras em que usamos o esconderijo (a separa\u00e7\u00e3o) como estrat\u00e9gia. N\u00e3o \u00e9 o ato de esconder, mas o de defender o esconderijo como uma poss\u00edvel exist\u00eancia. Isso eu acho que \u00e9 onde podemos chegar com o conceito de esconderijo no nosso trabalho. N\u00e3o \u00e9 que trabalhemos com pessoas escondidas ou formas escondidas de vida, n\u00e3o \u00e9 exatamente isso \u2013 trabalhamos com o esconderijo como uma forma de sobreviv\u00eancia, uma forma de intelig\u00eancia e uma forma de intera\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n\n\n\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o ao nosso trabalho em processo, como falar de uma coisa que est\u00e1 ainda em um esconderijo? Ent\u00e3o, eu vou falar, mais ou menos, da forma como eu falei ontem desse trabalho para a curadora Solange Farkas, pra poder ter uma inicia\u00e7\u00e3o de aproxima\u00e7\u00e3o dentro do acervo do V\u00eddeo Brasil, que vai entrar como uma base de arquivo para algumas dessas \u2013 do que eu vou come\u00e7ar a chamar agora de \u2013 \u201cjanelas\u201d. Essas janelas podem ser canais de v\u00eddeo ou s\u00f3 seq\u00fc\u00eancias de cena, mas v\u00e3o permitir gerar um material visual. A ideia n\u00e3o \u00e9 fazer um v\u00eddeo te\u00f3rico ou uma coisa sobre a ideia de Deus, mas divaga\u00e7\u00f5es visuais que funcionem como janelas sobre poss\u00edveis ideias da f\u00e9. Algumas dessas janelas j\u00e1 est\u00e3o filmadas, outras temos que filmar, e ainda h\u00e1 aquelas que s\u00e3o de arquivo. S\u00e3o elas: O C\u00edrio de Nazar\u00e9, em Bel\u00e9m, as religi\u00f5es afro-brasileiras, provavelmente na cidade de Cachoeira, Bahia, porque j\u00e1 temos material filmado na Bahia, e algumas outras festas religiosas populares, como a do Pato Crucificado, no Maranh\u00e3o. N\u00e3o queremos separar osincretismo da pureza, nem sublinhar dogmas, mas sim tratar essas janelas de formas visuais. Decerto haver\u00e1 uma janela com crentes, obviamente, aqui no Rio, que \u00e9 uma frente muito ampliada, digamos assim, presente. A gente tem uma dificuldade com essa galera, mas vamos ver como conseguir entrar nesse universo com uma c\u00e2mera. Talvez a gente tenha que entrar sem c\u00e2mera primeiro, pra entrar depois, porque \u00e9 complicado o que se pode filmar e o que n\u00e3o. Ainda sobre a quest\u00e3o dos evang\u00e9licos, a gente vai, possivelmente, tematizar tamb\u00e9m um pouco a quest\u00e3o do que est\u00e1 acontecendo, sobretudo na Bahia, mas tamb\u00e9m na Baixada Fluminense, de uma crescente viol\u00eancia evang\u00e9lica sobre os cultos africanos. Invas\u00f5es de terreiros, destrui\u00e7\u00e3o de \u00eddolos&#8230;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"1200\" height=\"675\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-1_a_Yemanja-Bahia-01.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1446\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-1_a_Yemanja-Bahia-01.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-1_a_Yemanja-Bahia-01-300x169.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-1_a_Yemanja-Bahia-01-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-1_a_Yemanja-Bahia-01-768x432.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><figcaption>Dias &amp; Riedweg. <em>\u00c1gua de chuva no Mar<\/em>, 2012. Frames. Festa da Iemanj\u00e1 na Bahia.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"1200\" height=\"675\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-1_b_Agua-de-chuva-still-57.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1448\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-1_b_Agua-de-chuva-still-57.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-1_b_Agua-de-chuva-still-57-300x169.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-1_b_Agua-de-chuva-still-57-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-1_b_Agua-de-chuva-still-57-768x432.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><figcaption>Dias &amp; Riedweg. <em>\u00c1gua de chuva no Mar<\/em>, 2012. Frames. Mulheres negras lavadeiras.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong><em>Walter Riedweg<\/em> <\/strong>\u2013 A quest\u00e3o territorial tamb\u00e9m vai entrar em uma outra janela, uma janela mais ambiciosa pra gente, a da cidade de Jerusal\u00e9m, onde tem o encontro geogr\u00e1fico territorial de tr\u00eas religi\u00f5es monote\u00edstas que saem da B\u00edblia: o Juda\u00edsmo, o Cristianismo e o Islamismo. Eles t\u00eam, ali, na cidade de Jerusal\u00e9m, uma superposi\u00e7\u00e3o de \u00edcones muito fortes. Por exemplo, bem acima e no interior do suposto templo destru\u00eddo de Salom\u00e3o, do qual existe apenas o Muro das Lamenta\u00e7\u00f5es na parte externa, h\u00e1 a Mesquita Al-Aqsa. Ou seja, o interior desse principal templo do juda\u00edsmo \u00e9 impenetr\u00e1vel aos judeus e acess\u00edvel aos mu\u00e7ulmanos. A cren\u00e7a dos judeus diz que eles n\u00e3o podem penetrar no interior do templo ou isso significaria o fim do juda\u00edsmo.<\/p>\n\n\n\n<p>Existe ali\u00e1s um v\u00eddeo da artista israelense Yael Bartana [<em>Inferno<\/em> 2014] que narra esse eventual epis\u00f3dio, no qual judeus penetram o interior do templo e ele queima, se destr\u00f3i. No filme fict\u00edcio dela, o templo supostamente penetrado por judeus \u00e9, ali\u00e1s, o que foi erigido por evang\u00e9licos neopentecostais no bairro do Braz, na zona leste de S\u00e3o Paulo, inaugurado pela ent\u00e3o presidenta Dilma, com pedras que os evang\u00e9licos paulistanos trouxeram de Jerusal\u00e9m, em v\u00f4os diretos criados pra fazer essa linha S\u00e3o Paulo-Jerusal\u00e9m, com o aeroporto em Tel Aviv, no caso. De forma que a cidade de Jerusal\u00e9m vai ser com certeza uma das \u201cjanelas\u201d no nosso novo trabalho. Porque ela concentra isso tudo&#8230; Na mesma colina voc\u00ea tem o Templo de Salom\u00e3o, o primeiro, onde tem o Muro das Lamenta\u00e7\u00f5es, acima dele voc\u00ea tem a Mesquita Al-Aqsa, de onde supostamente o profeta Mohamed recebeu os mandamentos da religi\u00e3o Isl\u00e2mica e depois se al\u00e7ou aos c\u00e9us num cavalo alado. Isso dentro do templo judeu onde os Isl\u00e2micos n\u00e3o podem entrar por ser territ\u00f3rio judeu, e os judeus tamb\u00e9m n\u00e3o podem entrar porque est\u00e1 dentro do templo e a cren\u00e7a n\u00e3o permite. Entram os turistas. Em frente a isso tem o Monte Sepulcro, onde Jesus supostamente foi crucificado. O Santo Sepulcro \u00e9 uma igreja, e tem umas crendices incr\u00edveis, como uma escada que pode cair a qualquer momento da fachada, mas que n\u00e3o pode ser retirada. \u00c9 uma escadinha de madeira, mas ela n\u00e3o pode ser retirada, porque, supostamente, foi colocada l\u00e1 por uma quest\u00e3o sacra h\u00e1 mil anos. Ela est\u00e1 se desfazendo aos poucos e um dia vai cair, mas ningu\u00e9m a toca. \u00c9 curiosa tamb\u00e9m a organiza\u00e7\u00e3o das pessoas que limpam o templo&#8230; voc\u00ea tem os ortodoxos russos, voc\u00ea tem os cat\u00f3licos romanos, e tem uns outros grupos de cat\u00f3licos e cidad\u00e3os de Israel, que se alternam na limpeza desse lugar, o Santo Sepulcro. E nenhum pode entrar no hor\u00e1rio do outro. Todo mundo \u00e9 voluntariado, mas, assim, eles todos t\u00eam que limpar o mesmo lugar, em sess\u00f5es de tempo sempre espec\u00edficas: &#8220;Voc\u00ea limpa at\u00e9 as 16:15h e eu limpo a partir de 16:16h. E n\u00e3o entre no meu hor\u00e1rio!&#8221;. S\u00e3o quest\u00f5es de territ\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Maur\u00edcio<\/em><\/strong>  \u2013 Uma outra janela, com certeza, vai ser o Vale do Amanhecer, em torno de Bras\u00edlia, que teve e tem a Tia Neiva, Jo\u00e3o de Deus, a Chapada dos Veadeiros, onde tem uma galera que jura de p\u00e9 junto que viu ET, disco voador \u2013 isso tamb\u00e9m vai entrar. Esse \u00e9 um lado mais psicod\u00e9lico. Por \u00faltimo, devem entrar algumas manifesta\u00e7\u00f5es religiosas dos \u00edndios, que pretendemos abordar com a ajuda de uma antrop\u00f3loga e talvez, se for poss\u00edvel, chegar \u00e0s cerim\u00f4nias que usam o Ayahuasca dentro das aldeias e seus desdobramentos quando chegam nas metr\u00f3poles. Ent\u00e3o, atrav\u00e9s dessas janelas, que s\u00e3o quase documenta\u00e7\u00f5es sem coment\u00e1rios, documenta\u00e7\u00f5es de diversas manifesta\u00e7\u00f5es religiosas, faremos uma esp\u00e9cie de constru\u00e7\u00e3o visual. Tem uma outra tamb\u00e9m que eu n\u00e3o coloquei aqui, mas essa j\u00e1 est\u00e1 at\u00e9 sendo filmada, que s\u00e3o as semanas santas de Sevilla e Granada na Espanha que visualmente retomam as Cruzadas, vestidos com os mesmos tipos de capuzes que atualmente tamb\u00e9m s\u00e3o usados pelo Klu-Klux-Klan.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"1200\" height=\"800\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-2_Procissao-em-Andalusia_IMG_0538.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1450\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-2_Procissao-em-Andalusia_IMG_0538.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-2_Procissao-em-Andalusia_IMG_0538-300x200.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-2_Procissao-em-Andalusia_IMG_0538-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-2_Procissao-em-Andalusia_IMG_0538-768x512.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><figcaption>Dias &amp; Riedweg. Prociss\u00e3o na Andaluzia, 2010. Frame.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"1200\" height=\"675\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-3_flying-gires.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1452\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-3_flying-gires.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-3_flying-gires-300x169.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-3_flying-gires-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-3_flying-gires-768x432.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><figcaption>Dias &amp; Riedweg. Discos voadores \u2013 iurtas da Mong\u00f3lia \u2013 que v\u00e3o entrar em <em>F\u00e9 em V\u00e3o<\/em> obra em processo.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Com esse material visual a gente espera ter uma diversidade de imagens que permita abordar as verdadeiras quest\u00f5es do trabalho, que s\u00e3o os conflitos territoriais de cada uma dessas manifesta\u00e7\u00f5es. Como as individualidades, porque muitas delas contrariamente ao que de fato deveriam trazer de benef\u00edcio pro ser humano, tornam a f\u00e9 um dogma e apagam a possibilidade de autorreflex\u00e3o, de autonomia de alma, de um entendimento um pouco mais ps\u00edquico do pensamento metaf\u00edsico. \u00c9 o que acontece quando a cren\u00e7a \u00e9 apropriada por um discurso social, o que em todos esses casos acaba acontecendo. S\u00e3o discursos territoriais, s\u00e3o absolutamente ligados a geografias e hist\u00f3rias, mas s\u00e3o muito espec\u00edficos. Aparentemente nada liga a cerim\u00f4nia do pato crucificado do Maranh\u00e3o ao Santo Sepulcro, mas tem uma liga\u00e7\u00e3o sim: a cruz. Como no Santo Daime tamb\u00e9m tem a cruz, que j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 entre os rituais originais dos \u00edndios.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Walter<\/em><\/strong> \u2013 A ideia \u00e9 partir desse material visual para construir, tentar tornar vis\u00edveis as quest\u00f5es territoriais da cren\u00e7a e da religi\u00e3o. Temos um trabalho que se chama <em>Deus \u00e9 Boca<\/em>, do ano de 2000, que mostramos pela \u00faltima vez na Capela do MAM [Museu de arte moderna] da Bahia. \u00c9 um trabalho que mistura v\u00eddeo com performance. Mostramos no CCBB no ano 2000. S\u00e3o proje\u00e7\u00f5es em cima de placas de vidro e no meio tem uma cabine de vidro, onde uma pessoa (um ator ou atriz) joga bingo loucamente. O ator s\u00f3 diz os n\u00fameros do jogo do bingo, mas tamb\u00e9m revela em gestos uma outra identidade que \u00e9 uma identidade social&#8230; esses personagens que liam as pedras do bingo podiam ser um camel\u00f4 vendendo a b\u00edblia ou veneno de rato, ou uma mulher que lixa as unhas ao mesmo tempo que trabalha com tele-sexo, ou ainda algu\u00e9m que faz dublagem de filmes ou an\u00fancios de v\u00f4os em aeroportos, mas sempre algu\u00e9m que trabalha apenas com a voz. A ideia era colocar a religi\u00e3o como um discurso.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"1200\" height=\"800\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-4_Gods-lips-3.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1454\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-4_Gods-lips-3.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-4_Gods-lips-3-300x200.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-4_Gods-lips-3-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-4_Gods-lips-3-768x512.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><figcaption>Dias &amp; Riedweg. <em>Deus \u00e9 Boca<\/em>, 2002. Still.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"1200\" height=\"800\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig5-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1456\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig5-1.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig5-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig5-1-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig5-1-768x512.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><figcaption>Dias &amp; Riedweg. <em>Deus \u00e9 Boca<\/em>, 2002. Still.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>De maneira alguma a gente quis afirmar ou destruir a ideia de Deus, e sim afirmar a ideia de Deus enquanto um discurso existente. Porque ela \u00e9 antes de mais nada um discurso social forte, presente em todas as sociedades, e que independe a sua pr\u00f3pria exist\u00eancia. Os discursos que v\u00eam com a igreja s\u00e3o muito presentes, e, da\u00ed, a gente os associou outras formas de discurso. Tem pol\u00edticos em campanha, do Lula ao Collor, que est\u00e3o nessas transi\u00e7\u00f5es da \u00e9poca, do ano 2000, associados visualmente a pastores pregando e outros vendedores de rua, a tele-vendas de <em>marketing<\/em> de TV, a um juiz pronunciando senten\u00e7as no tribunal do Rio de Janeiro, por puro acaso o mesmo juiz que pronuncia a absolvi\u00e7\u00e3o de um dos policiais que matou um dos meninos da Candel\u00e1ria, que \u00e9 tema de um outro trabalho nosso, <em>Devotionalia<\/em> (1994-1997). A gente meio que vai e volta nos trabalhos, possivelmente vamos voltar, tamb\u00e9m, em algumas imagens de <em>Deus \u00e9 Boca<\/em>. Esse \u00e9 um recurso que usamos o tempo todo.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"alignnormal\"><div id=\"metaslider-id-1458\" style=\"width: 100%; margin: 0 auto;\" class=\"ml-slider-3-20-3 metaslider metaslider-flex metaslider-1458 ml-slider\">\n    <div id=\"metaslider_container_1458\">\n        <div id=\"metaslider_1458\">\n            <ul aria-live=\"polite\" class=\"slides\">\n                <li style=\"display: block; width: 100%;\" class=\"slide-1465 ms-image\"><img width=\"1200\" height=\"906\" src=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig1-1.jpg\" class=\"slider-1458 slide-1465\" alt=\"\" loading=\"lazy\" rel=\"\" title=\"fig1\" style=\"margin: 0 auto; width: 87.795648060549%\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig1-1.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig1-1-300x227.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig1-1-1024x773.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig1-1-768x580.jpg 768w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig1-1-200x150.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><div class=\"caption-wrap\"><div class=\"caption\">Dias &amp; Riedweg. <i>Devotionalia<\/i>, 1994-1997. Frames.<\/div><\/div><\/li>\n                <li style=\"display: none; width: 100%;\" class=\"slide-1466 ms-image\"><img width=\"1200\" height=\"900\" src=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig2-1.jpg\" class=\"slider-1458 slide-1466\" alt=\"\" loading=\"lazy\" rel=\"\" title=\"fig2\" style=\"margin: 0 auto; width: 88.380952380952%\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig2-1.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig2-1-300x225.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig2-1-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig2-1-768x576.jpg 768w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig2-1-200x150.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><div class=\"caption-wrap\"><div class=\"caption\">Dias &amp; Riedweg. <i>Devotionalia<\/i>, 1994-1997. Frames.<\/div><\/div><\/li>\n                <li style=\"display: none; width: 100%;\" class=\"slide-1467 ms-image\"><img width=\"1200\" height=\"900\" src=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig3-2.jpg\" class=\"slider-1458 slide-1467\" alt=\"\" loading=\"lazy\" rel=\"\" title=\"fig3\" style=\"margin: 0 auto; width: 88.380952380952%\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig3-2.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig3-2-300x225.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig3-2-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig3-2-768x576.jpg 768w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig3-2-200x150.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><div class=\"caption-wrap\"><div class=\"caption\">Dias &amp; Riedweg. <i>Devotionalia<\/i>, 1994-1997. Frames.<\/div><\/div><\/li>\n            <\/ul>\n        <\/div>\n        \n    <\/div>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<p><strong><em>Mauricio<\/em><\/strong> \u2013 Mas, ent\u00e3o, voltando \u00e0 sua pergunta&#8230; Onde entra a psiquiatria nessas janelas? A psiquiatria n\u00e3o vai ser uma janela. A psiquiatria vai ser uma das maneiras para \u201cterritorializar\u201d o conflito entre essas diversas religi\u00f5es. Porque, em outros trabalhos realizados com pacientes psiqui\u00e1tricos, que s\u00e3o o: <em>Corpo Santo <\/em>(2012), <em>Nada Absolutamente Nada<\/em> (2015),<em> Nada Quase Nada<\/em> (2016), e mais recentemente<em> Casulo e Palco<\/em> (2019, ainda in\u00e9ditos), pudemos observar que a religi\u00e3o \u00e9 um tema onipresente entre eles.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"alignnormal\"><div id=\"metaslider-id-1468\" style=\"width: 100%; margin: 0 auto;\" class=\"ml-slider-3-20-3 metaslider metaslider-flex metaslider-1468 ml-slider\">\n    <div id=\"metaslider_container_1468\">\n        <div id=\"metaslider_1468\">\n            <ul aria-live=\"polite\" class=\"slides\">\n                <li style=\"display: block; width: 100%;\" class=\"slide-1479 ms-image\"><img width=\"1200\" height=\"675\" src=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig1-2.jpg\" class=\"slider-1468 slide-1479\" alt=\"\" loading=\"lazy\" rel=\"\" title=\"fig1\" style=\"margin-top: 5.0178571428571%\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig1-2.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig1-2-300x169.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig1-2-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig1-2-768x432.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><div class=\"caption-wrap\"><div class=\"caption\">Dias &amp; Riedweg. <i>Corpo Santo<\/i>, 2012. Frames.<\/div><\/div><\/li>\n                <li style=\"display: none; width: 100%;\" class=\"slide-1480 ms-image\"><img width=\"1200\" height=\"675\" src=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig2-2.jpg\" class=\"slider-1468 slide-1480\" alt=\"\" loading=\"lazy\" rel=\"\" title=\"fig2\" style=\"margin-top: 5.0178571428571%\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig2-2.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig2-2-300x169.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig2-2-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig2-2-768x432.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><div class=\"caption-wrap\"><div class=\"caption\">Dias &amp; Riedweg. <i>Corpo Santo<\/i>, 2012. Frames.<\/div><\/div><\/li>\n                <li style=\"display: none; width: 100%;\" class=\"slide-1481 ms-image\"><img width=\"1200\" height=\"821\" src=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig4-2.jpg\" class=\"slider-1468 slide-1481\" alt=\"\" loading=\"lazy\" rel=\"\" title=\"fig4\" style=\"margin: 0 auto; width: 96.885331477292%\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig4-2.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig4-2-300x205.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig4-2-1024x701.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig4-2-768x525.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><div class=\"caption-wrap\"><div class=\"caption\">Dias &amp; Riedweg. <i>Corpo Santo<\/i>, 2012. Frames.<\/div><\/div><\/li>\n                <li style=\"display: none; width: 100%;\" class=\"slide-1482 ms-image\"><img width=\"1200\" height=\"800\" src=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig5-2.jpg\" class=\"slider-1468 slide-1482\" alt=\"\" loading=\"lazy\" rel=\"\" title=\"fig5\" style=\"margin: 0 auto; width: 99.428571428571%\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig5-2.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig5-2-300x200.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig5-2-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig5-2-768x512.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><div class=\"caption-wrap\"><div class=\"caption\">Dias &amp; Riedweg. <i>Corpo Santo<\/i>, 2012. Frames.<\/div><\/div><\/li>\n                <li style=\"display: none; width: 100%;\" class=\"slide-1483 ms-image\"><img width=\"1200\" height=\"800\" src=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig6.jpg\" class=\"slider-1468 slide-1483\" alt=\"\" loading=\"lazy\" rel=\"\" title=\"fig6\" style=\"margin: 0 auto; width: 99.428571428571%\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig6.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig6-300x200.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig6-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig6-768x512.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><div class=\"caption-wrap\"><div class=\"caption\">Dias &amp; Riedweg. <i>Corpo Santo<\/i>, 2012. Frames.<\/div><\/div><\/li>\n            <\/ul>\n        <\/div>\n        \n    <\/div>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<p>Esses trabalhos produzidos em imers\u00f5es no universo da psiquiatria, nos possibilitaram observar nichos existentes na raz\u00e3o, no entendimento, para poder falar da diferen\u00e7a entre religi\u00e3o e f\u00e9, e possivelmente tocar em esconderijos da nossa mente, nas confus\u00f5es que a gente possa produzir a partir dessas duas coisas, e que causa conflitos territoriais muito pesados. F\u00e9 e Religi\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o a mesma coisa. Conflitos pesados como agora a gente est\u00e1 vivendo entre os evang\u00e9licos e as religi\u00f5es afro-brasileiras. Como a quest\u00e3o da Palestina, e como a pr\u00f3pria s\u00edndrome de Jerusal\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o sabemos como conseguir materializar isso, porque \u00e9 muito dif\u00edcil e n\u00e3o \u00e9 permitido filmar uma pessoa em surto. E a s\u00edndrome de Jerusal\u00e9m \u00e9 um surto que acontece entre peregrinos, que no meio da viagem de peregrina\u00e7\u00e3o \u00e0 Jerusal\u00e9m entram numa viagem ps\u00edquica paralela, e v\u00e3o parar em uma cl\u00ednica que \u00e9 a cl\u00ednica de Kfar Shaul. Ela est\u00e1 em um assentamento, um territ\u00f3rio Israelense no meio da Cisjord\u00e2nia (territ\u00f3rio palestino), no que foi um dia um vilarejo palestino, posteriormente destru\u00eddo e sobre ele foi constru\u00edda essa cl\u00ednica israelense para tratar da S\u00edndrome de Jerusal\u00e9m. N\u00e3o \u00e9 uma met\u00e1fora, \u00e9 hist\u00f3ria territorial. Essa s\u00edndrome sintetiza muito das ideias que queremos abordar nesse projeto. A gente poderia fazer um trabalho s\u00f3 sobre a s\u00edndrome de Jerusal\u00e9m, mas essa \u00e9 uma meta dif\u00edcil&#8230; naturalmente uma c\u00e2mera n\u00e3o \u00e9 nada bem-vinda nesse territ\u00f3rio. Talvez n\u00e3o usemos nenhuma das \u201cjanelas\u201d que citei, talvez essas janelas sejam recursos do nosso pr\u00f3prio esconderijo, quero dizer, nosso caminho \u00e1rduo, pra poder filmar a s\u00edndrome de Jerusal\u00e9m. Bom, isso \u00e9 o que eu posso contar desse trabalho agora.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Guilherme<\/em><\/strong> \u2013 Admiro como voc\u00ea est\u00e1 l\u00facido em rela\u00e7\u00e3o a tudo isso, sabendo que ainda t\u00eam v\u00e1rias quest\u00f5es indefinidas pela frente, que demandam flexibilidade, porque envolveu, at\u00e9 agora, eu contei aqui, nove janelas, sem contar com a s\u00edndrome de Jerusal\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Maur\u00edcio<\/em> <\/strong>\u2013 Que n\u00e3o \u00e9 uma janela e sim um filtro (possivelmente n\u00e3o diretamente abordado) para o entendimento de como fazer e como perceber o trabalho final.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Jessica Gogan<\/em><\/strong> \u2013 Algo que vai permeando&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Maur\u00edcio<\/em> <\/strong>\u2013 Quando a gente ouviu falar da s\u00edndrome de Jerusal\u00e9m, a gente estava l\u00e1 na \u00e9poca do <em>Gay Pride <\/em>[onde as] pessoas [s\u00f3] sa\u00edam de um bar e iam pro outro. \u00c9 imposs\u00edvel fazer um <em>Gay Pride<\/em> naquela cidade maluca onde tudo \u00e9 religioso. Ali voc\u00ea n\u00e3o pode dizer: &#8220;Eu sou ateu&#8221;. Pega mal. Voc\u00ea tem a universidade que tem esse territ\u00f3rio laico, o governo supostamente \u00e9 laico, mas n\u00e3o \u00e9, \u00e9 judaico, \u00e9 totalmente judeu l\u00e1. E \u00e9 repressivo, sobretudo pra quest\u00e3o Palestina. E quando a gente viu que n\u00e3o tinha parada, tivemos uma ideia (&#8230; doida!) de fazer uma performance, um bloco de carnaval por aquelas ruelas da cidade medieval com o pessoal da s\u00edndrome de Jerusal\u00e9m. Mas ter uma entrada em Jerusal\u00e9m \u00e9 muito complicado&#8230; Temos que voltar, tem algumas pessoas que a gente pretende retomar contato. Benjamin Serousi, que organizou nossa resid\u00eancia em Jerusal\u00e9m na \u00e9poca em que foi co-curador da Bienal de S\u00e3o Paulo, em 2013, e agora \u00e9 o atual diretor da Casa do Povo, em S\u00e3o Paulo, e Nirit Nelson, da Universidade de Jerusal\u00e9m e nessa \u00e9poca, diretora do Jerusalem Center of Visual Arts, entre outras pessoas, mas temos que conseguir ainda a metade da capta\u00e7\u00e3o para poder realizar este projeto.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Guilherme<\/em> <\/strong>\u2013<strong> <\/strong>O que voc\u00eas est\u00e3o trazendo em quest\u00e3o j\u00e1 \u00e9 parte dessa dissolu\u00e7\u00e3o de institui\u00e7\u00f5es. Ent\u00e3o, eu entendo um prop\u00f3sito no trabalho de voc\u00eas, justamente fazer ver essas dissolu\u00e7\u00f5es&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Maur\u00edcio<\/em> <\/strong>\u2013 \u00c9 dif\u00edcil penetrar nisso!<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Guilherme<\/em><\/strong> \u2013 Imagino! Porque voc\u00eas est\u00e3o mexendo em viradas paradigm\u00e1ticas fundamentais que envolvem a humanidade em risco planet\u00e1rio&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Maur\u00edcio<\/em><\/strong> \u2013 Vemos a s\u00edndrome de Jerusal\u00e9m e a psiquiatria como recursos para abordar essas janelas. N\u00e3o acho que poderemos filmar em hosp\u00edcio de novo pra esse trabalho, mas, do que j\u00e1 vimos em hosp\u00edcio, grande parte dos temas mais importantes entre os pacientes psiqui\u00e1tricos \u00e9 a quest\u00e3o da ideia de Deus. Essa rela\u00e7\u00e3o entre o indiv\u00edduo aut\u00f4nomo e a ideia de Deus que, na quest\u00e3o psiqui\u00e1trica, tem uma potencializa\u00e7\u00e3o, decorrente da dificuldade de poder se colocar de forma aut\u00f4noma. Sem autonomia essa ideia de Deus se torna ainda mais presente. \u00c9 dif\u00edcil confiar que Deus apare\u00e7a quando a autonomia termine, mas \u00e9 poss\u00edvel. \u00c9 poss\u00edvel que Deus seja um esconderijo da mente.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Guilherme<\/em><\/strong> \u2013 Eu acho que voc\u00eas podem se interessar pelo livro do William James <em>Varieties of Religious Experience<\/em> (1902) onde ele acompanha diferentes casos de pessoas relatando suas experi\u00eancias de uma vis\u00e3o ou revela\u00e7\u00e3o, algo que por muito tempo elas vinham rejeitando at\u00e9 se entregarem ou \u201csurrender\u201d (termo bastante repetido entre os entrevistados do livro). At\u00e9 chegar nessa poss\u00edvel comunh\u00e3o com algo que toma conta do indiv\u00edduo. Mas \u00e9 curioso que o que voc\u00eas est\u00e3o tateando estava muito presente na \u00e9poca do William James. No entanto, ele n\u00e3o vai tocar nos usos da pol\u00edtica que estava por tr\u00e1s disso ou que est\u00e3o hoje evidentes. Hoje temos o discurso territorial de prote\u00e7\u00f5es e manipula\u00e7\u00f5es por tr\u00e1s disso tudo. Isso a\u00ed&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Maur\u00edcio<\/em><\/strong> \u2013 Que s\u00e3o as quest\u00f5es territoriais? Elas podem tomar dimens\u00f5es banais, como por exemplo, as manifesta\u00e7\u00f5es na Chapada dos Veadeiros, no Vale do Amanhecer&#8230; eles t\u00eam o territ\u00f3rio deles. A sociedade em geral os considera um bando de malucos, e eles talvez ganhem algum dinheiro com o turismo, mas eles n\u00e3o est\u00e3o implantando isso a um discurso oficial, eles n\u00e3o est\u00e3o entrando no Congresso&#8230; Mas a coisa muda de figura quando a gente v\u00ea a bancada evang\u00e9lica associada a uma bancada agr\u00edcola. Temos uma realidade territorial bizarra. A quest\u00e3o de Israel e Palestina tamb\u00e9m \u00e9 bizarra. Ent\u00e3o temos que estudar muito mais pra poder falar dessas coisas. Eu n\u00e3o sei se vamos conseguir, mas a inten\u00e7\u00e3o \u00e9 ter uma resson\u00e2ncia pol\u00edtica nesse trabalho tamb\u00e9m. Desses trabalhos todos que eu enumerei \u2013 <em>Deus \u00e9 Boca<\/em>, <em>Corpo Santo<\/em>, <em>Nada Absolutamente Nada<\/em>, <em>Nada Quase Nada, Casulo e Palco, <\/em>todos eles tratam da quest\u00e3o da psiquiatria.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"1200\" height=\"800\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-6_a_Gods-lips-2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1499\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-6_a_Gods-lips-2.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-6_a_Gods-lips-2-300x200.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-6_a_Gods-lips-2-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-6_a_Gods-lips-2-768x512.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><figcaption>Dias &amp; Riedweg. <em>Deus \u00e9 Boca<\/em>, 2002. Frame.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"1200\" height=\"800\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-6_b_Gods-lips-4.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1501\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-6_b_Gods-lips-4.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-6_b_Gods-lips-4-300x200.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-6_b_Gods-lips-4-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-6_b_Gods-lips-4-768x512.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><figcaption>Dias &amp; Riedweg. <em>Deus \u00e9 Boca<\/em>, 2002. Frame.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"1200\" height=\"675\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-7_Nada-still-Gabinete-Leitura-05.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1503\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-7_Nada-still-Gabinete-Leitura-05.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-7_Nada-still-Gabinete-Leitura-05-300x169.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-7_Nada-still-Gabinete-Leitura-05-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-7_Nada-still-Gabinete-Leitura-05-768x432.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><figcaption>Dias &amp; Riedweg. <em>Nada Absolutamente Nada<\/em>, 2015. Frame.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"1200\" height=\"675\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-8_Casulo_Beco-drone-01.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1505\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-8_Casulo_Beco-drone-01.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-8_Casulo_Beco-drone-01-300x169.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-8_Casulo_Beco-drone-01-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-8_Casulo_Beco-drone-01-768x432.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><figcaption>Dias &amp; Riedweg. <em>Casulo e Palco<\/em>, 2019 (in\u00e9dito). Frame.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Mas eles n\u00e3o t\u00eam ambi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, com exce\u00e7\u00e3o de um. Um deles \u00e9 bastante pol\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Guilherme<\/em><\/strong> \u2013 Qual?<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Maur\u00edcio<\/em><\/strong> \u2013 O <em>Nada Quase Nada<\/em>. \u00c9 uma performance na qual a gente levanta cartazes com cita\u00e7\u00f5es de personalidades p\u00fablicas, de pol\u00edticos a jogadores de futebol do contexto nacional e global nos \u00faltimos 80 anos, misturadas com a leitura de contos do escritor su\u00ed\u00e7o Robert Walser (1878 \u2013 1956), escritos em interna\u00e7\u00f5es psiqui\u00e1tricas sofridas entre 1907 e 1929. Tem contos lindos, mas completamente fora da casinha, e realizamos uma performance lendo esses contos em voz alta, de forma teatral, como se fosse um tele-jornal e mostrando essas frases\/cartazes como se fossem v\u00edrgulas no texto do Walser, o que aproxima a pol\u00edtica da psiquiatria e vice-versa. Assim, o potencial ir\u00f4nico, po\u00e9tico e pol\u00edtico da performance reside na superposi\u00e7\u00e3o desses dois contextos.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"alignnormal\"><div id=\"metaslider-id-1484\" style=\"width: 100%; margin: 0 auto;\" class=\"ml-slider-3-20-3 metaslider metaslider-flex metaslider-1484 ml-slider\">\n    <div id=\"metaslider_container_1484\">\n        <div id=\"metaslider_1484\">\n            <ul aria-live=\"polite\" class=\"slides\">\n                <li style=\"display: block; width: 100%;\" class=\"slide-1493 ms-image\"><img width=\"1200\" height=\"675\" src=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig1-3.jpg\" class=\"slider-1484 slide-1493\" alt=\"\" loading=\"lazy\" rel=\"\" title=\"fig1\" style=\"margin-top: 5.0178571428571%\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig1-3.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig1-3-300x169.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig1-3-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig1-3-768x432.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><div class=\"caption-wrap\"><div class=\"caption\">Dias &amp; Riedweg. <i>Nada Quase Nada<\/i>, 2016. Fotos: Edouard Fraipont.<\/div><\/div><\/li>\n                <li style=\"display: none; width: 100%;\" class=\"slide-1494 ms-image\"><img width=\"1200\" height=\"801\" src=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig2-3.jpg\" class=\"slider-1484 slide-1494\" alt=\"\" loading=\"lazy\" rel=\"\" title=\"fig2\" style=\"margin: 0 auto; width: 99.304440877475%\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig2-3.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig2-3-300x200.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig2-3-1024x684.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig2-3-768x513.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><div class=\"caption-wrap\"><div class=\"caption\">Dias &amp; Riedweg. <i>Nada Quase Nada<\/i>, 2016. Fotos: Edouard Fraipont.<\/div><\/div><\/li>\n                <li style=\"display: none; width: 100%;\" class=\"slide-1495 ms-image\"><img width=\"780\" height=\"486\" src=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig3-3.jpg\" class=\"slider-1484 slide-1495\" alt=\"\" loading=\"lazy\" rel=\"\" title=\"fig3\" style=\"margin-top: 1.989010989011%\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig3-3.jpg 780w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig3-3-300x187.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig3-3-768x479.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 780px) 100vw, 780px\" \/><div class=\"caption-wrap\"><div class=\"caption\">Dias &amp; Riedweg. <i>Nada Quase Nada<\/i>, 2016. Fotos: Edouard Fraipont.<\/div><\/div><\/li>\n                <li style=\"display: none; width: 100%;\" class=\"slide-1496 ms-image\"><img width=\"1200\" height=\"989\" src=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig4-3.jpg\" class=\"slider-1484 slide-1496\" alt=\"\" loading=\"lazy\" rel=\"\" title=\"fig4\" style=\"margin: 0 auto; width: 80.427560306226%\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig4-3.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig4-3-300x247.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig4-3-1024x844.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig4-3-768x633.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><div class=\"caption-wrap\"><div class=\"caption\">Dias &amp; Riedweg. <i>Nada Quase Nada<\/i>, 2016. Fotos: Edouard Fraipont.<\/div><\/div><\/li>\n            <\/ul>\n        <\/div>\n        \n    <\/div>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<p>N\u00e3o temos ainda um t\u00edtulo claro para este novo trabalho em processo. O t\u00edtulo ainda est\u00e1 por enquanto no \u201cesconderijo\u201d. Mas provavelmente vai ser algo ligado a f\u00e9 \u2013 f\u00e9 como um territ\u00f3rio para diferenciar a cren\u00e7a da religi\u00e3o. \u00c9 a ideia das janelas que vai dar a possibilidade de materializar os conflitos territoriais que estamos querendo entrar, e a psiquiatria vai ser mais a ferramenta, uma metodologia na filmagem e na edi\u00e7\u00e3o dessas janelas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Walter<\/em><\/strong> \u2013 Essa met\u00e1fora das janelas, eu gosto, porque ela se ap\u00f3ia no outro lugar, pois quando voc\u00ea est\u00e1 em frente a uma janela, est\u00e1 olhando para um lugar. Ent\u00e3o, essa met\u00e1fora j\u00e1 assume um territ\u00f3rio al\u00e9m. Que \u00e9 diferente da janela que a gente olha. \u00c9 esse espa\u00e7o entre as janelas que mais me interessa, porque eu acho que essa met\u00e1fora \u00e9 a base da nossa condi\u00e7\u00e3o po\u00e9tica de estar no mundo. Sempre nos apoiamos em janelas, em sistemas de cren\u00e7as, e esse lugar onde a gente est\u00e1, esse \u201c<em>entre espa\u00e7os<\/em>\u201d, \u00e9 tamb\u00e9m um abismo potencial. N\u00e3o existe uma possibilidade de definir isso. A demarca\u00e7\u00e3o desse territ\u00f3rio seria pra mim um dos objetivos nesse novo trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Maur\u00edcio<\/em><\/strong> \u2013 A demarca\u00e7\u00e3o da janela?<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Walter<\/em><\/strong> \u2013 N\u00e3o. Ao contr\u00e1rio. A demarca\u00e7\u00e3o desse espa\u00e7o entre tudo, entre o dentro e o fora, esse territ\u00f3rio que \u00e9 a base da nossa exist\u00eancia&#8230; A gente est\u00e1 pisando aqui e olhando ali, ent\u00e3o a gente est\u00e1 se pondo em um outro lugar&#8230; olhando pra fora, mas esse dentro (ou entre) tamb\u00e9m \u00e9 um lugar. Um lugar em que todo mundo se encontra perdido. Sejam humanistas, budistas, ate\u00edstas, seja quem for. Acho fundamental respeitar esse lugar. Ele \u00e9 a base da vulnerabilidade, mas tamb\u00e9m do respeito pelo outro, porque o outro talvez tenha outra janela, mas tamb\u00e9m olha pra fora, v\u00ea outras coisas, tamb\u00e9m est\u00e1 pisando dentro de um lugar que ele n\u00e3o sabe onde ele pisa. Dessa forma a gente consegue criar um dispositivo de conviv\u00eancia que permite sentir, transformar esse lugar algo escondido num lugar mais humano. Assim, se algu\u00e9m pergunta por que fazer esse trabalho, pra mim \u00e9 isso: criar espa\u00e7os e manter essas janelas. Pra afirmar qualquer cren\u00e7a, ao mesmo tempo que elas nos diferenciam, essas janelas, s\u00e3o tamb\u00e9m o territ\u00f3rio em que nos encontramos com o mundo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Maur\u00edcio<\/em> <\/strong>\u2013 Antes de come\u00e7ar o <em>Devotionalia<\/em>, a gente fez um primeiro trabalho juntos que foi a primeira realiza\u00e7\u00e3o em 1995. Era uma coisa de quebrar paradigmas, bastante ambiciosa pra \u00e9poca, n\u00e3o tinha muita forma, a gente n\u00e3o sabia pra onde estava indo. E foi quando conhecemos a curadora Mary Jane Jacob, que viu esse trabalho&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Walter<\/em> <\/strong>\u2013 Em Zurique.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Maur\u00edcio<\/em><\/strong> \u2013 Era um trabalho que se chamava <em>Innendienst<\/em>, t\u00edtulo alem\u00e3o que seria algo como <em>Servi\u00e7os Internos<\/em> (1994), dentro de uma exposi\u00e7\u00e3o que se chamava <em>Aussendienst<\/em> (Servi\u00e7os Externos), feita com artistas que estavam trabalhando fora do contexto deles. Ent\u00e3o, tinha uma coreana em Nova Iorque, tinha uma palestina em Berlim, era uma exposi\u00e7\u00e3o de artistas imigrantes, artistas trabalhando fora do seu territ\u00f3rio. Por exemplo, mesmo vivendo em Nova Iorque a vida inteira, a coreana tinha uma presen\u00e7a, um pensamento super coreano, assim como a palestina tinha tamb\u00e9m uma presen\u00e7a, uma forma de pensamento muito pr\u00f3pria, mesmo em Berlim. E fomos chamados pra fazer um trabalho nessa exposi\u00e7\u00e3o por a gente j\u00e1 estar nesse contexto de ser imigrante. Eu fui imigrante na Su\u00ed\u00e7a durante quinze anos, o Walter come\u00e7ava a ser e ainda \u00e9 imigrante aqui no Brasil j\u00e1 h\u00e1 uns vinte e cinco anos. E ambos trabalh\u00e1vamos e ainda trabalhamos, volta e meia, na educa\u00e7\u00e3o de n\u00edvel b\u00e1sico para jovens imigrantes em processo de integra\u00e7\u00e3o, de imigra\u00e7\u00e3o na Su\u00ed\u00e7a. Para esse trabalho, <em>Servi\u00e7os Internos<\/em>, trabalhamos com crian\u00e7as e adolescentes que eram filhos de imigrantes dessa cena de Zurique. Era ent\u00e3o meado dos anos 90, quando se tinha uma presen\u00e7a prolet\u00e1ria estrangeira muito grande na Su\u00ed\u00e7a, porque os su\u00ed\u00e7os n\u00e3o queriam renovar asfalto, virar concreto. Esse era ent\u00e3o um trabalho feito por estrangeiros, e os pais dessas crian\u00e7as puderam trazer as crian\u00e7as depois de um certo tempo (dez anos sem interrup\u00e7\u00e3o) fazendo isso l\u00e1. Isso gerava um mega problema no sistema escolar p\u00fablico, porque eles tinham que ser inseridos no sistema escolar b\u00e1sico j\u00e1 com uma certa idade e vindos de outros contextos culturais. Serem alfabetizados, aprenderem a fazer conta, aprenderem o que se aprende na escola, mas n\u00e3o tinham uma l\u00edngua comum. E a gente trabalhava nesse contexto enquanto professor. E foi dai que nasceram, ou melhor, que desenvolvemos as metodologias do nosso trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p>A gente aprendeu a criar, come\u00e7ou a desenvolver linguagem ou comunica\u00e7\u00e3o, uma forma de express\u00e3o, quando n\u00e3o havia mais linguagem comum. Um territ\u00f3rio de conflito. Porque as salas de aula eram territ\u00f3rios de conflito pesados entre b\u00f3snios, eslovenos, s\u00e9rvios, albanos&#8230; enfim jovens diretamente oriundos da guerra dos B\u00e1lc\u00e3s, que estava acontecendo nessa \u00e9poca, al\u00e9m de africanos que vinham com outra cor, outra cultura, outra religi\u00e3o, ent\u00e3o as salas de aula eram verdadeiros dep\u00f3sitos de disc\u00f3rdia e briga. E a gente era chamado pra entrar nisso. Eu estou falando disso porque nesse trabalho que se chama <em>Servi\u00e7os Internos<\/em> tentamos muito pontualmente materializar essa janela que o Walter est\u00e1 falando, que \u00e9 um \u201cmomento de passagem\u201d, eu prefiro chamar mais de momento do que de territ\u00f3rio, do interior pro exterior, que \u00e9 o territ\u00f3rio temporal da elabora\u00e7\u00e3o da linguagem.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"567\" height=\"425\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig9.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1508\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig9.jpg 567w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig9-300x225.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig9-200x150.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 567px) 100vw, 567px\" \/><figcaption>Dias &amp; Riedweg. <em>Innendienst<\/em> (Servi\u00e7os Internos). Frame.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>O que \u00e9 aprender a falar de dentro pra fora: \u201cm\u00e3e\u201d, que n\u00e3o tem nada a ver com <em>Mutter<\/em> em alem\u00e3o, ou <em>m\u00e8re<\/em> em franc\u00eas? \u00c9 preciso ir l\u00e1 dentro, no significado, pra poder entender o que \u00e9 m\u00e3e na cultura de cada um pra poder trazer pra fora a palavra que o materializa. E a gente usava isso como uma forma de defesa desse espa\u00e7o. A defesa do espa\u00e7o entre o mundo interno e o mundo externo como uma possibilidade pra atuar no mundo, pra conservar a autonomia. E a f\u00e9, de alguma forma, ela se materializa a\u00ed nessa porta tamb\u00e9m. A boca materializa o problema.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Walter<\/em> <\/strong>\u2013 \u00c9 exatamente nesse exerc\u00edcio t\u00e3o delicado de procurar uma palavra para um termo, antes da pr\u00f3pria evid\u00eancia de descobrir que existem v\u00e1rios sistemas lingu\u00edsticos de express\u00e3o pra se inserir essa condi\u00e7\u00e3o essa coisa, esse significado no mundo exterior. Isso tamb\u00e9m deixa muito evidente que traduzir \u00e9 dif\u00edcil, quase imposs\u00edvel. Ou seja, traduzir \u00e9 parcialmente uma mentira, parcialmente uma omiss\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Maur\u00edcio<\/em> \u2013<\/strong> \u00c9 tomar partido.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Walter<\/em><\/strong> \u2013 E tanto que as l\u00ednguas francas s\u00e3o um instrumento poderoso de opress\u00e3o. S\u00f3 pelo fato de impor um idioma. Isso muitas pessoas nem percebem, que est\u00e3o permanentemente sendo dominados pelo pr\u00f3prio idioma que est\u00e3o usando. Nem conhecendo o hist\u00f3rico&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Maur\u00edcio<\/em><\/strong> \u2013 Ningu\u00e9m percebe mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Walter<\/em><\/strong> \u2013 \u00c9. Mas o que eu achei t\u00e3o fascinante nesse projeto \u00e9 que nesse processo de aprender, se voc\u00ea est\u00e1 completamente perdido em um idioma, em um contexto que voc\u00ea (ainda) n\u00e3o sabe falar, voc\u00ea tem que se conectar muito com esses fragmentos ac\u00fasticos de palavras&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Maur\u00edcio<\/em><\/strong> \u2013 Eu vou dar um exemplo do que era o trabalho, porque sen\u00e3o, parece um del\u00edrio te\u00f3rico&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Walter<\/em><\/strong> \u2013 Sim. Sim. Mas s\u00f3 quero concluir.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Maur\u00edcio<\/em><\/strong> \u2013 T\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Walter<\/em><\/strong> \u2013 As pessoas usam as palavras, mas perdem o sentido da sua poesia, do seu significado. Por isso eu acho fascinante pessoas autistas, ou pessoas que t\u00eam dificuldade de falar, pessoas que lutam para conseguir articular uma palavra. Ou a crian\u00e7a que est\u00e1 brincando. Como artista eu queria ter essa habilidade de me colocar nesse ponto perdido. De lutar pra sentir o que quer que seja dito. E isso tem muito a ver com a quest\u00e3o da f\u00e9, a religi\u00e3o do dia a dia. Na frase religiosa &#8220;No come\u00e7o foi a palavra&#8221;, tudo est\u00e1 ali, a quest\u00e3o \u00e9 essa. Como lidar com isso? Ent\u00e3o, na pr\u00e1tica, no trabalho <em>Servi\u00e7os Internos<\/em>, a gente trabalhava com cheiros. Foram vinte e cinco escolas que tinham esses alunos, essas turmas de imigrantes, a gente levava um repert\u00f3rio de coisas com cheiros e coisas pra tocar (tatear) dentro de potes, tamb\u00e9m barulhos (\u00e1udio). E fal\u00e1vamos: &#8220;Fechem os olhos&#8221;, apresent\u00e1vamos um cheiro l\u00e1 e pergunt\u00e1vamos: &#8220;Que horas s\u00e3o?&#8221; Nunca pergunt\u00e1vamos o que era, mas com os olhos fechados eles sentiam nos potes os cheiros e pergunt\u00e1vamos: &#8220;Qual \u00e9 a cor?&#8221;, &#8220;Que horas s\u00e3o?&#8221;, &#8220;Isso \u00e9 velho ou \u00e9 jovem?&#8221;, \u201c\u00c9 pesado ou leve?\u201d&nbsp; e por a\u00ed vai&#8230; A falta de l\u00f3gica imediata das perguntas despertava imediatamente mundos de associa\u00e7\u00f5es. Ent\u00e3o, baseados nessas pr\u00e1ticas, introduzimos todo um repert\u00f3rio de exerc\u00edcios sensoriais, que depois se tornaram uma esp\u00e9cie de dispositivo, seja de processo ou de instala\u00e7\u00e3o, em muitos projetos.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse foi o primeiro projeto em que utilizamos essa metodologia que nos acompanha at\u00e9 hoje. De vez em quando eu volto a trabalhar em escolas. Faz pouco tempo eu estava dando aulas na escola p\u00fablica Su\u00ed\u00e7a, novamente tinha alguns momentos conflitantes, assim, de professores que t\u00eam colapso com turmas dif\u00edceis, \u00e0s vezes agressivas. Isso pra mim \u00e9 uma chance de trabalhar, de fazer esse trabalho com essas turmas. Eu sempre entro nesse campo. Fecha os olhos e fala de dentro. A gente fez isso tamb\u00e9m em penitenci\u00e1rias, e sempre a pessoa se torna mais humana, seja quem for. Isso \u00e9 tamb\u00e9m uma oportunidade de ver uma pessoa, esse estado de fechar os olhos, ou vir\u00e1-los para dentro e ver o mundo interior. Nesse projeto, <em>Servi\u00e7os Internos<\/em>, a gente desenvolveu isso de uma certa forma, sabendo que muitos outros j\u00e1 fizeram experi\u00eancias an\u00e1logas. Mas a gente colocou rapidamente, tamb\u00e9m, um cat\u00e1logo de quest\u00f5es limitadas \u00e0 visualidade e n\u00e3o \u00e0s sensa\u00e7\u00f5es. Porque por exemplo, com essas ferramentas se consegue facilmente hipnotizar algu\u00e9m. A pessoa pode se entregar totalmente a essa experi\u00eancia em associa\u00e7\u00e3o e mem\u00f3ria, mas a gente sempre corta e a redireciona para o campo da visualidade para n\u00e3o escorregar para a hipnose. Por exemplo, dizendo: &#8220;O que voc\u00ea est\u00e1 vendo com esse cheiro? E agora, se voc\u00ea olha pra tr\u00e1s, o que voc\u00ea v\u00ea?&#8221;, e se a pessoa se levanta e se vira, a\u00ed a gente corta e fala: &#8220;Senta, abre o olho&#8221;. Isso n\u00e3o \u00e9 o que a gente quer. N\u00e3o \u00e9 induzir \u00e0 mem\u00f3ria da viv\u00eancia, mas sim \u00e0 descri\u00e7\u00e3o visual desse mundo interior de cada um. A gente quer, estimular e manter um equil\u00edbrio de dentro pra fora, e n\u00e3o essa entrega total \u00e0 vivencia. \u00c9 incr\u00edvel o poder de um cheiro, de um barulho, para a ativa\u00e7\u00e3o dos sentidos, sejam eles de mem\u00f3ria ou fantasia. Nesses exerc\u00edcios, queremos que a pessoa saiba onde que ela est\u00e1, dentro mas permanecendo fora. Evitamos entrar em estados de hipnose, entrar no terreno da psiquiatra ou da terap\u00eautica. Fazemos apenas exerc\u00edcios de percep\u00e7\u00e3o, de busca de conex\u00e3o entre sentidos e palavras. Isso \u00e9 de certa forma um c\u00f3digo que estabelecemos rigidamente pra n\u00e3o entrar em campos da psique individual. Qualquer um que j\u00e1 administrou um curso de teatro, o que eu fiz muito, vai encontrar pessoas que t\u00eam uma disposi\u00e7\u00e3o psic\u00f3tica enorme, que levam isso para dentro do trabalho. Uma disposi\u00e7\u00e3o enorme de abusar. De voc\u00ea, de todo mundo, pra viver essa crise profunda que n\u00e3o \u00e9 mais teatro. Porque essa pessoa tem que se tratar, em um outro lugar, com algu\u00e9m que trate disso. E nesse sentido, esse trabalho \u00e9 muito sens\u00edvel. A gente tentou conseguir at\u00e9 hoje delimitar muito bem esse territ\u00f3rio e n\u00e3o entrar em outro. Mesmo que, \u00e0s vezes, algumas pessoas estejam buscando mais.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa coisa \u00e9 t\u00e3o vulner\u00e1vel. E, ao mesmo tempo, eu acho realmente que esses s\u00e3o territ\u00f3rios fundamentais e se a gente quer evitar de cair nessa bagun\u00e7a que agora estamos nesse pa\u00eds&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Guilherme<\/em><\/strong> \u2013 De domina\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Walter<\/em><\/strong> \u2013 \u00c9.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Maur\u00edcio<\/em> <\/strong>\u2013 Despertar a relev\u00e2ncia po\u00e9tica escondida em cada um \u00e9 tamb\u00e9m um trabalho pol\u00edtico, porque contribui para a express\u00e3o individual e, dessa forma, para a responsabiliza\u00e7\u00e3o por aquilo que se diz em toda uma na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Guilherme<\/em><\/strong> \u2013 Sim, e tamb\u00e9m todo cuidado \u00e9 pouco neste despertar. Voc\u00ea pode se tornar um dominador a partir desse poder [como Walter diz] de hipnotizar, de&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Walter<\/em><\/strong> \u2013 \u00c9 f\u00e1cil hipnotizar, \u00e9 f\u00e1cil dominar, de uma certa forma. O que a m\u00eddia faz? O que o cinema faz? As pessoas est\u00e3o carentes de se entregar&#8230; a essa cren\u00e7a sem freio. Nesse sentido, essa postura de constranger, eu acho muito, muito importante.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Jessica<\/em><\/strong> \u2013 Eu estava lendo uma entrevista do curador Paulo Herkenhoff, com voc\u00eas. H\u00e1 uma coisa que voc\u00ea falou que achei muito importante e que poucas escolas conseguem, \u00e9 manter a contradi\u00e7\u00e3o na forma\u00e7\u00e3o.<sup>1 <\/sup>Eu acho muito interessante essa no\u00e7\u00e3o de saber uma coisa que tem que ser desfeita ao mesmo tempo, e depois, poder usar esse conhecimento.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Walter<\/em><\/strong> \u2013 Acho fundamental. Quando estive numa escola de teatro no Ticino, na parte italiana da Su\u00ed\u00e7a que \u00e9 um lugar buc\u00f3lico, lindo, eu tinha um vizinho. Eu tocava piano, um dia ele bateu na minha porta, se apresentou e era um m\u00fasico fabuloso, um compositor. A\u00ed, ele falou que tinha um filho pra que queria preparar para o conservat\u00f3rio em Mil\u00e3o, n\u00e3o havia ningu\u00e9m dispon\u00edvel, est\u00e1vamos nas montanhas&#8230; Perguntou se eu poderia fazer isso. Eu falei: &#8220;Eu posso tentar&#8221;. Assim eu me tornei um pouco amigo desse m\u00fasico, ele j\u00e1 faleceu. Em algum momento ele me falou: &#8220;Eu estudei uns vinte anos. E depois eu tive que me esfor\u00e7ar vinte anos pra esquecer tudo o que eu aprendi nesse maldito conservat\u00f3rio pra voltar a fazer m\u00fasica!&#8221;. Isso \u00e9 uma grande quest\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o realmente, eu acho.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Jessica<\/em><\/strong> \u2013 Mas tamb\u00e9m em rela\u00e7\u00e3o ao trabalho em processo agora. Como pensar essa no\u00e7\u00e3o de manter a contradi\u00e7\u00e3o na forma\u00e7\u00e3o, vamos dizer assim, manter a contradi\u00e7\u00e3o quando falamos de f\u00e9 e religi\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Walter<\/em><\/strong> \u2013 Sim \u00e9 isso. Francamente ainda estamos meio perdidos, mas estamos tentando, buscando, por exemplo com essa met\u00e1fora das janelas. \u00c9 um elemento, mas fragmentos nos ajudam a pensar quando a gente n\u00e3o quer, ou n\u00e3o pode, fazer algo conclusivo. Queremos que as pessoas possam sentir falta de uma parte, que elas possam tamb\u00e9m concluir. A gente gostaria de colocar algo no espa\u00e7o que provoca a vontade de buscar algo em vez de oferecer uma resposta. O problema \u00e9 que hoje em dia \u00e9 mais complicado se conseguir isso. Num espa\u00e7o expositivo ou dissertativo h\u00e1 mais espa\u00e7o, mas se voc\u00ea faz uma coisa que aparece na m\u00eddia, ou na m\u00eddia social, \u00e9 mais dif\u00edcil de se fazer algo que mantenha a complexidade. Essa \u00e9 uma quest\u00e3o que eu acho bem dif\u00edcil.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Guilherme<\/em><\/strong> \u2013 \u00c9 interessante o que voc\u00ea trouxe. Quando voc\u00ea fala dessa experi\u00eancia com as crian\u00e7as, as crian\u00e7as j\u00e1 est\u00e3o em est\u00e1gio de aprendizes de qualquer linguagem, principalmente quando elas est\u00e3o em uma terra estrangeira com outras crian\u00e7as de diferentes l\u00ednguas &#8211; culturas. Por outro lado, o estado de crian\u00e7a j\u00e1 \u00e9 um estado de ser estrangeiro at\u00e9 no mundo atual. Faz muito mais sentido agora entender de onde vem a trajet\u00f3ria de voc\u00eas com o <em>Devotionalia<\/em>, e da\u00ed por diante esse exerc\u00edcio. Quando voc\u00ea descreve os exerc\u00edcios sensoriais, de sentir um cheiro de olhos fechados, ou a proposta de olhar pra dentro, voc\u00ea est\u00e1 descrevendo uma pr\u00e1tica de colocar esse ser diante de uma outra janela pra dentro, mas mantendo a rela\u00e7\u00e3o de fric\u00e7\u00e3o entre os dois mundos. Ent\u00e3o, eu acho que se faz uma constru\u00e7\u00e3o muito interessante. Porque estar diante de uma janela j\u00e1 \u00e9 sempre uma met\u00e1fora da hist\u00f3ria da arte. Ainda mais essa janela viva do mundo que a gente vive, que \u00e9 um mundo naturalizado e que voc\u00ea n\u00e3o v\u00ea, porque voc\u00ea est\u00e1 no cotidiano, mas voc\u00ea traz outra quest\u00e3o. Como manter nesse cotidiano a \u201ccomplexidade\u201d, que \u00e9 um termo que voc\u00eas usam? A complexidade no sistema de apresentar um fragmento que pode conduzir a m\u00faltiplas totaliza\u00e7\u00f5es, sem entregar \u00e0 totaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Walter<\/em><\/strong> \u2013 Tamb\u00e9m usamos o termo de polifonia, que \u00e9 m\u00fasica que pode ser de n\u00fameros, de linhas, de melodias paralelas, que se definem na tens\u00e3o entre essas linhas. E n\u00e3o uma linha. A m\u00fasica n\u00e3o \u00e9 essa&#8230; por exemplo, a m\u00fasica simples tem uma linha principal e as harmonias que a est\u00e3o acompanhando. Mas a m\u00fasica polif\u00f4nica tem, talvez, cinco tra\u00e7os independentes, cada um tem a pr\u00f3pria for\u00e7a, nosso ouvido tem a possibilidade de ouvir in\u00fameros desses caminhos musicais, mas a obra \u00e9 a tens\u00e3o entre essas linhas que est\u00e3o independentes. A linha independente \u00e9 a tens\u00e3o que se d\u00e1 entre essas linhas. O entendimento, uma ideia ou um novo conhecimento a partir de um fluxo. Penso que isso esteja mais perto da realidade, quase nunca temos um s\u00f3 pensamento. Sempre temos v\u00e1rios. E eles se condicionam&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Jessica<\/em><\/strong> \u2013 Pegando essa no\u00e7\u00e3o de polifonia com essa quest\u00e3o da janela, lembro de uma outra refer\u00eancia do Maur\u00edcio onde voc\u00ea fala: &#8220;Se o nosso olhar tem bandeira, meu lema \u00e9 esse: Fazer do nosso olhar o olhar do outro&#8221;.<sup>2<\/sup> A arte aqui \u00e9 um dispositivo pra viabilizar um encontro? Um olhar digamos polif\u00f4nico?<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Maur\u00edcio<\/em><\/strong> \u2013 Voc\u00eas estavam falando de fragmento, eu estava pensando, o fragmento \u00e9 um bom esconderijo pra complexidade. Talvez seja s\u00f3 ali que a gente possa realmente perceber alguma complexidade. Quando se tem um fragmento bem isolado. Ent\u00e3o, quando eu falo, por exemplo, essa coisa do olhar, do emprestar o meu pro olhar do outro, n\u00e3o \u00e9 necessariamente a coisa de querer dar voz ao outro, ou falar pelo outro, mas de tentar utilizar um olhar perif\u00e9rico. Que seria isso? \u00c9 um olhar que n\u00e3o \u00e9 exatamente o foco do meu olhar, mas daquilo que est\u00e1 em volta. Um dos trabalhos em que a gente mais utilizou isso, s\u00e3o aqueles trabalhos da cole\u00e7\u00e3o do MAR [Museu de arte do Rio de Janeiro], que s\u00e3o as v\u00eddeo-maletas que contam sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria, mas o que conta n\u00e3o \u00e9 isso e sim a cidade e a data que se materializa em volta dela \u2013<em> Malas para Marcel<\/em> (2006-2007).<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"1200\" height=\"800\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-10_a_Dias-Riedweg_da-serie-As-Malas-para-Marcel.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1511\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-10_a_Dias-Riedweg_da-serie-As-Malas-para-Marcel.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-10_a_Dias-Riedweg_da-serie-As-Malas-para-Marcel-300x200.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-10_a_Dias-Riedweg_da-serie-As-Malas-para-Marcel-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-10_a_Dias-Riedweg_da-serie-As-Malas-para-Marcel-768x512.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><figcaption>Dias &amp; Riedweg. <em>Malas para Marcel<\/em>, 2006-2007. Registros da Instala\u00e7\u00e3o.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"1200\" height=\"900\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-10_b_Suitcase-8.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1513\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-10_b_Suitcase-8.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-10_b_Suitcase-8-300x225.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-10_b_Suitcase-8-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-10_b_Suitcase-8-768x576.jpg 768w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-10_b_Suitcase-8-200x150.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><figcaption>Dias &amp; Riedweg. <em>Malas para Marcel<\/em>, 2006-2007. Registros da Instala\u00e7\u00e3o.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><em><strong>Guilherme<\/strong> <\/em>\u2013 \u00c9. Muito bonito.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Maur\u00edcio<\/em><\/strong> \u2013 O que voc\u00ea v\u00ea no v\u00eddeo \u00e9 sempre o caminho da mala, mas a mala n\u00e3o tem a menor import\u00e2ncia. O que importa \u00e9 a hist\u00f3ria tra\u00e7ada por ela, o desenho que vai sendo constru\u00eddo, no ato de a mala passar de uma m\u00e3o pra outra. Ela chega no MAC [Museu de Arte Contempor\u00e2nea, Niter\u00f3i], depois ela vai parar na casa de um carnavalesco l\u00e1 de Niter\u00f3i, ela passa pela barca. S\u00e3o historietas sem roteiro. O \u00fanico roteiro \u00e9 esse objeto, que na verdade n\u00e3o \u00e9 o objeto e sim um dispositivo, s\u00f3 serve pra poder colocar o olhar perif\u00e9rico. E esse olhar perif\u00e9rico, nesse trabalho, ele \u00e9 mais f\u00edsico. Como a gente fez em um trabalho sobre carnaval, <em>C\u00e2mera Foli\u00e3<\/em>, no ano de 2004, eu acho, foi para uma exposi\u00e7\u00e3o do Alfons Hug no CCBB carioca e no Martin Gropius Bau, em Berlim.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Guilherme<\/em><\/strong> \u2013 Foi no CCBB do Rio, n\u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Maur\u00edcio<\/em><\/strong> \u2013 Sim. A gente ficou se perguntando: Como \u00e9 que a gente vai filmar o carnaval, uma coisa j\u00e1 t\u00e3o mediatizada? A gente acabou com o nosso olhar. Fizemos uma esp\u00e9cie de \u201cc\u00e2mera porta-bandeira\u201d, que era, na verdade, uma roda em cima de um mastro e colocamos quatro c\u00e2meras. A roda girava que nem a porta-bandeira. A gente dan\u00e7ava nos blocos de rua, e as c\u00e2meras, rodando, filmavam o que estivesse em volta. N\u00f3s n\u00e3o v\u00edamos o que estava sendo filmado, apenas dan\u00e7\u00e1vamos com as c\u00e2meras girando sobre a roda. E depois, no espa\u00e7o expositivo, projetamos em grandes telas de retroproje\u00e7\u00e3o numa esp\u00e9cie de grande lanterna-m\u00e1gica penetr\u00e1vel e o som (externo \u00e0s proje\u00e7\u00f5es) rodava ao redor, fazendo a volta completa no espa\u00e7o. Porque o som se movimentava ao redor, seguindo as imagens que as c\u00e2meras captavam. Desestabilizando, assim, o olhar de quem estava vendo tamb\u00e9m. E aquele era um olhar de ningu\u00e9m. Era um olhar perif\u00e9rico&#8230;A gente gosta desse abandono. O abandono do ego. O abandono da ideia de autor.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"2362\" height=\"781\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig11.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1517\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig11.jpg 2362w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig11-300x99.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig11-1024x339.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig11-768x254.jpg 768w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig11-1536x508.jpg 1536w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig11-2048x677.jpg 2048w\" sizes=\"(max-width: 2362px) 100vw, 2362px\" \/><figcaption>Dias &amp; Riedweg.<em> C\u00e2mera folia<\/em>, 2004. Frame.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong><em>Walter<\/em><\/strong> \u2013 Um detalhe engra\u00e7ado \u00e9 que as crian\u00e7as gostaram muito dessa instala\u00e7\u00e3o do carnaval. A metade das imagens voc\u00ea n\u00e3o v\u00ea, voc\u00ea s\u00f3 tem cores.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Guilherme<\/em><\/strong> \u2013 Girat\u00f3rias.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Walter<\/em><\/strong> \u2013 \u00c9. E elas come\u00e7am a girar, tentando chegar em um lugar girando o corpo junto com as imagens e tentando n\u00e3o cair. Isso eu vi v\u00e1rias vezes. Crian\u00e7as dentro dessa instala\u00e7\u00e3o, enquanto a coisa gira. Eu achei interessante como as crian\u00e7as giravam com a imagem, querendo deixar o corpo ir com ela.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"1200\" height=\"900\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-12_Sambing-Camera-Inst-2-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1519\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-12_Sambing-Camera-Inst-2-1.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-12_Sambing-Camera-Inst-2-1-300x225.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-12_Sambing-Camera-Inst-2-1-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-12_Sambing-Camera-Inst-2-1-768x576.jpg 768w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-12_Sambing-Camera-Inst-2-1-200x150.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><figcaption>Dias &amp; Riedweg. <em>C\u00e2mera folia<\/em>, 2004. Registros da instala\u00e7\u00e3o.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong><em>Guilherme<\/em><\/strong> \u2013 Mas isso \u00e9 interessante, porque, quando voc\u00ea gira, todas as crian\u00e7as fazem isso, quando voc\u00ea para de girar o mundo continua girando.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Maur\u00edcio<\/em><\/strong> \u2013 Essa \u00e9 a primeira droga, n\u00e9? (risos) Quando crian\u00e7a, eu rodava at\u00e9 me jogar no ch\u00e3o e ver as cores irem passando assim acima da cabe\u00e7a&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Guilherme<\/strong> <\/em>\u2013 Wow! Uau!<\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Maur\u00edcio<\/strong> <\/em>\u2013 At\u00e9 vomitar! Eu adorava!<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Guilherme<\/em><\/strong> \u2013 \u00c9 isso. \u00c9 isso!<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a quest\u00e3o que tamb\u00e9m me chama a aten\u00e7\u00e3o, lendo uma entrevista de voc\u00eas \u00e0 Catherine David, \u00e9 quando ela faz uma pergunta pra voc\u00eas sobre a quest\u00e3o de protocolo e m\u00e9todo.<sup>3<\/sup> Talvez o que voc\u00eas estejam compartilhando com a gente seria j\u00e1 o que voc\u00eas identificam como protocolo e m\u00e9todo? Poderiam comentar um pouco sobre protocolo e m\u00e9todo?<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Maur\u00edcio<\/em><\/strong> \u2013 Na maior parte das vezes em que a gente usa a c\u00e2mera, quando a gente pega a c\u00e2mera, na verdade a c\u00e2mera se torna um dispositivo de intera\u00e7\u00e3o com aquilo que a gente est\u00e1 filmando e, de novo, com aquele que vai ver. Ent\u00e3o, a maneira como a gente filma, ela \u00e9 bastante conceitual. No <em>Funk Staden<\/em> (2007) era assim, [tamb\u00e9m] nesses trabalhos do carnaval e das malas. \u00c0s vezes, a gente precisa de mais de uma c\u00e2mera e normalmente os nossos roteiros n\u00e3o t\u00eam um roteiro constru\u00eddo de di\u00e1logo. Eles t\u00eam um mundo tem\u00e1tico, e a\u00ed tem as janelas, ou os filtros, ou as estrat\u00e9gias, que v\u00e3o gerar uma certa maneira de realizar nosso trabalho. A maneira de filmar vai ser uma parte do dispositivo pro outro. Nesses tr\u00eas casos, nesses trabalhos, isso \u00e9 bastante \u00f3bvio. E tem outros assim, n\u00e3o s\u00e3o todos, mas tem muitos que s\u00e3o assim. Que a c\u00e2mera meio que constr\u00f3i o roteiro.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"1200\" height=\"798\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig13.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1521\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig13.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig13-300x200.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig13-1024x681.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig13-768x511.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><figcaption>Dias &amp; Riedweg. <em>Funk Staden<\/em>, 2007. Frame.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"1200\" height=\"958\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-14_funk-staden-4.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1523\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-14_funk-staden-4.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-14_funk-staden-4-300x240.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-14_funk-staden-4-1024x817.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-14_funk-staden-4-768x613.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><figcaption>Dias &amp; Riedweg. <em>Funk Staden<\/em>, 2007. Registros da instala\u00e7\u00e3o.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong><em>Jessica<\/em><\/strong> \u2013 Tem alguma diferen\u00e7a entre protocolo e m\u00e9todo? Ou isso foi mais uma pergunta da Catherine?<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Maur\u00edcio<\/em><\/strong> \u2013 Eu n\u00e3o sei qual \u00e9 a diferen\u00e7a de protocolo pra m\u00e9todo.<\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Jessica<\/strong> <\/em>\u2013 Ah.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Guilherme<\/em><\/strong> \u2013 A primeira vez que eu vi voc\u00eas citarem um protocolo, foi exatamente no entendimento do <em>Devotionalia<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Maur\u00edcio<\/strong> <\/em>\u2013 \u00c9. Sim. Nesse sentido de revisitas, de revistar os trabalhos anteriores&#8230; Mas aos nossos olhos n\u00e3o \u00e9 exatamente um protocolo, nem mesmo um m\u00e9todo, \u00e9 s\u00f3 uma possibilidade, natural, j\u00e1 que no nosso caso um trabalho traz ao outro&#8230; Os trabalhos se ligam independentemente se a gente revisita os anteriores, est\u00e3o sempre presentes um no outro. Por exemplo, no <em>Nada Quase Nada<\/em>, que t\u00e1 nesse grupo tem\u00e1tico da psiquiatria, a gente revisita diretamente tr\u00eas trabalhos.<\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro deles foi o <em>Bloc\u00e3o<\/em> (2014), que \u00e9 um trabalho gr\u00e1fico que fizemos para uma exposi\u00e7\u00e3o na Casa Fran\u00e7a Brasil, composto de um bloco de cartazes em preto e branco com 80 frases de <em>celebrities<\/em>, que v\u00e3o de pol\u00edticos, jogadores de futebol, cantores e socialites misturadas a frases de Beckett e Ionesco. A trivialidade, a banalidade de nosso cotidiano, misturadas \u00e0 filosofia, j\u00e1 resulta numa aproxima\u00e7\u00e3o ao contexto psiqui\u00e1trico. A ideia era que esses cartazes deixassem a Casa Fran\u00e7a Brasil, levados de gra\u00e7a pelo p\u00fablico, bem na \u00e9poca das manifesta\u00e7\u00f5es em 2013-14 quando a agita\u00e7\u00e3o pol\u00edtica come\u00e7ou a pipocar no Brasil todo, e ali, bem no centro do Rio, que foi um lugar intenso de manifesta\u00e7\u00f5es, e esses cartazes sa\u00edram pelas ruas&#8230; at\u00e9 hoje a gente recebe imagens desses cartazes nas manifesta\u00e7\u00f5es. A gente os viu em banheiro de botequim, em passeatas, na casa dos outros&#8230; Tinha v\u00e1rios deles por a\u00ed. Isso foi a ideia inicial desse trabalho.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"732\" height=\"1024\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig15-732x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1525\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig15-732x1024.jpg 732w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig15-214x300.jpg 214w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig15-768x1075.jpg 768w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig15-1097x1536.jpg 1097w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig15-1463x2048.jpg 1463w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig15-scaled.jpg 1829w\" sizes=\"(max-width: 732px) 100vw, 732px\" \/><figcaption>Dias &amp; Riedweg. <em>Bloc\u00e3o,<\/em> 2014. Frames.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"732\" height=\"1024\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig15-b-732x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1527\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig15-b-732x1024.jpg 732w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig15-b-214x300.jpg 214w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig15-b-768x1075.jpg 768w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig15-b-1097x1536.jpg 1097w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig15-b-1463x2048.jpg 1463w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig15-b-scaled.jpg 1829w\" sizes=\"(max-width: 732px) 100vw, 732px\" \/><figcaption>Dias &amp; Riedweg. <em>Bloc\u00e3o<\/em>, 2014. Frames.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Outro trabalho foi o <em>Nada Absolutamente Nada<\/em>, em que a gente entrava no universo do Robert Walser pra recriar com os pacientes do IPUB (Instituto de psiquatria de Universidade Federal de Rio de Janeiro) novos textos a partir dos quais foram feitos os roteiros pro v\u00eddeo que foi exposto na Casa Daros em 2015.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"1200\" height=\"800\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-16_Nada-still-Workshop-07.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1529\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-16_Nada-still-Workshop-07.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-16_Nada-still-Workshop-07-300x200.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-16_Nada-still-Workshop-07-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-16_Nada-still-Workshop-07-768x512.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><figcaption>Dias &amp; Riedweg.<em> Nada Absolutamente Nada<\/em>, 2015. Frame.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>E o terceiro elemento usado foram as m\u00e1scaras do <em>Voracidade M\u00e1xima<\/em> (2003) que \u00e9 aquele trabalho que a gente fez com mich\u00eas em Barcelona. A gente emprestava a m\u00e1scara da nossa cara pros mich\u00eas para fazer a entrevista com eles, ent\u00e3o, voc\u00ea s\u00f3 tinha a identidade visual do artista, mas o que voc\u00ea escuta \u00e9 a vida do prostituto, o que \u00e9 perturbador pra quem est\u00e1 vendo&#8230; O que v\u00ea no v\u00eddeo \u00e9 sempre o artista e a m\u00e1scara do artista, mas o que ouve \u00e9 o depoimento de um prostituto. A gente quis colocar essa coisa meio psicanal\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>O resultado da revisita desses tr\u00eas trabalhos foi o <em>Nada Quase Nada<\/em>&#8230; Vestimos essas m\u00e1scaras e realizamos uma performance como se fosse um telejornal. E esta superposi\u00e7\u00e3o das frases dos cartazes, com os textos intensos de Robert Walser e as m\u00e1scaras bizarras de n\u00f3s mesmos gerou uma dimens\u00e3o poss\u00edvel de tornar a pol\u00edtica real, a <em>Realpolitik<\/em>, totalmente maluca, que \u00e9 o que ela \u00e9. Porque na verdade o que separa o Bolsonaro do maluco do hosp\u00edcio \u00e9 que ele est\u00e1 do lado de fora. S\u00f3.<\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Guilherme<\/strong> <\/em>\u2013 E que n\u00f3s estamos do lado de dentro. (risos)<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Maur\u00edcio<\/em><\/strong> \u2013 O que a gente tentou nesse trabalho, que eu acho que a gente conseguiu at\u00e9 certo ponto, foi isso. E isso \u00e9 um protocolo mesmo&#8230; revisitando trabalhos anteriores. J\u00e1 <em>Devotionalia<\/em> teve como seu resultado final o protocolo do pr\u00f3prio trabalho. Quando voltamos a procur\u00e1-los nas ruas oito anos depois, vimos que muitos dos meninos morreram, j\u00e1 n\u00e3o os encontramos mais, e continu\u00e1vamos sem saber o que fazer com aquelas m\u00e3os e p\u00e9s [aqueles ex-votos de cera das m\u00e3os e p\u00e9s deles, que criamos na \u00e9poca].<\/p>\n\n\n\n<p>A\u00ed, em 2004, chegou um curador japon\u00eas do Museu de Arte Moderna de T\u00f3quio dizendo: &#8220;A gente quer muito mostrar esse trabalho&#8221;. Eu disse: &#8220;Mas esse trabalho \u00e9 um elefante branco, n\u00f3s os deixamos l\u00e1 em Bras\u00edlia onde tinha sido exposto a \u00faltima vez no Congresso Nacional, t\u00e1 despeda\u00e7ado, deve estar totalmente quebrado&#8221;. Mas ele falou que o museu de T\u00f3quio mandaria apanh\u00e1-lo&#8230; \u201cvamos restaurar e vamos instalar como tem que ser\u201d. E nessa \u00e9poca a Catherine David sugeriu: &#8220;Porque voc\u00eas n\u00e3o fazem o protocolo da obra&#8230; retomando o v\u00eddeo onde parou, tentando reencontrar os meninos que sobreviveram?&#8221;. E a\u00ed a gente fez a forma final do v\u00eddeo que contava as hist\u00f3rias dos meninos que sobreviveram e dos meninos que morreram, misturadas a cita\u00e7\u00f5es de imprensa sobre eles mesmos. Ent\u00e3o, aparece no v\u00eddeo um texto da imprensa em <em>scroll<\/em> preto e branco, que \u00e9 aquela coisa fria da imprensa, dizendo: &#8220;Mais uma chacina no viaduto de Madureira, tantos e tantos anos depois da Candel\u00e1ria, morrem n\u00e3o sei mais quantos, todos n\u00e3o tinham nome&#8221;&#8230; enquanto se v\u00ea nossas imagens antigas (de <em>Devotionalia<\/em>) dessas mesmas pessoas, ent\u00e3o ainda meninos e agora j\u00e1 mortas, ou sendo mostradas por outros que seguiam vivos e se referiam a eles nesses novos v\u00eddeos oito anos depois. V\u00e1rias dessas cita\u00e7\u00f5es de imprensa s\u00e3o sobre o caso do Sandro, do sequestro do \u00f4nibus 174, que abalou o pa\u00eds ao ser transmitido ao vivo pela TV. Oito anos antes, ele era um dos meninos participantes de <em>Devotionalia<\/em>, brincando com bolinhas de cera e gesso conosco. Ent\u00e3o, essas coisas produziram o avesso dos ex-votos, isso sim s\u00e3o protocolos. S\u00e3o hist\u00f3rias que vem da vida para dentro do trabalho e dele, de novo pra fora. E a outra palavra que voc\u00ea usou? Foi estrat\u00e9gia?<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Guilherme<\/em><\/strong> \u2013 M\u00e9todo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Maur\u00edcio<\/em><\/strong> \u2013 M\u00e9todo. \u00c9, os m\u00e9todos s\u00e3o: o olhar perif\u00e9rico, a tentativa de ficar na janela&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Guilherme<\/em><\/strong> \u2013 \u00c9. Janela como m\u00e9todo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Maur\u00edcio<\/em><\/strong> \u2013 A gente n\u00e3o fica em cima do muro, a gente fica na janela, dentro e fora. A gente olha pra dentro, olha pra fora. E o outro tem sempre essa mesma janela. Cada um tem sua janela (risos).. Tem um filme muito bonito que eu n\u00e3o sei quem fez, que \u00e9 sobre cegueira, que chama <em>Janela da Alma<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Guilherme<\/em><\/strong> \u2013 <em>Janela da Alma<\/em> (2001) \u00e9 de Jo\u00e3o Jardim e Walter Carvalho.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Maur\u00edcio<\/em><\/strong> \u2013 Que lindo, n\u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Jessica<\/em> <\/strong>\u2013 Isso conecta com um conceito discutido em outras entrevistas de voc\u00eas que \u00e9 a ideia do document\u00e1rio expandido: &#8220;A no\u00e7\u00e3o do document\u00e1rio expandido, implica duvidar da verdade quase o tempo todo para ser capaz de sair a procura dela&#8221;.<sup>4<\/sup><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Walter<\/em><\/strong> \u2013 Por exemplo, n\u00f3s temos <em>Pequenas Hist\u00f3rias de Mod\u00e9stia e D\u00favida<\/em> (2010-2012) onde tentamos fazer v\u00e1rios v\u00eddeos que n\u00e3o tem corte e quebrar essa forma linear de contar uma hist\u00f3ria. Nele, a imagem sempre come\u00e7a e termina num pixel, que puxa a imagem seguinte.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Maur\u00edcio<\/em><\/strong> \u2013 Nesse trabalho toda imagem sempre sai de um pixel at\u00e9 encher a tela. E quando enche a tela, vem outro pixel l\u00e1 do meio e gera outra imagem&#8230; Essa \u00e9 a edi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Walter<\/em><\/strong> \u2013 Mas nunca tem um corte.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Maur\u00edcio<\/em><\/strong> \u2013 E s\u00e3o tr\u00eas telas.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"1200\" height=\"800\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-17_Pequenas-historias_Small-Stories-2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1531\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-17_Pequenas-historias_Small-Stories-2.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-17_Pequenas-historias_Small-Stories-2-300x200.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-17_Pequenas-historias_Small-Stories-2-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-17_Pequenas-historias_Small-Stories-2-768x512.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><figcaption>Dias &amp; Riedweg. <em>Pequenas Hist\u00f3rias de Mod\u00e9stia e Duvida<\/em>, 2010-2012. Foto da instala\u00e7\u00e3o.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong><em>Walter<\/em><\/strong> \u2013 Na pr\u00e1tica, cada imagem desse trabalho cresce de um pixel, de seu centro para suas bordas, mas d\u00e1 a impress\u00e3o que continua fluindo, para fora, em algum lugar, porque j\u00e1 em seguida um pr\u00f3ximo pixel, que vem do meio, puxa a imagem, a abre tomando o espa\u00e7o da tela. Muitas pessoas que assistem provavelmente nem percebem, mas existe uma outra presen\u00e7a nesse trabalho porque ele contradiz o dogma da temporalidade do v\u00eddeo, de ter sempre um corte. Um corte \u00e9 uma coisa perturbadora que a gente estava tentando evitar&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Maur\u00edcio<\/em><\/strong> \u2013 Sair da narrativa t\u00e3o cronol\u00f3gica, entrar num Kair\u00f3s, sair do Chronos e entrar no Kair\u00f3s, num outro tempo. \u00c9 um pixel que leva cada imagem at\u00e9 a tela encher, a\u00ed, quando ela enche, cresce outro pixel do seu meio com uma outra imagem. E s\u00e3o tr\u00eas telas pra cada um dos quatro v\u00eddeos. O espa\u00e7o final, na verdade, \u00e9 composto de doze telas flutuantes (fora da parede, penduradas do teto e vistas dos dois lados) mas como uma s\u00f3 narrativa polif\u00f4nica, uma narrativa a partir de fragmentos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Guilherme<\/em><\/strong> \u2013 Mas o \u00e1udio, o \u00e1udio&#8230;?<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Maur\u00edcio<\/em><\/strong> \u2013 O \u00e1udio s\u00e3o quatro m\u00fasicas, com o Walter tocando piano e alguns ru\u00eddos guardados das filmagens tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Walter<\/em><\/strong> \u2013 Bom, tem fragmentos do pr\u00f3prio \u00e1udio da imagem, digamos, perfume dentro do \u00e1udio, mas de fato, s\u00e3o quatro m\u00fasicas que eu fiz pra cada um desses v\u00eddeos, que eu toco no piano, que n\u00e3o t\u00eam nada a ver direto com a imagem, exatamente, pra afirmar o lugar (externo) do espectador em frente dessas imagens.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Guilherme<\/em><\/strong> \u2013 Mas voc\u00ea toca tamb\u00e9m a partir de uma improvisa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Walter<\/em><\/strong> \u2013 Eu fiz um conceito pra cada m\u00fasica, pra cada v\u00eddeo. A ideia era de fazer algo que cria uma dist\u00e2ncia e afirma o espa\u00e7o onde est\u00e1 o espectador.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Maur\u00edcio<\/em><\/strong> \u2013 Os v\u00eddeos s\u00e3o: <em>A Cidade Fora Dela<\/em> (2010) que \u00e9 literalmente uma janela. \u00c9 a cidade filmada da janela de uma birosca, do alto da favela Santa Marta&#8230; a c\u00e2mera vai saindo de fora, come\u00e7ando no Cemit\u00e9rio S\u00e3o Jo\u00e3o Batista, na dist\u00e2ncia do plano aberto, vai se aproximando, pega as pipas no c\u00e9u, depois ela entra pela janela da birosca e a\u00ed se v\u00ea um jogo de sinuca no boteco. Mas o que acontece com essa coisa das tr\u00eas telas sobrepostas, com imagens partindo de um pixel, \u00e9 que se forma quase um jogo cubista&#8230; nas tr\u00eas telas, porque elas se fragmentam tanto que voc\u00ea registra o que est\u00e1 acontecendo no movimento, mas voc\u00ea n\u00e3o guarda mais nenhuma imagem da sequ\u00eancia. A hist\u00f3ria, o v\u00eddeo, vai entrando por outras porosidades.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"933\" height=\"525\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig18.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1533\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig18.jpg 933w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig18-300x169.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig18-768x432.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 933px) 100vw, 933px\" \/><figcaption>Dias &amp; Riedweg. <em>A Cidade Fora Dela<\/em>, 2010.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Tem um outro v\u00eddeo dessa instala\u00e7\u00e3o que se chama <em>Peladas Noturnas<\/em> (2011) que s\u00e3o umas peladinhas de futebol, das pracinhas das favelas que foram feitas com as UPPs, filmadas de noite, que voc\u00ea v\u00ea tamb\u00e9m de fora pra dentro&#8230; De longe essas pra\u00e7as das UPPs parecem umas esta\u00e7\u00f5es lunares na paisagem, meio douradas por causa da luz sobre as grades de metal, assim, no meio daquele montinho de pontinhos de luz da favela. Da\u00ed, a cada sequ\u00eancia a partir de um pixel central, a c\u00e2mera vai se aproximando, e voc\u00ea v\u00ea, finalmente, uma a\u00e7\u00e3o humana, que s\u00e3o os meninos jogando pelada.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"1200\" height=\"800\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-19_Peladas-Noturnas_Nocturnal-Kick-abouts-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1535\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-19_Peladas-Noturnas_Nocturnal-Kick-abouts-1.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-19_Peladas-Noturnas_Nocturnal-Kick-abouts-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-19_Peladas-Noturnas_Nocturnal-Kick-abouts-1-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig-19_Peladas-Noturnas_Nocturnal-Kick-abouts-1-768x512.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><figcaption>Dias &amp; Riedweg. <em>Peladas Noturnas<\/em>, 2011. Frame.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Outro deles \u00e9 <em>O Espelho e a Tarde<\/em> (2011), que \u00e9 um entardecer com o nosso amigo Cleiton, subindo o Complexo do Alem\u00e3o, carregando um espelho, e voc\u00ea v\u00ea a favela no espelho. E atrav\u00e9s desse ritmo cont\u00ednuo de pixels se substituindo, a narrativa toma uma outra dire\u00e7\u00e3o, realmente quase cubista, que \u00e9 o fragmento do fragmento do fragmento, pra chegar a um discurso mais complexo, sem cair na narrativa cl\u00e1ssica de contar uma hist\u00f3ria. Sem cair na cronologia da hist\u00f3ria contada. Tentamos, de alguma forma, construir narrativas que s\u00e3o um pouco mais livres de cronologias. Isso talvez, seja tamb\u00e9m um m\u00e9todo.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"2560\" height=\"1707\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig20-scaled.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1537\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig20-scaled.jpg 2560w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig20-300x200.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig20-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig20-768x512.jpg 768w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig20-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig20-2048x1365.jpg 2048w\" sizes=\"(max-width: 2560px) 100vw, 2560px\" \/><figcaption>Dias &amp; Riedweg. <em>O Espelho e a Tarde<\/em>, 2011. Frame.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"1405\" height=\"939\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig21.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1539\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig21.jpg 1405w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig21-300x200.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig21-1024x684.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig21-768x513.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1405px) 100vw, 1405px\" \/><figcaption>Dias &amp; Riedweg. <em>O Espelho e a Tarde<\/em>, 2011. Foto da instala\u00e7\u00e3o.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong><em>Jessica<\/em><\/strong> \u2013 Isso me parece tamb\u00e9m que tem a ver com uma pr\u00e1xis tanto de interven\u00e7\u00e3o quanto representa\u00e7\u00e3o. Voc\u00eas n\u00e3o entram com a c\u00e2mera pra fazer um document\u00e1rio. \u00c9 um outro corpo de narrativas que est\u00e1 sendo constru\u00eddo&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Maur\u00edcio<\/em><\/strong> \u2013 Sim, a gente tem no\u00e7\u00e3o de que nossas interven\u00e7\u00f5es, mesmo quando participativas, tamb\u00e9m s\u00e3o representa\u00e7\u00e3o. Por mais que a gente procure evitar produzir para o mercado de arte, geramos produtos que viram obras. Mas s\u00e3o dispositivos, tem uma edi\u00e7\u00e3o, tem conceito, mas a gente tamb\u00e9m \u00e9 bastante formalista. Pra gente, a forma \u00e9 uma paix\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a quest\u00e3o intelectual do trabalho, \u00e9 a tradu\u00e7\u00e3o dela. Como isso vai ser colocado depois, como dispositivo pro outro. Isso, a gente tenta, realmente, dar uma forma autoral ao nosso trabalho. Que as pessoas olhem e saibam: &#8220;Isso \u00e9 um v\u00eddeo desses dois. Daquela dupla que a gente n\u00e3o consegue guardar o nome&#8221;&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Jessica<\/em><\/strong> \u2013 Mas, tem forma em v\u00e1rios sentidos. Quando voc\u00ea fala de uma forma em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 representa\u00e7\u00e3o, eu acho interessante tamb\u00e9m perguntar sobre a forma em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 interven\u00e7\u00e3o. Porque tem tantas quest\u00f5es \u00e9ticas-est\u00e9ticas e pol\u00edticas-sociais ali. O que voc\u00ea est\u00e1 catalisando? O que voc\u00eas est\u00e3o mobilizando? Tudo muito complexo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Maur\u00edcio<\/em> <\/strong>\u2013 \u00c9. S\u00f3 que no nosso caso n\u00e3o \u00e9 sempre interven\u00e7\u00e3o. A gente n\u00e3o interv\u00e9m, a gente encontra. \u00c9 uma intera\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, procuramos produzir obra como dispositivo de arte, expandindo esse limite entre intera\u00e7\u00e3o e representa\u00e7\u00e3o o tempo todo em cada projeto. Desde quando desenhamos um conceito, encontramos o outro pra fazer a primeira grava\u00e7\u00e3o, apresentar este conceito, convidar a pessoa a participar, at\u00e9, quando fazemos um dispositivo final num museu, sabendo que ele vai encontrar um outro, desconhecido, que n\u00e3o conhecemos e n\u00e3o controlamos, que a gente n\u00e3o sabe quem \u00e9, que pode ser um cr\u00edtico de arte ou um Bolsonaro. Ent\u00e3o, assim, essa preocupa\u00e7\u00e3o, essa quest\u00e3o entre intera\u00e7\u00e3o e representa\u00e7\u00e3o, ela \u00e9 presente como uma fric\u00e7\u00e3o na elabora\u00e7\u00e3o e execu\u00e7\u00e3o do trabalho o tempo inteiro. Por isso pra gente \u00e9 dif\u00edcil determinar quando um trabalho come\u00e7a, e quando termina. A primeira ideia pode surgir num sonho que um de n\u00f3s dois tem: &#8220;Ah, tem uma coisa a\u00ed. Vamos embora&#8221;, a\u00ed a gente come\u00e7a a falar, um fala, o outro escuta e j\u00e1 muda uma parte ou tudo do que o outro est\u00e1 falando, pouco a pouco aquilo vira um conceito. A\u00ed, j\u00e1 tem uma outra coisa, que \u00e9: &#8220;Vamos colocar esse conceito em pr\u00e1tica&#8221;, como financi\u00e1-lo, \u00e0s vezes, tem-se que ter permiss\u00e3o pra fazer, como viabilizar, se tem outras pessoas, como vai ser a quest\u00e3o \u00e9tica. Qual \u00e9 a abordagem, porque a gente tem diferen\u00e7as em rela\u00e7\u00e3o a esse outro. Ningu\u00e9m \u00e9 igual. Tudo isso tem que ser levado em conta. Essa intera\u00e7\u00e3o, ela j\u00e1 \u00e9 levada em conta quando a ideia vai pro papel, j\u00e1 tem uma intera\u00e7\u00e3o entre n\u00f3s dois, e quando sai do papel pra virar alguma coisa tem um monte de novas intera\u00e7\u00f5es ali, que v\u00e3o ser levadas at\u00e9 a obra final. E muitas vezes, depois, o curador chega junto e muda mais na hora da exposi\u00e7\u00e3o. \u00c0s vezes \u00e9 o espa\u00e7o, n\u00e3o o curador, que determina. Nossa exposi\u00e7\u00e3o no Centro Municipal de Artes H\u00e9lio Oiticica no Rio, n\u00e3o teve um curador. Foi um trabalho inteiramente monogr\u00e1fico. Foi uma exposi\u00e7\u00e3o individual, grande, com todos trabalhos feitos no Rio, o crit\u00e9rio de escolha foi s\u00f3 esse, e a gente montou a mostra da forma como sentia o espa\u00e7o. Mas tem muita exposi\u00e7\u00e3o, por exemplo <em>Funk Staden<\/em> (2007) na Documenta, a gente nunca teria mostrado. Mas o curador argumentou: &#8220;N\u00e3o, tem que ser desse jeito. Voc\u00eas est\u00e3o na Documenta, tem um discurso com outras obras, tem o discurso da pr\u00f3pria Documenta, voc\u00eas t\u00eam que se subscrever dentro do discurso da mostra&#8221;. Ent\u00e3o s\u00e3o negocia\u00e7\u00f5es entre intera\u00e7\u00e3o e representa\u00e7\u00e3o que, enquanto o trabalho vive, ele vai passando. Eu acho que n\u00e3o \u00e9 muito diferente de nenhuma outra forma de trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Guilherme<\/em><\/strong> \u2013 Me chama a aten\u00e7\u00e3o dois eixos do fio condutor desta conversa. Uma \u00e9 essa quest\u00e3o de m\u00e9todo e protocolo. E tem outro que aparece, de uma maneira talvez mais subliminar, mas tamb\u00e9m mais contundente, que em v\u00e1rias obras, como essa pr\u00f3xima, voc\u00eas v\u00eam lidando com religi\u00e3o, pol\u00edtica e territ\u00f3rio, como uma presen\u00e7a o tempo todo de diferentes formas. Como por exemplo, nos ex-votos, tem uma rela\u00e7\u00e3o de f\u00e9 e esperan\u00e7a dentro da instala\u00e7\u00e3o e dentro do pr\u00f3prio conceito e processo. No processo de <em>Devotionalia<\/em> voc\u00eas coletaram o depoimento de cada menino, um cuidado tremendo. No <em>Funk Staden<\/em>, eu penso tamb\u00e9m nas imagens da viol\u00eancia e do prazer no baile funk, de como isso \u00e9 ao mesmo tempo inferno e para\u00edso, as pessoas felizes dan\u00e7ando. Na <em>Cidade Fora Dela<\/em> voc\u00ea tem um c\u00e9u como testemunha sobrepondo as v\u00e1rias preocupa\u00e7\u00f5es com a cidade. Atrav\u00e9s de v\u00e1rias camadas o tempo todo, voc\u00eas t\u00eam colocado, de uma forma n\u00e3o tem\u00e1tica, mas presente essa rela\u00e7\u00e3o. Voc\u00eas se observam? \u00c9 uma rela\u00e7\u00e3o de uma indaga\u00e7\u00e3o, como voc\u00ea falou, de riscos e janelas do humano, e do super humano, do divino, do sagrado, da injusti\u00e7a, e tudo. A todo momento a gente est\u00e1 vendo esse fio condutor em v\u00e1rias obras. At\u00e9 atrav\u00e9s dessa mod\u00e9stia e humildade tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Maur\u00edcio<\/em><\/strong> \u2013 Isso \u00e9 dif\u00edcil, mas esse trabalho que vem agora \u00e9 um trabalho sobre a f\u00e9. E a f\u00e9, muito pra l\u00e1 de ser um aprisionamento territorial, um pecado, ela pode ser um motor. Um motor de mudan\u00e7a, um motor de express\u00e3o. Ela est\u00e1, talvez, localizada nesse espa\u00e7o entre o mundo interno e o mundo externo. Talvez, quando ela \u00e9 expressa no mundo externo, ela perca o potencial maior dela. Porque ela vai se materializar em alguma forma territorial, e vai se corromper por pol\u00edtica territorial. O Thomas Mann fala disso de uma forma linda no livro <em>Doutor Fausto<\/em>, como a express\u00e3o da f\u00e9 acaba se corrompendo porque ela vira religi\u00e3o, ela entra em um territ\u00f3rio que n\u00e3o \u00e9 mais um territ\u00f3rio da alma. Entra em um territ\u00f3rio social, um territ\u00f3rio com o outro. Ent\u00e3o, eu n\u00e3o sei, a gente tem uma&#8230; n\u00e3o \u00e9 que seja uma obsess\u00e3o, mas essa quest\u00e3o da f\u00e9, \u00e9 muito parecida com a obsess\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o. \u00c9 muito parecida com uma esp\u00e9cie de parto. Voc\u00ea tem uma coisa que vai colocar no mundo. Talvez a arte seja um ato de f\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Guilherme<\/em><\/strong> \u2013 Um trabalho de f\u00e9, contra a corrup\u00e7\u00e3o da f\u00e9? H\u00e1 um exerc\u00edcio de fric\u00e7\u00e3o constante nos v\u00e1rios trajetos que voc\u00eas&#8230; Eu n\u00e3o sei, a palavra f\u00e9 \u00e9 uma palavra, tamb\u00e9m, dif\u00edcil, n\u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Maur\u00edcio<\/em><\/strong> \u2013 \u00c9 muito carregada.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Guilherme<\/em><\/strong> \u2013 \u00c9. Mas, existe algum fio de motiva\u00e7\u00e3o muito forte com voc\u00eas?<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Maur\u00edcio<\/em><\/strong> \u2013 Se a gente pensa na f\u00e9 como o Gilberto Gil coloca nas can\u00e7\u00f5es dele. A f\u00e9 \u00e9 viver. Estar vivo. Mas, no momento atual, dizer que o trabalho \u00e9 um ato de f\u00e9, \u00e9 foda! Porque voc\u00ea incorre num peso dessas palavras que est\u00e3o muito abusadas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Jessica<\/em><\/strong> \u2013 Talvez seja uma f\u00e9 na d\u00favida.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Walter<\/em><\/strong> \u2013 \u00c9, a d\u00favida \u00e9, com certeza, muito mais digna do que&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Maur\u00edcio<\/em><\/strong> \u2013 A d\u00favida \u00e9 mais digna do que a certeza, n\u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Walter<\/em><\/strong> \u2013 Do que uma f\u00e9 afirmativa. Isso \u00e9 a quest\u00e3o, talvez&#8230; defini\u00e7\u00e3o de uma for\u00e7a de f\u00e9 mais m\u00edstica, mais digna, inclui a d\u00favida. A f\u00e9 religiosa elimina a d\u00favida. E talvez, ali, \u00e9 o momento de dizer n\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Maur\u00edcio<\/strong> <\/em>\u2013 Tem-se que emancipar a f\u00e9, descol\u00e1-la do credo, da certeza.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Walter<\/em><\/strong> \u2013 Se a gente consegue afirmar a d\u00favida sem cair em cinismo, consegue aprender a lidar com diferen\u00e7as. Eu me lembro uma vez, a Catherine David falou uma coisa: &#8220;A grande diferen\u00e7a est\u00e1 na pequena diferen\u00e7a&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Maur\u00edcio<\/em><\/strong> \u2013 Nas nuances da diferen\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Walter<\/em><\/strong> \u2013 Nas nuances. A diferen\u00e7a est\u00e1 nas nuances.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Maur\u00edcio<\/em><\/strong> \u2013 O que faz a diferen\u00e7a est\u00e1 nas nuances da diferen\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Walter<\/strong> <\/em>\u2013 Isso eu acho fundamental. Muitas vezes algo parecido que est\u00e1 levemente fora do lugar se torna encantador. Se estivesse totalmente no lugar, seria opressor. N\u00e3o seria nada. Mas transpar\u00eancia, fragilidade, temporalidade, s\u00e3o elementos que me parecem crit\u00e9rios pra dizer o que me interessa. Mesmo dentro do territ\u00f3rio de pessoas religiosas, existem pessoas que t\u00eam todas essas qualidades e conseguem ser e agir de forma respeit\u00e1vel. Muitas vezes as pessoas que representam religiosidade s\u00e3o doutrinadoras, s\u00e3o perigosas. Porque n\u00e3o t\u00eam mais nenhuma dessas qualidades. Nem fragilidade, nem temporalidade&#8230; O ef\u00eamero visa o poder eterno, ser e permanecer a for\u00e7a. A f\u00e9 pode andar de m\u00e3os dadas com a certeza, mas tem que ter consigo a d\u00favida.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas eu estava querendo falar uma outra coisa. Nesse novo trabalho, vamos abordar rituais que a gente tem desde s\u00e9culos, e alguns novos, que os repetem, como por exemplo os cortejos. Essa necessidade de um bando de gente andar junto em uma dire\u00e7\u00e3o, carregando coisas, cantando, fazendo coisas repetidas. Isso vai de um desfile militar ao carnaval, ou a uma coisa religiosa. Vendo esses desfiles, tem muita coisa parecida e tem diferen\u00e7as essenciais. Mas a diferen\u00e7a est\u00e1 exatamente nas nuances.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Maur\u00edcio<\/em><\/strong> \u2013 Mas eu acho que, voltando \u00e0 tua coloca\u00e7\u00e3o do trabalho de arte ser como um ato de f\u00e9, acho que sim&#8230; F\u00e9, no sentido anterior \u00e0 cren\u00e7a, f\u00e9 na d\u00favida. Em quando ainda n\u00e3o se formulou uma liturgia, sabe? Fazer do trabalho um ato de f\u00e9. F\u00e9 em que sentido? No sentido de acreditar no que n\u00e3o se sabe ainda. F\u00e9, credo, cren\u00e7a, religi\u00e3o&#8230; a coisa vai se politizando, vai se socializando, vai se territorializando&#8230; Mas antes \u00e9 s\u00f3 como aquela m\u00fasica do Gil: &#8220;&#8230;Andar com f\u00e9 eu vou que a f\u00e9 n\u00e3o costuma falhar&#8230;\u201d. Que lindo isso! O Gil falando de f\u00e9 e d\u00favida, eu acho incr\u00edvel! Porque pra ter f\u00e9 tem que ter d\u00favida. Sen\u00e3o, j\u00e1 virou uma outra coisa. J\u00e1 virou um credo, uma liturgia. Se voc\u00ea est\u00e1 com uma fezinha em alguma coisa, voc\u00ea se joga, voc\u00ea est\u00e1 em um territ\u00f3rio que voc\u00ea n\u00e3o sabe. Arte tem que ser assim tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"1200\" height=\"675\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-22_a_Mau-mesa-Still-1-B7w.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1541\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-22_a_Mau-mesa-Still-1-B7w.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-22_a_Mau-mesa-Still-1-B7w-300x169.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-22_a_Mau-mesa-Still-1-B7w-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-22_a_Mau-mesa-Still-1-B7w-768x432.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><figcaption>Dias Riedweg. <em>Em casa<\/em> (trabalho em processo), 2020.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"1200\" height=\"675\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-22_b_Wal-Sofa-Still-b_w-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1543\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-22_b_Wal-Sofa-Still-b_w-1.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-22_b_Wal-Sofa-Still-b_w-1-300x169.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-22_b_Wal-Sofa-Still-b_w-1-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-22_b_Wal-Sofa-Still-b_w-1-768x432.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><figcaption>Dias Riedweg. <em>Em casa<\/em> (trabalho em processo), 2020.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">***<\/p>\n\n\n\n<p>Desde 1993, <strong><em>Maur\u00edcio Dias<\/em><\/strong> (Rio de Janeiro, 1964) e <strong><em>Walter Riedweg<\/em><\/strong> (Lucerna, 1955) trabalham juntos em projetos que investigam as maneiras como psicologias privadas afetam, constroem e desconstroem o espa\u00e7o p\u00fablico, e vice-versa. Em projetos nos quais a alteridade e a percep\u00e7\u00e3o s\u00e3o quest\u00f5es centrais, Dias &amp; Riedweg frequentemente partem de processos interativos para produzir encontros e trocas em meio \u00e0 grupos particulares da sociedade, que t\u00eam o seu enfoque na identidade e no envolvimento dos participantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Dias &amp; Riedweg integraram importantes exposi\u00e7\u00f5es internacionais como <em>Conversations at the Castle,<\/em> de Homi Bhabha e Mary Jane Jacob, nos Estados Unidos, <em>L\u2019\u00c9tat des Choses<\/em> de Catherine David na Kunst-Werke Berlim e a Documenta de Kassel de 2007. Participaram ainda na Bienal de Veneza 1999 curados por Harald Szeemann, e na 24\u00aa S.Paulo 1998, curados por Paulo Herkenhoff.<\/p>\n\n\n\n<p>Com&nbsp;obras em museus como o Centre Georges Pompidou de Paris, o MACBA de Barcelona, o KIASMA de Helsinki, Reina Sofia Madrid, no MAR, MNBA e no MAM do Rio, MAM de S.Paulo e da Bahia, no MFA Houston e no MUAC, Museu de Arte Contempor\u00e2nea de Mexico, a dupla recebeu ainda os pr\u00eamios do Video Brasil, da Guggenheim de Nova York, a Bolsa Vitae de S. Paulo e da Funda\u00e7\u00e3o Pro Helvetia.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/vimeo.com\/diasriedweg\">https:\/\/vimeo.com\/diasriedweg<\/a><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\" \/>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><sup>1 <\/sup>A rua como destino: Paulo Herkenhoff Entrevista Dias &amp; Riedweg. In: DIAS &amp; RIEDWEG, At\u00e9 que a rua nos separa. Rio de Janeiro: Nau Editora, 2012, p.118-157, p.128<br><sup>2 <\/sup>Ibid, p.139<br><sup>3<\/sup> O an\u00f4nimo entre o perto e o longe: Catherin David Entrevista Dias &amp; Riedweb. Ibid, p.96-115, 102<br><sup>4<\/sup> Os tr\u00f3picos existem: Cuauht\u00e9moc Medina Entrevista Dias &amp; Riedweg. Op cit p.160 \u2013 191, p.186<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esconderijos e janelas &#8211; Olhares perif\u00e9ricos: Entrevista com Maur\u00edcio Dias e Walter Riedweg Guilherme Vergara \u2013 Voc\u00eas desenvolveram ao longo de mais de 20 anos um amplo e rico corpo [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/98"}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=98"}],"version-history":[{"count":24,"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/98\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3493,"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/98\/revisions\/3493"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=98"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}