{"id":69,"date":"2021-03-09T14:22:45","date_gmt":"2021-03-09T17:22:45","guid":{"rendered":"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/?page_id=69"},"modified":"2021-04-12T14:33:13","modified_gmt":"2021-04-12T17:33:13","slug":"carolina-pizarro-cortes","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/carolina-pizarro-cortes\/","title":{"rendered":"Trazendo \u00e0 luz: testemunhos visuais de sobreviv\u00eancia"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"1650\" height=\"918\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/capa_Pizarro-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-155\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/capa_Pizarro-1.jpg 1650w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/capa_Pizarro-1-300x167.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/capa_Pizarro-1-1024x570.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/capa_Pizarro-1-768x427.jpg 768w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/capa_Pizarro-1-1536x855.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1650px) 100vw, 1650px\" \/><figcaption>Memorial homenageando os desaparecidos da ditadura chilena (Museo de la Memoria, Chile). Foto: Aton Agency. <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h2>Trazendo \u00e0 luz: testemunhos visuais de sobreviv\u00eancia<sup>1<\/sup><\/h2>\n\n\n\n<h4>Carolina Pizarro Cort\u00e9s<\/h4>\n\n\n\n<p>O objeto destas reflex\u00f5es \u00e9 um conjunto de trabalhos visuais produzidos no Chile e na Argentina que se baseiam numa fotografia que representa um\/uma detido\/a desaparecido\/a, quer se trate de uma fotografia \u00edntima, dom\u00e9stica ou do tipo oficial, tal como uma c\u00e9dula de identidade. S\u00e3o interven\u00e7\u00f5es art\u00edsticas que n\u00e3o t\u00eam necessariamente como objetivo principal visibilizar a aus\u00eancia, como foi o caso dos protestos p\u00fablicos realizados pelos familiares das v\u00edtimas. Estas obras, argumentaremos, fazem um giro que reorienta o sentido do uso testemunhal da fotografia: instalam no aqui e agora aqueles que foram v\u00edtimas da repress\u00e3o ditatorial em ambos os pa\u00edses, insistindo na sua presen\u00e7a. Nos tr\u00eas casos em que vamos fixar o nosso olhar, \u00e9 poss\u00edvel observar a mesma opera\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, a que chamaremos relacional. Isto consiste em colocar a fotografia, atrav\u00e9s de uma imagem composta, numa liga\u00e7\u00e3o direta com as e os familiares. Desta forma, o v\u00ednculo afetivo funciona como centro da representa\u00e7\u00e3o e como garantia da sobreviv\u00eancia da pessoa desaparecida. Adicionalmente, observamos uma progress\u00e3o na utiliza\u00e7\u00e3o de recursos t\u00e9cnico-visuais, bem como uma progressiva intensifica\u00e7\u00e3o do di\u00e1logo intermedial.<sup>2<\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>Tanto no Chile como na Argentina, a fotografia foi utilizada como forma de protesto pelos familiares das v\u00edtimas. Estes exibiam os seus\/ as suas desaparecidos\/as em espa\u00e7os p\u00fablicos, levando imagens dos seus rostos no peito ou em cartazes. Antes, era uma forma de sustentar visualmente a identidade daqueles que tinham perdido tanto os seus direitos de cidadania como a sua exist\u00eancia. Diante a realidade do corpo ausente, a fotografia.&nbsp; Em v\u00e1rios casos, mesmo na fotografia da carteira de identidade: o rosto olhando de frente para a c\u00e2mera sem muita expressividade, com o nome completo e o n\u00famero de identifica\u00e7\u00e3o na parte inferior da borda do documento. A imagem oficial assim se ressignifica, para indicar que esta pessoa existe, \u00e9 legal e aparece nos registos. A tr\u00edade do nome-rosto-n\u00famero \u00e9 uma garantia do seu ser, negada pela pr\u00e1tica nefasta do desaparecimento. A utiliza\u00e7\u00e3o performativa da fotografia nestes atos de den\u00fancia p\u00fablica testemunha e exp\u00f5e a aus\u00eancia do referente.<sup>3<\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>Os tr\u00eas projetos discutidos a seguir baseiam-se na pr\u00e1tica de protesto acima descrita, mas ao mesmo tempo a ressignificam. A \u00eanfase nestes exerc\u00edcios art\u00edsticos de proje\u00e7\u00e3o est\u00e1 na sobreviv\u00eancia, no fato de que estas &#8220;vidas ocultas&#8221; &#8211; aquelas das v\u00edtimas e dos seus enlutados &#8211; continuem a existir. Assim, podemos ler o seu significado como um trazer \u00e0 luz, no sentido literal e figurado. A representa\u00e7\u00e3o \u00e9 utilizada n\u00e3o s\u00f3 como vest\u00edgio ou pegada daqueles que j\u00e1 n\u00e3o est\u00e3o presentes, mas como prova material da sua presen\u00e7a. A imagem tamb\u00e9m nos permite fundir tempos diferentes, abrindo uma alternativa de realidade que contraria o peso fatal da hist\u00f3ria. A rela\u00e7\u00e3o entre a pessoa desaparecida e o seu parente \u00e9 o n\u00facleo que permite conectar o registo visual do passado com o registo visual do presente.<\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro destes exerc\u00edcios \u00e9 realizado pelo fot\u00f3grafo argentino Julio Pantoja, que d\u00e1 origem ao ensaio fotogr\u00e1fico e exposi\u00e7\u00e3o intitulado <em>Los hijos. Tucum\u00e1n veinte a\u00f1os despu\u00e9s<\/em>. Esta s\u00e9rie de 38 imagens retrata os filhos e filhas dos\/ das desaparecidos\/as que foram v\u00edtimas do exerc\u00edcio repressivo da ditadura de Videla na prov\u00edncia do norte do pa\u00eds. O trabalho foi levado a cabo entre 1997 e 2001.<sup>4<\/sup> Consiste numa elabora\u00e7\u00e3o conjunta, em que o fot\u00f3grafo dialoga com as pessoas retratadas para dar forma \u00e0 impress\u00e3o que as representar\u00e1. Significativamente, 15 deles escolhem ser fotografados ao lado de uma imagem de um ou de ambos os seus pais desaparecidos. Isto cria uma foto de fam\u00edlia imposs\u00edvel, em que pais e filhos t\u00eam aproximadamente a mesma idade. Abre-se, assim, um abismo produzido pela inser\u00e7\u00e3o de uma foto dentro de outra foto implicando uma homologa\u00e7\u00e3o de materialidades. J\u00e1 n\u00e3o existe uma separa\u00e7\u00e3o entre a imagem do parente perdido e a da pessoa sobrevivente, mas sim ambas s\u00e3o inclu\u00eddas numa instant\u00e2nea. A dist\u00e2ncia entre a realidade e a representa\u00e7\u00e3o \u00e9 assim quebrada.<\/p>\n\n\n\n<p>No contexto da s\u00e9rie, o retrato de Pablo Gargiulo \u00e9 especialmente significativo.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"1024\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/CPizarro-figura-1-1024x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-133\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/CPizarro-figura-1-1024x1024.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/CPizarro-figura-1-300x300.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/CPizarro-figura-1-150x150.jpg 150w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/CPizarro-figura-1-768x768.jpg 768w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/CPizarro-figura-1-1536x1536.jpg 1536w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/CPizarro-figura-1.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Fotografia de Pablo Gargiulo em <em>Los hijos. Tucum\u00e1n 20 a\u00f1os despu\u00e9s<\/em> de Julio Pantoja.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>O jovem posa com a fotografia da sua m\u00e3e na m\u00e3o direita e a do seu pai na esquerda. O enquadramento comp\u00f5e uma foto de fam\u00edlia a partir da conjun\u00e7\u00e3o de duas fotografias antigas que s\u00e3o integradas na nova imagem. Nenhum artif\u00edcio t\u00e9cnico \u00e9 utilizado nesta fotografia: o jovem simplesmente segura dois retratos \u00e0 altura do peito, permitindo que o seu rosto seja visto acima dos de seus pais. Nada \u00e9 feito para esconder o corte e a descontinuidade. A fotografia obtida \u00e9, nesse sentido, totalmente realista. Os detalhes est\u00e9ticos que chamam a aten\u00e7\u00e3o t\u00eam a ver com procedimentos simples. Os fundos das fotografias dos pais s\u00e3o claros, em contraste com o fundo mais escuro da imagem que cont\u00e9m o filho, e h\u00e1 um equil\u00edbrio triangular na disposi\u00e7\u00e3o das figuras. Os pais, especialmente iluminados, atuam como a base de um tri\u00e2ngulo, que suporta o v\u00e9rtice superior que onde se encontra o filho. A foto mostra assim a import\u00e2ncia do v\u00ednculo, a natureza fundacional da paternidade e da maternidade. As vidas foram truncadas, mas n\u00e3o a sua significa\u00e7\u00e3o. Este sentido \u00e9 notavelmente refor\u00e7ado pela pose: o filho, segurando os retratos nas suas m\u00e3os, gera uma esp\u00e9cie de abra\u00e7o. Desta forma, a imagem devolve as v\u00edtimas \u00e0 presen\u00e7a atrav\u00e9s de uma opera\u00e7\u00e3o relacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra variante da op\u00e7\u00e3o do retrato de fam\u00edlia (re)composto \u00e9 a de Laura Romero.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"1024\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/CPizarro-figura-2-1024x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-135\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/CPizarro-figura-2-1024x1024.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/CPizarro-figura-2-300x300.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/CPizarro-figura-2-150x150.jpg 150w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/CPizarro-figura-2-768x768.jpg 768w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/CPizarro-figura-2-1536x1536.jpg 1536w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/CPizarro-figura-2.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Fotografia de Laura Romero em <em>Los hijos. Tucum\u00e1n 20 a\u00f1os despu\u00e9s<\/em> de Julio Pantoja.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Trata-se de uma fotografia de uma jovem mulher segurando duas fotografias ligeiramente sobrepostas: uma mostra-a quando era beb\u00ea, com os seus pais, e a outra mostra-a quando crian\u00e7a, segurando a fotografia anterior. Sintomaticamente, o foco est\u00e1 nas fotografias anteriores, de modo que estas aparecem n\u00edtidas, enquanto o rosto de Laura aparece desfocado. O conjunto aponta para a sobreposi\u00e7\u00e3o contradit\u00f3ria de planos temporais. Transmite a mensagem de acompanhamento constante, a ideia de uma viagem de vida marcada pela mem\u00f3ria, mas \u00e9 tamb\u00e9m uma express\u00e3o de cortes e descontinuidades. O fato de Laura estar contida nas tr\u00eas imagens,<sup>5<\/sup> em diferentes momentos da sua vida, aponta para a perman\u00eancia da liga\u00e7\u00e3o. As fotos que ela tem nas m\u00e3os s\u00e3o, no entanto, uma esp\u00e9cie de c\u00e1psula de tempo delimitada pelo seu pr\u00f3prio enquadramento. A aus\u00eancia de um artif\u00edcio simulador de coexist\u00eancia leva-nos de novo \u00e0 observa\u00e7\u00e3o de que o processo \u00e9 construtivo: consiste em juntar fragmentos. O pr\u00f3prio eu do fotografado \u00e9 afetado pela qualidade de um mosaico. Ser filha de detidos\/as desaparecidos\/as implica ter de insistir na manuten\u00e7\u00e3o dos la\u00e7os familiares.<\/p>\n\n\n\n<p>O segundo exerc\u00edcio criativo que gostaria de comentar, baseado em fotografias dos desaparecidos, \u00e9 o projeto <em>Arqueolog\u00eda de la ausencia<\/em> da artista Lucila Quieto. Num esfor\u00e7o para completar o seu \u00e1lbum de fam\u00edlia truncado, resultado do desaparecimento do seu pai alguns meses ap\u00f3s o seu nascimento, Lucila concebeu um procedimento para gerar as imagens que nunca teve. Projetou fotografias antigas numa parede e depois fotografou a si pr\u00f3pria participando nas cenas, integrando o seu perfil nas estampas de outro tempo. Depois de avaliar o resultado, fez um convite aberto a outros filhos e filhas das v\u00edtimas. O conjunto das suas pr\u00f3prias imagens e as das pessoas que aderiram \u00e0 sua iniciativa corresponde \u00e0s 35 fotografias da <em>Arqueolog\u00eda de la ausencia<\/em> (1999-2001).<\/p>\n\n\n\n<p>Como em <em>Hijos<\/em>&#8230;, em <em>Arqueolog\u00eda<\/em>&#8230; a representa\u00e7\u00e3o do elo perdido \u00e9 gerada atrav\u00e9s de uma sobreposi\u00e7\u00e3o de registos. Neste caso, no entanto, esta opera\u00e7\u00e3o implica uma etapa intermedial. Uma fotografia n\u00e3o \u00e9 inclu\u00edda noutra fotografia \u2013 uma pequena parte posta em abismo ou num jogo de caixas chinesas -, mas sim uma fotografia mais complexa \u00e9 composta atrav\u00e9s de proje\u00e7\u00e3o. Como num teatro de sombras, interv\u00e9m o reflexo do slide, de modo que o\/a filho\/a se possa intrometer na vida dos seus pais, integrando-se numa cena. Os tempos, mais uma vez, s\u00e3o alterados, mas em sentido inverso. Se o ensaio fotogr\u00e1fico de Pantoja trouxe os pais para o presente dos filhos, Quieto leva os filhos para o passado dos seus pais. O efeito do imposs\u00edvel repete-se: a coincid\u00eancia de idades entre os dois capturados na mesma imagem.<\/p>\n\n\n\n<p>A sobreposi\u00e7\u00e3o \u00e9 o procedimento b\u00e1sico. O artista faz uma esp\u00e9cie de fotomontagem, mas de natureza intermedial. Ao utilizar a proje\u00e7\u00e3o gera efeitos, na medida em que os corpos dos filhos fazem ao mesmo tempo parte da cena reconstru\u00edda e um pano de fundo contra o qual a imagem dos pais \u00e9 projetada.<sup>6<\/sup> Em alguns casos, o resultado \u00e9 veross\u00edmil; na maioria s\u00e3o criadas imagens fantasmag\u00f3ricas ou surrealistas de dif\u00edcil interpreta\u00e7\u00e3o visual.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No primeiro caso \u00e9 a fotografia de Diego e da sua m\u00e3e, Manuela Santucho, uma advogada que desapareceu em 1976.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"557\" height=\"382\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig3.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-139\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig3.jpg 557w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig3-300x206.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 557px) 100vw, 557px\" \/><figcaption>Fotografia de Manuela Santucho e seu filho Diego en <em>Arqueolog\u00eda de la ausencia<\/em> de Lucila Quieto. Folleto de la exposici\u00f3n. Fototeca UByD \u2013UNGS, 8, marzo de 2014.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Na fotografia antiga, Manuela aparece \u00e0 direita da imagem, no que poderia ser uma reuni\u00e3o de amigos ou uma festa. Ela n\u00e3o est\u00e1 olhando diretamente para a c\u00e2mera. O seu rosto est\u00e1 numa posi\u00e7\u00e3o de tr\u00eas quartos. Diego junta-se \u00e0 proje\u00e7\u00e3o do lado esquerdo, num plano que \u00e9 percebido ligeiramente mais pr\u00f3ximo da lente. Algumas sombras s\u00e3o projetadas no seu peito, o que poderia fazer parte da foto original. O seu rosto, no entanto, aparece claramente definido. Ele tamb\u00e9m n\u00e3o est\u00e1 olhando para a c\u00e2mera, mas para um ponto pr\u00f3ximo do olhar da sua m\u00e3e. Num relance, ambos fazem parte da mesma cena. A sobreposi\u00e7\u00e3o deixa tra\u00e7os muito sutis, gerando a ilus\u00e3o de co-presen\u00e7a. &nbsp;A composi\u00e7\u00e3o da fotografia de segundo grau (fotomontagem)&nbsp; colabora com a realiza\u00e7\u00e3o do efeito. Manuela passa ent\u00e3o para o centro da imagem e o seu filho Diego completa a moldura, refor\u00e7ando a centralidade da m\u00e3e. As luzes e as sombras tamb\u00e9m conspiram: Manuela \u00e9 especialmente iluminada, enquanto o rosto de Diego \u00e9 visto como mais sombrio. A presen\u00e7a da mulher desaparecida \u00e9 assim refor\u00e7ada, uma vez que se torna mais n\u00edtida do que a sua sobrevivente.<\/p>\n\n\n\n<p>Dentro da mesma s\u00e9rie de <em>Arqueolog\u00eda<\/em>&#8230; existem outras imagens, tais como algumas da pr\u00f3pria Lucila, que exp\u00f5em os vest\u00edgios do artif\u00edcio de forma mais clara. Estes n\u00e3o enfatizam necessariamente o processo reconstrutivo, mas o efeito alcan\u00e7ado, como mencionado acima, \u00e9 bastante surrealista.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"867\" height=\"582\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig4.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-141\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig4.jpg 867w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig4-300x201.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig4-768x516.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 867px) 100vw, 867px\" \/><figcaption>Fotografia de Carlos Quieto e sua filha Lucila em <em>Arqueolog\u00eda de la ausencia<\/em> de Lucila Quieto. Folleto de la exposici\u00f3n. Fototeca UByD \u2013UNGS, 8, marzo de 2014.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>A proje\u00e7\u00e3o que d\u00e1 origem a esta fotografia permite que a autora se integre parcialmente num espa\u00e7o j\u00e1 ocupado, sobrepondo a sua figura de um grupo de pessoas que parecem ser transeuntes numa rua movimentada. \u00c0 esquerda da imagem est\u00e1 o seu pai, Carlos Quieto, a olhar para a c\u00e2mera. Ela ergue-se para a direita e olha para ele. Como no caso anterior, a qualidade atual da pessoa desaparecida \u00e9 real\u00e7ada, e de uma forma ainda mais not\u00f3ria. Ele \u00e9 percebido com os seus contornos definidos. Ela, por outro lado, est\u00e1 desfocada. A roupa branca do fot\u00f3grafo serve de ecr\u00e3 em que parte da cena passada \u00e9 projetada. Gra\u00e7as a este recurso, a aura fantasmag\u00f3rica em toda a imagem \u00e9 formada em torno de Lucila.<sup>7<\/sup> O seu corpo \u00e9 atravessado pelos restos da cena original, enquanto a sua imagem cont\u00e9m e enquadra a de um casal de mulheres caminhando de bra\u00e7o dado em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 lente. O recurso produz um efeito de irrealidade: Lucila est\u00e1 l\u00e1 e ela n\u00e3o est\u00e1; ela infiltra-se, mas n\u00e3o est\u00e1 totalmente incorporada. A opera\u00e7\u00e3o relacional, neste exemplo, parece estar meio preenchida.<\/p>\n\n\n\n<p>Um terceiro exerc\u00edcio art\u00edstico que coloca em tens\u00e3o as rela\u00e7\u00f5es entre fotografia e (des)apari\u00e7\u00e3o \u00e9 o trabalho encomendado pelo Partido Socialista do Chile, que toma a forma da exposi\u00e7\u00e3o <em>Vivos recuerdos<\/em> (Vivid Memories). Este consiste num conjunto de retratos em que, com base numa fotografia do detido desaparecido, a pessoa \u00e9 representada com a apar\u00eancia que possivelmente teria se estivesse viva 45 anos mais tarde. Para a elabora\u00e7\u00e3o das imagens, s\u00e3o utilizadas diferentes t\u00e9cnicas digitais para intervir nas fotografias, gerando o efeito do envelhecimento. O resultado \u00e9 mais uma vez uma imagem imposs\u00edvel, o que traz ao presente n\u00e3o a estampa em si, que \u00e9 guardada como uma mem\u00f3ria, mas um retrato atualizado, um &#8220;como se&#8221; o detido desaparecido ainda estivesse presente.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/CPizarro-figura-5.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-143\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/CPizarro-figura-5.jpeg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/CPizarro-figura-5-300x200.jpeg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/CPizarro-figura-5-768x512.jpeg 768w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Exposici\u00f3n Vivos recuerdos. P\u00e1gina oficial del PPD (Partido por la Democracia).<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Para al\u00e9m de ser apresentado como uma exposi\u00e7\u00e3o, <em>Vivos recuerdos<\/em> est\u00e1 dispon\u00edvel num website com o mesmo nome<sup>8<\/sup> e levou \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de um v\u00eddeo.<sup>9<\/sup> Ambas as iniciativas envolvem as empresas de produ\u00e7\u00e3o Wolf BCPP, Ojo de Buey e SalaM\u00e1gica, bem como o fot\u00f3grafo Renato del Valle e o m\u00fasico Dar\u00edo Segui. A transposi\u00e7\u00e3o intermedial nos dois &#8220;exerc\u00edcios de continuidade&#8221; gera efeitos de resson\u00e2ncia: a exposi\u00e7\u00e3o f\u00edsica \u00e9 projetada e ampliada noutros meios e suportes. A base \u00e9 a mesma, mas camadas de significa\u00e7\u00e3o s\u00e3o adicionadas em cima dela.<\/p>\n\n\n\n<p>Site a <a href=\"https:\/\/vivosrecuerdos.cl\">https:\/\/vivosrecuerdos.cl<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>O website \u00e9 muito simples. Sobre um fundo preto, as fotos originais dos rostos de 10 militantes desaparecidos\/as s\u00e3o exibidas. Ao clicar num deles, o retrato envelhecido aparece, ocupando a tela inteira. Tal como nas imagens expostas na exposi\u00e7\u00e3o, a fotografia b\u00e1sica aparece \u00e0 esquerda, juntamente com uma breve biografia que diz quem \u00e9 a pessoa retratada e relata sucintamente os detalhes do seu desaparecimento. O contacto entre o website e o utilizador da interface, ao contr\u00e1rio da exposi\u00e7\u00e3o, gera uma narrativa. O\/a destinat\u00e1rio\/a entra atrav\u00e9s da fotografia real e pode apreciar a transforma\u00e7\u00e3o, a &#8220;passagem do tempo&#8221;. A nova imagem, al\u00e9m disso, destaca o texto de \u00e2ncora &#8211; nas palavras de Roland Barthes<sup>10 <\/sup>\u2013 que, como se faz sucintamente em <em>Hijos<\/em>&#8230; e de forma mais detalhada em <em>Arqueologia<\/em>&#8230;, permite-nos conhecer alguns detalhes biogr\u00e1ficos que singularizam ao\/\u00e0 detido\/a desaparecido\/a.<\/p>\n\n\n\n<p>As fotografias intervencionadas em <em>Vivos<\/em> <em>recuerdos<\/em> n\u00e3o cont\u00eam em si uma dimens\u00e3o relacional, uma vez que n\u00e3o mostram qualquer liga\u00e7\u00e3o afetiva, mas concentram-se na v\u00edtima. O website promove uma certa intera\u00e7\u00e3o, mas esta, embora sem d\u00favida mais din\u00e2mica, \u00e9 an\u00e1loga \u00e0 experi\u00eancia de visitar a exposi\u00e7\u00e3o f\u00edsica. Tamb\u00e9m envolve um espectador que pode n\u00e3o ter qualquer liga\u00e7\u00e3o com a pessoa retratada. O registo audiovisual, por outro lado, incorpora a dimens\u00e3o relacional no resgate da imagem, conferindo-lhe centralidade.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"Wolf \/ Vivos Recuerdos \/ PS\" width=\"500\" height=\"281\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/GHnwxftJwPA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p>O tema do v\u00eddeo \u00e9 o primeiro encontro dos familiares das v\u00edtimas &#8211; c\u00f4njuges, irm\u00e3os\/ irm\u00e3s, filhos\/as, sobrinhos\/as e netos\/as &#8211; com os retratos, exibidos para este fim nas galerias do Estadio Nacional<sup>11<\/sup>. Antes de verem a imagem, as e os familiares recordam a personalidade do seu parente e trazem \u00e0 tona detalhes da sua vida \u00edntima. A biografia de cada pessoa aparece em retalhos numa conversa que parece muito espont\u00e2nea. Atrav\u00e9s da linguagem, as fam\u00edlias contribuem com pinceladas que humanizam a pessoa ausente e come\u00e7am a delimit\u00e1-la.<\/p>\n\n\n\n<p>Numa destas interven\u00e7\u00f5es, uma jovem mulher diz: &#8220;A primeira abordagem ao meu pai \u00e9 a imagem: o cartaz, a foto. Assim, o meu pai tem sido uma imagem fragmentada, mas feliz\u201d.<sup>12<\/sup> A filha testemunha do lugar de algu\u00e9m que apenas manteve uma liga\u00e7\u00e3o com a sua imagem paterna atrav\u00e9s da fotografia, recordando a forma de protesto visual que denunciou a sua aus\u00eancia. O v\u00eddeo incorpora assim um di\u00e1logo entre a fotografia da v\u00edtima que os membros da fam\u00edlia carregaram durante anos no peito ou nas m\u00e3os e a reconstitui\u00e7\u00e3o da mesma imagem que reivindica a sua presen\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s os segundos de recorda\u00e7\u00e3o, os\/as entrevistados\/as falam sobre como acham que os seus parentes se pareceriam agora. \u00c0 medida que as suas vozes s\u00e3o ouvidas, partes do procedimento pelo qual os retratos envelhecidos das v\u00edtimas foram gerados s\u00e3o brevemente mostrados. O v\u00eddeo segue ent\u00e3o as fam\u00edlias para as galerias do est\u00e1dio. Estas galerias representam metonimicamente os locais de deten\u00e7\u00e3o, tortura e exterm\u00ednio dos quais os seus familiares desapareceram.&nbsp; A viagem atrav\u00e9s das galerias escuras termina em frente ao retrato. O v\u00eddeo mostra primeiro as rea\u00e7\u00f5es dos familiares ao verem a imagem do seu parente e finalmente foca os rostos dos\/as desaparecidos\/as. Uns choram, outros sorriem, outros ficam atordoados. Todos eles est\u00e3o profundamente comovidos. Na grava\u00e7\u00e3o de segunda ordem &#8211; o v\u00eddeo que re\u00fane a imagem atual da v\u00edtima e dos seus familiares diretos &#8211; a opera\u00e7\u00e3o relacional \u00e9 medular. Os detidos desaparecidos tornam-se presentes na medida em que se produz o reconhecimento. As pessoas aproximam-se e tocam nos retratos gigantes; exprimem o seu desejo de os abra\u00e7ar; tamb\u00e9m os beijam. A narrativa, neste caso, \u00e9 a hist\u00f3ria de um (im)poss\u00edvel encontro.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 pouca interven\u00e7\u00e3o textual no v\u00eddeo. As legendas escritas funcionam como uma voz-off que fornece apenas detalhes essenciais do processo de cria\u00e7\u00e3o das imagens e dos eventos registados. Entre estes textos, destaca-se a frase final: &#8220;a \u00fanica maneira de n\u00e3o repetir a hist\u00f3ria \u00e9 manter viva a mem\u00f3ria&#8221;. Num sentido literal, a senten\u00e7a reafirma a convic\u00e7\u00e3o sobre a import\u00e2ncia de n\u00e3o esquecer para evitar situa\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas desastrosas como as do passado recente do Chile. Numa segunda leitura complementar, &#8220;manter viva a mem\u00f3ria&#8221; significa n\u00e3o deixar morrer a mem\u00f3ria e, ao faz\u00ea-lo, preservar os\/as desaparecidos\/as da morte ou mesmo resgat\u00e1-los\/las da imobilidade. Devolv\u00ea-los ao fluxo do tempo, como fazem os retratos intervencionados.<\/p>\n\n\n\n<p>Os tr\u00eas grupos aqui apresentados, que est\u00e3o em di\u00e1logo direto com a pr\u00e1tica da exposi\u00e7\u00e3o p\u00fablica da fotografia do\/a desaparecido\/a, mostram n\u00e3o s\u00f3 a assimila\u00e7\u00e3o de um recurso testemunhal de protesto, mas tamb\u00e9m o tornam mais complexo e amplificam-no. Tiram as fotografias do seu lugar de registo de um sujeito, derivando-as para uma representa\u00e7\u00e3o das suas rela\u00e7\u00f5es afetivas. A imagem de primeiro grau \u00e9 integrada numa imagem de segundo grau, que produz a sensa\u00e7\u00e3o &#8211; e talvez tamb\u00e9m o sentimento de encontro. Neste processo, como dissemos no in\u00edcio, \u00e9 poss\u00edvel observar a interven\u00e7\u00e3o c\u00famplice da pr\u00f3pria fotografia e depois tamb\u00e9m de outros meios de comunica\u00e7\u00e3o, que juntamente com ela constituem uma proposta visual ou audiovisual que desafia a realidade material do desaparecimento e a questiona, insistindo na sobreviv\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Estas tr\u00eas obras n\u00e3o s\u00e3o casos excepcionais, mas est\u00e3o relacionadas com um importante grupo de representa\u00e7\u00f5es que t\u00eam como n\u00facleo a utiliza\u00e7\u00e3o testemunhal da fotografia.<sup>13<\/sup> Interessava destacar nelas a particularidade que as distingue: o enfoque na rela\u00e7\u00e3o entre aqueles que j\u00e1 n\u00e3o est\u00e3o presentes e aqueles que sobrevivem. Desde este ponto de vista, poderia argumentar-se que se trata de uma linha espec\u00edfica, que tamb\u00e9m motiva as iniciativas subsequentes.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"818\" height=\"1024\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/CPizarro-figura-6-818x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-146\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/CPizarro-figura-6-818x1024.jpg 818w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/CPizarro-figura-6-240x300.jpg 240w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/CPizarro-figura-6-768x961.jpg 768w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/CPizarro-figura-6.jpg 970w\" sizes=\"(max-width: 818px) 100vw, 818px\" \/><figcaption>Fotografia de Claudia Amengual e Erique Lucas L\u00f3pez em <em>Im\u00e1genes del silencio<\/em>.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Um exerc\u00edcio muito semelhante ao realizado por Pantoja e pelos filhos e filhas das v\u00edtimas, por exemplo, \u00e9 o proposto por <em>Im\u00e1genes del silencio<\/em>, um projeto coletivo uruguaio realizado entre novembro de 2019 e maio de 2020.<sup>14<\/sup> Consiste em fotografias a preto e branco em que uma figura p\u00fablica segura ou abra\u00e7a um cartaz com uma fotografia de um\/uma detido\/a desaparecido\/a impresso no mesmo. De acordo com o tempo, \u00e9 carregado nas redes sociais, especificamente Instagram, Twitter e Facebook. Todos os dias, como contagem regressiva, \u00e9 inclu\u00edda uma nova imagem. Neste caso, a intermedialidade refor\u00e7a a opera\u00e7\u00e3o relacional: coloca a pessoa desaparecida num novo espa\u00e7o de sociabilidade, o das plataformas virtuais, contribuindo assim para intensificar a sua presen\u00e7a, quase \u00e0 maneira de uma divulga\u00e7\u00e3o. Se \u00e9 verdade que a era da Internet tornou poss\u00edvel desvendar o oculto, esquivando-se \u00e0s l\u00f3gicas de controle da informa\u00e7\u00e3o dos canais oficiais, \u00e9 poss\u00edvel que as trajet\u00f3rias vitais truncadas, destinadas atrav\u00e9s da repress\u00e3o extrema ao desaparecimento, surjam insistentemente. O apelo ao v\u00ednculo, \u00e0 empatia, tamb\u00e9m tem um alcance muito maior, na medida em que n\u00e3o depende de fatores condicionantes materiais, tais como a compra de um livro ou a presen\u00e7a numa exposi\u00e7\u00e3o. A imagem de algu\u00e9m que continua a estar na mem\u00f3ria e nos afetos dos seus familiares pode tornar-se viral. A sua exist\u00eancia, desta forma, n\u00e3o s\u00f3 se mant\u00e9m, como se multiplica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">***<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Carolina Pizarro Cort\u00e9s<\/em><\/strong><br>Licenciada em Literatura pela Universidad Cat\u00f3lica de Chile, Mestra em Literatura pela mesma universidade e Doutora em Filosofia pela Universidade de Konstanz, Alemanha. Fez um p\u00f3s-doutorado no Instituto de Estudos Avan\u00e7ados da Universidade de Santiago do Chile. Hoje trabalha como acad\u00eamica jornada completa naquela institui\u00e7\u00e3o. Entre as suas principais publica\u00e7\u00f5es est\u00e3o os livros <em>Nuevos cronistas de Indias. Historia y liberaci\u00f3n en la narrativa latinoamericana contempor\u00e1nea<\/em> (autor, Colecci\u00f3n IDEA, 2015), <em>Revisitar la cat\u00e1strofe: la prisi\u00f3n pol\u00edtica en el Chile dictatorial<\/em> (editor, Pehu\u00e9n editores, 2016) e <em>Nuevas formas del testimonio<\/em> (editor, Colecci\u00f3n IDEA &#8211; Editorial USACH, 2020, no prelo), assim como numerosos artigos em revistas acad\u00eamicas.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\" \/>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><sup>1 <\/sup>Este trabalho foi realizado no marco do projeto Fondecyt regular N\u00ba 1180001, \u201cTortura: experiencia y concepto\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>2<\/sup> O conceito de intermedialidade que usamos neste artigo \u00e9 o cunhado por Irina Rajewsky (2005): \u201c\u2018Intermedial\u2019 (\u2026) designates those configurations which have to do with a crossing of borders between media, and which thereby can be differentiated from intramedial phenomena as well as from transmedial phenomena (i.e., the appearance of a certain motif, aesthetic, or discourse across a variety of different media)\u201d (46). A autora reconhece tr\u00eas formas de intermedialidade: (1) transposi\u00e7\u00e3o medial, relacionada com a forma como um produto medial se torna tal, quer com a transforma\u00e7\u00e3o de um determinado produto medial (um texto, um filme, etc.) ou do seu substrato noutro. ) ou o seu substrato noutro meio; (2) combina\u00e7\u00e3o medial, na qual a qualidade medial \u00e9 dada pela constela\u00e7\u00e3o medial que constitui um determinado produto, que \u00e9 o resultado de um processo de combina\u00e7\u00e3o de pelo menos dois meios diferentes; e (3) refer\u00eancias mediais, na qual o produto medial utiliza os seus pr\u00f3prios modos mediais espec\u00edficos, quer para se referir a um trabalho individual produzido noutro meio, quer para se referir a um subsistema medial espec\u00edfico ou a outro meio como um sistema. Mais que combinar diferentes formas de articula\u00e7\u00e3o medial, o produto medialmatiza, evoca ou imita elementos ou estruturas de outro meio convencional (Irina Rajewsky, &#8220;Intermediality, Intertextuality, and Remediation: A Literary Perspective on Intermediality- Interm\u00e9dialit\u00e9s, 6, 2005, pp. 43-64). Nos casos que ser\u00e3o analisados abaixo, o que \u00e9 mais not\u00e1vel do ponto de vista t\u00e9cnico \u00e9 a combina\u00e7\u00e3o medial, mas existem tamb\u00e9m componentes importantes de refer\u00eancia medial.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>3<\/sup> Ludmila da Silva explica o uso e significado destas fotografias utilizadas por familiares durante a ditadura argentina. No in\u00edcio, &#8220;\u201cLa foto con el rostro del desaparecido pas\u00f3 a ser (\u2026) una herramienta de b\u00fasqueda, una esperanza frente a la incertidumbre. (\u2026) [E]ra una estrategia para individualizar al ser querido de cuyo destino nada se sab\u00eda\u201d. Depois, no contexto dos julgamentos, torna-se um recurso indicativo na busca da verdade. Finalmente, torna-se parte do protesto ativo no espa\u00e7o p\u00fablico: \u201cA medida que pasaron los a\u00f1os, la creaci\u00f3n de s\u00edmbolos y rituales acompa\u00f1aron esta nueva forma de hacer pol\u00edtica instituida por los familiares de desaparecidos y espec\u00edficamente por las Madres de la Plaza de Mayo\u201d (DA SILVA, Ludmila. \u201cRe-velar el horror. Fotograf\u00eda y memoria frente a la desaparici\u00f3n de personas\u201d. <em>Memorias, historia y derechos humanos<\/em>. Isabel Piper y Bel\u00e9n Rojas (eds.). Santiago de Chile: Universidad de Chile, 2012. pp. 160 y 162). Un recorrido an\u00e1logo es el que puede apreciarse en el caso de Chile.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\"><sup>4<\/sup> A obra pode ser vista completa na p\u00e1gina web do fot\u00f3grafo: <a href=\"https:\/\/www.juliopantoja.com.ar\/obra_hijos.html\">https:\/\/www.juliopantoja.com.ar\/obra_hijos.html<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><sup>5<\/sup> O abismo que observamos em v\u00e1rias das fotografias do conjunto \u00e9 especialmente complexo nesta imagem, uma vez que, ao incluir uma fotografia anterior que faz uso do mesmo recurso, ela \u00e9 revelada como uma opera\u00e7\u00e3o de segundo grau.&nbsp; A prop\u00f3sito, num excelente artigo em que comenta este trabalho de Pantoja, comparando-o com o de Ulanovsky, Natalia Fortuny comenta: \u201cTambi\u00e9n el juego de cajas chinas que se adivinaba en las fotos de luto y en la obra de Ulanovsky se reitera \u2013profundizado\u2013 aqu\u00ed en una foto triple. En la Fig. 16 se ve a una chica que sostiene dos fotos: en una de ellas una pareja sujeta a un beb\u00e9, en la otra (de tama\u00f1o mayor) una peque\u00f1a nena muestra la foto de la pareja con el beb\u00e9. Claramente, se trata de sus padres y de ella, y esta segunda foto suma un escal\u00f3n temporal \u2013intermedio\u2013, agravando el efecto de ausencia: convierte a esa ni\u00f1a ya en <em>hija<\/em>, mostrando tempranamente la forma del retrato \u2018hijo de desaparecido con foto del\/los ausente\/s en la mano\u2019 y evidenciando la falta a lo largo del tiempo de una vida\u201d. (FORTUNY, Natalia. \u201cCajas chinas: la foto dentro de la foto como cosa\u201d. <em>Revista chilena de antropolog\u00eda visual<\/em> [online], 17, 2011. p. 14). \u00c9 importante salientar que Fortuny interpreta o recurso da fotografia dentro da fotografia em linha com a tradi\u00e7\u00e3o de retratos comuns em fam\u00edlias de luto no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, em que os familiares posam com uma imagem do seu falecido. Na nossa leitura espec\u00edfica, gostar\u00edamos de destacar n\u00e3o a dimens\u00e3o associada \u00e0 morte, mas, pelo contr\u00e1rio, a interpreta\u00e7\u00e3o do gesto como uma insist\u00eancia na vida.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>6<\/sup> Anna Forn\u00e9 qualifica estas fotomontagens com toda a propiedade como palimpsestos: \u201cEn el palimpsesto, la escritura del presente se sobrepone a las letras del pasado pero sin borrarlas totalmente. Es de esta manera que trabaja Quieto en sus fotomontajes, en los que las fotograf\u00edas captan la puesta en escena de un encuentro entre un desaparecido y su familiar, realizado mediante la proyecci\u00f3n en una pared de la diapositiva de un familiar desaparecido, donde despu\u00e9s se introduce el hijo\/a para que su cuerpo-imagen parcialmente se integre con el del familiar proyectado. De esta manera se escenifica y se perpet\u00faa en forma de una foto-palimpsesto un encuentro imposible, en el que los rastros del pasado se perciben en la capa textual del presente\u201d (FORN\u00c9, Anna, \u201cEl arte de la reversibilidad en cuatro relatos de familiares de desaparecidos\u201d, <em>Alternativas<\/em> [online], 5, 2015. p. 5).<\/p>\n\n\n\n<p><sup>7<\/sup> A prop\u00f3sito, comenta M\u00f3nica Alonso: \u201cLa artista recurre abiertamente a una ficci\u00f3n que no pretende ser ocultada y que deja su huella en la materia: como en las fotograf\u00edas espiritistas, distintas materialidades pueden identificarse con distintos significados y tiempos. La foto original se transforma en una diapositiva, en luz de nuevo, que al ser proyectada puede confundirse con la materia (la pared pero, tambi\u00e9n, el cuerpo del hijo) y, juntos, volver a impresionar la pel\u00edcula. Se crea un nuevo espacio entre lo material y lo inmaterial (el cuerpo y la luz), entre la realidad y la ficci\u00f3n, entre el presente y el pasado. Un nuevo tiempo y un nuevo espacio imposibles, que no son ni del mundo indiferente del objeto material ni el sue\u00f1o alucinado del fantasma\u201d (ALONSO, M\u00f3nica, \u201c<em>Arqueolog\u00eda de la ausencia<\/em> de Lucila Quieto: un viaje hacia la imagen imposible\u201d. <em>Espacio, tiempo y forma<\/em>, 4, 2016. pp.183-184).<\/p>\n\n\n\n<p><sup>8<\/sup> <a href=\"https:\/\/vivosrecuerdos.cl\">https:\/\/vivosrecuerdos.cl<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><sup>9<\/sup> <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=GHnwxftJwPA\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=GHnwxftJwPA<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><sup>10 <\/sup>BARTHES, Roland. \u201cRet\u00f3rica de la imagen\u201d. <em>Lo obvio y lo obtuso<\/em>. Barcelona: Paid\u00f3s, 2009.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>11<\/sup> O Est\u00e1dio Nacional foi um dos primeiros centros de deten\u00e7\u00e3o, tortura e exterm\u00ednio implementados pela ditadura de Pinochet. Foi utilizado para estes fins de setembro a dezembro de 1973.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>12 <\/sup> <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=GHnwxftJwPA\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=GHnwxftJwPA<\/a>, segs. 36-38.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>13 <\/sup>No contexto argentino, as obras de Pantoja e Quieto Edoardo Balleta soma a serie <em>\u00bfD\u00f3nde est\u00e1n?<\/em> (1989) do fot\u00f3grafo cordob\u00e9s Res, <em>Treintamil<\/em> (1996) de Fernando Gonz\u00e1lez, <em>Buena memoria <\/em>(1996) de Marcelo Brodsky, <em>Fotos tuyas<\/em> (2006) de In\u00e9s Ulanovsky, <em>El viaje de pap\u00e1<\/em> (2005) de Camilo P\u00e9rez del Cerro, <em>C\u00f3mo miran tus ojos<\/em> (2007) de Mar\u00eda Soledad Nivoli, <em>Recuerdos inventados<\/em> (2002-03) de G. Bettini e <em>Ausencias<\/em> (2006) de Gustavo Germano, entre outros (BALLETA, Edoardo, \u201cAusencia, resto, objeto: una propuesta de lectura de la fotograf\u00eda argentina post-dictadura\u201d. <em>Kamchatka<\/em> [online], 6, 2015. pp. 741-764). No caso chileno, destacan-se as obras <em>Retratos<\/em> (1996) de Carlos Altamirano, <em>Paine 1973-2006<\/em> (2006) de Cesar Scotti, <em>El amor ante el olvido<\/em> (2007-2008) de Claudio P\u00e9rez, <em>Layelew\u00fcn<\/em> (2017) de Danilo Espinoza e <em>Retratos de la memoria<\/em> (2017) de Fernando Lavoz.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>14<\/sup> A iniciativa foi proposta como complemento \u00e0 25\u00aa vers\u00e3o da \u201cMarcha del silencio\u201d e foi realizada por uma equipe conformada por Pablo Porci\u00fancula, Annabella Balduvino, Ricardo G\u00f3mez, Cecilia Vidal, Elena Boffetta e Federico Panizza. Foi publicada na conta de Twitter @img_delsilencio, na conta de Facebook https:\/\/www.facebook.com\/imagenesdelsilencio\/ e no Instagram @imagenes.del.silencio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Trazendo \u00e0 luz: testemunhos visuais de sobreviv\u00eancia1 Carolina Pizarro Cort\u00e9s O objeto destas reflex\u00f5es \u00e9 um conjunto de trabalhos visuais produzidos no Chile e na Argentina que se baseiam numa [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/69"}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=69"}],"version-history":[{"count":17,"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/69\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3409,"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/69\/revisions\/3409"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=69"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}