{"id":66,"date":"2021-03-09T14:20:42","date_gmt":"2021-03-09T17:20:42","guid":{"rendered":"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/?page_id=66"},"modified":"2021-04-22T16:20:27","modified_gmt":"2021-04-22T19:20:27","slug":"angela-mascelani","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/angela-mascelani\/","title":{"rendered":"Ulisses, e as dimens\u00f5es complexas do que se esconde e do que se mostra"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"1010\" height=\"671\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-1_Ulisses_obra.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-160\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-1_Ulisses_obra.jpg 1010w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-1_Ulisses_obra-300x199.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-1_Ulisses_obra-768x510.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1010px) 100vw, 1010px\" \/><figcaption>Ulisses Pereira Chaves (Vale do Jequitinhonha, Minas Gerais) <em>Sem t\u00edtulo<\/em>, d\u00e9cada de 1970. <br>Foto: Lucas Van de Beuque, Acervo Museu do Pontal.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h2>Ulisses, e as dimens\u00f5es complexas do que se esconde e do que se mostra<\/h2>\n\n\n\n<h4>Angela Mascelani<\/h4>\n\n\n\n<p>Ele falou que se perguntava: <em>Essa terra veio de onde? Est\u00e1 aonde? E vai para onde? Foi criada, gerada ou nascida?<\/em> Ele disse que gostava de fazer perguntas, que era esse tipo de pergunta que se fazia&#8230; Afirmou que <em>n\u00e3o tinha professor&#8230; <\/em>e que <em>as respostas estavam a\u00ed; que cada um precisava estar ligado nas respostas<\/em>. Insistiu que <em>quando algu\u00e9m fotografa, copia. E fica tudo igual&#8230;<\/em> Ele fez um breve sil\u00eancio e falou que <em>o barro estava vivo&#8230;<\/em><em><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Seu mon\u00f3logo tinha tanta for\u00e7a que as obras pareceram se mexer, tocadas pelo vento de suas palavras.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Eu sou Ulisses! Eu falo com o sol, com a natureza, com o oxig\u00eanio. Minhas pe\u00e7as n\u00e3o se misturam. S\u00e3o mat\u00e9ria minha que n\u00e3o copio, eu invento. Elas v\u00e3o embora com quem compra, mas eu vou junto. Elas falam comigo. Eu falo com elas aonde elas estiverem. Eu tenho a vis\u00e3o. Por isso tenho valor. Tudo o que fa\u00e7o sai da natureza, da minha cabe\u00e7a, de minha inven\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ulisses Pereira Chaves nasceu em 1929, na localidade de C\u00f3rrego Santo Ant\u00f4nio, pr\u00f3ximo a Cara\u00ed, no Vale do Jequitinhonha, Minas Gerais, aonde veio a falecer em 2007. Criado em ambiente oleiro, deu prosseguimento \u00e0s atividades familiares, marcando presen\u00e7a contestadora e destacando-se como \u201cartista popular\u201d numa regi\u00e3o onde a produ\u00e7\u00e3o da cer\u00e2mica utilit\u00e1ria e figurativa \u00e9, principalmente, trabalho de mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p>A no\u00e7\u00e3o de \u201carte popular brasileira\u201d constitui um fato sociocultural, territorial e com data\u00e7\u00e3o e contornos hist\u00f3ricos. Refere-se a um fen\u00f4meno total \u2013 a um s\u00f3 tempo social, econ\u00f4mico, cultural e est\u00e9tico, que envolve narrativas, obras, autores, e discuss\u00f5es que se organizam no seu entorno.<sup>1<\/sup> N\u00e3o designa um estilo art\u00edstico, uma t\u00e9cnica ou sequer um tipo \u00fanico de objeto. Ao contr\u00e1rio, circunscreve um campo de produ\u00e7\u00e3o que estabelece conex\u00f5es com diferentes linguagens art\u00edsticas, em que a criatividade e a autoria individual ocupam lugar central. Essa no\u00e7\u00e3o liga-se, quase sempre de maneira visceral, ao vasto e democr\u00e1tico campo do artesanato, pois muitas vezes \u00e9 da\u00ed que surgem aqueles indiv\u00edduos que se destacam com uma obra particular. A designa\u00e7\u00e3o de algo como \u201carte popular\u201d est\u00e1 relacionada a uma discuss\u00e3o menos r\u00edgida sobre as fronteiras do que pode, ou n\u00e3o, ser considerado arte. Nesse sentido constitui um territ\u00f3rio que coloca em quest\u00e3o a hierarquia entre as artes e permite ver o tr\u00e2nsito \u2013 quase sempre amb\u00edguo, e por vezes confuso ou conflituoso \u2013 de produ\u00e7\u00f5es artesanais consideradas perif\u00e9ricas, em dire\u00e7\u00e3o ao sistema estabelecido das artes pl\u00e1sticas.<\/p>\n\n\n\n<p>O termo \u201carte popular\u201d \u00e9 muito abrangente. Neste artigo indica a produ\u00e7\u00e3o tridimensional de modelagens em cer\u00e2micas e esculturas em madeira, ferro e tecido, feita por artistas das camadas populares. Da forma como essa no\u00e7\u00e3o tem sido usada contemporaneamente, remete ao fazer art\u00edstico n\u00e3o hegem\u00f4nico, dos mais pobres, dos perif\u00e9ricos, dos que criam \u00e0 margem da escolaridade e dos sistemas de arte constitu\u00eddos. E, nesse sentido, mesmo considerando que o uso do qualificativo \u201cpopular\u201d implica em outros problemas que n\u00e3o podem ser ignorados, ou permanecerem ocultos, tais como borrar as especificidades de g\u00eanero, matrizes africanas ou ind\u00edgenas, territoriais, etc, ou parecer dialogar com perspectivas dicot\u00f4micas, entendemos que nomear essa produ\u00e7\u00e3o no contexto brasileiro se configura ainda como uma estrat\u00e9gia: fazer ver \u00e0 sociedade que, fora dos meios ditos \u201ccultos\u201d, nas zonas invis\u00edveis e silenciadas, entre os autodidatas ou os que aprendem por meio da tradi\u00e7\u00e3o familiar, existe produ\u00e7\u00e3o est\u00e9tica que pode e deve ser entendida como arte. E que, na maior parte das vezes, n\u00e3o o \u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora a po\u00e9tica e for\u00e7a expressiva presentes nas produ\u00e7\u00f5es criativas populares sejam reconhecidas em alguns meios, e estejam \u00e0 vista de qualquer um, pois ocorre em todas as regi\u00f5es e com regularidade, chama a aten\u00e7\u00e3o seu apagamento no campo propriamente art\u00edstico. As obras em geral s\u00e3o entendidas como artesanato voltado para a comercializa\u00e7\u00e3o, circulando timidamente nos meios profissionais de arte. Porque justamente n\u00e3o fazem parte de um circuito estruturado, o reconhecimento dos autores\/artistas \u00e9 prec\u00e1rio, fazendo com que sejam continuamente referidos como \u201cdescobertas\u201d recentes, por mais tempo que se dediquem ao mesmo fazer. O que se agrava pelo fato dessa arte n\u00e3o fazer parte da forma\u00e7\u00e3o escolar, encontrando-se ausente dos livros e das antologias de arte brasileira, salvo raras exce\u00e7\u00f5es, como, por exemplo, Mestre Vitalino.<\/p>\n\n\n\n<h3>Cara de bicho, corpo de gente. E o contr\u00e1rio tamb\u00e9m existe<\/h3>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"680\" height=\"1024\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-2_Ulisses_obra-680x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-163\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-2_Ulisses_obra-680x1024.jpg 680w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-2_Ulisses_obra-199x300.jpg 199w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-2_Ulisses_obra-768x1156.jpg 768w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-2_Ulisses_obra-1021x1536.jpg 1021w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-2_Ulisses_obra.jpg 1208w\" sizes=\"(max-width: 680px) 100vw, 680px\" \/><figcaption>Ulisses Pereira Chaves (Vale do Jequitinhonha, Minas Gerais), <em>Sem t\u00edtulo<\/em>, d\u00e9cada de 1970. <br>Foto: Lucas Van de Beuque, Acervo Museu do Pontal.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Nas pe\u00e7as iniciais de Ulisses Pereira Chaves podemos reconhecer a preval\u00eancia de animais dom\u00e9sticos, como galinhas, ou outros bichos do entorno da casa, como lagartos, e, ainda, das moringas de guardar \u00e1gua. Ao longo dos anos, sua cria\u00e7\u00e3o vai se modificando, ganhando formas mais enxutas e formalmente mais elaboradas. Cria aves-moringas com contornos largos; outras com p\u00e9s e cabe\u00e7as diminutas; ou com figuras humanas de pesco\u00e7os alongados, instaurando novos sentidos para um formato recorrente. Inventa uma esp\u00e9cie de r\u00e9ptil, com patas grossas, estruturais. Arremata o corpo de um homem com uma cabe\u00e7a de cavalo, evocando a imagem do minotauro. Inventa esculturas totens, de formatos generosos, nas quais m\u00faltiplas cabe\u00e7as se enredam, numa esp\u00e9cie de cont\u00ednuo repetitivo. Seus corpos s\u00e3o aderentes; suas cabe\u00e7as, fervilhantes.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"393\" height=\"591\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-3_Ulisses_obra.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-165\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-3_Ulisses_obra.jpg 393w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-3_Ulisses_obra-199x300.jpg 199w\" sizes=\"(max-width: 393px) 100vw, 393px\" \/><figcaption>Ulisses Pereira Chaves (Vale do Jequitinhonha, Minas Gerais) <em>Homem com Cabe\u00e7a de Cavalo<\/em>, d\u00e9cada de 1990. Foto: Lucas Van de Beuque, Acervo Museu do Pontal.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>A maior parte de suas composi\u00e7\u00f5es revela seres inventados, que n\u00e3o existem na realidade. E fala da presen\u00e7a do sobrenatural em sua vida.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Tudo o que fa\u00e7o sai da natureza, da minha cabe\u00e7a, de minha inven\u00e7\u00e3o. A pe\u00e7a \u00e9 mat\u00e9ria que me responde. (&#8230;)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O que fez a antrop\u00f3loga L\u00e9lia Frota questionar: \u201cExpressionista, surrealista, ou participante de uma experi\u00eancia outra, que convive com o sobrenatural com a maior naturalidade, considerando-o mais verdadeiro do que os fatos percept\u00edveis por todos n\u00f3s no dia-a-dia?\u201d<sup>2<\/sup> &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Foi em conversa com essa pesquisadora que Ulisses declarou entender que s\u00e3o os elementos invis\u00edveis que determinam a caracter\u00edstica \u00fanica de cada obra, porque \u201cem permanente muta\u00e7\u00e3o\u201d.<sup>3<\/sup> Ainda que o artista tenha tido algum reconhecimento em vida, n\u00e3o teve suas obras monetariamente valorizadas. O que ali\u00e1s tem sido a realidade da maior parte dos que atuam nesse segmento. Mesmo com algum renome, pois no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1990 j\u00e1 era bastante disseminada a singularidade de seu talento, jamais ingressou no elitista mundo das artes pl\u00e1sticas brasileiras, com suas regras euroc\u00eantricas, verticalismos e a firme recusa de outras possibilidades narrativas. O reconhecimento de Ulisses se deu nos meios especializados e restritos dos interessados pela arte do popular brasileira, entre colecionadores e estudiosos sobretudo.<\/p>\n\n\n\n<p>Justamente porque esse tipo de produ\u00e7\u00e3o ocorre numa regi\u00e3o empobrecida do Vale do Jequitinhonha, historicamente associada a ref\u00fagio e resist\u00eancia de popula\u00e7\u00f5es negras aquilombadas, em contexto hierarquicamente menos central, a dimens\u00e3o est\u00e9tica do que ali se faz nem sempre \u00e9 reconhecida como cria\u00e7\u00e3o pessoal, cujos autores t\u00eam identidades \u00edmpares. A produ\u00e7\u00e3o, como um todo, e a despeito de suas particularidades, \u00e9 vista como artesanato, e nesse entendimento est\u00e1 latente o sentido pejorativo associado tanto aos seus aspectos de repeti\u00e7\u00e3o e c\u00f3pia, como tamb\u00e9m de mercadoria. O que n\u00e3o \u00e9 espec\u00edfico dessa regi\u00e3o, mas alcan\u00e7a amplamente a produ\u00e7\u00e3o criativa dos menos privilegiados economicamente no Brasil. Essa esp\u00e9cie de \u201capagamento hist\u00f3rico\u201d da produ\u00e7\u00e3o intelectual e art\u00edstica das camadas populares contribuiu para refor\u00e7ar preconceitos, criar exclus\u00f5es e reservas de mercado para quem pode ser visto ou tido como artista, al\u00e9m de ampliar as dist\u00e2ncias sociais e econ\u00f4micas, reproduzindo hierarquias perversas.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de todos nublamentos, Ulisses, e suas cria\u00e7\u00f5es impactantes, nos impedem de ficar indiferentes. Precisamos escut\u00e1-lo! Com ele, somos chamados a re-ver. Ver novamente. Caminhar pelas trilhas das incertezas e repensar em profundidade o que existe para al\u00e9m das contradi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<h4>Quando os fragmentos s\u00e3o a unidade<\/h4>\n\n\n\n<p>A primeira imagem que nos impressiona quando chegamos em sua casa \u00e9 uma cerca de madeira, que circunda e demarca a entrada do s\u00edtio onde vive<sup>4<\/sup>. No alto de cada mour\u00e3o, Ulisses colocou um resto de cabe\u00e7a espetado, uma metade de rosto quebrada, ou o peda\u00e7o de algum membro partido, \u201cestourado\u201d durante a queima da cer\u00e2mica. O conjunto comp\u00f5e um cen\u00e1rio de grande dramaticidade, algo sombrio. Seja pelos corpos partidos, seja por evocar, pela falta, algo que deixou de ser inteiro. Ou, ainda, por conduzir \u00e0s ideias de ru\u00edna e de deteriora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, n\u00e3o apenas. Elas tamb\u00e9m parecem trazer de volta para a natureza os cacos, num regime em que nada sobra. Em novo contexto \u00e9 como se as obras partidas recebessem algum tipo de restaura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Georg Simmel diz que:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>&nbsp;[&#8230;] as ru\u00ednas de um edif\u00edcio significam que outras for\u00e7as e outras formas \u2013aquelas da natureza \u2013 desenvolveram e substitu\u00edram o que na obra de arte foi destru\u00eddo e desapareceu e que uma nova totalidade, uma unidade particular nasceu do resto de arte que vive ainda nelas e dessa parte da natureza que vive a partir de agora nelas.<sup>5<\/sup><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Ao exibir os peda\u00e7os numa nova configura\u00e7\u00e3o, Ulisses recria uma nova totalidade. E sublinha a inteireza de sua cria\u00e7\u00e3o, pouco importando se algo se quebrou ou n\u00e3o. Ali suas obras ganham novos significados, continuam ativas. Mat\u00e9ria sempre viva, cujo am\u00e1lgama n\u00e3o \u00e9 determinado apenas pela a\u00e7\u00e3o do fogo, mas tamb\u00e9m por sua natureza c\u00f3smica.<\/p>\n\n\n\n<p>Circundar a casa com fragmentos, refor\u00e7a e explicita os v\u00ednculos entre artista, obra e o ambiente natural. Sugere, como disse Simmel a prop\u00f3sito das ru\u00ednas, que: &nbsp;\u201cuma obra humana seja percebida quase que como um produto da natureza. As mesmas for\u00e7as que d\u00e3o \u00e0 montanha seu aspecto &#8211; as intemp\u00e9ries, a eros\u00e3o, os desmoronamentos, a a\u00e7\u00e3o dos vegetais &#8211; revelam aqui, (sobre as muralhas), sua efic\u00e1cia\u201d.<sup>6<\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>As ru\u00ednas t\u00eam a capacidade de expor e integrar for\u00e7as opostas e conflitantes. Em meio \u00e0s ru\u00ednas, pensa-se no decl\u00ednio e na ascens\u00e3o, no velho e no novo, no passado e no futuro. E, sobretudo, na incapacidade humana de impedir o avan\u00e7o do tempo. Mas postas ali, por Ulisses, aqueles cacos de cer\u00e2mica n\u00e3o concedem nenhum tipo de nostalgia. E nos levam a pensar que modelar um objeto, estabelecer um discurso, inventar novos destinos para o que seria perda e erro, parecem ser parte de um \u201cmesmo\u201d processo. Que refor\u00e7a uma vis\u00e3o de mundo e revela as conex\u00f5es que atuam e impulsionam Ulisses. De alguma maneira, para ele, tudo \u00e9 cria\u00e7\u00e3o. Nada \u00e9 sobra.<\/p>\n\n\n\n<p>A realoca\u00e7\u00e3o do que n\u00e3o poder\u00e1 ser comercializado, porque quebrou, tamb\u00e9m chama a aten\u00e7\u00e3o para o trabalho concreto da cer\u00e2mica, para a fragilidade do barro cozido; exp\u00f5e o processo com seus imprevistos, erros e fracassos. Revela o que quase sempre permanece oculto no fazer em si do trabalho da cer\u00e2mica \u2013 os riscos, o descontrole. Refor\u00e7a, simbolicamente, aquilo que est\u00e1 presente no discurso de Ulisses e, que, ao mesmo tempo, nem todos entre os que o visitam parecem compreender.<\/p>\n\n\n\n<p><em>N\u00e3o posso saber se as pessoas gostam das minhas pe\u00e7as. Ningu\u00e9m pode responder uma coisa por outra pessoa. Cada pessoa tem um sentido e escolhe o sentido e nem eu, nem ningu\u00e9m pode saber o sentido que as pessoas d\u00e3o para as pe\u00e7as. (Ulisses, 2005).<\/em><\/p>\n\n\n\n<h4>Etnografia de um encontro<\/h4>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"1280\" height=\"868\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-4_Ulisses-e-familia.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-167\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-4_Ulisses-e-familia.jpeg 1280w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-4_Ulisses-e-familia-300x203.jpeg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-4_Ulisses-e-familia-1024x694.jpeg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-4_Ulisses-e-familia-768x521.jpeg 768w\" sizes=\"(max-width: 1280px) 100vw, 1280px\" \/><figcaption>Ulisses Pereira Chaves e fam\u00edlia, d\u00e9cada de 1990 Foto: Ana Maria Chindler. Galeria P\u00e9 de Boi, Rio de Janeiro.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>A primeira vez que estive em sua casa foi em 1995.<sup>7<\/sup> Sua fama de pessoa exc\u00eantrica e dif\u00edcil chegou antes de conhec\u00ea-lo. Ulisses recebeu-me amigavelmente, embora tenso. Logo mostrou-me a oficina onde trabalhava o barro. Depois, um pequeno quartinho onde estocava as pe\u00e7as prontas, as quais n\u00e3o me permitiu ver livremente, mantendo a porta apenas entreaberta. Sem que lhe perguntasse algo, disse que ali nada se encontrava \u00e0 venda. Avisou-me que tudo era encomenda e que nenhuma pe\u00e7a poderia ser minha.<\/p>\n\n\n\n<p>Fiquei observando por um tempo. Tentando ver o que era poss\u00edvel, sem demandar nada mais a ele, sentindo seu ritmo. Suas modelagens apresentam o barro cozido e alisado, suave, sem texturas bruscas. As superf\u00edcies conservam a cor da terra e recebem pinturas feitas com tintas de pigmentos naturais. As formas, originais e elegantes, inquietam.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois fomos para a sala, um c\u00f4modo simples, de casa do interior, bem arejado e agrad\u00e1vel. Ficamos conversando. Na verdade, fiquei em sil\u00eancio e ele ficou falando, num fluxo cont\u00ednuo, emendando um assunto no outro. Ora se exaltava, ora se recolhia, calado.&nbsp; Sua esposa Maria Jos\u00e9 entrava e sa\u00eda. Observava a mim e a ele. Nada dizia. Ouv\u00edamos nossas respira\u00e7\u00f5es. Fora, o sol estava muito quente.<\/p>\n\n\n\n<p>Pela janela, vi que algumas pessoas \u2013 filhos, e a irm\u00e3 Ana (que depois vim a conhecer) \u2013 estavam por perto. Ningu\u00e9m entrou na sala.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Eu disse para minha mulher que voc\u00ea vinha. Eu vi voc\u00ea vindo para c\u00e1 essa noite, no sonho.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Assim como Ulisses se atribui uma capacidade de antecipar o que ser\u00e1 vivido, um poder de saber antes das coisas se concretizarem na realidade, tamb\u00e9m entende suas obras como elementos aut\u00f4nomos, embora indissociadas dele pr\u00f3prio. Criador e criatura \u2013 com suas identidades pr\u00f3prias. Mas, paradoxalmente, ambos, um. Conectados visceralmente com a terra.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Mat\u00e9ria daqui \u00e9 barro. Se voc\u00ea levar eu falo com a minha pe\u00e7a onde ela estiver. Cada pe\u00e7a me responde. Se voc\u00ea pergunta ela n\u00e3o diz nada. Se voc\u00ea pergunta ela fica calada. Minhas pe\u00e7as falam comigo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Quando pedi para fotograf\u00e1-lo, recusou-se, permitindo que eu fotografasse apenas as obras.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Eu n\u00e3o quero a minha foto, a minha for\u00e7a presa num filme, numa entrevista. N\u00e3o permito que fotografem aqui. Se quiser fotografar, mostre o projeto. Eu ensino. N\u00e3o ensino de gra\u00e7a.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Pergunto se posso pagar para fazer as fotos. Ele diz que n\u00e3o. E percebo logo que n\u00e3o se trata disso.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Eu falo com o sol, n\u00e3o copio de ningu\u00e9m. N\u00e3o sou como os outros que n\u00e3o sabem o que as pe\u00e7as falam.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Traz um folheto como exemplo do que o desagrada. Nele suas pe\u00e7as aparecem ao lado de fotos da cidade de Cara\u00ed, da igreja e do mercado.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Por que puseram a igreja e o mercado? Onde est\u00e1 isso? Aqui? Aqui, n\u00e3o. Aqui n\u00e3o \u00e9 l\u00e1. Eu estou aqui, na minha casa.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ulisses mostra o seu entorno. A casa fica num ponto mais elevado do terreno e ele abre os bra\u00e7os e me faz olhar em volta, como se fosse preciso tamb\u00e9m que os visitantes constatassem o \u00f3bvio. Aqui, n\u00e3o \u00e9 l\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Volta ao texto do cartaz, onde sua import\u00e2ncia como artista \u00e9 reconhecida e a cidade de Cara\u00ed e seus marcos s\u00e3o usados como refer\u00eancia para sua localiza\u00e7\u00e3o. O texto tamb\u00e9m o qualifica como um ceramista do Vale do Jequitinhonha. Mas isso n\u00e3o parece aplacar sua insatisfa\u00e7\u00e3o. Sai e volta com um outro grande cartaz, de uma exposi\u00e7\u00e3o, onde se destaca uma obra de sua autoria, coberta por seu nome, em letras garrafais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>A\u00ed, a\u00ed. Eu n\u00e3o estou l\u00e1! Na minha casa mando eu. Aqui, ningu\u00e9m fotografa se eu n\u00e3o quiser. E vem gente aqui fotografar e p\u00f4r o meu nome no papel.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o retruco, mas ele parece ter muito a falar sobre o assunto, como se estivesse esperando por esse momento, acumulando respostas\/desabafos para quest\u00f5es que o afligem. Talvez por isso, fala sem parar, como se as palavras desengasgassem da garganta. Seu discurso \u00e9 r\u00e1pido, ininterrupto, sem pontua\u00e7\u00f5es que indiquem a mudan\u00e7a de um assunto a outro, tornando-se imposs\u00edvel acompanhar e compreender nos detalhes o desenrolar das est\u00f3rias que narra ou exatamente o que diz. Seu ritmo \u00e9 vertiginoso.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, o sentido de sua fala n\u00e3o se perde. \u00c9 evidente que sua indigna\u00e7\u00e3o passa, de alguma forma, pelo que ele v\u00ea e ningu\u00e9m parece ver. Pelo que se esconde ao olhar do outro, embora para ele pare\u00e7a \u00f3bvio. Pelo desrespeito por seu pensamento e por seus princ\u00edpios.<\/p>\n\n\n\n<p>Ter sua obra impressa em papel, mesmo que seja para enaltec\u00ea-lo, viola suas escolhas. Pois sua cria\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um objeto para o outro, para o mercado. Mesmo sendo, pois o artista vive de sua produ\u00e7\u00e3o. Contudo, entre ele e sua obra existe uma conex\u00e3o de ordem \u00edntima. Que o estimula a buscar uma rela\u00e7\u00e3o concreta, olho no olho, com quem adquire suas modelagens. Para Ulisses, nada est\u00e1 dissociado. O que o torna um tipo de artista para quem a casa e aquilo que acontece no seu entorno \u2013 as rela\u00e7\u00f5es, as pessoas, o espa\u00e7o \u2013 comp\u00f5e uma esp\u00e9cie de \u201cmicro-clima\u201d. Seu ambiente \u00e9 sua forma de existir e se relacionar com o mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Numa outra visita, feita em 2005 (desta vez com Lucas e Moana Van de Beuque), Ulisses diz que cada pessoa tem seu dom pr\u00f3prio de fazer arte. E que as pessoas que o procuram <em>\u201cquerem isso, querem aquilo, querem ser o professor do pr\u00f3prio artista! Porque minhas pe\u00e7as s\u00e3o imagem do que eu fa\u00e7o, n\u00e3o imagem de alguma coisa. [S\u00e3o] imagem e semelhan\u00e7a do que eu sou<\/em>\u201d. Com essa fala, j\u00e1 nos minutos iniciais de contato, o artista vai ao ponto \u2013 sua cria\u00e7\u00e3o \u00e9, em si mesma, origem e fim: seu pr\u00f3prio corpo expandido. Imagem e semelhan\u00e7a do que ele mesmo \u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>No inteiro de sua vida, tudo aparece integrado. Modelar \u00e9 equivalente a lavrar a terra, plantar e colher o alimento, limpar uma nascente, encontrar o barro, \u201clevantar o corpo\u201d de uma pe\u00e7a, como \u00e9 a express\u00e3o dita comumente pelas ceramistas da sua regi\u00e3o. E, at\u00e9 nos receber, mesmo como visitantes, nos torna part\u00edcipes dessa sua realidade \u00fanica.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"694\" height=\"1024\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-5_Ulisses-trabalhando-694x1024.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-169\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-5_Ulisses-trabalhando-694x1024.jpeg 694w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-5_Ulisses-trabalhando-203x300.jpeg 203w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-5_Ulisses-trabalhando-768x1133.jpeg 768w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-5_Ulisses-trabalhando.jpeg 868w\" sizes=\"(max-width: 694px) 100vw, 694px\" \/><figcaption>Ulisses Pereira Chaves, d\u00e9cada de 1990 Foto: Ana Maria Chindler. Galeria P\u00e9 de Boi, Rio de Janeiro.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h4>Natureza e a recusa das cis\u00f5es entre os seres. Para Ulisses todos s\u00e3o um<\/h4>\n\n\n\n<p>Em nosso primeiro encontro, pude experimentar seu esfor\u00e7o por comunicar algo que lhe parecia \u00f3bvio \u2013 que o homem e a natureza s\u00e3o indissoci\u00e1veis. Dito por ele de maneira bruta, com o tom de voz elevado, e forte energia. Talvez fosse mesmo necess\u00e1rio tanto esfor\u00e7o para fazer ver que a rela\u00e7\u00e3o de oposi\u00e7\u00e3o entre o humano e a natureza, a natureza e a cultura \u2013 pontos centrais da vis\u00e3o ocidental moderna \u2013 eram equ\u00edvocos que vinham durando tempo demais.<\/p>\n\n\n\n<p>Seja ao criar uma ave mitol\u00f3gica, seja ao produzir suas cercas fantasmag\u00f3ricas, com cabe\u00e7as espetadas no alto, Ulisses nos enreda em seu atormentado \u2013 e de certa forma, l\u00facido \u2013 processo mental. Sua vis\u00e3o profunda sobre sua arte fala da concep\u00e7\u00e3o de vida como natureza. E retroalimenta a no\u00e7\u00e3o de natureza como cria\u00e7\u00e3o incessante, na qual Ulisses \u00e9 part\u00edcipe presente, com suas modelagens de barro cozido, em que o humano desdobra-se num Outro \u2013 o animal fabuloso.<\/p>\n\n\n\n<p>Seres imagin\u00e1rios aparecem amplamente na produ\u00e7\u00e3o escult\u00f3rica popular. Como produ\u00e7\u00e3o lateral, mas consistente, \u00e9 encontrada na cria\u00e7\u00e3o de artistas de diferentes regi\u00f5es culturais do Brasil, tais como Mestre Vitalino (Pernambuco (PE), Ci\u00e7a (Juazeiro do Norte, Cear\u00e1 (CE), Ant\u00f4nio Rodrigues (PE) e muitos outros.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"1200\" height=\"797\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-6_Mestre-Vitalino.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-171\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-6_Mestre-Vitalino.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-6_Mestre-Vitalino-300x199.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-6_Mestre-Vitalino-1024x680.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-6_Mestre-Vitalino-768x510.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><figcaption>Mestre Vitalino (Alto do Moura, Pernambuco) <em>Sem titulo<\/em>, 1960. Foto: George Maragaia, Acervo Museu do Pontal.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"680\" height=\"1024\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-7_Cica-do-Barro-Cru-680x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-173\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-7_Cica-do-Barro-Cru-680x1024.jpg 680w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-7_Cica-do-Barro-Cru-199x300.jpg 199w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-7_Cica-do-Barro-Cru-768x1156.jpg 768w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-7_Cica-do-Barro-Cru-1021x1536.jpg 1021w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-7_Cica-do-Barro-Cru.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 680px) 100vw, 680px\" \/><figcaption>Ci\u00e7a do Barro Cru (Juazeiro do Norte, Cear\u00e1) <em>Homem sapo<\/em>, d\u00e9cada de 1970. Foto: Lucas Abdallah, Acervo Museu do Pontal.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"587\" height=\"591\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-8_Antonio-Rodrigues.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-175\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-8_Antonio-Rodrigues.jpg 587w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-8_Antonio-Rodrigues-298x300.jpg 298w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-8_Antonio-Rodrigues-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 587px) 100vw, 587px\" \/><figcaption>Ant\u00f4nio Rodrigues (Alto do Moura, Caruaru, Pernambuco)<em> Conselho de Animais<\/em>, d\u00e9cada de 1970. <br>Foto Anibal Sciarreta, Acervo Museu Casa do Pontal.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Entre os que a t\u00eam como central, destacam-se Manoel Galdino, de Pernambuco, os autores de m\u00e1scaras de Cazumba, no Maranh\u00e3o, e Ulisses Pereira Chaves.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"1200\" height=\"978\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-9_Manoel-Galdino.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-177\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-9_Manoel-Galdino.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-9_Manoel-Galdino-300x245.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-9_Manoel-Galdino-1024x835.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-9_Manoel-Galdino-768x626.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><figcaption>Manoel Galdino (Alto do Moura, Pernambuco) <em>Lampi\u00e3o Sereia<\/em>, 1970. Foto: An\u00edbal Sciarreta, Acervo Museu do Pontal.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"1002\" height=\"1024\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-10_Euzimar-1002x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-179\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-10_Euzimar-1002x1024.jpg 1002w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-10_Euzimar-294x300.jpg 294w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-10_Euzimar-768x785.jpg 768w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-10_Euzimar.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 1002px) 100vw, 1002px\" \/><figcaption>Euzimar Meireles Gomes (Maranh\u00e3o), <em>M\u00e1scara de Cazumba<\/em>, 2005. <br>Foto Lucas Van de Beuque, Cole\u00e7\u00e3o Maria Mazzillo, Acervo Museu do Pontal.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"664\" height=\"1024\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-11_Ulisses_obra-664x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-181\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-11_Ulisses_obra-664x1024.jpg 664w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-11_Ulisses_obra-194x300.jpg 194w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-11_Ulisses_obra-768x1185.jpg 768w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-11_Ulisses_obra-996x1536.jpg 996w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-11_Ulisses_obra.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 664px) 100vw, 664px\" \/><figcaption>Ulisses Pereira Chaves (Vale do Jequitinhonha, Minas Gerais) <em>Sem t\u00edtulo<\/em>, d\u00e9cada de 1970. <br>Foto: Lucas Van de Beuque, Acervo Museu do Pontal.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Para alguns, a inspira\u00e7\u00e3o parece vir das hist\u00f3rias que ouviram sobre um outro tempo, no passado, ou das narrativas m\u00edticas, com seus personagens surpreendentes e assustadores. Esse n\u00e3o parece ser o caso de Ulisses, que est\u00e1 conectado, no presente, com a natureza e seus mist\u00e9rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Sua proposta \u00e9 plenamente compreendida por um outro artista da regi\u00e3o, Ulisses Mendes, de Itinga, que se notabilizou pelas artes da madeira. Ele diz que um dia foi visitar Ulisses Pereira Chaves, em sua casa:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>A\u00ed eu fui l\u00e1, que \u00e9 dif\u00edcil chegar l\u00e1 na casa dele. Os maiores artistas ficam bem distantes da cidade. Interessante. Longe da cidade, na zona rural, bem longe. Sobe morro, desce morro. Ali que est\u00e1 o bom artista. Quem convive muito com a natureza, aquelas coisas, ele apega muito com Deus, t\u00e1 sozinho por ali. Ali ele aperfei\u00e7oa aquele lado art\u00edstico dele, e cria aquele trabalho com aquele som natural. A floresta, o som natural, tamb\u00e9m ele ruge. Ele ruge, ele tem aquele som na mata, montanhas. Se a gente aprofundar muito naquilo ali, voc\u00ea escuta vozes, voc\u00ea escuta vento conversar. Eu j\u00e1 aprofundei tanto nesse lado que a gente fala espiritual, original, cient\u00edfico, que j\u00e1 ouvi as \u00e1guas cantarem, isso eu j\u00e1 ouvi muitas vezes.<sup>8<\/sup><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Do que fala esse outro Ulisses? Fala do refinamento dos sentidos, da abertura para outros significados que est\u00e3o silenciados, do aprimoramento da sensibilidade e da entrega ao acontecimento. Fala da import\u00e2ncia da solid\u00e3o e da comunh\u00e3o com a natureza. O que parece ser, para estes artistas, a condi\u00e7\u00e3o mesma da cria\u00e7\u00e3o. Ouvir as \u00e1guas cantarem \u00e9 participar do frescor das \u00e1guas, do \u00edmpeto das \u00e1guas, \u00e9 beber na fonte da inspira\u00e7\u00e3o. Uma inspira\u00e7\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 apressada. Que sabe que o tempo \u00e9 necess\u00e1rio. Tempo da arte.<\/p>\n\n\n\n<p>Ulisses Pereira Chaves morou toda sua vida na zona rural, numa fazenda distante alguns quil\u00f4metros do pequeno povoado de Cara\u00ed. Sua viv\u00eancia \u00e9 a do homem rural. O homem que lavra as terras empobrecidas pela extra\u00e7\u00e3o de min\u00e9rios. Algu\u00e9m que, junto com seus ancestrais afro-brasileiros, resistiu no territ\u00f3rio e, por meio da arte, inventou o inexistente. Essa ampla regi\u00e3o, \u00e9 ainda compartilhada com diferentes popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas. Atualmente os povos da etnia Maxakali (Y\u00e3y h\u00e3 m\u0129y) vivem entre os vales do rio Mucuri e do rio Jequitinhonha. Como se l\u00ea no site da Universidade Federal de Minas Gerais, (o povo Maxakali vive em&nbsp;quatro \u00e1reas&nbsp;de Minas Gerais:<sup>9<\/sup> nas aldeias de \u00c1gua Boa, no munic\u00edpio de Santa Helena de Minas; em Pradinho e Cachoeira, no munic\u00edpio de Bert\u00f3polis; em Aldeia Verde, no munic\u00edpio de Ladainha, e no distrito de Top\u00e1zio, em Te\u00f3filo Otoni. Suas terras constituem alguns dos menores territ\u00f3rios ind\u00edgenas&nbsp;do pa\u00eds, abrigando, juntos, cerca de 2.500 pessoas. A aldeia Krenak, tamb\u00e9m localizada a pouco mais de 200 km de Cara\u00ed, \u00e9 terra natal do fil\u00f3sofo ind\u00edgena Ailton Krenak, autor do livro <em>Ideias para adiar o fim do mundo<\/em>. Neste livro, e em suas reflex\u00f5es, o autor critica os que n\u00e3o entendem os v\u00ednculos fundamentais \u00e0 sobreviv\u00eancia, que s\u00e3o aqueles tecidos entre a natureza e a humanidade.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>N\u00f3s somos natureza e essa interdepend\u00eancia \u00e9 vital. Se a gente ignorar isso, a gente morre. A ideia de uma vida separada da natureza s\u00f3 pode significar o fim da nossa experi\u00eancia de compartilhar vida na terra com os outros seres, com as florestas, com os rios, com outras esp\u00e9cies, inclusive aquelas que a gente sabe que est\u00e3o na lista de extin\u00e7\u00e3o e que a gente trata como se fosse s\u00f3 uma not\u00edcia remota. Como se essa contagem fosse previs\u00edvel e isso n\u00e3o fosse um alerta para o pr\u00f3ximo sujeito que vai entrar na lista: o homo sapiens, n\u00f3s mesmos.<sup>10<\/sup><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Talvez seja essa a experi\u00eancia que Ulisses tenta transmitir aos que o procuram. E, nessa certeza, nada h\u00e1 de escondido. Tudo \u00e9 expl\u00edcito!<\/p>\n\n\n\n<p>A influ\u00eancia ind\u00edgena na arte cer\u00e2mica do Vale do Jequitinhonha, foi estudada por Lalada Dalglish, no livro <em>As noivas da Seca<\/em>.<sup>11<\/sup> A autora estabelece amplas conex\u00f5es, encontrando, no artesanato e na arte do Vale, v\u00ednculos com a produ\u00e7\u00e3o de povos ind\u00edgenas de outras regi\u00f5es brasileiras e, mesmo, de outros pa\u00edses. Indica as conex\u00f5es visuais existentes entre a \u201cmoringa com quatro bases\u201d, feita por popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas dos Andes Centrais e a \u201cmoringa tr\u00edpode\u201d, feita em Minas Gerais no s\u00e9culo XIX. Pe\u00e7as similares a estas, encontradas no M\u00e9xico pr\u00e9-colombiano e nas cer\u00e2micas Karaj\u00e1, podem ser vistas com facilidade em v\u00e1rias localidades do Vale do Jequitinhonha, nas esculturas com um \u00fanico corpo (humano ou animal) e duas ou mais cabe\u00e7as (idem) encontradas tanto em Cara\u00ed, feitas por Ulisses Pereira Chaves e fam\u00edlia, como em Turmalina, Campo Alegre, feitas por Rosa Gomes da Silva e outras, como as esculturas ditas \u201cg\u00eameas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"768\" height=\"1024\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-12_Ulisses_obra-768x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-183\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-12_Ulisses_obra-768x1024.jpg 768w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-12_Ulisses_obra-225x300.jpg 225w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-12_Ulisses_obra.jpg 960w\" sizes=\"(max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/><figcaption>Ulisses Pereira Chaves, (Vale do Jequitinhonha, Minas Gerais) <em>Moringa tr\u00edpode com galinha<\/em>, d\u00e9cada de 1970. <br>Foto: Lucas Van de Beuque, Acervo Museu do Pontal.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"681\" height=\"1024\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-13_Rosa-Gomes-681x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-185\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-13_Rosa-Gomes-681x1024.jpg 681w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-13_Rosa-Gomes-199x300.jpg 199w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-13_Rosa-Gomes-768x1155.jpg 768w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-13_Rosa-Gomes-1021x1536.jpg 1021w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-13_Rosa-Gomes.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 681px) 100vw, 681px\" \/><figcaption>Rosa Gomes da Silva (Vale do Jequitinhonha, Minas Gerais) <em>G\u00eameas<\/em>, d\u00e9cada de 1990. <br>Foto: Lucas Van de Beuque, Acervo Museu do Pontal.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Se j\u00e1 existiam antes, com Ulisses essas imagens nascem como que pela primeira vez. Ele as recebe dos ventos, das brisas, do que vem de longe. E, at\u00e9 o final de sua vida, aos 78 anos, encarrega-se de expandir seus significados.<\/p>\n\n\n\n<p>O enfoque sobre a arte e o pensamento de Ulisses Pereira Chaves \u00e9 oportuno para se pensar nas m\u00faltiplas dimens\u00f5es sem\u00e2nticas do \u201cescondido\u201d. Se, de certa forma, o esconder est\u00e1 ligado visceralmente ao seu contr\u00e1rio, sugerindo que h\u00e1 algo a ser revelado, tamb\u00e9m pode indicar uma aus\u00eancia, seja intencional ou n\u00e3o. O escondido nos permite supor tamb\u00e9m um duplo movimento, no qual o escondido \u00e9 passivo (sem lugar, ignorado, desconhecido) ou ativo (se escondendo, porque assim o deseja). H\u00e1 ainda outras dimens\u00f5es, quando o artista faz de sua obra mensageira do invis\u00edvel (que porta qualidades que n\u00e3o se mostram a todos, mas apenas aos que procuram, entre os quais ele se inclui). Remete ainda aos elos comunicativos escondidos e intang\u00edveis que se mant\u00eam entre o artista e suas obras. Acrescenta-se ainda a essa multiplicidade de sentidos a complexidade da cria\u00e7\u00e3o existencial e c\u00f3smica da vida e obra. Como tal, aponta tamb\u00e9m para os &#8220;escondidos&#8221; v\u00ednculos entre imagin\u00e1rios pr\u00e9-colombianos, as pe\u00e7as e criaturas siamesas, como incorpora\u00e7\u00f5es e ressurg\u00eancias de inconscientes imemoriais que migram para as m\u00e3os, barro e terra dessa produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Traz tamb\u00e9m uma dimens\u00e3o de escolha, e estrat\u00e9gia, quando, por exemplo, o artista decide o que deve ser mostrado e a quem (mantendo a porta entreaberta, tornando impl\u00edcito que h\u00e1 algo ali que ele n\u00e3o quer exibir \u2013 ou que n\u00e3o deve ser visto).<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, a not\u00e1vel invisibilidade experienciada por Ulisses Pereira Chaves frente ao mundo das artes, e seus muitos conflitos, n\u00e3o dizem respeito apenas a ele. Remete a algo maior, pesado, infra estrutural. E, sobretudo, aos preconceitos que d\u00e3o sustenta\u00e7\u00e3o ao sistema de arte e cultura, refor\u00e7ando crit\u00e9rios de exclus\u00e3o e exclusividades, que est\u00e3o na base das defini\u00e7\u00f5es hegem\u00f4nicas sobre o que \u00e9 arte e quem pode ser reconhecido como artista. Estas s\u00e3o algumas entre as muitas quest\u00f5es que o mant\u00e9m, e a outros artistas populares, \u00e0 margem. Impedindo o reconhecimento de seu saber, desvalorizando as tradi\u00e7\u00f5es aos quais ele se encontra vinculado.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora indignado, e expressando sua insatisfa\u00e7\u00e3o, o artista jamais se cansou. Falando das coisas invis\u00edveis, conversando com o c\u00e9u, com as plantas, com o sol e com a natureza, Ulisses nos legou al\u00e9m de obras, uma vis\u00e3o hol\u00edstica de mundo, absolutamente necess\u00e1ria e contempor\u00e2nea. Uma vis\u00e3o cosmol\u00f3gica, na qual cada parte pode ser um todo. E na qual a terra do barro, vira toda Terra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">***<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>\u00c2ngela Mascelani<\/em><\/strong><br>Antrop\u00f3loga, curadora e diretora de arte. Diretora e curadora do Museu Casa do Pontal, RJ, desde 2004. Doutora em Antropologia pela UFRJ (2001), Mestre em Artes Visuais pela UFRJ (1996). Publicou: <em>O Mundo da Arte Popular Brasileir<\/em>a (Ed. Mauad, 2000); <em>Caminhos da Arte Popular: O Vale do Jequitinhonha<\/em> (MCP, 2008) e <em>O que voc\u00ea vai levar \u2013 material educativo complementar ao ensino de artes pl\u00e1sticas populares<\/em> (MCP, 2010, coautora). Assinou dezenas de curadorias especializadas, com montagens no Brasil e outros pa\u00edses. \u00c9 coautora premiada de v\u00eddeos document\u00e1rios, entre os quais: <em>Parteiras do sert\u00e3o &#8211; a magia da sobreviv\u00eancia<\/em>, (1993); <em>Terra queimada de sangue<\/em> (1987), Pr\u00eamio Tucano de Prata no Festival Internacional de Cinema e V\u00eddeo do Rio de Janeiro e Artistas Cazumbas, segundo lugar Pr\u00eamio Pierre Verger (2020).<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\" \/>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p id=\"ancora1\"><sup>1<\/sup> MASCELANI, Angela. <em>O mundo da arte popular brasileira<\/em>: Museu Casa do Pontal. Rio de Janeiro: Mauad. Rio de Janeiro. 2002.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>2<\/sup> FROTA, L\u00e9lia Coelho. <em>Pequeno dicion\u00e1rio da arte do povo brasileiro \u2013 s\u00e9culo XX<\/em>.&nbsp; Aeroplano: Rio de Janeiro, 2005, p.406.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>3<\/sup> Ibid.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>4<\/sup> MASCELANI, Angela. <em>Caminhos da Arte Popular: o vale do Jequitinhonha:<\/em> Museu Casa do Pontal. Rio de Janeiro. 2010.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>5<\/sup> SIMMEL, Georges<em>. La Parure et autres essais<\/em>. Trad. Et pr\u00e9sentation de Michel Collomb, Philippe Marty y Florence Vinas. Paris. Ed. de la Maison des sciences de l&#8217;homme, 1998, p.259.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>6<\/sup> Ibid, p.113<\/p>\n\n\n\n<p><sup>7<\/sup> Todas as falas de Ulisses Pereira Chaves, transcritas neste artigo, foram ditas em encontros com a autora. O primeiro, ocorreu em 1995 e est\u00e1 relacionada a pesquisa que resultou na escrita da disserta\u00e7\u00e3o de mestrado da autora. E o segundo, em 2005, desta feita com a presen\u00e7a, tamb\u00e9m, de Moana Van de Beuque (pesquisadora) e Lucas Van de Beuque (fot\u00f3grafo), numa das viagens de pesquisa que resultou na escrita do livro <em>Caminhos da Arte Popular: o vale do Jequitinhonha<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>8<\/sup> Trecho retirado de entrevista concedida \u00e0 autora, durante o 25 FESTIVALE, realizado em Joa\u00edma, Minas Gerais.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>9 <\/sup>https:\/\/www.ufmg.br\/espacodoconhecimento<\/p>\n\n\n\n<p><sup>10<\/sup> Coment\u00e1rio de Ailton Krenak em entrevista a Roberta Souza, publicado em 17 de maio de 2020 no Di\u00e1rio do Nordeste online [https:\/\/diariodonordeste.verdesmares.com.br\/verso\/futuro-presente-a-natureza-ao-redor-esta-celebrando-nossa-parada-diz-o-escritor-ailton-krenak-1.2245965]<\/p>\n\n\n\n<p><sup>11<\/sup> DAGLISH, Lalada. <em>Noivas da seca<\/em>. Editora Unesp, S\u00e3o Paulo, 2006.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ulisses, e as dimens\u00f5es complexas do que se esconde e do que se mostra Angela Mascelani Ele falou que se perguntava: Essa terra veio de onde? Est\u00e1 aonde? 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