{"id":2835,"date":"2021-03-25T18:30:55","date_gmt":"2021-03-25T21:30:55","guid":{"rendered":"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/?page_id=2835"},"modified":"2021-06-17T14:50:09","modified_gmt":"2021-06-17T17:50:09","slug":"editorial-vidas-escondidas","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/editorial-vidas-escondidas\/","title":{"rendered":"Editorial: Vidas escondidas"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"2036\" height=\"1524\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/5-3.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2568\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/5-3.jpg 2036w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/5-3-300x225.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/5-3-1024x766.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/5-3-768x575.jpg 768w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/5-3-1536x1150.jpg 1536w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/5-3-200x150.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 2036px) 100vw, 2036px\" \/><figcaption>Twenty Three. <em>De(mock)racy,<\/em> Cidade do M\u00e9xico, M\u00e9xico 2018.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h2>Editorial: Vidas escondidas<\/h2>\n\n\n\n<h4>Jessica Gogan e Luiz Guilherme Vergara<\/h4>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Por todas as vidas escondidas e perdidas<br>Em mem\u00f3ria das 300 mil mortes por Covid-19 no Brasil (at\u00e9 27 de mar\u00e7o 2021)<br>Com solidariedade a todas as fam\u00edlias das v\u00edtimas da pandemia no mundo inteiro<br>A todes que est\u00e3o em buscas, indaga\u00e7\u00f5es e conclama\u00e7\u00f5es<br>Por uma arte que provoca e habita<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p><em>Escondido (part. de esconder). Adj. 1. Oculto, encoberto, rec\u00f4ndito, absc\u00f4ndito. Esconder [do latim. Abscondere). 1. P\u00f4r em lugar oculto; encobrir, ocultar. 2. Guardar consigo; n\u00e3o revelar; n\u00e3o enunciar; reservar. 3. N\u00e3o manifestar; disfar\u00e7ar, encobrir, dissimular. 4. Furtar \u00e0s vistas; 5. N\u00e3o revelar; n\u00e3o enunciar; reservar; guardar. 6. Subtrair-se \u00e0s vistas alheias; 7. Mascarar-se. 8. Proteger-se, resguardar-se.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A 6\u00aa edi\u00e7\u00e3o da <em>Revista MESA,<\/em> \u201cVidas Escondidas\u201d, \u00e9 dedicada aos m\u00faltiplos sentidos de \u201cescondido\u201d na sociedade. A busca por trazer luz \u00e0s quest\u00f5es que atravessam e amea\u00e7am nossas vidas \u00e9 recorrente como uma vontade cr\u00edtica e (re)generadora do indagar \u2013 o que pode a arte no mundo contempor\u00e2neo? A edi\u00e7\u00e3o \u00e9 composta por estudos de casos, artigos, entrevistas, di\u00e1logos, filmes e ensaios fotogr\u00e1ficos das interfaces entre arte e pr\u00e1ticas contempor\u00e2neas socialmente engajadas, reunindo-se como corpo coletivo das m\u00faltiplas vozes de contra narrativas e diferentes estrat\u00e9gias po\u00e9ticas e pol\u00edticas. As vidas escondidas s\u00e3o abordadas como parte das lutas por justi\u00e7a restaurativa,&nbsp;democracia e igualdade&nbsp;social: recupera\u00e7\u00e3o de mem\u00f3rias, investigando esconderijos e des-escondendo engrenagens de silenciamentos; questionando os sistemas escolares, religiosos e psiqui\u00e1tricos; gerando outras perspectivas de manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas, muitas n\u00e3o-ainda arte ou al\u00e9m; habitando e transformando adversidades em reencantamentos de outros mundos poss\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p>Projetada como plataforma viva para documenta\u00e7\u00e3o, colabora\u00e7\u00e3o e reflex\u00e3o, <em>MESA<\/em> \u00e9 uma escultura social que mobiliza seu devir revista-escola ao atuar como ponte e \u201cmesa\u201d entre artistas, pesquisadores, institui\u00e7\u00f5es, universidades, comunidades, professores e estudantes de diversas \u00e1reas dentro e fora do Brasil. Estes processos teceram fios essenciais para a introdu\u00e7\u00e3o \u00e0s complexas cartografias do escondido neste n\u00famero. Desenvolvida ao longo de 2019-2021, a partir da semente geradora da exposi\u00e7\u00e3o \u201cBa\u00eda de Guanabara: \u00c1guas e vidas escondidas\u201d (2016) no MAC Niter\u00f3i, esta edi\u00e7\u00e3o conecta iniciativas locais desde as periferias do Morro do Bumba, Niter\u00f3i e S\u00e3o Gon\u00e7alo, ao Vale de Jequitinhonha; da busca pela verdadeira hist\u00f3ria racista e sexista por tr\u00e1s das mulheres internadas em asilos brasileiros \u00e0s m\u00e3es em luto pelas suas crian\u00e7as desaparecidas na cidade de Ju\u00e1rez no M\u00e9xico; das revela\u00e7\u00f5es de abusos cometidos contra os povos ind\u00edgenas ao sempre presente legado transgeracional da repress\u00e3o pol\u00edtica e perdas de vidas durante as ditaduras no Brasil, Argentina, e Chile; e por sua vez, a conflu\u00eancia entre arte e ativismo desde a Pequena \u00c1frica, pequena comunidade &#8220;escondida&#8221; na zona portu\u00e1ria do Rio de Janeiro, \u00e0s pr\u00e1ticas socialmente engajadas em diferentes contextos geogr\u00e1ficos e socioculturais e organiza\u00e7\u00f5es na Irlanda, Esc\u00f3cia e Chipre.<\/p>\n\n\n\n<p>Reconhecemos que as iniciativas de pesquisa-a\u00e7\u00e3o, encontros e conversas com e entre os colaboradores foram fundamentais para o projeto editorial. Assim se reafirma a base \u00e9tica defendida em todas as edi\u00e7\u00f5es anteriores com \u00eanfase na cria\u00e7\u00e3o coletiva, nas pr\u00e1ticas art\u00edsticas dirigidas \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de redes de colabora\u00e7\u00f5es como geradoras de conectividades e v\u00ednculos entre diferentes setores e organiza\u00e7\u00f5es sociais locais e elos afetivos. Literalmente como uma \u201cmesa\u201d, tanto faz uso quanto reinventa o formato de revista como um dispositivo para iniciar, investigar e conectar diferentes mundos, conversas, pesquisas e pr\u00e1ticas, mapeando, documentando, debru\u00e7ando em resson\u00e2ncias est\u00e9ticas e \u00e9ticas dentro e atrav\u00e9s de diferen\u00e7as. Cada edi\u00e7\u00e3o ao mesmo tempo que constr\u00f3i tamb\u00e9m se volta como bumerangue \u00e0s quest\u00f5es das edi\u00e7\u00f5es anteriores. Atuando como uma membrana constantemente evoluindo de micropol\u00edticas, contato e reciprocidade, muitas das contribui\u00e7\u00f5es das \u201cVidas Escondidas\u201d s\u00e3o resultados de longas e ainda em processo conversas e colabora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>As apresenta\u00e7\u00f5es que se seguem introduzem alguns temas e fios condutores sugeridos pelos pr\u00f3prios conte\u00fados das contribui\u00e7\u00f5es. Embora organizados aqui em t\u00f3picos espec\u00edficos, todos dialogam entre si.<\/p>\n\n\n\n<h3>\u00c0s margens: \u201cDo-in\u201d art\u00edsticos, ecossist\u00eamicos e pontos de acupuntura social<\/h3>\n\n\n\n<p>Quanto mais nos debru\u00e7amos nestas margens, mais se multiplicam as descobertas de vidas escondidas emergindo juntamente com exemplos de comunidades de afetos e ativismos socialmente situados estrategicamente ocultos dentro de que pode ser abordado como microgeografias de \u201c<em>do-in<\/em>\u201d, pontos de acupuntura ativados criticamente.&nbsp;Este conceito chave foi apresentado por Gilberto Gil como \u201c<em>do-in<\/em> antropol\u00f3gico\u201d, no qual se enfatiza uma pr\u00e1tica \u201ccelular\u201d que alimenta e catalisa a potencialidade que j\u00e1 existe nas localidades perif\u00e9ricas \u2013 fora dos grandes centros.&nbsp;Reconfiguram-se agenciamentos e ativismos em bases afetivo-comunit\u00e1rias, desafiando os discursos, os circuitos e territ\u00f3rios pr\u00e9-estabelecidos dos circuitos da arte.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Este \u00e9 o caso do \u201c<em>do-in<\/em>\u201d da arte ambiental da Casa Museu Rancho Verde na favela do Bumba em Niter\u00f3i, RJ. Inspirada na casa do Sr. Hernandes Jos\u00e9 Silva (HJS), \u201cum jovem de 92 anos\u201d, como ele \u00e9 afetivamente conhecido pela sua arte de reciclagem de lixo e restauro de objetos achados, o projeto igualmente est\u00e1 em constante processo de muta\u00e7\u00e3o e expans\u00e3o em di\u00e1logo com a vis\u00e3o e flu\u00eancia criativa de HJS. A vida e artesania imersiva de HJS integra transforma\u00e7\u00f5es existenciais, espirituais e po\u00e9ticas que em princ\u00edpio, poderiam ser vistas como uma vers\u00e3o do Bispo do Ros\u00e1rio, mas, n\u00e3o apenas pela apropria\u00e7\u00e3o\/reciclagem a que submete os materiais que chegam at\u00e9 ele, como tamb\u00e9m pela metaf\u00edsica que opera entre escuta de vozes, sistemas&nbsp;e vis\u00f5es em sonhos. Ambos foram conduzidos pelo fen\u00f4meno da cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica que transborda a raz\u00e3o humana como casos excepcionais de transforma\u00e7\u00e3o m\u00fatua entre arte, ser e habitar imerso na conflu\u00eancia entre estado po\u00e9tico existencial-espiritual. A Casa Museu Rancho Verde nasce do carisma-fen\u00f4meno do Sr.Hernandes catalisando de imediato a forma\u00e7\u00e3o de redes de solidariedades em a\u00e7\u00e3o ambiental como um \u201c<em>do-in<\/em>\u201d ecossist\u00eamico que se torna um caso muito especial de vidas escondidas em transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Maria Ign\u00eas Albuquerque e Priscilla Grimberg, coordenadoras, criadoras e cuidadoras do projeto Casa Museu Rancho Verde, contam como foi se construindo o conjunto de redes de colabora\u00e7\u00f5es da vida, da casa e da obra do Sr. Hernandes. A genealogia desse projeto \u00e9 conduzida por duas ra\u00edzes dram\u00e1ticas de mortes e reinven\u00e7\u00e3o regenerante de vidas. Assim, o descaso tr\u00e1gico do deslizamento de encosta sobre o antigo lix\u00e3o da cidade e a perda de muitas vidas no Bumba em 2010 faz um contraponto existencial restaurativo com o in\u00edcio das coletas e reinven\u00e7\u00f5es de vida-fun\u00e7\u00e3o para os objetos achados na rua pelo Sr. Hernandes. Assim tamb\u00e9m, no mesmo ano ampliam-se as resson\u00e2ncias a partir do programa de parceria experimental entre o N\u00facleo Experimental de Educa\u00e7\u00e3o e Arte do MAM Rio com o Tribunal de Justi\u00e7a, atrav\u00e9s da CPMA (Central de Penas e Medidas Alternativas) coordenada por Ign\u00eas Albuquerque. A dimens\u00e3o experimental restaurativa atravessava a colabora\u00e7\u00e3o entre educa\u00e7\u00e3o e o programa de justi\u00e7a e redu\u00e7\u00e3o &#8211; penalidades e medidas alternativas do CPMA &#8211; o que levou as duas a visitarem a casa em &#8220;gesta\u00e7\u00e3o de futuros\u201d do Sr. Hernandes. Nesta sequ\u00eancia de sinergias e encontros, Ign\u00eas e Priscilla tamb\u00e9m se aproximam reconhecendo interesses comuns nas quest\u00f5es ambientais e os impactos dos res\u00edduos no meio ambiente. Neste artigo, Ign\u00eas e Priscila buscam abordar a import\u00e2ncia restaurativa das redes solid\u00e1rias conjugando pr\u00e1ticas art\u00edsticas, ecossist\u00eamicas e cl\u00ednicas dentro de um processo de transforma\u00e7\u00e3o existencial e ambiental \u2013 \u201cinspirando pr\u00e1ticas para transi\u00e7\u00f5es voltadas a pessoas comuns, em lugares comuns, em especial nas periferias, como \u00e9 o nosso caso, no Morro do Bumba em Niter\u00f3i\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Em <em>Um conto como ferramenta<\/em> a participa\u00e7\u00e3o da artista Sandrine Teixido traz sua pr\u00e1tica art\u00edstica dedicada a gerar mobiliza\u00e7\u00f5es e mem\u00f3rias em lugares marcados por cat\u00e1strofes atrav\u00e9s de duas trag\u00e9dias \u2013 na realidade e na fic\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. O conto de Edgar Allan Poe \u201cUma descida no <em>maelstr\u00f6m<\/em>\u201d \u00e9 adotado como ferramenta a\/efetiva e cr\u00edtica de lidar com os impactos emocionais e traumas (ecopsicol\u00f3gicos) das v\u00edtimas de uma trag\u00e9dia. O artigo de Sandrine amplia as abordagens sobre a Casa Museu Rancho Verde como um ponto gerador e indagador de \u201cdiferentes potenciais\u201d gerando \u201cformas de arte que exploram e questionam as possibilidades de uma \u2018arte em comum\u2019\u201d. O Bumba e a trajet\u00f3ria comunit\u00e1ria das transforma\u00e7\u00f5es solid\u00e1rias em torno do Sr. Hernandes alimentam os interesses de Sandrine por uma &#8220;arte que combina pesquisas e pr\u00e1ticas partilhadas numa \u00e9poca em que o \u2018antropoceno\u2019 nos obriga a aprender a viver.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>O ensaio imag\u00e9tico <em>Assim falou H.J.S<\/em> \u00e9 um recorte do v\u00eddeo document\u00e1rio em processo de Leandro Almeida, educador e v\u00eddeo documentarista, capturando afetivamente o universo do personagem \u201cSeu Hernandes\u201d atrav\u00e9s das transforma\u00e7\u00f5es rec\u00edprocas entre vida e Casa Museu Rancho Verde. Leandro vem acompanhando a hist\u00f3ria dos dez anos desse projeto atrav\u00e9s das diferentes fases e colabora\u00e7\u00f5es que foram se envolvendo como partes pulsantes&nbsp;da casa viva de cora\u00e7\u00f5es doadores em torno do Sr. Hernandes, Ign\u00eas e Priscilla. Nesse sentido, Leandro tamb\u00e9m investe na produ\u00e7\u00e3o desse v\u00eddeo como instrumento de registro e reconhecimento da &#8220;import\u00e2ncia cultural, art\u00edstica, educativa, ambiental e representa uma filosofia de vida materializada.\u201d Leandro faz parte dessa rede de colaboradores investindo na sustentabilidade e futuro desse &#8220;personagem interessante cuja capacidade inventiva e produtiva de reinventar objetos, de cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica, de contar hist\u00f3rias e filosofar vida escondida renasce aos 80 anos, sendo hoje j\u00e1 um Patrim\u00f4nio Cultural, de natureza material e imaterial da cidade de Niter\u00f3i.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>A contribui\u00e7\u00e3o da escritora Cris Seixas conclui com chave liter\u00e1ria as leituras da Casa Rancho Verde apontando para uma resson\u00e2ncia intuitiva entre duas for\u00e7as po\u00e9ticas vitais ou &#8220;poetas de resgate\u201d aproximando os escritos de HJS da poesia de Manoel de Barros.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O sentido de \u201c<em>do-in<\/em>\u201d cultural se aplica a uma a\u00e7\u00e3o focal espec\u00edfica e local que pode irradiar sua pot\u00eancia afetiva e ecossist\u00eamica para o seu entorno, catalisando resson\u00e2ncias e efeitos restaurativos e terap\u00eauticos do sentido de lugar. Assim reconhecemos essa dimens\u00e3o cl\u00ednico-restaurativa nas periferias remotas da Irlanda, descrita no di\u00e1logo com o artista Willem Van Goor, sua esposa Doutsje Nauta e o Reverendo Val Rodgers, relatando uma cerim\u00f4nia religiosa de reconcilia\u00e7\u00e3o interdenominacional realizada em 24 de setembro de 2011, na Igreja de St. Thomas, em Dugort, no extremo norte da ilha remota de Achill, no oeste do pais. A cerim\u00f4nia contou com leituras interreligiosas, m\u00fasicas tocadas por Van Goor no \u00f3rg\u00e3o da Igreja de St. Thomas e uma homenagem aos t\u00famulos sem l\u00e1pide de cat\u00f3licos e protestantes enterrados no terreno da igreja. Contar a hist\u00f3ria da antiga miss\u00e3o protestante da Igreja de St. Thomas significa revisitar as mem\u00f3rias escondidas da \u00e9poca dos conflitos entre protestantes e cat\u00f3licos datadas da Grande Fome na Irlanda do s\u00e9culo XIX. Apesar das transforma\u00e7\u00f5es no pa\u00eds nas \u00faltimas d\u00e9cadas, essa hist\u00f3ria remete a uma longa e dolorosa mem\u00f3ria ainda velada e enraizada na pol\u00edtica colonial, na pobreza, nas lutas contra o dom\u00ednio brit\u00e2nico e na guerra civil.<\/p>\n\n\n\n<p>A pot\u00eancia de uma po\u00e9tica de \u201c<em>do-in<\/em>\u201d pode ser tomada como uma pr\u00e1tica \u00e9tica e est\u00e9tica que atua justamente nas cicatrizes hist\u00f3ricas e sociopol\u00edticas, sendo reconhecida em diversas margens do mundo na busca daquilo que Silvia Federici escreve como \u201cum reencantamento\u201d, na contram\u00e3o dos sistemas capitalistas e dos legados coloniais de injusti\u00e7as e desigualdades. Podemos constatar esta pot\u00eancia &#8220;do-in&#8221;, no contexto da ilha do Chipre (visto tanto atrav\u00e9s de sua geografia perif\u00e9rica quanto de seu conflito pol\u00edtico n\u00e3o resolvido entre dois dos principais grupos \u00e9tnicos que l\u00e1 vivem, os cipriotas turcos e os cipriotas gregos), em uma pr\u00e1tica socialmente situada, investida no local, mobilizando a\u00e7\u00f5es coletivas e criando pontes entre arte e ativismo. Como o que apontam as historiadoras da arte Esra Plumer-Bardas e Evanthia Tselika \u2013 coeditoras do estudo do caso Conversando atrav\u00e9s da Zona Tamp\u00e3o cipriota: tornando vis\u00edvel o invis\u00edvel \u2013 na arte que insiste \u201cem criar fluxos atrav\u00e9s da divis\u00e3o e em moldar ainda mais pontos em comum entre n\u00f3s.\u201d O estudo de caso \u201cpolivocal\u201d oferece um mapeamento dessas pr\u00e1ticas abra\u00e7ando uma variedade de metodologias e a\u00e7\u00f5es incluindo interven\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, resid\u00eancias art\u00edsticas, projetos coletivos, espa\u00e7os gerenciados pela comunidade. Nele, contribu\u00edram as seguintes organiza\u00e7\u00f5es e iniciativas: AA&amp;U, Associa\u00e7\u00e3o Europeia de Arte Mediterr\u00e2nea (EMAA), Free School, Hands on Famagusta Initiative, NeMe, Pikadilly, Re Aphrodite, Rooftop Theatre Group, Sidestreets Culture, Studio 21, Urban Guerillas, Visual Voices e Xarkis. Como organiza\u00e7\u00f5es, elas se concentram n\u00e3o apenas em quest\u00f5es relacionadas \u00e0s interfaces inter\u00e9tnicas e \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o de conflitos, mas tamb\u00e9m em t\u00f3picos universais de direitos humanos, plataformas feministas, LGBTQI e a\u00e7\u00e3o sindical, bem como na constru\u00e7\u00e3o de di\u00e1logos entre cipriotas e a segunda e terceira gera\u00e7\u00e3o de migrantes e outras comunidades que vivem no Chipre. O estudo tamb\u00e9m destaca algumas contribui\u00e7\u00f5es art\u00edsticas especificas que operam nessa tessitura sociocultural. Os v\u00eddeos da artista Alev Advil <em>Architecture of Forgetting: Journeys into the Dead Zone (Arquitetura do esquecimento: Jornadas \u00e0s zonas mortas),<\/em> as interven\u00e7\u00f5es de Twenty Three e os desenhos de H\u00fcseyin \u00d6zinal s\u00e3o justapostos na se\u00e7\u00e3o <em>Arte, Ativismo e Pol\u00edtica de Resist\u00eancia<\/em>, a fim de extrair, como as coeditoras observam, \u201cas experi\u00eancias comuns de como os artistas criam obras sobre \u2013 e com \u2013 aqueles que n\u00e3o s\u00e3o vistos e n\u00e3o s\u00e3o representados, transformando vozes ocultas em um reino de visibilidade.\u201d<\/p>\n\n\n\n<h3>Devolvendo o mundo ao mundo<\/h3>\n\n\n\n<p>S\u00e3o Gon\u00e7alo \u00e0 frente! Assim conclama a Renata Baz\u00edlio com Laura Lima, para dar luz ao escondido no agir social pela coleta de relatos de mulheres resistentes: Marisa Chaves, Oscarina Siqueira, Cristhiane Malungo, guerreiras do Movimento de Mulheres em S\u00e3o Gon\u00e7alo e do F\u00f3rum Estadual de Mulheres Negras RJ e a grafiteira Aila Ailita. Entre tantas repress\u00f5es e distor\u00e7\u00f5es pol\u00edticas escondidas, a vida das mulheres de S\u00e3o Gon\u00e7alo \u00e9 uma saga her\u00f3ica da solidariedade desse movimento que enfrenta novos desafios com a pandemia. Onde &#8220;a realidade perif\u00e9rica\u201d \u00e9 \u201cimpressa sobre o ch\u00e3o das aus\u00eancias e neglig\u00eancias do poder p\u00fablico\u201d, estes movimentos e suas redes de solidariedade \u201crevertem o terror em acolhimento, a desinforma\u00e7\u00e3o em presen\u00e7as p\u00fablicas.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Gabriela Bandeira, artista-pesquisadora, desenvolve sua pesquisa e processualidade art\u00edstica pelo habitar-vida-transforma\u00e7\u00e3o recuperando hist\u00f3rias e mem\u00f3rias locais e familiares como estrat\u00e9gia de resist\u00eancia ecossist\u00eamica que abrange o invent\u00e1rio de saberes e fazeres da amea\u00e7ada pesca artesanal na comunidade de Gradim, sua terra natal nas margens do fundo da Ba\u00eda de Guanabara em S\u00e3o Gon\u00e7alo. Gabriela vem descobrindo no bioma dos mangues um cosmos de diferentes modos de exist\u00eancia e ancestralidades escondidas. Assim, busca \u201cconferir visibilidade \u00e0 comunidade cai\u00e7ara nessa localidade e tensionar suas lutas e reivindica\u00e7\u00f5es.\u201d Atrav\u00e9s da <em>Aten\u00e7\u00e3o \u00e0s redes de si<\/em>, Gabriela vem abrindo caminhos e afirma que &#8220;vale conferir a minha localiza\u00e7\u00e3o de fala, sou filha de pescador, nascida e criada em uma regi\u00e3o urbana pesqueira, em S\u00e3o Gon\u00e7alo, que sofre com os legados da industrializa\u00e7\u00e3o, em um munic\u00edpio \u00e0s margens da Ba\u00eda De Guanabara, no Rio de Janeiro.\u201d Entende-se a si mesma como \u201cagente do sens\u00edvel\u201d, e se pergunta: \u201ccomo fabricar ideias que nos fa\u00e7am agir?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Jeff Medeiros, artista igualmente nascido em S\u00e3o Gon\u00e7alo, expressa abertamente no t\u00edtulo de seu trabalho a inquieta\u00e7\u00e3o: <em>Quem nos desvelar\u00e1 se n\u00e3o n\u00f3s?<\/em> Sua resposta se d\u00e1 pela fric\u00e7\u00e3o contundente entre a cidade vista como lugar de servi\u00e7o e, por outro lado, no seu avesso escondido, como lugar da vida. Nessa dobradura, Jeff traz e transforma a sua produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica em engajamento na hist\u00f3ria da complexidade circundante de S\u00e3o Gon\u00e7alo, onde cresceu e testemunha at\u00e9 hoje tanta viol\u00eancia. Em suas pe\u00e7as Jeff aponta para a condi\u00e7\u00e3o servi\u00e7al de origem e destino da maioria dos moradores de S\u00e3o Gon\u00e7alo. Ao mesmo tempo molda resist\u00eancia do habitar-vida-luta como arte e argamassa do seu ativismo \u00e9tico-est\u00e9tico e pedag\u00f3gico. &#8220;O que condeno \u00e9 a explora\u00e7\u00e3o e o entendimento de que determinados lugares s\u00f3 possuem for\u00e7a de trabalho a ser subjugada, tendo suas epistemologias e suas produ\u00e7\u00f5es de vida negadas.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p><em>Come\u00e7ar pelo meio: por uma escola que n\u00e3o cabe<\/em>. Assim colaborativamente nomeamos o foco especial em educa\u00e7\u00e3o ainda parte do estudo de caso Cartografias de S\u00e3o Gon\u00e7alo. A chamada por pedagogias democr\u00e1ticas s\u00e3o ativadas pelas perguntas da Madalena Vaz Pinto \u2013 professora da UERJ em S\u00e3o Gon\u00e7alo, e que leciona tamb\u00e9m no Mestrado Profissional de Letras \u2013 \u201cporque tem vida l\u00e1 fora. isso n\u00e3o d\u00e1 para negar. tem vida naqueles seres que habitam a sala, que falam com voc\u00ea, inquirem voc\u00ea com o olhar. ent\u00e3o? o que vamos fazer?\u201d buscando romper com o sil\u00eancio das salas de aula, os modelos do que cabem ou n\u00e3o aos regimes escolares. Essas inquieta\u00e7\u00f5es e desassossego provocam a todos; quanta vida escondida tem l\u00e1 fora! A busca por escutas diretas da vida deu partida a esse projeto de colabora\u00e7\u00e3o tripartite com Madalena e suas ex-alunas e professoras da rede estadual do Rio de Janeiro, Raquel Danielli e Renata Targino, seus alunos do ensino m\u00e9dio e estudantes do curso de Cinema da UFF, Mariana da Lima Silva, Cintya Ferreira e Gabriel de Souza Vieira, tamb\u00e9m moradores de S\u00e3o Gon\u00e7alo. <em>Come\u00e7ar pelo meio<\/em> inclui tr\u00eas breve ensaios de Madalena, Raquel e Renata, respectivamente: <em>Somos \u00e1rvore: escreviv\u00eancias e (des)constru\u00e7\u00e3o; <\/em>&nbsp;<em>Leituras e reflex\u00f5es em voz alta: exerc\u00edcios de uma cidadania plena das \u201cvozes do sul\u201d; <\/em>e<em> Um texto, tr\u00eas tempos. <\/em>Cada uma refletindo e indagando sobre pr\u00e1ticas pedag\u00f3gicas mais democr\u00e1ticas e plurais na sala de aula, al\u00e9m do curta-metragem <em>Um breve invent\u00e1rio de pequenos deslizes<\/em>, realizado durante a pandemia atrav\u00e9s de filmagens, imagens e \u00e1udios compartilhados por Whatsapp. Existe vida escondida l\u00e1 fora.<\/p>\n\n\n\n<h3>Esconder, Escondido e Esconderijo<\/h3>\n\n\n\n<p>Tr\u00eas distintas experi\u00eancias que s\u00e3o reunidas aqui prop\u00f5em inflex\u00f5es entre esconder, escondido e esconderijo e apontam para importantes portais e passagens para outros imagin\u00e1rios, marginalidades e perspectivas. A adolesc\u00eancia, como adolescer que pode ser transformador ou repressor \u00e9 contada por uma escrita a quatro m\u00e3os entre o professor Luiz Guilherme Barbosa e a estudante secundarista, Joyce Maravilha. Em sua entrevista, os artistas Maur\u00edcio Dias e Walter Riedweg abordam seu \u00faltimo projeto em processo, as quest\u00f5es de religi\u00e3o e f\u00e9 e os esconderijos da mente.&nbsp;Angela Mascelani traz o artista popular Ulisses Pereira Chaves que se esconde em lugares remotos do Vale de Jequitinhonha para estabelecer seu universo de cria\u00e7\u00e3o, co-cria\u00e7\u00e3o e conex\u00e3o com outros imagin\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>No di\u00e1logo a quatro m\u00e3os, para <em>n\u00e3o escrever escondido<\/em>, o professor Luiz Guilherme Barbosa e Joyce Maravilha, sua aluna no segundo grau do Col\u00e9gio Pedro II, apresentam um sentido de esconderijo atrav\u00e9s da passagem da adolesc\u00eancia, do &#8220;adolescer&#8221;, pela inicia\u00e7\u00e3o \u00e0 literatura como instrumento de &#8220;resist\u00eancia \u00e0 eros\u00e3o da aten\u00e7\u00e3o duradoura, da concentra\u00e7\u00e3o reflexiva, da leitura silenciosa\u201d ou ref\u00fagio contra a \u201ctend\u00eancia psicotizante\u201d da imagina\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica dominante. Na produ\u00e7\u00e3o de enigmas e esconderijos em seu drama policial, Joyce presta aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sua volta como dobra revers\u00edvel entre realidade e fic\u00e7\u00e3o. Seu conto, \u201cMist\u00e9rio na escola\u201d, surpreende a pr\u00f3pria escola por deslocar o protagonismo para o professor, esse sujeito em geral visto com estranhamento pelos estudantes, quase invis\u00edvel fora da escola, sem vida no cotidiano. Assim como os jovens de S\u00e3o Gon\u00e7alo, a adolesc\u00eancia \u00e9 descoberta como esconderijo e forma fluida entre inf\u00e2ncia e vida adulta, um entrelugar da exist\u00eancia que tamb\u00e9m est\u00e1 amea\u00e7ado.<\/p>\n\n\n\n<p>Nossa entrevista com os artistas Maur\u00edcio Dias e Walter Riedweg \u00e9 centrada no trabalho em processo explorando quest\u00f5es de religi\u00e3o e f\u00e9 que remetem aos seus vinte anos de carreira juntos sempre trabalhando com popula\u00e7\u00f5es marginalizadas \u2013 jovens moradores de rua, pacientes psiqui\u00e1tricos, prisioneiros, dentre outros casos. Desde o primeiro encontro ficamos completamente tomados pela generosa partilha de um projeto\/processo ainda em gesta\u00e7\u00e3o \u2013 ou que \u201cn\u00e3o est\u00e1 escondido, mas \u00e9 um embri\u00e3o, ainda n\u00e3o aconteceu\u201d. Nessa entrevista s\u00e3o tecidos alguns dos fios cr\u00edticos de suas trajet\u00f3rias, pautadas pelo envolvimento com pessoas em \u201csitua\u00e7\u00e3o marginal \u00e0 raz\u00e3o, (\u2026) pacientes psiqui\u00e1tricos\u201d diante dos quais o \u201chosp\u00edcio \u00e9 um esconderijo. A pr\u00f3pria psiquiatria, o conceito da psiquiatria, talvez seja um esconderijo, porque \u00e9 um lugar de separa\u00e7\u00e3o\u201d. Destas passagens pelo \u201cuniverso da psiquiatria\u201d foram revelados in\u00fameros &#8220;esconderijos da mente&#8221;, observando que &#8220;a religi\u00e3o \u00e9 um tema onipresente entre eles\u201d. Para esta obra ainda em processos eles planejam a produ\u00e7\u00e3o de uma obra que evoque a diversidade das experi\u00eancias contempor\u00e2neas entre religi\u00e3o e f\u00e9 formando \u201cjanelas\u201d, como uma v\u00eddeo instala\u00e7\u00e3o com m\u00faltiplas entradas nas quais se podem ver \u201cquest\u00f5es territoriais da cren\u00e7a e da religi\u00e3o\u201d no Brasil e no mundo. As janelas abertas sobre os mundos da religi\u00e3o e da f\u00e9 revelam como &#8220;esconderijos tomam forma de sobreviv\u00eancia\u201d e se configuram como \u201cuma forma de intelig\u00eancia e uma forma de intera\u00e7\u00e3o social.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Angela Mascelani, atrav\u00e9s do artista popular Ulisses Pereira Chaves do Vale do Jequitinhonha, aborda n\u00e3o apenas uma vida escondida, mas tamb\u00e9m seu habitat ecossist\u00eamico como esconderijo, como portal para outros imagin\u00e1rios e cosmogonias. Ao abordar as dimens\u00f5es complexas do que se esconde e do que se mostra, Angela exp\u00f5e com clareza o que est\u00e1 escondido ou exclu\u00eddo pela cegueira de uma raz\u00e3o elitista regente das no\u00e7\u00f5es de \u201carte popular brasileira\u201d por fatos e fatores de car\u00e1ter &#8220;sociocultural, territorial e com data\u00e7\u00e3o e contornos hist\u00f3ricos&#8221;. Ao mesmo tempo provoca o reconhecimento de complexidades metaf\u00edsicas que perpassam as rela\u00e7\u00f5es entre Ulisses e seu esconderijo. O esconderijo da civiliza\u00e7\u00e3o aproxima o artista, como um demiurgo, do portal do vis\u00edvel e do invis\u00edvel, das vis\u00f5es de ra\u00edzes imemoriais de origens c\u00f3smicas e ancestrais que habitam e transitam sua cria\u00e7\u00e3o com e atrav\u00e9s da Natureza remota. <em>Eu sou Ulisses! Eu falo com o sol, com a natureza,(\u2026) Eu tenho a vis\u00e3o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<h3>Dando luz a estigmas sociais e abusos institucionais<\/h3>\n\n\n\n<p>Coorganizado com Helen O\u2019Donoghue, curadora e Head of Engagement &amp; Learning,&nbsp;Irish Museum of Modern Art, em Dublin na Irlanda, o estudo de caso&nbsp;<em>Desvelando o escondido: Arte socialmente engajada na Irlanda Pr\u00e1tica&nbsp;<\/em>oferece uma genealogia das pr\u00e1ticas art\u00edsticas socialmente engajadas na Irlanda nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas, em conjunto com um mergulho nas pr\u00e1ticas de tr\u00eas artistas&nbsp;sob diferentes dimens\u00f5es do escondido.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo de tr\u00eas d\u00e9cadas, Bernie Masterson trabalha com prisioneiros no servi\u00e7o prisional irland\u00eas contando suas hist\u00f3rias de marginaliza\u00e7\u00e3o e revelando situa\u00e7\u00f5es de abuso institucional no intuito de chamar aten\u00e7\u00e3o para a \u201crealidade de outros que foram deslocados e destitu\u00eddos\u201d, para \u201caqueles \u00e0 margem da sociedade que n\u00e3o s\u00e3o vistos nem ouvidos\u201d, a partir das pautas \u201cde direitos humanos, dignidade, justi\u00e7a e respeito\u201d. Entrela\u00e7ando pr\u00e1ticas art\u00edsticas e pedag\u00f3gicas, Bernie tanto estimula a cria\u00e7\u00e3o dos outros, resultando em v\u00e1rias exposi\u00e7\u00f5es de seus trabalhos, quanto incorpora as narrativas e perspectivas dos prisioneiros como agente de justi\u00e7a social atrav\u00e9s de uma escuta sens\u00edvel e profunda por dentro de sua produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O artista Seamus McGuinness lan\u00e7a luz sobre estigmas sociais dolorosos atrav\u00e9s de suas colabora\u00e7\u00f5es com as fam\u00edlias de jovens v\u00edtimas de suic\u00eddio. Seu projeto&nbsp;<em>Lived Lives&nbsp;<\/em>come\u00e7ou como uma plataforma de pesquisa interdisciplinar em 2005 com o cientista Kevin Malone,&nbsp;professor de psiquiatria do Hospital Universit\u00e1rio de St. Vincent\/University College Dublin (UCD), e acabou por conferir a Seamus McGuinness um PhD em 2010 pela Faculdade de Medicina&nbsp;(UCD). Desde ent\u00e3o o projeto se desdobrou em iniciativas expositivas, programas de di\u00e1logo, registros em v\u00eddeo e fotografia das experi\u00eancias, e um arquivo de objetos doados pelas fam\u00edlias continuando a gera\u00e7\u00e3o de debate sobre o suic\u00eddio, assunto na maioria das vezes velado e estigmatizado, mas lamentavelmente presente e crescente na realidade brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p>Vuka\u0161in Nedeljkovi\u0107 documenta a experi\u00eancia de refugiados e requerentes de asilo na Irlanda, apresentada aqui por um ensaio visual do artista e um artigo de Anne Mulhall, codiretora de Centre for Gender, Feminisms &amp; Sexualities, na University College em Dublin.&nbsp;Em 1999, o estado irland\u00eas instituiu o sistema de Provis\u00e3o Direta e Dispers\u00e3o. No \u00e2mbito desse sistema, as pessoas s\u00e3o espalhadas em centros de acomoda\u00e7\u00e3o, geralmente em locais remotos que, na verdade, aprisionam as pessoas em abrigos. Como refugiado,&nbsp;Nedeljkovi\u0107 come\u00e7ou fotografar e organizar um arquivo, desdobrando com um projeto colaborativo a partir do qual foram agregados materiais \u2013 textos, imagens, depoimentos \u2013 dos impactados. No seu ensaio, Mulhall tra\u00e7a uma narrativa de abuso institucional, muitas vezes velada por uma arbitrariedade burocr\u00e1tica e estrat\u00e9gica. Um contexto entrela\u00e7ado por uma longa hist\u00f3ria de encarceramento espec\u00edfica do estado-na\u00e7\u00e3o irland\u00eas e hoje filtrado atrav\u00e9s das lentes devastadoras da situa\u00e7\u00e3o do Covid-19 e seu impacto especialmente nas popula\u00e7\u00f5es migrantes no mundo inteiro.&nbsp; &nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No caso dos tr\u00eas, a arte n\u00e3o cura o trauma, \u00e9 mais, como Nedeljkovi\u0107 coloca, \u201cum mecanismo de enfrentamento\u201d, um dispositivo de expor o n\u00e3o dito e o n\u00e3o visto e, como McGuinness observa, um \u201ccatalisador\u201d de conversas, desvelando experi\u00eancias muitas vezes omitidas ou estigmatizas de nosso dia a dia, das hist\u00f3rias oficiais e das pol\u00edticas p\u00fablicas. O compromisso a longo prazo com comunidades e contextos espec\u00edficos dos tr\u00eas artistas aponta para uma pr\u00e1xis art\u00edstica social baseada na \u00e9tica, na constru\u00e7\u00e3o de v\u00ednculos e no conv\u00edvio complexo. \u00c9 uma pr\u00e1tica tanto cr\u00edtica quanto restaurativa \u2013 criando espa\u00e7os de escuta para enfrentar quest\u00f5es, experi\u00eancias e dores na maioria das vezes escondidas da vida social e expondo o escondido atrav\u00e9s da constru\u00e7\u00e3o de arquivos na contram\u00e3o da hist\u00f3ria oficial.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h3>Do invis\u00edvel ao vis\u00edvel: Contra narrativas e conclama\u00e7\u00f5es por comunidade<\/h3>\n\n\n\n<p>Por um lado, o desenvolvimento da pr\u00e1tica socialmente engajada na Irlanda pode ser atribu\u00eddo, em parte, \u00e0 sua condi\u00e7\u00e3o perif\u00e9rica; por outro, no Rio de Janeiro, essa pr\u00e1tica se faz em meio ao cruzamento de submundos e bols\u00f5es perif\u00e9ricos, onde pulsam simultaneamente uma cidade partida e uma cidade cheia de vitalidade. Nesse segundo caso, essa pr\u00e1tica se faz questionando velhas cartografias de centro e periferia, enquanto entrela\u00e7a arte e ativismo numa afirma\u00e7\u00e3o da pot\u00eancia de cria\u00e7\u00e3o e resist\u00eancia do lugar. <em>Vidas escondidas que revelam vidas escondidas na Pequena \u00c1frica <\/em>\u00e9 um di\u00e1logo entre os artistas\/ativistas Diego Zelota, Sandro Rodrigues e Thiago Haule, moradores da Pequena \u00c1frica na regi\u00e3o portu\u00e1ria da cidade, e a curadora\/pesquisadora Izabela Pucu. Em suas pr\u00e1ticas de resgates hist\u00f3ricos, de mobiliza\u00e7\u00e3o coletiva, Diego, Sandro e Thiago usam registros fotogr\u00e1ficos e a impress\u00e3o em lambe-lambe dos personagens locais destacando vidas escondidas abrindo, como Izabela sugere, \u201cpossibilidades para as pessoas mudarem suas concep\u00e7\u00f5es sobre seu lugar de origem e sobre elas mesmas\u201d. Assim, para eles, a arte opera pelo habitar e pertencer a uma comunidade de resist\u00eancia como instrumento gerador de \u201ccontra narrativas\u201d. Neste caso, arte e estrat\u00e9gias de re-exist\u00eancia convergem como formas de lutar, habitar e consci\u00eancia coletiva, deflagrando outros modos de vida juntos. Como Diego anota: \u201cQuero reverenciar gente igual a mim, gente do meu territ\u00f3rio\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A conclama\u00e7\u00e3o por comunidade em<em> N\u00e3o tire as crian\u00e7as da sala!<\/em> <em>Sobre a Biopol\u00edtica das M\u00e3es Solteiras em tempos de Covid-19<\/em> \u00e9 mais uma inscri\u00e7\u00e3o nas demandas regenerantes por novos modelos de futuro. O di\u00e1logo entre duas m\u00e3es solteiras, a artista brasileira L\u00edvia Moura e a pesquisadora cipriota Chrystalleni Loizidou, se desenvolve com \u00eanfase na desvaloriza\u00e7\u00e3o da mulher, m\u00e3e e crian\u00e7as como sintomas e heran\u00e7as do que se arrasta e do que sufoca a humanidade em seu percurso de autodestrui\u00e7\u00e3o da cultura de viol\u00eancia dominada pelo patriarcalismo e capitalismo globalizado. A partir das resid\u00eancias realizadas em 2016 e 2019 entre Chipre e Brasil, as duas identificaram como viol\u00eancias escondidas nas complexidades do mundo contempor\u00e2neo: a condi\u00e7\u00e3o de isolamento e sua diretiva paradoxal que \u201cmarginaliza e oprime as crian\u00e7as\u201d; e a infantofobia e a biopol\u00edtica dessas condi\u00e7\u00f5es. Assim apontam como poss\u00edveis \u201cguias\u201d de sa\u00edda dessa crise um modo inclusivo e comunit\u00e1rio de pensar e atuar, (des)escondendo e abra\u00e7ando a adversidade e o fluxo natural da vida \u2013 como diz Ailton Krenak \u201cn\u00e3o tirando as crian\u00e7as da sala\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h3>Testemunho como pr\u00e1tica po\u00e9tica<\/h3>\n\n\n\n<p>Jos\u00e9 Santos, no seu artigo <em>Vidas\/Mortes Escondidas: Rumo a uma ontologia do desaparecimento for\u00e7ado no Chile ditatorial,<\/em> traz complexidades extremamente inquietantes ao sentido do esconder \u2013 o escondido do n\u00e3o encontrado morto, mas tamb\u00e9m o n\u00e3o vivo, como observa, aquilo que \u201cn\u00e3o est\u00e1, mas supostamente continua sendo e, ent\u00e3o, se espera que volte a estar presente.\u201d Jos\u00e9 se debru\u00e7a sobre essa condi\u00e7\u00e3o paradoxal ontol\u00f3gica de uma exist\u00eancia escondida ou exterminada que paira entre o ser e o n\u00e3o-ser. Atrav\u00e9s de testemunhos dos viventes cativos dos fragmentos de mem\u00f3rias, Jos\u00e9 configura a pot\u00eancia existencial e ps\u00edquica do estado infinito (n\u00e3o finito) de quem vive entre presen\u00e7a\/aus\u00eancia marcando o incontorn\u00e1vel destino de \u201chabitar o luto\u201d. Nesse artigo, Jos\u00e9 n\u00e3o deixa de tecer quest\u00f5es pol\u00edticas e filos\u00f3ficas amparadas pela experi\u00eancia vivida de dor das fam\u00edlias dos desaparecidos e seu legado social e emocional na hist\u00f3ria do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Como lidar com esses lutos e lutas? Que pr\u00e1ticas art\u00edsticas poder\u00e3o abrandar essas feridas na recupera\u00e7\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o de mem\u00f3rias e hist\u00f3rias da dor, viol\u00eancia do estado, trauma, estigmas e seus impactos familiares e socioculturais? Em paralelo com as quest\u00f5es levantadas por Santos no contexto chileno, o estudo de caso <em>Testemunho como pr\u00e1tica po\u00e9tica<\/em> re\u00fane projetos recentes envolvendo a\u00e7\u00f5es e revers\u00f5es cont\u00ednuas entre est\u00e9tica e \u00e9tica, pol\u00edtica e cl\u00ednica. S\u00e3o quatro distintas abordagens a \u00e9poca da ditadura no Brasil de 1964 a 1985, e seu legado transgeneracional; as atrocidades cometidas pelo estado contra os povos ind\u00edgenas; e a quest\u00e3o da loucura como um dos maiores dispositivos de sil\u00eancio-esquecimento, racismo, opress\u00e3o e apagamento das mulheres, especialmente mulheres negras, atingindo seu extremo com a interna\u00e7\u00e3o compuls\u00f3ria no manic\u00f4mio.<\/p>\n\n\n\n<p>No seu artigo<em> Agenciamentos \u00e9tico-est\u00e9tico-pol\u00edticos na repara\u00e7\u00e3o dos danos causados pela viol\u00eancia de Estado, <\/em>a psicanalista e analista institucional Tania Kolker relata o encontro entre arte, cl\u00ednica e pol\u00edtica da mostra \u201cDestempos: Testemunho como pr\u00e1tica po\u00e9tica\u201d, que deu tamb\u00e9m o t\u00edtulo deste estudo de caso. A mostra foi proposta no contexto do Projeto Cl\u00ednicas do Testemunho, uma iniciativa para \u201cgarantir o atendimento psicol\u00f3gico e produzir subs\u00eddios para a constru\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica p\u00fablica voltada para a aten\u00e7\u00e3o aos afetados pela viol\u00eancia do Estado.\u201d Na sua escrita ricamente entrela\u00e7ada com as experi\u00eancias dos afetados, Tania mostra como esse \u201cdevir testemunha\u201d, mobilizado em atos fundamentalmente coletivos de \u201ctestemunhar\u201d, oferece \u201ca possibilidade de dar sentido a experi\u00eancias h\u00e1 tanto tempo silenciadas\u201d refazendo \u201cos la\u00e7os entre as palavras e o mundo\u201d, restituindo \u201ca capacidade de fundar novos mundos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O projeto-exposi\u00e7\u00e3o-manifesto \u201cDestempos\u201d realizou-se em colabora\u00e7\u00e3o com o Coletivo Filhos e Netos por Mem\u00f3ria, Verdade e Justi\u00e7a. A artista Anita Sobar, filha de preso pol\u00edtico e co-curadora do evento \u201cDestempos\u201d, traz K\u00eania Maia, psic\u00f3loga-professora-ativista, filha de desaparecido pol\u00edtico, para compartilharem experi\u00eancias e reflex\u00f5es lidando com a transfer\u00eancia da dor emocional, f\u00edsica e social sofrida pelo pai e pela fam\u00edlia, e as tentativas de transtornar e transformar a dor atrav\u00e9s de a\u00e7\u00f5es est\u00e9tico-pol\u00edticas em contextos urbanos. <em>O devir clandestino &lt;entre aproxima\u00e7\u00f5es e desvios&gt;<\/em> \u00e9 tanto uma genealogia dessa dor transgeracional, quanto constru\u00e7\u00e3o de si como artista que, pelo ativismo, reconhece tamb\u00e9m a clandestinidade como dobra \u00e9tico-est\u00e9tica, e pol\u00edtica, pelo coletivo, onde \u201co testemunho tornou-se pe\u00e7a fundamental para a composi\u00e7\u00e3o dessa pr\u00e1tica\u201d. A escrita foi sendo produzida como um &#8220;ajuntamento de ambas as filhas\u201d, que se reconhecem movidas pela mesma dor transgeracional de denunciar &#8220;o sil\u00eancio&#8221; como parte das engrenagens de esquecimento do Estado.<\/p>\n\n\n\n<p>Tornar p\u00fablico o escondido, dar forma ao silenciado, ao n\u00e3o dito ou visto, e testemunhar o legado (e continua\u00e7\u00e3o) da viol\u00eancia do estado n\u00e3o poderia ser mais urgente. Outro ensaio nesse estudo de caso \u00e9 sobre a instala\u00e7\u00e3o\/performance <em>Leitura p\u00fablica do Relat\u00f3rio Figueiredo<\/em>, uma proposi\u00e7\u00e3o da Escola da Floresta (uma escola alternativa em S\u00e3o Paulo liderada pelo artista F\u00e1bio Tremonte). O Relat\u00f3rio Figueiredo, redigido a partir da investiga\u00e7\u00e3o parlamentar em 1967, conduzida pelo procurador Jader Figueiredo Correia, detalha crimes praticados por funcion\u00e1rios p\u00fablicos do extinto Servi\u00e7o de Prote\u00e7\u00e3o ao \u00cdndio (SPI) contra popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas. O artista prop\u00f5e em suas instala\u00e7\u00f5es, com mesas, microfones e as 7000 p\u00e1ginas do relat\u00f3rio, leituras em voz alta, colocando-nos em contato direto, de maneira crua, com esse material, ao mesmo tempo em que traz a sociedade para incorporar o ato espelhado de cumplicidades entre enuncia\u00e7\u00e3o, v\u00edtima e testemunha dessa hist\u00f3ria das atrocidades cometidas pelo Estado contra os povos origin\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre o escondido e o testemunho abrem-se diversas pr\u00e1ticas art\u00edsticas restaurativas, que se transformam em presen\u00e7a\/ag\u00eancias do sens\u00edvel, mobilizando formas cr\u00edticas e restaurativas do testemunhar. Assim, foi elaborado o projeto <em>Em busca de Judith<\/em>, que se tornou um longa metragem a partir de uma ideia original de pe\u00e7a da atriz J\u00e9ssica Barbosa, com a dire\u00e7\u00e3o do m\u00fasico Pedro S\u00e1 Moraes. A descoberta do destino de sua av\u00f3, Judith, somente aos 32 anos, depois ter seu pr\u00f3prio filho, se transformou em mat\u00e9ria sens\u00edvel e existencial para a busca pelo sentido da origem, loucura, da mem\u00f3ria escondida em fragmentos perdidos da hist\u00f3ria de sua av\u00f3, Judith, e justi\u00e7a restaurativa ao expor o silenciamento do racismo direcionado \u00e0s mulheres negras. Judith foi internada num manic\u00f4mio at\u00e9 o fim de sua vida quando seu pai s\u00f3 tinha dois meses de idade. O ensaio de J\u00e9ssica e Pedro nesse estudo de caso foi escrito em conjunto com Diana Kolker, curadora pedag\u00f3gica no Museu Bispo do Ros\u00e1rio de Arte Contempor\u00e2nea, onde eles realizaram uma resid\u00eancia art\u00edstica explorando o processo dessa constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h3>Dando forma, reconfigurando mem\u00f3ria e queering o arquivo<\/h3>\n\n\n\n<p>A busca por vidas escondidas, biografias e experi\u00eancias ocultadas e apagadas, nos aproximam da conhecida imagem de Benjamin dos \u201ccatadores\u201d, como trapeiros da hist\u00f3ria, peneirando verdades, achados, mem\u00f3rias \u2013 muitas vezes frustradas. Uma procura que termina por se revelar como investiga\u00e7\u00e3o do mundo e de si mesmo, das rela\u00e7\u00f5es familiares e sociais que sempre resultam ou mais precisam de uma esp\u00e9cie de reconfigura\u00e7\u00e3o ou reconstru\u00e7\u00e3o de mem\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Ensaio da Identidade, 2005-2020: Mayra Martell &#8211; Saudade: estar longe de quem te habita, a fot\u00f3grafa Mayra Martell documenta jovens mulheres que <\/em>desapareceram, tomadas como mortas, na cidade de Ju\u00e1rez, M\u00e9xico. Atrav\u00e9s de fotografias dos espa\u00e7os e pertences pessoais das mulheres desaparecidas e visitas as suas m\u00e3es enlutadas, Mayra d\u00e1 forma ao escondido \u2013 \u00e0 eterna presen\u00e7a\/aus\u00eancia de estar desaparecida, quando mesmo n\u00e3o encontrada mant\u00e9m os elos afetivos do amor familiar. Ela iniciou esse projeto depois de ver posters nas ruas de buscas por pessoas desaparecidas: \u201cQuando eu vi esses cartazes at\u00e9 minha alma ficou muda. Desde aquele momento eu n\u00e3o parei de sentir aquele vazio.\u201d Para <em>MESA<\/em>, Joana Mazza, curadora e pesquisadora, apresenta uma sele\u00e7\u00e3o dos trabalhos da Mayra, situando sua pr\u00e1tica dentro do contexto das vertentes do document\u00e1rio fotogr\u00e1fico de ativismos sociais na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n\n\n\n<p>No seu artigo <em>Trazendo \u00e0 luz: testemunhos visuais de sobreviv\u00eancia,<\/em> Carolina Pizarro Cort\u00e9s explora tr\u00eas projetos\/exerc\u00edcios art\u00edsticos de protesto produzidos no Chile e na Argentina, dando especial \u00eanfase a ressignifica\u00e7\u00e3o de modos de sobreviv\u00eancia de \u201cvidas ocultas\u201d de v\u00edtimas e seus herdeiros em estado cont\u00ednuo de luto e luta. Carolina aborda os projetos de Julio Pantoja, que d\u00e3o origem ao ensaio fotogr\u00e1fico e \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o intitulada <em>Los hijos. Tucum\u00e1n veinte a\u00f1os despu\u00e9s; <\/em>a <em>Arqueolog\u00eda de la aus\u00eancia,<\/em> da artista Lucila Quieto; e por \u00faltimo, a exposi\u00e7\u00e3o <em>Vivos recuerdos<\/em> (Vivid Memories), encomendada pelo Partido Socialista do Chile. Atrav\u00e9s de diferentes usos de imagens, manipula\u00e7\u00e3o digital, fotomontagem, proje\u00e7\u00f5es encenadas, esses projetos partem de uma fotografia, seja \u00edntima ou oficial, retrato ou cena, que inspiram po\u00e9ticas de re-apresenta\u00e7\u00e3o \u2013 re-encontros relacionais imagin\u00e1rios (presen\u00e7a\/ag\u00eancia) de um\/uma detido\/a desaparecido\/a entre v\u00edtimas e seus amados. As interven\u00e7\u00f5es se tornam tamb\u00e9m performativas quando provocam inser\u00e7\u00f5es transtemporais em proje\u00e7\u00f5es e fotomontagens de natureza intermidi\u00e1tica dialogal ou relacional (ou o que ela chama \u201cfotografia de segundo grau\u201d). Aqui ao inv\u00e9s da aus\u00eancia dos desaparecidos, o que \u00e9 enfatizado \u00e9 a presen\u00e7a relacional ainda viva.<\/p>\n\n\n\n<p>A pot\u00eancia de reimaginar e reconfigurar arquivos, acervos e as pr\u00f3prias institui\u00e7\u00f5es a partir de v\u00ednculos afetivos \u00e9 a base do artigo de Caroline Gausden, <em>Recusas, resist\u00eancia e acolhimento alternativo: Artistas, pr\u00e1ticas queer e Glasgow Women\u2019s Library<\/em> [Biblioteca de Mulheres de Glasgow] (GWL). Com ele, \u00e9 poss\u00edvel pensar ao avesso dos <em>modi operandi<\/em> das grandes institui\u00e7\u00f5es. Esta institui\u00e7\u00e3o \u00e9 como uma casa com mesa de cozinha, mas tamb\u00e9m uma escultura social, des-escondendo suas pr\u00e1ticas de hospitalidade para manter um espa\u00e7o de acolhimento e criatividade, ao mesmo tempo investigando e desafiando as mesmas. Muito mais do que uma biblioteca, a GWL realiza eventos com parceiros em diversos locais rurais e urbanos, nacionais e internacionais. O artigo conta a genealogia da organiza\u00e7\u00e3o e iniciativas recentes de hospitalidade e <em>queering<\/em> em suas cole\u00e7\u00f5es por tr\u00eas artistas, Juliane Foronda, Kirsty Russell, e Tako Taal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">***<\/p>\n\n\n\n<p>Oferecemos esta 6\u00aa edi\u00e7\u00e3o como micro constela\u00e7\u00e3o do escondido na busca por modos poss\u00edveis de enfrentamento \u00e0s engrenagens de silenciamentos. Por isso, investimos no mapeamento de iniciativas art\u00edsticas, coletivas e sociais em prol de um reencantamento do mundo, por uma plataforma-escola na contram\u00e3o das injusti\u00e7as e desigualdades sociais. Entendemos que temos muitas outras vidas e mundos escondidos, outras hist\u00f3rias para contar, mem\u00f3rias a serem desengavetadas, vidas e lutos a serem restaurados e reparados, lutas a serem regeneradas, arquivos e pol\u00edticas a serem reconstitu\u00eddos. Esperamos&nbsp;atrav\u00e9s dessa cartografia singular do escondido poder inspirar outras conclama\u00e7\u00f5es,&nbsp;contra narrativas, iniciativas de &#8220;<em>do in<\/em>&#8221; socioculturais e devolu\u00e7\u00f5es \u201cpolivocais\u201d do mundo ao mundo. \u00c9 importante enfatizar que seria imposs\u00edvel realizar essa edi\u00e7\u00e3o sem a enorme generosidade e infinitas colabora\u00e7\u00f5es de todos os contribuidores que aqui agradecemos de todo nosso cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Editorial: Vidas escondidas Jessica Gogan e Luiz Guilherme Vergara Por todas as vidas escondidas e perdidasEm mem\u00f3ria das 300 mil mortes por Covid-19 no Brasil (at\u00e9 27 de mar\u00e7o 2021)Com [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/2835"}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2835"}],"version-history":[{"count":12,"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/2835\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3775,"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/2835\/revisions\/3775"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2835"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}