{"id":26,"date":"2021-03-04T17:49:14","date_gmt":"2021-03-04T20:49:14","guid":{"rendered":"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/?page_id=26"},"modified":"2021-04-12T14:24:42","modified_gmt":"2021-04-12T17:24:42","slug":"jose-santos-herceg","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/jose-santos-herceg\/","title":{"rendered":"Vidas\/Mortes Escondidas: Rumo a uma ontologia do desaparecimento for\u00e7ado no Chile ditatorial"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"1818\" height=\"1228\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Imagem-capa_Patio-29-Javi.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-41\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Imagem-capa_Patio-29-Javi.jpg 1818w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Imagem-capa_Patio-29-Javi-300x203.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Imagem-capa_Patio-29-Javi-1024x692.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Imagem-capa_Patio-29-Javi-768x519.jpg 768w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Imagem-capa_Patio-29-Javi-1536x1038.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1818px) 100vw, 1818px\" \/><figcaption><em>P\u00e1tio 29, Cemit\u00e9rio Geral<\/em>, Chile, 2019. Foto: Javiera Santos Pizarro.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h2>Vidas\/Mortes Escondidas: Rumo a uma ontologia do desaparecimento for\u00e7ado no Chile ditatorial<sup>1<\/sup><\/h2>\n\n\n\n<h4>Jos\u00e9 Santos Herceg<\/h4>\n\n\n\n<p>O escondido nos confronta com um modo de ser muito particular. Coloca-nos diante de um cen\u00e1rio ontol\u00f3gico diferente do usual. O escondido n\u00e3o est\u00e1, mas supostamente continua sendo e, ent\u00e3o, se espera que volte a estar presente. N\u00e3o \u00e9 percebido \u2013 n\u00e3o pode ser visto, n\u00e3o se pode sentir seu cheiro, n\u00e3o pode ser tocado \u2013 foi coberto, est\u00e1 oculto. Est\u00e1 desaparecido sensorialmente. Seu desaparecimento ontol\u00f3gico n\u00e3o foi confirmado; na verdade, presume-se que continue existindo, que continue sendo e, portanto, a busca continua. Uma busca que pode se estender no tempo, at\u00e9 mesmo para sempre, se o que n\u00e3o est\u00e1 tiver deixado de ser sem que se saiba, sem que se tenha not\u00edcia. O escondido tamb\u00e9m pode n\u00e3o ser; nesse caso, por\u00e9m, n\u00e3o se saber\u00e1, n\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel saber, uma vez que ele n\u00e3o est\u00e1. N\u00e3o est\u00e1 \u00e0 vista e, portanto, pode ser que ele ainda exista ou n\u00e3o: o escondido se situa entre o ser presumido e o n\u00e3o ser poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>O desaparecimento for\u00e7ado de pessoas compartilha com o ato de esconder essa condi\u00e7\u00e3o ontol\u00f3gica an\u00f4mala. Esconder \u00e9, de fato, um elemento essencial desse crime, definido como a \u201coculta\u00e7\u00e3o do paradeiro da pessoa desaparecida\u201d, de acordo com o artigo 2\u00ba da Conven\u00e7\u00e3o Internacional para a Prote\u00e7\u00e3o de Todas as Pessoas contra o Desaparecimento For\u00e7ado.<sup>2<\/sup> A seguir, mencionaremos diferentes momentos do desaparecimento for\u00e7ado. Tomaremos o caso chileno como paradigma. Alguns desses momentos se distinguem temporalmente \u2013 antes ou depois; j\u00e1 outros, n\u00e3o: s\u00e3o simult\u00e2neos, mas sempre individualiz\u00e1veis ontologicamente. S\u00e3o momentos de uma varia\u00e7\u00e3o ontol\u00f3gica. S\u00e3o diferentes \u201ccenas\u201d do ser do desaparecimento.<\/p>\n\n\n\n<h3>O ser que deixa de estar: esconder a vida<\/h3>\n\n\n\n<p>As pessoas s\u00e3o detidas por agentes dos \u00f3rg\u00e3os de seguran\u00e7a. S\u00e3o tiradas de suas casas, da rua, do trabalho com blefes e, sobretudo, com viol\u00eancia. Ibar Aibar relata em seu depoimento: \u201cAssim que abri uma fresta da porta, um grupo ensandecido de policiais \u2013 com a cabe\u00e7a coberta com capacetes de combate, coletes \u00e0 prova de balas e armamento sofisticado \u2013 avan\u00e7ou com f\u00faria em minha dire\u00e7\u00e3o. Eles me agarraram pelo pesco\u00e7o, me arrastaram para fora de casa e me jogaram com for\u00e7a no ch\u00e3o&#8221;.<sup>3<\/sup> Os golpes s\u00e3o uma constante nos relatos de deten\u00e7\u00e3o, como confirma quem os vivenciou: \u201c[f]ui agredido impiedosamente com coronhadas de suas metralhadoras, sem nenhum respeito sem nenhuma considera\u00e7\u00e3o, enquanto meu rosto e meu corpo sangravam abundantemente\u201d.<sup>4<\/sup> Os ve\u00edculos ficavam do lado de fora, preparados. Cassasus conta que, na sua deten\u00e7\u00e3o, a carreta \u201c[s]e deslocava como a parca quando sai em busca daqueles que v\u00e3o morrer. Em sil\u00eancio e no escuro\u201d.<sup>5<\/sup> Tudo \u00e9 r\u00e1pido e eficiente. Tudo \u00e9 cruel. Tato Ayress escreve: \u201c[eles] empurraram nossos corpos resistentes at\u00e9 um furg\u00e3o e nos empurraram para dentro dele&#8230;\u201d.<sup>6<\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>Uma vez dentro do ve\u00edculo, vendam-lhes os olhos. Esse \u00e9 o portal para o mundo das sombras. Ao entrar no autom\u00f3vel, dizem a Manuel Ahumada: \u201c\u2018\u2013 Canalha, feche os olhos e n\u00e3o vire a cabe\u00e7a\u2019. N\u00e3o consegui fech\u00e1-los completamente, pois fui cegado por um peda\u00e7o de fita isolante que envolveu duas ou tr\u00eas vezes a minha cabe\u00e7a. Com um golpe, fui para o mundo das trevas, de onde eu s\u00f3 sairia de vez em quando nos dias seguintes\u201d.<sup>7<\/sup> Violentados, espancados e golpeados, eles s\u00e3o arrancados de suas casas e separados de suas fam\u00edlias, de suas vidas. Nunca sabem para onde v\u00e3o. Ningu\u00e9m avisa. Seu destino \u00e9 desconhecido: a ditadura os escondeu. Eles n\u00e3o est\u00e3o, mas devem continuar a existir: est\u00e3o <em>desaparecidos<\/em>. Pode-se falar aqui de ser no modo de n\u00e3o estar. Os detidos continuam sendo, provavelmente ainda est\u00e3o vivos, mas n\u00e3o est\u00e3o mais \u00e0 vista. Seu desaparecimento \u00e9, por enquanto, apenas sensorial: eles deixam o dom\u00ednio da percep\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se pode mais v\u00ea-los porque n\u00e3o se sabe onde est\u00e3o, pois est\u00e3o escondidos.<\/p>\n\n\n\n<h3>O ser procurado: movimento infinito<\/h3>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Dois dias ap\u00f3s o golpe, com o toque de recolher suspenso por algumas horas, as mulheres supostamente de luto saem em busca de seus respectivos companheiros. Deixam seus filhos pequenos com as vizinhas. Andam pelos quarteir\u00f5es que as separam do primeiro quartel ou regimento. Perguntam, mas n\u00e3o obt\u00eam resposta. S\u00e3o expulsas sem qualquer explica\u00e7\u00e3o. Ficam assustadas, como animais indefesos. V\u00e3o para um lado&#8230; dep\u00f3sito de cad\u00e1veres, hospital&#8230; para outro&#8230; Assist\u00eancia P\u00fablica, necrot\u00e9rio. Tra\u00e7am rotas, que seguem com precis\u00e3o. Outro regimento, mais um quartel. Prefeituras, Comand\u00e2ncias. Ten\u00eancias<sup>8<\/sup>.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Assim que ocorre o desaparecimento, os c\u00f4njuges, filhos, filhas, irm\u00e3os e irm\u00e3s come\u00e7am a busca. Alejandro Witker conta que \u201c[a]s mulheres iam de um departamento militar ao outro, coletando not\u00edcias sobre transfer\u00eancia de prisioneiros, muitos dos quais eram desaparecidos permanentes ou tempor\u00e1rios; perguntando por n\u00f3s, chegavam a ir ao necrot\u00e9rio\u201d.<sup>9<\/sup> Juan del Valle descreve a jornada de sua esposa procurando por ele em quart\u00e9is, regimentos, hospitais, necrot\u00e9rios e at\u00e9 em cemit\u00e9rios.<sup>10<\/sup> Conta que ela recebia sempre a mesma resposta: \u201cN\u00e3o, senhora; n\u00e3o tem ningu\u00e9m com esse nome aqui\u201d.<sup>11<\/sup> Centenas, milhares procuravam seus desaparecidos e n\u00e3o obtinham resposta. Muitos encontravam apenas maus-tratos, mas n\u00e3o desistiam. Rolando Carrasco relata: \u201cAlgumas s\u00e3o espancadas e outras s\u00e3o detidas. E h\u00e1 tamb\u00e9m as que recebem um tiro como resposta. Mas surgem mais\u201d.<sup>12<\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>Quando finalmente conseguiam encontrar seus desaparecidos, se instalavam do lado de fora, como uma crosta, um cord\u00e3o que envolvia os complexos militares perguntando, exigindo. Os familiares sitiavam os locais, at\u00e9 mesmo os mais remotos, formando verdadeiras \u201ccolmeias\u201d, como diz Carrasco.<sup>13<\/sup> Entretanto, esse contingente externo era mut\u00e1vel. Os detidos nunca ficavam muito tempo no mesmo lugar. Assim que eram encontrados, eles eram transferidos de novo: voltavam a escond\u00ea-los, iam mudando o esconderijo. Da mesma forma, os parentes iam se deslocando, continuando a busca. O modo de ser de quem foi escondido pela ditadura \u00e9 o de <em>ser procurado<\/em>. Ser procurado infinita e incansavelmente \u00e9 o que caracteriza a condi\u00e7\u00e3o ontol\u00f3gica do desaparecido. Foram, desde o in\u00edcio, e s\u00e3o, at\u00e9 hoje, <em>os procurados<\/em>. Voc\u00ea procura o que espera encontrar, o que sonha em encontrar. A procura pressup\u00f5e a exist\u00eancia do procurado. N\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o para procurar o que j\u00e1 se sabe que n\u00e3o existe. Enquanto est\u00e3o apenas escondidos, a procura persiste&#8230; a esperan\u00e7a persiste.<\/p>\n\n\n\n<h3>O ser n\u00e3o sendo: ser um desaparecido<\/h3>\n\n\n\n<p>Passemos do \u201cestar desaparecido\u201d para \u201cser um desaparecido\u201d. Uma condi\u00e7\u00e3o, um estado de coisas, transforma-se em uma defini\u00e7\u00e3o; torna-se o modo de ser: <em>detido desaparecido<\/em>. Estella Schindel v\u00ea claramente essa mudan\u00e7a ao analisar a imprensa argentina. Os primeiros detidos est\u00e3o desaparecidos e, com o tempo, eles se tornam desaparecidos. Essa transforma\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m atinge os familiares. H\u00e1 um salto de ser parente de algu\u00e9m que <em>est\u00e1<\/em> desaparecido para ser parente de algu\u00e9m <em>\u00e9 <\/em>um desaparecido. Gatti ressalta acertadamente que o verbo \u201cdesaparecer n\u00e3o \u00e9 conjugado junto com o verbo estar; \u00e9 algo que se relaciona ao verbo ser\u201d.<sup>14<\/sup> Os desaparecidos n\u00e3o est\u00e3o s\u00f3 desaparecidos, mas chegam a ser desaparecidos, o que constitui um \u201cmodo de ser\u201d particular ou, como diz Gatti, um \u201cnovo estado de ser\u201d que se situa entre a vida e a morte, a respeito de quem n\u00e3o se sabe se est\u00e1 vivo ou morto.<\/p>\n\n\n\n<p>Ser no modo de \u201caus\u00eancia\u201d \u00e9 caracter\u00edstico desse modo de ser do desaparecido. A presen\u00e7a da aus\u00eancia. Segundo G\u00f3mez Mango, o desaparecido est\u00e1 \u201csempre presente na pr\u00f3pria aus\u00eancia\u201d.<sup>15<\/sup> A falta, a car\u00eancia, o vazio \u00e9 o modo de ser do desaparecido. \u00c9 um oco, espa\u00e7o em branco, lugar abandonado. \u201cA verdade \u00e9 que o que sobra depois do desaparecimento se assemelha a um vazio (o esvaziamento), uma aus\u00eancia\u201d.<sup>16<\/sup> Mas a aus\u00eancia n\u00e3o \u00e9 nada; ou melhor, \u00e9 nada. Como diz Maillard: \u201cClaramente, \u00e9 muito diferente dizer \u2018aqui n\u00e3o h\u00e1 nada\u2019 do que dizer \u2018aqui h\u00e1 o nada\u2019\u201d.<sup>17 <\/sup>A aus\u00eancia que \u00e9 o desaparecido tem consist\u00eancia pr\u00f3pria, existe, pois \u201c[o] que existe tem muitas faces (o vis\u00edvel, o normal, o presente) e contrafaces (o invis\u00edvel, o anormal, o ausente)\u201d.<sup>18<\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>A sua aus\u00eancia \u2013 aus\u00eancia em geral \u2013 nos apavora, n\u00e3o sabemos lidar com ela: <em>timor vacui<\/em>. \u201cNo Ocidente, pelo menos, a aus\u00eancia \u00e9 execrada e, quando nos deparamos com ela, reagimos com pavor, n\u00e3o a aceitamos e procuramos preench\u00ea-la com significado\u201d.<sup>19<\/sup> O desaparecido desperta dor e horror. Ser no modo da chamada \u201caus\u00eancia ruim\u201d. A aus\u00eancia do desaparecido n\u00e3o \u00e9 qualquer aus\u00eancia, \u00e9 uma aus\u00eancia ruim. \u201c\u00c9 uma aus\u00eancia que d\u00f3i, mas \u00e9 mais do que isso porque \u00e9 uma aus\u00eancia ruim \u2013 inesperada, catastr\u00f3fica, repentina, violenta \u2013 que se administra com dificuldade e que deixa quem a sofre em estados individuais e coletivos para os quais h\u00e1 poucos manuais, pois afeta tudo: coisas, provas, palavras, linguagem, imagens\u201d.<sup>20<\/sup><\/p>\n\n\n\n<h3>O n\u00e3o-ser que n\u00e3o est\u00e1: esconder a morte<\/h3>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Um ex-agente que conta sua vers\u00e3o dos fatos afirma que trabalhou na Brigada Tuc\u00e1n sob o comando do coronel do ex\u00e9rcito Germ\u00e1n Barriga Mu\u00f1oz e que em 1976 teve que amarrar Marta Ugarte Rom\u00e1n com arames a um trilho de trem e depois coloc\u00e1-la em um helic\u00f3ptero Puma do Ex\u00e9rcito. A aeronave \u2013 com piloto, copiloto e um agente \u2013 rumou ao litoral para lan\u00e7ar sua \u201cbagagem\u201d ao mar.<sup>21<\/sup><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Os detidos s\u00e3o assassinados, mortos, e os seus corpos s\u00e3o retirados \u00e0 noite, furtivamente, sem que ningu\u00e9m veja. Em alguns casos, s\u00e3o destru\u00eddos. O que se esconde n\u00e3o \u00e9 apenas o corpo enquanto vest\u00edgio ou rastro, mas a pr\u00f3pria morte. Esconde-se sua morte, esconde-se seu n\u00e3o-ser. A aus\u00eancia pode ser apenas um esconderijo: fora da percep\u00e7\u00e3o, al\u00e9m da vista. Em princ\u00edpio, presume-se a exist\u00eancia do escondido. \u00c9 poss\u00edvel, por\u00e9m, que algo deixe de ser enquanto est\u00e1 escondido e seu desaparecimento se torne ontol\u00f3gico, que deixe de ser sem que se saiba. Seu desaparecimento definitivo n\u00e3o \u00e9 revelado. O que deixou de ser est\u00e1 escondido: esconde-se o n\u00e3o -ser.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"692\" height=\"1024\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-2_Patio-29-Javi-2-692x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-44\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-2_Patio-29-Javi-2-692x1024.jpg 692w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-2_Patio-29-Javi-2-203x300.jpg 203w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-2_Patio-29-Javi-2-768x1137.jpg 768w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-2_Patio-29-Javi-2-1038x1536.jpg 1038w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-2_Patio-29-Javi-2.jpg 1228w\" sizes=\"(max-width: 692px) 100vw, 692px\" \/><figcaption><em>P\u00e1tio 29, Cemit\u00e9rio Geral, Chile<\/em>, 2019. Foto: Javiera Santos Pizarro.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Acerca do desaparecimento for\u00e7ado, Paz Rojas destaca que foram muitos os que participaram da sua execu\u00e7\u00e3o, mas os que desempenharam um papel central foram \u201c&#8230;aqueles que decidiram como e onde ocultar ou destruir os corpos\u201d.<sup>22<\/sup> As primeiras oculta\u00e7\u00f5es foram enterros clandestinos como aqueles realizados no P\u00e1tio 29 do Cemit\u00e9rio Geral. O Cemit\u00e9rio Geral era um esconderijo, l\u00e1 corpos foram ocultados, l\u00e1 a morte foi ocultada. Entretanto, esse n\u00e3o foi o \u00fanico esconderijo usado pela ditadura. Fornos de L\u00f3nqu\u00e9n, Cuesta Barriga, Desertos do Atacama, morros, destacamentos militares, Pisagua etc. Tamb\u00e9m h\u00e1 corpos escondidos debaixo d&#8217;\u00e1gua: alguns jogados nos rios, outros no mar. A imper\u00edcia e inabilidade dominaram os primeiros dias do Golpe, mas \u201ca t\u00e9cnica foi sendo aperfei\u00e7oada aos mais altos n\u00edveis de oculta\u00e7\u00e3o, perversidade e crueldade\u201d.<sup>23<\/sup> Um plano chegou a ser concebido para esconder o que j\u00e1 estava escondido, para fazer desaparecer os desaparecidos. O chamado \u201cRetiro de televisores\u201d consistiu em desenterrar os corpos escondidos no solo e lan\u00e7\u00e1-los ao mar. Segundo Paz Rojas: \u201cOs corpos lan\u00e7ados ao mar desapareceram pela segunda vez de forma definitiva\u201d.<sup>24<\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>Fazer desaparecer completamente \u00e9 remover do ser. \u201cFazer desaparecer, no sentido literal, consiste em apagar uma exist\u00eancia, n\u00e3o s\u00f3 fazer desaparecer o seu corpo, mas tamb\u00e9m eliminar toda a sua exist\u00eancia. Em outras palavras, \u00e9 como \u2018se eles nunca tivessem nascido\u2019\u201d.<sup>25<\/sup> Paz Rojas fala sobre como a exist\u00eancia \u00e9 interrompida matando at\u00e9 a pr\u00f3pria morte.<sup>26<\/sup> Depois, as mortes s\u00e3o escondidas novamente por tr\u00e1s dos pactos (pacto de sil\u00eancio, pactos transicionais), das nega\u00e7\u00f5es, das informa\u00e7\u00f5es falsas, da justi\u00e7a t\u00edmida (na medida do poss\u00edvel) e, claro, das Comiss\u00f5es da Verdade, da exig\u00eancia de reconcilia\u00e7\u00e3o e dos intermin\u00e1veis e tortuosos processos judiciais. O resultado s\u00e3o cinquenta anos de sil\u00eancio. Os desaparecidos n\u00e3o aparecem, a morte permanece escondida. Esconder \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o permanente: o que est\u00e1 escondido permanece escondido. O desaparecimento \u00e9 um \u201ccrime de delito continuado\u201d, segundo Paz Rojas.<sup>27<\/sup><\/p>\n\n\n\n<h3>Ser e n\u00e3o-ser: paradoxo ontol\u00f3gico<\/h3>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Enquanto o desaparecido permanece como tal, ele \u00e9 uma inc\u00f3gnita. Se o homem aparecesse, receberia um tratamento X; se o aparecimento fosse a certeza de sua morte, teria um tratamento Z. Por\u00e9m, enquanto continua desaparecido, ele n\u00e3o pode receber nenhum tratamento especial, \u00e9 uma inc\u00f3gnita, \u00e9 um desaparecido, n\u00e3o tem entidade, n\u00e3o est\u00e1\u2026 nem vivo nem morto, est\u00e1 desaparecido.<sup>28<\/sup><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Essa declara\u00e7\u00e3o famosa do ex-ditador argentino tem um car\u00e1ter ontol\u00f3gico claro. O desaparecido \u00e9 uma \u201cinc\u00f3gnita\u201d, diz Videla, \u201cn\u00e3o tem entidade\u201d. Nem vivo nem morto. Paz Roja ressalta acertadamente: \u201cEles modificaram o que \u00e9 imposs\u00edvel e impens\u00e1vel ao ser humano, a n\u00e3o morte\u201d.<sup>29 <\/sup>Mar\u00eda Jos\u00e9 L\u00f3pez explica muito bem essa \u201cn\u00e3o morte\u201d quando alude ao fato de que \u201c\u2026o \u2018desaparecido\u2019 \u00e9 um preso que foi morto, mas em rela\u00e7\u00e3o ao qual se criaram condi\u00e7\u00f5es de irrealidade dessa morte, tornando-a amb\u00edgua. Trata-se de algu\u00e9m cuja morte \u00e9 sempre presumida, pressuposta, pois sabemos apenas que o perdemos de vista\u201d.<sup>30<\/sup> L\u00f3pez fala em \u201cobstru\u00e7\u00e3o da morte\u201d.<sup>31<\/sup> A morte est\u00e1 presa, estagnada; n\u00e3o pode aparecer e se manifestar.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma ambiguidade ontol\u00f3gica: ser e n\u00e3o ser. Entre a vida e a morte. Sem ser de todo (totalmente), o n\u00e3o-ser completo tamb\u00e9m se esvai. N\u00e3o se sabe se eles est\u00e3o vivos ou mortos. A morte, ent\u00e3o, n\u00e3o chega a se tornar realidade, \u00e9 apenas uma conjectura: n\u00e3o h\u00e1 provas, n\u00e3o h\u00e1 antecedentes, n\u00e3o h\u00e1 corpo. Os parentes \u201cnunca aceitar\u00e3o a morte; e se aceitarem, ser\u00e1 uma morte oculta, desconhecida, sem nada, sem cad\u00e1ver, sem restos, sem espa\u00e7os, sem data, sem tempo\u201d.<sup>32<\/sup> Esconder a morte \u00e9 permanecer na vida; ou melhor, permanecer na n\u00e3o-morte.<\/p>\n\n\n\n<p>Paz Rojas se refere ao caso de Estela, cujo pai desapareceu. \u201cAcontece uma coisa estranha comigo: para mim ele est\u00e1 morto, mas, logo depois, n\u00e3o est\u00e1 mais; no meu pensamento, na minha consci\u00eancia e tamb\u00e9m nos meus desejos, ele est\u00e1 vivo\u201d.<sup>33<\/sup> Ela mesma explica: \u201cMinha ambival\u00eancia era t\u00e3o angustiante, t\u00e3o angustiante, como sentir que estava morto, mas ao mesmo tempo n\u00e3o aceitar que tivesse morrido\u201d.<sup>34<\/sup> \u201cPorque, no fundo, voc\u00ea n\u00e3o tem nada, nem vida nem morte, apenas o nada, um vazio\u201d.<sup>35<\/sup> A pesquisadora ressalta que ao longo do seu trabalho com os familiares h\u00e1 incertezas e principalmente ambival\u00eancias: \u201ca morte \u00e9 aceita \u00e0s vezes, mas imediatamente questionada ou negada\u201d.<sup>36 <\/sup>Sentimentos simult\u00e2neos, mas contradit\u00f3rios: \u201co desejo de que estejam vivos com a sensa\u00e7\u00e3o quase inexor\u00e1vel de que possivelmente est\u00e3o mortos\u201d.<sup>37<\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>A condi\u00e7\u00e3o ontol\u00f3gica dos desaparecidos \u00e9 o paradoxo: uma aus\u00eancia paradoxal. Os desaparecidos s\u00e3o e n\u00e3o s\u00e3o ao mesmo tempo e em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 mesma condi\u00e7\u00e3o: est\u00e3o e n\u00e3o est\u00e3o vivos, est\u00e3o e n\u00e3o est\u00e3o mortos.<\/p>\n\n\n\n<h3>O n\u00e3o-ser procurado: habitar o luto<\/h3>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Mirna Schindler: Hoje o corpo de Bautista van Schouwen foi encontrado no p\u00e1tio 29. O que voc\u00ea tem a dizer?<br>Augusto Pinochet: Encontraram? Dou os parab\u00e9ns aos ca\u00e7adores de cad\u00e1veres.<br>Mirna Schindler: O que acha de terem encontrado dois cad\u00e1veres em uma \u00fanica sepultura?<br>Augusto Pinochet: Que economia fenomenal!<sup>38<\/sup><\/p><cite>Augusto Pinochet<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>\u201cCa\u00e7adores de cad\u00e1veres\u201d \u00e9 a express\u00e3o usada pelo ditador Pinochet. Express\u00e3o ir\u00f4nica, agressiva, desdenhosa e profundamente desprez\u00edvel, mas verdadeira. Essa \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o das mulheres que percorrem o deserto do Atacama em busca de restos de ossos de seus entes queridos, mas tamb\u00e9m todos aqueles e aquelas que at\u00e9 hoje perguntam pelo paradeiro de seus parentes. \u201cMais de quarenta anos depois dos primeiros casos de desaparecimento no Chile, a pergunta que seus parentes fizeram repetidas vezes, a pergunta fundamental, \u2018Onde est\u00e3o?\u2019, ainda \u00e9 pertinente e continua sem resposta\u201d.<sup>39<\/sup><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"692\" height=\"1024\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-3_Patio-29-Javi-3-692x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-47\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-3_Patio-29-Javi-3-692x1024.jpg 692w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-3_Patio-29-Javi-3-203x300.jpg 203w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-3_Patio-29-Javi-3-768x1137.jpg 768w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-3_Patio-29-Javi-3-1038x1536.jpg 1038w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/Fig-3_Patio-29-Javi-3.jpg 1228w\" sizes=\"(max-width: 692px) 100vw, 692px\" \/><figcaption><em>P\u00e1tio 29, Cemit\u00e9rio Geral, <\/em>Chile, 2019. Foto: Javiera Santos Pizarro<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>O que se busca n\u00e3o \u00e9 mais a vida, mas sobretudo uma prova, um vest\u00edgio que indique a morte real: uma sa\u00edda do paradoxo. Diz-se que s\u00f3 assim \u00e9 poss\u00edvel concluir, aceitar enfim o que \u00e9 apenas pressuposto, intu\u00eddo, deduzido, mas em rela\u00e7\u00e3o ao que n\u00e3o h\u00e1 certeza. Para os familiares, \u201ca morte, se tiver ocorrido, foi ocultada, dolorosa, humilhante e acima de tudo desconhecida e, portanto, n\u00e3o pode ser aceita como o fim da vida\u201d.<sup>40<\/sup> Se n\u00e3o h\u00e1 certeza da morte, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel encerrar o processo de luto. Esse processo, como uma elabora\u00e7\u00e3o da perda, come\u00e7a, segundo Rojas, ap\u00f3s a morte de um ser amado. N\u00e3o h\u00e1 certeza da morte no caso de desaparecidos. O luto, portanto, seria imposs\u00edvel. H\u00e1, contudo, uma morte incerta, presumida e prov\u00e1vel. Iniciar o luto parece poss\u00edvel. Termin\u00e1-lo, no entanto, n\u00e3o seria poss\u00edvel, pois \u201c\u2026para os familiares dos detidos desaparecidos, sempre haver\u00e1 uma pol\u00eamica entre a vida e a morte, j\u00e1 que nem a continua\u00e7\u00e3o da vida nem a morte puderam ser confirmadas. Portanto, o processo de luto fica parado, suspenso no tempo\u201d.<sup>41<\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>Os familiares habitam o luto. De acordo com Gatti e sua equipe: \u201co luto, aquele vazio, \u00e9 habit\u00e1vel, \u00e9 permanentemente habit\u00e1vel\u201d.<sup>42<\/sup> Vive-se em um processo de luto que nunca termina, um processo permanente e intermin\u00e1vel de dor e incerteza. Um processo que n\u00e3o termina porque os ritos n\u00e3o s\u00e3o poss\u00edveis. \u201cDiante do desaparecimento e do desconhecido, os ritos da morte ficam ausentes e, portanto, n\u00e3o h\u00e1 luto ou elabora\u00e7\u00e3o dele, tanto na fam\u00edlia quanto na sociedade\u201d.<sup>43<\/sup><\/p>\n\n\n\n<h3>O que resta do n\u00e3o estar: os objetos<\/h3>\n\n\n\n<p>O desaparecido sempre deixa <em>algo <\/em>para tr\u00e1s quando sai da esfera da percep\u00e7\u00e3o. Rastros da sua presen\u00e7a, res\u00edduos e vest\u00edgios. N\u00e3o se pode mais v\u00ea-lo, mas seus pertences continuam presentes: suas roupas, seus l\u00e1pis, suas fotos, seu quarto&#8230; O ambiente, o espa\u00e7o, o lugar permanecem, embora o que preenchia tudo isso tenha desaparecido. Tudo o que fica est\u00e1 impregnado daquele que j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 mais: s\u00e3o <em>seus <\/em>pertences, \u00e9 o <em>seu <\/em>lugar. S\u00e3o vest\u00edgios, materialidades impregnadas de uma vida agora ausente. Uma vida que pode ser reconstitu\u00edda a partir deles. \u201cAs filhas muitas vezes assumem a tarefa de reconstituir a hist\u00f3ria do pai desaparecido com os poucos restos materiais que ele deixou, como roupas, livros, documentos e fotografias\u201d.<sup>44<\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>O que est\u00e1 escondido n\u00e3o se v\u00ea, mas continua existindo, aparece nas materialidades que est\u00e3o coloridas com a sua presen\u00e7a. V\u00ea-las, sentir seu cheiro, entrar\/passar por perto traz o desaparecido para o presente. Rosario diz: \u201cPara mim isso \u00e9 algo&#8230; Uma lembran\u00e7a inesquec\u00edvel, uma lembran\u00e7a t\u00e3o triste, e ainda moramos no mesmo bairro, no mesmo lugar, eu ando todos os dias pelos caminhos que eles percorreram, moro nos mesmos vinhedos; olho, e parece que os vejo&#8230;\u201d<sup>45<\/sup> No mesmo sentido, Doris conta: \u201cNos Natais que passei sozinha, fiz a mesa, estendi a toalha. A\u00ed, eu n\u00e3o choro. Sinto que estou com meus filhos\u201d.<sup>46<\/sup> As fotografias ocupam um lugar especial no conjunto dessas materialidades. Reproduzem o rosto de quem n\u00e3o est\u00e1 mais aqui. \u201cPor reunir um conjunto de tra\u00e7os distintivos da pessoa, o rosto singulariza essa pessoa e, ao ser impresso numa fotografia, permite v\u00ea-la repetidamente, na forma de uma imagem que atualiza a sua presen\u00e7a\u201d.<sup>47<\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>As materialidades que ficam tornam presente a realidade da aus\u00eancia: deixam claro que a pessoa amada <em>n\u00e3o est\u00e1 mais ali<\/em>, que est\u00e1 ausente. Elas <em>denunciam <\/em>o n\u00e3o-ser. \u201cA vida exalou sua presen\u00e7a em materialidades que, agora, t\u00eam que dar conta da aus\u00eancia\u201d.<sup>48<\/sup> O vazio deixado pelo desaparecido \u00e9 emoldurado pelo que resta. Como uma esp\u00e9cie de defini\u00e7\u00e3o negativa que tra\u00e7a seus contornos, trazendo \u00e0 presen\u00e7a sua aus\u00eancia total. As materialidades tamb\u00e9m tornam patente a possibilidade de reaparecimento, a reconstitui\u00e7\u00e3o do v\u00ednculo. Mant\u00eam a esperan\u00e7a do retorno, do reencontro. \u201cSe a aus\u00eancia \u00e9 uma caracter\u00edstica definidora do desaparecimento, as materialidades \u00fanicas que deixam para tr\u00e1s s\u00e3o tanto testemunho desse apagamento violento como testemunho e forma poss\u00edvel \u2013 sempre irrealiz\u00e1vel completamente \u2013 de retorno ou conex\u00e3o com a pessoa desaparecida\u201d.<sup>49<\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>As materialidades evocam e convocam o desaparecido, o que explica a recusa em alter\u00e1-las, a elimin\u00e1-las. Os familiares guardam os pertences, n\u00e3o mudam os espa\u00e7os: tudo fica como estava no dia do desaparecimento. Por\u00e9m, tudo vai ganhando outros valores, novos significados com o passar do tempo. Doris diz:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u00c0s vezes me sinto sozinha em uma casa enorme. A\u00ed me fa\u00e7o acompanhar das coisas que eram deles, o poncho, o casaco \u2013 que era da batalha \u2013, as botas. Tem um porta-retrato, o chap\u00e9u do meu filho que trabalhava com os camponeses \u2013 que \u00e9 um chap\u00e9u de campo \u2013, um arado, um jugo, estribos, desenhos. Tudo isso eu levo comigo, se est\u00e3o na mesa os talheres de um, est\u00e3o os pratos do outro. Para mim, a casa nesses momentos \u00e9 um santu\u00e1rio.<sup>50<\/sup><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<h3>O n\u00e3o-ser que \u00e9 representado: o paradoxo do aparecer<\/h3>\n\n\n\n<p><em>Altares de la Ausencia<\/em>, de Gast\u00f3n Salas, \u00e9 \u201c&#8230;um projeto fotogr\u00e1fico baseado em certos objetos pessoais que parentes de detidos desaparecidos guardam para si e que procura fazer uma representa\u00e7\u00e3o visual dos acontecimentos mais terr\u00edveis de nossa hist\u00f3ria recente\u201d.<sup>51<\/sup> N\u00e3o se trata mais dos objetos, mas da sua representa\u00e7\u00e3o. A aus\u00eancia continua presente, em sua representa\u00e7\u00e3o: em suas representa\u00e7\u00f5es. Estar sem estar: estar no modo de n\u00e3o-ser. S\u00e3o muitos os gestos, as propostas est\u00e9ticas, as a\u00e7\u00f5es que foram e continuam sendo realizadas .<\/p>\n\n\n\n<p><em>La cueca sola<\/em>: m\u00e3es, esposas, irm\u00e3s e filhas dan\u00e7am, desde 1978, uma dan\u00e7a de casal t\u00edpica do folclore chileno, mas na aus\u00eancia do companheiro.<sup>52<\/sup> <em>El siluetazo<\/em>: em 1983, em Buenos Aires, silhuetas humanas foram pintadas por toda a cidade, uma para cada desaparecido.<sup>53<\/sup> <em>Vivos Recuerdos<\/em>: uma exposi\u00e7\u00e3o que mostra como seriam atualmente dez desaparecidos da ditadura chilena.<sup>54<\/sup> <em>Desaparecidos<\/em>, de Gustavo Germano: recria situa\u00e7\u00f5es e cenas que eram cotidianas antes do desaparecimento, volta-se para a fotografia, agora sem o desaparecido.<sup>55<\/sup> <em>Arqueolog\u00eda de la ausencia<\/em>, de Lucila Quieto:<sup>56<\/sup> recria um \u00e1lbum de fotografia imposs\u00edvel em que ela aparece com o pai desaparecido.<\/p>\n\n\n\n<p>Representa\u00e7\u00e3o da aus\u00eancia: o paradoxo de Lefebvre. \u201cAus\u00eancia? Como represent\u00e1-la j\u00e1 que a pr\u00f3pria representa\u00e7\u00e3o preenche os vazios da aus\u00eancia?\u201d<sup>57<\/sup> A representa\u00e7\u00e3o tende a anular a aus\u00eancia, pois ocupa seu n\u00e3o-ser com um ser representado. Deixa de haver vazio, deixa de haver o nada, passa a haver uma representa\u00e7\u00e3o que ocupa o espa\u00e7o, que preenche a lacuna. Ao ser representado, o desaparecido desaparece duas vezes: ele e sua aus\u00eancia desaparecem. Ele passa a estar presente como representa\u00e7\u00e3o. A exist\u00eancia permanente dos desaparecidos. O n\u00e3o-ser est\u00e1, ele \u00e9 em sua representa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h3>O n\u00e3o-ser que est\u00e1 sem estar: apari\u00e7\u00e3o espectral<\/h3>\n\n\n\n<p>Mar\u00eda Jos\u00e9 L\u00f3pez destaca que \u201c[o] desaparecido, pelo menos pela experi\u00eancia chilena, nunca desaparece completamente, permanece de forma simb\u00f3lica como uma figura pol\u00edtica que \u2018reaparece\u2019 constantemente na sociedade, como uma &nbsp;tarefa &nbsp;pendente, como o resultado de um crime ainda n\u00e3o resolvido\u201d.<sup>58<\/sup> Ele reaparece no dia do detido desaparecido, em cada foto colada no peito de cada parente, na manifesta\u00e7\u00e3o ou marcha pelos Direitos Humanos. Ele ocupa seu lugar no espa\u00e7o p\u00fablico como motivo e s\u00edmbolo de uma luta implac\u00e1vel para descobrir seu paradeiro, para saber a verdade, para conseguir justi\u00e7a. \u201cMas um desaparecido \u00e9 muito mais do que um s\u00edmbolo. Um desaparecido (&#8230;), que chamaremos de reaparecido, \u00e9 a interpela\u00e7\u00e3o e a urg\u00eancia da justi\u00e7a como gesto inalien\u00e1vel&#8230;\u201d.<sup>59<\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>Quanto aos desaparecidos, \u00e9 uma reapari\u00e7\u00e3o fantasmag\u00f3rica. \u201cO fantasma \u00e9 a marca do luto imposs\u00edvel, necessariamente imposs\u00edvel, que impede que se retire de cena os ausentes a ponto de todo presente se tornar um presente assediado por aquelas presen\u00e7as-aus\u00eancias que aparecem fantasmag\u00f3rica e furtivamente\u201d.<sup>60<\/sup> Segundo Derrida, o modo de ser de quem n\u00e3o \u00e9, de habitar de quem n\u00e3o habita, de existir de quem n\u00e3o existe, \u00e9 \u201cassediar\u201d.<sup>61<\/sup> Os fantasmas dos desaparecidos reaparecem com insist\u00eancia. \u201cUma visita atr\u00e1s da outra, visto que ele volta para nos ver, e que <em>visitare<\/em>, frequentativo de <em>visere<\/em> (ver, examinar, contemplar), traduz bem a recorr\u00eancia ou a reapari\u00e7\u00e3o, a frequ\u00eancia de uma visita\u00e7\u00e3o.\u201d<sup>62<\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>Mas assediar n\u00e3o \u00e9 apenas voltar, reaparecer muitas vezes, mas, acima de tudo, faz\u00ea-lo com uma demanda. Eles voltam incansavelmente porque algo est\u00e1 errado, porque algo n\u00e3o est\u00e1 no lugar, porque h\u00e1 um erro, um delito, um crime que desequilibrou tudo, que tirou o mundo do eixo. O espectro indica que h\u00e1 um deslocamento, que algo est\u00e1 desalinhado e deve ser reajustado. Derrida fala que os espectros \u201capresentam demandas\u201d.<sup>63<\/sup> Como em toda hist\u00f3ria de terror, como na mais antiga de todas, a de Atenodoro contada por Pl\u00ednio, o Jovem, um fantasma s\u00f3 \u00e9 conjurado se for confrontado e suas demandas forem atendidas. \u201cVer o fantasma n\u00e3o \u00e9 suficiente. \u00c9 preciso ouvi-lo e seguir suas indica\u00e7\u00f5es fragmentadas. \u00c9 preciso dar-lhe a palavra\u201d.<sup>64<\/sup> Por\u00e9m, \u201cpara dar-lhe a palavra \u00e9 preciso v\u00ea-lo e reconhec\u00ea-lo como um fantasma\u201d.<sup>65<\/sup>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h3>O quase estar do n\u00e3o-ser: achados frustrados<\/h3>\n\n\n\n<p>O que n\u00e3o est\u00e1 poderia aparecer. O que n\u00e3o desapareceu ontologicamente poderia aparecer diante dos olhos a qualquer momento. N\u00e3o se t\u00eam not\u00edcias dos detidos e, portanto, continuam a ser procurados. Ao longo do caminho, h\u00e1 esperan\u00e7a, expectativa&#8230; h\u00e1 muitas <em>quase<\/em> descobertas, <em>quase <\/em>apari\u00e7\u00f5es. Depois de se saber que ocorreram execu\u00e7\u00f5es e enterros clandestinos em Cuesta Barriga, o juiz encarregado do caso foi at\u00e9 l\u00e1 para comandar as escava\u00e7\u00f5es. Paz Rojas conta que os familiares compareceram por 63 dias seguidos. \u201cNo calor sufocante, assistiram ao trabalho na mina e esperaram com a paci\u00eancia e a dor acumuladas por quase 25 anos\u201d.<sup>66<\/sup> Por fim, as escava\u00e7\u00f5es foram suspensas, pois se constatou que n\u00e3o havia corpos&#8230; Nada foi encontrado.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 achados que s\u00e3o apenas relativos a vest\u00edgios, a rastros que n\u00e3o levam a uma apari\u00e7\u00e3o concreta. A investiga\u00e7\u00e3o do juiz Guzm\u00e1n o conduz ao mar de Quinteros. Os mergulhadores submergem e esbarram com os trilhos da hist\u00f3ria. Por fim, o bot\u00e3o preso a um deles surge como uma prova irrefut\u00e1vel: pessoas foram atiradas ao mar ali. Mas quem foi \u201centerrado\u201d no fundo do mar: de quem era aquele bot\u00e3o? Os <em>quase<\/em> tamb\u00e9m se manifestam quando o que se encontra \u00e9 muito pouco, quando o rastro \u00e9 t\u00e3o \u00ednfimo que n\u00e3o leva ao desaparecido. Estela diz: \u201cped\u00edamos \u00e0 m\u00e9dica do Servi\u00e7o M\u00e9dico Legal a certeza da morte dele, pois aqueles peda\u00e7os de ossos que nos apresentaram n\u00e3o nos permitiam consider\u00e1-lo como morto&#8230; mas at\u00e9 hoje e apesar de tudo, n\u00e3o podemos dizer que ele est\u00e1 morto\u201d.<sup>67 <\/sup>Esse <em>quase <\/em>pode se dar devido \u00e0 imper\u00edcia ou falta de vontade. As conquistas da Equipe de Antropologia Forense da Argentina mostraram que no Chile isso n\u00e3o foi poss\u00edvel, muitas vezes, porque n\u00e3o era desejado.<\/p>\n\n\n\n<p>Existem outros <em>quase<\/em> por atribui\u00e7\u00e3o errada. Como em alguns casos de erros do Instituto M\u00e9dico Legal do Chile: \u201cem alguns casos aconteceu um erro grave, doloroso e alienante, para n\u00e3o dizer transtornador. Os parentes aceitaram com dificuldade que n\u00e3o se tratava mais de encontr\u00e1-los vivos, mas que haviam sido encontrados mortos e, de alguma forma, finalmente, haviam iniciado seu processo de luto. Mas aqueles mortos n\u00e3o eram seus mortos: os restos n\u00e3o pertenciam a esses parentes\u201d.<sup>68<\/sup><\/p>\n\n\n\n<h3>O n\u00e3o-ser que est\u00e1: encontrar a (n\u00e3o) morte<\/h3>\n\n\n\n<p>Aparecer, do latim <em>apparescere<\/em>: \u201ctornar vis\u00edvel\u201d, \u201crevelar-se\u201d. Sair do esconderijo, trazer \u00e0 luz. Aparecimento sensorial. \u00c9 visto, \u00e9 sentido. Reaparecer: voltar, retornar. Reaparecer tem a ver com encontrar o que foi perdido, achar o que foi escondido. Mas n\u00e3o se encontra exatamente aquilo que se perdeu. Os detidos desaparecidos que retornam n\u00e3o s\u00e3o os mesmos de antes. O que se encontra, muitas vezes, s\u00e3o apenas os <em>restos<\/em>. Surge um n\u00e3o-ser do ser amado.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 mais o que era. Ningu\u00e9m volta a ser o mesmo depois de ter estado desaparecido, depois de ter sido um desaparecido. Tudo mudou, a cidade n\u00e3o \u00e9 mais a mesma nem a sua vida. Tudo mudou para sempre. Os reaparecidos s\u00e3o, em muitos aspectos, como os mortos-vivos: como zumbis. N\u00e3o est\u00e3o mortos tampouco vivos. P\u00e1rias sociais suspeitos de trai\u00e7\u00e3o, sem recursos financeiros, sem apoio pol\u00edtico, ostensivamente traumatizados&#8230; Sua vida n\u00e3o existe mais. A \u00fanica alternativa era, muitas vezes, desaparecer de novo: o ex\u00edlio.<\/p>\n\n\n\n<p>Ser o que sobrou. Um cad\u00e1ver, apenas ossos, at\u00e9 mesmo uma parte do corpo do desaparecido faz com que reapare\u00e7a. Um n\u00e3o-ser que aparece e alivia. \u201cEncontrar seus filhos, os restos, por mais terr\u00edvel que seja \u2013 j\u00e1 que \u00e9 uma confirma\u00e7\u00e3o da morte considerada de forma amb\u00edgua \u2013 \u00e9 uma verdade absolutamente necess\u00e1ria. Encontr\u00e1-la, por fim, porque era algo que voc\u00ea tinha, uma hist\u00f3ria, mas isso de voc\u00ea n\u00e3o saber \u00e9 terr\u00edvel tamb\u00e9m porque, em \u00faltima inst\u00e2ncia, a morte \u00e9 REAL\u201d.<sup>69<\/sup> Um reaparecer angustiante porque mina a esperan\u00e7a. Rosario diz: \u201c[e]u estava meditando depois da descoberta: procurei tanto por eles e eles estavam t\u00e3o perto. Foi t\u00e3o terr\u00edvel, sempre tive esperan\u00e7a de que eles pudessem estar, de que poderiam chegar a qualquer momento; eu vivia com essa incerteza e de repente isso me dava esperan\u00e7a; eu pensava uma coisa e pensava outra. Depois tudo desmoronou\u201d.<sup>70<\/sup><\/p>\n\n\n\n<h3>Cenas para uma ontologia da desapari\u00e7\u00e3o<\/h3>\n\n\n\n<p>O ser que deixa de estar: esconder a vida<\/p>\n\n\n\n<p>O ser procurado: movimento infinito<\/p>\n\n\n\n<p>O ser n\u00e3o sendo: ser um desaparecido<\/p>\n\n\n\n<p>O n\u00e3o ser que n\u00e3o est\u00e1: esconder a morte<\/p>\n\n\n\n<p>Ser e n\u00e3o-ser: paradoxo ontol\u00f3gico<\/p>\n\n\n\n<p>O n\u00e3o-ser procurado: habitar o luto<\/p>\n\n\n\n<p>O que resta do n\u00e3o-estar: os objetos<\/p>\n\n\n\n<p>O n\u00e3o-ser que \u00e9 representado: o paradoxo do aparecer<\/p>\n\n\n\n<p>O n\u00e3o-ser que est\u00e1 sem estar: apari\u00e7\u00e3o espectral<\/p>\n\n\n\n<p>O quase estar do n\u00e3o-ser: achados frustrados<\/p>\n\n\n\n<p>O n\u00e3o-ser que est\u00e1: encontrar a (n\u00e3o) morte<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">***<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Jos\u00e9 Santos Herceg<\/em><\/strong> <br>Graduado em filosofia pela Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Chile e doutor em filosofia pela Universit\u00e4t Konstanz, Alemanha. Atualmente \u00e9 pesquisador do Instituto de Estudos Avan\u00e7ados (IDEA) da Universidade de Santiago do Chile. \u00c9 autor dos livros: <em>Conflicto de Representaciones. Am\u00e9rica Latina como lugar para la filosof\u00eda<\/em>&nbsp;(2010),&nbsp;<em>Cartograf\u00eda Cr\u00edtica. El quehacer profesional de la filosof\u00eda en Chile<\/em>&nbsp;(2015),&nbsp;<em>Lugares espectrales. Topolog\u00eda testimonial de la prisi\u00f3n pol\u00edtica en Chile,<\/em>&nbsp;(2019),&nbsp;<em>La Tiran\u00eda del paper: de lamercantilizaci\u00f3n a la normalizaci\u00f3n de las textualidades<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Email: jose.santos@usach.cl<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\" \/>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><sup>1 <\/sup>Este trabalho faz parte da pesquisa intitulada <em>Tortura: concepto y experiencia<\/em> (Fondecyt 1180001, 2018-2020).<\/p>\n\n\n\n<p><sup>2<\/sup> ONU (22 de setembro de 2006).<\/p>\n\n\n\n<p><sup>3 <\/sup>AIBAR, Ibar. <em>Sol y cielo abonaron mis sue\u00f1os infinitos.<\/em> Santiago do Chile: Emege Communications, 2002. p. 142.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>4 <\/sup>Ibid., 144.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>5<\/sup> CASASSUS, Juan. <em>Camino en la oscuridad<\/em>. Santiago do Chile: Debate Editorial, 2013. p. 19.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>6<\/sup> AYRESS Moreno, Carlos Tato. <em>Sobrevivientes. Un suceso posterior al golpe pinochetista<\/em>. Havana: Editorial de Ciencias Sociales, 2008. p. 14.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>7<\/sup> AHUMADA LILLO, Manuel. <em>Testimonio: Cerro Chena &#8211; un campo de prisioneros<\/em>. Santiago de Chile: Leonardo Sep\u00falveda producciones gr\u00e1ficas, 2011. p. 67.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>8<\/sup> CARRASCO, Rolando. <em>Prigu\u00e9. <\/em>Santiago de Chile: Ediciones Aqu\u00ed y Ahora, 1991. [1\u00aa Ed. Moscou: Novosti, 1977]. pp. 58-59.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>9<\/sup> WITKER, Alejandro. <em>Chile; Prisi\u00f3n en Chile. <\/em>M\u00e9xico: FCE, 1975. p. 32.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>10<\/sup> DEL VALLE, Juan. <em>Campos de concentraci\u00f3n, Chile 1973-1976<\/em>. Santiago do Chile: Mosquito ediciones, 1997. p. 53.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>11<\/sup> Ibid., p. 54.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>12<\/sup> CARRASCO, Ibid., 59.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>13<\/sup> Ibid.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>14<\/sup> GATTI, Gabriel. \u201cEl lenguaje de las v\u00edctimas: silencios (ruidosos) y parodias (serias) para hablar (sin hacerlo) de la desaparici\u00f3n forzada de personas\u201d. <em>Universitas Human\u00edstica<\/em>, n. 72, 2011. p. 99.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>15 <\/sup>G\u00d3MEZ MANGO, E. <em>El llamado de los desaparecidos. Sobre la poes\u00eda de Juan Gelman.<\/em> Montevid\u00e9u: Cal y Canto, 2004. p. 17.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>16 <\/sup>CASADO-NEIRA, D.; CASTILLEJO-CU\u00c9LLAR, A.; D\u00cdAZ, P.; RUIZ-ESTRAMIL, I.B. \u201cMaterializando la desaparici\u00f3n: la singularidad de sus cosas\u201d. <em>O\u00f1ati Socio-legal Series<\/em> [online], 9 (2), 2018. p. 240.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>17 <\/sup>MAILLARD, C. \u201cApuntar al blanco: El vac\u00edo y su representaci\u00f3n\u201d. <em>Contra el arte y otras imposturas<\/em>. Val\u00eancia: Pre-Textos, 2009. p. 96.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>18&nbsp;<\/sup> GATTI, G.; PERIS, J.; ROBLES ELONG, I.; RODR\u00cdGUEZ MAESO, S.; S\u00c1EZ VALC\u00c1RCEL, R. \u201cRegreso al vac\u00edo: sobre ausencia y desaparici\u00f3n social\u201d. <em>O\u00f1ati Socio-legal Series.<\/em> 9 (2), 2018. p. 188.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>19 <\/sup>Ibid., 186.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>20<\/sup> Ibid., 186.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>21<\/sup> OLIVA GARC\u00cdA, Julio. \u201cYo lanc\u00e9 prisioneros al mar\u201d. <em>El Siglo<\/em>. 16 out. 2004.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>22 <\/sup>ROJAS, Paz. <em>La interminable ausencia<\/em>. Santiago de Chile: LOM, 2009. p. 117.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>23<\/sup> Ibid., p. 117.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>24<\/sup> Ibid., p. 108.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>25<\/sup> L\u00d3PEZ, Mar\u00eda Jos\u00e9. \u201cEl \u201cdesaparecido\u201d como sujeto pol\u00edtico: una lectura desde Arendt\u201d. <em>Franciscanum <\/em>164, V. VII, 2015. p. 85.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>26 <\/sup>ROJAS, p. 10.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>27<\/sup> Ibid., p. 181.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>28<\/sup> VIDELA, Jorge. Confer\u00eancia de imprensa, pergunta de Jos\u00e9 Ignacio L\u00f3pez. 1979.&nbsp; https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=ASMPYg0YueU<\/p>\n\n\n\n<p><sup>29<\/sup> ROJAS, p. 107.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>30<\/sup> L\u00d3PEZ, p. 80.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>31<\/sup> Ibid., p. 81.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>32<\/sup> ROJAS, p. 105.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>33<\/sup> Ibid., p. 76.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>34<\/sup> Ibid., p. 80.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>35<\/sup> Ibid., p. 85.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>36<\/sup> Ibid., p. 56.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>37<\/sup> Ibid., p. 104.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>38 <\/sup>PINOCHET, Augusto. Confer\u00eancia de imprensa, pergunta de Mirna Schindler. 1991.&nbsp; https:\/\/www.youtube.com\/watch?time_continue=5&amp;v=Uiv4rT_Ja1U&amp;feature=emb_logo<\/p>\n\n\n\n<p><sup>39<\/sup> L\u00d3PEZ, p. 89.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>40 <\/sup>ROJAS, p. 105.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>41<\/sup> Ibid., p. 102.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>42 <\/sup>GATTI et al., 193.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>43<\/sup> ROJAS, p. 104.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>44 <\/sup>FA\u00daNDEZ, X.; AZC\u00c1RRAGA, B.; BENAVENTE, C.; C\u00e1rdenas, M. \u201cLa desaparici\u00f3n forzada de personas a cuarenta a\u00f1os del Golpe de Estado en Chile: un acercamiento a la dimensi\u00f3n familiar\u201d. <em>Revista Colombiana de Psicolog\u00eda<\/em>, 27. 2017. p. 95.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>45<\/sup> ROJAS, R.; SOTO, R.; \u00c1LVAREZ, A.; MART\u00cdNEZ, P.; MENICONI, D.; MATUS, N.; \u00c1LVAREZ, A.; D\u00cdAZ, V. <em>Memorias contra el olvido<\/em>. Santiago do Chile: Amerindia, 1987.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>46<\/sup> Ibid., p. 159.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>47<\/sup> FA\u00daNDEZ et al., 95.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>48 <\/sup>CASADO-NEIRA et al., 241.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>49<\/sup> Ibid., p. 241.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>50<\/sup> ROJAS et al., 159.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>51<\/sup> http:\/\/parquecultural.cl\/web\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/Dossier-Los-Altares-de-la-Ausencia.-.pdf<\/p>\n\n\n\n<p><sup>52<\/sup> Veja: GALLARDO, Milena; MEDALLA, Tania. \u201cPara una pol\u00edtica de la insistencia: trayectorias y desplazamientos de la Cueca Sola en Chile (1978-2019)\u201d. <em>\u00cdndex. Revista de arte contempor\u00e1neo<\/em>. N. 8, 2019. pp. 192-200.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>53<\/sup> Veja: LONGONI, Ana; BRUZONE, Gustavo (Orgs.). <em>El Siluetazo<\/em>. Buenos Aires: Adriana Hidalgo editora, 2008.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>54 <\/sup>As produtoras Wolff&nbsp;BCPP, Ojo de Buey, SalaM\u00e1gica e o m\u00fasico Dar\u00edo Segui s\u00e3o os respons\u00e1veis por essa exposi\u00e7\u00e3o. https:\/\/www.youtube.com\/watch?time_continue=4&amp;v=XDu0XcjBvTA&amp;feature=emb_logo<\/p>\n\n\n\n<p><sup>55<\/sup> https:\/\/culturainquieta.com\/es\/inspiring\/item\/7759-ausencias-impactante-proyecto-fotografico-sobre-los-desaparecidos-de-argentina.html<\/p>\n\n\n\n<p><sup>56 <\/sup>A s\u00e9rie est\u00e1 dispon\u00edvel online em <a href=\"http:\/\/www.me.gov.ar\/\">http:\/\/www.me.gov.ar\/<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><sup>57<\/sup> LEFEBVRE, H. <em>La presencia y la ausencia: Contribuci\u00f3n a la teor\u00eda de las representaciones<\/em>. Trad. de O. Barahona e U. Doyhamboure. Cidade do M\u00e9xico: Fondo de Cultura Econ\u00f3mica, 1980. p. 257.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>58<\/sup> L\u00d3PEZ, p. 87.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>59 <\/sup>QUINTANA, Mar\u00eda Marta; MONTESER\u00cdN, Hector Eduardo. \u201cDiapositivas espectrales. Fragmentos para una interpretaci\u00f3n de las desapariciones (o de lo siniestro fantasm\u00e1tico), Pasado Por-venir\u201d. <em>Revista de historia. <\/em>Ano 5, N. 5, 2010-2011. p. 201.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>60<\/sup> Ibid., p. 201.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>61<\/sup> DERRIDA, Jacques. <em>Espectros de Marx: El estado de la deuda, el trabajo del duelo y la nueva internacional.<\/em> Trad. de Jos\u00e9 Miguel Alarc\u00f3n e Cristina de Peretti. Madrid: Editorial Nacional, 2002. p. 36.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>62 <\/sup>DERRIDA, Jacques. <em>Espectros de Marx: O estado da d\u00edvida, o trabalho do luto e a nova Internacional<\/em>. Rio de Janeiro: Editora Relume-Dumar\u00e1, 1994. p.138<\/p>\n\n\n\n<p><sup>63<\/sup> Ibid., p. 37.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>64 <\/sup>CARRASCO, Ana. <em>Presencias irReales: Simulacros, espectros y construcci\u00f3n de realidades<\/em>. Madrid: Plaza y Vald\u00e9s, 2017. p. 211.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>65 <\/sup>Ibid., p. 224.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>66<\/sup> ROJAS, p. 83.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>67<\/sup> Ibid., p. 85.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>68 <\/sup>Ibid., p. 109.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>69<\/sup> PIZARRO, Ang\u00e9lica. WITTEBROODT, Ingrid. &#8220;La Impunidad. Efectos en la elaboraci\u00f3n del duelo en madres de detenidos desaparecidos\u201d. <em>Castalia. Revista de Psicolog\u00eda de la Academia.<\/em> N. 3, 2002. p. 132.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>70 <\/sup>ROJAS et al., p. 54.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vidas\/Mortes Escondidas: Rumo a uma ontologia do desaparecimento for\u00e7ado no Chile ditatorial1 Jos\u00e9 Santos Herceg O escondido nos confronta com um modo de ser muito particular. 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