{"id":2309,"date":"2021-03-21T19:06:54","date_gmt":"2021-03-21T22:06:54","guid":{"rendered":"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/?page_id=2309"},"modified":"2021-04-08T18:51:18","modified_gmt":"2021-04-08T21:51:18","slug":"luiz-guilherme-barbosa-e-joyce-maravilha","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/luiz-guilherme-barbosa-e-joyce-maravilha\/","title":{"rendered":"N\u00e3o escrever escondido: Literatura, adolesc\u00eancia e escola"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"1200\" height=\"391\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/capa_spoiler-3.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2438\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/capa_spoiler-3.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/capa_spoiler-3-300x98.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/capa_spoiler-3-1024x334.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/capa_spoiler-3-768x250.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><figcaption>@pretomath3us, criptopoema, 2016.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h2>N\u00e3o escrever escondido: <em>Literatura, adolesc\u00eancia e escola<\/em><\/h2>\n\n\n\n<h4>Joyce Maravilha &amp; Luiz Guilherme Ribeiro Barbosa<\/h4>\n\n\n\n<p>Durante o ano de 2019, Joyce Maravilha, estudante do ensino m\u00e9dio no Col\u00e9gio Pedro II, escola p\u00fablica no Rio de Janeiro, escreveu o conto \u201cMist\u00e9rio na escola\u201d, sob orienta\u00e7\u00e3o de seu professor de Portugu\u00eas, Luiz Guilherme Ribeiro Barbosa. A experi\u00eancia de escrever literatura come\u00e7ou com o encontro entre leitores: a estudante se reconhecia como amante de narrativas policiais, conhecedora da obra de Agatha Christie; o professor, diante dessa cena de leitura, lembrou de sua rela\u00e7\u00e3o com os livros de Luiz Alfredo Garcia-Roza. Depois de escolher, baseada nas sinopses, um romance policial de Garcia-Roza para leitura em dupla e l\u00ea-lo, Joyce elaborou um mapeamento dos personagens e dos espa\u00e7os da narrativa. Como professor, estive interessado em apresentar a elabora\u00e7\u00e3o do estilo no texto. Investig\u00e1vamos como aparecia o que costuma se esconder \u2013 o processo do escrever, o escrever na adolesc\u00eancia, o fazer literatura na escola. Esse \u00e9 o tema por excel\u00eancia das narrativas policiais: o assassino esteve sempre ali, diante do leitor, como a carta roubada, diante da pol\u00edcia.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">*<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cSabia ainda que no banheiro ele estaria urinando de modo que o jato de urina incidisse sobre a lou\u00e7a e n\u00e3o sobre a \u00e1gua, tamb\u00e9m para n\u00e3o incomod\u00e1-la\u201d, diz uma das primeiras frases de <em>C\u00e9u de origamis<\/em>, narrativa publicada em 2009 por Luiz Alfredo Garcia-Roza.<sup>1<\/sup> N\u00e3o sabemos ainda quem \u00e9 ela, quem \u00e9 ele, mas percebemos tratar-se de um casal, percebemos que ela conhece detalhes de escatologia e cuidado do marido, e percebemos que a cena de rotina \u00e9 narrada porque prenuncia uma falta. De repente, o marido n\u00e3o voltou para casa no final do dia de trabalho, a esposa est\u00e1 prestando depoimento na delegacia de pol\u00edcia, ainda n\u00e3o sabemos o que aconteceu. Com Joyce, pensamos haver alguma rela\u00e7\u00e3o entre a narrativa e o estilo: o desaparecimento do marido est\u00e1 prenunciado nos tra\u00e7os de indetermina\u00e7\u00e3o das frases, como a compor um \u201cclima\u201d, mas principalmente como uma \u00e9tica do escrever. A imagem da urina no vaso \u00e9 precisa. No entanto, quem \u00e9 ela? Onde est\u00e1 ele? Onde foi parar a rotina?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">*<\/p>\n\n\n\n<p>Conheci Luiz Alfredo Garcia-Roza quando estava na gradua\u00e7\u00e3o em Letras. Foi em 2006 ou 2007. Com um grupo de colegas, fomos entrevist\u00e1-lo no seu escrit\u00f3rio, num pr\u00e9dio em frente \u00e0 Academia Brasileira de Letras, no Centro do Rio de Janeiro. Havia nas estantes principalmente livros do pr\u00f3prio escritor, publicados em diversas l\u00ednguas do mundo. A vista para Botafogo e o P\u00e3o de A\u00e7\u00facar apenas confirmava, para mim, um clich\u00ea carioca, e o que me espantou principalmente foi a quantidade de jornais. Lembro de ter perguntado para o escritor a respeito e ele responder que assinava diversos jornais, era onde encontrava ideias para suas hist\u00f3rias, onde, segundo ele, estava guardado parte do material narrativo. Embora o bairro de Copacabana apare\u00e7a como espa\u00e7o constante onde vivem seus personagens, e esse bairro, com seus crimes, represente os efeitos da utopia moderna que a Zona Sul carioca figurou para o Brasil a partir da d\u00e9cada de 1950 \u2013 era no dia a dia das not\u00edcias e reportagens policiais que o escritor considerava esconderem-se as hist\u00f3rias. As narrativas tiradas de uma not\u00edcia de jornal desenvolviam a mat\u00e9ria textual criminosa, ou melhor, a mat\u00e9ria textual composta sob efeito dos crimes, um tesouro de obscenidades.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">*<\/p>\n\n\n\n<p>De volta \u00e0 escola. A proposta era que Joyce imaginasse uma narrativa curta, de teor policial, no espa\u00e7o da escola. Passar para o lugar do escritor, no entanto, n\u00e3o costuma ser uma opera\u00e7\u00e3o simples. N\u00e3o que a diferen\u00e7a entre ler e escrever seja evidente, mas escrever considerando a publica\u00e7\u00e3o do que se escreve altera a rela\u00e7\u00e3o com o pr\u00f3prio texto. Depois de preparada uma primeira vers\u00e3o, demais professores da escola fariam considera\u00e7\u00f5es ao conto de Joyce antes que ele fosse publicado na forma de plaquete e circulasse entre a comunidade escolar. Assim, colocava-se para a estudante uma experi\u00eancia de publica\u00e7\u00e3o, pela qual seria reconhecida como autora. O texto escolar n\u00e3o estava destinado \u00e0 leitura do professor \u2013 leitura silenciosa e solit\u00e1ria, especificamente interessada e em geral esp\u00e9cie de segredo, pacto entre o adulto e um adolescente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Antes, por\u00e9m, da publica\u00e7\u00e3o na escola, Luiz Alfredo Garcia-Roza publicou aquele que teria sido seu derradeiro livro. <em>A \u00faltima mulher<\/em> apareceu nas livrarias em meados de 2019 e recebeu uma s\u00e9rie de mat\u00e9rias na imprensa comovidas com a situa\u00e7\u00e3o de sa\u00fade do autor, que se encontrava acamado. Entre as mat\u00e9rias, uma do jornal <em>O Globo <\/em>recebeu nossa aten\u00e7\u00e3o, interessados que est\u00e1vamos na obra do escritor e tamb\u00e9m nos lugares que um escritor ocupa na cultura. Por isso, respondemos a reportagem com um e-mail redigido em dupla, que foi publicado na se\u00e7\u00e3o \u201cCarta dos Leitores\u201d da edi\u00e7\u00e3o de 9 de julho de 2019 do jornal <em>O Globo<\/em>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"1200\" height=\"766\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig2-5.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2957\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig2-5.jpg 1200w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig2-5-300x192.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig2-5-1024x654.jpg 1024w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2021\/03\/fig2-5-768x490.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><figcaption>Carta dos leitores, 9 de julho, 2019, O Globo.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Durante a inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, eu aprendi a sentar e escrever mesmo sem inspira\u00e7\u00e3o, e tamb\u00e9m aprendi a parar tudo quando a inspira\u00e7\u00e3o vinha para escrever. Comecei a pensar na hist\u00f3ria mesmo nos momentos em que eu n\u00e3o estava escrevendo, no meu dia a dia. O fato de o conto se passar no bairro e na escola onde estudo ajudou muito nisso. Eu conseguia visualizar meus personagens nos lugares que eu frequentava, fazendo as mesmas coisas que eu fazia todo dia, como se eles fossem alunos reais no mesmo ambiente que eu.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Lembro de um dia que eu estava na biblioteca da escola estudando, e comecei a imaginar o que aconteceria se eles entrassem ali naquele momento. E comecei a escrever, \u00e0 m\u00e3o, duas p\u00e1ginas inteiras. Foi uma sensa\u00e7\u00e3o \u00f3tima. Acho que conseguir fazer tudo isso me amadureceu muito como escritora.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m aprendi muita coisa gra\u00e7as \u00e0 orienta\u00e7\u00e3o do professor. Foi muito importante ver o meu conto pelos olhos de outra pessoa, tanto para escrever melhor, quanto para conhecer mais meu pr\u00f3prio estilo, perceber padr\u00f5es e elementos na minha escrita que eu sozinha n\u00e3o perceberia se algu\u00e9m n\u00e3o me apontasse ou perguntasse sobre.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m de tudo, foi a primeira vez que eu me vi como escritora. Sempre sonhei em ser uma, mas, quando eu era mais nova e escrevia, nunca considerei que eu fosse. S\u00f3 durante essa experi\u00eancia comecei a levar isso mais a s\u00e9rio. Acho que ter coragem de mostrar o que eu escrevi para outras pessoas tamb\u00e9m foi importante nesse processo, me fez acreditar mais em mim mesma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">*<\/p>\n\n\n\n<p>Na convalescen\u00e7a de Luiz Alfredo, a escritora Livia Garcia-Roza, sua companheira, publicou no Facebook uma s\u00e9rie de breves narrativas e reflex\u00f5es que foram referidas na carta que enviamos para o jornal <em>O Globo<\/em>. O trabalho de Livia lembrava a hist\u00f3ria de amor e refletia sobre o processo de sofrimento diante da perda iminente do companheiro. S\u00e3o textos de intensa delicadeza, que acompanhei de perto, mas raramente apresentei para Joyce.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Um dia, no entanto, uma das postagens da escritora pareceu tocar num ponto do trabalho de Joyce. Acontece que, ao escrever seu conto, a estudante montou uma narrativa imaginando o desaparecimento de um professor de l\u00edngua estrangeira na escola. Estava lidando com alguma esp\u00e9cie de luto? Estava imitando o g\u00eanero policial, refletindo as narrativas do g\u00eanero no contexto escolar. Mas por que o professor?<\/p>\n\n\n\n<p>Propus, ent\u00e3o, uma explica\u00e7\u00e3o, a meu ver, curiosa: ao imaginar o desaparecimento misterioso de um professor, a escritora Joyce Maravilha estaria, enfim, ensaiando uma aus\u00eancia a ser vivenciada por ela, adolescente, em breve: o fim da escola. Nesse sentido, imaginar o desaparecimento de um professor implica considerar o desaparecimento da escola na vida adolescente, de modo que a fic\u00e7\u00e3o pode funcionar como espa\u00e7o de amadurecimento, al\u00e9m de testemunho da forma\u00e7\u00e3o cultural. Um ato, ao qual se pode sempre retornar ao longo da vida.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Visitando diariamente o leito de Luiz Alfredo, sua companheira, na impossibilidade de conversar com o marido, nem por isso silencia o cotidiano. Escreve: \u201cTanta coisa pra contar pro Luiz Alfredo\u2026 Contei pras enfermeiras\u201d.<sup>2<\/sup> H\u00e1 nesse gesto uma ambiguidade. Desviar o destinat\u00e1rio do discurso deriva da impossibilidade de interlocu\u00e7\u00e3o com o marido, mas insistir naquele discurso para quem tamb\u00e9m cuidava dele implica prosseguir com a conversa interrompida.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na literatura \u2013 e considerando literatura as duas frases publicadas por Livia Garcia-Roza nas redes sociais \u2013 os afetos escondidos podem ser desviados para as palavras, e ent\u00e3o se transformam no texto.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">*<\/p>\n\n\n\n<p>A forma\u00e7\u00e3o escolar de um adolescente pode ser pensada, ainda hoje, \u00e0 luz da literatura. Mesmo tendo perdido a centralidade cultural que gozou nas culturas europeias h\u00e1 100 ou 200 anos, a literatura funciona como acervo de fontes para a cultura pop. Mais do que isso, a dificuldade de concentra\u00e7\u00e3o prolongada experimentada na leitura de textos longos, efeito da constante artilharia semi\u00f3tica nas telas de celulares, televis\u00e3o e computadores, convoca a sala de aula como espa\u00e7o de reinven\u00e7\u00e3o da leitura reflexiva de romances e livros em geral.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A exposi\u00e7\u00e3o \u00e0s telas das \u201cm\u00e1quinas de imagina\u00e7\u00e3o\u201d tende a produzir outra rela\u00e7\u00e3o do sujeito com a fic\u00e7\u00e3o.<sup>3<\/sup> As lentes fotogr\u00e1ficas, diferentemente do olho humano, n\u00e3o fazem distin\u00e7\u00e3o entre o que \u00e9 percebido e o que \u00e9 representado. Essa \u201ctend\u00eancia psicotizante\u201d da imagina\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica parece estar na origem da \u201ccultura do d\u00e9ficit de aten\u00e7\u00e3o\u201d que caracteriza os modos de percep\u00e7\u00e3o contempor\u00e2neos, dos quais os quadros gerais de ansiedade e depress\u00e3o, e de transtorno de d\u00e9ficit de aten\u00e7\u00e3o e hiperatividade s\u00e3o sintoma.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, a literatura aparece como resist\u00eancia \u00e0 eros\u00e3o da aten\u00e7\u00e3o duradoura, da concentra\u00e7\u00e3o reflexiva, da leitura silenciosa. \u00c9 no enfrentamento desse risco cultural que pr\u00e1ticas pedag\u00f3gicas procuram se ater \u00e0 \u201cleitura subjetiva\u201d dos estudantes em sala de aula, sobretudo no sentido de promover condi\u00e7\u00f5es de enuncia\u00e7\u00e3o em que falar e escrever sobre a leitura signifiquem elaborar afetos do leitor sobre o texto. O trabalho com fic\u00e7\u00e3o na escola, especialmente quando leitores em forma\u00e7\u00e3o s\u00e3o convidados a escrever a leitura ou a pr\u00f3pria fic\u00e7\u00e3o, pode atuar na produ\u00e7\u00e3o de uma comunidade que aprenda a reconhecer \u201cquando as configura\u00e7\u00f5es subjetivas do leitor s\u00e3o questionadas pelo texto\u201d, conforme prop\u00f5e Vincent Jouve.<sup>4<\/sup> Quando se trata dos textos escritos pelos alunos, no entanto, o professor-leitor deve estar preparado para ser questionado pelo texto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">*<\/p>\n\n\n\n<p>A figura do professor n\u00e3o \u00e9 explorada em muitas hist\u00f3rias. Pelo menos nos livros que leio e que se passam no ambiente escolar, tudo sempre gira ao redor dos estudantes. N\u00f3s que somos alunos geralmente n\u00e3o paramos para pensar que os professores tamb\u00e9m t\u00eam uma vida al\u00e9m de sua profiss\u00e3o. Foi divertido imaginar a vida do Pedro, junto com os personagens. Era meio que um mist\u00e9rio para mim tamb\u00e9m, no in\u00edcio. Pensar em um motivo real para ele ter desaparecido, e em v\u00e1rios outros \u201cfict\u00edcios\u201d para enganar os personagens e o leitor foi legal. Criar uma vida pessoal para ele, uma fam\u00edlia, um endere\u00e7o, uma personalidade. Acho que d\u00e1 um efeito bem diferente de um aluno desaparecido. Quando vemos uma not\u00edcia assim na internet, sobre um adolescente, as pessoas j\u00e1 pensam em algumas possibilidades: brigou com os pais, foi se encontrar com o namorado, foi para uma festa. Um professor que some, sem mais nem menos, sem nenhum motivo aparente, \u00e9 um pouco mais curioso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">*<\/p>\n\n\n\n<p>A experi\u00eancia de acompanhar a produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria de um estudante adolescente envolve a aproxima\u00e7\u00e3o com o territ\u00f3rio \u00edntimo do escritor. Penso que isso se deu tamb\u00e9m para Joyce, ao escolher o professor como principal ausente da narrativa de mist\u00e9rio policial que produziu. Assim como hav\u00edamos respondido \u00e0 mat\u00e9ria do jornal <em>O Globo<\/em>, comovidos com os efeitos do envelhecimento de Luiz Alfredo Garcia-Roza, tamb\u00e9m a estudante respondeu \u2013 n\u00e3o sem ironia \u2013 ao desafio que propus de ambientar na escola a sua narrativa, comovendo-se com um professor.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Quero dizer que o efeito na fic\u00e7\u00e3o, ao aproximar do cotidiano o espa\u00e7o narrativo, representa, para a escritora, um deslocamento. N\u00e3o se trata de uma altera\u00e7\u00e3o de perspectiva, j\u00e1 que os protagonistas s\u00e3o alunos adolescentes, mas o objeto da como\u00e7\u00e3o \u00e9 a vida cotidiana do professor, elemento comumente escondido na cultura escolar. A figura do professor flagrado por alunos ou ex-alunos no cotidiano banal, passeando na praia ou frequentando uma festa, pode ser um acontecimento para o adolescente que n\u00e3o compreende o professor entre os adultos do seu universo conhecido.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Num ensaio dedicado a pensar as fun\u00e7\u00f5es das humanidades nas sociedades democr\u00e1ticas, Martha Nussbaum considera a adolesc\u00eancia um momento decisivo na forma\u00e7\u00e3o cultural para a democracia. Os processos de identifica\u00e7\u00e3o social por que atravessa um adolescente devem ser considerados pela escola, pelas fam\u00edlias e pela sociedade em geral como figuras da sociedade, ou seja, como representa\u00e7\u00f5es de si e do outro que decidem o comportamento cidad\u00e3o. Nesse sentido, a \u201cfraqueza\u201d ou a car\u00eancia n\u00e3o devem se esconder:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u00c0 medida que os jovens se aproximam da idade adulta, aumenta a influ\u00eancia da cultura do grupo ao qual eles pertencem. As normas de um adulto perfeito (o homem perfeito, mulher perfeita) t\u00eam um grande impacto no processo de desenvolvimento, j\u00e1 que a considera\u00e7\u00e3o pelos outros luta contra a inseguran\u00e7a e a vergonha narcisistas. Se uma cultura de grupo adolescente define o &#8220;verdadeiro homem&#8221; como algu\u00e9m que n\u00e3o tem fraquezas nem necessidades e que controla tudo de que precisa na vida, esse ensinamento alimentar\u00e1 o narcisismo infantil e inibir\u00e1 fortemente a amplia\u00e7\u00e3o da compaix\u00e3o para com as mulheres e para com outras pessoas percebidas como fr\u00e1geis ou subordinadas.<sup>5<\/sup><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>E, mais adiante, como li\u00e7\u00e3o desse argumento:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Ensinar posturas com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 fragilidade e \u00e0 impot\u00eancia humanas que sugiram que a fragilidade n\u00e3o \u00e9 algo vergonhoso e que precisar dos outros n\u00e3o significa ser fraco; ensinar as crian\u00e7as a n\u00e3o ter vergonha da car\u00eancia e da incompletude, mas que as percebam como oportunidades de coopera\u00e7\u00e3o e de reciprocidade.<sup>6<\/sup><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Os fragmentos de Nussbaum ensinam alguma coisa sobre como ler a literatura dos alunos, um desafio importante para os professores em geral. \u00c9 poss\u00edvel que a entrega do texto liter\u00e1rio para os professores lerem signifique a procura por reconhecimento l\u00e1 onde ele falta ou n\u00e3o satisfaz \u2013 os afetos escondidos, a repeti\u00e7\u00e3o de traumas ou a interroga\u00e7\u00e3o sobre a sexualidade. S\u00e3o tra\u00e7os delicados que n\u00e3o precisam ser solapados pela tecnicidade liter\u00e1ria: <em>isso n\u00e3o est\u00e1 bem escrito<\/em> ou <em>n\u00e3o acredito que foi voc\u00ea quem escreveu<\/em>. O que se chama literatura inclui escrever uma carta para um jornal identificando-se com o escritor adoecido, o que se chama literatura inclui imaginar a vida do outro, e o que se chama literatura inclui a leitura do outro, o professor, mesmo que este tenha se tornado personagem importante na vida daqueles personagens.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">*<\/p>\n\n\n\n<p>Na minha vida pessoal, acho que um dos efeitos de escrever literatura \u00e9 o est\u00edmulo \u00e0 minha capacidade de imagina\u00e7\u00e3o e de observa\u00e7\u00e3o. \u00c0s vezes eu me pego reparando em manias ou fatos espec\u00edficos das pessoas com quem eu convivo ou at\u00e9 de estranhos no shopping, e penso: \u201cisso seria um \u00f3timo tra\u00e7o para um personagem\u201d. Tamb\u00e9m guardo na mem\u00f3ria certos lugares aonde eu vou para poder usar como cen\u00e1rios no futuro. Al\u00e9m disso, tamb\u00e9m percebo efeitos na minha comunica\u00e7\u00e3o com as pessoas. Escrever nos ajuda muito a nos expressar e a argumentar melhor.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">*<\/p>\n\n\n\n<p>Logo no come\u00e7o de <em>O Alienista<\/em>, novela de Machado de Assis,h\u00e1 uma frase inesquec\u00edvel, que uma das minhas alunas na segunda s\u00e9rie do ensino m\u00e9dio, que leu o livro em 2020, destacou. Talvez seja uma frase que, para um leitor adolescente, deixa evidente pela primeira vez a ironia do narrador na constru\u00e7\u00e3o dos personagens. \u00c9 a frase na qual o narrador apresenta os motivos pelos quais o Dr. Sim\u00e3o Bacamarte se casou com D. Evarista. L\u00ea-se:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Sim\u00e3o Bacamarte explicou-lhe que D. Evarista reunia condi\u00e7\u00f5es fisiol\u00f3gicas e anat\u00f4micas de primeira ordem, digeria com facilidade, dormia regularmente, tinha bom pulso, e excelente vista; estava assim apta para dar-lhe filhos robustos, s\u00e3os e inteligentes.<sup>7<\/sup><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>O m\u00e9dico tinha escolhido a esposa por raz\u00f5es \u201cfisiol\u00f3gicas e anat\u00f4micas\u201d. Enuncia-se a l\u00f3gica do patriarcado (o homem justifica para a fam\u00edlia a escolha da mulher como esposa) e a l\u00f3gica do positivismo cient\u00edfico (se o fim do casamento \u00e9 a forma\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia, logo a produ\u00e7\u00e3o dos filhos deve ser observada de acordo com a melhora da esp\u00e9cie, sob perspectiva eugenista). E n\u00f3s rimos dessa caricatura. Rimos de nervoso. Essa an\u00e1lise, diante de adolescentes, revela n\u00e3o como se deve ler uma frase, mas como se pode ler uma frase: produzindo rela\u00e7\u00f5es entre texto e cultura. Trata-se de uma leitura sob perspectiva hist\u00f3rica, que n\u00e3o basta a si mesma.<\/p>\n\n\n\n<p>Como releitor do texto, considerei estarmos atravessando um lado oposto do problema: durante a pandemia do novo coronav\u00edrus, podemos fazer escolhas de acordo com o que preconiza a ci\u00eancia, a fim de preservar a vida individual e coletiva. Na frase, a perspectiva do m\u00e9dico Sim\u00e3o Bacamarte desumaniza a esposa com base nos conhecimentos cient\u00edficos da \u00e9poca. Uma quest\u00e3o aparece, assim, com essa interpreta\u00e7\u00e3o: como um leigo (o leitor) usa o conhecimento cient\u00edfico depois de ler uma fic\u00e7\u00e3o que faz caricatura da ci\u00eancia?<\/p>\n\n\n\n<p>As diferen\u00e7as entre a fic\u00e7\u00e3o e a realidade movem a leitura, podem apaixonar para al\u00e9m da fantasia de identifica\u00e7\u00e3o entre leitor e protagonista. Identificar-se com a leitura pode significar o fasc\u00ednio pelas contradi\u00e7\u00f5es entre fic\u00e7\u00e3o e realidade. Isso pode significar adolescer: entre a crian\u00e7a e o adulto, a imagina\u00e7\u00e3o est\u00e1 em constante teste de realidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">*<\/p>\n\n\n\n<p>Recentemente eu aprendi uma palavra em Gal\u00eas que n\u00e3o tem tradu\u00e7\u00e3o direta para nenhuma outra l\u00edngua (e eu adoro aprender palavras assim). <em>Hiraeth<\/em>: saudade de um lugar em que nunca se esteve. E acho que isso descreve perfeitamente minha rela\u00e7\u00e3o com os livros. Eu sinto saudade de estar nesses lugares. Sinto saudade das aventuras no acampamento meio-sangue, de ir passear com a Fani por Minas Gerais, de ir em bailes no pal\u00e1cio de Ill\u00e9a. E eu nunca fui em nenhum desses lugares, a n\u00e3o ser atrav\u00e9s da literatura. E a melhor parte de ler literatura, \u00e9 que eu sempre posso visitar esses cen\u00e1rios e essas pessoas de novo e de novo.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Luiz Guilherme agradece \u00e0 psicanalista Isabel do R\u00eago Barros Duarte pelo convite para apresentar, em mesa com Franciele Almeida, o tema desse texto no curso livre \u201cPsican\u00e1lise sem margem\u201d, coordenado por ela e Ana L\u00facia Holck, no Instituto de Cl\u00ednica Psicanal\u00edtica do Rio de Janeiro, em setembro de 2019.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><em>***<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Joyce Maravilha<\/em> <\/strong><br>Tem 17 anos e cursa o \u00faltimo ano do ensino m\u00e9dio no Col\u00e9gio Pedro II. Leitora e escritora, pretende estudar Letras na faculdade. Tamb\u00e9m publica resenhas liter\u00e1rias no perfil @jovenselivros do Instagram.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Luiz Guilherme Ribeiro Barbosa<\/em> <\/strong><br>Professor de Portugu\u00eas e Literaturas no Col\u00e9gio Pedro II. Doutor em teoria liter\u00e1ria pela UFRJ, publicou o livro <em>A m\u00e3o, o olho<\/em>: Uma interpreta\u00e7\u00e3o da poesia contempor\u00e2nea (2014), e as plaquetes de poesia <em>Postagens e antipostagens <\/em>(2018) e <em>Pacote de maldades <\/em>(2019). Integra o grupo de pesquisa Litescola (CPII), sobre literatura e ensino.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\" \/>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><sup>1<\/sup> GARCIA-ROZA, Luiz Alfredo. <em>C\u00e9u de origamis<\/em>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2009. p. 7.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\"><sup>2<\/sup> GARCIA-ROZA, Livia. <em>Tanta coisa pra contar&#8230;<\/em> Rio de Janeiro, 19 jul., 2019. Facebook: usu\u00e1rio do Facebook. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/permalink.php?story_fbid=939021886438993&amp;id=100009935705436\">https:\/\/www.facebook.com\/permalink.phpstory_fbid=939021886438993&amp;id100009935705436<\/a>. Acesso em: 5 fev. 2021.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>3 <\/sup>As express\u00f5es citadas nesse par\u00e1grafo s\u00e3o de: T\u00dcRCKE, Christophe. Cultura do d\u00e9ficit de aten\u00e7\u00e3o. Tradu\u00e7\u00e3o de Eduardo Guerreiro B. Losso. <em>Revista Serrote<\/em>: blog. Rio de Janeiro, jun., 2015. Dispon\u00edvel em:&nbsp; <a href=\"https:\/\/www.revistaserrote.com.br\/2015\/06\/cultura-do-deficit-de-atencao\">https:\/\/www.revistaserrote.com.br\/2015\/06\/cultura-do-deficit-de-atencao <\/a>Acesso em 24 de setembro de 2019.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><sup>4 <\/sup>JOUVE, Vincent. A leitura como retorno a si: sobre o interesse pedag\u00f3gico das leituras subjetivas. Tradu\u00e7\u00e3o de Neide Luiza de Rezende. In: ROUXEL, Annie; LANGLADE, G\u00e9rard; REZENDE, Neide Luiza de (orgs.). <em>Leitura subjetiva e ensino de literatura<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Amaury C. Moraes et al. S\u00e3o Paulo: Alameda, 2013. p. 60.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>5<\/sup> NUSSBAUM, Martha. <em>Sem fins lucrativos<\/em>: Por que a democracia precisa das humanidades. Tradu\u00e7\u00e3o Fernando Santos. S\u00e3o Paulo: WMF Martins Fontes, 2015. p. 39<\/p>\n\n\n\n<p><sup>6<\/sup> Idem, p. 45.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>7<\/sup> ASSIS, Machado de. <em>Pap\u00e9is avulsos<\/em>. Belo Horizonte; Rio de Janeiro: Garnier, 1989.&nbsp;p. 17-18.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o escrever escondido: Literatura, adolesc\u00eancia e escola Joyce Maravilha &amp; Luiz Guilherme Ribeiro Barbosa Durante o ano de 2019, Joyce Maravilha, estudante do ensino m\u00e9dio no Col\u00e9gio Pedro II, escola [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/2309"}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2309"}],"version-history":[{"count":12,"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/2309\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3302,"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/2309\/revisions\/3302"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/6\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2309"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}