{"id":410,"date":"2013-12-17T18:49:31","date_gmt":"2013-12-17T18:49:31","guid":{"rendered":"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/1\/?page_id=410"},"modified":"2016-01-18T23:15:22","modified_gmt":"2016-01-18T23:15:22","slug":"a-cidade-e-o-espaco-arte-comunidade-e-lugar","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/1\/a-cidade-e-o-espaco-arte-comunidade-e-lugar\/","title":{"rendered":"A cidade \u00e9 o espa\u00e7o: arte, comunidade e lugar"},"content":{"rendered":"<p><img class=\"alignnone size-full wp-image-118\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/1\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/1_Claudia-Zeiske_town-is-venue.jpg\" alt=\"1_Claudia Zeiske_town is venue\" width=\"590\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/1\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/1_Claudia-Zeiske_town-is-venue.jpg 600w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/1\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/1_Claudia-Zeiske_town-is-venue-300x159.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><span class=\"legenda\"><em>A cidade \u00e9 o espa\u00e7o<\/em>. Centro da cidade e arredores, Huntly, Esc\u00f3cia.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"titulo\">A cidade \u00e9 o espa\u00e7o: arte, comunidade e lugar<br \/>\n<\/span><span class=\"autor\">Claudia Zeiske<\/span><\/p>\n<p><i>A cidade \u00e9 o espa\u00e7o <\/i>(\u201cThe Town is the Venue\u201d) \u00e9 uma pr\u00e1tica de curadoria desenvolvida nos \u00faltimos 15 anos na Deveron Arts, organiza\u00e7\u00e3o de artes contempor\u00e2neas de Huntly, pequena cidade rural do nordeste da Esc\u00f3cia. Diferentemente da grande estrutura das artes contempor\u00e2neas que favorece os moradores de metr\u00f3poles urbanas, nosso trabalho demonstra que \u00e9 poss\u00edvel criar uma vida sustent\u00e1vel para esse tipo de arte no contexto de uma cidade pequena. N\u00e3o temos um centro de artes; a cidade, sua hist\u00f3ria, geografia e vida comunit\u00e1ria s\u00e3o o material, o contexto e o local da interven\u00e7\u00e3o art\u00edstica. A passagem para novas formas de pr\u00e1tica art\u00edstica incorporadas ao local se deu ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas. O livro <i>Six Years: The Dematerialization of the Art Object from 1966 to 1972<\/i>,<i> <\/i>de Lucy Lippard, foi um dos precursores das pr\u00e1ticas art\u00edsticas mais ligadas ao processo e baseadas em experi\u00eancias. Recentemente, outros estudiosos contribu\u00edram com novas estruturas cr\u00edticas e percep\u00e7\u00f5es sobre participa\u00e7\u00e3o, di\u00e1logo e comunidade nas pr\u00e1ticas das artes contempor\u00e2neas. Grant Kester reuniu estudos de casos de artes desde a d\u00e9cada de 1960 at\u00e9 a virada do s\u00e9culo em <i>Conversation Pieces: Community + Communication<\/i>, 2002. <i>Artificial Hells<\/i>, 2012, de Claire Bishop explora a arte socialmente engajada do s\u00e9culo XXI. Ainda assim, se o foco em como os curadores podem promover uma pr\u00e1tica socialmente engajada tem sido relativamente raro, o que dizer da aten\u00e7\u00e3o dada \u00e0queles de n\u00f3s que est\u00e3o tentando realizar um trabalho criativo e cr\u00edtico em cidades pequenas e ambientes rurais. Em 2010, publiquei, junto com o curador Nuno Sacramento, <i>ARTocracy: Art, Informal Space and Social Consequence <\/i>com o objetivo de ajudar a preencher essa lacuna. O presente artigo tem por base esse material, destacando aspectos fundamentais do nosso trabalho e descrevendo uma s\u00e9rie de projetos art\u00edsticos socialmente engajados realizados nos \u00faltimos cinco anos. <i><\/i><\/p>\n<h3>Arte em que contexto?<\/h3>\n<p>A hist\u00f3ria da Deveron Arts tem in\u00edcio neste contexto. Em 1995, tr\u00eas moradores de Huntly com afinidade de ideias, Annette Gisselbaek, Jean Longley e eu, sentimos que n\u00e3o existiam atividades culturais suficientes na regi\u00e3o. T\u00ednhamos em comum o fato de termos nos mudado para l\u00e1 de cidades maiores (Copenhague, Londres, Berlim). Huntly \u00e9 um centro comercial com popula\u00e7\u00e3o de 4.500 habitantes, que atende a regi\u00e3o \u00e0 sua volta num raio de cerca de 20 quil\u00f4metros, e tem ainda outros 4.500 habitantes de propriedades rurais ou pequenos povoados e vilarejos. Os grandes centros urbanos mais pr\u00f3ximos que possuem espa\u00e7os culturais s\u00e3o Edimburgo e Glasgow, ambas a cerca de quatro horas de dist\u00e2ncia de trem ou de carro. \u00c9 a localiza\u00e7\u00e3o rural que a torna especial enquanto centro de desenvolvimento de artes contempor\u00e2neas no norte do pa\u00eds.<\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-full wp-image-105\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/1\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/2_Huntly-in-Scotland-map.jpg\" alt=\"2_Huntly in Scotland map\" width=\"350\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/1\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/2_Huntly-in-Scotland-map.jpg 600w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/1\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/2_Huntly-in-Scotland-map-240x300.jpg 240w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><br \/>\n<span class=\"legenda\">Mapa da Esc\u00f3cia com Huntly, conforme vista do sul.<\/span><\/p>\n<p>Huntly est\u00e1 situada a 57\u00b0 norte; logo acima dessa longitude ficam as cidades de Quebec, Estocolmo e S\u00e3o Petersburgo e, mais acima ainda, as maiores cidades s\u00e3o Helsinki, Turku e Rovaniemi. Fora isso, pouqu\u00edssimas cidades passam dos 100 mil habitantes, sendo que a grande maioria da popula\u00e7\u00e3o vive em comunidades que n\u00e3o diferem muito de Huntly. As necessidades e recursos sociais para abrigar um programa de artes contempor\u00e2neas nesse tipo de cen\u00e1rio demandam um tratamento muito diferente do que geralmente se d\u00e1 \u00e0s metr\u00f3poles do sul do pa\u00eds.<\/p>\n<p>A cidade remonta ao s\u00e9culo XV, com a chegada do Cl\u00e3 Gordon<sup>1<\/sup>,\u00a0que construiu o Castelo de Huntly, hoje em ru\u00ednas. O centro \u00e9 uma \u00e1rea tombada, com suntuosa arquitetura em granito indicando seu passado de prosperidade. A vida hoje, assim como no passado, gira em torno de uma pra\u00e7a hist\u00f3rica no centro, e a cidade abriga mais de 140 clubes e sociedades, desde Institutos Rurais para Mulheres at\u00e9 um Rotary Club e o Fundo de Desenvolvimento de Huntly, este relativamente recente. Al\u00e9m disso, conta com uma rede cultural que abrange desde a tradicional gaita de fole, m\u00fasica e dan\u00e7as folcl\u00f3ricas escocesas at\u00e9 os \u00e2mbitos contempor\u00e2neos da Deveron Arts.<\/p>\n<p>H\u00e1 bastante mudan\u00e7a econ\u00f4mica no ar. Os maiores empregadores s\u00e3o os servi\u00e7os p\u00fablicos. Em termos de ind\u00fastria, houve muita transforma\u00e7\u00e3o, com empresas buscando terceiriza\u00e7\u00e3o na Europa Oriental. O advento da internet gerou algumas mudan\u00e7as na vida econ\u00f4mica das redondezas, levando ao estabelecimento de alguns pequenos neg\u00f3cios na regi\u00e3o, muitas vezes para fugir dos pre\u00e7os dos im\u00f3veis do sul e buscar um estilo de vida mais tranquilo. Como muitas outras cidades no norte da Esc\u00f3cia, a posi\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica de Huntly foi enfraquecida com o decl\u00ednio da agricultura, mudan\u00e7as nos h\u00e1bitos de consumo (como compras pela internet) e a centraliza\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os em p\u00f3los maiores no sul do pa\u00eds. Dois novos supermercados localizados nos limites da cidade apresentam um importante desafio para o centro comercial tradicional da cidade. A decad\u00eancia \u00e9 vis\u00edvel no centro, que agora ostenta lojas vazias, bazares de caridade e terrenos industriais pouco desenvolvidos ao lado de lojas tradicionais, como a\u00e7ougues, padarias e uma livraria. Assim, Huntly\u00a0tem sido identificada como uma regi\u00e3o socialmente vulner\u00e1vel, com desemprego relativamente alto e uma s\u00e9rie de indicadores de pobreza. Por outro lado, a cidade foi considerada parte do corredor de crescimento de Aberdeenshire, que contempla desenvolvimento para os pr\u00f3ximos 25 anos. Esse fato certamente apresenta oportunidades econ\u00f4micas, mas o que significar\u00e1 para a cidade? Crescimento imobili\u00e1rio, aumento de migra\u00e7\u00e3o, constru\u00e7\u00e3o de mais parques e\u00f3licos, mais conex\u00f5es?<\/p>\n<p>Embora singulares sob v\u00e1rios aspectos, diversos obst\u00e1culos para a cria\u00e7\u00e3o de uma organiza\u00e7\u00e3o de artes contempor\u00e2neas s\u00e3o encontrados em cidades de porte semelhante. Ap\u00f3s realizar, logo no in\u00edcio, diversos cursos de ver\u00e3o, oficinas e pequenas mostras, a Deveron Arts come\u00e7ou a pensar na cria\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o. Os resultados de um estudo de viabilidade, por\u00e9m, n\u00e3o foram favor\u00e1veis devido \u00e0 fraca base financeira e \u00e0 localiza\u00e7\u00e3o remota. Em compara\u00e7\u00e3o com ambientes urbanos, o p\u00fablico prov\u00e1vel era limitado pelo alcance geogr\u00e1fico e n\u00e3o existia p\u00fablico j\u00e1 acostumado a visitar galerias para garantir o comparecimento a eventos. Os custos financeiros de adquirir ou construir um espa\u00e7o dificilmente gerariam retorno algum dia e a popula\u00e7\u00e3o local poderia at\u00e9 se sentir exclu\u00edda se o espa\u00e7o seguisse o modelo projetado para gostos modernos, urbanos e cosmopolitas.<\/p>\n<p>Essa situa\u00e7\u00e3o repete-se em muitas outras cidades rurais do mesmo porte em todo o mundo. Considerando-se especialmente o \u201cnorte\u201d, o tamanho e distanciamento aumentam quanto mais nos aproximamos do \u00e1rtico. O tamanho de Huntly \u00e9 importante: a cidade \u00e9 observ\u00e1vel; poder\u00edamos at\u00e9 dizer \u201ccontrol\u00e1vel\u201d. Tem aproximadamente 1 quil\u00f4metro quadrado de \u00e1rea e, andando-se em passo r\u00e1pido, leva-se dez minutos para ir de uma extremidade \u00e0 outra. Isso nos permite considerar a cidade como um todo control\u00e1vel, como uma grande e animada galeria: um lugar espa\u00e7oso, que pode ser examinado minuciosamente do ponto de vista art\u00edstico.<\/p>\n<p>Para as tr\u00eas pessoas que iniciaram a Deveron Arts, a primeira motiva\u00e7\u00e3o foi pessoal. Como todos tinham um passado internacional, decidiram trazer elementos dessa experi\u00eancia para Huntly. A arte parecia um bom processo para contrapor as necessidades de um contexto local como o de Huntly com contextos internacionais. Por tr\u00e1s de tudo estava a no\u00e7\u00e3o de que uma cidade com variedade de culturas, comidas e h\u00e1bitos forma uma comunidade mais rica. A segunda motiva\u00e7\u00e3o foi social. Poder\u00edamos dizer que Huntly, assim como muitos outros lugares, precisava disso. Huntly j\u00e1 foi muito criticada por ser uma comunidade que se orgulha pouco de si. Como em muitos outros lugares na Europa, os jovens est\u00e3o se mudando e a popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 envelhecendo. O cinema fechou h\u00e1 muito tempo, deixando uma lacuna de entretenimento. Mas a hist\u00f3ria e heran\u00e7a de Huntly s\u00e3o muito mais\u00a0ricas do que se v\u00ea \u00e0 primeira vista. A cidade tem muitos bares, clubes, um mercado, tradi\u00e7\u00f5es musicais que incluem os bailes Ceilidh, centros de esportes, figuras hist\u00f3ricas importantes, etc., e in\u00fameros temas sociais e culturais para inspirar um programa art\u00edstico. Junte-se a isso um grande n\u00famero de pessoas animadas, inspiradas e talentosas e temos em Huntly um \u00f3timo lugar para morar, trabalhar e realizar experi\u00eancias.<\/p>\n<h3>Como a arte se encaixa nesse contexto?<\/h3>\n<p>Para <i>A cidade \u00e9 o espa\u00e7o<\/i>, come\u00e7amos com a escolha de um tema. Diferentemente de um im\u00f3vel, em que os par\u00e2metros f\u00edsicos definem as possibilidades log\u00edsticas de cada evento ou projeto, quando a cidade \u00e9 o espa\u00e7o, as possibilidades s\u00e3o definidas pelo car\u00e1ter social, cultural e geogr\u00e1fico da cidade. Selecionar o tema certo \u00e9 fundamental, pois \u00e9 ele que cria a rela\u00e7\u00e3o entre o artista visitante e a comunidade local. Como o p\u00fablico da Deveron Arts consiste principalmente nas pessoas que moram no distrito de Huntly, o tema <i>precisa <\/i>mobiliz\u00e1-las.<\/p>\n<p>N\u00e3o importa tanto se <i>A cidade \u00e9 o espa\u00e7o <\/i>se situa no espa\u00e7o p\u00fablico da cidade ou se desloca para \u00e1reas rurais. A cidade \u00e9 vista como o per\u00edmetro que define a localiza\u00e7\u00e3o de temas e n\u00e3o s\u00f3 de espa\u00e7os ou constru\u00e7\u00f5es. A identifica\u00e7\u00e3o de um tema que seja relevante para a vida social das comunidades \u00e9 realmente fundamental e, a partir da\u00ed, um artista \u00e9 convidado para trabalhar com elas em torno desse tema. Qualquer t\u00f3pico \u00e9 v\u00e1lido desde que encontre resson\u00e2ncia com o contexto cultural, social e hist\u00f3rico da cidade. Esse ponto de partida \u00e9 incomum, pois os projetos costumam partir de ideias intelectuais do curador e do artista, apresentadas como uma vis\u00e3o original para que o p\u00fablico admire e manifeste rea\u00e7\u00f5es. Em Huntly, isso simplesmente n\u00e3o funcionaria.<\/p>\n<p>Para identificar os temas e os grupos com os quais a Deveron Arts quer trabalhar, realiza-se uma auditoria cultural, que determina v\u00e1rios fatos relativos \u00e0 vida e recursos da comunidade (por exemplo: n\u00famero de moradias, n\u00edvel de emprego, etc.) como par\u00e2metro para a pesquisa e desenvolvimento. A auditoria cultural cont\u00e9m todos os tipos de fatos, desde dados demogr\u00e1ficos (tamanho, economia e situa\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica) a interpreta\u00e7\u00f5es mais subjetivas (quest\u00f5es pol\u00edticas e problemas sociais). Essa auditoria nos ajuda a identificar ideias, temas e t\u00f3picos para tratarmos na colabora\u00e7\u00e3o com a comunidade e com os artistas envolvidos. A pesquisa para identificar os t\u00f3picos e espa\u00e7os, al\u00e9m das pessoas e grupos com os quais a Deveron Arts quer trabalhar, baseia-se em\u00a0grande medida no boca a boca e no envolvimento direto, usando um m\u00e9todo de observa\u00e7\u00e3o participante emprestado da antropologia social.<\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-full wp-image-185\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/1\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/3_Claudia-Zeiske_cultural-audit-1_PORT.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/1\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/3_Claudia-Zeiske_cultural-audit-1_PORT.jpg 1063w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/1\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/3_Claudia-Zeiske_cultural-audit-1_PORT-214x300.jpg 214w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/1\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/3_Claudia-Zeiske_cultural-audit-1_PORT-731x1024.jpg 731w\" sizes=\"(max-width: 1063px) 100vw, 1063px\" \/><br \/>\n<span class=\"legenda\">Diagrama que explica a auditoria cultural para Huntly.\u00a0Traduzido do livro \u00a0<i>ARTocracy: Art, Informal Space and Social Consequence<\/i><\/span><\/p>\n<h3>Diagrama de Contexto do ARTocracy<\/h3>\n<p>Cabe destacar neste ponto que, embora os artistas sejam moradores tempor\u00e1rios, toda a equipe da Deveron Arts mora na cidade onde fazemos a curadoria de projetos. Somos parte integrante da comunidade e temos as mesmas responsabilidades sociais para com ela que todos os outros moradores. Esse senso de pertencimento permeia a pesquisa cont\u00ednua realizada diariamente por meio de uma s\u00e9rie de atividades na cidade, que incluem desde o comparecimento a eventos p\u00fablicos, leitura da imprensa local e encontros frequentes com sua equipe editorial at\u00e9 a participa\u00e7\u00e3o em conselhos e comit\u00eas. \u00c9 vital que toda equipe, inclusive estagi\u00e1rios e tempor\u00e1rios, sinta-se \u00e0 vontade com essa forma de trabalhar e estilo de vida e que, se necess\u00e1rio, sejam capacitados para aplicar esses m\u00e9todos.<\/p>\n<p>A pesquisa antropol\u00f3gica participativa \u00e9 fundamental para a realiza\u00e7\u00e3o de uma auditoria cultural e \u00e9 ela que norteia a defini\u00e7\u00e3o de t\u00f3picos relevantes que podem ser aplicados com proveito em praticamente qualquer cidade pequena. Como resultado da auditoria cultural de Huntly, os projetos da Deveron Arts hoje s\u00e3o estruturados livremente em torno de temas de meio ambiente, heran\u00e7a, identidade e quest\u00f5es intergeracionais. Esses temas passam por uma s\u00e9rie de t\u00f3picos espec\u00edficos que podem ser questionados e explorados em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s particularidades da cidade e dentro de uma gama variada de pr\u00e1ticas art\u00edsticas. Ap\u00f3s a auditoria cultural e a defini\u00e7\u00e3o de temas amplos, podemos come\u00e7ar a formar uma estrutura organizacional e convidar artistas para projetos espec\u00edficos.<\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-full wp-image-107\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/1\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/4_Claudia-Zeiske_cultural-audit-2_PORT.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/1\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/4_Claudia-Zeiske_cultural-audit-2_PORT.jpg 886w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/1\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/4_Claudia-Zeiske_cultural-audit-2_PORT-214x300.jpg 214w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/1\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/4_Claudia-Zeiske_cultural-audit-2_PORT-731x1024.jpg 731w\" sizes=\"(max-width: 886px) 100vw, 886px\" \/><br \/>\n<span class=\"legenda\">Diagrama que explica como fazer sua pr\u00f3pria auditoria cultural.\u00a0Traduzido do livro \u00a0<i>ARTocracy: Art, Informal Space and Social Consequence<\/i><\/span><\/p>\n<h3>Como fazer arte nesse contexto?<\/h3>\n<p>O processo de defini\u00e7\u00e3o de uma estrutura organizacional geral e a coordena\u00e7\u00e3o de projetos individuais requer diversas camadas. Neste ponto, voltamos ao essencial e relacionamos todos os detalhes relativos a <b>pessoas, contexto, processos <\/b>e <b>resultados <\/b>para a elabora\u00e7\u00e3o de projetos.<\/p>\n<p>Todos esses itens devem ser considerados para cada projeto, mas as experi\u00eancias em termos de \u00eanfase e organiza\u00e7\u00e3o garantem a constante evolu\u00e7\u00e3o e desenvolvimento da organiza\u00e7\u00e3o. Por exemplo, em alguns casos, pode ser que os financiadores tenham um poder de decis\u00e3o maior quanto ao direcionamento de um determinado projeto, enquanto em outros, tenha mais a ver com as partes interessadas e o p\u00fablico ou o artista. A Deveron Arts \u00e9 financiada por uma ampla gama de recursos p\u00fablicos, privados, locais e internacionais, bem como parte de sua pr\u00f3pria renda advinda de eventos e vendas. Alguns projetos podem ter resultados f\u00edsicos muito concretos, enquanto projetos mais ef\u00eameros podem gerar uma mudan\u00e7a de opini\u00e3o duradoura. Cabe aos curadores (na Deveron Arts, eu e o curador externo nomeado para cada projeto) negociar o equil\u00edbrio como um todo entre essas camadas da programa\u00e7\u00e3o organizacional.<\/p>\n<p>Chamamos esse malabarismo de abordagem meio a meio. Ou seja, metade local e metade internacional; metade da comunidade e metade do mundo art\u00edstico; metade de artistas emergentes e metade de artistas de renome; metade com motiva\u00e7\u00e3o conceitual e metade com motiva\u00e7\u00e3o organizacional. \u00c9 importante que esse equil\u00edbrio seja aplicado em todos os n\u00edveis: na sele\u00e7\u00e3o de artistas, temas e espa\u00e7os, mas tamb\u00e9m em termos operacionais, como capta\u00e7\u00e3o de recursos, marketing, aprendizado e ensino. O conselho de administra\u00e7\u00e3o consiste estritamente em 50% de moradores locais (um professor, um contador e um assistente social) e 50% de profissionais de artes (curadores, artistas e outras pessoas do setor cultural). Com isso, temos um mecanismo que garante a boa qualidade dos projetos tanto em termos art\u00edsticos como na resposta \u00e0s quest\u00f5es sociais locais.<\/p>\n<p>\u00c9 com esse equil\u00edbrio que a Deveron Arts cria um espa\u00e7o para que as artes sejam consideradas e valorizadas na cidade e tamb\u00e9m para que a cidade seja considerada e valorizada no discurso art\u00edstico internacional. Devido ao contexto relativamente pequeno e remoto em que esse m\u00e9todo \u00e9 aplicado, a rela\u00e7\u00e3o com o mundo das artes mais amplo n\u00e3o \u00e9 autom\u00e1tica. Um esfor\u00e7o muito proativo deve ser realizado para manter o contato com movimentos art\u00edsticos e tend\u00eancias, convidando para a cidade n\u00e3o s\u00f3 artistas, mas diversos outros profissionais. Um m\u00e9todo que se mostrou eficaz \u00e9 convidar um \u201ccurador-sombra\u201d<i> <\/i>para cada projeto.<i> <\/i>Trata-se de um profissional das artes externo selecionado para cada projeto para oferecer uma voz cr\u00edtica sobre o desenvolvimento conceitual e organizacional do projeto. Assim como os ministros do &#8220;Shadow Cabinet&#8221;<sup>2<\/sup>,\u00a0um componente do sistema de governo do\u00a0Reino Unido, o relacionamento do curador-sombra com o curador principal \u00e9 compar\u00e1vel ao relacionamento do ministro desse gabinete da oposi\u00e7\u00e3o (o \u201cministro-sombra\u201d) com o ministro que est\u00e1 no poder: um relacionamento de oposi\u00e7\u00e3o pac\u00edfica e construtiva ou de antagonismo cr\u00edtico. Entretanto, ao passo que o ministro-sombra est\u00e1 interessado na queda de seu oponente para tomar o seu lugar, o curador-sombra est\u00e1 interessado em fortalecer a posi\u00e7\u00e3o do curador, resultando, portanto, numa pr\u00e1tica curatorial mais robusta. O primeiro curador-sombra<i> <\/i>da Deveron Arts foi Nuno Sacramento<sup>3<\/sup>,\u00a0natural de Mo\u00e7ambique e morador da Esc\u00f3cia, que desenvolveu a metodologia. Em seguida, vieram o escritor e pesquisador Fran\u00e7ois Matarasso<sup>4<\/sup>,\u00a0que trabalhou no <i>Palace of Puzzles<\/i> (Pal\u00e1cio de Enigmas), do Utopia Group; o artista Dave Beech<sup>5<\/sup>,\u00a0curador-sombra de <i>How do you live this place? <\/i>(Como se mora este lugar?), de Maider Lopez, e a curadora e cr\u00edtica Christine Eyene<sup>6<\/sup>,\u00a0que trabalhou em <i>Mbereko<\/i>, de Nancy Mteki.<\/p>\n<p>Depois de definido o tema e desenvolvida uma estrutura organizacional geral, os curadores podem come\u00e7ar a convidar artistas para criar projetos. Os curadores inserem-se na comunidade e prop\u00f5em debates entre a popula\u00e7\u00e3o e os artistas visitantes. Um artista \u00e9 convidado a morar por algum tempo na cidade. Essa resid\u00eancia, ou per\u00edodo longe de sua casa, tem uma import\u00e2ncia especial, pois significa que o artista est\u00e1 totalmente comprometido com o projeto e, ao mesmo tempo, chega com um novo olhar sobre o contexto. A Deveron Arts recebe quatro artistas residentes por ano, sendo que cada resid\u00eancia dura cerca de tr\u00eas meses. Em nossa experi\u00eancia, esse per\u00edodo funciona bem. Se a dura\u00e7\u00e3o \u00e9 menor, \u00e9 dif\u00edcil entender inteiramente a cidade, desenvolver ideias conceituais e coloc\u00e1-las em pr\u00e1tica; se o per\u00edodo \u00e9 mais longo, os artistas costumam achar complicado compatibilizar a resid\u00eancia com suas vidas pessoais em sua cidade de origem. Outra quest\u00e3o \u00e9 que os projetos podem crescer demais a ponto de perturbar o equil\u00edbrio organizacional, ficando dif\u00edcil determinar quando encerr\u00e1-los.<\/p>\n<p>O fato de virem artistas de todas as partes do mundo tem um profundo impacto na comunidade. Eles trazem novas ideias e abordagens para velhos temas, valorizando, ao mesmo tempo, as especificidades do lugar onde est\u00e3o trabalhando. Os artistas envolvem-se mais profundamente com partes da comunidade que se interessam sobre um determinado t\u00f3pico. Depois das primeiras\u00a0semanas, pedimos para o artista finalizar uma proposta, descrevendo detalhadamente as pessoas e o formato de um projeto de seu interesse. Em seguida, come\u00e7amos a buscar contextos, locais e colaboradores adequados.<\/p>\n<p>O projeto <i>Slow Down<\/i> (Desacelere), da artista Jacqueline Donachie, pode ajudar a ilustrar como um tema \u00e9 desenvolvido em termos conceituais e pragm\u00e1ticos.<\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-full wp-image-108\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/1\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/5.0_Claudia-Zeiske_Jacqueline-D_slow-down.jpg\" alt=\"\" width=\"590\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/1\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/5.0_Claudia-Zeiske_Jacqueline-D_slow-down.jpg 600w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/1\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/5.0_Claudia-Zeiske_Jacqueline-D_slow-down-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><br \/>\n<span class=\"legenda\">Jacqueline Donachie: <em>Slow Down<\/em>, 2009, Deveron Arts. Foto: Alan Dimmick <\/span><\/p>\n<h3><b>An\u00e1lise do projeto \u2013 Meio ambiente<br \/>\n<\/b><b>Slow Down, 2009, Jacqueline Donachie<br \/>\n<\/b><br \/>\nResumo do projeto<\/h3>\n<p>Os curadores selecionaram o tema do transporte. As quest\u00f5es ambientais est\u00e3o no topo da agenda pol\u00edtica da Esc\u00f3cia e de todo o Reino Unido e est\u00e3o sendo abordadas com frequ\u00eancia em diversos f\u00f3runs e por v\u00e1rias disciplinas. O planejamento urbano vem tratando da quest\u00e3o de cidades sem carros, desafiando a tend\u00eancia difundida na segunda metade do s\u00e9culo XX, que transformou muitas pra\u00e7as municipais em estacionamentos, inclusive em Huntly. Hoje, \u00e9 amplamente reconhecido que esses estacionamentos s\u00e3o lugares feios, antissociais e inseguros para crian\u00e7as, moradores e visitantes. Como a qualidade de vida mudaria em nossos centros comerciais se o acesso dos carros fosse limitado a entregas e coletas e as \u00e1reas centrais das cidades fossem dedicadas a ciclovias, parques e outros espa\u00e7os sociais? Qual seria a cara das nossas cidades se, em alguns minutos de bicicleta, pud\u00e9ssemos chegar a lojas, academias, escolas e campos de golfe? E qual seria o efeito de pedalar e andar nas nossas vidas di\u00e1rias?<\/p>\n<h3><b>O processo art\u00edstico<\/b><\/h3>\n<p>A artista convidada para tratar dessa quest\u00e3o foi Jacqueline Donachie, de Glasgow, depois de previamente consultada. Jacqueline tem um hist\u00f3rico de pr\u00e1tica socialmente engajada, trazendo problemas dif\u00edceis de planejamento \u00e0 aten\u00e7\u00e3o da comunidade<sup>7<\/sup>.\u00a0Pensando em locais no exterior que s\u00e3o bons exemplos de cidades onde os carros s\u00e3o proibidos<sup>8\u00a0<\/sup>(como Hallstatt, na \u00c1ustria, Zermatt, na Su\u00ed\u00e7a, e Vauban, na Alemanha), Jacqueline decidiu que tentaria transformar Huntly, temporariamente, numa \u00e1rea livre de carros.<\/p>\n<p>A artista iniciou o processo com uma ampla consulta \u00e0 comunidade, que permitiu ao p\u00fablico externar suas opini\u00f5es sobre a quest\u00e3o de restringir o uso de carros em Huntly. Isso por si s\u00f3 gerou um debate acalorado, enfatizando o papel do artista como catalisador cr\u00edtico. Muitos moradores de Huntly amam seus carros, e a log\u00edstica de banir os carros da cidade simplesmente n\u00e3o era pr\u00e1tica dentro do contexto de uma resid\u00eancia de tr\u00eas meses.<\/p>\n<p>Como seria praticamente imposs\u00edvel fechar toda a cidade, o projeto se desenvolveu em torno do fechamento da pra\u00e7a. Essa a\u00e7\u00e3o foi incorporada a um festival de tr\u00eas dias da Deveron Arts dedicado a caminhadas e ciclismo, denominado <i>Slow Down<\/i> (Desacelere), que reuniu grupos e organiza\u00e7\u00f5es espec\u00edficos, bem como a comunidade local, para comemorar e promover atividades tranquilas e ambientalmente sustent\u00e1veis.<\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-full wp-image-109\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/1\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/5.1_Ash-and-Allen-Contrail-Fitting_Jacqueline-D.jpg\" alt=\"\" width=\"590\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/1\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/5.1_Ash-and-Allen-Contrail-Fitting_Jacqueline-D.jpg 600w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/1\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/5.1_Ash-and-Allen-Contrail-Fitting_Jacqueline-D-300x199.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><br \/>\n<span class=\"legenda\">Jacqueline Donachie: <em>Slow Down<\/em>, 2009, Deveron Arts. Foto: Alan Dimmick <\/span><\/p>\n<p>Durante o per\u00edodo de resid\u00eancia antes do festival, o programa incluiu uma anistia das bicicletas da cidade, oficinas de conserto de bicicletas e aula de ciclismo para novatos. Tudo em colabora\u00e7\u00e3o com a AutoSpares, oficina que, desde ent\u00e3o, diversificou sua atividade, passando a oferecer pe\u00e7as e servi\u00e7os para bicicletas. Durante o festival propriamente dito, Jacqueline incentivou o m\u00e1ximo de pessoas a pedalarem pela cidade, culminando num grande desfile sobre rodas em que 100 moradores locais sa\u00edram com um mecanismo sob medida acoplado a suas bicicletas que desenhava linhas de giz coloridas nas ruas enquanto pedalavam. O desfile criou um desenho de seis quil\u00f4metros de di\u00e2metro, com a cidade como tela, deixando uma faixa de cor nas ruas que levou dias para desaparecer.<\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-full wp-image-110\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/1\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/5.2_Slow-Down-Promenade4_Jacqueline-D.jpg\" alt=\"\" width=\"590\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/1\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/5.2_Slow-Down-Promenade4_Jacqueline-D.jpg 600w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/1\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/5.2_Slow-Down-Promenade4_Jacqueline-D-300x199.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><br \/>\n<span class=\"legenda\">Jacqueline Donachie: <em>Slow Down<\/em>, 2009, Deveron Arts. Foto: Alan Dimmick <\/span><\/p>\n<p>Durante o processo, Jacqueline tamb\u00e9m mobilizou neg\u00f3cios, escolas e muitos grupos locais para discutir como Huntly poderia desenvolver uma abordagem mais sustent\u00e1vel. O projeto buscou incentivar o uso da bicicleta \u2013 incomum na Esc\u00f3cia at\u00e9 hoje \u2013 como meio de transporte alternativo, capaz de levar a melhorias no meio ambiente, com a redu\u00e7\u00e3o das emiss\u00f5es de carbono, mas tamb\u00e9m na qualidade de vida e na sa\u00fade.<\/p>\n<p>A pra\u00e7a de Huntly ainda n\u00e3o foi transformada em \u00e1rea para pedestres, mas o projeto continua vivo na mem\u00f3ria das pessoas e \u00e9 lembrado com frequ\u00eancia como exemplo de grande evento que reuniu diferentes ideias da comunidade de forma divertida.<\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-full wp-image-111\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/1\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/5.3_slowdown_Jacqueline-D.jpg\" alt=\"\" width=\"590\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/1\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/5.3_slowdown_Jacqueline-D.jpg 600w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/1\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/5.3_slowdown_Jacqueline-D-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><br \/>\n<span class=\"legenda\">Jacqueline Donachie: <em>Slow Down<\/em>, 2009, Deveron Arts. Foto: Alan Dimmick <\/span><\/p>\n<h3><b>An\u00e1lise do projeto \u2013 Social <\/b><br \/>\n<b>A Perfect Father Day? (Um dia do pai perfeito?), 2011, Anthony Schrag<br \/>\n<\/b><br \/>\nResumo do projeto<\/h3>\n<p>A imagem estereot\u00edpica da fam\u00edlia euro-americana \u2013 m\u00e3e, pai e dois filhos morando numa casa \u2013, muito propagada depois da 2\u00aa Guerra Mundial, est\u00e1 rapidamente se tornando um mito. O censo de 2011 confirmou que, agora, uma propor\u00e7\u00e3o maior de fam\u00edlias brit\u00e2nicas \u00e9 formada por pais ou m\u00e3es sozinhos, filhos adultos morando com os pais e aposentados. \u00c9 um aumento consider\u00e1vel desde o \u00faltimo censo em 2001. Para a Deveron, esse fato gerou interesse pela mudan\u00e7a da din\u00e2mica da unidade familiar e, especificamente, pelo papel do pai na fam\u00edlia moderna, tendo em vista sua aus\u00eancia, seja por motivo de trabalho ou do rompimento de um relacionamento. Come\u00e7amos a formular perguntas provocativas: para que servem os pais?<\/p>\n<p>O artista de Edimburgo Anthony Schrag<sup>9\u00a0<\/sup>foi convidado para uma resid\u00eancia de tr\u00eas meses entre abril e julho de 2011 para pensar a quest\u00e3o. Anthony \u00e9 um artista socialmente engajado, que usa a experi\u00eancia f\u00edsica do corpo em sua pr\u00e1tica. No passado, fez paredes tombadas e pisos grudentos, sequestrou vereadores e escalou pr\u00e9dios para envolver o p\u00fablico com a arte e seu papel na mudan\u00e7a da sociedade.<\/p>\n<p>A obra de Anthony busca levantar o tipo certo de perguntas e, portanto, seu trabalho em Huntly desenvolveu-se de formas que incentivaram um envolvimento de qualidade com os moradores locais, convidando-os a examinar o papel da paternidade (e dos homens em geral). Como a no\u00e7\u00e3o de paternidade\/modelo de vida masculino \u00e9 algo t\u00e3o arraigado na sociedade, a ideia do artista era abord\u00e1-la de forma indireta, com humor, fisicalidade e uma estrat\u00e9gia de &#8220;pesquisa perform\u00e1tica&#8221;<sup>10<\/sup>.<\/p>\n<p>Essa estrat\u00e9gia, diz o artista, \u201ctem menos a ver com os g\u00eaneros tradicionais de \u2018performance\u2019 e \u2018live art\u2019 e mais com estar de fato presente e \u2018vivendo\u2019 com os participantes \u2013 ao inv\u00e9s de um espa\u00e7o mediado, como uma galeria ou teatro, trata-se de estar \u2018na rua\u2019, convivendo com as pessoas, atuando na vida di\u00e1ria.\u201d Ao agir assim, ele busca encontrar uma interliga\u00e7\u00e3o relacional n\u00e3o mediada em que participante e artista sejam parceiros iguais numa experi\u00eancia compartilhada que promove o senso de propriedade e investimento no desenvolvimento dos conceitos que est\u00e3o sendo examinados.<\/p>\n<p>Anthony mobilizou um p\u00fablico amplo e variado na cidade de Huntly com a\u00e7\u00f5es como, entre outras, &#8220;Male Roll Model\u201d<sup>11\u00a0<\/sup>(Modelo de rolar masculino), &#8220;Rent-a-Dad&#8221;<sup>12\u00a0<\/sup>(Alugue um pai) e &#8220;Make Beer Drink Beer&#8221;<sup>13<\/sup>\u00a0(Fa\u00e7a cerveja, beba cerveja).<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-191\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/1\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/6_Anthony-Schrag_tug-of-war_editorial.png\" alt=\"\" width=\"590\" height=\"393\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/1\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/6_Anthony-Schrag_tug-of-war_editorial.png 590w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/1\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/6_Anthony-Schrag_tug-of-war_editorial-300x199.png 300w\" sizes=\"(max-width: 590px) 100vw, 590px\" \/><br \/>\n<span class=\"legenda\">Anthony Schrag. <em>Um dia de pai perfeito? Cabo de Guerra<\/em>, 2011. Deveron Arts. Foto: Jan Holm.<\/span><\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-full wp-image-113\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/1\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/7_Anthony-Schrag_make-beer.jpg\" alt=\"\" width=\"590\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/1\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/7_Anthony-Schrag_make-beer.jpg 600w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/1\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/7_Anthony-Schrag_make-beer-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><br \/>\n<span class=\"legenda\">Anthony Schrag. <em>Um dia de pai perfeito? Fa\u00e7a cerveja\/Beba cerveja<\/em>, 2011. Deveron Arts. Foto: Jan Holm<\/span><\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-full wp-image-114\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/1\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/8_Anthony-Schrag_Rent-a-Dad.jpg\" alt=\"\" width=\"590\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/1\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/8_Anthony-Schrag_Rent-a-Dad.jpg 600w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/1\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/8_Anthony-Schrag_Rent-a-Dad-300x225.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/1\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/8_Anthony-Schrag_Rent-a-Dad-200x150.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><br \/>\n<span class=\"legenda\">Anthony Schrag. <em>Um dia de pai perfeito? Alugue um pai<\/em>, 2011. Deveron Arts. Foto: Jan Holm.<\/span><\/p>\n<p>O auge de sua resid\u00eancia foi um evento chamado &#8220;A Perfect Father Day?\u201d (Um dia do pai perfeito?). Realizado no Dia dos Pais, o evento visava investigar as quest\u00f5es e estere\u00f3tipos da paternidade por meio de diversas brincadeiras e atividades.<\/p>\n<p>Com o papel do pai na fam\u00edlia moderna ainda em transforma\u00e7\u00e3o, esse projeto trouxe o tema para o consciente de uma comunidade onde \u00e9 comum o pai trabalhar em alto-mar<sup>14\u00a0<\/sup>ou longe de casa, deixando fam\u00edlias e crian\u00e7as \u201csem pai\u201d por longos per\u00edodos.<\/p>\n<h3>Qual o impacto da arte nesse contexto?<\/h3>\n<p>Ao avaliar cada projeto, distinguimos entre produtos e resultados. Os produtos variam muito. Podem ser interven\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, eventos, festas, instala\u00e7\u00f5es, exposi\u00e7\u00f5es, livros, v\u00eddeos, sites de internet, etc. Discuss\u00f5es, debates e festivais que unem as pessoas da comunidade, a arte e os campos tem\u00e1ticos muitas vezes acompanham esses produtos f\u00edsicos. Cada atividade acontece numa parte da cidade que tem a ver com o tema. Todos os projetos s\u00e3o documentados, revistos e arquivados de forma bastante tradicional: registro de comparecimento, documenta\u00e7\u00e3o fotogr\u00e1fica, relat\u00f3rios, etc.<\/p>\n<p>Vemos os resultados, diferentemente dos produtos, como, por um lado, relacionados a uma mudan\u00e7a nas percep\u00e7\u00f5es de certas quest\u00f5es da comunidade e, por outro, como um aprofundamento dos conceitos art\u00edsticos. Talvez seja a promo\u00e7\u00e3o do orgulho ou de uma nova no\u00e7\u00e3o de espa\u00e7o da comunidade, o entendimento das posi\u00e7\u00f5es de mais de um grupo comunit\u00e1rio, a percep\u00e7\u00e3o de que existem semelhan\u00e7as entre diversas cidades europeias ou simplesmente uma mudan\u00e7a de opini\u00e3o como consequ\u00eancia de um determinado projeto<sup>15<\/sup>.<\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-full wp-image-115\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/1\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/9_Simon-Preston-1.jpg\" alt=\"\" width=\"590\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/1\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/9_Simon-Preston-1.jpg 600w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/1\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/9_Simon-Preston-1-300x225.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/1\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/9_Simon-Preston-1-200x150.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><br \/>\n<span class=\"legenda\">Simon Preston.<em> A cidade \u00e9 o card\u00e1pio<\/em>, 2012, Deveron Arts. Foto: Deveron Arts.<\/span><\/p>\n<p>Cada projeto tem um impacto imediato, mas tamb\u00e9m um efeito cumulativo no desenvolvimento da vida da cidade. Em termos de produtos, a Deveron Arts criou um tipo de museu vivo de seu hist\u00f3rico de artes no que chamamos de &#8220;acervo da cidade&#8221;.<i> <\/i>Ao final de cada projeto, um produto, um documento f\u00edsico, um objeto usado no processo, uma imagem ou instala\u00e7\u00e3o \u00e9 guardado e abrigado num lugar de interesse da cidade. Isso quer dizer que hoje pode-se andar em Huntly como se fosse uma galeria, mas do tipo vivo. N\u00e3o com paredes brancas vazias, mas com personagens, hist\u00f3rias, arquitetura, comida, \u00e1rvores, c\u00e9u azul ou cinza, antigas vitrines ou salas de espera da delegacia abrigando as pe\u00e7as. Assim, <i>A cidade \u00e9 o espa\u00e7o<\/i> n\u00e3o coleciona ou esconde suas obras de arte numa unidade fechada, mas apresenta-as na vida cotidiana da cidade.<\/p>\n<p>Em termos de resultados para os artistas, essas interven\u00e7\u00f5es podem ser uma oportunidade de definir sua pr\u00e1tica art\u00edstica dali em diante. Ross Sinclair, por exemplo, o artista de <i>Real Life Gordons of Huntly <\/i>(Os verdadeiros Gordon de Huntly), afirmou sobre sua experi\u00eancia: \u201cAntes de chegar, eu havia proposto uns dois projetos definidos que foram educadamente rejeitados pela Deveron Arts&#8230; quando cheguei, n\u00e3o fazia a m\u00ednima ideia de como o projeto iria se desenvolver. Mas isso acabou sendo muito \u00fatil, pois me permitiu realmente me envolver no projeto de uma maneira aberta e org\u00e2nica. Foi diferente para mim, porque estou mais acostumado a desenvolver um projeto e depois faz\u00ea-lo acontecer no espa\u00e7o, conforme o meu plano. Ou seja, essa abordagem foi um desafio, mas tamb\u00e9m foi muito revigorante.\u201d Al\u00e9m de permitir que o artista tenha uma experi\u00eancia capaz de transformar e desenvolver sua pr\u00f3pria pr\u00e1tica, a Deveron Arts, atrav\u00e9s de cada projeto e cumulativamente ao longo dos anos, visa desenvolver novos sistemas transfer\u00edveis de curadoria e, assim, contribuir para o discurso art\u00edstico mais amplo e para o planejamento da cidade e da comunidade. Al\u00e9m de incluir atores variados em sua organiza\u00e7\u00e3o \u2013 e justamente por causa disso \u2013 a Deveron Arts tornou-se uma parte influente no planejamento da comunidade local e no panorama cultural nacional. Devido a sua capacidade de trabalhar quest\u00f5es sociais de formas criativas e envolventes, servi\u00e7os locais e grupos comunit\u00e1rios perceberam que os projetos eram \u00fateis para suas pr\u00f3pria pautas de desenvolvimento de programas sociais, econ\u00f4micos e culturais.<\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-full wp-image-116\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/1\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/10_Room-to-roam-choir.jpg\" alt=\"\" width=\"590\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/1\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/10_Room-to-roam-choir.jpg 600w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/1\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/10_Room-to-roam-choir-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><br \/>\n<span class=\"legenda\"><em>Coro Room to Roam<\/em>. Projeto realizado junto com a redefini\u00e7\u00e3o da marca para a cidade com Jacques Coetzer, 2008, Deveron Arts. Foto: Deveron Arts<br \/>\n<\/span><\/p>\n<h3>Jacques Coetzer: Room to Roam (Espa\u00e7o para vagar) \u2013 Identidade<\/h3>\n<p>Um exemplo do papel da Deveron Arts como importante ator da cidade foi a colabora\u00e7\u00e3o com o Fundo de Desenvolvimento de Huntly para redefinir uma marca para a cidade. O objetivo era, em parte, realizar um exerc\u00edcio art\u00edstico para investigar o que \u00e9 importante para a identidade local e para tornar Huntly mais atraente para turistas e investidores, fomentando a economia local. Ap\u00f3s um rigoroso processo de sele\u00e7\u00e3o, o artista e designer Jacques Coetzer<sup>16\u00a0<\/sup>foi convidado, com sua fam\u00edlia, a vir de Pret\u00f3ria, na \u00c1frica do Sul. O projeto correlacionou muitos aspectos da cidade que eram importantes para os moradores e interessantes para as pessoas de fora. Foi criado um novo logotipo; um novo bras\u00e3o foi aprovado pela autoridade nacional; um novo lema foi definido para a cidade \u2013 <i>Room to Roam<\/i> (Espa\u00e7o para vagar). O lema foi tirado de um poema de George Macdonald, famoso escritor da cidade do s\u00e9culo XVIII, que fora musicado por uma banda local, The Waterboys. A m\u00fasica foi ent\u00e3o reposicionada como novo hino da cidade. Os produtos e resultados desse projeto\u00a0s\u00e3o vis\u00edveis em toda a cidade e tamb\u00e9m num v\u00eddeo do hino sendo entoado na Prefeitura, que agora pode ser visto como parte do acervo permanente da Aberdeen Art Gallery.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-117\" src=\"http:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/1\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/11_Room-to-roam-graphic-sign.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/1\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/11_Room-to-roam-graphic-sign.jpg 600w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/1\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/11_Room-to-roam-graphic-sign-300x225.jpg 300w, https:\/\/institutomesa.org\/revistamesa\/edicoes\/1\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/11_Room-to-roam-graphic-sign-200x150.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><br \/>\n<span class=\"legenda\"><em>Sinaliza\u00e7\u00e3o na entrada da cidade<\/em>. Projeto realizado junto com a redefini\u00e7\u00e3o da marca para a cidade com Jacques Coetzer, 2008, Deveron Arts. Foto: Deveron Arts<\/span><\/p>\n<h3>At\u00e9 que ponto \u00e9 poss\u00edvel aplicar a pr\u00e1tica da Deveron Arts em outros contextos?<\/h3>\n<p><i>A cidade \u00e9 o espa\u00e7o<\/i> conecta regi\u00f5es geralmente exclu\u00eddas das artes contempor\u00e2neas \u00e0 comunidade art\u00edstica internacional. Apesar de a pr\u00e1tica ter se desenvolvido no contexto de uma cidade rural do norte da Esc\u00f3cia, ela pode ser transferida para outros lugares. Para ilustrar a possibilidade, os curadores da Deveron Arts visitaram uma s\u00e9rie de pequenas cidades em locais variados. Elas foram escolhidas por diversos motivos: ao acaso, com base em interesse na comunidade ou por causa de uma sugest\u00e3o de um artista. O tamanho foi o \u00fanico denominador comum \u2013 entre 2 mil e 6 mil habitantes, com uma dist\u00e2ncia m\u00ednima de 25 quil\u00f4metros de uma cidade maior. Os dois primeiros exemplos escolhidos, Huntlosen e Sesimbra, s\u00e3o cidades da Alemanha e de Portugal, respectivamente. O terceiro exemplo foi a cidade de Ribeek Kasteel, na \u00c1frica do Sul, onde Jacques Coetzer, o artista que desenvolveu a marca <i>Room to Roam<\/i> para a Deveron, morava. Realizamos auditorias culturais e compara\u00e7\u00f5es com os temas de meio ambiente, heran\u00e7a, identidade e quest\u00f5es intergeracionais de Huntly em cada localidade. Em Sesimbra, por exemplo, as preocupa\u00e7\u00f5es ambientais giravam em torno da pesca predat\u00f3ria e, em Ribeek Kasteel, a popula\u00e7\u00e3o estava mais preocupada com o uso irrespons\u00e1vel de agrot\u00f3xicos e fertilizantes industriais. Em Huntlosen, tamb\u00e9m localizada na regi\u00e3o norte do pa\u00eds, o tema heran\u00e7a poderia ser pensado em rela\u00e7\u00e3o ao autor August Hinrichs, natural da cidade. Em Ribeek Kasteel, o t\u00f3pico demandaria enfrentar os legados do Apartheid. Cada um desses contextos poderia se beneficiar muit\u00edssimo de uma abordagem do tipo \u201ca cidade \u00e9 o espa\u00e7o\u201d.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, as pr\u00e1ticas da Deveron Arts n\u00e3o s\u00e3o relevantes somente para a arte socialmente engajada em contextos de cidades pequenas ou rurais. Consideramos que elas podem ser facilmente adaptadas de modo a colaborar com pesquisas engajadas para v\u00e1rias disciplinas e tamb\u00e9m produzi-las. Isso pode se dar em muitos n\u00edveis. Nestes anos na Deveron Arts, fazendo a curadoria de in\u00fameros projetos sociais de arte e trabalhando com comunidades e grande variedade de artistas contempor\u00e2neos, vi como o nosso trabalho repercute em diferentes c\u00edrculos e \u00e9 considerado importante. N\u00e3o \u00e9 a cidade ou as artes que t\u00eam a prioridade para determinar o que acontece, mas sim as duas em sua rela\u00e7\u00e3o uma com a outra. Se a ideia \u00e9 considerar contextos fora das grandes cidades como espa\u00e7os para as artes, as in\u00fameras pequenas comunidades que definem sua geografia social devem ser um ponto de partida para os curadores desenvolverem programas art\u00edsticos sustent\u00e1veis e significativos. Penso que essa abordagem \u00e9 poss\u00edvel de aplicar amplamente. Natureza selvagem, pequenas cidades e contextos rurais existem em todos os lugares, e a singularidade de cada local pode ser uma valiosa inspira\u00e7\u00e3o, cada qual exigindo m\u00e9todos espec\u00edficos, sensibilidade e receptividade \u00e0 comunidade e ao contexto para produzir programas art\u00edsticos estimulantes. Cidades pequenas s\u00e3o lugares ricos e gratificantes para pr\u00e1ticas art\u00edsticas novas e promissoras. As comunidades art\u00edsticas deveriam reconhecer esse potencial. As cidades pequenas tamb\u00e9m deveriam reconhecer o potencial dessas pr\u00e1ticas art\u00edsticas no sentido de mobilizar e discutir quest\u00f5es sociais, culturais, pol\u00edticas, hist\u00f3ricas e ambientais urgentes. Ambos devem desenvolver uma ecologia social e art\u00edstica que veja a cidade ou o lugar como seu ponto de partida. Ou seja, <i>as cidades s\u00e3o os espa\u00e7os<\/i>.<i> <\/i><\/p>\n<p>_<br \/>\n<sup>1<\/sup>Grande cl\u00e3 escoc\u00eas tamb\u00e9m conhecido como a Casa de Gordon. Seu chefe era o poderoso Duque de Huntly, hoje tamb\u00e9m Marqu\u00eas de Huntly. O cl\u00e3 (do ga\u00e9lico \u201cclann\u201d, ou progenitura) escoc\u00eas \u00e9 um grupo de parentesco que confere a seus membros a mesma no\u00e7\u00e3o de identidade e descend\u00eancia e, nos tempos modernos, tem uma estrutura oficial reconhecida pela Corte de Lord Lyon, que regulamenta a her\u00e1ldica e bras\u00f5es escoceses.<br \/>\n<sup>2<\/sup>No Parlamento ingl\u00eas, o \u201cShadow Cabinet\u201d (literalmente, Gabinete-Sombra) \u00e9 composto por membros do Parlamento e membros da C\u00e2mara dos Lordes da lideran\u00e7a do segundo maior partido, ou seja, o partido de oposi\u00e7\u00e3o oficial. O partido de oposi\u00e7\u00e3o nomeia um membro do Parlamento para acompanhar de perto cada um dos membros do Gabinete. Dessa forma, a oposi\u00e7\u00e3o pode ficar atenta a todos os setores do governo e question\u00e1-los minuciosamente. Al\u00e9m disso, significa que a oposi\u00e7\u00e3o ter\u00e1 membros do Parlamento e lordes prontos para assumir tarefas espec\u00edficas no Gabinete caso ven\u00e7am a elei\u00e7\u00e3o geral seguinte. Na C\u00e2mara dos Lordes, o termo \u201cporta-voz\u201d \u00e9 usado em vez de \u201csombra\u201d. Ver gloss\u00e1rio em <i>www.parliament.uk <\/i>(acessado em setembro de 2013).<br \/>\n<sup>3<\/sup>http:\/\/www.ssw.org.uk\/staff\/nunosacramento\/profile\/<br \/>\n<sup>4<\/sup>http:\/\/parliamentofdreams.com\/about\/<br \/>\n<sup>5<\/sup>http:\/\/freee.org.uk\/about\/<br \/>\n<sup>6<\/sup>http:\/\/www.contemporaryand.com\/blog\/person\/christine-eyene\/<br \/>\n<sup>7<\/sup>http:\/\/www.jacquelinedonachie.co.uk\/<br \/>\n<sup>8<\/sup>Ver outros lugares em http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/List_of_car-free_places.<br \/>\n<sup>9<\/sup>http:\/\/www.anthonyschrag.com\/<br \/>\n<sup>10<\/sup>Diz o artista: \u201cestrat\u00e9gia de pesquisa perform\u00e1tica\u201d \u2013 para mim, isso tem menos a ver com os g\u00eaneros tradicionais de \u201cperformance\u201d e \u201clive art\u201d e mais com estar de fato presente e \u201cvivendo\u201d com os participantes \u2013 ao inv\u00e9s de um espa\u00e7o mediado, como uma galeria ou teatro, trata-se de estar \u201cna rua\u201d, convivendo com as pessoas, atuando na vida di\u00e1ria, porque \u00e9 esse estar na experi\u00eancia vivida que faz compreender as quest\u00f5es e preocupa\u00e7\u00f5es pertinentes dos participantes \u00a0\u2013 e n\u00e3o as percep\u00e7\u00f5es do artista (externo). \u00c9 tamb\u00e9m o lugar onde as perguntas dif\u00edceis que os artistas fazem podem ser explicitadas e ganhar significado, e n\u00e3o um lugar distante de uma popula\u00e7\u00e3o, num cen\u00e1rio institucional (ou seja, museu\/galeria). Comunica\u00e7\u00e3o por e-mail com o artista, setembro de 2013.<br \/>\n<sup>11<\/sup> O artista convidou os participantes a questionarem o prop\u00f3sito do modelo de vida masculino levando-os ao topo de uma colina e pedindo que rolassem colina abaixo. O jogo de palavras com \u201croll\u201d (rolar) e \u201crole\u201d (em \u201crole model\u201d, modelo de vida), cuja pron\u00fancia em ingl\u00eas \u00e9 a mesma, foi pensado tanto para evocar a forte tradi\u00e7\u00e3o brit\u00e2nica de piadas ruins, chamadas de \u201cpiadas de pai\u201d, como tamb\u00e9m para permitir uma abordagem indireta do tema, com humor e fisicalidade.<br \/>\n<sup>12<\/sup>Um an\u00fancio foi colocado no jornal local oferecendo os servi\u00e7os de um \u201cpai\u201d, e qualquer fam\u00edlia sem pai (por motivos de trabalho ou outros mais pessoais) poderia contatar o artista e pedir que ele fizesse tarefas que os pais deveriam ou teriam feito.<br \/>\n<sup>13<\/sup>O artista convidou os homens que ainda moravam na cidade (ou seja, aqueles que n\u00e3o trabalhavam longe de casa ou no exterior) a se juntarem a ele na atividade bem masculina de fazer cerveja como forma de desenvolver discuss\u00f5es sobre os problemas e alegrias com os quais se deparavam como pais e como sentiam que o papel dos pais estava mudando.<br \/>\n<sup>14<\/sup> Por sua proximidade do Mar do Norte, Aberdeenshire \u00e9 um centro de trabalhadores de plataformas de petr\u00f3leo em alto-mar.<br \/>\n<sup>15<\/sup>Como, por exemplo, o projeto <i>The Town is the Menu <\/i>(A cidade \u00e9 o card\u00e1pio). Durante o outono de 2012, Simon Preston, consultor gastron\u00f4mico geralmente baseado em Edimburgo, trabalhou junto com a popula\u00e7\u00e3o local para revelar a identidade gastron\u00f4mica de Huntly e para criar e adotar um card\u00e1pio que fosse o carro-chefe da cidade. O card\u00e1pio foi inspirado nas hist\u00f3rias e tradi\u00e7\u00f5es da popula\u00e7\u00e3o e montado por um grupo de <i>chefs<\/i> locais. Esse projeto ajudou a recuperar a identidade culin\u00e1ria de Huntly e trouxe \u00e0 tona uma sele\u00e7\u00e3o de pratos locais com um toque contempor\u00e2neo. O card\u00e1pio ainda \u00e9 servido hoje em restaurantes e lanchonetes locais.<br \/>\n<sup>16<\/sup> http:\/\/www.jacquescoetzer.co.za\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A cidade \u00e9 o espa\u00e7o. Centro da cidade e arredores, Huntly, Esc\u00f3cia. 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