Nº6 VIDAS ESCONDIDAS
Bernie Masterson. Flight, 2020. Frame.

Atrás dos muros da prisão: Uma entrevista com Bernie Masterson

Na década de 1980, ouvi falar de uma professora de arte extraordinária que trabalhava no serviço prisional. Desde então, tive o privilégio de conhecer Bernie Masterson e de escrever sobre sua prática como educadora na exposição Lifelines em 2004, seu trabalho artístico na exposição Invocation em 2014 e sobre sua obra em vídeo Flight, que recebeu o Prêmio Janet Mullarney inaugural, da Highlanes Gallery, no Condado de Louth, em 2020. 

Muito conhecida e admirada pelos pedagogos como artista/educadora, sua prática é um exemplo do que o educador e proponente da pedagogia crítica Henry A. Giroux descreve como “pedagogia de fronteira”.1 Como educadora de adultos na prática artística, o trabalho de Bernie no serviço prisional é conhecido por suas metodologias de alta qualidade. Muitas exibições públicas do trabalho dos homens a quem ela ensinou deixam isso claro. Bernie faz parte de uma geração de artistas/poetas, incluindo Maggie Deignan, Mary Kelly, Brian Maguire, Paula Meehan e Mick O’Dea, que trabalham no serviço prisional e cujo trabalho contribui para a humanização dos indivíduos que a sociedade em geral rejeita e tira de vista.

Bernie Masterson. Flight, 2020. Frame.

Bernie tem formação em pintura e longa experiência como professora de arte nos Serviços Educacionais do Sistema Prisional Irlandês. Nos últimos anos, seu trabalho se desenvolveu por meio da adoção de práticas socialmente engajadas. Elas são de natureza interdisciplinar, às vezes colaborativa, e muitas vezes lidam com o tema desafiante do sistema prisional conforme vivenciado por ela em seu trabalho como professora. O texto e a entrevista abaixo abordam a transição de Bernie de artista/educadora a artista que envolve a política de seu trabalho em sua prática.

Esta entrevista é o resultado de conversas tidas ao longo de muitos anos entre mim, Helen O’Donoghue, Curadora Sênior, Chefe de Programas de Engajamento e Aprendizagem do Museu Irlandês de Arte Moderna, e Bernie, organizadas de maneira mais formal como perguntas e respostas em agosto de 2020.

Helen O’Donoghue: Bernie, o tema desta revista é “Vidas Escondidas”, e eu selecionei você e seu trabalho porque sinto que o cerne da sua prática está inserido em um sistema que fica inerentemente escondido da maior parte da sociedade – o sistema prisional e seus habitantes. Os prisioneiros são estigmatizados e mantidos longe da sociedade, mas você dedicou sua carreira e sua prática de ateliê a trabalhar com prisioneiros como educadora artística no sistema prisional e, nos últimos anos, começou a explorar temas como encarceramento e injustiça em seu trabalho em vídeo, trazendo a empatia e o respeito pela humanidade para um sistema que muitas vezes desumaniza seus residentes.

Bernie Masterson. Trabalhar e fazer parte dessa comunidade prisional traz suas próprias responsabilidades pessoais, todos que trabalham nessa área lidam com a realidade da vida na prisão de maneiras diferentes. A minha tem sido elevar o status das artes criativas na educação prisional e, subsequentemente, desenvolver projetos criativos que investiguem nosso papel como indivíduos e validem o prisioneiro como parte integrante da comunidade.

McD, Mountjoy Prison 2008, lápis de colorir sobre papel. A Unidade de Treinamento da Prisão – Prisão Mountjoy.

Helen: A justiça social motiva o seu trabalho?

Bernie: A justiça social fala por aqueles indivíduos que não têm voz, como os prisioneiros e aqueles à margem da sociedade que não são vistos nem ouvidos, trata de direitos humanos, dignidade, justiça e respeito.

Nick Stevenson, sociólogo e professor sênior da Universidade de Nottingham argumenta de forma convincente sobre a necessidade de um pensamento cuidadoso sobre como “promover uma cultura de direitos humanos por meio de formas mais esclarecidas de diálogo e interesse”.2 Esse diálogo pode oferecer padrões e julgamentos críticos que constranjam e questionem aqueles que têm poder político e econômico e pode ajudar a garantir que os padrões de direitos humanos sejam respeitados.3

Como artista, sinto essa responsabilidade e tento responder apropriadamente por meio da plataforma da arte, a fim de causar uma mudança positiva e desafiar a suposição negativa estereotipada do prisioneiro. A justiça social é um direito de todos; então, sim, é uma característica do meu trabalho.

EB, Cell Door, 2013, óleo sobre cartão. A Unidade de Treinamento da Prisão – Prisão Mountjoy.

Helen: Você poderia descrever sua jornada como artista de pintora a educadora, passando pela prática artística socialmente engajada?

Bernie: Na época em que era estudante, em meados dos anos 1970 e início dos anos 1980, trabalhei como voluntária no projeto Neighbourhood Youth Project em South Hill, Limerick [na costa oeste da Irlanda], que era uma área muito desfavorecida na época e testemunhei em primeira mão o benefício das artes criativas na comunidade e no desenvolvimento social.

Era muito difícil conseguir qualquer tipo de emprego no início dos anos 1980, então, depois da faculdade, fui a Dublin para uma entrevista para um cargo de professora em Coláiste Dhúlaigh (Faculdade de Educação Continuada) com o Diretor, John Burke. Ao ler minhas referências, ele me direcionou ao serviço prisional, dizendo: “Eu sei exatamente onde você pode fazer a diferença”. O coordenador de Educação Prisional, Vincent Samon, procurava um professor de artes criativas. Naquela época, a educação formal na prisão existia há cerca de cinco anos, então estava bem no início e era um momento empolgante para se envolver.  Antes disso, a educação na prisão era ad hoc e ministrada por agentes prisionais bondosos. Então, essa foi uma mudança muito bem-vinda. Eu consegui o emprego na Unidade de Treinamento, na Prisão Mountjoy para homens, cargo que se tornou permanente em 1986.  Naquela época, qualquer emprego permanente tinha que ser sancionado pelo Departamento das Finanças, pois o país estava em uma recessão grave. Então, eu fiz parte da primeira geração de educadores do Serviço Prisional Irlandês e trabalhava para o Departamento de Educação. Éramos uma agência convidada no ambiente prisional e o progresso era lento, mas constante.

A primeira coisa que notei foi uma falta extrema de artes na educação prisional. A ênfase principal estava nos três pilares: leitura, escrita e aritmética. Os níveis de alfabetização naquela época eram bem básicos, e muitos recursos foram alocados para resolver isso. No entanto, assumi como missão destacar a importância da arte como base para todo o aprendizado e para lidar com o desequilíbrio. A experiência da cultura era inexistente naquele ambiente e, então, eu me propus a montar um calendário de eventos artísticos e culturais para os alunos vivenciarem, como teatro, concertos de música clássica, exposições pertencentes ao Conselho de Artes etc., a fim de estimular o diálogo e levar essa experiência para o maior número de pessoas possível. Isso foi em 1986 e, desde então, a maior parte das prisões na Irlanda realizam até hoje uma semana ou um dia das artes dedicado às artes criativas em que ocorrem atividades/exposições internas ou dentro da prisão. Essa forma de atender às necessidades educacionais evoluiu para outras áreas importantes, como saúde e bem-estar, que é uma iniciativa da Cruz Vermelha Internacional. Conforme surgem as necessidades da população prisional estudantil, respostas educacionais são desenvolvidas e implementadas.

A experiência inicial no Neighbourhood Youth Project e os anos na educação prisional foram inestimáveis e embasaram meu próprio desenvolvimento pessoal como ser humano, educadora e artista em evolução para uma prática mais socialmente engajada. Esse processo surgiu gradativamente como forma de substanciar a comunidade prisional, dar voz a perspectivas novas e diferentes, aumentar a visibilidade de um grupo marginalizado na sociedade e trabalhar em prol de uma maior visibilidade e inclusão.

DC-D1, Landing Mountjoy, 2012, acrílico sobre tela. A Unidade de Treinamento da Prisão – Prisão Mountjoy.

Helen: Como a mudança do meio da pintura para o vídeo contribuiu para o trabalho?

Bernie: Como diz o artista de instalações americano Robert Irwin: “Ser um artista não é fazer pinturas ou objetos. Trata-se, na verdade, do nosso estado de consciência e da forma de nossas percepções.”4   

Acredito que para ser verdadeiro, ainda que de um ponto de vista subjetivo, é preciso buscar múltiplas perspectivas e formas de expressão. Adicionar outra camada de metodologia à minha prática, como vídeo e filme, trouxe um novo conjunto de ferramentas para explorar e investigar questões com as quais me preocupo de uma maneira nova e diferente. Também pode levar o trabalho a um público muito mais amplo.

Eu me lembro de Maire Collins (que foi eleita pelo Papa Francisco para ser a representante irlandesa no Conselho Pontifício para a Proteção de Menores em 2014) dizendo na abertura da minha exposição Invocation, um projeto que explorou o abuso institucional da Igreja e do Estado, que essas causas precisam que os artistas deem continuidade à conversa usando diferentes abordagens e perspectivas a fim de envolver a imaginação civil e abordar as questões de uma maneira holística e multifacetada. 

O feedback de um painel de discussão sobre a exposição destacou o poder das imagens visuais e do uso de áudio para despertar a memória de muitos dos painelistas, alguns dos quais haviam sido vítimas de abusos institucionais por parte da Igreja e do Estado. O painel de discussão girou em torno das respostas à exposição. A discussão foi gravada, mas os painelistas sentiram que as divulgações pertenciam apenas ao grupo que estava ali naquele momento e naquele lugar. Foi um momento sagrado… compartilhado.

Helen: Sim, eu me lembro daquela noite, e foi um momento em que o poder transformador das artes ficou evidente. A conversa foi evoluindo aos poucos, inicialmente tratou do seu trabalho e, quando todos começaram a falar sobre a resposta de cada um a ele, abriu-se naturalmente um espaço seguro para compartilhar histórias e experiências pessoais. A energia interpessoal na sala estava poderosa e muito emocional. Fiquei impressionada com a capacidade de pessoas que são sobreviventes de abusos institucionais saírem desse lugar vulnerável de vítima e compartilharem o poder de serem francas sobre sua experiência.

Bernie Masterson. Shrine, 2014. Frame.
Bernie Masterson. Shrine, 2014.

Helen: Como você vê seu papel como professora?

Bernie: Vejo o meu papel como o de uma facilitadora, ajudando os alunos a encontrarem a sua própria forma única de expressão. As artes dão ao prisioneiro uma oportunidade direta e íntima de autoencontro e reflexão. Ao aprender habilidades associadas às artes, os prisioneiros vivenciam aspectos de seu próprio potencial como pessoas criativas. Tendo vindo de um ambiente que pode ter sido um incentivo para que fossem hostis, eles se veem no ambiente humano da aula de artes da prisão, que permite que sejam criativos. É um mundo que pode refletir uma imagem deles mesmos que só eles podem ver, um mundo sobre o qual eles têm controle.

MOC, Between Two Worlds, 2010, óleo sobre tela. A Unidade de Treinamento da Prisão – Prisão Mountjoy.

Helen: Você se vê como defensora dos homens para quem trabalha/com quem trabalha ou prefere se ver/ver o seu trabalho como uma testemunha?

Bernie: Ambos, na verdade, como testemunha e defensora. A relação entre aluno e professor no ambiente prisional é importante e se baseia no respeito e na civilidade. As salas de aula e a sala de artes em especial se tornam um espaço íntimo onde você aprende sobre seus alunos e consequentemente sobre a vida deles. Compartilham-se histórias de vida. Discutem-se traumas da vida e relações familiares fragmentadas. Constrói-se confiança. Ouvir os homens é importante nesse intercâmbio aluno-professor. Às vezes é muito difícil escutar, sendo ao mesmo tempo um privilégio e um fardo. Meu trabalho se baseia nessa experiência. Eu processo, rumino ideias e desenvolvo uma resposta pessoal quando estou pronta. A expressão resultante é uma forma de assimilar todas essas informações e, como defensora e testemunha, tentar apresentá-las de um ponto de vista compartilhado.

Helen: A pedagogia crítica fundamenta o seu trabalho?

Bernie: Escritores e filósofos como Paulo Freire, Hannah Arendt, bell hooks e Henry Giroux dão uma estrutura a partir da qual se pode navegar pelas complexidades da condição humana e dos oprimidos no contexto da sala de aula.  A experiência da sala de aula é uma jornada que permite que alunos e professores avaliem o conhecimento, o poder e as experiências que existem entre eles, o lugar e a comunidade. A aprendizagem é bidirecional e constitui uma experiência conjunta entre professor e aluno.

A identidade e o eu são temas recorrentes no ambiente prisional. Paulo Freire define a práxis na Pedagogia do Oprimido como:

[…] reflexão e ação dirigidas às estruturas a serem transformadas. Por meio da práxis, os oprimidos podem adquirir uma consciência crítica de sua própria condição e, com professores-alunos e alunos-professores, lutar pela libertação.5

De acordo com Arendt, nossa capacidade de analisar ideias, lutar com elas e nos engajar na práxis ativa é o que nos singulariza como humanos.6

A sala de arte da prisão oferece aos alunos a oportunidade de refletir e desenvolver um meio de autoexploração voltado para o desenvolvimento e a consciência pessoal. Para mim, a analogia do poema vem à mente. Paula Meehan, uma das precursoras dos esquemas de artistas na prisão e, recentemente, Presidente da Poesia da Irlanda, expressa esse potencial de uma forma maravilhosa ao escrever o seguinte: 

Há poemas que contam histórias, mas há também poemas que apenas nos dão um momento de visão, de transcendência ou até mesmo de cor, ou apenas uma imagem que você pode levar com você. Duas linhas. Duas linhas podem salvar uma vida, eu acredito.7

Helen: Além do enfoque nas necessidades dos prisioneiros, o que dizer quanto aos seus próprios interesses como artista?

Bernie: Durante anos mantive minhas próprias necessidades como artista separadas. Mas nos últimos anos aconteceu uma mudança, sem querer, quando tirei um tempo para cuidar de minha mãe em seus últimos anos de vida. Isso levou a um projeto colaborativo entre minha mãe e eu chamado Drawing on the Body, apresentado pela Tallaght Community Arts e exibido em Rua Red em 2010. Foi uma experiência muito emocionante. Quando me voltei em tempo integral para a educação, meu novo trabalho artístico evoluiu como uma resposta pessoal a anos ouvindo sobre abusos institucionais de meus alunos, resultando na exposição Invocation realizada em Rua Red, de 14 de novembro a 20 de dezembro de 2014. Isso foi essencial, tanto para meus alunos quanto para mim, possibilitando um processo pessoal que era fundamental para meu bem-estar. Então, em resposta à sua pergunta, às vezes tanto os alunos quanto eu estamos entrelaçados em um processo criativo. 

Bernie Masterson. In A State of Grace, Invocation (cena 2), instalação em Rua Red, Tallaght, Condado de Dublin, 2014

Helen: Você se vê criando um acervo a partir das histórias que ouviu e que foram contadas pelos homens com quem trabalha?

Bernie: Eu documentei anteriormente uma série de narrativas de prisioneiros em uma instalação chamada Incarceration Altars através do esquema de porcentagem da Grangegorman (campus da Universidade Técnica (TUD)) para arte pública. [O esquema Per Cent for Art é uma iniciativa do governo, introduzida em 1978, pela qual 1% do custo de qualquer capital de financiamento público, desenvolvimento de infraestrutura e construção pode ser alocado para o comissionamento de uma obra de arte.] Esse nova obra é a reforma de um antigo Hospital de Saúde Mental, que traz consigo uma história de encarceramento de muitos pobres e doentes mentais.

Esse trabalho apresenta dez narrativas dos homens na Prisão Mountjoy apresentadas em uma instalação de vídeo de cinco canais. Investiga a relação entre pessoa, lugar e objeto por meio de uma série de imagens e narrativas de prisioneiros que buscam contextualizar os diferentes mundos da identidade prisional e da identidade privada. As palavras e os objetivos de Paul, um prisioneiro institucionalizado de longa data, vêm à mente ao refletir sobre seu objeto pessoal, seus talheres: “… quando eu era jovem aprendi o que fazer em casa, ter seus próprios talheres, mantê-los sempre limpos…” Outros escolheram velas, aeromodelos e pinturas. Os objetos possibilitam uma conexão com aquelas identidades e também são usados para refletir sobre outros temas, como luto e memória, transição e passagem, mediação e nova visão, e como eles servem como marcadores em uma situação de vida significativa, como o encarceramento.

Meus parceiros no projeto foram o Serviço Prisional Irlandês (IPS) e o Conselho de Treinamento Educacional da Cidade de Dublin (CDETB), bem como a agência de Desenvolvimento de Grangegorman. A exposição e os vídeos foram apresentados em centros de arte na Irlanda e no exterior e como parte de conferências sobre educação em prisões. Acho que vale a pena fazer uma citação do catálogo aqui. Falando na abertura, o Professor Ciarán Benson, Presidente do Grupo de Trabalho de Arte Pública de Grangegorman, falou com grande eloquência sobre os mundos interconectados e contidos da prisão e da identidade privada:

Estar “dentro” é o eufemismo para estar na prisão. Os espaços internos são em sua maioria pequenos, envoltos, às vezes se empurram contra as paredes, outras vezes são um refúgio de tudo o que está fora. O que Bernie Masterson explora com tanta astúcia, e com uma simpatia palpável e contenção habilidosa, em Incarceration Altars é o quanto pessoas perturbadas – e às vezes pertubadoras podem criar ilhas de significado únicas e profundamente pessoais, alimentadas pela memória e imaginação, a partir dos pequenos espaços a que foram confinadas. Neste projeto memorável e comovente, ela mostra como o eu no espaço pode estender visivelmente a pessoa e criar um lugar humanizado, ainda que simples. 

Writing From the Cell, 2013, óleo sobre tela. A Unidade de Treinamento da Prisão – Prisão Mountjoy.
Bernie Masterson, Incarceration Altars #3, 2014.

Helen: Como você posiciona o projeto de autorretrato em andamento na sua prática?

Bernie: A identidade tem sido uma característica do meu trabalho há bastante tempo. Na prisão, a verdadeira identidade pode se alterar para proteger a si mesmo, e os homens às vezes desenvolvem uma masculinidade exacerbada que é outra forma de máscara. O objetivo de desenvolver essa máscara da prisão pode ser comparado à descrição de Winnicott do Falso Eu, cuja função defensiva é esconder e proteger o Verdadeiro Eu.8 Os autorretratos dão ao prisioneiro tempo para refletir e explorar sua identidade em um ambiente hostil desprovido de identidade pessoal. O projeto de autorretrato permite explorar as diferentes facetas de si mesmo e é uma experiência humanizadora no contexto da prisão. É um projeto contínuo e uma prática que comecei desde o início. Originalmente, era uma forma de entrar na aula, uma marca para dizer que você estava presente, como uma estratégia para quebrar o gelo, mas se desenvolveu muito ao longo dos anos e resultou em centenas de retratos. É um corpo de trabalho ao qual pretendo voltar em um futuro não muito distante, espero. Em minha própria prática, a identidade sempre se manifestou de várias formas, desde a identidade cultural e nacional até a identidade pessoal, como meu projeto Drawing on the Body que explora a relação entre mãe e filha. Não somos apenas uma única identidade, e explorar isso traz muitos insights sobre a condição humana e o eu em evolução. Meu trabalho atual também trata de explorar identidade, mas, nesse caso, é sobre não deixar uma identidade nos definir.

Anon, Fence (Autorretrato), 2006, carvão sobre papel. A Unidade de Treinamento da Prisão – Prisão Mountjoy.

Helen: Ao desenvolver seu trabalho com filme, você também usou materiais arquivísticos dos acervos dos Serviços Prisionais. Você pode falar um pouco sobre isso?

Bernie: De novo, é um trabalho sobre identidade… a perda de identidade.

O Museu da Prisão Mountjoy tem sido uma fonte de inspiração. Foi lá que encontrei o caderno de caligrafia Vere Foster Bold Writing or Civil Service no final dos anos 1990. Esse caderno era usado para ensinar caligrafia usando provérbios como o texto a ser copiado. A última tiragem foi em 1957, mas mesmo o caderno de caligrafia atual ainda tem alguns desses provérbios. Eu vi os provérbios como outra forma de controlar uma nação subjugada em termos de cultura, linguagem e moralidade. Esses cadernos foram enviados para todo o Império Britânico, Índia, África etc. A poetisa irlandesa Máighréad Medbh colaborou comigo no projeto e transformou os provérbios em anagramas dialógicos. Juntas, apresentamos outra perspectiva. Bold Writing é nossa resposta em poesia e arte visual a esse caderno e ao imperialismo. Conforme escrevemos em nossa declaração de artista, é uma meditação “sobre subjugação e expropriação”.

Helen: Como você entende os paralelos entre histórias passadas e realidades presentes de injustiça social, política e cultural nesse trabalho?

Bernie: Relembrar o passado nos dá a oportunidade de refletir, de considerar, de mudar; deve embasar o presente. Ao nos concentrarmos no passado por meio da consciência coletiva de uma psique nacional reprimida, somos confrontados não apenas com nossa própria realidade nacional visceral, mas com a realidade de outros que foram deslocados e destituídos – o estigma profundo que permanece e a natureza confusa de identidade.

Capa do Caderno de Caligrafia Vere Foster.
Caderno de Caligrafia Vere Foster.
Bernie Masterson, Bold Writing, 2016

Helen: Você construiu uma confiança extraordinária entre você e os homens com quem trabalha. O fato de eles estarem dispostos a compartilhar suas histórias é uma prova dessa confiança – uma essência da humanidade que as práticas de arte socialmente engajadas podem possibilitar. O que levou você à arte?

Bernie: Quando eu era uma jovem estudante do primeiro ano no Convento Marista em Carrick, Shannon, ouvi um professor visitante, Professor Richard David Ingalls (1932-2016), da Universidade de Spokane, em Washington, falar sobre “o papel do artista na sociedade”. Fiquei imediatamente impressionada com o poder daquela declaração e escutei com atenção! O poder da imagem visual da popularidade da televisão e publicidade ao cinema teve um grande impacto quando eu tinha 13 anos.  As imagens visuais eram outra linguagem, outra forma de se conectar com as pessoas, outra forma de dizer algo sem precisar falar. Em termos de educação prisional, isso a torna extremamente importante como meio de conexão e comunicação com os alunos sem a necessidade de usar palavras. Na aula de arte na prisão, as histórias visuais vêm primeiro, depois vêm as palavras… é mais fácil assim para a maioria dos alunos, e por meio dessa experiência e compartilhamento vem a confiança. Eu gosto de citar a escritora e ativista bell hooks nesse aspecto:

Como uma comunidade de sala de aula, nossa capacidade de gerar entusiasmo é profundamente afetada pelo nosso interesse uns pelos outros, em ouvir as vozes uns dos outros, em reconhecer a presença uns dos outros.9

Helen: bell hooks também fala sobre a importância do amor e do amor-próprio quando se está trabalhando como professora. E você? Imagino que todo esse processo deva ter sido intenso para você. O que você faz para se nutrir, para se cuidar?

Bernie: Eu mergulho no meu próprio trabalho. Eu caminho, pinto e encontro conforto na paisagem.  Gosto da vista aberta e, em especial, aprecio uma paisagem horizontal.  As janelas da prisão são faixas verticais (projetadas para oprimir), e acho isso muito desconcertante.  Levei muito tempo para me acostumar com isso e, então, eu faço caminhadas saudáveis e aprecio grandes vistas panorâmicas. Também tenho a sorte de ter meu próprio ateliê e poder continuar desenvolvendo minha prática e metodologias no meu próprio tempo. Meu ateliê é meu santuário.

Bernie Masterson, Flood Fields (Condado de Clare, Irlanda), 2014, óleo sobre cartão.

Recursos sobre educação em direitos humanos

https://www.thersa.org/discover/publications-and-articles/rsa-blogs/2019/03/the-role-of-the-arts-in-promoting-a-culture-of-human-rights

https://journals.sagepub.com/doi/abs/10.1177/1749975513494879?journalCode=cusa

O papel das artes na promoção de uma cultura de direitos humanos – RSA

***

Bernie Masterson
Nasceu em Ballymoney, Condado de Antrim, Irlanda do Norte. Mora e trabalha em Dublin. Ela concluiu com distinção o Mestrado de Belas Artes (MFA) na Faculdade Nacional de Arte e Design (NCAD). Tem uma vasta experiência com serviços educacionais para prisões na Irlanda como professora e artista. Recebeu o Prêmio Janet Mullarney 2020 inaugural por seu trabalho em vídeo Flight.

Helen O’Donoghue
Curadora Sênior, Chefe de Engajamento e Aprendizagem no Museu Irlandês de Arte Moderna desde 1991. Recebeu recentemente uma Bolsa Fulbright e passou três meses no MoMA. Artista Plástica de formação, ela está comprometida com práticas socialmente engajadas e pedagogia crítica que embasam seu trabalho curatorial e de escrita.


1 Ver GIROUX, Henry A.; MCCLAREN, Peter (Orgs.) (1994) Between Borders, Pedagogy and the Politics of Cultural Studies (Nova York, Londres Routledge, 1994) e GIROUX, Henry A. “Travelling Pedagogies -interview with Lech Witkowski”. In: GIROUX, Henry A. (Org.). Disturbing Pleasures: Learning Popular Culture (Nova York, Routledge, 1994) pp. 153-171.

2 STEVENSON, Nick. “Human(e) Rights and the Cosmopolitan Imagination: Questions of Human Dignity and Cultural Identity”. SAGE Journals. Vol. 8. Ed. 2, p. 193.

3 Ibid, p.182.

4 IRWIN, Robert. The Museum of Modern Art, MoMA Highlights (Nova York: MoMA, revisado em 2004, publicado originalmente em 1999) p. 269.

5 FREIRE, Paulo. Pedagogy of the Oppressed (? Cidade: Bloomsbury Academy, 1970) p. 126.

6 ARENDT, Hannah. The Human Condition. Chicago: University of Chicago Press, 1958.

7 MEEHAN, Paula. “I Believe that Two Lines of Poetry Can Save a Life”. In: Irish Independent. 6 mai. 2018.

8 WINNICOTT, Donald W. . The Maturational Processes and the Facilitating Environment, Studies in the theories of emotional development. (Madison, CY; International Universities Press, 1963) p.142.

9 hooks, bell. Teaching to Transgress  (Londres e Nova York, Routledge, 1994) p.8.