Maria da Penha Macena, Luiz Claudio Silva, Luiza de Andrade, Izabela Pucu e Mário Chagas, 17 de dezembro, 2017, Casa de Dona Penha e Luiz Claudio Silva. Foto: No disparador automático, Izabela Pucu.

Viver em partilha no cuidado (ou a Vila Autódromo e o Museu das Remoções como laboratórios para uma nova democracia)

Um diálogo com Maria da Penha Macena, Luiz Claudio Silva e Luiza de Andrade

Interlocução, apresentação e edição: Izabela Pucu e Mário Chagas
Gravação áudio/ vídeo: Luiza de Andrade
Transcrição: Talita Prestes Vieira
Slide Shows: Luiz Claudio Silva

Apresentação

Era uma tarde ensolarada de sábado, 16 de dezembro de 2017, cinco dias antes da entrada oficial do verão. Juntos, partimos para a Vila Autódromo. Porque era sábado, dia da criação 1, como diria o poeta Vinícius de Moraes, dia que parecia ideal para conversamos livremente com uma família cujo papel foi decisivo no processo de r(e)existência à remoção imposta pela Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro às famílias da Vila Autódromo. Maria da Penha Macena, Luiz Claudio da Silva e Nathalia Macena da Silva, filha do casal, iam nos receber na sua casa, uma das 20 que restaram, construídas de forma padronizada pela prefeitura, após a remoção de grande parte daquela comunidade, antes habitada por mais de 600 famílias.

No caminho, avisamos que íamos nos atrasar cerca de 20 minutos. Ao chegar, batemos palma no portão da casa, chamamos pelos nomes. Apenas os cães da rua, da casa e dos vizinhos nos respondiam. Passamos a ligar, sem sucesso, para Luiz Claudio e Nathalia. Dona Penha, como também é conhecida, não usa celular. A tarde de sábado, de um calor sem trégua, começou a se arrastar; foi aí que a filha da Sandra Maria de Souza Teixeira, outra importante e combativa liderança na luta da Vila Autódromo, nos disse: “Minha mãe está aguardando vocês”. Fomos recebidos na casa da Sandra Maria, que nos esclareceu: Penha e Luiz haviam aproveitado nosso atraso para ir ao mercado – era sábado, dia de criação e trabalho – mas já estavam a caminho; pediram a ela que fizesse as “honras da casa”. Saboreamos um suco gelado feito com capim limão batido, colhido no quintal de Sandra. Conversamos sobre as remoções na Vila Autódromo a partir da presença dos cães, que, de algum modo se impôs, uma vez que suas vidas também estavam ligadas à remoção das famílias da Vila Autódromo, quando muitos animais, assim como as pessoas, ficaram sem suas casas.

Penha e Luiz chegaram. Mudamos de casa. Mais uma vez fomos bem cuidados e hidratados com suco de manga, partilhamos um lanche que havíamos levado. Dona Penha justificou a ausência de sua filha Nathalia em virtude de um compromisso de trabalho e nos convidou para o fundo do quintal: uma área gramada, arborizada, com boa sombra, mesas, cadeiras e uma churrasqueira móvel 2 construída a partir de um carrinho de mão.


Fig 1. Churrasqueira móvel. Construída pelo artista Guga Ferraz no âmbito do projeto Céu aberto. Foto: Izabela Pucu
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Naquele sábado também estava conosco Luiza de Andrade – jovem apoiadora da luta dos moradores da Vila Autódromo e do Museu das Remoções – que cuidaria do registro fotográfico e das gravações em áudio e vídeo. Dona Penha, ao ver a Luiza, envolveu-a num forte abraço e sorrindo apressou-se em dizer: “a Luiza também é minha filha, ela pode falar como minha filha.3” A certa hora, Sandra Regina Damião, outra moradora da Vila, veio buscar a churrasqueira. Era aniversário de Augusto, seu marido, e haveria comemoração. Ainda não tínhamos iniciado formalmente a conversa pretendida, focada nas relações entre luta, museu e cuidado; a câmera filmadora não estava ainda assentada diante deles, mas em poucos instantes já havíamos vivenciado muitas coisas, conhecido histórias, pessoas incríveis e seus modos de vida, naquele sábado de festa, trabalho e criação.

Naquele dia, dona Penha, como sempre, estava inspirada e atenta. Se colocou com clareza singular e, de forma gradual e sistemática, suas falas foram ganhando cada vez mais densidade na articulação de ideias e questões como luta, favela, museu, história, amor, medo e esperança. Entre ela e Luiz transbordava imensa cumplicidade, visível em olhares e toques, respeito e admiração mútuos. Naquele dia, ficou clara a potência de vida, a potência criativa e de resistência, mobilizadora de afetos poéticos, presente na luta dos moradores da Vila Autódromo. Eles, que enfrentaram e venceram as forças neoliberais da esfera pública e privada, ocultas por trás dos megaeventos, entre os quais incluem-se os Jogos Olímpicos de 2016, e permanecem em luta por aquele território que hoje coincide com o espaço do Museu das Remoções – um museu a céu aberto, composto pelas casas, pelas pessoas, pelos bichos e as plantas, enfim, por tudo o que resistiu às remoções. Para Penha, o museu é algo em processo, que segue se fazendo e refazendo, e a palavra é esperança. “A esperança de ver um dia um museu dizer assim: chega de remoção”.

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Retendo em nossa imaginação a cena daquele sábado de trabalho, festa e criação na Vila Autódromo, façamos um recuo para o mês anterior, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, onde o sociólogo, poeta e economista português Boaventura de Sousa Santos fez um pronunciamento sobre o “tempo incerto” em que vivemos e sobre o que ele chamou de “desimaginação do social4”. Em nosso entendimento essa desimaginação, que afeta de modo sensível as artes, as ciências, o museu, entre outras instituições ligadas ao patrimônio cultural e à memória, tem muita relação com o que conversamos com Penha, Luiz e Luiza, naquele sábado de sol. Na sua fala, alinhado com o pensamento do filósofo Espinosa (1632-1677), Boaventura considerou que deve existir certo equilíbrio entre o medo e a esperança, para ele, dois afetos fundamentais. Sem esperança, diz Boaventura não há possibilidades de construir segurança.

Em que sociedade estamos de novo a entrar? Estamos a entrar em sociedades em que, em muitos países, majoritárias massas enormes da população vivem com medo, sem esperança. E onde um pequeno grupo, econômica e politicamente muito forte, só vive com esperança, sem medo. Deixou de ter medo que os seus privilégios sejam atacados e destruídos. Deixou de ter medo de ser confrontado e é arrogante. Precisamente, porque só tem esperança sem medo. Enquanto a grande massa das populações vive na espera sem esperança e com medo. Um medo sem esperança leva à resignação. A desigualdade e a injustiça social, por maiores que sejam, nunca conduziram à resistência sem uma ideia alternativa e uma ideia de esperança. Sem esperança não há possibilidade de construirmos uma sociedade melhor”.5

Avançando em sua argumentação, Boaventura pergunta: “Portanto, qual é nossa missão democrática?” 6 – a qual ele mesmo responde: “Construir algum medo para aqueles que não têm nenhum. Construir muitas esperanças para aqueles que não têm esperança nenhuma”7, apontando a necessidade da Europa aprender com o mundo não europeu, que muitas vezes foi desprezado por ser considerado menos desenvolvido, de acordo com a ótica colonialista.

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Voltemos à cena de sábado, não de um sábado qualquer, mas daquele sábado na Vila Autódromo, em que discutimos a possibilidade de uma museologia do afeto, do cuidado, e nos fizemos conscientes de que sem memória não há criação; de que sem criação a memória e o trabalho são estéreis, não servem para a vida; de que a luta não se faz apenas de punhos cerrados, mas também de braços e peitos abertos; de que luta é sobretudo um modo de vida, portanto, de trabalho, festa e criação. Desejamos, no aqui e agora do leitor, que tudo o que aprendemos naquele sábado, partilhado aqui nos fragmentos de conversa que se seguem, dispare novos afetos, amplie a potência de agir, a potência de vida de cada um, e precipite a emergência de outras experiências igualmente intensas, inteiras e singulares pelo mundo…Oxalá!

 
Fig 2 e 3. Foto aéreas Vila Autódromo antes e depois as remoções. Fotos: Claudio Silva e Jimmy Mercier.

I. A família expandida, o cuidado como ferramenta e a formação pela luta

Mario – Eu gostaria que vocês falassem um pouco sobre como aconteceu todo esse processo de remoção movido pela Prefeitura do Rio, dos impactos da chegada de um megaevento como as Olimpíadas, enfim, de tudo que trouxe o processo de remoção para essa comunidade.

Luiz – Quer dizer, a comunidade sempre foi ameaçada pela especulação imobiliária, pela sua localização numa área valorizada, mas com as Olimpíadas a remoção foi autorizada. Nós sabemos muito bem que o motivo não era a Olimpíada em si, mas a especulação imobiliária que está por trás dela.

Penha – Com as Olimpíadas veio a verba para tirar a gente!

Mario – Veio a verba para tirar, mas vocês conseguiram vencer as Olimpíadas. Como é que vocês encaram isso?

Penha – É um pensamento único: eu queria que o meu direito fosse respeitado. Para mim, isso era fundamental. Eu entendo assim, se isso é direito eu não deveria nem brigar por ele. Automaticamente ele deveria ser respeitado, mas a partir do momento em que alguém não quer respeitá-lo, eu tenho que fazer com que ele seja respeitado. Eu acho que a nossa população carente, os favelados, os trabalhadores de verdade, tem que ter essa consciência. Que o direito tem que ser respeitado e não tem preço. Porque quando nós lutamos pelo nosso direito, para que ele fosse respeitado, as pessoas que tem dinheiro quiseram comprá-lo. E aí não pode. Porque direito não se vende, direito se conquista. Não é isso? Então, é igual felicidade, ninguém é feliz completamente se não conquistar a felicidade. Você só é feliz quando você conquista algo.

Mario – Luiz, nós percebemos que entre vocês; Penha, você e Nathalia, há um cuidado muito grande, mas entendemos também que há uma espécie de casa expandida, de família expandida, na medida em que a casa de vocês virou um centro importante na luta das famílias da comunidade Vila Autódromo contra o processo de remoção. Hoje mesmo eu ouvi você dizer que a Luiza, que está aqui nos filmando, é como uma filha para vocês. Então vocês têm um conceito de família que envolve outras pessoas para além dos laços sanguíneos e familiares. Como é isso?

Luiz – É, de fato, nessa luta de resistência aqui na Vila chegaram vários apoiadores, nós pegamos afinidade com muitos deles e a nossa casa acabou sendo aberta a todo esse povo que veio de fora para nos apoiar. Pessoas que entenderam a nossa luta, as arbitrariedades do poder público, as covardias que nós sofremos. Uma comunidade legalizada sendo massacrada em nome das Olimpíadas. E esse pessoal que chegou, nós sempre tratamos com muito carinho, e isso criou um relacionamento afetivo muito grande entre nós, foi quando a família cresceu. Cresceu e foi muito bom, hoje nós temos amigos em vários lugares do Rio e até de fora, inclusive até em outros países.

Penha – Complementando essa fala do Luiz, eu queria dizer que nós tivemos dois momentos diferentes na Vila: um momento em que perdemos muitas pessoas, muitas famílias que foram embora, cada um por seus motivos, cada um por suas preocupações. E nós nos sentimos abandonados porque era uma perda muito grande para a gente que queria ficar nesse território. Mas, ao mesmo tempo, teve outro momento, o da chegada de novos apoiadores, como a Luiza, como a Larissa [Larissa Lacerda, que foi do Comitê Popular da Copa e das Olimpíadas do Rio de Janeiro], enfim, como muitos que vieram. Porque, assim, nós tivemos uma prova de amor muito grande, foi maravilhosa essa troca, a solidariedade de estudantes, famílias, enfim, desses apoiadores que iam chegando. Hoje eu costumo dizer que eles são a segunda família da Vila Autódromo, porque quando eles chegaram a nossa casa foi se abrindo. Isso foi tirando nossa privacidade, num certo sentido, porque nossa casa deixa de ser só nossa moradia, para ser moradia de todos, passa a fazer parte da história da Vila, junto com a nossa família e junto com esse grupo que veio nos apoiar, que foi lindo! Porque a gente vai se colocando no lugar do outro, porque os apoiadores que vinham, e que vem até hoje, tem essa troca de amor. Eles trazem e levam, então eu acho que isso é viver em partilha, isso é fundamental. A gente partilha o pão na mesa, a gente partilha a palavra e a luta, a gente partilha o abraço, o carinho e isso nos faz resistir. Faz a gente ficar forte.

Izabela – Eu me lembro, Penha, nos diálogos que aconteceram no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica8, que você falou com muito respeito dessas famílias que foram embora em meio à luta, que não resistiram. Disse tê-las acolhido quando eles vieram de visita e que, muitas delas sentiam saudade da vida na Vila Autódromo, mesmo tendo recebido dinheiro para refazer suas casas em outro lugar. Você nunca as condenou por terem saído e acho que nisso tem uma lição importante, num momento que temos uma fragmentação grande, a separação de grupos que, muitas vezes, estão lutando pela mesma causa, pelos mesmos direitos.

Penha – É fundamental a gente ter esse entendimento, porque nem toda família é igual. Então eu tive a sorte de ter uma família que conseguiu manter uma união verdadeira. Nós sabíamos o que nós queríamos. Eu, Luiz, Nathalia e minha mãe, Antônia, nós sabíamos o que queríamos. E antes de entrar nessa coisa toda, nós sentamos e dissemos um para o outro: vamos até o final seja o que for? Nós estamos prontos, mas tem uma coisa importante: nós temos que estar unidos. No mesmo amor, na mesma alegria, na mesma paz, e que nada dessa luta tire o nosso melhor. Porque o nosso melhor ninguém pode tirar.

Mário – Luiz, no início da nossa conversa, quando o gravador ainda não estava ligado, você falou que vocês também passaram a cuidar dos apoiadores, além de serem cuidados por eles. O que isso influenciou na luta?

Luiz – Foi fundamental. Vou te falar! Para mim, eu comecei a lutar, a minha bandeira começou a se transformar em uma forma de agradecimento a todo esse pessoal que veio de fora para cá. Porque, rapaz, você ver uma pessoa que veio lá de Campo Grande, veio lá de Niterói, de tanto lugar do Rio de Janeiro, chegar aqui para apoiar essa luta. Eu tinha que respeitar isso. Tenho o maior carinho, olha o cuidado dessas pessoas! Eu falava para as pessoas – “poxa, você podia estar na praia agora. Podia estar vendo um filme, mas está aqui andando no entulho! Promovendo a arte aqui com a gente. Fazendo aqui um teatro, passando um filme. Poxa, isso para mim não tem preço, sabe?” E isso foi agregando valores, conhecimento, foi crescendo. E a troca é incrível. E todos eles falando que aprenderam muito aqui com a gente, e a gente querendo saber o que eles estavam aprendendo! – “Rapaz, a gente aprende muito aqui. Sai renovado, é incrível vir aqui. Vocês passam pra gente uma energia incrível!“. E a gente ficava assim sem saber o que estava ensinando para esse povo. A gente estava lutando pela nossa casa, lutando pelo chão a que gente tem direito, direito que não estava sendo respeitado. Mas que bom que eles aprendem alguma coisa, não é?

Izabela – É interessante pensar nessa passagem da luta pelo direito à moradia como algo da ordem do particular e do privado, para uma dimensão de luta coletiva. E como isso expande a partir de uma família a ponto de, por exemplo, a Luiza ser considerada uma filha da família.

Penha – Eu acho que é interessante quando a gente sai do nosso privado, quando a gente sai do nosso cotidiano e abre o espaço; a gente começa a perceber que trabalhar no coletivo é muito melhor. Eu acho isso. A gente sai do nosso conforto, como a Luiza saiu do conforto dela, e eu saí do meu. É riquíssimo isso, porque isso é uma troca que não tem preço. Nós estamos aqui, hoje é sábado, você poderia estar na sua casa descansando, eu poderia estar, ela também. E estamos aqui batendo esse papo, e cada um de nós vai sair fortalecido. Porque quando a gente partilha esses encontros a gente ganha muito. E isso é fundamental para mim, para você, e acho que é isso que faz a diferença. Nós abrimos as portas e fomos buscar um horizonte, onde ninguém conhecia nada. E fomos obrigados a ir por esse horizonte porque houve uma ameaça, nós não fomos por livre e espontânea vontade. Nessa busca por respeito, nós fomos perdendo algumas famílias, mas fomos ganhando outras famílias também. E assim nós aprendemos muito a trabalhar no coletivo, o que é superimportante.

Luiza – Acho que essa é a lição aprendida por quem vem encontrar as famílias na Vila Autódromo, sabe? É esse senso de comunidade que eles têm, esse senso de coletividade. E isso revelou para mim alguns problemas que eu tenho em relação a minha comunidade. Hoje, por exemplo, a gente chegou antes deles e fomos recebidos por uma vizinha. Se eu marcasse algum compromisso na minha casa e chegasse atrasada, a minha vizinha não ia receber as minhas visitas como a Sandra recebeu as visitas da Penha. Sabe, essa troca eu não tenho. Eu até conheço os meus vizinhos, não sou tão distante assim. Mas essa forma de vida revela os problemas que a gente tem na sociedade e que aqui eles não têm. Na verdade, eles são criadores de soluções. Essa família aqui, que se tornou uma família emblemática na Vila Autódromo, Penha, Luiz e Nathalia, eu aprendi muito com eles, com esse relacionamento entre mãe e filha, filha e pai. Acho que esse aprendizado também vem mudando a minha própria relação familiar.

Penha – É importante voltar um pouquinho atrás e falar que nossa família já tinha um trabalho social dentro dessa comunidade, antes das remoções. O Luiz, por exemplo, tinha um projeto com as crianças. A gente tinha um trabalho com a igreja, na nossa casa também funcionava uma catequese.

Mario – O parquinho, vocês é que fizeram?

Luiz – O parquinho foi feito com doações de brinquedos que nós conseguimos, e, em mutirão, nós montamos o parquinho. Eu sou professor de educação física, então eu comecei a desenvolver um trabalho com futebol para meninos e meninas, tinha torneio com premiação, festividades e passeios… eu levei criança ao Pão de Açúcar, ao Maracanã, para conhecer a Reserva Marapendi e passear de barco na Ilha da Gigóia, na Barra da Tijuca.

Penha – Porque as crianças, muitas das vezes, não tinham passeios, só dentro da comunidade. E ele tinha a preocupação de levar as crianças para mostrar a cidade, para conhecer outras coisas. Tinha criança aqui que nunca tinha ido a uma praia, com 12,13 anos. Imagina! E a praia é de graça e é aqui pertinho. Mas às vezes o pai e a mãe não tinham essa preocupação, esse cuidado. Então o cuidado já era trabalhado por nós dentro da comunidade. Porque a comunidade é uma grande família. Então a gente já tinha esse cuidado natural, eu costumo dizer que o cuidado, ele é natural…

Izabela – Mas como assim natural? O que se vê, por exemplo, no relato da Luiza, é justamente o contrário.

Penha – Natural, do dia a dia. O natural assim, quando você mora numa comunidade, por exemplo. Porque o cuidado já começa na nossa casa. Nós precisamos ter o cuidado da limpeza, o cuidar mesmo do dia a dia, é uma coisa meio natural já. A mulher, por exemplo, ela já tem essa preocupação de ter esse cuidado. De lavar roupa, de não deixar a roupa suja, de limpar a casa. Imagina se a gente não fizer nada disso, isso é um cuidado. É uma arte, que, ao mesmo tempo, é um cuidado e um trabalho. E dentro da comunidade, dentro de favela, a gente tem esse grande cuidado ampliado, digamos assim. Porque a comunidade, o vizinho se preocupa com o outro, com o filho do outro, com o animal do outro. Às vezes o vizinho vai trabalhar e pede -“dá uma olhadinha, bota uma água pro meu animal”. A gente tem essas trocas, essa partilha.

Izabela – O que me fascina e me emociona muito é perceber, a partir dos relatos que eu pude ouvir hoje e em outras ocasiões, a maneira pela qual o cuidado surge como método, como caminho de luta, num contexto como esse, que é de ameaça, de violência, de retirada dos direitos, de escassez. O cuidado ressurge como um instrumento fundamental e a luta, como você falou, Penha, como algo formador de uma nova consciência em vocês, além da consciência dos seus direitos. O cuidado como instrumento de uma luta política, e ao mesmo tempo como transformação da subjetividade de cada um. A luta como cuidado, cuidado de si, cuidado do outro, cuidado do coletivo, cuidado com o chão que se pisa…

Penha – Com os animais…

Mário – Com as plantas… eu sei que você, Luiz, anda fazendo um replantio aqui na região. Como é o cuidado de vocês com o espaço, com o meio ambiente, o cuidado com os animais, com as plantas? Como é que vocês operam com isso? Isso teve importância na luta?

Luiz – Ah, teve muita importância sim! Porque nós tivemos aqui pessoas de vários campos, inclusive pessoas que mexem com reflorestamento, que nos ajudaram com a horta comunitária. Pessoas que vieram da Fundação Oswaldo Cruz. Isso vai agregando valores, vai passando conhecimento, e você vai vendo a importância de tudo.

Izabela – A gente está aqui embaixo de um pé de atemoia, ali a gente viu um pé de araçá carregado de frutos. Mesmo a Vila tendo sido reduzida a um espaço mínimo já existe esse cuidado, ou se manteve esse cuidado. A gente está aqui com um cachorrinho que veio da casa da Sandra, cuja história está totalmente vinculada às remoções, à destruição das casas e à saída das famílias… muitos bichos ficaram sem ter para onde ir.

Luiz – Esse cachorrinho é Ônix. Todos são frutos das remoções. Inclusive essas árvores que vocês estão vendo, a maioria delas são sobreviventes, porque no final nós não deixamos mais eles demolirem. Não tinha mais cabimento estar derrubando as árvores. Então nós conseguimos preservar algumas, removemos até um abacateiro com auxílio das máquinas da Prefeitura, as mesmas que antes estavam demolindo nossas casas. O abacateiro está em frente à igreja, demorou muito para florescer, mas agora está dando folha. Quer dizer, acho que salvamos uma árvore. O coqueiro não vingou.

Mario – E esse cuidado vai se expandindo da casa para o espaço.

Izabela – E assim a família cresce.

Mario – E a luta cresce!

Izabela – E a luta cresce junto com a família e cada indivíduo também cresce individualmente.

Penha – Essa foi a importância da luta, porque normalmente nós, os favelados e os pobres, nós que moramos em comunidades, não temos noção do que é nosso direito. E a gente vive muito envolvido na sobrevivência nossa do dia a dia, para sobreviver e manter a casa, e tudo é muito difícil. Então nós não temos tempo de refletir em relação ao que é nosso direito, sobre como cobrá-los, e fomos percebendo muito isso na luta, quando mexeram na nossa moradia, com a nossa casa que é o centro da nossa vida. Porque todos nós temos direito à moradia, todos nós viemos aqui para ter essa moradia. Ter um espaço, ocupar algum lugar. E essa luta vem fazer a diferença, nos mostrar o que é nosso direito, como a gente pode lutar por ele. E nós começamos lutando dentro das nossas casas, só que isso foi se abrindo, se abrindo, tomando uma dimensão que nós não tínhamos noção de como ia terminar, porque a luta era muito árdua. A gente tinha que trabalhar, tinha que lutar pela moradia, tinha que manter nossa família unida – o que era fundamental! E no meio dessa dificuldade toda, nós começamos a perceber que não estávamos lutando só pela nossa casa. Estou lutando pela casa do meu vizinho, lutando pelo meu território, pela minha comunidade, pela minha cidade, pelo meu país. Desse jeito, a luta vai me transformando, eu acho que a luta pela Vila Autódromo fez isso conosco, nos transformou. E foi aumentando esse laço familiar entre nós.

Izabela – E o cuidado como instrumento dessa transformação, desse aprendizado?

Penha – O cuidado ele é um conjunto no meu ponto de vista. É um conjunto que você tem que ter: paciência, você tem que ter amor, você tem que saber dialogar, saber ouvir. E isso tudo é um conjunto, o saber acolher. Mas nesse cuidado todo ainda falta uma coisa, gente. O cuidado maior, que é o cuidado do Pai, de Deus. E isso é fundamental, a fé! Junto com esse cuidado, tem a fé. Tem o amor do Pai que vem nesse cuidado junto conosco. E quando a gente busca esse cuidado Dele, é fundamental também, no meu ponto de vista. Porque eu acho que fecha, o cuidado no ponto.

Mario – Mas, Penha, eu percebo na relação que vocês tem com o sagrado e com o divino, que tem uma coisa… que é assim… não é esperar do sagrado. Vocês lutam concretamente. Quer dizer, não há uma posição passiva nisso.

Penha – Isso é importante até de se falar, porque as pessoas confundem a religião com a fé individual. A religião cada um escolhe a sua. Para mim, a verdadeira fé é você crer que existe um Deus. Mas assim, o próprio Criador, quando ele nos deixa nessa terra, ele não dá comida pronta. Ele dá a semente para ser plantada e então se colher o alimento. E é maravilhoso, porque nós plantamos e comemos. Mas então, Ele dá força, Ele dá a graça, Ele te dá sabedoria. Agora a gente tem que botar a mão na massa. Se a gente quer vencer o poder público, nesse caso, a Prefeitura, a gente tem que trabalhar. Se eu ficar em casa parada, esperando – “Ai Jesus! Vem me ajudar!”. Se você não for à luta, nada vai ser feito.

Luiz – Mas tem que saber esperar…

Penha – Respirar, né?

Luiz – Esperar!

Izabela – Esperar tem a ver com cuidado?

Luiz – Sim, com paciência.

Mario – E aí voltamos a essa articulação entre o esperar e a esperança, mas não é uma espera passiva, não é uma espera parada. É a espera em movimento, como dizia Paulo Freire. A espera ativa, a espera potente, não é? Porque quem espera parado não vence. Não vai a lugar nenhum.

Penha – É uma espera que é assim, de momento.

Luiz – É uma estratégia na verdade. É uma espera ativa. Saber o momento de agir, de encarar a situação e saber agir no melhor momento.

 

II. Perder o medo ou por outro conceito de dignidade

Penha – Uma das coisas que acho muito forte no pobre, no favelado, é o medo. Nós temos muito medo, a gente tem mania de ter medo, e eu sempre luto contra esse medo. Eu sempre busco pensar “não, o medo não existe”… claro, às vezes nós somos seres humanos e sentimos medo. Mas se você alimenta esse medo, a sua potência cai. Nós passamos a vida tão ligados em ter que ganhar dinheiro, em ter que trabalhar… não pode faltar o pão do filho, não pode faltar o dinheiro para escola, não pode faltar a passagem, e o dinheiro é muito contado muitas vezes. Hoje, melhoramos um pouquinho, mas antigamente ainda era muito pior. Então o pobre vive na função de melhorar, a gente está sempre lutando para melhorar. E nessa luta por melhora a gente esquece de nós mesmos. De entender, de compreender, de ir à escola, de saber o que é nosso por direito, e até dos nossos deveres, muitas vezes. A gente sabe o que tem que pagar, parece que é um dever único: tem que pagar! Tem que pagar tudo! Agora onde estão nossos direitos? Como reivindicar nossos direitos? Como guardar nossa memória? Como ter ferramenta de luta para quando vem uma violentação do governo, de querer remover nossa comunidade por causa das Olimpíadas? De nada disso a gente tinha noção antes de entrar nessa luta, nesse caminho que você vai trilhando sem saber. E tudo que vai passando na sua frente vai se tornando ferramenta de luta. Em tudo você vai buscando formas, se reinventando, buscando forças e, graças a Deus, tem uma coisa boa nisso tudo. A gente descobre que tem a solidariedade, que tem o irmão, que ainda tem muita gente boa.

Izabela – Foi isso, Penha, o não temer que você aprendeu com a luta? Na transformação da luta pela sobrevivência, que te oprimia, em luta pela vida, que hoje te liberta? Porque existe o reconhecimento de uma transformação dentro de vocês quando vocês dizem: “Nós fomos formados pela luta”; quer dizer, vocês nunca mais serão os mesmos. Existe uma mudança de vida, de modo de vida. Então a sobrevivência, o trabalho, eles se dão de outra maneira. Eu acho que é nesse ponto, na possibilidade de invenção de outros modos de vida, de outras maneiras de ser, que ativismo e arte coincidem como forças de transformação social.

Penha – Eu acho que sim, porque o trabalho ele é importante, mas em geral é uma luta que você só pensa em você, eu acho que aí foge um pouco, porque a gente vive muito para trabalhar, vive muito pensando em ter, ter, ter e é um ter vazio, entende? Nós ficamos tão desesperados em ter algo, que a gente fica vazio. E aí, eu, Maria da Penha, achei muito mais sentido para minha vida trabalhando e buscando, dentro de um conjunto, trabalhando no coletivo, entendendo melhor a importância de uma luta, da resistência, do espaço de moradia e da sua ocupação. Eu passei a ver que muitas das coisas que eu fazia, às vezes eram fúteis. Não tinha porquê. O porquê agora é muito mais claro, hoje eu sei o porquê de estar aqui. Porque eu tenho que trabalhar em conjunto, para sobreviver melhor com o meu vizinho, com a minha família. Aonde eu vou chegar? Até onde eu vou? É um trabalho e um cuidado que ajuda a gente a mudar. Trabalhar com mais cuidado, trabalhar com menos preocupação de ter objetos, e mais de ter sabedoria para lidar com o outro, com aquela pessoa que muitas vezes precisa mais do que você, mesmo que a gente não tenha muito. Então eu acho que o cuidado é esse trabalho de você ir se modificando e libertando o que muitas vezes estava preso dentro de você. Eu queria fazer o que estou fazendo hoje, mas eu não conseguia ver, eu não tinha como saber. E a luta ela me transforma, eu boto para fora minhas capacidades. Eu falo. E aí, quando você fala, você vai mudando e vai tendo outra teoria.

Luiz – E passa conceitos e valores também.

Penha – É! Porque quando você fica a mercê de algo, quando você começa a ter medo daquilo, você começa a se perder, a perder quem é você. E uma coisa importante que eu aprendi com a minha avó 9 é que a gente tem que ter palavra, personalidade e encarar de frente. Se você encara as coisas como elas são, você consegue sobreviver àquilo. Agora se você recua, fica com medo, aquele medo “ah, eu não vou poder”… A luta aqui na Vila foi muito isso para mim, particularmente. Porque eu ia na minha raiz, da minha avó. Minha avó falava que o medo era a arma dos fracos, minha avó sempre me falou isso. Na luta eu vi muito isso. Porque quando você fica com medo, você fracassa, você fica a mercê de algo que está por vir. E quando você diz – “Não! Vai vir algo, mas eu vou encarar aquele algo. Não importa o que vai vir”. Você se fortalece.

Mario – O medo na verdade bloqueia o futuro. Ele destrói a possibilidade de futuro.

Penha – Exatamente!

Mario – Então, o medo exerce mesmo esse poder, e isso é uma coisa possível de se observar, pois, frequentemente, muitos grupos são produtores de medo sobre os outros grupos. Grupos sociais que produzem medo para os outros. E, com isso, também, eles produzem paralisia, impotência como você disse.

Izabela – Vocês parecem ter conquistado tantas coisas nessa luta, muito além do direito de permanecer nesse território, de ter a sua casa preservada…

Penha – Eu acho que eu conquistei o que é mais difícil, na verdade, que é afirmar o meu querer, manter a minha palavra, porque hoje estamos muito escassos disso. As pessoas não mantêm sua palavra, não afirmam o seu querer. Muitas vezes, aqui mesmo nessa terra, as pessoas pensavam, quando eu dizia que queria ficar, que eu estava blefando, que eu queria que me oferecessem mais dinheiro para eu aceitar a remoção, para ir embora. A Prefeitura e os responsáveis pelas Olimpíadas já tinham colocado o valor de dois milhões e quatrocentos mil na minha casa. As pessoas achavam que talvez eu quisesse cinco milhões, e não só dois. Entende? Porque na nossa raiz tem um problema muito sério, na raiz do nosso país. Ela está tão suja, poluída, com capital, com dinheiro, com poder, com querer mais, que as pessoas se vendem por muito pouco, ou estão sempre sendo corrompidas por qualquer coisa. O meu voto vale uma dentadura, um copo de cachaça. Eu vendo meu voto por um copo de vinho, por uma garrafa de cerveja. E a gente tem que trabalhar muito para sair disso no nosso país. Então eu acho que essa é minha conquista. Eu conquistei o direito de afirmar que nem todos têm preço. Que eu não tenho preço, que eu não sou mercadoria. O meu direito não é mercadoria. Eu acho que é isso, no meu ponto de vista o mais valioso que eu conquistei. E com isso eu mostro que nós somos capazes de superar esse nosso poder público podre. Se nós levarmos nossas palavras simples, mas com fidelidade ao nosso querer e lutarmos para que isso seja feito, aí sim teremos dignidade. O governo, a prefeitura, veio aqui dizendo que a gente tinha que sair daqui porque aqui não tinha dignidade. E no meu ponto de vista, dignidade nós temos quando nós queremos e sabemos o que queremos. Isso é dignidade no meu ponto de vista. E eu acho que foi isso que a gente conquistou.

Izabela – Penha, você desenhou um conceito muito complexo de dignidade, filosófico até. Porque essa dignidade da qual você falou não tem necessariamente a ver com o incremento da estrutura material da vida. Porque, certamente essa casa que você vive agora, construída pela Prefeitura igualzinha para todos os moradores que resistiram às remoções, que aos poucos vocês vão dando a sua cara, não é melhor que a casa que vocês tinham. Mas isso parece não importar, porque a dignidade, segundo você, estaria numa tomada de consciência acerca de seus direitos e desejos, e na possibilidade de lutar por eles… isso é muito bonito, é revolucionário.

Penha – As pessoas pensam que dignidade é você morar numa rua com calçamento… Dignidade é quando você sabe o que você quer. No meu ponto de vista, é lutar, é o esclarecimento. Porque aí vem um todo junto. Junto com essa dignidade vem uma coisa especial também, que é você ter fé, acreditar no impossível. Porque o que nós fizemos aqui foi o impossível…

III. Museu das Remoções (museu como ferramenta de luta e preservação da memória)

Izabela – E o Museu das Remoções nesse contexto? Por que fundar um museu? Por que vocês acharam que o museu era uma ferramenta importante?

Mario – Talvez aqui caiba dizer que o museu foi lançado no dia 18 de maio de 2016. Chovia, uma chuvinha fina, mas tinha gente pra caramba. Thainã de Medeiros foi um importante articulador e Diana Bogado coordenou com estudantes de arquitetura a criação, a partir dos escombros, de sete instalações escultóricas. Naquele momento, o museu teve um papel muito grande de denúncia. Em 2016, o Conselho Internacional de Museus tinha sugerido para o ano o ano o tema “Museu e Paisagem Cultural”. Assim, o Museu das Remoções foi lançado dizendo: quem mais destrói a paisagem cultural é o poder público e os megaempreendimentos. A especulação imobiliária, os megaeventos e os megaempresários, isso é que destrói a paisagem cultural. Enquanto aqui ,na Vila Autódromo, a paisagem estava sendo reconstruída diariamente, preservada. Eu gostaria que vocês falassem um pouco sobre isso, porque eu fui percebendo que tendo surgido como denúncia, o museu passou a fazer um anúncio, como se o museu publicasse um novo caminho. Então ele denunciou e, ao mesmo tempo, anunciou uma nova possibilidade de futuro.

Luiza – A formação do Museu das Remoções aconteceu cerca de dois meses depois da demolição da casa da Penha e da Associação dos Moradores.

Penha – Luiza, eu não sei se isso passou alguma vez pela sua mente naquele momento, se você e os outros apoiadores tinham a sensação de que parecia ser uma tentativa inútil, parecia que nada ia acontecer.

Luiza – Sim. Essas duas demolições foram muito simbólicas, mas eu nunca perdi a esperança, mas parecia que a gente estava num jogo de futebol em que você tinha que fazer 4 gols faltando 10 minutos para acabar! O cenário mais realista era o da derrota. Mas é isso, era preciso deixar de acreditar no realismo. Isso era muito claro, muitas pessoas chegavam aqui e a Penha e o Luiz é que os animavam. Porque assim, quando a casa da Penha foi derrubada, foi um baque.

Penha – As pessoas perguntavam: de onde vem essa força? Na simplicidade. Se você me perguntar da onde vinha, eu diria que vinha da terra. Muitas vezes eu via brotar uma plantinha no chão seco e a força vinha. É porque o senhor é maravilhoso, Ele vai te dando sinais. Se você silenciar e buscar, na simplicidade, a força vem. Então, muitas vezes eu vi a minha esperança, a minha dignidade naquela planta que nascia mesmo naquela terra toda ruim, nos escombros. Quando a gente estava muito desanimada, vinha um grupo, que nos fortalecia. E eu lembro bem o grupo do Instituto Estadual do Ambiente, INEA, foi um grupo que me marcou. Eu estava muito pra baixo, porque tem hora que a gente cai, eu não queria nem fazer a comida. Parecia que só tinha derrota, só tinha derrota… Então eles vieram com gás para passar dois dias aqui e sugeriram de fazer uma comida coletiva. Gente, aquilo foi tão maravilhoso! Porque eu vi em cada jovem daquele a esperança brotando. Eu dizia assim “- Gente, eu não estou só. O povo tá vindo, tá vindo mais gente!”. E aquilo me renovou e eu comecei a ver com outros olhos. Foi uma coisa muito gratificante mesmo, ver que ainda tem tanto amor. Porque quando você sai do seu conforto que vai levar essa esperança, mesmo sem saber, você faz a diferença levando essa esperança de uma forma tão simples, isso é o amor.

Izabela – Penha, você acabou de fazer com o amor o que fez com a dignidade, deu uma volta no conceito de amor. Porque esse um amor do qual você fala é da ordem do coletivo. Não é um amor que eu tenho, que você tem dentro de você. É um amor que se faz aqui, entre nós. Neste espaço coletivo, público.

Penha – É um amor capaz de nos transformar. E eu costumo sempre dizer que essa luta foi por amor. Eu não lutei por lutar. Eu não lutei por um desejo de brigar. Eu não lutei para ferir alguém, mesmo que eu tenha sido ferida, que tenham quebrado meu nariz 10… Esse tipo de luta é muito diferente. Porque eu lutava com um cuidado de não me ferir e de nem ferir ninguém, até mesmo no sentido de palavras. Porque a gente não só fere, machuca o outro batendo, como me machucaram. Eu poderia ter ficado uma pessoa angustiada porque quebraram meu nariz. Meu nariz se consertou, ficou até mais bonito! Isso é amor, isso é viver. Isso é ter dignidade. Você não ficar se remoendo com coisinhas pequenas. Porque isso passou.

Luiz – Na minha opinião, a importância do museu é que a história não venha a se perder ao longo do tempo. Nós costumamos dizer que o brasileiro tem a memória curta, não é? E daqui uns 2, 3, 4 anos, a Vila Autódromo não ia ser mais lembrada. As pessoas iam falar: Vila Autódromo não lembro, parece que era ali em Jacarepaguá… E com o museu não, ele guarda os detalhes dessa luta. Ele guarda detalhes da história de como era a Vila antes das remoções. Do relacionamento social, do companheirismo, daquela coisa de um ajudar o outro. E isso vai ficar. Porque nós temos registro disso, nós temos vídeos, temos fotos, temos documentários. E o museu tem resgatado tudo isso. Então nós podemos partir daqui há algum tempo e nós sabemos que a história da Vila vai ficar, vai se perpetuar. Que ela vai estar aí para quem quiser buscar, investigar, pesquisar…

Penha – Para mim, o museu tem uma outra parte fundamental, além de resguardar a história da comunidade. Para mim ele se tornou ferramenta de luta. O museu ele deixa de ser só o museu e passa a ser uma ferramenta. Que é isso que é fundamental, ferramenta contra as remoções. E eu acho que o museu vai continuar buscando essa voz, para ele ter voz, pra ele dizer não, verdadeiramente não às remoções. Basta, chega. Onde ele chegar ele vai dizer assim “- Isso aqui não vai ser removido, porque essas famílias precisam contar a sua história”. Memória não se remove, é o lema desse museu.

Izabela – É curioso ouvir vocês falando assim do museu em terceira pessoa, no cuidado que o museu tem e teve. Mas vocês é que são o museu!

IV. Estamos falando de nós mesmos. Esse é que é o barato do Museu das Remoções.

Izabela – Estão falando da luta e do cuidado que vocês mesmos estão colocando em obra, no sentido de construir o museu como ferramenta de luta e preservação da memória.

Mario – Porque é um museu que nasce do cuidado e produz cuidado. Ao mesmo tempo as duas coisas.

Penha – E o Museu também trouxe conhecimento para essa comunidade. Porque, eu, por exemplo, eu sou diarista. Eu não fiz nem o chamado segundo grau, hoje ensino médio, então sou uma pessoa bem leiga. E assim, eu não entendia o que era um museu, por exemplo. No meu entendimento, o museu era um local onde se guardava um monte de coisa velha. Eu não tinha noção de que o museu era uma ciência, de que podia ser uma ferramenta de luta, dentro de uma luta de moradia. Ele pode transformar, e ele também te ensina, ele te leva. Mesmo sem você ter estudado, você consegue receber uma cultura diferente. Ele é cultural. Ele te mostra a importância e valores que você não tinha antes. Então, ele é renovador na história da resistência das moradias. Estamos dentro de uma ferramenta de luta que surgiu no meio dos escombros, daquela coisa pesada. Naquele momento que a gente estava passando por tanta dificuldade, nasce o Museu das Remoções com força, com alegria. Não é uma coisa morta, é uma coisa cheia de vida, de esperança. Então, eu acho que ele é renovador. O Museu das Remoções ele renova e ele ensina que a gente pode lutar com sabedoria, com arte, com um conhecimento melhor. Então para mim, foi muito renovador.

Izabela – E em termos de museologia é um conceito de museu muito inovador. Essa entrevista, por exemplo, está sendo gravada e filmada no quintal da casa de vocês, ou seja, hoje é sábado e nós estamos trabalhando no museu! Eu estou entendendo que o museu passa a ser também um trabalho de vocês, de toda a comunidade. É um trabalho que se faz junto com o trabalho que produz a sobrevivência de vocês. Porque você, Luiz, continua dando aula, sua filha continua trabalhando em outras coisas. Mas vocês começaram a ter um trabalho novo, por exemplo, esse de nos receber aqui no Museu, de se articular com instituições como o Instituto Goethe, o INEA, as Universidades. De falar publicamente falar sobre o que é o Museu e sobre a luta que vocês ganharam.

Penha – É. Nesse momento eu não estou nem trabalhando fora daqui. Porque desde 2014, na verdade, eu paro de trabalhar, chega um período, no meio das remoções, que eu paro realmente de trabalhar fora porque ficou difícil…

Luiz – A luta cobrou muito da gente.

Penha – Nós precisávamos estar muito ativos. Tínhamos que estar presentes e também a minha mãe ficou doente, piorou. Eu, particularmente, tive que parar de trabalhar em casa de família tanto pela luta, quanto pela minha mãe.

Luiz – A luta cobra muito mais que uma casa de família, por exemplo, nós estivemos aqui em vigília, sem dormir. Quando ela trabalhava em casa de família, ela vinha para casa e dormia, descansava. Na luta aqui tinha dias que ela não dormia. Porque tem outras coisas envolvidas, além da sobrevivência.

 

V. Colaboração, sentido de coletividade e amor como base para uma nova democracia.

Penha – Vamos falar desse quintal, desse museu em que nós estamos…

Luiz – Tem uma história aqui.

Penha – Esse território aqui. Esse terreno, esse quintal, era de uma outra família. Era da dona Dora. A dona Dora faleceu e esse terreno passou para os filhos da dona Dora e eles queriam vendê-lo. Nós, que éramos parte da igreja, tínhamos o sonho de comprar esse terreno para ampliar igreja que fica aqui atrás. Veja como são as coisas, veio esse período difícil da remoção. A família negociou com a prefeitura, recebeu um dinheiro pela desapropriação do terreno, os filhos da dona Dora foram embora, e esse terreno ficou vazio. E nós conseguimos, com muita luta ficar nessa terra, agora somos proprietários desse terreno. Olha só, a história desse terreno! Já é um museu em vida, não é? Passando a memória que foi guardada da dona Dora, dos seus filhos e agora é da dona Antônia, minha mãe, e é minha, da Nathalia e do Luiz. Então vocês estão num espaço já museológico que está em construção, e isso é o ponto chave. Essa construção vai nos dar uma nova visão no futuro, novas esperanças. Ele cria e, também, ao mesmo tempo vai sendo feito cheio de esperança. A palavra é esperança. A esperança de ver um dia um museu dizer assim: chega de remoção! Basta! Vamos respeitar a história dessas favelas, vamos respeitar a história dessas comunidades, vamos respeitar o povo, vamos ser democráticos. Acho que o museu está sendo construído para mostrar que a democracia ainda não existe, mas que ela está caminhando, está crescendo. É um trabalho de formiguinha, um trabalho coletivo. Eu acho que é fundamental falar da importância de a sociedade abraçar essas causas sociais. Disso que o Mario fez, esse trabalho belíssimo, de nos ajudar a fundar esse museu, e eu digo isso não é porque estou na sua frente! Eu acho isso com toda sinceridade. É a realidade e ela tem que ser dita. Quando você chegou nessa comunidade você fez a diferença.

Luiz – Quebrou tabus. E agregou valores também!

Penha – Exatamente, mostrando para a gente que nós também temos capacidade de aprender. O que você fez foi trazer o teu conhecimento para quem não tem. Fez a gente aprender de uma forma diferente. A gente aprendeu muito. E isso é fundamental. Temos que ter mais professores assim. Temos que ter mais padres, como o padre Fábio 11. É isso que é democracia, é isso que é ter direito igual para todos. Isso faz a diferença, quando você sai do seu conforto e vem aqui fazer essa fala com a gente, quando vocês têm esse cuidado de dar voz ao trabalho de uma simples pessoa. Mas isso é democracia no meu ponto de vista, isso é mostrar que nós estamos evoluindo numa democracia e que nós podemos fazer diferente. E que muitas mudanças vão vir. Uma nova democracia.

Mario – Penha, eu não faço mais que minha obrigação, eu acho que esse é meu dever de ofício. Então, na verdade, eu vim foi partilhar. Porque como os apoiadores dizem, eu também saio daqui renovado. A sua fala, a sua inteligência, a ação de vocês ela é renovadora, me inspira.

Izabela – Me parece que no trabalho de gente como o Mario, e de outros colaboradores que estão aqui com vocês, não se trata de trazer a cultura para quem não tinha, muito pelo contrário. Acho que talvez o maior trabalho que pode ser feito por esse museu seja ajudar vocês a perceber o quanto vocês têm de potência. Essa é a grande sacada, a meu ver, da apropriação da ferramenta museu. Quando vocês falam “o museu cuidou da nossa memória”, vocês reconhecendo o valor na história de vocês, da força de vocês. Então é muito bonito isso que o Mario coloca de uma maneira muito simples. Que através do Museu, mais do que conhecer o que vocês não sabiam, é reconhecer o que vocês já tinham e sabiam como valor, como algo realmente importante. O Mario, ele abriu essas possibilidades, e é muito bonito ver esse reconhecimento mútuo, porque vocês vêm de lugares muito diferentes e souberam valorizar o que cada um tem de potência…

Penha – É uma troca! E só essa troca é capaz de produzir essas oportunidades nesse mundo nosso de capital, onde as pessoas só vivem pensando que o melhor é estar dentro de um apartamento com ar condicionado, dentro de um shopping, comprando, comprando, comprando o que nem precisa. Você esquece de viver o melhor do outro ser humano…

Mario – Que são os encontros, as convivências, a partilha… Mas, Luiz, eu queria que você falasse um pouco sobre o acervo fotográfico que você constituiu das lutas na Vila Autódromo, que faz parte do acervo do Museu das Remoções, acho que a gente pode falar assim, da mesma forma como essa filmagem que estamos fazendo hoje também passará a fazer parte do acervo do Museu. Como é que você começou e como você avançou nessa direção?

Luiz – Pois é, eu sempre gostei de fotografar. Eu comecei a dar os primeiros cliques nos passeios com as crianças e percebi que eu gostava muito de fazer fotos, de imprimir, eu fazia álbuns organizados. Ao longo do tempo eu fui registrando aqui na Vila os fatos que eu achava importantes, as festas. Nós tínhamos aqui o 12 de outubro, dia das crianças, que era uma festa de um dia inteiro, com uma programação muito intensa, que envolvia toda a comunidade. Então eu vi também que esse negócio de fotografar guarda os registros. Porque eu vi muita coisa se destruindo, se estragando. E eu fiquei preocupado com isso. Eu pensei: – “Daqui a pouco ninguém vai lembrar dessa casa, desse muro aqui, desse espaço. O que é que tinha aqui? Ninguém vai saber!”. Na medida em que as ameaças foram apertando, que começaram os processos traumáticos de remoção, a chegada dos tratores, o pessoal da prefeitura batendo na porta, ameaçando os moradores, cano de água quebrado, a prefeitura vindo aqui arrancar os postes de luz – ficamos sem iluminação pública! Então eu vi a necessidade de registrar isso como uma arma a nosso favor. O prefeito pregava muito na mídia: sai quem quer, quem não quiser pode ficar que nós vamos urbanizar. Mas aqui dentro estava metendo a porrada na gente. A foto passou a ser a ferramenta de defesa.

Izabela – Quando eu ouvi você falar fiquei pensando que, assim como o museu vira ferramenta, a fotografia também vira ferramenta de luta e de cuidado.

Luiz – De cuidado e de defesa mesmo, de modo que você possa falar e ter algo para provar o que você disse.

Izabela – Sim, também tem essa questão, um registro que tem a ver com o direito, com uma questão jurídica.

Luiz – Isso tudo ia para mídia, um trecho, com frases, explicações de um fato, muitos vídeos também.

Izabela – Recentemente, o Museu das Remoções doou parte do seu acervo, um conjunto composto de elementos das casas destruídas, para o Museu Histórico Nacional. Como é que vocês veem essa ação? É um museu a céu aberto, um museu composto de diversas casas, que não tem um espaço destinado exclusivamente às suas atividades, o que pode vir a existir um dia, se você sentirem essa necessidade, mas que tem um acervo. Como vocês veem esse gesto de reunir pedaços da memória e doar para outro museu? Como vocês entendem esse outro museu também como ferramenta? Porque me parece que aquele museu muda ao receber o material de vocês, não é mais um mausoléu, lugar de guardar coisa velha, como você disse, Penha. O Museu das Remoções coloca questões muito sérias para o Museu Histórico Nacional e para todos os museus, a meu ver.

Penha – Eu acho, que ao receber o nosso acervo aquele museu se tornou mais democrático. Porque ele não foi feito para receber um acervo como o nosso. Só que a história vai fazendo as renovações e é interessante aquele museu hoje pegar os restos dessa comunidade que foi destruída, que não tem valor nenhum para os capitalistas. Eu acho muito interessante como essa mudança vai acontecendo, essa transfiguração que vai se fazendo com o tempo e como nós vamos modificando o nosso país, a nossa história, o nosso dia a dia, eu acho isso fundamental.

Mario – Parte da casa dela está lá!

Penha – É, eu nunca imaginei, olha só como são as coisas interessantes, por isso eu acho importante o cuidado que esse museu traz. Ele vai cuidar de algo que eu nunca imaginei, né? Mas que ao mesmo tempo, quem criou aquele museu não tem a intenção de guardar o resto de uma casa de uma faxineira, de uma diarista. Então é transformador o cuidado da arte de um museu. Isso é transformador.

Izabela – Mas Penha, você entende como foi você, o Luiz, os colaboradores que possibilitaram isso?

Penha – Sim!

Mario – É importante registrar também que a equipe do Museu Histórico Nacional e o seu diretor tiveram a sensibilidade para acolher esse museu. Porque ele transforma o Museu Histórico Nacional, que foi criado para guardar os acervos das oligarquias brasileiras, das grandes famílias, nobres famílias.

Luiz – E hoje tem a gente lá!

Izabela – Hoje tem lá a nobreza da Vila Autódromo. A nobreza de uma luta. É muito importante isso.

Penha – Isso se chama democracia, começamos uma democracia. Começamos o direito respeitado. Essa ação vem para dizer assim: é possível. Quando você cobra seu direito, quando você não se deixa corromper a coisa funciona, muda. Nós fizemos a diferença. E quando a gente faz essa diferença a gente vê esse poder de transformação. O nosso acervo está lá por direito, e deveria ter o acervo de outras comunidades lá também. Se alguém tivesse feito a diferença lá atrás…

Izabela – Ouvindo vocês, cada vez fica claro para mim o que as pessoas vêm aprender aqui, complementando o que a Luiza disse sobre o senso comunitário, de coletividade, que ela aprendeu com vocês, pegando o que você disse, Penha, sobre essa nova democracia. É esse modo de vida que é um patrimônio, o modo de vida, de partilha que nasce nas favelas, que nasce nas zonas periféricas e, de certa forma, com suas diferenças, em todas as comunidades em que a vida está muito vinculada aos movimentos de luta e de resistência. É um modo de vida que parece apontar para um futuro possível, sustentável em termos econômicos, políticos, sociais. Tem um saber produzido por vocês nesse modo de vida que é um patrimônio fundamental para a transformação do Brasil, para construir a sociedade que queremos.

Mario – E isso tem relação com o que já se chama de bem viver. Que a ideia de que não é possível um desenvolvimentismo a todo vapor e para sempre. Isso vai explodir. O que é necessário é criar uma alternativa ao desenvolvimento, um outro caminho. E o que vocês aqui apontam é isso. É isso que diz a Luiza, é uma alternativa, uma parceria, uma partilha, um reflorestamento social, uma ecologia social, uma ecologia de saberes como diria o Boaventura Souza Santos 12.

Penha – É um viver de verdade, que inclui a perda do medo, o que eu acho que é fundamental. É um viver verdadeiramente, o viver de amor. Porque eu confio em você, mesmo sem saber de onde você vem, eu sei quem você é. E é essa diferença que a Vila quer viver, a Vila quer viver isso. Uma nova democracia.

 

 

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Izabela Pucu
Artista, curadora, pesquisadora, gestora cultural e editora. Doutora em História e Crítica da Arte PPGAV/EBA/UFRJ. Atual Coordenadora de Educação do Museu de Arte do Rio. Co-coordenadora do projeto arte_cuidado. Diretora e Curadora do Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica (2014-2016). Professora substituta do Instituto de Artes da UERJ (2008 a 2012). Pesquisadora do livro Mário Pedrosa: Primary Documents, orgs. Glória Ferreira e Paulo Herkenhoff (MoMA/NY, 2016), co-organizou o livro Roberto Pontual: Obra crítica (Prefeitura do Rio/Azougue, 2013), entre outros. Curadora de exposições, tais como “Bandeiras na praça Tiradentes” (2014), “Osmar Dillon: não objetos poéticos” (2015) e “A lágrima é só o suor do cérebro”, de Gustavo Speridião (2016).

Luiz Claudio Silva
É professor de educação física, nascido e criado na favela da Rocinha e vindo morar na comunidade da Vila Autódromo desde 1994, teve que aprender a lidar com as ameaças de remoções. Passou a registrar quase tudo referente às ameaças construído um acervo gigantesco. Sendo um dos integrantes do Museu das remoções, auxilia na construção do acervo e recebe visitantes. É ativo na preservação da memória da Vila Autódromo.

Luiza de Andrade
Produtora audiovisual, graduada em Cinema e Jornalismo pela PUC-Rio e pós-graduada em Documentário na Escuela de Cine de Barcelona (Ecib) e em Produção Cinematográfica na Escola Superior de Cinema i Audiovisuals de Catalunya (Escac). Colabora no Museu das Remoções na gestão de projetos culturais. Também é sócia-fundadora da Mairarê Produções, produtora focada em projetos de impacto socioambiental positivo.

Maria da Penha Macena
É uma líder comunitária da Vila Autódromo pelo direito à moradia, diante das remoções impostas pela Prefeitura para a construção do parque olímpico no Rio de Janeiro. No dia 03 de junho de 2015, foi violentamente agredida pela tropa de choque da Prefeitura, tendo o seu nariz quebrado. No dia 08 de março de 2016, dia internacional da mulher teve a sua casa demolida pela Prefeitura, indo morar na igreja e no mesmo dia recebeu uma homenagem Mulher Cidadã na ALERJ/RJ.

Mário Chagas
Poeta e museólogo. Doutor em Ciências Sociais pela UERJ. Concentra sua atuação nas áreas da Museologia Social, da Educação Museal e das práticas relacionadas à memória e ao patrimônio. Professor da Escola de Sociologia e da Pós-Graduação em Museologia e Patrimônio da Unirio. Coordenador técnico no Museu da República e presidente do Movimento Internacional para uma Nova Museologia, organização afiliada ao Conselho Internacional de Museus. Participou da criação da Política Nacional de Museus (2003), do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), entre outros. Fundador da Revista Brasileira de Museus e Museologia – MUSAS e criador do Programa Editorial do Ibram.

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1 No poema O Dia da Criação (1946), de Vinicius de Moraes, há uma série de frase que se sucedem: ”Neste momento há um casamento/ Porque hoje é sábado. /Há um divórcio e um violamento. / Porque hoje é sábado./ Há um homem rico que se mata / Porque hoje é sábado./ Há um incesto e uma regata/ Porque hoje é sábado./ Há um espetáculo de gala / Porque hoje é sábado./ Há uma mulher que apanha e cala / Porque hoje é sábado./ Há um renovar-se de esperanças./ Porque hoje é sábado…”. O poema é lido pelo próprio poeta em um vídeo disponível em https://www.youtube.com/watch?v=jpfymRLaPaA.

2 Esse objeto foi construído pelo artista Guga Ferraz, no âmbito do projeto Céu Aberto, realizado em parceria com o Instituto Goethe. Sobre o projeto, ver https://www.goethe.de/ins/br/pt/kul/sup/mem/ciu/rio/21065482.html.

3 Esta citação, como outras que vêm a seguir, faz parte do diálogo com Maria da Penha, Luiz Claudio e Luiza, apresentado a seguir por meio da edição da transcrição de nossa conversa, que durou cerca de duas horas e meia.

4 Segundo Boaventura “(…) desimaginar o social é ter um pensamento antissocial do social”. É, por exemplo, investir, em nome dos megaempreendimentos e da voracidade do grande capital, no corte e na redução dos direitos humanos e da natureza, dos direitos à vida, à educação, à moradia, à memória e à cultura. Pronunciamento proferido no dia 8 de novembro de 2017, quando foi concedido a Boaventura de Sousa Santos o título de Doutor Honoris Causa por aquela Universidade. Disponível em http://www.sul-sur.com/2017/11/do-pronunciamento-de-boaventura-de.html. (N.E.)

5 Idem.

6 Idem.

7 Idem.

8 O diálogo “Ocupar e residir como método” aconteceu no dia 02 de outubro de 2017, como parte do Encontro Internacional Cuidado como método #2. Junto com Penha, participaram também a artista e médica Ana Kemper, a estudante Isabella Dias e o poeta e professor Luiz Guilherme Barbosa, mediado pelo psicologo Eduardo Passos. Houve ainda neste dia um diálogo entre a artista Eleonora Fabião, o ator Geo Britto e a artista Millena Lízia. Esses diálogos também originaram outras contribuições contidas nesta publicação. Ana Kemper: http://institutomesa.org/RevistaMesa_5/portfolio/ana-kemper-residir-e-ocupar-como-metodo-o-trabalho-politico-do-cuidado/ Isabella e Luiz Guilherme: http://institutomesa.org/RevistaMesa_5/portfolio/isabella-dias-e-luiz-guilherme-barbosa-escola-corredor-por-uma-poetica-da-ocupacao-a-duas-vozes/ Millena Lízia e Shona Macnaughton: http://institutomesa.org/RevistaMesa_5/portfolio/shona-macnaughton-e-millena-lizia-e-possivel-ser-um-a-artista-dissidente-saudavel/ Eleonora Fabião: http://institutomesa.org/RevistaMesa_5/portfolio/eleonora-fabiao-produzir-estranheza-e-cuidar-azul-azul-azul-e-azul/

9 “Fui criada por mãe solteira e vó. Na verdade, fui criada mais pela minha avó do que pela minha mãe. De bebê até os seis anos e meio eu morei com a minha avó na Paraíba, numa casa com quintal parecido com esse. Ela era uma pessoa incrível que me deu essa formação toda que eu sou”, nos contou Penha. Quando veio para o Rio, ainda pequena, ela, sua mãe e sua avó foram morar na favela da Rocinha, em São Conrado, mas sonhavam com um lugar mais espaçoso. Na Rocinha ela conheceu o Luiz – “Eu tinha 14 e ele 17 anos” – construiu sua primeira moradia e teve sua filha Nathalia. Na Rocinha também faleceu sua avó. – “Ela não teve a chance de mudar para um espaço melhor e maior como ela tanto sonhou aqui no Rio, mas eu consegui!”. Depois, com 27 anos, quando Nathalia tinha seis anos e meio, mesma idade que ela tinha ao imigrar para o Rio, eles se mudaram para a Vila Autódromo. “Eu costumo dizer que na Vila Autódromo nós começamos verdadeiramente a nossa história. Aqui nós começamos a nos enraizar. A saber o que era uma história, a criar raízes e foi isso, é isso”.

10 Dona Penha teve seu nariz quebrado no dia 03.06.2015, quando um grupo de moradores se reuniu na frente da casa de uma família que seria removida mediante decreto de desapropriação. “A família não havia sido notificada anteriormente e tinha que sair naquele instante, o que era um absurdo, tendo em vista que eles não haviam se preparado para fazer uma mudança e nem tinham para onde ir”, nos escreveu Nathalia ao longo do trabalho de edição. “Esse dia foi intenso e tenso demais”, prosseguiu Nathalia, “houve mobilização tanto da comunidade quanto dos apoiadores e da Defensoria Pública e, embora tenha havido todo um diálogo prévio para resolver a situação sem truculência, a oficial de justiça cumpriu a decisão do juiz, determinando que a guarda municipal adentrasse a casa à força, e assim a guarda o fez, agredindo violentamente todos que ali estavam. Em meio ao conflito, D. Penha teve seu nariz quebrado e outros moradores também sofreram lesões”.

11 Padre Fábio Guimarães, que foi o pároco da capela São José Operário na Vila Autódromo até 2015 quando foi enviado para o Vaticano.

12 Ver o texto “Para além do pensamento abissal: das linhas globais a uma ecologia de saberes”, disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-33002007000300004.