Lula Wanderley e Rogério. Sutil laços que nos une. Frames do vídeo. anos 1990.

Espaço Aberto ao Tempo: Uma instituição em busca de uma psiquiatria poética

Lula Wanderley

Eu trabalhava como artista, radicado em Recife, onde também iniciei a formação em medicina; em estadia de um mês na casa de um primo no Rio, em 1976, fui convidado por um vizinho dele para conhecer o grupo de estudos na casa de Nise da Silveira Na ocasião, fui surpreendido por um convite da Nise para apresentar alguns trabalhos para o grupo com a sua ajuda, o que aconteceu nos encontros seguintes. No fim das apresentaçòes dos trabalhos, Nise me fez uma proposta mais surpreendente ainda – “você quer estagiar comigo?”. Era a aventura que eu estava necessitando para sacudir minha vida. Surpreso, disse-lhe, por insegurança, que teria dificuldade em trabalhar com teorias sobre o inconsciente e que não tinha a menor vocação para o biologismo da medicina. A resposta foi imediata, vindo de quem, provavelmente, me observava atenta: “Faça de sua sensibilidade o instrumento de trabalho”. Fui, assim, estagiar e, posteriormente, trabalhar na Casa das Palmeiras (inaugurada por Nise em colaboração com Maria Stela Braga, Belah Paes Leme, Ligia Loureiro e Alzira Lopes Cortes em 1956), onde Nise desenvolvia sua clínica.

A minha paixão pela Casa das Palmeiras, com sua espontaneidade e intensas trocas afetivas, foi instantânea e começou na década de 1970. Ajudou-me a recriar-me e a construir minha existência dentro da psiquiatria. Ajudou-me a criar uma clínica que põe em estreita sintonia conhecimento e experiência, e que não tem seu ancoradouro na transcendência de uma teoria, mas sim na imanência do encontro, pois cada caso produz sua própria teoria e método. Criei para mim uma clínica “pele de escorpião”, passível de descolar-se e recriar-se (recriação, ao mesmo tempo, ética, estética e política) constantemente. A frase de Nise sobre “sensibilidade” foi a ponte que logo me levaria às experiências clínicas poéticas de Lygia Clark [Objetos relacionais, Estruturação do self, c.1968], e, posteriormente, à criação do Espaço Aberto ao Tempo (EAT). Procurei Lygia Clark inicialmente como paciente, levado por Gina Ferreira, minha mulher, que na ocasião fazia a Estrutração do self com Lygia. Depois de uma experiência de um ano com os Objetos Relacionais, Lygia me convidou para que eu desenvolvesse um trabalho com a Estruturação do self – assim me tornei seu amigo e colaborador. Nessa mesma época eu trabalhava com o crítico Mário Pedrosa, grande conhecedor do trabalho de Lygia, que me ajudou a me situar diante deste convite. Eu trabalhei com Lygia intensamente na última década da sua vida.

Comecei meu trabalho com Nise na Casa das Palmeiras e depois me tornei funcionário do Museu de Imagens do Inconsciente (MII), fundado em 1952 como desdobramento do setor de Terapia Ocupacional e Reabilitação – STOR do então Centro Psiquiátrico Pedro II, no bairro do Engenho do Dentro, atualmente Instituto Municipal Nise da Silveira. No final dos anos 70, Nise e Mário Pedrosa criaram um projeto de reestruturação/releitura do MII e eu integrei a equipe desse projeto como pesquisador, apoiado pela FINEP (Financiadora Nacional de Estudos e Projetos). Mais tarde, fui contratado para o Museu de Imagens, como médico, embora eu não trabalhasse formalmente como psiquiatra, trabalhava nos ateliês e na museologia. Na Casa das Palmeiras sim, eu trabalhava como médico, mas num contexto psicoterápico, onde havia criação e liberdade. Como médico eu também coordenava o grupo de teatro, por exemplo. Trabalhando no Museu, vi a chegada de um grupo maravilhoso de profissionais ao Centro Psiquiátrico Pedro II, que, movido por utopias próprias do momento de saída da ditadura militar, resolveu transformar a genocida psiquiatria brasileira. Era uma atitude política corajosa, pois a maioria desses profissionais eram professores reconhecidos, entre eles, Jurandir Freire Costa, Benilton Bezerra, Paulo Amarantes e Neuza Santos, que buscavam um saber orgânico e transformador. Juntei-me a eles oferecendo minha experiência com Nise, Mário e Lygia. Os tempos eram de ambiguidades, ainda havia por toda a sociedade resquícios da Ditadura, e todos foram violentamente expulsos pelo então Ministro da Saúde do governo Sarney (1985 – 1990), numa intervenção federal que visava manter as velhas estruturas. Eu fui arrancado do museu e constrangido a trabalhar num hospital psiquiátrico que havia se tornado algo cruel e insano. Como eu nunca havia trabalhado formalmente como médico, não sabia o que fazer. Nesse contexto, no entanto, conheci um grupo de profissionais que, como eu, resistiam à intervenção do governo federal. Reorganizamos todas as nossas forças e, num gesto hoje visto como ousado demais para a época, desmantelamos completamente a estrutura do velho hospital psiquiátrico e criamos as diretrizes do que viria a ser o Espaço Aberto ao Tempo. O EAT nasceu a partir de uma proposta de desconstrução de uma enfermaria psiquiátrica que passou a ser chamada inicialmente de EPA (Enfermaria de Portas Abertas) e depois Espaço Aberto ao Tempo. Quebramos aquele tratamento psiquiátrico rígido, em regime de internação, para criar um local aberto onde os pacientes pudessem entrar e sair quando quisessem. Assim, o espaço virou um lugar de encontros e afetos, onde o tempo não era mas medido como parte de tarefas rotineiras: virou a própria vivência do espaço e sua diversificação. Dessa forma, eu “sobrevivi” à punição restaurando minha clínica poética do tempo da Casa das Palmeiras (com muito mais radicalidade até) e dei prosseguimento à luta política anterior. Eu me lembro que Nise contou-me que, junto a uma psiquiatra chamada Iracy Doyle (1911 – 1956), havia uma imagem dela na parede na Casa das Palmeiras, desenvolveram uma proposta de clínica, que seria uma casa aberta para os pacientes que saíam das internações, mas isso não foi bem aceito à época. Eu me pergunto se tudo o que culminou na Reforma Psiquiátrica não teria se antecipado caso elas tivessem conseguido implantar esse serviço no final naquele momento seminal.

Ao criarmos, em 1988, o Espaço Aberto ao Tempo nos tornamos uma das primeiras experiências brasileiras de construção de uma saúde mental contemporânea, que se alinhou mais tarde com as diretrizes da Reforma Psiquiátrica. O trabalho no EAT, criado pela terapeuta ocupacional Carmem Lúcia Bragança e eu, está baseado, num sentido amplo, na possibilidade de invenção de uma clínica experimental e poética. Nesta, a espontaneidade, a flexibilidade e a criatividade, que estruturam o cotidiano, se afirmam como ferramentas de reinvenção de subjetividades e do reestabelecimento da comunicação com o mundo a partir do exercício de múltiplas linguagens experimentadas em oficinas de literatura, artes visuais, música, dança, entre outras. A cada época, uma atividade se impunha como linguagem “ponta de lança”, criada para dialogar com a sociedade. Quando foi a vez da literatura, criamos a editora Arte e Engenho, que imprimia livros escritos pelos frequentadores do EAT. Assim também foi criado o grupo de performances Ações poéticas, que mais tarde uniu-se ao grupo de música Sistema Nervoso Alterado, dando origem ao grupo de Ações Poéticas: Sistema Nervoso Alterado. O corpo e seus afetos foram desde o início interesses primordiais, tendo sido o EAT campo de experimentação e pesquisa da bailarina e professora Angel Vianna, e local de experimentação a partir da obra de Lygia Clark, despertando interesse do crítico inglês Guy Bret, que durante um tempo enviou recursos para a manutenção dessas atividades.

Ao longo de seus trinta anos de atuação, o EAT contou com a colaboração de diversos artistas, críticos, pesquisadores, médicos, terapeutas e agentes de saúde. Nos últimos anos, passaram por lá o médico e escritor Edmar de Oliveira, os músico Guilherme Milagres e José Henrique Nogueira, a coreógrafa Alice Ripol, o ator Daniel de Oliveira, entre outros. Atualmente o músico Leandro Freixo desenvolve uma oficina de música recriando a banda Sistema Nervoso Alterado. Recentemente o EAT foi reconhecido pela Superintendência de Saúde Mental do Município como Centro de Atenção Psicossocial e recebeu nova sede. A experiência do EAT permeia desde sempre meu trabalho como artista e, nesse sentido, gostaria de trazer um conjunto de trabalhos que apresentei recentemente na exposição “Lugares do Delírio” (curadoria Tania Rivera, MAR/ Rio de janeiro, 2017, SESC Pompeia/São Paulo, 2018).1 Esses trabalhos, realizados nos últimos 30 anos, articulam essas duas dimensões complementares (de arte e terapia) de minha atuação, alguns deles realizados em parceria com clientes do EAT.

As dízimas periódicas (com Roberto Garcia)


Roberto Garcia (colaboração: Lula Wanderley e Leandro Freixo). Análise combinatória entre uma dízima periódica e uma progressão geométrica. Vídeo, 16’00”, anos 1990.

Uma estrutura musical transformada em performance criada por Roberto Garcia a partir de suas dolorosas vivências que uniam impulsos suicidas à matemática. Roberto procurou-me no EAT. Contou-me que “ouvia vozes” que pediam que pulasse da janela do seu quarto. Para conter-se, cria o que chamou de “espiral de memória”. Na busca de uma imagem primordial que lhe provocasse um alívio de sua angústia, Roberto tocava seu corpo e deixava vir, em “grande velocidade”, lembranças do passado. Tomava seu pensamento como superfície onde via toda sua vida projetada. Sem êxito em conter forças dissociavas que impulsionavam para a morte, Roberto se vê interessado pela exatidão da matemática, talvez como forma de exercitar um pensamento rigoroso em oposição ao caos que se aproxima.

Uma pesquisa de Roberto a partir de uma intuição matemática (restos de uma divisão e sua periódica repetição) faz com que ele descubra e se fascine pela maneira com que uma série de números se repete infinitamente em ritmos que, se projetados em uma espacialidade, lembram espirais em direção ao infinito: as dízimas periódicas. Em que trechos desta espiral em um espaço bidimensional (pela combinação de duas séries de número, em um eixo cartesiano), Roberto compõe formas que como células, se repetem infinitamente. A interferência da cor insere essas formas no espaço bidimensional pictórico. Roberto compõe formas, que pela exatidão e simetria, assemelham-se a uma arte azulejar. Em parceria com o músico Leandro Freixo, através um programa de computação que escreve partituras, Roberto transcodifica esse espaço bidimensional plástico, em uma estrutura musical. A partir de um valor numérico atribuído às notas musicais (440 hertz é o número atribuído ao lá para afinação dos instrumentos) ele transforma uma série de números espiralados em uma combinação de notas musicais.

É quando lhe vem a revelação da “matemática da vida”: as células que se dividem / multiplicam e se diferenciam a partir da célula trofoblasto (célula mater) para formar nosso corpo obedecem aos ritmos dos “números espiralados”. Sonha em construir uma estrutura matemática que pudesse transformar em música qualquer série de números que correspondesse a cada órgão do corpo. Ao recompor seu corpo vazio, Roberto contem os impulsos que lhe impõe as vozes: o fluxo espiralado revela sua direção à vida, ao buscar recompor a organicidade de seu corpo vazio. Tempos depois, apresentamos essa sinfonia com músicos profissionais na inauguração de uma sala no teatro da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Nasce, assim, o que viria a ser chamado mais tarde, o Grupo de Ações Poéticas: Sistema Nervoso Alterado.

Grupo de Ações Poéticas: Sistema Nervoso Alterado

A singularidade do Grupo de Ações Poéticas: Sistema Nervoso Alterado está na busca da construção artística a partir da vivência dos participantes transformada em criações, sem se deixar levar pelo caminho fácil da imitação de produtos da indústria de entretenimento. O resultado desta proposta, indo mais além das oficinas criativas, é a potencialização da capacidade de criação e integração de todos envolvidos, materializada em forma de espetáculo apresentado em diversos segmentos culturais: escolas públicas, centros culturais e teatros. A diversidade de encontros dentro de um esforço coletivo para alcançar um objetivo único: o espetáculo e sua celebração tornam-se fortes experiências na vida de cada participante. O prazer torna-se fonte de crescimento.

O grupo se formou em 1994 como Grupo de Ações Poéticas, que desde 2005 passou a denominar-se Grupo de Ações Poéticas: Sistema Nervoso Alterado, com direção de Guilherme Milagres, composições de Illcatan, Geronimo e Jackson, direção e criação performática de Daniel Oliveira, Lula Wanderley, Sandra Autuori e Maurício Junqueira, figurinos de Neusa Campanolo, participação dos atores Mônica Rodrigues, Luciano Soares, Márcio Romeu, Geronildo do Nascimento e Fernanda Nogueira, e dos músicos Max, Diego Rebello, Cláudio Francisco, Marcos Inácio, Severino dos Santos, Adriano Calca, Laércio Cláudio, Pedro Berenger, Alexandra Montalvani e Cristiana Corcine. Hoje o grupo permanece ativo em nova formação, sob a direção de Leandro Freixo e denominado de Sistema Nervoso Alterado Jazz Band.

Corações em desatino

Sistema nervoso alterado. Vídeo, anos 90.

Uma Ópera Cordel (criação coletiva) onde um cantador nordestino dialoga com um rapper sobre a Reforma Psiquiátrica Brasileira. A banda imprime um dinamismo à cantoria com a fusão de diversos ritmos; enquanto um coro empresta um contesto fantástico ao diálogo.

Alterado Fashion Week

 

Musical em que ironizamos o imaginário social da exclusão através de uma paródia dos desfiles de moda. Nele, desenhamos, vestimos e desfilamos com “camisa de forças” que representam as injúrias que somos obrigado a “vestir”/suportar na sociedade brasileira: camisa de força da política, da imprensa, da justiça, da opressão à mulher, etc.

Os murais de Ênio Sergio

Murais de Ênio Sergio. Vídeo, anos 1980.

Quando fomos convidados a passar um dia em um sítio, Ênio não se mostrou disposto; pediu-me para ficar e também, algumas latas de tintas para ficar fazendo um mural. Voltamos no final da tarde e encontramos Ênio exausto. Tinha pintado todo interior do prédio : ala masculina do antigo Hospital Gustavo Ridhel, de onde se originaram as ideias da criação do Espaço Aberto ao Tempo. Cerca de 12 murais que incluíam janelas, portas e paredes laterais da escada; de um realismo fantástico comovente. Ao pintar seus murais, Ênio Sergio “arrebenta” as paredes do hospício, aliando-se a nós na construção do EAT. Tempo depois, a instituição psiquiátrica apagou todos os murais de Ênio Sergio; e nós, ocupando uns corredores abandonados do hospital, criamos o EAT.

Insônia (Eu horizontal X Eu vertical) com Wanderlei Ribamar

Lula Wanderley e Wanderlei Ribamar. Insônia. Vídeo para instalação multimídia 06’40, 2016.


Fig 5. Vista instalação Insônia (Eu horizontal x eu vertical). “Lugares do delírio”, SESC Pompéia, São Paulo, 10 de abril – 1 de julho 2018). Foto: Everton Ballardin.

Wanderlei Ribamar perguntou-me o que fazer com sua insônia. Sugeri que criasse filmes aproveitando seu excesso de vigília. E com uma filmadora rudimentar ele fez diversos filmes surpreendentes. Vídeos onde o cineasta não parece dominar as imagens em fluxo, são elas que imprimem ao seu olhar ritmo e direção. Chamei Sandra Autuori (edição) e Manuel Lima (sonoridade) e criei para um dos seus filmes a instalação: Eu horizontal x Eu vertical. Nela, a parceria como clínica se realiza plenamente nos museus e galerias de arte.

Sutis laços que nos unem (com Rogério)


Lula Wanderley e Rogério. Sutil laços que nos une. Vídeo 05’21”, anos 1990.

Rogério finalmente dá sinais de melhora, um dos quais era trocar sua inquietação destrutiva (costumava jogar seu rosto contra a parede ou o cobrir de fezes) por um hábito que, no princípio, me incomodava: colocava-se ao meu lado e, como num jogo especular, copiava todos os meus movimentos. Pela seriedade com que o fazia, me levava a pensar que Rogério buscava uma empatia comigo como um caminho possível (arcaico) para uma nova comunicação com o mundo. Ao apropriar-se de meus gestos, Rogério buscava a consciência dos seus.

Durante as décadas de 1980 e 90, experimentamos no EAT todas propostas corporais de Lygia Clark (não apenas a Estruturação do self); bem antes que elas fossem “amortecidas” nos espaços institucionais de arte ou virassem fetiche nos lúdicos grupos de experiências corporais. Lygia tinha me presenteado com uma estrutura espacial geométrica que se formava a partir dos gestos de dois participantes. As Estruturas vivas eram construídas, por cada participante da proposta, com pequenos anéis de elásticos entrelaçados. Passei a exercitar esses sutis laços que unem duas pessoas com Rogério. Nessa época, a bailarina Angel Vianna, aproveitando a vinda de bailarinos italianos que trabalhavam na área de saúde, organizou um festival de dança e performance e convidou o EAT para participar: chamei Rogério para nos apresentarmos. Diante dos espectadores daquele teatro improvisado, nos movemos (e co-movemos) em busca de uma vibração na mesma sintonia (empatia) que nos levasse a criar novos ritmos e movimentos – uma comunicação abstrata e intensa. Para nós, a estrutura de elástico era “invisível”, incorporada aos nossos gestos em fluxo espaço-temporal – pura vivência. No final, quando do último movimento, em um gesto ousado, ele encosta os pés nos meus pés como quem quer perpetuar a fusão dos corpos. O jogo de elástico cria um contínuo entre meu corpo e o dele, mas a estrutura absorvida em um tempo interior e, simultaneamente, devolvida ao espaço em forma de diálogo, traz, para cada um de nós, a consciência do gesto. Rogério chega a mim, e vice-versa, através dos elásticos e assim nos comunicamos e nos reconhecemos a partir do movimento do outro. Era o que ele buscava ao copiar meus movimentos.

O vaso dos sonhos


Lula Wanderley. Vaso dos sonhos: Paracambi. Vídeo, 2009

O Vaso dos sonhos é uma experiência poética que fiz em escolas públicas para dialogar com crianças do município de Paracambi. O Hospital Dr. Eiras, o grande hospício de Paracambi, ia ser fechado e a cidade estava temerosa da “invasão dos loucos”. Gina Ferreira fez um projeto de intervenção cultural na cidade para conscientização da necessidade do fim do insano manicômio e convidou o EAT para participar. Coube a mim conversar com as crianças sobre os acontecimentos, desmistificar aquela imagem caótica que havia sido criada. Me ocorreu a ação simbólica de guardar seus sonhos em um enorme vaso, que guardaria notícias de nosso encontro.

Diálogo da projeção do olhar


Fig 6. Lula Wanderley. Diálogos da projeção do olhar: Lula Wanderley e Gina Ferreira. Objetos e fotográfia, c.1984

Quando encerrei minha experiência da Estruturação do self, criei para Lygia Clark três diálogos com a projeção do olhar em espelhos: uma tentativa de criar uma metáfora de meu processo com os Objetos relacionais.

Esse texto foi baseado no material preparado para a exposição “Lugares do delírio” com a curadoria da Tania Rivera em conjunto com várias conversas com as organizadoras desta edição da Revista MESA e entrevistas recentes, tais como “A Reestruturação do Selfie” com Analu Cunha, Inês Arauju e André Sheik em 2016 na Revista Concinnitas v.2, n.29, junho 2017 [disponível online http://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/concinnitas/article/view/28171/20592

 

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Lula Wanderley
Artista, nascido em Pernambuco, vive no Rio desde 1976. Em Recife, colaborou como artista gráfico em jornais e revistas e fez experiências com poesia visual. Simultaneamente, estudou medicina formando-se pela Universidade Federal de Pernambuco. No Rio de Janeiro, colaborou com Nise da Silveira na Casa das Palmeiras, e com ela e Mario Pedrosa realizou o projeto de reformulação do Museu de Imagens do Inconsciente, patrocinado pela FINEP. Participou de mostras e realizou exposições individuais, entre elas A estratégia angular de um poema (CMAHO, curadoria Izabela Pucu, 2016). Colaborou também com Lygia Clark na pesquisa sobre arte/corpo/psiquismo. Criou o Espaço Aberto ao Tempo, do qual é coordenador técnico, onde desenvolve, há 25 anos, trabalho com psicóticos, tendo como meta principal a busca de uma clínica experimental e poética.
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1 [Nota editora N.E.: Para mais informação sobre a exposição “Lugares do delírio” ver o artigo da Tania Rivera nesta edição http://institutomesa.org/RevistaMesa_5/tania-rivera/]