Abel Luiz e a oficina livre de música., 2011. Arquivo Loucura Suburbana

Por um “estado-de-mundo”: De onde se vê. De onde se aprende…1

Abel Luiz

Comecei frequentar o Instituto Municipal Nise da Silveira – na época, Centro Psiquiátrico Pedro II –, mais regularmente, nos anos 1990, quando, na ocasião, minha família se mudou de Todos os Santos (outro lado da linha do trem), pra o Engenho de Dentro.

Minha família materna é cria de lá e suas respectivas adjacências – Piedade, Água Santa, Encantado, Outeiro, Camarista Méier, etc.. – fazendo com que eu não só conhecesse, mas também me identificasse muito com o bairro.

Por lá fiz muitos amigos e, por conta desta convivência, juntos jogávamos bola, futebol de botão, gude. Soltávamos pipa, corríamos pelas ruas e matagais dos morros, íamos pra bailes funk e pagodes. E fazíamos pequenas fortunas com os pombos que vendíamos para o antigo Mercadão de Madureira – de tão pequenas que eram estas fortunas, rapidamente se esvaiam pelo camelódromo, em meio a bermudas, camisas, chinelos, calçados, bonés e demais acessórios que pudessem nos deixar mais no style da época.

No meio disso tudo, uma frequente atividade nossa era jogar bola no Centro Psiquiátrico Pedro II, no campinho ou na quadra próxima à entrada principal, na Rua Ramiro Magalhães. Consequentemente, logo ao lado, outro local de frequência nossa era o Centro Municipal de Assistência Social Integrada (CEMASI) Gonzaguinha, onde também ficam o Centro Comunitário e, na época, a comunitária e “pirata” Rádio Revolução.

Lá se reuniam muitos de nossos amigos. Um grande ponto de encontro e trânsito entre diferentes e diferenças eram as aulas de Capoeira, ministradas, naquele momento, pela Professora, hoje, Mestra Rufato.

Na Capoeira, todo tipo de gente se encontrava – molecada, vizinhos, “pacientes”, funcionários, etc… Todos nas correrias e durezas de suas diferentes vidas se cruzavam e, entre diversidades e diferenças, produzíamos trânsitos.

Com o tempo, se juntaram, no local e no trânsito, o Museu de Imagens do Inconsciente, o Clube Escolar, e coisas que posteriormente foram surgindo como o Bloco Carnavalesco Loucura Suburbana, a Cantina, os Centros de Atenção Psicossociais (CAPS) Clarice Lispector e Raul Seixas, e outros potenciais serviços e equipamentos voltados para todos e seus trânsitos pela vida, pela cidade…

Nesse meio tempo, ganhei e perdi muitos amigos. Relações que me ensinam que aprendemos a ver o mundo de onde estamos. Tenho amizades de mais de 20 anos com pessoas que passaram situações muito mais difíceis que as minhas e que me dão a oportunidade ver como o mundo tem mudado – e para melhor.

Faz 20 anos conheci uma dessas pessoas. Veio de um manicômio onde sofreu todo tipo de abuso e violência (sexual, emocional, física, moral…). Lembro que parecia uma fera. Da mesma forma, lembro de que quando fui, pela primeira vez, na acupuntura, perguntei sobre medicina chinesa e, resumindo, muito brevemente, ouvi que seria uma espécie de proporção de 3 para 1. (Ex: se você tem uma noite mal dormida, precisa descansar plenamente três dias para se recuperar plenamente.)

Ouvi isso e me lembrei desse amigo, e da gente que passa por 20, 30, 40 anos… – em manicômios como os que falei anteriormente – de quanto tempo precisam?

Naquela época, tinha o que chamo de “estado-de-mundo”, este definia nossa espontaneidade. Incorporávamos as pessoas, dentro de nossas limitações. E é neste ponto que quero chegar: vinte anos depois encontrei outra pessoa, vinda de um manicômio privado interditado e fechado pelo Ministério Público, com as mesmas marcas de uma trajetória de dor e sofrimento imposta nestes e por estes locais.

Neste ponto, cabe ressaltar que pautas como racismo, machismo, gênero, loucura, promoção da saúde, direitos humanos, cultura, e demais temas que dialoguem com as diferentes e diversas formas de ser viver, ser e estar no mundo e com o outro estão longe do ideal, porém, estão muito acima das expectativas que eu e meus amigos dispúnhamos nos anos 1980 e 90.

E, seguindo nessa direção, vi, uma vez, chegando à sede do Loucura Suburbana, este amigo mais recente ao qual me referi. Há cerca de quatro anos atrás, ele invadiu a quadra do Clube Escolar, no meio de uma aula de Ginástica Rítmica – adentrou a quadra no melhor estilo “Demônio da Tasmânia”!

Além da professora, havia um aparelho de som e uma turma de meninas com seus maiôs e fita para ensaiar sua coreografia. Grunhindo, se agitando, e visivelmente empolgado, ele entrou e ficou correndo pela quadra até que uma menina de, aparentemente 5 anos, foi até ele, com toda calma, delicadeza e segurança, entregou-lhe uma fita rosa, se virou e ligou o rádio.

Enquanto a turma ensaiava, meu camarada grunhia, girava e rodopiava livre pelo resto da quadra curtindo o momento – seu, delas e de todos.

O Clube Escolar2 fica dentro do Nise3? Sim. E, atualmente, sob a sede do Loucura Suburbana.

Mas, assim como eu, aquelas crianças, naquele momento, não tinham – e, de repente, nem têm! – noção dos trabalhos que se fazem lá, das coisas ruins que por lá aconteceram, e, muito menos, estão em discussões sobre temas pungentes da vida na sociedade contemporânea. Eles estão fazendo algo além, estão sendo espontâneos frente ao “estado-de-mundo” que, hoje, se apresenta. Um mundo com novas pautas e conversas sobre o diferente e o diverso na vida ordinária de pessoas humildes que o constroem:

O dia-a-dia de suas vidas, casas, ruas e cidades…

O dia-a-dia de vidas que sobreviveram ao sofrimento extremo por sua vontade e direito de viver…

O dia-a-dia de reações de violência e retrocesso que, nada mais, demonstram o desespero das alas conservadoras e patriarcais de poder com a forma com que o mundo já demonstra e impõe seus novos rumos e transformações.

Enfim, de lá, e com muitas pessoas – vidas! –, aprendi que estamos na frente e que iremos além. Os que insistem – e da pior forma – no contrário também já sabem que iremos além, daí tamanho desespero e despreparo. Não porque sofrimento, a alegria, a diferença e a diversidade, é uma experiência para alguns. Muito pelo contrário, é a vida, um direito e um “estado-de-mundo” inalienável em todas e todos.

PS: cada parágrafo deste texto / relato contém um mundo de histórias e sonhos que não cabem neste depoimento. Mas estamos por aí… Construindo, trânsitos e diálogos pela cidade. Enfim, é muito bom quando a gente se encontra e conversa. E, seguramente, dentre os muitos e possíveis encontros que a cidade pode e deve oferecer, nos vemos, algum dia, seja na Oficina Livre de Música, e nas demais atividades oferecidas pelo Loucura Suburbana; seja no próximo desfile deste querido bloco, pelas ruas do bairro do Engenho de Dentro.

Oficina Livre de Música e o Bloco Loucura Suburbana

Na virada do milênio, de 1999 para 2000, o Centro Psiquiátrico Pedro II, até então federal, subordinado ao Ministério da Saúde, se municipaliza e passa a se chamar Instituto Municipal Nise da Silveira (IMNS – Nise), em homenagem à visionária mulher, psiquiatra, artista e defensora do direito à vida em toda plenitude que, neste mesmo local, fundou o, até hoje presente, Museu de Imagens do Inconsciente, revolucionando e recusando todo tratamento/violência psiquiátrica.

Tais mudanças vieram acompanhadas da fundação de um centro e de uma rádio comunitária, no final dos anos 90 e culminaram no surgimento do Bloco Carnavalesco Loucura Suburbana – carinhosamente chamado de Loucura – no ano 2000. Partindo de uma iniciativa do corpo de funcionários do IMNS, iniciou-se como uma forma de fazer e pensar o carnaval, com a participação conjunta de clientes com transtornos psíquicos, funcionários, voluntários de bairros vizinhos e comunidade local.

Devido ao fato de, na época, eu já atuar como músico profissional e ser reconhecido como tal no bairro, a aproximação entre mim e o Bloco foi recíproca e se fortalecendo ao longo dos anos, passando de atuações pontuais (apresentações, rodas de samba, desfiles…) para participação na construção do cotidiano e da continuidade do Bloco. Desde então, sou responsável pela coordenação musical.

Pouco a pouco, o Loucura vem ganhando muito mais do que as ruas do Engenho de Dentro, conquistando o apoio de pessoas e de diferentes setores da sociedade civil, artistas, políticos, profissionais da saúde e de outras áreas do saber, acadêmicos e comerciantes locais. Estes, juntos, além de legitimarem as ações do bloco, aumentam consideravelmente a amplitude territorial dessas ações, algo que pode ser visto claramente frente ao aumento do número de participantes, tanto nos períodos de pré-produção e pós-produção, quanto no acontecer do desfile.

Assim, através do Loucura, a cidade do Rio de Janeiro vem adquirindo uma nova forma de pensar o carnaval como acontecer solidário no qual o louco e a loucura conquistam novos significados, humanos e artísticos, redefinindo laços sociais, políticos e culturais que promovem um diálogo constante entre a sociedade civil, que desmistifica sua impressão sobre o hospital psiquiátrico (tudo e todos que o envolvem) ao frequentá-lo e ocupá-lo como novo sentido, e os clientes que, mediante a “exterioridade” de suas ações, passam a ter uma relação menos estigmatizante com os vizinhos e arredores do “além-hospital.”

Para que haja um “acontecer” enquanto bloco, o Loucura conta com uma equipe de diversas origens e profissões. As ações da equipe incluem atores e fatores internos e externos ao hospital, integrando-os e multiplicando-os através da organização dos eventos que terão como culminância o desfile como divulgação (interna e externa) escolha do samba, ensaios, etc.

Além de ser um dos coordenadores do Bloco, sou responsável pela Oficina Livre de Música. Esta se realiza no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) Clarice Lispector, localizado no parque imobiliário do Instituto. Hoje incorporada à rotina do Bloco, esta oficina se realiza desde 2007, e tal proposta nasceu do encontro com três pessoas que lá trabalhavam e que, comigo, montaram um grupo de estudos onde as curiosidades epistemológicas de minha primeira formação – Licenciatura Plena em Geografia – se encontravam com os debates sobre a reforma psiquiátrica, a luta antimanicomial e a pesquisa, construção e elaboração de políticas públicas que pudessem contemplar, de forma equânime, a efetivação de um Estado democrático de direito.

 

Vou levar muitas vidas pra processar tudo que aprendo lá sobre música e humanidade…

Quando tenho oportunidade, converso com as pessoas, me reavalio também. E me perco pensando em quantas vezes o som pode ser transformador e revelador de espaços, relações, etc.

Lá recebo todo e qualquer tipo de pessoa: membros “diretos” da rede de saúde mental (usuários, familiares e trabalhadores dos serviços); e membros “indiretos” da rede de saúde mental (vizinhos do bairro e adjacências, de diferentes gêneros, classes e faixas etárias, assim como moradores de outros municípios, estados e até países).

Com o tempo, fui entendendo que meu recurso para reunir gente, em diferença e diversidade, é o som. E que é preciso estar atento e pronto para ofertá-lo e acolhê-lo de diferentes formas, muitas vezes, num mesmo momento.

É uma espécie de trocas e (des/re)construções de experiências e experimentações sonoras onde o som preenche brechas físicas e sensoriais como espaço e corpo, e subjetivas como tempo e afeto, por exemplo.

Desta forma, num mesmo momento e ambiente de constante transição, temos gente estudando teoria e arranjo, com a mesma intensidade de que quem quer ouvir um som enquanto fuma um cigarro ou espera seu atendimento.4

Por alguns instantes, a vida de todos fica ordinária, mas fica tão comum, a ponto das pessoas se reconhecerem porque estudam, veem novela, gostam de música, jogam bola, cozinham, etc.5

E, em meio a tudo isso, o som passa…

E muita gente que já passou por lá, deu e recebeu um pouco de tempo e som para o seu e outros mundos. Gente que, assim como eu, muitas vezes, saiu do Clarice e/ou da Oficina Livre de Música diferente de como chegaram.

Enfim, entre sons e ordinários, tenho recebido grandes lições sobre vida, morte e humanidade. Coisas, de fato, comuns a todos, e, ao mesmo tempo, tão originais e ordinárias, a partir do momento em que um grupo de pessoas, em diferença e diversidade, se reúne pra fazer algo junto. No nosso caso – som. 6

Sendo assim, para essas pessoas e para nosso estar-junto, muito obrigado!

 

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Abel Luiz
Músico, compositor e arranjador. Coordenador da Oficina Livre de Música do Ponto de Cultura Loucura Suburbana; diretor musical do Bloco Loucura Suburbana; arranjador do CD Sambas Campeões do Loucura Suburbana. Foi professor no Conservatório Brasileiro de Música. Co-fundador do Samba do Trabalhador. Coordenou Curso de Formação de Agentes Culturais Populares/Dep. de História da UFF. Integrou É com Esse Que Eu Vou: O Samba de Carnaval na Rua e no Salão; coordenou a mesa Samba e Trajetórias no VII Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura/UFBA. Lançou, em 2013, o CD Sotaques e Influências.
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1 Este breve texto é um síntese de várias reflexões e escritas em andamento desde 2010. Para uma reflexão mais ampla refere-se ao meu livro recém publicado Oficina Livre de Musica (a experiênca/experimentação musical na produção de mediação cultural e novas solidariedades no CAPS Clarice Lispertor) Rio de Janeiro: Nova edições acadêmicas, 2018.

2 Equipamento público ligado à Secretaria Municipal de Educação, destinado para a oferta de atividades de esporte e lazer para os estudantes de rede pública de educação do município do Rio de Janeiro na Região do Grande Meier (bairro suburbano da zona norte da cidade).

3 Instituto Municipal Nise da Silveira.

4Uma das questões importantes e que, apesar de historicamente comprovada precisar ser enfatizada e demistificada é a que diz respeito à qualidade artística do que é representado, ou melhor, de quem está sendo representado para que não se caia numa inconsciente descriminação positiva para com os loucos, tornando irrelevante uma tomada de posição sobre o que está sendo produzido por eles e, consequentemente, não danado a devida atenção, assim como o devido suporte artístico, para sua produção. Pensando nisso a Oficina Livre de Musica tem como objetivo do ensino pratico e teórico do ensaio de musico utilizando instrumentos populares de percussão e cordas, a composição e produção de um novo cotidiano. Importante anotar que mesmo sendo localizado no parque imobiliário do IMNS, o CAPS conta com coordenação e administração independente.

5 Este cuidado como a execução conta colaboração de músicos profissionais que junto com os clientes dão asas à imaginação e à realidade do que está sendo apresentado ao cotidiano da cidade. Ou seja, o ponto de convergência onde e de onde essas múltiplas relações e inter-relações promovem uma resultante sobre e a partir do cotidiano. Cotidianos que, enquanto forma de pensar em si, no outro e na cidade encontram através de competente exposição artístico-poético-musical uma forma de chegar a outros cotidianos. Cotidianos esses que causam, muitas vezes, mais surpresa pelas semelhanças do que pelas diferenças.

6 Para ouvir/assistir algumas das musicas da Loucura:
You Tube: https://www.youtube.com/user/LoucuraSuburbana
Soundcloud: https://soundcloud.com/loucurasuburbana