Cristina Ribas. Manifestação Marielle e Anderson. Maré, 2018.

Negar cuidado: cuidados reprodutivos e o cuidado como direito

Cristina Thorstenberg Ribas

Eles dizem que é amor. Nós dizemos que é trabalho não assalariado.

Salários contra o trabalho doméstico.1

O que é o cuidado? A quem compete cuidar? Cuidar é uma capacidade inerente à vida? Onde e quando começa o cuidado? Em que práticas, em que corpos e por meio de quais saberes, e ainda – instituições? Diante de um mapeamento sensível e micropolítico do cuidado detectamos que há, por outro lado, estruturas de poder que sabem muito bem bloquear tal agenciamento do cuidado.

Entre saber cuidar e negar cuidado podemos mapear uma infinidade de posições e instituições. As cuidadoras ou os cuidadores, em suas relações familiares, de amizade ou profissionais – mais ou menos precarizadas. Os grupos de bairros, as comunidades das lutas identitárias, as diversas formas de auto organização social. As instituições de saúde, os hospitais, as clínicas, as escolas, as creches. O estado. E claro, aqueles que são cuidados: as crianças, os velhos, os incapacitados de algo. Mas essa listagem pode ainda colocar em uma relação muito estanque a binarização entre aquele que cuida e aquele que é cuidado. A ideia aqui é pensar redes mais complexas de cuidado. No encontro Cuidado como método (realizado em setembro e outubro de 2017) estivemos juntas e juntos trocando experiências sobre, analisando e aprendendo, encontro do qual este texto faz parte como cartografia em processo.

Meu texto é uma abordagem breve sobre o cuidado a partir de uma série de questionamentos, e dialoga com as falas de Maria da Penha, Mariana Pimentel, Bianca Bernardo, Thelma Vilas Boas, Shona Macnaughton, Tania Rivera e mais participantes. Onde e como se estabelece o cuidado em nossas vidas é algo que tem a ver com as relações vitais, da ordem dos afetos e do cuidado da vida mesmo, mas também tem a ver com nossos direitos. O direito a sermos cuidadas e cuidados. Há um embate sobre a significação do cuidado que quero endereçar: o cuidado tomado como potência naturalizada (e sua relação com a produção de gênero), de onde emergem algumas posições feministas que negam essa naturalidade, e, por outro lado, na dimensão macropolítica, como o cuidado como direito é um dos primeiros direitos a ser tolhido tão logo a “crise” econômica é instituída pelo estado (e pelo capital). Não é à toa que na instituição da crise o estado sucateie ainda mais o sistema público de saúde e desarticule conselhos de proteção a diversos grupos e minorias. Na dimensão do cuidado como direito, a instituição da crise expõe uma série de violências, categorizações e paternalismos. A perda de direitos e o estado de “crise” geram uma série de efeitos, sobretudo uma despotencialização da capacidade de cuidar. O que chamo de um “bloqueio” da capacidade de cuidar.

O texto se arrima portanto simultaneamente perto das domesticidades (familiaridades, coletividades, grupalidades…) do cuidado e dos conflitos que daí emergem, mas também das institucionalidades do cuidado, ou seja, das instituições responsáveis por cuidar, e as impossibilidades que se colocam com a imposição da crise. Em 2018, realizei uma oficina no Rio de Janeiro durante quatro finais de semana, na qual colocamos em prática – no corpo – o exercício de pensar e realizar redes de cuidado e redes de criação. 2 Essa oficina, de certa maneira, deu continuidade a uma série de questões que trabalhamos no encontro em outubro, e fizeram parte dela algumas mulheres, artistas ou não, que estiveram presentes no encontro.

O cuidado na sua dimensão dos direitos inclui, por exemplo, o sistema educacional e de creches, o sistema público de saúde, e em especial a atenção à saúde mental, aos cuidados reprodutivos e à saúde reprodutiva, à perspectiva de gênero contra a homofobia, a lesbofobia, a transfobia, a gordofobia entre outros, assim como outros agenciamentos do cuidado em intersecção com outras práticas, como a produção estética e cultural. Acredito que, ao pontuar a relação entre a capacidade de cuidar e os bloqueios desta capacidade, acabamos por explodir a separação entre privado e público, e, claro, entre o doméstico e o social ou o comum. Isto também expõe a conexão entre as dimensões micro e macropolítica do cuidado. O texto pensa, por isso, a partir do valor do cuidado em algumas lutas sociais, assim como pensa junto de alguns projetos e contextos sociais e políticos atuais que vão colocar em evidência algumas questões relacionadas aos antagonismos, estratégias e às linhas de fuga do cuidado.

Uma pequena pausa na leitura do texto: vá ao link https://soundcloud.com/ceciliacavalieri/taking-care-of-a-baby-shouldnt-be-a-female-task e escute o trabalho de Cecília Cavalieri: Cuidar de um bebê não deveria ser uma tarefa feminina. Você pode escutar e seguir lendo o texto, se quiser. 3

Evidentemente não vou esgotar o tema das significações e das capturas que se impõem sobre o cuidado e todos os anteparos que se interpõe, aniquilando a capacidade de cuidar. Este texto quer investigar com você algo que, percebo, é urgente abordarmos hoje. E, antes de seguir, preciso dizer que reitero um ponto de vista absolutamente não especialista. Escrevo este texto diante das evidências de ser uma mulher branca, mãe, classe média, etc. Portanto, com alguns privilégios, desejando que este texto exceda a minha própria identidade e reverbere em outros processos de vida, afetivos, amorosos e mais. O mesmo vale dizer sobre a perspectiva feminista que vou elaborar aqui: não falo a partir de um feminismo que defende uma categorização identitária – mulheres – e uma identificação cis gênero (no qual apenas mulheres identificadas a seu sexo de nascimento estariam incluídas) – falo de uma perspectiva feminista, de um feminismo em ato e em processo, em que se luta na linha contrária das binarizações na produção do gênero, contra o controle fascista da produção de gênero e da vida mesma.

O cuidado – expressão que sugiro mudar o gênero, para ‘a cuidada’ – pode ser pensado a partir do cuidado mais invisível e ao mesmo tempo mais instituído socialmente: o cuidado reprodutivo. Este tipo específico de cuidado é realizado na grande maioria por mulheres, e por mulheres de cor. Mulheres em suas famílias, mulheres em situação de precariedade trabalhista. Esse cuidado, contudo, não está circunscrito apenas à esfera do trabalho formal (e precário, e escravo, e submisso…) mas se confunde e está presente na vida dessas próprias mulheres – constituído como trabalho reprodutivo não pago. O trabalho ou cuidado reprodutivo são todas as ações que se desenvolvem no cuidado da vida. Também é trabalho ou cuidado reprodutivo o cuidado de nossas filhas e nossos filhos para que possamos trabalhar, o cuidado de idosos, de incapacitados por isso ou aquilo. Os cuidados estão tramados no plano de fundo pela infraestrutura invisível do trabalho doméstico, que cuida, alimenta e nutre (emocional, culturalmente, etc.) a porção “produtiva” da sociedade. Mas o cuidado reprodutivo não para aí: ele se estende a inúmeras outras ações e modalidades do cuidado, como vou trabalhando no texto.

O cuidado nesse texto é pensado em uma perspectiva ampla – transversal, visto que o cuidado reprodutivo não compreende, apenas, por exemplo, a criação de uma criança. Nesse sentido, podemos perguntar: quem cuida e como uns aos outros? Que redes formamos? Nas relações de amizade, familiares, em redes, em conversas, em bares, em banhos de mar? Mas, sobretudo, para além da individuação do cuidado sobre nossos corpos – objetificação? institucionalização? controle? – como fazemos do cuidado um saber distribuído e interseccional, pelo qual também passam as perspectivas de gênero, raça, classe, geração e mais – na perspectiva de um cuidado da vida em comum? De que maneira podemos ao mesmo tempo demandar nossos direitos e resistir às diversas capturas que se apossam do cuidado? O cuidado pode reaparecer então como composição de práticas e saberes.

A amizade é uma rede de cuidado não instituída?

Anotação no meu caderno pessoal4

Dentre as condições que se colocam, sinto que é preciso colocar em evidência algumas questões relacionadas à significação do cuidado como potência naturalizada (e reprodutora por sua vez do gênero feminino, da mentalidade da ‘super mãe’, e da reprodução de classe – pois quem cuida a trabalho o faz por menos salário que aquele que contrata o serviço); assim como isto não está separado dos bloqueios na potência do cuidado com a instituição da “crise”. Cuidado de minha filha que eu mesma não posso negar, e negação do estado de fornecer estruturas de cuidado eficientes e funcionais. Aproveito e pergunto: quem cuida e como cuida de minha filha quando eu não posso cuidar? A Escola? Amigos? As avós? O pai? Meu companheiro?

Cuidados reprodutivos, reprodução social e feminilizacão do trabalho

De alguma forma, pensar a negação do cuidado tanto na dimensão das lutas feministas como na aniquilação dos direitos endereça a relação sempre conflitiva entre cuidado reprodutivo e reprodução social. Reprodução social é um conceito que serve para pensar as diversas formas de reprodução que caracterizam a sociedade enquanto tal – nossas ações, nossos modos de produção, valores, entre outros. Mas algo do qual somos mais reféns do que sujeitas pois a reprodução social replica modos que podemos mudar muito pouco – a menos que nos coloquemos no trabalho de modificar o modo de reprodução – como defendem algumas perspectivas feministas. A estruturação meritocrática da sociedade é um exemplo de um modo de reprodução social. A estruturação patriarcal também, e pode-se mesmo dizer heteropatriarcal. O encontro conflituoso entre cuidado reprodutivo e reprodução social abre algumas questões a partir de onde puxo uma perspectiva feminista, seguindo certas lutas e práticas desenvolvidas ao redor da politização dos cuidados reprodutivos.

Buscando o termo tanto na sua origem Marxista como feminista, a ‘reprodução social’ se refere aos modos pelos quais uma sociedade regenera e sustenta a si mesma – ou seja, às formas de vida e seus modos de cuidar literalmente dos corpos que compõe um dado grupo social. A reprodução social como modalidade do capitalismo acaba criando vastas ‘populações de surplus’ assim como austeridade e desemprego em tempos de crise. Então a questão ‘como lutar no âmbito da reprodução social’ não trata-se apenas de como gerenciar o estado de bem estar social de um país.

Hansen & Zechner, 20155

Os cuidados reprodutivos na atual estrutura de reprodução social em geral são invisibilizados e precarizados. Por precarizados quero dizer: privados de direitos – trabalhistas e/ou com remuneração sempre insuficiente. O cuidado reprodutivo se manifesta então como uma força brutal porque sobrevive – ou porque tenta sobreviver, porque é força de vida e sobrevivência aos sistemas que o invisibilizam e precarizam. Isso acontece com o cuidado em geral em outras configurações sociais, políticas e institucionais. A crise instituída estabelece políticas de controle e de precarização que nos forçam para um individualismo imenso, para uma angústia do salve-se quem puder. O estado sabe que se interromper estratégias (mínimas) de cuidado, vai estar colocando em ato um dos seus poderes mais nefastos: o poder de ingerência sobre a vida.

O cuidado como um todo não é organizado pelo estado, evidentemente, nem pelo capital. Arrisco dizer que o cuidado é uma energia afetiva que faz parte da vida, pois passa pelo acompanhamento do processo de vida dos outros, e de nós mesmos. Valor a ser defendido mas que não pode ser significado (apenas) na dinâmica de uma economia. Por sua vez, os direitos garantidos pelas leis que fornecem condições mínimas para a manutenção da vida – os direitos ligados à reprodução e à saúde, ao parto humanizado e ao aborto, por exemplo, deveriam ser direitos concedidos pelo estado, visto que eles se relacionam sem dúvida à potência do cuidar.6 O deficiente sistema de escolas e creches por exemplo, pode ser elencado como um dos exemplos de insuficiência de um serviço que também se caracteriza por ser cuidado, assim como outras instituições que formam o tecido social e o estado.

Muitos serviços atrelados ao cuidado manifestam, contudo, a reprodução social atrelada à reprodução binarizada de gênero – professoras, educadoras, cuidadoras, trabalhadoras sexuais, atendentes e secretárias são em grande maioria mulheres, comprovando como ainda estão atrelados os papéis sociais ao gênero. É algo que foi discutido por Donna Haraway em Manifesto Cyborg (1991) e que Cristina Morini discute largamente em Por amor ou à força – Feminização do trabalho e biopolítica do corpo (2014). A autora segue a primeira, e escreve que a precariedade sempre foi uma caraterística do trabalho realizado por mulheres, assim como a captura de valor afetivo (a capacidade de cuidar, escutar, amar), mas escreve que todo o trabalho na atualidade está se ‘feminilizando’. Ou seja, o trabalho no capitalismo cognitivo se torna precário à moda que sempre foram os trabalhos delegados às mulheres, assim como também há uma captura da capacidade de cuidar como característica do trabalho contemporâneo – uma sintetização do cuidado.

De volta ao lugar conflitivo do cuidado, e à relação entre trabalho produtivo e improdutivo, o cuidado bem organizado pelo Estado, o cuidado como direito, poderia cobrir boa parte dos cuidados não remunerados (realizados na maior parte por mulheres) literalmente liberando mulheres para trabalharem – ou para o tempo livre. Diferente da negação do cuidado que o estado impõe, a perspectiva feminista nega o cuidado da vida como sendo uma capacidade específica e inata das mulheres – e ainda das mulheres que tem sido subjugadas há séculos, as mulheres negras e de cor sobretudo. Nenhuma novidade até aqui. Diante disso, são outras significações e tramas do cuidado que vão emergir, visto que nada disso está resolvido, e é nesses descaminhos que trata de meternos. Economias feministas, economias do cuidado. O cuidado produz suas próprias temporalidades e vetores de intensidade, ele está ligado à temporalidade da vida, dos agenciamentos, dos encontros, das capacidades de intuir e improvisar, portanto de estabelecer e reconfigurar laços afetivos, amorosos, políticos, sexuais, e mais…

Conflito com nossas filhas, com nossos filhos, com nossos amores …

Este desejo de liberação fundamental que permite nos introduzirmos em uma prática revolucionária chama a que saiamos dos limites de nossa ‘pessoa’, a que transtornemos em nós mesmos o sujeito e a que saiamos da sedentariedade, do ‘estado civil’, para atravessar os espaços do corpo sem fronteiras e para viver a mobilidade desejante mais além da sexualidade, mais além da normalidade, de seus territórios, de suas agendas.

Félix Guattari, 19737

Eles ejaculam, medidas de merda
Nós parimos, corpos vidas livres.
Se escolhemos não parir, é para preservar a liberdade
Não para alimentar o preconceito
Ou o controle sobre a vida
Nós parimos corpos livres

Cristina Ribas, inédito

Escrevi essa poesia-protesto em meio à resistência às ondas conservadoras do Brasil. Um conservadorismo que se sobrepõe ao corpo de todas as mulheres e daquelas que ‘sabem parir’ (citando a artista Carolina Veiga), e que se impõe ao espaço íntimo de nossas vidas. As estatísticas assustadoras de morte por aborto (ilegal) mal conduzido nos mostram que cerca de 2/3 das mulheres que abortam o fazem por controle de natalidade, exatamente porque já tem filhos. A proibição e a criminalização do aborto é tomada como uma das principais bandeiras da direita conservadora do Brasil, como se o aborto fosse a negação máxima do cuidar.8


Carolina Veiga, Sabemos parir


Carolina Veiga, Sabemos parir

Silvia Federici deixa claro o impasse no qual podemos chegar nos caminhos do feminismo. Como lutar pela transformação social sem entrar em conflito com aqueles que amamos? Sem entrar em conflito com nossas filhas, com nossos filhos, com nossas companheiras, com nossos companheiros? Como questionar a estrutura da sociedade sem olhar para os impasses que se apresentam dentro de nossas casas? Como não negar cuidado, visto o acúmulo de ações, gestos, afetos que se naturaliza nas vidas das mulheres em relação aos seus, sem não demandar uma ressubjetivação de nós mesmas e uma reestruturação das relações, das famílias, das redes, das instituições públicas para que se ocupem também do cuidado? Nesse sentido, cabe mapear a construção do desejo, de nosso desejo… fazer cartografias íntimas. Estas questões reverberam com as que compartilhamos no encontro Cuidado como método quando nos colocamos a pensar as relações entre trabalho reprodutivo, espaço doméstico, esfera pública e trabalho – intelectualidade, produtividade e mais…

Há pais que de fato não cuidam. Não é dessa negação ao cuidado que estou falando, mas também. E, evidentemente, em muito menor estatística, há mães que não cuidam. Raras são as mães que abrem mão de serem as principais responsáveis pelas vidas de seus filhos. São mães que se ausentam, que por inúmeras e desconhecidas razões não dão conta das tantas incertezas e dificuldades que se inauguram com uma nova vida. E seu distanciamento do cuidado dos filhos expõe também a incapacidade dos grupos proximais e da sociedade mesma de aceitar e assumir novas formas de cuidado. Apresenta-se a impossibilidade de conceber uma redistribuição dos afetos na redistribuição dos cuidados. Não quero deixar de fora, com esta perspectiva que o cuidado coloca em questão, a individualidade e os modos de composição pré-individual, de produção de si, e do outro – assunto sobre o qual essa revista como um todo se endereça, a partir de várias perspectivas e experiências.

Há também uma relação intrínseca entre cuidado e os agenciamentos que instituições fazem do cuidado que também vão passar pela produção de uma certa medida no cuidado (ou desaparição da medida, que pode ser na verdade uma imposição, pensando a violência institucional na saúde mental, pensando com Franco Basaglia, psiquiatra italiano, por exemplo9). O trabalho dos cuidados está pleno de uma fusão e confusão porque extrapola nossas individualidades, atravessando e ativando aquilo que é inter-subjetivo e pré-individual. Mas como endereçar a necessidade de transformar o cuidado no dia a dia de nossas vidas, sem deixar que o conflito imobilize nossas relações?

Vou por aqui cartografando, como pesquisadora militante, mas também como artista. Minha militância e minha produção estética se misturam. Com essas ferramentas em mãos, e no corpo, me pergunto que simulações desses novos agenciamentos, desses conflitos e de novos caminhos, são possíveis para além da discursividade da política (negando absolutamente que este seja o único modo de organizar as práticas e os saberes). Diante disso, e diante do que eu mesma posso transformar, tenho encarnado formas de colocar em ato, coletivamente, a experimentação estética e a improvisação teatral como ferramenta – algo de que trato na versão mais longa deste texto.10

O cuidado das cuidadas… é sempre uma defasagem. Recuo do estado. O estado de Crise. Saúde Mental. Necropolítica

Com a falácia da narrativa de “crise econômica”, busca-se derrubar os direitos conquistados e, uma vez feito, serão as mulheres negras e pobres, moradoras das periferias, principalmente das favelas, que estarão ainda mais vulneráveis à violência e ao racismo institucional impregnado nos poros da formação social brasileira. Trata-se, portanto, de construir um bom senso e ações que superem as condições colocadas e alterem a correlação de forças, tornando-as mais favoráveis à vida, aos direitos e à dignidade humana.

Marielle Franco, 201711

Este texto de Marielle Franco explicita uma série de aspectos da vida das mulheres negras, faveladas e em relação à instituição da crise.12 O assassinato de Marielle Franco – silenciada pelos milicianos que ocupam cargos também na política pública – demarca mais uma ação drástica das políticas misóginas, racistas e lesbofóbicas e seus próprios mecanismos de manutenção de privilégio. Assassinos ainda não foram nomeados. Ainda não foi explicado porque as câmeras que deveriam ter registrado o assassinato naquela noite de 14 de Março de 2018 no bairro do Estácio no Rio de Janeiro estavam desligadas.


Marielle Franco, foto de Leon Diniz, 2016


Manifestação Maré, 2009

Pouco depois do assassinato, outra mulher vem a falecer. Vera Lúcia,13 uma das fundadoras do movimento Mães de Maio de São Paulo. O movimento surgiu diante do assassinato dos seus filhos no ciclo de conflitos entre a polícia, milícias e o Primeiro Comando da Capital (PCC), que levou à morte 500 jovens – sem qualquer comprovação de seu envolvimento com o crime. O assassinato sem investigação denomina o que no Brasil se conhece por uma pena de morte sem julgamento e sem aprisionamento. 14 Vera Lúcia perdeu no ano de 2006 sua filha grávida e seu genro. Vera Lúcia, 12 anos depois desse crime cometeu suicídio. Ela se despediu da vida lentamente, repleta de dor, deprimida e só, como descreve a matéria de Arthur Stabile. Morreu cansada da luta que trazia poucas transformações à vida daquelas mulheres que já tinham perdido seus queridos, e também às mulheres e famílias em situação de pobreza. Afinal, o estado, que já tinha tirado a vida de seus entes, não havia concedido direitos ao cuidado, à assistência, ao que fosse que pudesse ser reparatório dessa perda. Não seria esse um estado que nega o cuidado?

No diagrama dos direitos, não é incomum que escutemos nas ruas do Brasil que o programa Bolsa Família não é necessário. Silvia Federici atenta que com a separação entre trabalho produtivo e ‘improdutivo’ – aquele dos cuidados – as mulheres e aqueles para quem o trabalho reprodutivo é designado ficam por fora da rebelião contra o capital. Explicando: visto que o trabalho é considerado ‘improdutivo’, as mulheres não seriam dignas de lutar contra o sistema de valoração – que é, na verdade, de exploração. Mais um dos efeitos do fim da invisibilização dos trabalhos reprodutivos se torna portanto a exposição da exploração como sendo a condição comum do trabalho em geral, não só do trabalho reprodutivo. E claro, a afirmação central de que sim, nós temos direito a rebelar-nos contra o capital, como explicitou o já famoso movimento Wages for House Work (Salários para o trabalho doméstico), dos Estados Unidos, nos anos 197015. Neste sentido, sendo trabalho, a remuneração de um programa como o Bolsa Família deve ser considerada como um direito. Ou seja, um programa como este não é nada menos que a remuneração mínima para um trabalho que é feito ‘dentro de casa’ mas cujos benefícios se espalham para a sociedade e para o sistema produtivo como um todo.

Voltando à relação entre sistema produtivo e exploração, é preciso afirmar que sistema econômico enquanto tal já é de exploração e não garante a saúde mental mínima – não é à toa que nunca se ouviu falar tanto de saúde mental quanto agora. Os efeitos depressivos, alienantes, exaustivos que a construção neoliberal alardeia – a da liberdade de escolha laboral, a da autonomia – por sua vez totalmente relacionados a esquemas meritocráticos e de privilégio, são exatamente o inconsciente desse sistema. Efeitos reprimidos, não assumidos, não problematizados. E o sistema do trabalho não é de forma alguma inclusivo de todo, nada de novo, novamente – que a resistência ao trabalho (negar trabalho!) e a atenção ao tempo livre vem também lutar por. É também de outras formas de produtividade – que não o trabalho como exploração como principal meio de relação social – que se trata o cuidado. É portanto também de outras formas de improdutividade, no sentido de resistência pela liberdade de criar, e de lutar. E de lutar pelo direito de lutar, e de ter direitos – contrário à necropolítica que se institui cada vez mais e que imprime o controle direto da vida como política.

Valor do cuidado nas lutas sociais

O medo é a arma dos fracos. Minha vó sempre me disse.
Vocabulários em movimento / vidas em resistência

Ribas, Sargentelli (et all) 201716

Há um conflito entre cuidado reprodutivo e reprodução social, mas há também um espaço produtivo, que não está sempre visível ou não é sempre considerado, visto que o próprio cuidado reprodutivo é socialmente desconsiderado como trabalho quando acontece por fora das relações de serviço. Mesmo quando se coloca como terreno de luta ‘dentro’ das lutas sociais e diante de outras lutas, o cuidado reprodutivo tende a ser colocado à parte. Sabemos que em muitos movimentos sociais são os homens que tomam à frente a fala sobre o movimento, pois, por estarem menos ocupados do ato de cuidar, desenvolvem discursividade suficiente para pensar e por consequência liderar demandas, modos, conclusões, encaminhamentos. Isto acaba por invisibilizar o valor do cuidado reprodutivo e de alguma forma separa novamente o dito trabalho intelectual do trabalho improdutivo. Em alguns contextos, contudo, os cuidados são exatamente o ponto de articulação das lutas – como é o caso da resistência da Vila Autódromo, por exemplo, no Rio de Janeiro, na qual o protagonismo das mulheres se tornou evidente na luta pela moradia. Em outras lutas, tais como a defesa da água e dos recursos naturais, contra a violência policial e na demanda por serviços públicos, as mulheres também ocupam a frente.

Ao reclamar pelo direito de sua própria vida e pelo direito a defendê-la, algumas classes sociais já submetidas a uma série de exclusões são submetidas a ainda mais repressão. No caso da Vila Autódromo, no Rio de Janeiro, estivemos acompanhando durante alguns meses, eu e Lucas Sargentelli, um pouco da história de resistência das famílias que decidiram não sair desse território onde construíram suas vidas, à revelia do que impunha a prefeitura do Rio de Janeiro e as megaoperações econômicas e políticas ao redor da Copa do Mundo e das Olimpíadas de 2016. Nesse acompanhamento, produzimos um glossário de termos que animam a luta dessas famílias, que chamamos de Vocabulários em movimento / Vidas em resistência17. Emergiram nesse trabalho uma série de aspectos da luta da comunidade que ampliavam o potencial da luta pela moradia. Emergiram nas conversas as noções de cuidado e rede de cuidado e suporte na comunidade, do protagonismo das mulheres na luta, como já foi analisado em diversas pesquisas e artigos.

Marcela Munch e Alana Moraes são pesquisadoras (militantes) que escrevem sobre a perspectiva de gênero na luta social organizada. Marcela Munch escreveu Direitos Humanos e a colonização do urbano – Vila Autódromo na disputa (2017). Alana Moraes, por sua vez, escreve sobre o movimento de luta pela moradia de São Paulo, como no artigo Ocupar fazer funcionar e escapar: pensar as mulheres sem teto. Ela diz:

Em 1978, era o trabalho da produção que constituía-se como estratégico na luta contra o capital. Em 2017, as ocupações se erguem, no entanto, com o trabalho sempre invisível da reprodução da vida. Em 1978, era o capital produtivo dando as cartas. Em 2017 é o capital financeirizado, aquele que habita o vazio do terreno e que escapa para todas as dimensões da vida nos fazendo sujeitos endividados. Com a reestruturação da produção e os deslocamentos na relação capital-trabalho, a reprodução da vida nos parece hoje nosso campo de batalha, nossa última trincheira.18

No encontro Cuidado como Método, Maria da Penha nos contou sobre a sua luta na fala mediada por Eduardo Passos “Residir e ocupar como método”, em 2 de outubro 2017. A fala de Penha, a conversa que se seguiu se somam para mim à nossa experiência na Vila Autódromo, quando produzimos o Vocabulário em 2017. Percebemos nas conversas com Maria da Penha Macena, Natália Macena, Sandra Maria, Denise, Luiz Cláudio Macena e com outras moradoras que primeiro o enunciado que emerge como luta comum da Vila é sim a defesa da casa, e do direito de ter casa naquele território19. À medida que fomos conversando mais, o valor do cuidado foi se tornando mais do que evidente. A forma como Maria da Penha preparou a comida para ser compartilhada na atividade na Igreja, nos recebeu em sua casa, cuidou de minha filha me mostrou que aquela era a ética também do cuidado que perpassou os anos tremendamente violentos de controle à vida (a interrupção do fornecimento de água, por exemplo), repressão policial e pressão psicológica. Escrevemos no glossário:

(…) Há aqui uma coextensão entre o cuidado de si, cuidado da família, dos vizinhos, do entorno, da natureza. (…) O cuidado dá tecido à estrutura coletiva, que é por sua vez apagada categoricamente pelo sistema neoliberal de remoções.20

Elas nos contaram também que ainda estavam se recompondo, descansando – afinal quanta produção de medo, quantas vidas e vizinhanças se foram nesse processo. Denise nos contou que chegou a titubear em muitos momentos, ela perdeu a irmã no processo da remoção, provavelmente como consequência dessa violência. Na conversa de cerca de 2 horas ela nos conta que “uma queria passar para a outra que estava forte”.

O cuidado não é naturalizado na Vila Autódromo como coisa ‘de mulher’. A luta por antagonizar aquilo que é socialmente estabelecido como papel das mulheres também está nas lutas sociais. Na Vila Autódromo, conhecemos a Sandra Regina, por exemplo, que faz o ‘serviço pesado’ que socialmente se delega aos homens: consertar canos. No texto de Alana Moraes lemos que “nas ocupações, é preciso também um constante esforço de produção de relações, manutenção de vínculos, fabricação de pertencimentos, escutas. (…) O mundo da reprodução da vida é esse que vemos entre barracas e cozinhas coletivas.”21Ou seja, em parte a perspectiva de gênero pode reforçar a capacidade do cuidar, mas não apenas às mulheres. Acontece de forma radical uma redistribuição do cuidado. Na ocupação, a cozinha coletiva se torna mais um elemento disparador contra a propriedade privada, contra a alienação das vidas. “Nesse outro regime de organização da vida coletiva, o trabalho feminino aparece em toda sua importância. A cozinha é um espaço privilegiado de feitura de lideranças. A política e a vida encontram-se confundidas.” A cozinha coletiviza as emoções, se torna o lugar de encontro em que conversas sobre as experiências de vida vão sendo sensivelmente escutadas e compreendidas em termos de suas comunalidades e suas singularidades.

Por outro lado, me parece que o termo feminismo ainda não está amplamente difundido nestes contextos. Sandra Maria nos responde diante da pergunta se ela diria que a luta da Vila é feminista:

Não me identifico com o termo feminismo. Eu faço parte dessa resistência da mulher. Se eu sou feminista, não sei. Talvez seja. (…) Você não está falando de duas pessoas que tem direitos iguais. Você está falando de pessoas que têm direitos a séculos e de pessoas que não têm direito nenhum. Igualdade não é superioridade. Eu sou uma mulher que luta pela igualdade social. É claro que a gente compreende que para você alcançar uma igualdade, você tem que agir com diferença. No caso das cotas raciais, tem gente que diz ‘privilégio’ – isso não é privilégio, é uma tentativa de reverter um processo de injustiça social. Se você não usar esse tipo de mecanismo, isso não vai reverter. São situações diferentes, para que a mulher possa conquistar esse espaço na sociedade.22


Diagrama Sonho-Desejo Vila Autódromo

Re.composição da capacidade de cuidar

Diante do conflito entre trabalho reprodutivo (a invisibilidade) e o bloqueio da capacidade de cuidar que acontece quando repensamos a ideia de um “cuidado como método”? Brevemente arrisco dizer que o cuidado se torna método se é incorporado na dinâmica da organização das nossas vidas, e das lutas. Como visto na sessão anterior, a evidência do valor da vida é algo que eu arrisco dizer (porque digo desde mim mesma, também) que uma perspectiva feminista vem chamar atenção para.

Ao contrário do que diz Anala Moraes, acredito que sim, que o capitalismo “inventou” de alguma forma a divisão sexual do trabalho, e concordo e aprendo quando ela diz que o que o capitalismo fez foi “instaurar uma hierarquia definitiva entre trabalho pago (produtivo) e trabalho não pago (reprodutivo)” – uma “expropriação dos modos coletivos de reprodução da vida”. Nas ocupações, contudo, como ela detalha, os “trabalhos” não são pagos e funcionam a partir de outras dinâmicas que tem a ver com implicações, responsabilidades e prestígios. Isso diz de um potencial de organização do trabalho, do tempo, e da reprodução da vida. Por organização dizemos organização política e micropolítica: não se trata de reproduzir modos, aprendendo sim de outros grupos, ocupações e movimentos, mas se trata de encontrar uma sintonia das relações, dos desejos, das capacidades.

Diante do estado de crise e da instituição do trabalho e da propriedade como modos produtivos que funcionam, na verdade, na dinâmica de uma sociedade embranquecida e heteropatriarcal, restituir capacidades – “agora não tenho mais medo” – torna-se fundamental para sobreviver em meio a tanto antagonismo social. A decomposição da capacidade de cuidar tem a ver, portanto, não só com a constante subsunção desta capacidade, com a exaustão emocional e corporal, e com o bloqueio que o estado impõe. Diante da retomada do afeto e do cuidado, Alana fala da importância da construção de “implicações e pertencimentos”: “Essa outra politicidade, uma política no feminino, revela o problema da própria manutenção da vida, dos vínculos e dos cuidados como eixos centrais da mobilização e ação coletiva.”23

Para recuperar o cuidado das suas linhas de captura e das diversas formas de bloqueio, é necessário ser capaz de inventar formas de organizar para muito além (e antes) da individualidade dos nossos corpos ou da nuclearidade de nossas relações mais imediatas de reprodução. O cuidado em rede, em comum, é um caminho que nos ajuda a tramar por linhas micropolíticas e por fora da alienação e da subjetividade neoliberal da ‘independência’ (que sabemos que na verdade se aplica ao ideal patriarcal de um homem branco emancipado e sem a responsabilidade de cuidar). Mas é necessário não perder de vista que o direito ao cuidado e à vida (os serviços que o estado deve cumprir) e a instituição do cuidado como direito estão absolutamente interligadas, ou seja, ambos corroboram na manutenção do cuidado como potência ligada à produção e reprodução da vida, garantindo uma relação não violenta entre as vidas implicadas.

Removendo o bloqueio fascista, a emergência do desejo de ser cuidada (e cuidado) deve ser escutada, como direito, permitindo a ressintonização e a resubjetivação como parte do processo do cuidado. Relações de cuidado dependem, portanto, de muitas aprendizagens e de invenções que articulam a autonomia para a produção daquele espaço produtivo entre reprodução social e trabalho reprodutivo. Negar estrategicamente, negar para solicitar que novas configurações e recombinações sejam possíveis. Colocar em linhas de experimentação formas de organização do cuidado… Mas poder apontar a negação do estado, sem dúvida, para ser capaz de frear a imposição de poder e controle nos processos vida (e cuidado). Recomposições que dependem de movimentos dinâmicos essenciais para garantir uma negociação das relações de cuidado, nas quais que se possa inventar e reinventar as linhas e passagens das relações sociais, familiares, grupais, institucionais, e – evidentemente – do amar.

 

Bibliografia
HARAWAY, Donna. Manifiesto para cyborgues. Buenos Aires: Letra Sudaka, 2018.
ZECHNER, Manuela. “Subjetividade e coletividade: problemas de relação” Em: Cadernos de Subjetividade, 2010. Núcleo de Estudos da Subjetividade, PUC-SP.
“A politics of network-families? Precarity, crisis and careful experimentations”. Em: Plotegher, Paolo; Zechner, Manuela; and Hansen, Bue. Nanopolitics handbook. The Nanopolitics Group. Wivenhoe / New York / Port Watson: Minor Compositions/Autonomedia, 2010. (183-194)
FEDERICI, Silvia. “Precarious labor: A feminist viewpoint”. Em: Variant (n. 37), Spring/Summer 2010.

 

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Cristina Ribas
Trabalha como artista, pesquisadora e curadora. Nasceu no Brasil em 1980. Concebe projetos entre estética e política na forma de residência artística, pesquisa militante e pedagogia radical. Doutora (PhD) no Departamento de Artes no Goldsmiths College University of London (2017). Em 2011, criou a plataforma on line Desarquivo.org a partir do projeto e arquivo Arquivo de emergência (2005). Mais recentemente, realizou junto a muitos autores o projeto Vocabulário político para processos estéticos. No último ano, tem desenvolvido uma prática em torno de ferramentas do Teatro do Oprimido e experimentos de análise institucional, o Protocolo para Intersectar Vocabulários. Faz parte da rede de pesquisadores Conceptualismos del Sur.

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1 FEDERICI, Silvia. Wages Against Housework (Bristol: Power of Women Collective and the Falling Wall Press, 1975). Versão em português: “Salários contra o trabalho doméstico” acesse [http://desarquivo.org/node/31681]. Para o folheto original em inglês [http://desarquivo.org/node/31611/]

2 Oficina-processo Redes de cuidado e redes de criação no Despina, Rio de Janeiro, entre Abril e Maio de 2018 [http://despina.org/oficina-processo-cartografia-ativa-de-redes-de-cuidado-e-criacao/]. A partir dessa oficina se criou uma linkania de projetos, textos e mais disponível aqui: [https://antonieta.vedetas.org/p/cuidados_despina]. A oficina foi realizada como parte do projeto Arte e Ativismo na América Latina, com recursos da Prince Claus Foundation.

3 Cecilia Cavalieri, artista e escritora, vem desenvolvendo uma série de trabalhos de arte a partir da experiência da maternidade. Ela fez parte de uma residência artística para mães na Holanda em 2017. Escrevo mais sobre seu trabalho na versão longa deste texto (inédita). Para a referência completa do trabalho de Cecília vá ao link [http://cargocollective.com/ceciliacavalieri/trabalhos-works/taking-care-of-a-baby-shouldn-t-be-a-female-task-take-this-doll-with]

4 Anotação feita no meu caderno pessoal durante a oficina-processo Redes de Cuidado e Redes de Criação, Despina, Rio de Janeiro, 2018.

5 Hansen, Bue e Zechner, Manuela. “Social reproduction and Collective Care”. Em: The Occupied Times http://radicalcollectivecare.blogspot.com/2015/08/social-reproduction-and-collective-care.html

6Ainda sobre o aborto e o genocídio das mulheres, vale ver o artigo de Helena Soldberg, que realizou um filme sobre a vida de Jandyra Madalena dos Santos, mulher mãe que tentou um abortou clandestino e morreu tragicamente em [http://agoraequesaoelas.blogfolha.uol.com.br/2017/03/30/meu-corpo-minha-vida-o-filme-seguiremos-cumplices-silenciosos-de-uma-chacina/]

7 Tradução minha do texto Para acabar con el masacre al cuerpo. Para a versão em espanhol ir ao link [http://desarquivo.org/node/31602]

8 Artigo de Débora Diniz, “A cada minuto uma mulher faz um aborto no Brasil”. 05/12/2016. Disponível em [https://www.cartacapital.com.br/sociedade/aborto-a-cada-minuto-uma-mulher-faz-um-aborto-no-brasil]

9 Uma obra de referência de Franco Basaglia é “A instituição negada” (1977), na qual ele analisa a instituição manicomial e constrói a proposição que se consumará em lei do fechamento da instituição manicomial.

10 Em abril de 2018 realizei uma oficina-processo no espaço Despina no Rio de Janeiro trabalhando a partir da improvisação teatral a ideia de Redes de cuidado e redes de criação. O objetivo era “(…) inaugurar um espaço para aprender juntas, pesquisar, ensaiar, descansar e explorar nossas experiências e nossas estratégias, (…) colocar em prática um espaço para a criação e para a pesquisa não meramente discursivo, mas corporal e grupalmente propositivo.” Link para a chamada da oficina [http://despina.org/oficina-processo-cartografia-ativa-de-redes-de-cuidado-e-criacao/]

11 Franco, Marielle. “Mulheres, negras, pobres: sujeitos para uma cidadania ativa”. Em: Tem saída? Ensaios críticos sobre o Brasil. BUENO,W., BURIGO, J.; PINHEIRO-MACHADO, R. e SOLANO, E. (orgs.)Porto Alegre: Editora Zouk, 2017.

12Em outros textos venho escrevendo sobre como o modo de reprodução social corrente carrega consigo a violência do Estado contra as mulheres pobres e negras. Texto meu “Vida pública de uma mulher” [link http://desarquivo.org/node/31617 e no jornal The Brazil Observer [https://issuu.com/brasilobserver/docs/bo_39_br] (2015) e Cartografia destrutiva (no prelo) 2018 .

13 “Fundadora do Mães de Maio Vera Lúcia é encontrada morta em casa” 08/05/2018. Disponível em: [https://www.pragmatismopolitico.com.br/2018/05/fundadora-do-maes-de-maio-vera-lucia-morta.html]

14 “Mais de 500 assassinatos aconteceram apenas naquele mês. As balas disparadas por grupos de extermínio em resposta aos ataques do PCC (Primeiro Comando da Capital) ainda matam. As vidas daqueles que ficaram mudaram completamente. As marcas emocionais – e em alguns casos físicas, na forma de doenças por exemplo – são incontáveis. Cada morte de uma mãe mostra o quão letais eram aqueles tiros, de potência e alcance estendidos para além de 2006.” (Arthur Stabile, 2018) Idem.

15 Federici, 1975 (idem.)

16 RIBAS, Cristina; SARGENTELLI, Lucas et.al. Vocabulários em Movimento / vidas em resistência. Rio de Janeiro, Instituto Goethe, Museu das Remoções e os autores, 2017. Para ver e baixar a publicação clique aqui http://desarquivo.org/node/31646

17 Entre os diversos termos do glossário que criamos, os que mais se relacionam ao cuidado e à perspectiva de gênero são Amor, Árvores, Caminhar/saúde mental, Condições de diálogo, Conversar, Cuidados/rede de cuidados, Descanso/recuperação, Luta/transição, Mulher, Mulher que conserta cano/ economia feminista, Protagonismo das mulheres, Rede de apoio, Reparar e Saúde Mental.

18Alana Moraes, 2017. [http://www.revistadr.com.br/posts/ocupar-fazer-funcionar-e-escapar-pensar-com-as-mulheres-sem-teto]

19 [Nota editora N.E.: Para mais informações sobre Vila Autódromo e sua luta, ver o diálogo nesta edição “Viver em partilha no cuidado (ou a Vila Autódromo e o Museu das Remoções como laboratórios para uma nova democracia)” [http://institutomesa.org/RevistaMesa_5/portfolio/um-dialogo-com-maria-da-penha-macena-luiz-claudio-silva-e-luiza-andrade/]

20 Ribas, Sargentelli (et al) 2017, 17.

21 Moraes, 2017 (idem.)

22 Ribas, Sargentelli (et al) 2017, 37.

23 A exploração da ‘capacidade’ de cuidar também pode gerar uma exaustão. Considerar a perspectiva de gênero – tal como o call center, as vozes das mulheres que regulam o transporte público, é necessário, como analisa Cristina Morini: “O bio-capitalismo (…) se abre tão intensamente ao uso de categorias típicas dos vínculos de amor e das relações, não entre capital e trabalho, mas entre seres humanos: fidelidade, infidelidade, ética, prazer, diversão, relação, desejo.” MORINI, Cristina. Por amor o a la fuerza: feminización del trabajo y biopolítica del cuerpo. Madrid: Traficantes de Sueños, 2014. p. 72-73 (tradução minha)