Ação cultural “El pueblo tiene arte con Allende”, Campanha Presidencial de Salvador Allende, 1969. Fotografia de Luis Poirot. Coleção Arquivo Fundación Salvador Allende

Uma história sem precedentes: El Museo de la Solidaridad Salvador Allende1

Claudia Zaldivar

O Museo de la Solidaridad Salvador Allende (MSSA), desde a sua história de gestação e sua filosofia, é em si um gesto sem precedentes, tanto do ponto de vista cultural quanto político, e é isso, precisamente, o que o torna atípico em relação a outros tipos de museus, já que se mobilizou com base em determinadas opções e ideias políticas, porém não de um modo partidário.

Seu processo esteve atravessado pela história da governabilidade do Chile e pelas correntes políticas e ideológicas que marcaram o mundo nos últimos quarenta anos. O museu é portador do relato de um país inserido em um contexto internacional e, sobretudo, é um espaço de arte política no mais amplo sentido.

Formação do Museo de la Solidaridad

A ideia de criar o Museo de la Solidaridad é gestada no transcurso do que se denominou Operación Verdad (Santiago, março de 1971), a poucos meses da posse do Gobierno de la Unidad Popular. O presidente Salvador Allende convidou diferentes personalidades internacionais – intelectuais, jornalistas e artistas – para observar as transformações que o país vivia na “via chilena ao socialismo”. Compareceram, entre outros, o crítico de arte espanhol José María Moreno Galván e o senador italiano Carlo Levi, que propuseram a iniciativa de promover nos meios artísticos europeus doações de obras de arte que permitissem ao governo do presidente Allende criar um museu para o povo do Chile e, deste modo, coordenar uma mobilização solidária dos artistas do mundo para manifestar seu apoio a esse processo político.

Mario Pedrosa, destacado crítico de arte brasileiro e organizador de duas bienais de São Paulo (1953 e 1961), é nomeado presidente do Comitê Executivo dessa iniciativa, tendo sido o grande gestor e fundador do Museo de la Solidaridad. Pedrosa, que estava exilado no Chile pela ditadura de seu país, era o melhor homem para dirigir esse projeto, um renomado especialista em artes visuais que tinha diversos contatos com personalidades de destaque no meio artístico internacional. Como secretário-executivo é nomeado Danilo Trelles, cineasta uruguaio e consultor do Departamento de Belas Artes da UNESCO, que também residia no Chile.

No final de 1971 se constitui o Comitê Internacional de Solidariedade Artística com o Chile (CISAC), integrado por destacados artistas, críticos de arte e diretores de museus de diferentes capitais da Europa e América: Louis Aragon, poeta francês e diretor de Lettres Françaises; Carlo Levi, senador, pintor e escritor italiano; Jean Leymarie, diretor do Museu de Arte Moderna de Paris; Giulio Carlo Argan, ex-presidente da Associação Internacional de Críticos de Arte; Edward de Wilde, diretor do Museu de Arte Moderna de Amsterdam; Dore Ashton, crítica de arte norte-americana; sir Roland Penrose, crítico de arte inglês; Harald Szeemann, diretor artístico da Documenta V; Rafael Alberti, poeta espanhol; José María Moreno Galván, crítico de arte espanhol; Aldo Pellegrini, escritor e crítico de arte argentino; Juliusz Starzynski, professor e crítico de arte polonês; Mariano Rodríguez, pintor e subdiretor da Casa de las Américas, em Cuba; Mario Pedrosa, vice-presidente da Associação Internacional de Críticos de Arte; e Danilo Trelles. Dessa forma, doze países estão representados neste comitê: Argentina, Brasil, Cuba, Espanha, Estados Unidos, França, Holanda, Inglaterra, Itália, Polônia, Suíça e Uruguai.

Pedrosa se refere à formação do CISAC indicando que “a primeira resolução nossa foi que o comitê estivesse composto somente por personalidades estrangeiras. As doações serviriam para organizar um museu novo em um Chile novo. Assim se destacava a espontaneidade da ideia solidária. Danilo Trelles e eu, por não sermos cidadãos chilenos e estarmos radicados no Chile, passamos a formar imediatamente o núcleo do comitê. Imediatamente fizemos várias ligações internacionais a personalidades relevantes do mundo artístico para que integrassem o comitê. Conseguimos a adesão entusiasta daqueles que hoje o constituem”.2

Os objetivos do CISAC eram promover a ideia em seus respectivos países e fazer contato com os artistas do mundo para que apoiassem a experiência política que o Chile estava vivendo e colaborassem mediante a doação de suas obras para a formação de um museu no Chile.

Paralelamente, o presidente Allende nomeia Miguel Rojas Mix, diretor do Instituto de Arte Latinoamericano (IAL), e José Balmes, diretor da Escuela de Bellas Artes – instituições da Universidad de Chile –, como coordenadores chilenos do Movimento de Solidariedade Artística com o Chile. O IAL era o centro onde funcionava o comitê executivo e operou como ente administrativo do museu até que este se constituísse legalmente. Por sua vez, o Departamento Cultural da Presidência da Secretaria Geral de Governo, por meio de Miria Contreras, coordenou o traslado das obras ao Chile, em conjunto com o Ministério de Relações Exteriores.

Os integrantes do CISAC trabalharam arduamente em seus respectivos países e fizeram um chamado aos artistas mais representativos para se comprometerem com este trabalho solidário em prol do Chile, que era visto como um caso único na história do mundo contemporâneo. A ideia foi ganhando corpo, se difundindo com grande rapidez no meio artístico, e uma grande quantidade de pessoas foi aderindo ao projeto. Pedrosa contatou a maioria das personalidades inseridas no movimento plástico mundial, conseguindo o comprometimento de importantes artistas.

As fichas de doação de artistas latinoamericanos em Francia al MIRSA. Archivo del MSSA.  As fichas de doação de artistas latinoamericanos na França ao MIRSA. Arquivo do MSSA.
As fichas de doação de artistas latinoamericanos na França ao MIRSA. Arquivo do MSSA.

Em um lapso de tempo muito curto, o projeto foi organizado e implementado. “A resposta ao chamado foi fabulosa – observou Pedrosa (…). Diariamente chegam cartas e telegramas oferecendo mais pinturas e esculturas. Em alguns países foi necessário fazer uma seleção prévia das obras para enviar as melhores ao Chile.”3

No início de 1972, foram recebidas as primeiras remessas procedentes da França, Espanha e México.4 Entre elas, a obra de Joan Miró, que fez especialmente para o Governo do Chile uma pintura a óleo onde está representado o galo da vitória.

MIRO
Joan Miró, Sin título, 1972, óleo s/tela, 130 x 195 cm. Fotografia, gentileza MSSA. © Successió Miró/ AUTVIS, Brasil, 2015.

As obras eram geralmente enviadas ao Chile por meio das embaixadas chilenas, via mala diplomática, e recebidas pelo Ministério de Relações Exteriores, mas em outras ocasiões ingressavam pela alfândega, ou os artistas as enviavam pessoalmente por meio de conhecidos que viajavam ao Chile ou diretamente ao IAL.

Na maioria das vezes as obras não contavam com seus respectivos certificados de doação, o que foi um problema para a legalização do museu nos anos 70 e posteriormente nos anos 90, com o retorno à democracia. Os inventários levantados no Chile eram apenas listas básicas, o que até hoje tem dificultado a documentação das obras.

A inauguração do Museo de la Solidaridad (17 de maio de 1972) é realizada no Museo de Arte Contemporáneo (MAC) da Quinta Normal, paralelamente ao Encuentro de Artistas Plásticos del Cono Sur, organizado pelo IAL. O evento foi liderado pelo presidente Allende, que em seu discurso observa: “Os artistas do mundo souberam interpretar este sentido profundo do estilo chileno de luta pela libertação nacional e, em um gesto único na trajetória cultural, decidiram, espontaneamente, oferecer como presente esta magnífica coleção de obras-primas para o deleite de cidadãos de um país distante que, de outro modo, dificilmente teriam acesso a essas obras. Como não sentir, juntamente com uma viva emoção e uma profunda gratidão, que assumimos um solene compromisso, a obrigação de corresponder a essa solidariedade?”.5

La Nación, 18 de maio de 1972. Arquivo do MSSA.
La Nación, 18 de maio de 1972. Arquivo do MSSA.

Nos meses posteriores continuam chegando novas remessas da França, Polônia, Cuba, Argentina, Uruguai, Estados Unidos, Equador, Espanha, México, Itália e Brasil.

A projeção do Museo de la Solidaridad se nutre da grande adesão ideológica dos artistas do mundo ao processo social vivido no Chile. É por isso que devia romper com toda ideia tradicional de museu, o que evidencia a concepção visionária que se teve: pertencer ao Estado, mas ser autônomo; e devido a seu objetivo e filosofia únicos, não podia passar a ampliar o acervo artístico de outra instituição. Além disso, o museu devia manter-se como um todo inseparável, em um lugar estável de exposição. Também se propôs que não devia ser apenas artístico, já que estava sustentado em um ideal político-ideológico; portanto, deviam ser buscados novos modelos culturais que respondessem às mudanças históricas que se queria impulsionar. Devia ser um museu vivo, dinâmico, a serviço do povo do Chile, com fins culturais e educativos, de total participação e acesso à comunidade. Como as doações eram para o povo do Chile, devia se constituir uma fundação dirigida por seus representantes.

O Museo de la Solidaridad havia sido projetado como o museu de arte moderna mais importante da América Latina, representativo de uma época histórica, que curatorialmente devia estar dividido em duas partes, uma de arte moderna e outra de arte latino-americana. Futuramente continuaria se ampliando com novas doações, esta seria sua forma permanente de aquisição.

Porém, para isso era fundamental a constituição jurídica do museu e a dotação de uma sede própria, tal como expressa Pedrosa em uma carta enviada ao presidente Allende, em setembro de 1972: “Já se passaram cinco meses da bela festa da primeira exposição na Quinta Normal, frequentada por mais de cem mil pessoas, e não se avançou um passo na realização do museu, mas os compromissos assumidos com os artistas no mundo continuam não cumpridos e aumentam (…). Eu me sinto sufocado pelos compromissos que temos assumido, e não sei como continuar assumindo-os indefinidamente. Se até aqui o fiz com impávida coragem, foi por confiar exclusivamente em sua palavra”.6

No início de 1973, o governo se compromete a dar uma solução legal para o museu, mas não se chega a constituir a fundação nem a incorporar a obra como patrimônio nacional. Lautaro Labbé, então diretor do MAC, comenta: “A contingência era tão grande que ninguém se preocupou em legalizá-lo (…). Mario Pedrosa (…) pensava em constituir esta fundação com caráter jurídico e, como veio o Golpe, tudo se acabou”.7 O fato é que faltou previsão, pensou-se que o tempo de formação do museu seria mais longo.

Em abril de 1973, realizou-se a segunda inauguração do Museo de la Solidaridad. Labbé explica: “Quando veio o ataque forte do fascismo contra a Unidad Popular, nós decidimos que era necessário revitalizar esta ajuda internacional e optamos por reinaugurar o Museo de la Solidaridad (…). Foi inaugurado com uma seleção de obras já exibidas na primeira inauguração e outras que haviam chegado depois. A inauguração foi feita paralelamente no MAC e na UNCTAD, isto foi no início de setembro de 1973, estava suspenso quando sobreveio o Golpe”.8

No período do Golpe Militar a maioria das obras se encontrava no depósito do Edifício Gabriela Mistral, com exceção das que estavam sendo exibidas, das que estavam nas alfândegas do terminal aéreo de Pudahuel e do porto de Valparaíso ou nas embaixadas chilenas no exterior. Com o 11 de setembro de 1973 são fechados o edifício Gabriela Mistral (antigo UNCTAD) e o MAC; ambos passam a ser recintos militares.

Desde então, perde-se qualquer pista pública do Museo de la Solidaridad. Fizeram desaparecer os documentos do IAL, os quais continham a informação sobre as obras que haviam sido oferecidas e que deviam ser retiradas da alfândega.

O museu na clandestinidade

O Museo de la Solidaridad, ao estar marcado pela explícita relação que tinha com o contexto sociopolítico no qual se gestou, foi visto pelo regime militar como uma ameaça, uma forte carga política de oposição, que guarda a memória do passado derrotado. Mas, ao mesmo tempo, havia a necessidade de se resguardar esse patrimônio, que é de grande valor material e simbólico. Trata-se de obras de alguns dos artistas mais notáveis internacionalmente, que constituem, sem dúvida, a coleção mais importante do Chile.

O Golpe Militar acaba com o Museo de la Solidaridad e o esconde da opinião pública por dezessete anos. A poucos dias do golpe, a coleção do museu fica sob a tutela da Faculdade de Belas Artes da Universidad de Chile.

No final de 1973, o pessoal do Museo Nacional de Bellas Artes (MNBA) retira da alfândega de Pudahuel quatro remessas de obras do Museo de la Solidaridad e as passa a seus inventários. Ernesto Muñoz, então responsável pelas relações públicas do MNBA, relata a situação: “Eu fui ao Instituto de Arte Latinoamericano e verifiquei todo o museu. Neste catálogo havia uma parte que dizia: “por chegar” (…). Fui à alfândega e comecei a perguntar, um senhor de sobrenome Moraga me atendeu, começaram a procurar e a encontrar as coisas. Eu retirei quatro remessas da alfândega, (…) consegui uns timbres e umas assinaturas bem oficiais, e os retiramos porque do contrário teriam se perdido”.9

Também não se sabe do destino das coleções que ficaram nas embaixadas chilenas, com exceção da doação inglesa, na qual se encontravam obras de Kenneth Armitage, Eduardo Paulozzi e Henry Moore e que foi devolvida a seus autores.

O fato é que houve uma desagregação da coleção do Museo de la Solidaridad que até o dia de hoje é desconhecida. Os diferentes inventários que existem são contraditórios, portanto permanece a incerteza a respeito das obras que desapareceram ou foram destruídas.

Uma vez ocorrido o Golpe, alguns dos integrantes do CISAC tentaram recuperar as obras, e Pedrosa, asilado no México, também fez gestões para que estas fossem trasladadas ao Museo de Arte Moderno de México, até que o Museo de la Solidaridad encontrasse uma solução definitiva: “É fundamental (…) conseguir a recuperação de todas as obras doadas por artistas do mundo inteiro. Estas obras (…) ficaram no Chile em três lugares: no Edifício Gabriela Mistral (antigo UNCTAD), onde estavam expostas umas quarenta obras e outras trezentas se encontravam no depósito. Os representantes da Junta Militar decidiram guardá-las no depósito do Museo de Bellas Artes do Parque Forestal. Outras trezentas obras estavam também expostas no Museo de Arte Contemporáneo na Quinta Normal (…), um terceiro grupo está na Alfândega Marítima do Porto de Valparaíso. Alguns indivíduos próximos da Junta Militar e colocados em cargos de direção artística estão manobrando com toda a malevolência para ficarem com essas obras, não tanto por razões de interesse cultural, mas sim para neutralizar o propósito de solidariedade dos artistas de todo o mundo com o povo chileno. É preciso evitar isto a todo custo, pois tenho certeza de que todos os artistas que apoiavam a democracia no Chile repudiarão a ingerência dos militares fascistas neste assunto. Pelo anterior me dirijo a você, para dizer-lhe que me ajude na gestão para a recuperação das obras, com o objetivo de realizar o projeto do Museo de la Solidaridad com o povo chileno, desta vez fora do Chile. Em virtude de que as obras entraram em território chileno na qualidade de importação temporária, a doação não ficou devidamente formalizada, e os fins para os quais foram reunidas já não existem”.10

A coleção do museu, ao não ter sua situação legal estabelecida, estava em terra de ninguém, portanto ficou exposta a infinitas irregularidades, como traslados, perdas, etc. Mas, por outro lado, isso permitiu um resguardo e a paralisação de qualquer possibilidade de mudança de tutela e de intervenção. Deu-se uma espécie de imunidade paradoxal.

Já em 1974, os assessores culturais da Junta de Governo começaram a ter interesse explícito pelas obras. Em uma carta dirigida ao diretor do MAC, Nena Ossa, então secretária de Relações Culturais da Secretaria Geral de Governo, reivindica: “Nos foi prometido que logo receberíamos a relação nominal dos quadros que vários países doaram ao Estado chileno durante a passada administração de Allende. Por ser este um patrimônio do Estado de alto valor, agora insistimos para que você providencie em breve o envio da lista (…). Nosso Departamento não pode continuar ignorando os antecedentes que lhe solicitamos, já que devemos informar sobre estes à Excelentíssima Junta, que está preocupada pela atividade atual e futura dos museus chilenos (…)”.11

Embora durante o regime militar tenha se decidido ocultar a coleção do Museo de la Solidaridad, houve uma série de aparições públicas de suas obras em diferentes exposições, em que não se reconhecia sua origem, mas constavam como patrimônio de outras instituições. Este é o caso da exposição Donaciones año 1974-1975, realizada em 1976 no MNBA, com as obras que haviam sido retiradas por esta instituição da alfândega em 1974. Em 1982 é reinaugurado o MAC da Universidad de Chile com uma exposição de sua coleção, onde se incluem obras do Museo de la Solidaridad como parte de seu patrimônio. Em 1985, no Instituto Cultural de Las Condes, é realizada a Exposición internacional de plástica contemporânea, na qual as obras apareciam como patrimônio da Universidad de Chile.

É a partir desta última exposição que a imprensa começa a denunciar a situação em que estava imersa essa coleção. Entrevistam Fernando Cuadra, então decano da Faculdade de Artes, a respeito da origem das obras, ao que ele responde: “Eu descobri a existência dessas obras. Noventa por cento fazem parte do patrimônio do Museo de Arte Contemporáneo e não haviam sido exibidas nunca”. Insistimos: “Aquisições ou doações?”. Resposta do decano: “Aquisições”. Nova insistência: “O quadro de Joan Miró também é aquisição?”. Resposta: “Acho que também”.12

O que parece incrível é que a maioria dessas obras tenha sobrevivido à ditadura, tanto por sua situação precária de conservação no depósito do MAC, como também porque não desapareceram.

Os Museus da Resistência

O Golpe Militar não rompeu totalmente com o projeto de formação do Museo de la Solidaridad. As personalidades que compunham o Comitê Organizador do Museo de la Solidaridad no Chile se exilaram. Este mesmo grupo se constituiu no exterior e se organizou para continuar com a ideia de formação do museu, mas dessa vez como uma forma de resistência. O museu passou a chamar-se Museo Internacional de la Resistencia Salvador Allende.

A ideia da continuidade do museu nasceu na França, no final de 1975, onde se formou o Secretariado Internacional do Museu, presidido por Mario Pedrosa e composto por José Balmes, Pedro Miras, Miguel Rojas Mix e Miria Contreras, sua secretária executiva, que trabalhou como coordenadora estando na Casa de las Américas, em Cuba. Rojas Mix informa: “Nós continuamos trabalhando pelo museu em circunstâncias de grande ambiguidade, de responsabilidades; fazíamos isto porque nós o criamos. De forma alternativa, Pedro Miras, José Balmes e eu fizemos parte do Secretariado Internacional do Museu; antes éramos os coordenadores nacionais do museu, depois repetimos o mesmo esquema fora, ninguém nos designou porque éramos reconhecidos pelos artistas do exterior e por isso eles confiavam em nós”.13

Foram criados comitês em diferentes países – Colômbia, Cuba, Estados Unidos, Espanha, França, Itália, México, Panamá, Suécia e Venezuela –, os quais foram constituídos por intelectuais e políticos locais, assim como por artistas doadores e exilados chilenos. Desta forma, começaram a mobilizar-se para fazer contato com o meio artístico e conseguir doações dos artistas em apoio aos direitos humanos e em repúdio ao regime ditatorial. A proposta era manter ativa a ideia de solidariedade e despertar a atenção para a situação que se vivia no Chile. Pedro Miras explica: “Sua finalidade era fazer exposições para confirmar e promover essa solidariedade, e com o fim de que este museu chegasse ao Chile uma vez restaurada sua democracia (…). Este projeto se desenvolveu em diversos países onde, apoiados por um comitê nacional de personalidades e graças à solidariedade dos artistas, se conseguiu obter um conjunto considerável de obras de arte que foram expostas em vários locais nos diferentes países de origem, o que dava lugar a diversos atos políticos em solidariedade ao Chile”.14

O retorno à democracia no Chile

Os comitês do Museo Internacional Salvador Allende nos diferentes países assumiram o compromisso com os artistas doadores de trazer as coleções ao Chile uma vez que a democracia fosse restaurada.

Sob o governo do presidente Patricio Aylwin, a recém-constituída Fundación Salvador Allende inicia o traslado ao Chile de aproximadamente 1.300 obras. Assim relata Carmen Waugh, primeira diretora do Museo de la Solidaridad Salvador Allende (MSSA), entre 1991 e 2005: “Quando em 1991 começaram a chegar a Santiago as obras doadas solidariamente por tantos artistas de tantos países do mundo, a emoção de todas as pessoas envolvidas com o Museo de la Solidaridad Salvador Allende foi tão grande quanto seria receber um ser querido que retornava ao Chile, pois víamos quadros e esculturas que haviam nos acompanhado e estimulado a acreditar firmemente que a democracia chegaria, e que era possível voltar e viver em nosso país”.15

Nesse mesmo ano se realiza a exposição Museo de la Solidaridad Salvador Allende no MNBA, que é inaugurada pelo presidente Aylwin e na qual pela primeira vez se exibem as obras de ambas as etapas como uma mesma coleção, o que sem dúvida foi impactante para o meio nacional como um ícone do retorno à democracia.

Como parte desses anos de ordenamento institucional e reunião das coleções, as mais de 650 obras do período Solidaridad foram transferidas ao patrimônio do Estado. Em 2005, a Fundación Salvador Allende doou ao Estado a coleção Resistencia e foi criada a Fundación Arte y Solidaridad (FAS), que passou a tutelar ambas as coleções e ficou responsável por administrar, difundir, pesquisar e resguardar o patrimônio do museu, que desde 1990 continuou crescendo até reunir atualmente um conjunto aproximado de mais de 2.600 obras.

Passaram-se 34 anos até que o Museo de la Solidaridad cumprisse com sua ideia original e o compromisso que havia assumido. Atualmente é um dos museus de arte moderna mais importantes da América Latina, com uma das coleções mais representativas de uma época histórica.

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1Esta é uma versão atualizada de um texto redigido para o catálogo da exposição Compromiso y transformación, Centro Cultural de España, Santiago, julho de 2011.

2Virginia Vidal, “Museo de la Solidaridad no tiene precedentes”, El Siglo, 31 de março de 1972, pág. 10.

3“Mañana se inaugura el Museo de la Solidaridad”, Puro Chile, 16 de maio de 1972, pág. 9.

4A doação francesa contava com obras de Carlos Cruz Diez, Roberto Matta e Victor Vasarely, entre outros; a da Espanha, com obras de Manolo Millares, Grupo Crónica, José Guinovart, Eduardo Chillida, Jorge Oteiza, entre outros; e a do México, com obras de José Luis Cuevas, David Alfaro Siqueiros, entre outros.

5Catálogo de la Primera Inauguración del Museo de la Solidaridad”, Ed. Quimantú, abril de 1972, págs. 1, 2.

6Carta de Mario Pedrosa ao presidente Salvador Allende, setembro de 1972, pág. 1. Arquivo MSSA.

7Entrevista a Lautaro Labbé, diretor do Museo de Arte Contemporáneo (1972-73), Santiago, 13 de outubro de 1990, Fita nº 11. Arquivo MSSA.

8Entrevista a Lautaro Labbé. Citação.

9Entrevista a Ernesto Muñoz, Santiago, 22 de outubro de 1990. Fita nº 14. Arquivo MSSA.

10Carta de Mario Pedrosa a diferentes integrantes do CISAC: Dore Ashton, Ronald Penrose, Giulio Carlo Argan, Harald Szeemann e E. De Wilde, 25 de outubro de 1973. Arquivo MSSA.

11Carta de Nena Ossa enviada a Eduardo Ossandón, Santiago, 13 de setembro de 1974. Arquivo Museo de Arte Contemporáneo.

12Saúl Ernesto, “El Museo extraviado”, Rev. Pluma y Pincel, nº 16, julho de 1985, pág. 20.

13Entrevista a Miguel Rojas Mix, Santiago, 13 de setembro de 1990, Fita nº 6. Arquivo MSSA.

14Relatório realizado por Pedro Miras sobre o Museo Internacional Salvador Allende, 1990, Arquivo MSSA.

15Catálogo da exposição “Museo de la Solidaridad”, Ilustre Municipalidad de Viña del Mar, 1994.